Matéria religiosa
Nos últimos anos, será talvez a velhice, vi-me obrigada a aceitar a existência em mim de um sentimento religioso (sim, o sentimento religioso é o mais inconfessável de todos). Nada disto tem a ver com a igreja, claro; o mais estranho, porém, é que ao procurar situar esse sentimento, e depois de muito esforço, percebi que ele não pairava no espírito como coisa abstracta mas consiste na harmonia silenciosa das substâncias químicas que compõem o meu corpo — na matéria, portanto.


12 Comments:
presos ao corpo por desejo(s) de saúde e bem-estar.
é a vida.
A química começa pelo corpo e vai se expandindo, vai ver só...é muito bom isso!
cristina: e se o corpo for apenas a materialização do espírito? e se estiver tudo interligado, sem dualidade indissociável?
bom domingo:)
Quando Jorge de Sena escreve "o sentimento religioso é o mais inconfessável de todos" é também porque é difícil falar disto. Mesmo escolhendo as palavras uma a uma, perece-me sempre que não me expliquei bem... não queria de forma alguma ir por esses caminhos, nem saúde e bem-estar, nem química em expansão e, menos ainda, interligações sem dualidades entre matéria e espírito.
A minha visão é curta, terra-a-terra, e inclinada para baixo, digamos assim; nunca poderia conceber o corpo como materialização do espírito, Inês. O espírito é capaz de coisas belas mas também de coisas terríveis e às vezes não passa de um fardo demasiado valorizado :)
gostei tanto do post quanto do seu comentário aqui
(relacionei-me)
o espírito alberga bem e mal (com todo o equívoco que esta dicotomia acarreta), é claro.
a minha questão relativamente ao facto de o corpo ser a materialização do espírito é algo extremamente simples e leve:um eu profundo que anima um corpo, qu se manifesta numa forma. são dois os elementos enunciados, mas uma a força vital em causa.
de qqer modo, tudo isto é demasiado pessoal e íntimo e as palavras dão azo a traições de sentido, por isso, fico-me por aqui. gostei mto do post e do título e que quis partilhar o que senti. fica bem:)
Pois, Inês, as nossas ideias são sempre irreconciliáveis. Não consigo, de facto, ver o corpo como a materialização do espírito nem sequer ambos animados pela mesma força vital. Matéria e espírito têm propriedades diferentes; para a matéria não existe nem bem nem mal. O mais interessante da nossa vida, creio, é o diálogo entre ambos.
Para além disso, como seria possível explicar a nossa vida através de uma força vital quando, por exemplo, um simples acidente pode danificar uma parte do nosso cérebro e provocar uma alteração da nossa personalidade. Em termos materiais continuamos a ser praticamente os mesmos, mas o resto ficou estilhaçado, se fossemos unos, como poderia isso acontecer?
bom dia, c.
estamos de acordo pelo menos qto ao facto de ser interessante o diálogo entre o bem e o mal:)
qto ao mais, embora ache relevante a questão que levantas, prefiro não argumentar, pq o que possa pensar e intuir desse exemplo ainda não é passível de ser fundamentado pela ciência e torna-se sempre discutível e subjetivo.
carpe diem.
Pontuei mal a frase, referia-me ao diálogo entre matéria e espírito. Mas o diálogo entre Bem e Mal talvez ainda seja mais interessante :)
Bom, e a conversa fica então por aqui. Não acredito que seja possível concordarmos em muito mais ;)
;)
...quem diz acidente, diz uma doença demencial que despersonaliza...
mas a mim, particularmente, interessa-me mais a mente e menos o espírito...ou são a mesma coisa?
corpo sem espírito/alma é pecado?
e espírito/alma sem corpo é fantasma?
Como é que é possivel, sim, como é que é possivel que eu só tenha lido este post agora!
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