Quarta-feira, Fevereiro 29

Relações laborais

Quando se fala de despedimentos fala-se sempre do patrão que despede o trabalhador, mas também deviamos falar do movimento inverso. Em vinte e cinco anos de trabalho (os meus primeiros empregos eram muito mixirucas, aqui e acolá, a fazer isto e aquilo, a recibos verdes), passei por nove empresas e não sei quantos patrões — despedi-os a todos, quase sempre por incompetência ou ganância.

Ficção

José Rodrigues dos Santos é o primeiro escritor português a ser distinguido com a marca “personalidade de confiança” na categoria escritor das Selecções do Reader’s Digest, este ano atribuída pela primeira vez.

O autor da Gradiva, que também arrecada a distinção de “personalidade de confiança” na categoria de jornalista, foi o escritor mais votado pelos 12 mil assinantes da revista Selecções do Reader’s Digest seguido de nomes como José Saramago e Miguel Sousa Tavares. As respostas ao questionário foram apuradas através de questionário escrito, de forma espontânea e sem qualquer sugestão.

José Rodrigues dos Santos já vendeu mais de um milhão de exemplares e está publicado em dezassete línguas. O Último Segredo, o seu nono e último romance publicado em Outubro de 2012, encontra-se já na sua 12ª edição com 143.000 exemplares vendidos.


No sítio da Gradiva.

Dalla Nube alla Resistenza


Também é um dos meus filmes preferidos de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. A primeira vez que o vi, gostei mais do travelling do carro de bois; aos poucos vou percebendo que gosto de tudo por igual.

Terça-feira, Fevereiro 28

Não me quer contar mais nenhuma história?
- De boa vontade, mas com uma condição.
Aproximei-me da janela, mais uma vez.
- Qual? - admirou-se Ewald.
- É preciso que assim que puder a conte a todos os miúdos da vizinhança - pedi-lhe.
- Oh, os miúdos nunca vêm para perto de mim.
Consolei-o.
- Virão. Sem dúvida que nada tinha para lhes contar nestes últimos tempos: talvez fosse falta de assunto ou assuntos a mais. Mas quando alguém sabe uma história, acha que poderá mantê-la em segredo durante muito tempo? Nunca!


Rainer Maria Rilke, Como a traição chegou à Rússia. Tradução Maria Gabriela Cardote.

LES YEUX NE VEULENT PAS EN TOUT TEMPS SE FERMER OU PEUT ÊTRE QU’UN JOUR ROME SE PERMETTRA DE CHOISIR À SON TOUR/ OTHON

OTHON é também “um filme sobre a ausência do povo. O filme é como uma série de espelhos, o espelho de Tácito reflectindo a História que ele conhecia directa ou indirectamente, depois o espelho de Corneille reflectindo Tácito, o meu espelho reflectindo Corneille, o espelho da realidade contemporânea (...) reflectindo Corneille e eu reflectindo tudo istoJean-Marie Straub

Segunda-feira, Fevereiro 27

Não “interpretar”, recitar




Nenhuma pretensa “adaptação cinematográfica” do romance [Billard um Halbzehn (1959), de Heinrich Böll].
E não se exigiu que os atores de alguma forma “interpretassem” [spielen] o seu texto, mas que, ao contrário, o recitassem [rezitieren] como uma partitura bem definida.

“Eu sempre gostei”, disse Jean-Luc Godard, “do som dos primeiros filmes falados, eles tinham uma grande verdade, pois era a primeira vez que se ouvia as pessoas falarem.”

Brecht: “Escavar a verdade sob os escombros do óbvio, conjugar incisivamente o particular com o universal, reter o particular no grande processo: esta é a arte dos realistas”.

O meu filme seria exatamente como é, mesmo se eu tivesse à minha disposição sete milhões [de marcos alemães].


Manuscrito de Jean-Marie. Publicação original em alemão: “Nicht spielen — rezitieren”. Film (Hannover), maio de 1965. Traduzido em italiano por Adriano Aprà (“Non ‘interpretare’, recitare”), em J.-M. Straub e D. Huillet, Testi cinematografi ci, a cura di Adriano Aprà. Roma: Editori Riuniti, 1992, p. 55.
A presente versão partiu dessa tradução italiana. Traduzido por José Eduardo Marco Pessoa e Mateus Araújo Silva e publicado no Catálogo "Straub-Huillet", CCBB, 2012.

Karl Valentin inventa o telemóvel em 1922

MÃE (...) Onde é que teria ficado o meu homem? Meu bom homem - mandei hoje este tipo chato ao mercado buscar uma arvorezinha de Natal para os meninos e ele agora não há maneira de voltar. Acho que não vai encontrar o caminho para casa, o velho tonto. Não lhe acontece nada. Já é tarde, o sol desaparece daqui a pouco. Um-dois-três ah, ah. Tenho que ver por onde é que ele anda a estas horas. (Pega no telefone.) Sebastião, onde é que estás agora? Bom, estás mesmo no mercado? Já tens a árvore de Natal? Então 'tá bem. Vem já para casa! Toma cuidado, quando atravessares a rua, não vá alguma senhora atropelar-te com o carrinho de bebé. (Tocam à porta.) Sim, entre! Então, adeus Sebastião, vem-te já embora! Fico à tua espera - Deus te abençoe, Sebastião! (Batem à porta.) Sim, entre! (Pousa o auscultador.)

Karl Valentin, A prancha da árvore de Natal. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.

Sábado, Fevereiro 25

Ando a ler as cartas de Etty Hillesum. As últimas, escritas no campo transitório de Westerbork, são terríveis. Não é possível imaginar a vida nas barracas enlameadas de Westerbork: a fome, a falta de higiene, as mortes, os suícidios, a corrupção, a burocracia, a ameaça da partida sabe-se lá para onde.

Mas também não é possível compreender a jovem Etty. Ela agarra-se a um pensamento intolerável, vai muito longe num sentido místico, e vê a vida como "algo glorioso e magnífico"; isso não está errado mas não chega. É preciso fazer o caminho contrário, creio, e aceitar que esta vida "gloriosa" é feita de bondade e amor mas também de ódio e rancor, que os homens (não os outros, mas todos nós) também estão naturalmente preparados para fazer as coisas mais infames e que as fazem muitas vezes mal têm oportunidade e aí é preciso uma resistência que não seja dócil. É preciso fazer frente à lei do rei Creonte com a impertinência (também aceito que se diga orgulho) de Antígona.

Não basta dar o coração.

Sexta-feira, Fevereiro 24

Achei estranho o cão da casa do lado não ladrar. Quando espreitei pela janela e vi o presidente e a sua comitiva espaventosa no jardim, confesso, até a mim me apeteceu rosnar. Mais tarde, soube que alguém tinha tomado precauções para calar o cão. O cão a ladrar seria a única coisa verdadeira da passeata presidencial; o que as televisões registaram não vale nada.

Quinta-feira, Fevereiro 23

Um pequeno-almoço histórico

Um homem está a levar uma chávena de café ao rosto, inclinando-o na direcção da sua boca. É histórico, pensa o homem. Coça a cabeça: outro momento histórico. Na verdade, devia acalmar-se, está a fazer demasiada história logo de manhã.
Oh, não, agora está a barrar a torrada com manteiga, mais um momento histórico em curso.
O homem pergunta-se por que lhe haveria de lhe caber o ser tão histórico. Provavelmente os outros não têm o que é necessário, pensa. É, afinal, um talento.
O homem pensa que um dos seus atacadores precisa de ser apertado. Enfim, mais um importante evento histórico que se avizinha. E não tem maneira de o evitar. Estará a ocupar demasiada história só para si? Mas tem de viver, não tem? A torrada tem de ser barrada e ele não pode andar por aí com um atacador desapertado, pois não?
É certamente inevitável que, quando se escrever a história do século XX, esta será em grande parte sobre este homem. É para esse lado que a balança pende - ah, eis uma frase que será citada durante os séculos vindouros.
Muito consciente de si? Um pouco: mas como evitá-lo, quando todos os olhos ainda não nascidos do futuro estarão para ele virados?
Oh, oh, o homem sente que se aproxima outro momento histórico... E cá está ele, uma chávena de café, no extremo do seu braço, que se aproxima da sua face. Se ao menos o pudesse filmar, quão importante não o seria no futuro.
Ups, entornou-se no colo do homem. Um daqueles acidentes históricos que terão consequências nos próximos mil anos; imprevisto e na verdade bastante desagradável... Mas, pensa o homem, não é fácil fazer história.

Conto de Russell Edson. Tradução de Jorge Palinhos. Emitido no programa "Conto ao minuto", da Rádio Manobras.

Terça-feira, Fevereiro 21

Não quis ser actor no início. Tenho 60 anos. Sou obrigado a ganhar a vida. Encontro um realizador que me diz "coloca-te à esquerda". "Não, André, sofre. Não, sofre melhor, meu caro, com intensidade." No teatro, ao menos todas as noites podemos inventar. No cinema a maior parte dos cineastas não são propriamente génios. Somos obrigados a trabalhar com medíocres. (...) O cinema fez-me ganhar a vida. Fiz pequenos papéis. Poucos papéis principais. Mas não se ganha mal. E o teatro que faço também nunca me permitiu ganhar muito. O "métier" de actor é estranho. Estamos dependentes do desejo dos outros. O outro problema é que somos obrigados a cuidar de nós, há um grande narcisismo. À medida que envelhecemos temos de nos confrontar com o corpo, com a nossa carne, com os dentes que perdemos, é desagradável. Quando filmamos uma cena de amor uma maquilhadora maquilha-nos o cu. É de doidos. É a grandeza e decadência dos actores. Mas há coisas formidáveis. Christopher Walken é um génio.

André Wilms, actor de "Le Havre", de Aki Kaurismäki (Ípsilon, 17/02/2012.

a rara oportunidade de traduzir Cioran com um diminutivo:

A coisa mais difícil não é atirarmo-nos a uma dessas grandes questões sem solução mas dirigirmos a alguém uma palavrinha delicada que tudo diz e nada diz.

Segunda-feira, Fevereiro 20

Porquê ler os clássicos? Razões práticas e económicas.

Se reconhecermos à crítica algum propósito pedagógico, não seria preferível recomendar aos leitores um romance extraordinário publicado há 50 ou 150 anos, e que poucos terão lido, do que um livro assim-assim de algum ficcionista contemporâneo em voga? Se acabo de ler, digamos, um romance de Thomas Hardy – pode ser Judas, o Obscuro – e a experiência foi altamente gratificante, que motivo racional tenho para correr à livraria mais próxima a tentar a sorte com o último livro de Lobo Antunes, em vez de jogar pelo seguro e correr os alfarrabistas à procura de outros livros de Hardy? E já nem refiro a questão económica. Com o que se paga por um romance acabado de sair, compra-se bem meia dúzia de obras-primas em segunda mão.

Luís Miguel Queirós.

Gogal

Fotografias com gatos

O Manuel António Pina diz que é um cliché, mas eu acho que é um pleonasmo. Se olharem bem para o seu rosto, vão descobrir que o gato já lá está.

Domingo, Fevereiro 19

Conhece “A Carta a Um Jovem Poeta”? É um diálogo entre Rilke e um jovem poeta que lhe tinha entregue uns poemas. O Rilke simpaticamente disse que tinha gostado de alguns, a que o jovem terá aduzido esperançado: “Acha então que devo continuar a escrever?” Tendo Rilke respondido de pronto: “Ó homem, se pode parar de escrever, aproveite.” Eu acho até que é um dever cívico. Defendo a tese de que a poesia devia pagar imposto. Mesmo cair sob a alçada do Código Penal. Isso para evitar que, entre outras coisas, eu tenha de ler aqueles 400 livros [aponta para um molho de livros de um concurso de que é jurado]. Todos com “alma” a rimar com “calma” e “água” a combinar com “mágoa” e coisas do género. Poupava-se papel, árvores e muitas coisas. Só se publicavam livros daqueles que estavam dispostos a correr riscos. Voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.

Manuel António Pina, em entrevista ao jornal i.

In the pursuit of a proper literary career


In 1905 Robert Walser packed his bags and left behind his native Switzerland for the bustling metropolis of Berlin. The fledgling author, twenty-seven years of age, had just published his first book of fiction, Fritz Kochers Aufsätze (Fritz Kocher’s Essays), and moving to Berlin was the obvious next step for him to take in the pursuit of a proper literary career. (...)


A Letter from Susan Bernofsky, translator of Robert Walser’s Berlin Stories. And four stories from the collection: “Good Morning, Giantess!”; “Berlin and the Artist”; “The Electric Tram”; “Aschinger”.
(all these sweet links come from Wandering with Robert Walser)

recortes sobre a origem das palavras:

Moral deriva do latim mores, "relativo aos costumes". Seria importante referir, ainda, quanto à etimologia da palavra "moral", que esta se originou a partir do intento dos romanos traduzirem a palavra grega êthica.

E assim, a palavra moral não traduz por completo a palavra grega originária. É que êthica possuía, para os gregos, dois sentidos complementares: o primeiro derivava de êthos e significava, numa palavra, a interioridade do ato humano, ou seja, aquilo que gera uma ação genuinamente humana e que brota a partir de dentro do sujeito moral, ou seja, êthos remete-nos para o âmago do agir, para a intenção. Por outro lado, êthica significava também éthos, remetendo-nos para a questão dos hábitos, costumes, usos e regras, o que se materializa na assimilação social dos valores.

A tradução latina do termo êthica para mores "esqueceu" o sentido de êthos (a dimensão pessoal do acto humano), privilegiando o sentido comunitário da atitude valorativa. Dessa tradução incompleta resulta a confusão que muitos, hoje, fazem entre os termos ética e moral. (...)
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Êthos inicialmente designava o lugar onde se guardavam os animais e posteriormente evoluiu para o lugar de onde brotam os actos, ou seja a interioridade dos homens, o seu carácter.

Sábado, Fevereiro 18

um emaranhado de linhas

(...) O Pássaro ficou velho e já ninguém lhe compreendia os quadros. Só eram vistos como uma confusão de curvas. Nem a terra, nem as plantas, nem os animais, nem os homens eram reconhecíveis. Trabalhava desde há muitos anos na sua obra suprema que a todos os olhos mantinha escondida. Devia abarcar todas as suas procuras e, na concepção, ser dessas procuras a imagem. Era o São Tomé incrédulo a temptar a chaga de Cristo. Uccelo terminou aos oitenta anos o seu quadro. Chamou Donatello, e com religiosidade destapou-o à sua frente. Donatello exclamou: «Oh, Paolo, volta cobrir o teu quadro!» O Pássaro interrogou o grande escultor: mas ele não quis dizer-lhe mais nada. E assim ficou Ucello a saber que tinha consumado o milagre. Embora Donatello só lá tivesse visto um emaranhado de linhas.

penúltimo parágrafo da Vida Imaginária de Paolo Uccelo, pintor, escrita por Marcel Schwob,
traduzida por Aníbal Fernandes (outubro de 2010, assírio & alvim)

Sexta-feira, Fevereiro 17

Le Havre (versão ao ar livre com cão)

Quinta-feira, Fevereiro 16

Bofetadas

VALENTIN Ah, cá está o senhor, seu malandro. Há meses que ando à procura do filho da mãe que anda a enviar em segredo cartas de amor à minha mulher. E cá está o senhor. Olhe, tome lá o que merece - e mais uma! Seu bandalho. E mais uma, e outra ainda. Pirata. Aqui tem a paga da sua grosseria, senhor Otto Keihauer.
KARLSTADT Mas o que é que lhe deu para me dar bofetadas assim? Em primeiro lugar, não sei quem é a sua mulher, segundo, não me chamo Otto Keihauer mas sim Alois Freiberger.
VALENTIN O quê? Não é o senhor Otto Keilhauer? Não pode ser. Não é mesmo o senhor Otto Keilhauer? Ai, peço mil desculpas. São tão parecidos. Mil perdões.
KARLSTADT Espere lá, espere lá. Isto não vai com desculpas - era bom, era. O senhor ofendeu-me e esbofeteou-me.
VALENTIN Bom retiro as ofensas. Com o meu arrependimento.
KARLSTADT E as bofetadas?
VALENTIN As bofetadas não posso retirar, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, tecnicamente isso não é possível.
KARLSTADT Era o que eu pensava. Mas eu posso dar-lhas a si, isso é tecnicamente possível.
VALENTIN Sim, mas isso não faz sentido. Eu não sou Otto Keilhauer e ele é que as devia receber.
KARLSTADT Pois, mas eu também não sou Otto Keilhauer e o senhor deu-me as bofetadas.
VALENTIN Mas não vê que eu só lhas dei porque pensava que o senhor era Otto Keilhauer?
KARLSTADT Mas o que é isso de «era», já que não sou?
VALENTIN Mas que culpa é que eu tenho, se se parece tanto com ele?
KARLSTADT Ah, então a culpa é minha?
VALENTIN Minha não é.
KARLSTADT Para a próxima, olhe bem para as pessoas a quem quer dar bofetadas. E assim estas coisas não lhe acontecem nunca mais.
VALENTIN Era o que eu queria fazer. Mas o senhor passou tão depressa, que eu só o vi de fugida.
KARLSTADT Ó que parvo! Não me vou por a andar devagarinho só para o senhor poder ver se eu sou ou não o tal Keilhauer!
VALENTIN Este palavrório não adianta nadinha. Já pedi desculpa e, quanto às bofetadas, temos de chegar a um acordo.
KARLSTADT Acordo? Mas que é isso? Eu vou é apresentar queixa.
VALENTIN Não faça nada disso, que então isto nunca mais acaba. O senhor diz quanto quer por bofetada e eu pago-lhe.
KARLSTADT Bom, quantas bofetadas me deu?
VALENTIN Que eu me lembre, seis.
KARLSTADT Quanto é que me paga por bofetada?
VALENTIN Um marco, vá lá.
KARLSTADT Mas que ordinário, um marco apenas por estas bofetadas esplêndidas, o senhor está a quebrar os preços.
VALENTIN Não me é possível pagar mais.
KARLSTADT Bom, nesse caso, apresento queixa.
VALENTIN Bom, vamos lá, marco e meio por bofetada, seis vezes um dá nove marcos, aqui tem os seus nove marcos.
KARLSTADT Ora muito obrigada. Aqui está um dinheiro ganho bem depressa. E vai ser o senhor Otto Keilhauer quem não vai gostar nada do facto de o senhor me ter confundido com ele.

Karl Valentin, A ida ao teatro e outros textos. Tradução de Jorge Silva Melo.

Le Havre

“In February of 1962 I was sitting in Stanley’s Bar at 12th and B with some friends from the Catholic Worker. We’d just seen Jonas Mekas’s movie Guns of the Trees, and I announced I was going to publish a poetry journal called Fuck You / A Magazine of the Arts. There was a certain tone of skepticism among my rather inebriated friends, but the next day I began typing stencils, and had an issue out within a week. I bought a small mimeograph machine, and installed it in my pad on East 11th, hand-cranking and collating 500 copies, which I gave away free wherever I wandered."

Ed Sanders.

Quarta-feira, Fevereiro 15

O que vê o homem do lixo

À porta de uma sociedade de advogados (casa antiga, pintada de rosa velho, com cedros e carros de luxo no jardim): quatro sacos azuis cheios de papéis e um saco amarelo cheio de latas de superbock.

Terça-feira, Fevereiro 14

E disse mais ou menos:
- Já falámos acerca disso, não foi? A arte é a infância. É ignorar que o mundo existe e criar de novo. Não é destruição o que encontramos diante de nós, mas sim não encontrar nada acabado. Puros impossíveis, puras tendências. E depois, de repente: ser plenitude, ser Sol de Verão! Sem dizer nada, sem querer. Nunca acabar, nunca conhecer o sétimo dia. No começo, Deus era demasiado velho. Tinha parado no sexto dia. E não no milésimo. Mas hoje não. É isso que eu lhe censuro: que ele tenha cessado de se dar. Que ele tenha julgado o seu livro acabado com o homem e depois depor a caneta e esperar! Quantas edições haverá? Ele não era um artista e é isso que é mais triste. Que ele não tivesse sido um artista, sim, chorar-se-ia isso e não se teria coragem para mais nada...

Rainer Maria Rilke, Os últimos. Tradução Maria Gabriela Cardote.

Segunda-feira, Fevereiro 13

Lá porque não sabemos, não quer dizer que não venhamos a saber. Nós só não sabemos por agora. Mas acho que um dia saberemos. Acho que sim.

UM PRECIPÍCIO NO MAR, de Simon Stephens (tradução de Hélia Correia), pelos Artistas Unidos.
Em Coimbra, no TAGV, dia 16 (quinta-feira) às 21h30.
Como essa mudança nos hábitos de leitura [condicionada pela internet] pode influenciar a fruição da literatura?

Com o tempo, a forma como as pessoas leem vai influenciar a forma como escrevem. Acredito que a chegada do livro impresso, criando um grupo muito mais amplo de leitores atentos, encorajou os autores a expandir as fronteiras da literatura, a experimentar novas formas e gêneros, por exemplo. Se a internet e os livros eletrônicos encorajam a leitura distraída, os autores não serão mais capazes de assumir que escrevem para leitores atentos, profundos. Por consequência, acredito que teremos menos experimentação, menos complexidade, menos aventura na escrita. A grande literatura exige não apenas escritores talentosos, mas leitores atentos.

Nicholas Carr, em entrevista ao Prosa & Verso.

Domingo, Fevereiro 12

Francis Bacon: Porque eu não sei como a forma pôde ser construída. Por exemplo, outro dia pintei a cabeça de alguém e aquilo que formava as órbitas dos olhos, do nariz, da boca, era, quando fui analisar, simples formas que nada tinham a ver com olhos, nariz ou boca; mas a tinta, indo de um contorno para outro, fez surgir uma semelhança com a pessoa que eu estava querendo pintar. Eu parei; por um momento pensei que havia conseguido uma coisa muito mais próxima daquilo que queria. Então, no dia seguinte, tentei chegar ainda mais perto do que procurava, tentei ser mais penetrante, mais profundo, e perdi completamente a imagem. Porque esta imagem é como equilibrar-se numa corda colocada entre aquilo que se costuma chamar de pintura figurativa e aquilo que é abstração. Está na fronteira da abstração, mas na verdade nada tem a ver com ela. É uma tentativa para fazer a coisa figurativa atingir o sistema nervoso de uma maneira mais violenta, mais penetrante.

Entrevistas com Francis Bacon, A Brutalidade dos fatos, por David Sylvester, Cosac & Naify, p.12.

Coisas abstractas e coisas concretas

Talvez seja o que mais me agrada nos quadros de Francis Bacon: o jeito como ele parte de uma imagem, destrói-a e insiste nisso, como uma faca numa ferida, tentando forçar o surgimento de uma outra imagem mais longínqua e mais próxima. No fim, cada trabalho apresenta rastos ou restos, de três imagens; cada uma relaciona-se com o objecto em perspectivas e intimidades diferentes. (O método, apercebo-me agora enquanto o descrevo, assemelha-se ao de Godard?)

Mas isso são meros pressupostos teóricos que ainda não consegui decidir se nos ajudam a entender melhor uma obra se, pelo movimento inverso, não passam de projecções dos nossos pensamentos nos objectos alheios — mais distorções, portanto.
Porém, se os esquecer (e, graças à sua ligeireza, a tarefa não é difícil); afasto, então, a primeira, segunda e terceira imagem, a santíssima trindade icónica vai-se de um sopro, esqueço a teoria e o que vejo, o que é palpável aos meus olhos, são duas paisagens distintas e poderosas. Num plano, os corpos em movimento (rastejam como vermes, contorcem-se, copulam, gritam). No outro; as paredes, portas, chão, cortinas, uma lâmpada pendurada por um fio, jaulas transparentes, barras, um interruptor,... — o espaço onde as figuras estão, essa espécie de local do crime.

Não sei o que me incomoda mais: as figuras vibrantes, o cenário despido e asfixiante ou a relação entre ambos?

Sábado, Fevereiro 11

um pássaro pousando num campo

Francis Bacon: Bom, um dos quadros que pintei em 1946, aquele que parece um açougue, surgiu diante de mim por acaso. Eu estava tentando fazer um pássaro pousando num campo. (...)

Entrevistas com Francis Bacon, A Brutalidade dos fatos, por David Sylvester, Cosac & Naify, p.11.

eu e o cinema

Louva-se muito o silêncio (ou a experiência do silêncio possível, se quisermos ser mais exactos) do campo, mas na verdade isso é um lugar comum, nem sempre certo e nem sempre agradável*; já dei por mim a acordar assustada com o silêncio de Santa Cruz. O que eu gosto mesmo são os ruídos em surdina da cidade, de madrugada ou de manhã cedo, quando ainda estou na cama: os carros que passam na avenida de vez em quando, uma porta a fechar, alguém que tosse. Uma narrativa lenta sem história.

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* aliás, nem o campo, como lugar real, é certo.

Sexta-feira, Fevereiro 10

Não há sensação mais diabólica do que sentir os nossos próprios ossos.

Poesia visual

Conhecido pelo visual irreverente e personalidade forte, o poeta gaúcho Fabricio Carpinejar é a nova inspiração para linha eyewear da Volpini.

Baseada no "Estranho e onírico mundo dos insetos", as lentes são maiores e coloridas, com propostas em azul, vermelho, verde e rosa. O escritor postou, em 1ª mão na sua página no Facebook, uma foto com o modelo.

Para mais informações, é possível acessar o site da marca.

Quinta-feira, Fevereiro 9

Evocar os «175 anos das Belas-Artes» pode então parecer um gesto de observância cega relativamente à tradição e, pior, uma recusa daquilo a que alguns, com bastante facilidade, chamam «contemporaneidade». Gostaria apenas de dizer que não há nada de mais erróneo do que pensar assim a tradição. Qualquer transmissão — e, por maioria de razão, a transmissão do gesto artístico — traz necessariamente uma alteração do que é transmitido. De resto, aproveito a ocasião desta breve nota para enunciar aquela que é provavelmente a lei da transmissão (uma lei, necessariamente, amorosa): a possibilidade de transmitir (de dar e receber) supõe um conhecimento da herança, decerto, mas esta só é verdadeiramente legada quando um outro sentido se revela no mesmo. Um outro, todavia, que até certo ponto já se dissimulava no mesmo, esperando no entanto por novas condições para ser enunciado (e a história da arte poderia dar, a este respeito, inúmeros exemplos). A transmissão é, na sua origem, alterante — e tal é a sua lei.

Tomás Maia
Monólogo: acto de falar consigo próprio, o mesmo que "solilóquio" — diz o dicionário.
Pois eu acho que não é nada disso, não se trata de "um", nunca. Quando o vento está de feição, toma a forma de diálogo (o sonho de qualquer dialéctico, oh! uma epifania). Mas a maior parte das vezes não passa de uma discussão a várias vozes, ininteligível e aborrecida.

Thinking of the key

— Mas as letras valem. Isso, qualquer guarda-livros sabe (Godard incluído).

Enigmas contabilísticos

Gostar de alguém pelo que escreve é muito semelhante a gostar por dinheiro. Apesar das palavras não valerem um tostão furado.

Uma história

Segundo [o padre Gabriele Amorth], em Maio de 2009, ele e duas assistentes levaram dois homens, Giovanni e Marco, a uma das audiências semanais de Bento XVI.
Sentaram-nos na zona exclusiva a deficientes da Praça de São Pedro e quando o Papa se aproximou dentro do papamóvel, os dois homens começaram a tremer e um deles disse numa voz que não era a dele: "Eu não sou o Giovanni."
Segundo o padre Armoth, assim que Bento XVI saiu do veículo os dois homens atiraram-se para o chão e começaram a bater com as cabeças na pedra. "Eles uivavam, enquanto tremiam, babavam-se, estavam histéricos."
Depois o Papa abençou-os à distância. "Isso foi recebido como um impacto furioso, de tal maneira que eles foram atirados três metros para trás. Então deixaram de uivaram e começaram a chorar descontroladamente."
O porta-voz do Vaticano garantiu que Bento XVI não sabia da presença dos homens, alegadamente possuídos, entre a multidão e que não realizou qualquer exorcismo. Mas o padre Armoth assegura que a mera presença do Papa basta para "enfurecer satanás."


Aqui.

Quarta-feira, Fevereiro 8

O operário

Sílabas, palavras,
som, signo, imagem,
metáfora, magia!
Operário da linguagem
trabalho noite e dia
e não ganho nada.

Lêdo Ivo

Terça-feira, Fevereiro 7

O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado. Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano: a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o governo apressadamente o impôs como lei, fazendo com que um acordo para unificar a ortografia vigorasse apenas aqui, antes de vigorar em Portugal. O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. Não sei a quem o acordo interessa de fato. A ortografia brasileira não será igual à portuguesa. Nem mesmo, agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem. E duvido que a ortografia seja uma barreira comercial maior do que a sintaxe e o ai-meu-deus da colocação pronominal. Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. Ou não teria sido implementado contra tudo e todos. No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didáticos. Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaiss, por exemplo, adquirir um novo, dada a obsolescência do que possui, não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaiss – Antonio Houaiss, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo. O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didáticos – entre os quais se encontram também outros entusiastas da nova ortografia. E não é de espantar que tenham sido justamente esses – e não os linguistas e filólogos vinculados à universidade – os que elaboram o texto e os termos do acordo. Nem vale a pena referir mais uma vez o custo social de tal negócio: treinamento de docentes, obsolescência súbita de material didático adquirido pelas famílias, adequação de programas de computador, cursos necessários para aprender as abstrusas regras do hífen e outras miuçalhas. De meu ponto de vista, o acordo só interessa a uns poucos e nada à nação brasileira, como um todo. Já Portugal deu uma prova inequívoca de fraqueza ao se submeter ao interesse localista brasileiro, apesar da oposição muito forte de notáveis intelectuais, que, muito mais do que aqui, argumentaram com brilho contra o texto e os objetivos (ou falta de objetivos legítimos) do acordo.

Paulo Franchetti, director da editora da Unicamp.

Segunda-feira, Fevereiro 6

A intersecção do real com a sua metáfora

Ao ver no telejornal as imagens formatadas do que se passa às portas das fábricas e nas ruas, pergunto-me se os cineastas portugueses terão capacidade e interesse em registar o que está a acontecer agora mesmo à nossa volta (como se a câmara de filmar acabasse de ser inventada).

Conceitos mutáveis

Aqui, apenas o invisível é japonês — foi assim que Mishima explicou a sua casa a Michel Random.

Ontem, depois de ver Nuvens dispersas, ocorreu-me que talvez seja possível, às vezes, substituir invisível por tempos mortos.

Vem nos livros

Porn for book lovers.

Material complementar: clicar aqui.
- Veja, eu sou um pobre diabo. Se soubesse como me deveria lamentar; de manhã, faço cópias na redacção e à noite estou ao pé da minha mãe que quase já não vê. É assim que eu passo os meus dias. E, ao domingo, quando me encontro com a minha Frantichka, sabe onde é que nós vamos? Ao cemitério Malvinska. Lá, onde, lado a lado, todas essas cruzes verdes se parecem umas com as outras. Só há crianças naquela parte do cemitério, e em inscrições de ferro branco pode-se ler: "O pequeno Karel" ou "A pequena Marie" e, por baixo, uma oração. E é assim que nós passamos o domingo.
- Estamos sozinhos aqui, não estamos, Milatchkou? - perguntou a minha Frantichka.
- Sim, Frantichka, estamos.
E, no entanto, sei bem que estamos rodeados de mortos. Mas o que é que importa! Há sempre alguma coisa entre nós, seja a Primavera ou esteja a nevar. Sim - repetiu -, eu não passo de um pobre diabo.

Rainer Maria Rilke, Dois contos de Praga. Tradução Maria Gabriela Cardote.

Domingo, Fevereiro 5

O frio (no campo e na cidade)


Perguntaram a uma mulher que vivia no campo se o inverno tinha sido muito frio. "Não muito", respondeu. Depois acrescentou: "Houve apenas três ou quatro dias em que tivemos que ficar na cama para nos mantermos quentes". John Cage, indeterminacy #92

Coisas que acontecem

Nunca vi o filme, mas sei que uma personagem diz: "amar quando já não somos amados".

Sábado, Fevereiro 4

No desejo, o que constitui problema, é que nunca sabemos ao certo aquilo que o outro quer. É esse não saber que faz desejar ainda mais. (...)

do belo texto de Serge Daney sobre "Francisca" ("O que pode um coração?" publicado nos Cahiers du Cinéma 380, dez de 81, traduzido por B. V. Almeida para o catálogo da Cinemateca "Eram os anos 80")
É talvez o movimento mais complexo da gata: baixa-se e caminha, por vezes mais de um metro, em câmara lenta. Eu finjo que não me apercebo do ataque iminente; ela avança concentrada, decompondo em numerosos frames o movimento das patas, como as fotografias de Muybridge.

Sem lenço, porque os gatos dispensam adereços.

Sexta-feira, Fevereiro 3

Mudança de turnos

Podia ser um plano dos irmãos Lumière. Nove menos pouco da manhã, a porta de entrada de um banco na rua Sá da Bandeira; saem três mulheres pela esquerda, é o fim do turno das limpezas. Trazem sacos nas mãos, sapatilhas ou botas de cano alto, roupas garridas não muito quentes mas sobrepostas.
Uns segundos depois, entram, pela direita, três mulheres do departamento administrativo com casacos compridos em tons de castanho e cinzento, carteiras a tiracolo, saltos altos e cabelos arranjados.

Quinta-feira, Fevereiro 2

Fragmentos de Ennio Flaiano

Em França, o catolicismo é um movimento literário.

Com os pés firmemente apoiados nas nuvens.

A liberdade conduz ao tédio e o tédio à ditadura.

As ditaduras alheias não nos incomodam.

Os ratos abandonam o avião que está a cair?

As almas simples vivem com frequência em corpos complicados.

O livro sonha. O livro é o único objecto inanimado capaz de sonhar.

Ennio Flaiano. A partir das versões em castelhano de Eduardo Berti.
Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que figura teria a cahir da janella? Até quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser - e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

Maria José.

Quarta-feira, Fevereiro 1

Outros trilhos:


por um instante, os sapatos de John Cage no canto esquerdo da página da ubuweb;

a última frase do último parágrafo do texto de apresentação de mais um momento d'O Sabor do Cinema (e a estreia de Vittorio de Seta no Porto a 15 de abril).
- Fica a olhar para mim o tempo que quiseres! - continuou Huish. - Não vais conseguir que eu pestaneje, sequer! Não tenho medo do Attwater nem de ti, nem das palavras. Queres matar pessoas, lá isso queres, mas com luvas. Neste caso não vai ser possível. Um crime nada tem de requintado. Não é fácil, não é garantido, e precisa de um homem para o executar. Ora esse homem sou eu.

R. L. Stevenson, No vazio da onda. Tradução de Aníbal Fernandes.