Sábado, Abril 21

Observação de poetas

Observador de pássaros, diz o Manuel António Pina. Mas eu acho que a relação é outra, mais intensa ou mais íntima; pelo menos foi o que me pareceu noutro dia ao ver um documentário sobre colibris. Em certas épocas, os indivíduos machos executam uma série de truques com as penas que não andam longe da forma como os poetas manejam as palavras. Expondo-as num certo ângulo ao sol, as penas vulgares ganham colorações fantásticas e atractivas. Claro que os colibris, isso o documentário não disse mas eu atrevo-me a concluir, agem todos do mesmo jeito prevalecendo sempre e apenas a ideia da sobrevivência da espécie. Os poetas, pelo contrário, sem pensar tanto no acasalamento e na prole, dão-se ao luxo de executar variações. Alguns, para evitar jogos de cores evidentes, guardam as suas palavras à sombra — as cores soberbas continuam lá mas é preciso treinar os olhos na escuridão para as poder ver (ou será, na verdade, imaginar?) Em casos extremos, arrancam-nas — em vez de reflexos inebriantes, mostram as feridas (serão as feridas... flores azuis?)

À beira dos colibris, os poetas são muito mais interessantes.