Isto era deprimente para um homem que tem na cabeça um sonho de república. Lembrei-me de uma época (...) em que os «pobres brancos» do nosso Sul eram, sempre, desprezados e frequentemente injuriados pelos senhores proprietários de escravos das suas regiões; e que a sua repelente situação era devida simplesmente à existência da escravatura no seu meio. Abraçaram, todavia, com toda a pusilanimidade, a causa do senhor em quantos movimentos políticos tinham por objecto perpetuar e manter a escravidão, chegando finalmente a transportar ao ombro as suas espingardas e a dar as suas vidas para evitar a destruição daquela mesma instituição que as degradava. Uma única recompensa tinha aquele fragmento lamentável da nossa história! a de que, em segredo, o «pobre branco» detestava, realmente, o senhor de escravos e sentia, no fundo, vergonha de si próprio. Estes sentimentos não vinham à superfície, mas o facto de existirem e de que tivessem podido surgir em circunstâncias favoráveis já era alguma coisa; bastante, na realidade, pois demonstrava que, no fim de contas, um homem é sempre um homem, mesmo que não o exteriorize.
Mark Twain, Um americano na corte do rei Artur. Tradução de Nascimento Rodrigues.
Mark Twain, Um americano na corte do rei Artur. Tradução de Nascimento Rodrigues.


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