Quinta-feira, Maio 31

A montanha

A montanha tem mil metros de altura. Decidi comê-la pouco a pouco. É uma montanha como todas as montanhas: vegetação, pedras, terra, animais e até seres humanos que sobem e descem pelas suas encostas.
Todas as manhãs atiro-me de boca sobre ela e começo a mastigar o que aparecer primeiro. Fico nisto durante várias horas. Regresso a casa com o corpo moído e as mandíbulas desfeitas. Após um curto descanso sento-me à entrada a observá-la na azulada distância.
Se dissesse estas coisas ao meu vizinho decerto riria às gargalhadas ou tomar-me-ia por louco. Mas eu, que sei o que tenho entre mãos, vejo muito bem que a montanha perde redondez e altura. Então falarão de transtornos geológicos.
E essa é a minha tragédia: ninguém quererá admitir que fui eu o devorador da montanha de mil metros de altura.

Virgilio Piñera, El que vino a salvarme.
A Princesa das Ostras, de Ernst Lubitsch. Amanhã, às 22h00, no Passos Manuel.

Quarta-feira, Maio 30

As mulheres que pensam são perigosas*

O final de Suspicion é muito decepcionante. É certo que podemos substituir os últimos planos, mais lamechas que felizes, pelas intenções iniciais de Hitchcock: o leite está envenenado, Lina escreve uma carta à mãe dizendo que morre às mãos do marido, Johnny põe a carta no correio. A situação torna-se mais cínica, ou até mesmo divertida — no sentido inglês de macabre wit —, mas ainda não está de acordo com os meus desejos. Ao longo do tempo tenho criado outro argumento com pouco interesse pelos pequenos crimes ou culpa de Johnny Aysgarth; tudo gira em torno de Lina e dos seus pensamentos sinuosos —sim, Suspicion é a história de uma mulher apanhada numa armadilha lógica, numa conexão de ideias sórdida e acusatória e Hitchcock, raposa sabida, filma a sua escalada de pensamentos como se fosse um adultério. Há vários planos que ajudam a teoria: as primeiras imagens do filme, completamente escuras (Johnny e Lina estão dentro de um comboio que atravessa um túnel), logo a seguir, Lina lendo um livro de psicologia (ah, cá estão os verdadeiros vícios pensantes); o primeiro beijo confundido com assassínio; as sombras em forma de teia que os rodeiam depois de casados; ou então, quando Lina junta as letras no jogo de palavras e assusta-se com a precipitação dos seus raciocínios materializados em murder. Tudo isso alimenta uma argumentação tremendamente preversa: se Aysgarth mente, aposta nos cavalos em vez de procurar um emprego estável, desvia dinheiro, se ele não presta para nada, se é capaz de cometer essas vigarices com ligeireza, se se diverte com venenos e histórias policiais e, acima de tudo, se "um crime é um crime" e "um crime leva a outro" — se assim for e surgir uma oportunidade nesta espiral, poderá Aysgarth matar?

E se Lina pensar "sim", isso prova a culpa de Aysgarth ou a falta de virtude de Lina?


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*variação roubada ao senhor Teste.

Terça-feira, Maio 29

Perguntas insensatas de um rapaz da cidade (6)

Dois besouros: as sobrancelhas de uma rapariga do campo?

A picada de um mosquito na coxa roliça de uma égua: o atrevido beliscão de um jovem apaixonado?

Um salpico de sol quente pode furar as asas de uma borboleta?

Um ramo de faia caído sobre a erva: a flauta perdida do deus dos bosques?
Shakespeare: encontro de uma rosa e de um machado...

Emil Cioran

Segunda-feira, Maio 28

O presente manual não constitue um tratado de Zootechnia para profissionaes, mas simplesmente um ligeiro Vade-Mecum muito resumido para os agricultores, que, por falta de tempo para longos estudos e investigações e ausencia de conhecimentos de veterinaria — queiram ou necessitem dedicar-se na pecuaria nacional à Ovicultura e Capricultura portugueza.

Carneiros, cabras e cães de guarda.
Querido Franz, se fosse possível escolher entre nós e o mundo, na vida e não nas palavras... totalmente, até ao fundo. Enfim, se fosse possível separarmo-nos do mundo por um momento para decidir a perspectiva justa, ah... não conseguiríamos sequer mexer um pêlo, tolhidos pelo medo.

Domingo, Maio 27


Creio que foi num dos primeiros planos; Santa sai do enquadramento, fica a tábua de passar aberta no meio da sala e o ferro a deitar vapor, do tecto pendem umas plantas. Sim, foi aí que começou.

aforismos naturais #8

O mundo está cheio de Marias Antonietas. — Ai de nós!

Sábado, Maio 26

contar carneiros II


Considerar o amor um elemento compósito. Delimitar a parte mais renhida.

Sexta-feira, Maio 25

Open up, it's Uncle Bill!

Quinta-feira, Maio 24

Perguntas insensatas de um rapaz da cidade (5)

Quatro minhocas paradas sobre uma pedra: as aspas de uma palavra secreta que só os melros conseguem decifrar?

Uma formiga trepando pelo tronco polido de uma árvore: a ascensão da formiga aos céus?

O coração negro da ameixa: de luto por uma flor perdida?

Um mosquito ziguezagueando, veloz, entre os pinheiros: um festival aéreo nos bosques?

O caminho da floresta sarapintado de sol: o telhado esburacado de uma catedral?
(...) What is above all needed is to let the meaning choose the word, and not the other way about. In prose, the worst thing you can do with words is to surrender them. When you think of a concrete object, you think wordlessly, and then, if you want to describe the thing you have been visualizing, you probably hunt about till you find the exact words that seem to fit it. When you think of something abstract you are more inclined to use words from the start, and unless you make a conscious effort to prevent it, the existing dialect will come rushing in and do the job for you, at the expense of blurring or even changing your meaning. Probably it is better to put off using words as long as possible and get one's meanings as clear as one can through pictures or sensations. Afterwards one can choose — not simply accept — the phrases that will best cover the meaning, and then switch round and decide what impression one's words are likely to make on another person. This last effort of the mind cuts out all stale or mixed images, all prefabricated phrases, needless repetitions, and humbug and vagueness generally. But one can often be in doubt about the effect of a word or a phrase, and one needs rules that one can rely on when instinct fails. I think the following rules will cover most cases:

i. Never use a metaphor, simile or other figure of speech which you are used to seeing in print.

ii. Never use a long word where a short one will do.

iii. If it is possible to cut a word out, always cut it out.

iv. Never use the passive where you can use the active.

v. Never use a foreign phrase, a scientific word or a jargon word if you can think of an everyday English equivalent.

vi. Break any of these rules sooner than say anything outright barbarous. (...)


Politics And The English Language, by George Orwell

Quarta-feira, Maio 23

(...) Outra, com a roupa da cozinheira, à caça de soldado pela rua. Ela está de preto, a quarentena do nojo. Repare na saia curta, distrai-se a repuxá-la no joelho. Ah, o coxa fosforescente de brancura. Ai, o sapato que machuca o pé. E, sapato, ser esmagado pela dona do pezinho e morrer gemendo. Como um gato!
Veja, parou um carro. Ela vai descer. Colocar-me em posição. Ai, querida, não faça isso: eu vi tudo. Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama - acho que ficaria inibido. No fundo, herói de bons sentimentos. Aquele tipo do bar, aconteceu com ele. Esse aí um dos tais? Puxa, que olhar feroz. Alguns preferem é o rapaz, seria capaz de? Deus me livre, beijar outro homem, ainda mais de bigode e catinga de cigarro? Na pontinha da língua a mulher filtra o mel que embebeda o colibri e enraivece o vampiro.
Cedo a casadinha vai às compras. Ah, pintada de ouro, vestida de pluma, pena e arminho - rasgando com os dentes, deixá-la com os cabelos do corpo. Ó bracinho nu e rechonchudo - se não quer por que mostra em vez de esconder? (...)

Dalton Trevisan, O vampiro de Curitiba.

Terça-feira, Maio 22

aforismos naturais #7

Um carácter ensimesmado assente numa natureza optimista, quer dizer: um pessimista deve ser extremamente saudável. E vice-versa.

Domingo, Maio 20

Perguntas insensatas de um rapaz da cidade (4)

As cenouras são as raízes suculentas de árvores anãs?

Esta lua pálida e agónica suspensa no fulgurante céu azul da manhã: a cabeça redonda de um mocho embalsamado?

Espinhos: as borbulhas nervosas das rosas trepadeiras?

As ervas daninhas: daninhas para quem?

Uma multidão de pequenos gafanhotos saltitando pelo vale: os extravagantes perdigotos das montanhas?

Um tentilhão levanta voo: um cão do outro lado da encosta a sonhar com asas?

contar carneiros

E se alma tivesse órgãos? Tão intocáveis e invisíveis como ela própria. E se as palavras fossem um dos órgãos da alma? E o amor, por exemplo, apenas uma inflamação das palavras?

Sábado, Maio 19



Ler o jornal é um exercício de rancor

Qual é a regra matemática que nos demonstra que "o salário mínimo deve manter níveis adequados às disponibilidades das empresas" enquanto os salários máximos podem manter-se obscenos?

Quinta-feira, Maio 17

Na idade em que, por inexperiência, ganhamos gosto pela filosofia, decidi fazer uma tese como toda a gente. Que tema escolher? Queria um simultaneamente banal e insólito. Quando pensei que o tinha encontrado, apressei-me a comunicá-lo ao meu mestre.
— Que acha de uma Teoria Geral das Lágrimas? Sinto-me capaz para a trabalhar.
— É possível, disse ele, mas terá que se esforçar muito para encontrar uma bibliografia.
— Isso pouco me importa. A História inteira apoiar-me-à com a sua autoridade, respondi-lhe num tom de insolência e triunfo.
Mas como, impaciente, ele me olhava com desdém, no mesmo instante resolvi matar o discípulo que havia em mim.

Emil Cioran, Silogismos da Amargura

Perguntas insensatas de um rapaz da cidade (3)

Nuvem: uma árvore que aprendeu a levitar?

Cogumelos de todos os tamanhos e feitios: a secreta biblioteca dos bosques?

Um salgueiro sem folhas: um pavão depenado?

A queda lenta das primeiras folhas. O Verão a cair no sono?
Não sei e não me importa.

Quarta-feira, Maio 16

aforismos naturais #6

Os miúdos da Soares dos Reis também dizem "menos, menos". Não sei de onde vem a frase, mas se não fosse apenas uma expressão, se fosse um modo de vida, oh...

Terça-feira, Maio 15

Perguntas insensatas de um rapaz da cidade (2)

Uma vaca a ruminar erva está a sonhar com biscoitos?

Um homem enterra os pés durante vários dias no meio do campo. Em que árvore se irá transformar: num carvalho ou numa figueira?

Na imaginação das aranhas, as teias também servem para apanhar homens?

As maçãs são os pensamentos doces e redondos da árvore do conhecimento?

As maçãs com bicho são os pensamentos negros da árvore do conhecimento?

Um cavalo corre pelo campo. Os malmequeres voltam-se para olhar?
E agora digam-me lá se toda a literatura, incluindo este desabafo, não passa de uma disputa filha da puta posta em palavras para convencer, sossegar, converter, arregimentar alguém (o leitor, a mulher do leitor, o patrão do leitor, a igreja do leitor, o ideólogo do leitor e do autor), servindo-se de alguém que é apenas uma personagem, muitíssimas vezes colectiva, inerte, humilhada, secundária e idiota, sobretudo se não fala. Elevar o idiota a herói, só Dostoiévski, mas não pensem que tenho o russo em mente ao escrever isto.

 Filipe Guerra.

Segunda-feira, Maio 14

Como funcionou a produção cinematográfica francesa [durante a ocupação nazi] sob coordenação e influência de Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler?
Alan Riding: A produção cinematográfica foi incrível: 220 filmes foram lançados durante o governo de Vichy. Na época, Goebbels enviou para a França o produtor alemão Alfred Greven, que era membro do partido nazista, e criou a produtora Continental Films. (...) A grande maioria das produções cinematográficas foi feita para entreter o público. E a ideia do Goebbels era exatamente essa, distrair as pessoas e desviar possíveis tensões políticas e pensamentos contrários à ocupação e à vida miserável que muitos levavam. Das 220 produções, nenhuma foi um grande destaque no âmbito político. Um filme importante da época foi “Les visiteurs du soir”, (“Os visitantes da noite”, 1942), de Marcel Carné. O filme se passa na Idade Média e conta a história de amor de um casal que é transformado em estátua. Em uma das cenas, conforme a câmera se aproxima da estátua, dá para ouvir os corações ainda batendo. Isso foi interpretado como um símbolo da França resistente. Ou seja, mesmo com o país tomado pelos nazistas, ainda existia vida dentro dele. Carné morreu em 1996, mas conversamos algumas vezes, e ele me disse que não havia simbolismo nenhum nessa cena, era apenas o final dramático que ele havia pensado para o filme.

 Entrevista a Alan Riding, no Prosa & Verso.

Domingo, Maio 13

Perguntas insensatas de um rapaz da cidade (1)

Os pirilampos queimam se chocarmos com eles?

Aquela flor muito amarela é uma Calêndula, Calendula arvensis, ou uma borboleta em fogo?

Um lento rebanho de mil carneiros a passar: uma montanha insone a tentar adormecer?

Esta azinheira isolada na planície é o controlador aéreo dos morcegos?
Colecciono traduções de Charles Simic.

Sexta-feira, Maio 11

Flores


As três dimensões não me impressionam, nem sequer o cão que fala (embora preferisse que não o fizesse, gosto mais de bichos calados). Se arranjar financiamento, o próximo filme de Godard é sobre um casal que não fala a mesma língua — ora, isso é precisamente pintar apenas um ramo de flores (como Delacoix velho). Bravo, monsieur Godard!

avoir essayé de faire des morceaux de nature...en réunissant dans le même cadre et d' une manière peu probable la plus grande variété de fleurs...

sequência mínima

Duas laranjas, um pão, um café, um cigarro, e basta. Aprendo a passar com tão pouco que as medidas de austeridade e as campanhas eufóricas não me beliscam. Pratico a altivez conforme me dá na gana.

Quinta-feira, Maio 10

A origem dos velhos

Um menino de cinco anos explicava numa destas tardes a um de quatro que entre muitos deles se mantém a mais rigorosa pureza sexual e nem sequer se tocam entre si porque sabem ou pensam saber que se por acaso se descuidam e se deixam levar pela paixão própria da idade e copulam entre si, o fruto inevitável dessa união contra-natura é infalivelmente um velhinho ou uma velhinha; que nessa forma se diz terem nascido e nascerem todos os dias os velhos que vemos nas ruas e nos parques; e que talvez esta crença se deva a que as crianças nunca tenham visto jovens os seus avós e a que ninguém lhes tenha explicado como estes nascem ou de onde vêm; mas que na verdade esta não será necessariamente a sua origem.

Augusto Monterroso, "A Ovelha Negra e Outras Fábulas". Tradução de Ana Bela Almeida.

Próximo sábado, 12 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio, Porto.
Fotografia de Paulo Serra.

A valorização da mercadoria

(...) Depois, e antes de me lançar na prostituição, resolvi estudar... sim, não me olhe espantado... lia de tudo... tinha chegado à conclusão lendo romances, de que o homem admitia extraordinárias faculdades de amor na mulher culta... não sei me explico bem... ou seja, a cultura era um disfarce que valorizava a mercadoria...

Os sete loucos, de Robert Arlt, tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues, cavalo de Ferro

Oh, baby you're so primitive

Normalmente associa-se os primitivos a uma certa pureza. Se enveredarmos pelo caminho da arte, a conversa torna-se maçadora e sem vim à vista, mas tomemos um atalho que nos convém mais: como antes dos primeiros primitivos, passe o pleonasmo, não pode haver primitivos nem coisa nenhuma — isto em termos matemáticos logo, existenciais —, será que podemos concluir que no princípio de tudo não havia pureza no mundo? Que a pureza, afinal, é uma coisa que se ganha com o tempo, como o pó?

Quarta-feira, Maio 9

Monólogo do Mal

Um dia o Mal encontrou-se face a face com o Bem e esteve a ponto de o engolir para acabar de uma vez por todas com aquela disputa ridícula; mas ao vê-lo tão pequenino o Mal pensou:
"Isto só pode ser uma emboscada; pois se eu agora engolir o Bem, que se encontra tão fraco, as pessoas vão pensar que fiz mal, e eu vou encolher-me tanto de vergonha que o Bem não desperdiçará a oportunidade e engolir-me-á a mim, com a diferença de que nessa altura toda a gente pensará que ele fez bem, pois é difícil arrancá-la aos seus moldes mentais consistentes de que o que o Mal faz é mau e o que o Bem faz é bom."
E assim o Bem salvou-se mais uma vez.

Augusto Monterroso, "A Ovelha Negra e Outras Fábulas". Tradução de Ana Bela Almeida.

Próximo sábado, 12 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio, Porto.
- Qual é a sensação de ser considerado, geralmente, como um humorista?
- Agradável, não por ser humorista, mas pelo facto de ser classificado. Gosto muito da ordem.

Augusto Monterroso em entrevista a José Miguel Oviedo. Incluída em Viaje al centro de la fábula.

Dizem que o tempo vai aquecer

Um jornalista destacado em Atenas fala das impossibilidades sucessivas de governar a Grécia, não presto muita atenção. Os gregos, isso é claro para mim, votaram, loucamente, sem medo dos mercados tão sensíveis e castigadores, no fim do jogo "ora governo eu, ora governas tu" instituído, democrático e sem futuro. Como são eles que vão à frente e ditam as regras, calculo que se adivinham tempos difíceis para os políticos profissionais europeus — o desemprego? Continuo a descascar a minha laranja, depois pouso a faca e divirto-me a pensar que o sentido da história é o que está entre a Grécia, a faca e a laranja (pequeno delírio cinematográfico).

Terça-feira, Maio 8

- Acha que as suas fábulas podem ser lidas com proveito, ou melhor dizendo, sem perigo, pelas crianças? 
- Sim, são escritas especialmente para elas, mas com a condição de as lerem apenas quando atingirem a idade adulta, coisa que nos nossos dias se consegue muito rapidamente.

Augusto Monterroso em entrevista a Margarita García Flores. Incluída em Viaje al centro de la fábula.

Próximo sábado, 12 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio, Porto.
A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê?

Respondem os poetas.
- Porque é que, neste momento, escolheu o género fábula?
- Pelo prazer de experimentar e porque se trata de um género extremamente fácil: só é preciso encontrar o tema, escrever a fábula e depois passá-la a limpo; ao contrário do que acontece com os contos comuns e correntes, que dão muito trabalho, embora em cada época acabem por cair numa série de convenções e fórmulas.  
- Essas convenções não são as mesmas em todas as épocas?
- Creio que não. Por exemplo, num conto moderno a ninguém ocorreria escrever coisas elevadas, porque se considera de mau gosto, e se calhar até é; pelo contrário, se o autor atribui ideias elevadas a um animal, digamos a uma pulga, os leitores aceitam-no facilmente, porque acreditam que se trata de uma brincadeira e sorriem, e o assunto elevado não lhes causa nenhuma resistência, ou nem sequer o notam. Não quero com isto dizer que nas minhas fábulas existam assuntos elevados; o que posso dizer é que se eles existem, estão ditos de uma forma tão subterrânea que de elevados não lhes resta nada.

Augusto Monterroso em entrevista a Margarita García Flores. Incluída em Viaje al centro de la fábula.

A Fé e as montanhas

No princípio a Fé movia montanhas só quando era absolutamente necessário, pelo que a paisagem permaneceu igual a si própria durante milénios.
Mas quando a Fé começou a propagar-se e as pessoas começaram a achar divertida a ideia de mover montanhas, estas não faziam mais nada a não ser mudar de lugar, e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que tinham sido deixadas na noite anterior; coisa que obviamente criava mais dificuldades do que as que resolvia.
Aquela boa gente preferiu então abandonar a Fé e agora as montanhas permanecem geralmente no mesmo sítio.
Quando na estrada se dá uma derrocada sob a qual morrem vários viajantes, é porque alguém, de muito longe ou perto, teve um ligeiríssimo vislumbre de Fé.

Augusto Monterroso, "A Ovelha Negra e Outras Fábulas". Tradução de Ana Bela Almeida.

Próximo sábado, 12 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio, Porto.

Segunda-feira, Maio 7

- Mas tu és irónico, certo?
(Resposta censurada.)
- Refiro-me ao facto de teres escrito muitos textos satíricos.
- De vez em quando a ironia é um bom elemento retórico da sátira. Mas, a não ser como ironia, como pode alguém pensar: “sou irónico”? A ironia é boa para quando alguém discute com a mulher, embora geralmente é ela quem a usa. Em qualquer texto, satírico ou não, pode entrar a ironia, mas como recurso literário, não como característica pessoal do autor. Imaginas o ridículo que teria sido se Cervantes no seu auto-retrato tivesse dito: Este que aqui vês, de rosto aquilino, de espírito irónico, etc.?

Augusto Monterroso em entrevista a Jorge Ruffinelli. Incluída em Viaje al centro de la fábula.

Domingo, Maio 6

Próximo sábado, 12 de Maio



Leitura de contos de "A Ovelha Negra", de Augusto Monterroso, próximo sábado, 12 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281), Porto.
Sonho, por vezes, com um amor longínquo e vaporoso como a esquizofrenia de um perfume...

Sempre pensei que Diógenes sofrera, na sua juventude, alguma decepção amorosa: ninguém se aventura na via do escárnio sem a ajuda de uma doença venérea ou de uma sopeira intratável

A carne é incompatível com a caridade: o orgasmo transformaria um santo num lobo.

Depois das metáforas, a farmácia. – É assim que se desmoronam os grandes sentimentos.

Começar poeta e acabar ginecologista! De todas as condições, a menos invejável é a do amante.

A Arte de amar? É saber juntar a um temperamento de vampiro a discrição de uma anémona.

Aquele que se mata por uma galdéria passa por uma experiência mais completa e mais profunda do que o herói que sobressalta o mundo.

Sentir o cérebro: fenómeno tão nefasto ao pensamento como à virilidade.

Um monge e um carniceiro brigam dentro de cada desejo.

Continuamos a amar... apesar de tudo; e este "apesar de tudo" cobre um infinito.

Emil Cioran, Silogismos da Amargura (Vitalidade do Amor)
Não sei explicar porquê mas uma conversa, uma discussão, ou até mesmo um monólogo, funcionam melhor dentro de um carro em movimento sem destino definido. Não é uma lei geral, é apenas uma regra particular fortemente influenciada pelos filmes.
Depois é fácil imaginar A voz humana como um travelling nocturno. Em contramão.

Sábado, Maio 5

Lutamos e adormecemos juntas mas nunca nos passou pela cabeça discutir a nossa relação.
Os pensamentos — se existem — ficam na zona enevoada e indistinta antes do verbo.
Ainda bem que a gata não fala.

Sexta-feira, Maio 4

A filosofia na cantina

Nesses anos alterna as caminhadas parisienses com longas viagens de bicicleta através da França, recusa qualquer tipo de trabalho estável, não aceita, com a única exceção de "Rivarol", os prêmios literários que os seus livros ganham (entre eles, em 1988, o prestigioso "Paul-Morand" da Académie Française); às vezes colabora na Nouvelle Revue Française (NRF) e em algumas editoras de Paris. Cioran sempre lembrará desses tempos com nostalgia narrando, por exemplo, quando, depois de 15 anos durante os quais havia comido de graça na Sorbonne, o ingresso no restaurante estudantil da universidade lhe foi barrado por um funcionário que lhe lembrou: "Monsieur, agora tudo isso acabou. Temos um limite de idade que está fixado em 27 anos!"

Cioran, a filosofia em chamas, de Rossano Pecoraro, p. 25

Quinta-feira, Maio 3

Quarta-feira, Maio 2

Hibernam tíbias, suspiram rãs

Na televisão, um tipo do Grupo Jerónimo Martins argumenta que o assunto foi politizado. Como se as estratégias de vendas (o vocabulário, as imagens, e o que eles chamam "a mecânica da promoção") não fossem já, em si próprias, "um caso político". Fazem parte dos negócios internos da nação e as mais perigosas são precisamente as mais boçais, as que se vestem de "bons sentimentos" (mãozinhas de lã a esconder mãos de ferro, como D. B. Norton no filme de Capra), as que nos querem ajudar — mas não é de ajuda que nós precisamos. Ah, quando um dia nos livrarmos de toda esta gente solícita.

Mão de ferro

D. B. Norton: These are daring times...We are coming to a new order of things. There's too much talk been going on in this country. Too many concessions have been made. What the American people need is an iron hand. (Meet John Doe, Frank Capra, 1941)
Isto era deprimente para um homem que tem na cabeça um sonho de república. Lembrei-me de uma época (...) em que os «pobres brancos» do nosso Sul eram, sempre, desprezados e frequentemente injuriados pelos senhores proprietários de escravos das suas regiões; e que a sua repelente situação era devida simplesmente à existência da escravatura no seu meio. Abraçaram, todavia, com toda a pusilanimidade, a causa do senhor em quantos movimentos políticos tinham por objecto perpetuar e manter a escravidão, chegando finalmente a transportar ao ombro as suas espingardas e a dar as suas vidas para evitar a destruição daquela mesma instituição que as degradava. Uma única recompensa tinha aquele fragmento lamentável da nossa história! a de que, em segredo, o «pobre branco» detestava, realmente, o senhor de escravos e sentia, no fundo, vergonha de si próprio. Estes sentimentos não vinham à superfície, mas o facto de existirem e de que tivessem podido surgir em circunstâncias favoráveis já era alguma coisa; bastante, na realidade, pois demonstrava que, no fim de contas, um homem é sempre um homem, mesmo que não o exteriorize.

Mark Twain, Um americano na corte do rei Artur. Tradução de Nascimento Rodrigues.

Terça-feira, Maio 1


I want to say, in all seriousness, that a great deal of harm is being done in the modern world by belief in the virtuousness of work, and that the road to happiness and prosperity lies in the organised diminution of work. Bertrand Russell, In Praise of Idleness