Terça-feira, Janeiro 31
Il mondo è grande ed è bello, ma è molto offeso
Um corpo e uma voz possantes; podia ter posto a mão na anca como a mãe de Silvestro mas a manhã está muito fria para esses ademanes. Virou-se para a empregada da tabacaria com o queixo levantado e disse: "olha filha, nem tempo, nem dinheiro!".
Segunda-feira, Janeiro 30
Sendo, pois, incorpórea a alma, como representá-la?
- Como lhe aprouver: como um abutre encharcado, por exemplo.
Francisco Tario, Equinócio.
- Como lhe aprouver: como um abutre encharcado, por exemplo.
Francisco Tario, Equinócio.
Domingo, Janeiro 29
LXXV
Chegará um dia
em que todos admirarão
a tua obra, com maíúsculas,
A Tua Obra, que hoje desprezam
- ou que ousam até ignorar -,
e se arrependerão
por te terem conhecido tarde demais.
Assim suportas a vida.
Ou suportas assim a morte?
Angel Erro.
Tradução de Luís Filipe Parrado.
em que todos admirarão
a tua obra, com maíúsculas,
A Tua Obra, que hoje desprezam
- ou que ousam até ignorar -,
e se arrependerão
por te terem conhecido tarde demais.
Assim suportas a vida.
Ou suportas assim a morte?
Angel Erro.
Tradução de Luís Filipe Parrado.
Oblomov sou eu
Em 1996, depois de 15 anos morando e estudando fora do Brasil, Charles Cosac decidiu voltar para o país. Desembarcou carregando duas malas e três desejos: reaproximar-se do pai, casar-se com um homem e arrumar um trabalho que justificasse sua existência no mundo.
Continua aqui.
Continua aqui.
O Sentido de Possibilidade
Poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito.
Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. O possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neurasténicos, mas também os desígnios ainda adormecidos de Deus. Uma experiência possível ou uma verdade possível não são iguais a uma experiência real e uma verdade real menos o valor da sua realidade, mas têm, pelo menos do ponto de vista dos seus partidários, algo de muito divino, um fogo, um ímpeto, uma vontade de construir e um utopismo consciente que não teme a realidade, antes vê nela uma missão e uma invenção. Ao fim e ao cabo, a Terra não é assim tão velha, e não se pode dizer que o seu estado alguma vez tenha sido verdadeiramente interessante. Se quisermos então distinguir de uma maneira fácil aqueles que se guiam pelo sentido do real dos que se guiam pelo sentido do possível, basta pensarmos numa determinada soma de dinheiro. Por exemplo: tudo aquilo que mil marcos contêm, efectivamente, de possibilidades, está de facto neles, quer os possuamos quer não; o facto de o senhor Eu ou o senhor Tu os possuírem não lhes acrescenta nada, como nada acrescentaria a uma rosa ou a uma mulher. Mas, dizem os do sentido de realidade, um louco faz com eles um pé-de-meia, enquanto um homem prático os põe a trabalhar para si; até à beleza de uma mulher aquele que a possui acrescenta ou retira alguma coisa. É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até aparecer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.
Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, tradução de João Barrento, Edições Dom Quixote
Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. O possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neurasténicos, mas também os desígnios ainda adormecidos de Deus. Uma experiência possível ou uma verdade possível não são iguais a uma experiência real e uma verdade real menos o valor da sua realidade, mas têm, pelo menos do ponto de vista dos seus partidários, algo de muito divino, um fogo, um ímpeto, uma vontade de construir e um utopismo consciente que não teme a realidade, antes vê nela uma missão e uma invenção. Ao fim e ao cabo, a Terra não é assim tão velha, e não se pode dizer que o seu estado alguma vez tenha sido verdadeiramente interessante. Se quisermos então distinguir de uma maneira fácil aqueles que se guiam pelo sentido do real dos que se guiam pelo sentido do possível, basta pensarmos numa determinada soma de dinheiro. Por exemplo: tudo aquilo que mil marcos contêm, efectivamente, de possibilidades, está de facto neles, quer os possuamos quer não; o facto de o senhor Eu ou o senhor Tu os possuírem não lhes acrescenta nada, como nada acrescentaria a uma rosa ou a uma mulher. Mas, dizem os do sentido de realidade, um louco faz com eles um pé-de-meia, enquanto um homem prático os põe a trabalhar para si; até à beleza de uma mulher aquele que a possui acrescenta ou retira alguma coisa. É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até aparecer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.
Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, tradução de João Barrento, Edições Dom Quixote
Sexta-feira, Janeiro 27
TP. O nicho do «livro infantil» vem-se tornando dominante no mercado generalista, sobretudo no de perfil de «grande superfície» ou «grande rede», como é facilmente constatável numa visita a um hipermercado ou a uma FNAC. Desse ponto de vista, o risco num ramo de edição como o vosso não é consideravelmente atenuado pela dinâmica do mercado actual nessa área?
B. Existe uma dinâmica, mas é uma dinâmica ruidosa levada a cabo pela ditadura das novidades e pelo tal prazo de iogurte das mesmas em que só certas editoras conseguem participar. Nessa corrida não entramos. Nós somos o caracol na berma da estrada que os vê passar. É claro que no meio de quem assiste à corrida, há sempre alguém que repara em caracóis. E felizes da vida por haver quem pegue em nós. Não temos pressa de chegar a lado algum. Para além disso, o espírito das pequenas editoras nunca deve ser procurar o confortável, mas sim ser a pedra na engrenagem. Cabe-nos ir ao encontro do risco, porque não vão ser as grandes editoras que o farão. E se ninguém o fizer, continuaremos privados de obras e autores fundamentais.
Cláudia Lopes e Miguel Gouveia.
B. Existe uma dinâmica, mas é uma dinâmica ruidosa levada a cabo pela ditadura das novidades e pelo tal prazo de iogurte das mesmas em que só certas editoras conseguem participar. Nessa corrida não entramos. Nós somos o caracol na berma da estrada que os vê passar. É claro que no meio de quem assiste à corrida, há sempre alguém que repara em caracóis. E felizes da vida por haver quem pegue em nós. Não temos pressa de chegar a lado algum. Para além disso, o espírito das pequenas editoras nunca deve ser procurar o confortável, mas sim ser a pedra na engrenagem. Cabe-nos ir ao encontro do risco, porque não vão ser as grandes editoras que o farão. E se ninguém o fizer, continuaremos privados de obras e autores fundamentais.
Cláudia Lopes e Miguel Gouveia.
Quinta-feira, Janeiro 26
Meia-volta
No período que se seguiu a Exile [on Main St., álbum de 1972, dos Rolling Stones], a tecnologia usada em estúdio era tanta que nem o engenheiro de som mais inteligente do mundo percebia o que realmente se passava. Seria alguém capaz de me explicar porque é que, se no primeiro álbum dos Stones tínhamos conseguido um grande som de bateria com um microfone apenas, agora, com quinze microfones, a bateria soava a alguém a cagar num telhado de zinco? A verdade é que toda a gente se deixou hipnotizar pela tecnologia; só hoje é que os vês todos a dar lentamente meia-volta.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Quarta-feira, Janeiro 25
A filosofia como ingratidão
O doutor Julio Fausto Fernández foi
secretário-geral
do Partido Comunista
de El Salvador.
Cedo, traiu,
e foi ministro da Justiça
de um ditador
e foi diplomata
e professor da Universidade
e escritor muito famoso.
Para explicar a sua mudança
escreveu um livro intitulado
“Do materialismo marxista ao
realismo cristão”.
Que vai fazer agora o pobre
doutor Julio Fausto Fernández
quando o realismo cristão
a cada dia se converte mais
ao materialismo marxista?
Roque Dalton.
secretário-geral
do Partido Comunista
de El Salvador.
Cedo, traiu,
e foi ministro da Justiça
de um ditador
e foi diplomata
e professor da Universidade
e escritor muito famoso.
Para explicar a sua mudança
escreveu um livro intitulado
“Do materialismo marxista ao
realismo cristão”.
Que vai fazer agora o pobre
doutor Julio Fausto Fernández
quando o realismo cristão
a cada dia se converte mais
ao materialismo marxista?
Roque Dalton.
Terça-feira, Janeiro 24
- Mas que diabo de patacoadas são essas? - interrompeu o caixeiro. - Parecem mesmo as tretas que a gente lê nos folhetos religiosos!
- É uma história - disse Herrick. - Em casa contei-a muitas vezes aos miúdos, mas se vos aborrece fico por aqui...
- Não! Continua! - respondeu o doente agastado. - Mais vale essa do que nada.
R. L. Stevenson, No vazio da onda. Tradução de Aníbal Fernandes.
- É uma história - disse Herrick. - Em casa contei-a muitas vezes aos miúdos, mas se vos aborrece fico por aqui...
- Não! Continua! - respondeu o doente agastado. - Mais vale essa do que nada.
R. L. Stevenson, No vazio da onda. Tradução de Aníbal Fernandes.
Porto, 24 jan (Lusa) - Uma lontra apareceu hoje, cerca das 12h30, numa praia da Foz, no Porto, deslocou-se até uma esplanada próxima e regressou pouco depois ao seu meio natural.
Fonte da Polícia Marítima disse à Lusa que, apesar das tentativas, não foi possível apanhar o animal, "aparentemente saudável", que acabou por conseguir fugir.
Ilda Martins, que testemunhou esta incursão da lontra marinha pelas praias do Porto, contou à Lusa que o mamífero "saiu do mar, deslocou-se até à esplanada da Pizza Hut e sentou-se numa cadeira".
Aqui.
Fonte da Polícia Marítima disse à Lusa que, apesar das tentativas, não foi possível apanhar o animal, "aparentemente saudável", que acabou por conseguir fugir.
Ilda Martins, que testemunhou esta incursão da lontra marinha pelas praias do Porto, contou à Lusa que o mamífero "saiu do mar, deslocou-se até à esplanada da Pizza Hut e sentou-se numa cadeira".
Aqui.
Segunda-feira, Janeiro 23
E o cómico, obscuro, nauseabundo costume de inculcar nos espíritos primitivos a ideia de um Deus com túnica azul e barbas de seis meses.
Espantosa e deplorável imagem de um velho a voar pelos ares como qualquer andorinha!...
Francisco Tario, Equinócio.
Espantosa e deplorável imagem de um velho a voar pelos ares como qualquer andorinha!...
Francisco Tario, Equinócio.
Feroz (sobre Carl Th. Dreyer), por Jean-Marie Straub
O que admiro particularmente nos filmes de Dreyer que pude ver ou rever nestes últimos anos é sua ferocidade em relação ao mundo burguês: à sua justiça (O presidente [1918–9], também uma das mais surpreendentes construções narrativas que eu conheço e um dos filmes mais griffithianos, logo um dos mais bonitos), à sua vaidade (sentimentos e cenários: Mikael, 1924), à sua intolerância (Dias de ira, [1943], impressionante por sua violência e por sua dialética), à sua hipocrisia angelical (“Ela morreu… Ela não está mais aqui. Ela está no céu…”, diz o pai em A palavra [1954–5], e o filho responde: “Sim, mas também amei seu corpo…”) e a seu puritanismo (Gertrud [1964], por isso tão bem acolhido pelos parisienses dos Champs Elysées). (...)
Publicado originalmente em francês, na p. 35 de um longo dossiê dos Cahiers du cinéma (n.207, dezembro de 1968) consagrado a Carl Theodor Dreyer. Traduzido em italiano e anotado por Adriano Aprà em J.-M. Straub e D. Huillet, Testi Cinematografi ci, op. cit., p. 254–256. Traduzido do francês por Mateus Araújo Silva e publicado no Catálogo "Straub-Huillet", CCBB, 2012.
Publicado originalmente em francês, na p. 35 de um longo dossiê dos Cahiers du cinéma (n.207, dezembro de 1968) consagrado a Carl Theodor Dreyer. Traduzido em italiano e anotado por Adriano Aprà em J.-M. Straub e D. Huillet, Testi Cinematografi ci, op. cit., p. 254–256. Traduzido do francês por Mateus Araújo Silva e publicado no Catálogo "Straub-Huillet", CCBB, 2012.
Domingo, Janeiro 22
Sobre a circulação ser restrita, bom, não sei ao certo, mas parece-me que a arte, mais concretamente a literatura, mais especificamente a poesia foram, são e serão sempre matérias de interesse marginal. Por marginal, aqui, quero dizer só pouco central. Se pensarmos que quase metade da população do mundo não tem acesso a água, aí sim, aí falamos de um problema central. Se falarmos de fome, de saúde pública, de desemprego, continuamos em assuntos centrais. Mas por estes, mais laterais, parece-me, houve sempre uns quantos, não muitos, que se interessaram. Há um poema de Wislawa Szymborska que fala disso lindamente. Não é mau, nem bom. Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista. Que esperamos de um escritor ou de um editor sério? Que apareça nu nas páginas centrais de um jornal? A literatura, com tudo o que a rodeia, a escrita, a rasura, a maturação e, no último momento, a edição, não pode ser um jogo de abrir e fechar pernas, de aparecer semi-vestido, revelando carecas, brincos ou tatuagens, só para vender mais uns livros.
Changuito.
Changuito.
Platão, se ainda vivesse
— tomamo-lo como exemplo, porque ele é geralmente considerado, a par de uma dúzia de outros, como o maior dos pensadores —, ficaria com certeza encantado com a redacção de um jornal, onde a cada dia que passa uma nova ideia pode ser criada, trocada, refinada, aonde chegam de todos os cantos do mundo, a uma velocidade que ele nunca imaginou, catadupas de notícias, e uma equipa de demiurgos está pronta para analisar imediatamente o seu conteúdo espiritual e empírico. Imaginaria ver numa redacção aquele topos ouranio, o lugar empíreo das Ideias cuja existência descreveu de forma tão viva que ainda hoje todos os homens bons, quando falam aos filhos ou aos empregados, são idealistas. E é claro que se Platão se pudesse apresentar hoje, de repente, numa redacção para provar que é aquele grande escritor que morreu há mais de dois mil anos, iria com isso provocar grande agitação e assinar os mais lucrativos contratos. E se conseguisse, num prazo de três semanas, escrever um volume de cartas de viagens filosóficas e alguns milhares dos seus conhecidos contos, talvez até adaptar ao cinema uma ou outra das suas obras mais antigas, podemos estar certos de que viveria à grande durante muito tempo. Mas assim que o seu regresso deixasse de ter actualidade e o senhor Platão quisesse ainda concretizar uma das suas conhecidas ideias, que nunca conseguiram afirmar-se plenamente, o chefe de redacção limitar-se-ia a pedir-lhe que escrevesse uma bonita crónica para a página de entretenimento (o mais levezinho e ligeiro possível, estilo pouco pesado, porque é preciso pensar nos leitores), e o editor da secção diria ainda que só conseguiria meter essa colaboração uma vez por mês, porque tinha muitos outros talentos em lista de espera.
Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, tradução de João Barrento, Edições Dom Quixote
Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, tradução de João Barrento, Edições Dom Quixote
Sábado, Janeiro 21
Matéria religiosa
Nos últimos anos, será talvez a velhice, vi-me obrigada a aceitar a existência em mim de um sentimento religioso (sim, o sentimento religioso é o mais inconfessável de todos). Nada disto tem a ver com a igreja, claro; o mais estranho, porém, é que ao procurar situar esse sentimento, e depois de muito esforço, percebi que ele não pairava no espírito como coisa abstracta mas consiste na harmonia silenciosa das substâncias químicas que compõem o meu corpo — na matéria, portanto.
Sexta-feira, Janeiro 20
Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
— But who is that on the other side of you?
Ontem à noite, antes de adormecer, compreendi quem é o terceiro que caminha sempre a teu lado do poema de Eliot. O pronome interrogativo who é uma armadilha.
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
— But who is that on the other side of you?
Ontem à noite, antes de adormecer, compreendi quem é o terceiro que caminha sempre a teu lado do poema de Eliot. O pronome interrogativo who é uma armadilha.
Quinta-feira, Janeiro 19
Amigo

Fumámos juntos, bebemos juntos, comemos juntos, lemos juntos, rimos juntos, escrevemos juntos.
RUI COSTA (1972-2012)
Os filhos da velha
Uma velha deu à luz uma ninhada de ratos. Estavam espalhados pela cama.
De manhã, ao acordar, viu que se tinha enganado e que tinha dado à luz uma ninhada de ratazanas.
Ratazanas, ratos, que diferença faz? Berrava o marido, temos a cama infestada de roedores bebés.
Eu quando dou à luz ratos quero que sejam ratos. Não é descobrir de repente que afinal são ratazanas. Eu até gosto de ratazanas, mas quando dou à luz gosto de saber o que estou a dar à luz...
Então e estes mexilhões? Perguntou o marido.
Isso foi noutra noite, o restaurante estava escuro, mas o empregado tinha prometido ostras.
Russell Edson, O espelho atormentado. Tradução de Guilherme Mendonça.
Próximo sábado, 21 de Janeiro, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto).
De manhã, ao acordar, viu que se tinha enganado e que tinha dado à luz uma ninhada de ratazanas.
Ratazanas, ratos, que diferença faz? Berrava o marido, temos a cama infestada de roedores bebés.
Eu quando dou à luz ratos quero que sejam ratos. Não é descobrir de repente que afinal são ratazanas. Eu até gosto de ratazanas, mas quando dou à luz gosto de saber o que estou a dar à luz...
Então e estes mexilhões? Perguntou o marido.
Isso foi noutra noite, o restaurante estava escuro, mas o empregado tinha prometido ostras.
Russell Edson, O espelho atormentado. Tradução de Guilherme Mendonça.
Próximo sábado, 21 de Janeiro, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto).
Quarta-feira, Janeiro 18
Como se obtém o fragmento de liberdade
Pega-se num escritor. Mostra-se-lhe um livro de Maurice Nadeau, barra-se muito bem barrado com manteiga e vai ao forno a lourar. Tira-se e sai um frango com ferragens, cristaleiras, acção, muita acção, e diversos.
Outra:
Pega-se num elefante. Diz-se-lhe que é parvo e chama-se para o grupo. Ele vai e atira o grupo abaixo, soterrando quem estava e quem não estava.
Outra:
Pega-se num estudante. Mete-se num banho de casquiforite (resíduo humano a 300 graus negativos) e chama-se-lhe ensino, para animar. Ao fim de três imersões, está obtido o fragmento.
Outra:
Mete-se a mão de Almeida Garrett no túmulo de S. Frei Gil, há muitos anos removido para outro túmulo. A mão remexe e não encontra o santo. À saída, a mão não encontra Almeida Garrett.
Mário Cesariny.
Outra:
Pega-se num elefante. Diz-se-lhe que é parvo e chama-se para o grupo. Ele vai e atira o grupo abaixo, soterrando quem estava e quem não estava.
Outra:
Pega-se num estudante. Mete-se num banho de casquiforite (resíduo humano a 300 graus negativos) e chama-se-lhe ensino, para animar. Ao fim de três imersões, está obtido o fragmento.
Outra:
Mete-se a mão de Almeida Garrett no túmulo de S. Frei Gil, há muitos anos removido para outro túmulo. A mão remexe e não encontra o santo. À saída, a mão não encontra Almeida Garrett.
Mário Cesariny.
Música do filme Chronik der Anna Magdalena Bach,
conforme ficha técnica do catálogo Straub-Huillet (Centro Cultural Banco do Brasil): Johann Sebastian Bach: Concerto de Brandeburgo n° 5, BWV 1050, primeiro movimento (alegro 1), compassos 147–227, cravo e orquestra, 1720–1721; Pequeno livro de teclado de Wilhelm Friedemann Bach, BWV 128, prelúdio nº 6, clavicórdio, 1720; Pequeno livro de teclado de Anna Magdalena Bach Anno 1722, BWV 812, minueto 2 da Suíte em ré menor (Suíte francesa 1), espineta; Sonata n° 2 em ré maior para viola da gamba e cravo obligé, BWV 1028, adagio, cerca de 1720; Sonata em trio nº 2 em dó menor para orgão, BWV 526, largo, orgão, 1727; Magnifi cat em ré maior, BWV 243, n° 11 e n° 12 até o compasso 19 (“Sicut locutus est” e Glória), 1728–1731; Pequeno livro de teclado de A.M.B. 1725, BWV 830, Tempo di Gavotta de la partita em mi menor, espineta; Cantata BWV 205, “Éolo apaziguado”, recitativo para baixo (“Sim! Sim! As horas são doravante próximas”) e ária (“Como rirei alegremente”), 1725; Cantata BWV 198 (Ode fúnebre), coro final, 1727; Cantata BWV 244a (Música fúnebre para o príncipe Leopoldo), ária “Que com alegria o mundo seja abandonado”, compasso 25 até o final, 1729; Paixão segundo São Mateus, BWV 244, coro de abertura, 1729–1741…; Cantata BWV 42, “Mas à noite do mesmo Sabbat”, sinfonia de introdução (da capo, compassos 1 a 53) e recitativo para tenor, 1725; Prelúdio em si menor para orgão BWV 544, 1727–1731; Missa em si menor, BWV 232, 1º Kyrie eleison, compassos 1–30, 1731–1733; Cantata BWV 215, coro de entrada, compassos 1–181, 1734; Oratório da Ascensão, BWV 11, segunda parte do coro fi nal, 1735; Terceira parte do Método de teclado, coral “Kyrie, Deus Espírito Santo”, BWV 671, 1739; Segunda parte do Método de teclado, Concerto no gosto italiano, BWV 971, andante, 1735; Cantata BWV 140, primeiro duo, compassos 1–36, 1731; Variações Goldberg, BWV 988, 25ª variação, 1741–1742; Cantata BWV 82, “Eu tive o suficiente”, último recitativo e última ária, 1727; Oferenda musical, BWV 1079, Ricercar para 6, compassos 1–39, cravo, 1747; A arte da fuga, BWV 1080, contraponto XIX, compassos 193–239, cravo, 1750; Coral para orgão “Perante teu trono eu me apresento”, BWV 668, primeira parte, compassos 1–11, 1750. Assim como, de Leo Leonius, o moteto ordinário do domingo em latim para o 11º domingo após a Trindade, trecho do “ Florilegium Portense “ de Erhard Bodenschatz.
Terça-feira, Janeiro 17
Como uma vaca veio residir com os orelhudos
Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca.
Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar no cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo.
Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida.
Russell Edson, O Túnel. Tradução de José Alberto Oliveira.
Próximo sábado, 21 de Janeiro, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto).
Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar no cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo.
Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida.
Russell Edson, O Túnel. Tradução de José Alberto Oliveira.
Próximo sábado, 21 de Janeiro, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto).
Segunda-feira, Janeiro 16
Sem que sequer nos dêmos conta, há algo de primordial no modo como reagimos a uma pulsação. Toda a nossa existência é governada por um ritmo de setenta e duas batidas por minuto. Se o comboio teve um papel tão importante para os músicos de blues, não foi só por lhes permitir viajar do Delta até Detroit; foi sobretudo pelo ritmo das locomotivas e das próprias linhas: mudavas de linha, mudavas de ritmo. É como um eco do que se passa no interior do corpo humano. Mesmo que venha de uma máquina, de um comboio, a percepção que o teu corpo tem disso é de natureza musical. O corpo humano é capaz de sentir ritmos até onde eles não existem. Ouçam Mystery Train do Elvis Presley: um dos maiores temas de rock and roll de sempre, sem um único instrumento de percussão. O ritmo é apenas sugerido; o corpo trata do resto. Não é preciso torná-lo explícito. Julgo que as pessoas se enganam quando falam de rock and roll. Não tem nada a ver com rock, tem tudo a ver com roll.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Domingo, Janeiro 15
O bom filho Jim
Gente pobre que não tem dinheiro para uma cerca pede ao filho Jim que seja uma cerca para o pátio das galinhas, quer dizer, só até que o navio deles chegue; no que ninguém acredita porque vivem no interior.
Mas de que serve uma cerca à volta de um pátio das galinhas onde não há galinhas?
Comeste-las galinhas, Jim?
Não, nós nunca tivemos galinhas.
Então, o que estás a fazer cercando o que não temos?
Não sei, já esqueci.
Talvez fosse melhor seres uma galinha. Mas não comeces a andar por todo o lado, pois não temos cerca para evitar que a ave estúpida vá para o pátio do vizinho e acabe depenada para o jantar de domingo, disse-lhe o pai.
Caramba, só vou bicar à volta da casa; há uma data de minhocas saborosas debaixo do alpendre, disse o filho Jim...
Russell Edson, O Túnel. Tradução de José Alberto Oliveira.
Mas de que serve uma cerca à volta de um pátio das galinhas onde não há galinhas?
Comeste-las galinhas, Jim?
Não, nós nunca tivemos galinhas.
Então, o que estás a fazer cercando o que não temos?
Não sei, já esqueci.
Talvez fosse melhor seres uma galinha. Mas não comeces a andar por todo o lado, pois não temos cerca para evitar que a ave estúpida vá para o pátio do vizinho e acabe depenada para o jantar de domingo, disse-lhe o pai.
Caramba, só vou bicar à volta da casa; há uma data de minhocas saborosas debaixo do alpendre, disse o filho Jim...
Russell Edson, O Túnel. Tradução de José Alberto Oliveira.
Sábado, Janeiro 14
Os filmes de Godard, principalmente os últimos, assemelham-se mais a uma forma de pensar do que a uma forma artística. Quando vemos a projecção de imagens e sons e o seu contrário, o negro e o silêncio, estamos, creio, a assistir à criação de um pensamento, uma linha de pensamento. Esta forma de pensar por imagens (e consideremos que as palavras e os sons são também imagens) é-me particularmente compreensível. Foi por isso que ontem à noite, quando estava na cama às escuras e pensei na Standard & Poor's, vi o seu nome escrito num fundo escuro como nos filmes de Godard, e percebi, pela primeira vez, a estranheza das palavras Standard e Poor's juntas. Agora, se aproximar algumas imagens (as imagens justas ou qualquer imagem?) posso, talvez, ver a trama; não, posso ver a ideia de trama (fio que a lançadeira estende por entre os fios da urdidura).
Sexta-feira, Janeiro 13
A satisfação que retiramos do cumprimento de uma tarefa (especialmente quando não acreditamos nela e até mesmo a desprezamos) mostra bem a que ponto ainda pertencemos à turba.
Regra de ouro: deixar uma imagem incompleta de si próprio...
Por vezes desejaríamos ser canibais, menos pelo prazer de devorar este ou aquele do que pelo de o vomitar.
Não mais querer ser homem..., sonhar com outra forma de decadência.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
§
Regra de ouro: deixar uma imagem incompleta de si próprio...
§
Por vezes desejaríamos ser canibais, menos pelo prazer de devorar este ou aquele do que pelo de o vomitar.
§
Não mais querer ser homem..., sonhar com outra forma de decadência.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
Quinta-feira, Janeiro 12
50%
50% do que eu ganho vai para impostos. Quanto mais ganhar, maior é a receita do Estado com o pagamento dos meus impostos, e isso tem um efeito redistributivo para as políticas sociais.
Eduardo Catroga.
Leitura complementar:
Guillaume Apollinaire, As onze mil vergas.
Eduardo Catroga.
Leitura complementar:
Guillaume Apollinaire, As onze mil vergas.
Na frutaria do Carregal, uma caixa de morangos, um quilo de maçãs, um quilo de pêras, um quilo de bananas e um quilo de clementinas custa três euros. À hora do almoço, uma das raparigas apregoa os preços à porta. Por aqui, senhor Draghi, os sinais não são tímidos nem incertos.
everybody knows that Brechtian precepts look a lot like an acid trip



French directors such as Jean-Luc Godard and Jean-Marie Straub have transposed more specific Brechtian ideas into filmic terms: rethinking the question of pleasure and spectacle, developing filmic modes of spectatorial distanciation, and exploring the politics of representation in and through the cinema — in much the same spirit as Brecht reflected on the ideological implications of the traditions of bourgeois theatre. Straub, for instance, explicitly fashioned the acting style and verbal delivery of his protagonists after Brechtian precepts, but he also prefaced his first feature film NOT RECONCILED (1965) with a quotation from Brecht: "only violence serves where violence reigns". He even adapted a prose work of Brecht, Die Geschäfte des Herrn Cäsar for his film, HISTORY LESSONS (1972). Godard's work from 1967 onwards shows an intense preoccupation with the theories of Brecht, which in LA CHINOISE (1967) surfaces in the form of extended quotations. It culminates in such explicitly Brechtian films as ONE PLUS ONE, BRITISH SOUNDS (1970), VENT D'EST (1970) AND TOUT VA BIEN (1972).
Harun Farocki: working on the sightlines
Quarta-feira, Janeiro 11
Vá-se lá saber porquê, interessou-lhe [a Jean-Luc Godard] o que se passava em Londres naquele ano [1968] e quis fazer algo radicalmente diferente de tudo o que tinha feito até então. Provavelmente, para entrar na onda, tomou algumas substâncias que não devia e a que não estava habituado. Não sei de ninguém que alguma vez tenha percebido, com franqueza, que raio tinha ele na ideia [quando realizou Sympathy for the Devil]. (...) Onde raio é que ele queria chegar? Acho que não tinha sequer um plano de acção definido, algo que fosse além de sair de França e apanhar um cheirinho da movida londrina. (...) Até então, o Godard era conhecido pelos seus filmes cuidadosamente construídos, quase hitchcockianos. Bom, talvez convenha recordar que naquele ano até as experimentações mais descabeladas pareciam justificar-se. Mas por que diabos haveria o Godard, e justamente o Godard, de se interessar por uma pequena revolução hippie em Inglaterra e tentar fazer dela outra coisa qualquer? O que eu acho é que ele tomou ácido a mais e embarcou numa onda de desbragamento pseudo-ideológico.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
A imagem da capa do livro O Mundo Está Cheio de Deuses, de João Barrento, é de Danièle Huillet no filme Schwarze Sünde.
movie quotes
«We will always have texting, just as our parents will always have voice calls.» Lisa, 16 years old
Talking, texting, poking and dating | Consumerlab Report
Talking, texting, poking and dating | Consumerlab Report
Terça-feira, Janeiro 10
Quando escrevo, compreendo uma coisa (vagamente). Quando leio o que escrevi, compreendo outra coisa diferente (duvidosamente). Em quem devo confiar?
Segunda-feira, Janeiro 9
12/1, 21h30

Miguel Gouveia lê histórias esquisitas na Associação Cultural e Recreativa Tubo d'Ensaio, na Figueira da Foz (Rua do Pinhal nº1-A), dia 12 de Janeiro, pelas 21h30.
O James Brown actuou durante toda a semana no Apollo.* Quem é que ia perder uma coisa dessas? Eu, com certeza que não não. O gajo era incomparável. Ali, nada falhava. E julgávamo-nos nós uma banda exigente! O que mais me impressionou foi a disciplina da banda. Sempre que alguém entrava fora do tempo ou dava uma nota ao lado, o James estalava os dedos e vias o desgraçado em questão com uma cara de enterro. Com um gesto das mãos, anunciava o montante da multa a pagar. Os gajos seguiam sempre as mãos dele. Nessa noite, cheguei a ver o Maceo Parker, o saxofonista que foi o arquitecto da banda (e com quem mais tarde toquei, com os Winos), ser multado em cinquenta dólares. Que grande actuação. O Mick estava atento aos passos dele. E não só. Cantor, dançarino, manda-chuva: acho que o Mick prestou mesmo muita atenção ao James Brown, nessa noite.
* 1964.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
* 1964.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Domingo, Janeiro 8
Há palavras que crescem connosco; conforme vamos envelhecendo elas desdobram-se, tornam-se mais complexas e esbambeadas. Já não estamos bem certos do seu significado mas temos a impressão que uma só dessas palavras expressa uma narrativa prolongada. Como uma casa não desenhada por um arquitecto mas pelos seus habitantes que, ao longo dos anos, acrescentam anexos e marquises, azulejos aqui e um tecto de plástico ondulado acolá; essas casas feias que vemos quando circulamos nas estradas nacionais, feitas de materiais baratos, e que não sabemos dizer se estão no começo ou no fim da sua vida porque parecem sempre em ruínas.
Sábado, Janeiro 7
“Por entre as brumas do álcool.”
Nenhuma bruma! Uma prodigiosa claridade, sem sinais de morte; uma infinita e fulgurante juventude, com o desejo sempre latente; nem tempo, nem espaço; delicados, esféricos, todos avançam; e até as palavras – as divinas palavras, que nunca anunciam nada – se tornam suportáveis.
“Por entre as rosas do álcool” – é mais correcto.
Francisco Tario, Equinócio.
Nenhuma bruma! Uma prodigiosa claridade, sem sinais de morte; uma infinita e fulgurante juventude, com o desejo sempre latente; nem tempo, nem espaço; delicados, esféricos, todos avançam; e até as palavras – as divinas palavras, que nunca anunciam nada – se tornam suportáveis.
“Por entre as rosas do álcool” – é mais correcto.
Francisco Tario, Equinócio.
Sexta-feira, Janeiro 6
Precisa-se
Texto curto em inglês, de autor desconhecido, para traduzir. Não deve exceder as cem palavras e tem de, obrigatoriamente, possibilitar a utilização da expressão "andar violeta" sem esforço. Dá-se preferência a textos de carácter descritivo e analítico.
Sempre que nos encontramos num momento crítico, o melhor é esticarmo-nos e deixar passar as horas. As resoluções tomadas de pé não valem nada: são ditadas ou pelo orgulho ou pelo medo. Deitados, também estamos sujeitos a esses dois flagelos mas sob uma forma mais atenuada, mais intemporal
Cuidado com os eufemismos! Eles agravam o horror que é suposto disfarçarem. Em vez de defunto ou morto, utilizar desaparecido, parece-me absurdo, até mesmo insensato.
As pessoas «distintas» não inventam nada em matéria de linguagem. Excedem-se nisso, pelo contrário, todos os que improvisam por gabarolice ou se enredam numa vulgaridade raiada de emoção. São naturezas puras, vivem directamente as palavras. Será o génio verbal apanágio dos antros de perdição? Exige, em tudo o caso, um mínimo de repugnância.
Assim que nos colocamos questões ditas filosóficas e que usamos o inevitável jargão, tomamos um ar superior, agressivo, e isso num domínio onde, sendo o insolúvel a rigor, a humildade também o deveria ser. Esta anomalia é apenas aparente. Quanto mais as questões que abordamos são de envergadura, mais perdemos a cabeça: acabamos mesmo por atribuir a nós próprios as dimensões que elas possuem. Se o orgulho dos teólogos é ainda mais «fedorento» do que o dos filósofos é porque não nos ocupamos impunemente de Deus; conseguimos assumir, apesar de tudo, alguns dos seus atributos, os piores, é evidente.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
§
Cuidado com os eufemismos! Eles agravam o horror que é suposto disfarçarem. Em vez de defunto ou morto, utilizar desaparecido, parece-me absurdo, até mesmo insensato.
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As pessoas «distintas» não inventam nada em matéria de linguagem. Excedem-se nisso, pelo contrário, todos os que improvisam por gabarolice ou se enredam numa vulgaridade raiada de emoção. São naturezas puras, vivem directamente as palavras. Será o génio verbal apanágio dos antros de perdição? Exige, em tudo o caso, um mínimo de repugnância.
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Assim que nos colocamos questões ditas filosóficas e que usamos o inevitável jargão, tomamos um ar superior, agressivo, e isso num domínio onde, sendo o insolúvel a rigor, a humildade também o deveria ser. Esta anomalia é apenas aparente. Quanto mais as questões que abordamos são de envergadura, mais perdemos a cabeça: acabamos mesmo por atribuir a nós próprios as dimensões que elas possuem. Se o orgulho dos teólogos é ainda mais «fedorento» do que o dos filósofos é porque não nos ocupamos impunemente de Deus; conseguimos assumir, apesar de tudo, alguns dos seus atributos, os piores, é evidente.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
Quinta-feira, Janeiro 5
- O senhor tem um filho poeta.
- Óptimo, porque se fosse um literato torcia-lhe o pescoço.
Max Jacob, O Copo dos Dados. Tradução de Luísa Neto Jorge.
- Óptimo, porque se fosse um literato torcia-lhe o pescoço.
Max Jacob, O Copo dos Dados. Tradução de Luísa Neto Jorge.
Quarta-feira, Janeiro 4
Deveriamos atemo-nos a um idioma e aprofundar o seu conhecimento em todas as oportunidades. Para um escritor, tagarelar com uma porteira é mais proveitoso do que entreter-se com um erudito numa língua estrangeira.
A ideia de fatalidade tem qualquer coisa de envolvente e voluptuoso: mantém-nos quente.
Os místicos e as suas «obras completas». Quando nos dirigimos a Deus, e apenas a Deus, como eles pretendem, devemos abstermo-nos de escrever. Deus não lê...
"... o sentimento de ser tudo e a evidência de não ser nada". O acaso fez-me cair, na minha juventude, sobre este fragmento de frase. Sobressaltou-me. Tudo o que eu então senti, e tudo o que eu devia sentir depois, encontrava-se plasmado nesta extraordinária fórmula banal, síntese de dilatação e de fracasso, de êxtase e de impasse. A maior parte das vezes não é de um paradoxo mas de um truísmo que surge uma revelação.
A ideia de progresso, não podemos passar sem ela, e no entanto não merece que nela nos detenhamos. É como o «sentido» da vida. É preciso que a vida tenha um sentido. Mas existirá um só que, examinado à lupa, não se revele ridículo?
Em paz consigo mesmo e o mundo, o espírito definha. À menor contrariedade, floresce. O pensamento não é, em suma, senão a exploração descarada dos nossos genes e das nossos desgraças.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
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A ideia de fatalidade tem qualquer coisa de envolvente e voluptuoso: mantém-nos quente.
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Os místicos e as suas «obras completas». Quando nos dirigimos a Deus, e apenas a Deus, como eles pretendem, devemos abstermo-nos de escrever. Deus não lê...
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"... o sentimento de ser tudo e a evidência de não ser nada". O acaso fez-me cair, na minha juventude, sobre este fragmento de frase. Sobressaltou-me. Tudo o que eu então senti, e tudo o que eu devia sentir depois, encontrava-se plasmado nesta extraordinária fórmula banal, síntese de dilatação e de fracasso, de êxtase e de impasse. A maior parte das vezes não é de um paradoxo mas de um truísmo que surge uma revelação.
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A ideia de progresso, não podemos passar sem ela, e no entanto não merece que nela nos detenhamos. É como o «sentido» da vida. É preciso que a vida tenha um sentido. Mas existirá um só que, examinado à lupa, não se revele ridículo?
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Em paz consigo mesmo e o mundo, o espírito definha. À menor contrariedade, floresce. O pensamento não é, em suma, senão a exploração descarada dos nossos genes e das nossos desgraças.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
Terça-feira, Janeiro 3
Só isso, meu cabrão. É viver para aprender
Era isso que fazíamos: com um frio de rachar, dissecávamos música enquanto não nos cortavam a luz. Um disco novo do Bo Diddley? Venha o bisturi. Consegues apanhar este wah-wah? E a bateria, as maracas, os que é que fazem? Tinhas de desmontar e remontar tudo, do teu ponto de vista. Aqui, faz falta um bocadinho de reverb. Merda. Precisamos de um amplificador. O Bo Diddley usava muita tecnologia, o Jimmy Reed não. Mas dissecar o que ele tocava, mãezinha! Levei anos até descobrir como é que ele fazia o acorde de quinta dominante na tonalidade de mi - o acorde de si, o último dos três antes de voltares à tónica, a resolução num blues de doze compassos. Quando lá chega, o Jimmy Reed sai-se com um refrão sombrio, dissonante e melancólico. Mesmo para não guitarristas, vale a pena tentar descrever o que ele faz. No acorde dominante, em vez do si de sétima em barra do costume, que exige algum esforço à mão esquerda, ele simplesmente omitia o si. Deixava um lá a ressoar em corda solta, e só deslizava um dedo na corda ré até à sétima. Ora, isto no fundo é: 1. a coisa mais preguiçosa e desleixada que podes fazer; 2. uma das invenções musicais mais brilhantes de todos os tempos. Foi assim que Jimmy Reed se safou a tocar a mesma canção durante trinta anos. Quem mo ensinou foi um miúdo branco, o Bobby Goldsboro, que teve dois ou três hits nos anos 60. Ele às vezes tocava com o Jimmy Reed, e disse-me que não se importava de me ensinar uns truques. As outras manhas já eu as conhecia, mas a do acorde dominante só mesmo quando ele ma explicou, numa camioneta algures em Ohio, em meados dos anos 60. Disse-me ele:
- Passei anos na estrada com o Jimmy Reed. É assim que ele toca a quinta dominante.
- Foda-se! É só isso?
- Só isso, meu cabrão. É viver para aprender.
De repente, caída de pára-quedas, ali estava a resposta. Aquela nota soturna e ressonante. Um desrespeito flagrante por quaisquer regras. Admirávamos o Jimmy mais por coisas destas do que pela sua arte de guitarrista propriamente dita. E aquelas canções não te saíam da cabeça. A base pode parecer do mais simples que há, mas experimentem tocar Little Rain que a gente depois conversa.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
- Passei anos na estrada com o Jimmy Reed. É assim que ele toca a quinta dominante.
- Foda-se! É só isso?
- Só isso, meu cabrão. É viver para aprender.
De repente, caída de pára-quedas, ali estava a resposta. Aquela nota soturna e ressonante. Um desrespeito flagrante por quaisquer regras. Admirávamos o Jimmy mais por coisas destas do que pela sua arte de guitarrista propriamente dita. E aquelas canções não te saíam da cabeça. A base pode parecer do mais simples que há, mas experimentem tocar Little Rain que a gente depois conversa.
Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.
Segunda-feira, Janeiro 2
Quanta investigação, quanto tempo perdido, quanto ir e vir de graves sábios com barba, para ainda não ser possível fazer brotar uma orquídea de um espelho!
Francisco Tario, Equinócio.
Francisco Tario, Equinócio.
Um dos meus maiores defeitos é calcular mal o intervalo entre dois pontos, dois lugares, dois objectos. Não sei, por exemplo, encontrar a distância socialmente admissível em relação aos outros. Isso sempre me prejudicou bastante nas amizades e de forma desastrosa nos amores. Tentei melhorar mas não deu em nada; talvez não seja possível destruir os defeitos mais íntimos. Agora já não me preocupo. Agora, digamos assim, é até com uma certa cumplicidade que me apercebo do lento movimento de afastamento — como um plano desastrado num filme foleiro de Hollywood que apanhamos mais uma vez num canal de televisão.

Gosto cada vez mais de Frenzy. Não é dos filmes mais perfeitos de Hitchcock (e essa é, sem dúvida, uma das razões teóricas particulares) mas é tremendamente estimulante. A acção passa-se em Convent Garden, no meio da fruta e dos legumes e longe dos cenários de Hollywood — é por aí que começo a gostar. Depois, o filme não tem estrelas elegantes mas actores vulgares e com pronúncia carregada — é quase como se Hitchcock filmasse na rua. Há uma série de crimes sexuais, porém, e como já é hábito, os temas essenciais e queridos ao realizador são a falsa culpa e os casamento ou, talvez seja mais correcto dizer, os perigos do casamento. Hitchcook dá-se ao luxo de nos mostrar, com um humor fino como um alfinete, os êxitos de uma agência matrimonial juntando uma mulher mandona com um homem insignificante:

e a decadência gastronómica de um sólido casamento inglês em três pratos:



Mas um filme não se faz apenas da(s) história(s), são as formas cinematográficas que nos marcam, mesmo quando não nos apercebemos delas. Em Frenzy, por exemplo, Hitchcock explora o tratamento do som, a duração do plano e o fora de campo de um modo extraordinariamente ousado. Há planos formidáveis que o demonstram.
O primeiro é este: nós já sabemos que Brenda Blaney (ex-mulher de Richard Blaney e dona de uma agência matrimonial) foi assassinada por Bob Rusk. Barling, a secretária da agência regressa do almoço, vê Richard a sair, sobe as escadas para o escritório mas a câmara fica cá fora, imóvel, durante 23 segundos à espera do grito — 23 segundos fixos no cinema é quase uma eternidade, tem a força de uma nota musical prolongada, de uma cor exuberante, de um aperto no coração.

Numa outra cena, quando Babs Mulligan se despede do bar indignada com o patrão e sai porta fora (grande plano do seu rosto)

faz-se um silêncio irreal e perturbador (as ruas de Convent Garden são sempre barulhentas). A seguir ouve-se a voz de Rusk perguntar "Tem onde ficar?"; ela afasta-se surpreendida e ele ocupa o centro do enquadramento — nós já sabemos que Rusk é o assassino da gravata, o silêncio está ali, perfeito e grave, para enfatizar por subtracção, digamos assim, as suas palavras.

Rusk convence Babs a ficar em sua casa. Os dois sobem as escadas, entram em casa e, quando fecha a porta, Rusk diz que ela é o seu tipo de mulher. Hitchcock já nos mostrou que essa frase antecipa, ou provoca, o crime, por isso a câmara abandona a acção, desce as escadas em silêncio, às arrecuas, devagar, vem para a rua, afasta-se; ouvimos os barulhos da rua, vemos as janelas do apartamento de Rusk, as flores.












Mais tarde, Richard Blaney é preso e julgado. Tudo o incrimina, o julgamento decorre para além de uma porta, ouve-se a pergunta do juiz sobre a inocência ou culpa, a porta fecha-se e passam 16 segundos durante os quais só escutamos um murmúrio distante e indistinto. Só depois, quando alguém sai e deixa porta entreaberta, ouvimos a sentença de prisão perpétua.

Há ainda uma sequência notável pela sua composição geométrica e que, apesar de conter em si vários elementos chave dos filmes de Hitchcock (um homem armado e com intenções de matar a subir umas escadas) é também, ao mesmo tempo, a sequência mais Bressoniana de todos os filmes de Hitchcock.








Domingo, Janeiro 1
Não sem saber
"Um beijo traz dor" -
Concordando, cito
Estas palavras que o sábio Rodrigo escreveu -
E no entanto beijarei de novo.
Tennessee Williams, Alguns poemas. Tradução de Ricardo Marques.
Concordando, cito
Estas palavras que o sábio Rodrigo escreveu -
E no entanto beijarei de novo.
Tennessee Williams, Alguns poemas. Tradução de Ricardo Marques.
E no entanto
Sempre tive dificuldades em lidar com o passado, quer dizer, o meu passado é uma coisa um bocado irreal, pouco credível, parece pertencer a outra pessoa qualquer. Do futuro tenho uma imagem diferente, não desfocada mas riscada como um papel que tem palavras escritas e depois riscadas com muita força com um lápis de carvão e fica apenas uma mancha escura indecifrável sobre uma mancha branca. Resta-me uma nesga onde pousar os pés, não há espaço para desejos nem votos.






