O final de
Suspicion é muito decepcionante. É certo que podemos substituir os últimos planos, mais lamechas que felizes, pelas intenções iniciais de Hitchcock: o leite está envenenado, Lina escreve uma carta à mãe dizendo que morre às mãos do marido, Johnny põe a carta no correio. A situação torna-se mais cínica, ou até mesmo divertida — no sentido inglês de
macabre wit —, mas ainda não está de acordo com os meus desejos. Ao longo do tempo tenho criado outro argumento com pouco interesse pelos pequenos crimes ou culpa de Johnny Aysgarth; tudo gira em torno de Lina e dos seus pensamentos sinuosos —sim,
Suspicion é a história de uma mulher apanhada numa armadilha lógica, numa conexão de ideias sórdida e acusatória e Hitchcock, raposa sabida, filma a sua escalada de pensamentos como se fosse um adultério. Há vários planos que ajudam a teoria: as primeiras imagens do filme, completamente escuras (Johnny e Lina estão dentro de um comboio que atravessa um túnel), logo a seguir, Lina lendo um livro de psicologia (ah, cá estão os
verdadeiros vícios pensantes); o primeiro beijo confundido com assassínio; as sombras em forma de teia que os rodeiam depois de casados; ou então, quando Lina junta as letras no jogo de palavras e assusta-se com a precipitação dos seus raciocínios materializados em
murder. Tudo isso alimenta uma argumentação tremendamente preversa: se Aysgarth mente, aposta nos cavalos em vez de procurar um emprego estável, desvia dinheiro, se ele não presta para nada, se é capaz de cometer essas vigarices com ligeireza, se se diverte com venenos e histórias policiais e, acima de tudo, se "um crime é um crime" e "um crime leva a outro" — se assim for e surgir uma oportunidade nesta espiral, poderá Aysgarth matar?
E se Lina pensar "sim", isso prova a culpa de Aysgarth ou a falta de virtude de Lina?
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*variação roubada ao senhor Teste.