Francis Bacon: Porque eu não sei como a forma pôde ser construída. Por exemplo, outro dia pintei a cabeça de alguém e aquilo que formava as órbitas dos olhos, do nariz, da boca, era, quando fui analisar, simples formas que nada tinham a ver com olhos, nariz ou boca; mas a tinta, indo de um contorno para outro, fez surgir uma semelhança com a pessoa que eu estava querendo pintar. Eu parei; por um momento pensei que havia conseguido uma coisa muito mais próxima daquilo que queria. Então, no dia seguinte, tentei chegar ainda mais perto do que procurava, tentei ser mais penetrante, mais profundo, e perdi completamente a imagem. Porque esta imagem é como equilibrar-se numa corda colocada entre aquilo que se costuma chamar de pintura figurativa e aquilo que é abstração. Está na fronteira da abstração, mas na verdade nada tem a ver com ela. É uma tentativa para fazer a coisa figurativa atingir o sistema nervoso de uma maneira mais violenta, mais penetrante.
Entrevistas com Francis Bacon, A Brutalidade dos fatos, por David Sylvester, Cosac & Naify, p.12.
Entrevistas com Francis Bacon, A Brutalidade dos fatos, por David Sylvester, Cosac & Naify, p.12.


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