Domingo, Janeiro 22

Sobre a circulação ser restrita, bom, não sei ao certo, mas parece-me que a arte, mais concretamente a literatura, mais especificamente a poesia foram, são e serão sempre matérias de interesse marginal. Por marginal, aqui, quero dizer só pouco central. Se pensarmos que quase metade da população do mundo não tem acesso a água, aí sim, aí falamos de um problema central. Se falarmos de fome, de saúde pública, de desemprego, continuamos em assuntos centrais. Mas por estes, mais laterais, parece-me, houve sempre uns quantos, não muitos, que se interessaram. Há um poema de Wislawa Szymborska que fala disso lindamente. Não é mau, nem bom. Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista. Que esperamos de um escritor ou de um editor sério? Que apareça nu nas páginas centrais de um jornal? A literatura, com tudo o que a rodeia, a escrita, a rasura, a maturação e, no último momento, a edição, não pode ser um jogo de abrir e fechar pernas, de aparecer semi-vestido, revelando carecas, brincos ou tatuagens, só para vender mais uns livros.

Changuito.