Sábado, Dezembro 31

Dein Alter Sei Wie Deine Jugend

Sexta-feira, Dezembro 30

Temos a sorte de ter presenciado acontecimentos que os nossos antepassados não acreditavam que podiam ocorrer. Entre eles, e muito rapidamente, uma revolução socialista na nossa própria língua. Falavam-nos de revoluções francesas, russas; pois bem: tivemos uma e além disso com um argentino no meio. Falo de acontecimentos, não de política. Tivemos a sorte de ser contemporâneos dos Beatles quando os Beatles tinham a nossa idade. Tivemos a sorte de ser contemporâneos do melhor Marlon Brando e de Cassius Clay. Quando publicámos o primeiro número de Ell grillo de papel estavam vivos Herman Hesse, Hemingway, Sartre. Estava vivo o mundo inteiro.

Abelardo Castillo.

Quinta-feira, Dezembro 29

Verão Azul

Pedalávamos assobiando o Verão
Azul porém faltava-nos a praia e éramos
muito Pancho e muito Javi para tão pouca
Beatriz; sobretudo por estes arrabaldes
nenhum velho tocava acordeão apenas
clarinete na filarmónica o que até
servia não fossem ter inquinado os nossos
assaltos constantes ao seu pomar qualquer
hipótese de afecto intergeracional.

António Gregório.

As qualidades da gata

Tencionava ler grande parte do primeiro volume d' O Homem sem Qualidades durante as férias de natal mas no domingo trouxe uma gatinha estouvada para casa e, desde então, a leitura avança devagar. Na verdade, só consigo ler quando a gata interrompe as tropelias para dormir. O ritmo sincopado vai bem com a obra grandiosa de Musil (há um texto óptimo de Cage sobre isto que ainda não traduzi); o livro é uma espécie de Grande Lista de Tudo, devolve-nos tudo o fomos no século XX, principalmente o que não se vê, ou não se via, logo de imediato. Devolve-nos tudo, sim, excepto os arranhões, o ronronar e o salto gracioso da gata.

Quarta-feira, Dezembro 28

Can a photo lie?

Terça-feira, Dezembro 27

Retrato

É renga, magricela e presumida,
Com pele de muxiba engrouvinhada;
O corpo de sumaca desarmada,
A cara de muafa mal cosida;

A perna de forquilha retorcida,
Os ombros de cangalha um tanto usada;
A boca, de ratões grata morada,
Maçante na conversa em mal sofrida;

Senhora de um leproso cão rafeiro,
Que, querendo passar por mocetona,
Se besunta com sebo de carneiro;

Vestida é saracura de japona,
De feia catadura, e de mau cheiro,
Eis a choca perua da Amazona.

Luís Gama (1830-1882).
Ontem, por volta das 17h16, vi o raio verde.

Segunda-feira, Dezembro 26

Um conto de Natal com um dia de atraso

Escondido atrás da poltrona da sala, o pequeno Henri esperava com o coração aos pulos. Era meia-noite menos três minutos. Daqui a pouco poderia surpreender o Pai Natal e arrancar-lhe, à força de súplicas, a carruagem-correio para o seu comboio eléctrico.
Soaram as doze badaladas e logo depois pedacinhos de fuligem começaram a cair nos sapatos que o pequeno Henri deixara debaixo da chaminé.
De seguida, apareceu o Pai Natal em pessoa, no seu belo fato vermelho manchado de fuligem.
- Puf! – fez ele numa voz de falsete e ciciando – zuzei-me todo!
Mal se apercebeu da presença de Henri, bateu as palmas.
- Oh! Que maravilha de rapazinho! Olá rapazinho!
- Olá, Pai Natal…
O pequeno Henri estava perplexo. Não era assim que imaginara o Pai Natal. Este era jovem e bastante amaneirado.
- Vem zentar-te noz meuz joelhoz. Quero dar-te rebuzadoz.
O Pai Natal tinha-se sentado na beira da chaminé. Henri apressou-se a obedecer. Os rebuçados eram deliciosos e as carícias que os acompanharam eram doces, muito doces…
- Onde eztão oz teuz paiz? – perguntou o Pai Natal num tom insidioso.
- A mamã está na montanha e o papá está a dormir no quarto dele – disse Henri muito sério.
- Muito bem! Zendo azzim vou dizer olá ao teu papá… vai deitar-te e zê bonzinho.
Com pezinhos de lã, o homem de vermelho deslizou até ao quarto do papá de Henri.
Sem fazer barulho, descalçou as botas.
O pai, ensonado, balbuciou:
- Quem está aí?
- É o Pai Natal – respondeu o Pai Natal.
E sodomizou-o.

Conto de Natal, de Roland Topor.

Domingo, Dezembro 25


Christian Boltanski, view of Teshima Island, Japan, repository for “The Heart Archives”, 2005-2010, Japan Seto Inland Sea.

Sábado, Dezembro 24

todos os esforços que um homem tem de fazer para se manter de pé

De pé, atrás de uma das janelas, olhando para a rua pardacenta através do ténue filtro esverdeado do ar do jardim, de relógio em punho, ele contava havia dez minutos os automóveis, os fiacres, os carros eléctricos e os rostos dos transeuntes, que a distância tornava indistintos e que giravam, apressados, diante da rede do seu olhar. Media as velocidades, os ângulos, o dinamismo das massas em movimento, que atraem o olhar de forma fulminante, o retêm, o libertam, que forçam a atenção, durante uma fracção de tempo incomensurável, a resistir-lhes, a soltar-se para passar ao seguinte e segui-lo. Enfim, depois de ter feito umas contas de cabeça, voltou a meter o relógio na algibeira com um sorriso e constatou que estava a fazer coisas sem sentido. Se fosse possível medir os saltos que a atenção dá, o trabalho dos músculos dos olhos, as oscilaçõs da alma e todos os esforços que um homem tem de fazer para se manter de pé no fluxo de movimento de uma rua, talvez daí resultasse — era o que tinha pensado, ao entrar no jogo de calcular o impossível — uma grandeza perante a qual a força de que Atlas precisa para sustentar o mundo seria uma insignificância; a partir daí poderia avaliar-se o enorme esforço que faz hoje em dia uma pesssoa que não está a fazer nada.

Robert Musil, O homem sem qualidades, tradução de João Barrento, Dom Quixote

Sexta-feira, Dezembro 23

In the haze of the morning, China sits on Eternity

Quinta-feira, Dezembro 22

Ossos

Os pássaros espalham o céu.

Lagos: oceanos jubilados.

Todo o tempo passado foi presente.

Se o mar fosse doce, os tubarões teriam cáries.

Aforismos de Isabel Mellado.
O combate à iniquidade do sistema económico exige serenidade, firmeza e solidariedade.
(...)
Serenidade, para dar à racionalidade económica do tardocapitalismo uma resposta que só pode ser de uma outra ordem e de uma outra dimensão. Essa ordem tem de ser poética e antiprogressista. Tem de recuperar formas de pensamento pré-imperiais, em que o objectivo não seja o crescimento mas a sustentação, em que toda a publicidade seja considerada enganosa, em que o crescimento das empresas seja limitado e os políticos tenham de estudar filosofia antes e não depois de disputarem as eleições. As profissões mais consideradas sejam as que, nas palavras de Misha Gromov, tentam revelar os quatro mistérios do mundo. Uma ordem em que o maior crime seja a destruição da natureza e a interdição de matar ou de manter em cativeiro se aplique aos seres humanos e aos outros animais.


Luís Januário.

Quarta-feira, Dezembro 21

Prosit Neujahr


This is from my found postcard collection. It's over 100 years old and German. I overpainted the Prosit Neujahr (Happy New Year) at the bottom, and painted on the red Santa hat. I like it because it doesn't really work. She looks rather uncomfortable at that angle, holding her arm up like that.

I overpaint postcards from my collection a lot. I'm not sure this sums up Christmas, but a lot of trouble went into constructing this photograph all those years ago: the backdrop, the snow – which I think must have been hand-painted black flecks on the original negative. I enjoy the artifice and invention of the pre-digital world. Tacita Dean
Agnes de ci de là Varda (3/5), logo à noite no arte. Vale a pena aproveitar as repetições (na próxima semana) para espreitar o atelier do esquivo Chris Marker ou apanhar Manoel de Oliveira a fazer de Charlot nos jardins de Serralves (episódio 1).

Terça-feira, Dezembro 20

Em Turim, no início da sua crise, Nietzsche precipitava-se sem descanso para o espelho, olhava-se, afastava-se, olhava-se de novo. No comboio que o levava a Basileia, a única coisa que reclamava com insistência era um espelho. Já não sabia quem era, procurava-se, e logo ele, tão apegado a salvaguardar a sua identidade, tão ávido de si mesmo, não tinha agora, para se encontrar, senão o mais grosseiro, o mais lamentável dos recursos. Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né

Segunda-feira, Dezembro 19

Uma das personalidades do ano (categoria "homens sinistros") é o tipo do FMI que emborca cervejas no Bartoon.

Domingo, Dezembro 18

Em Julho de 1899, Valle-Inclán frequentava o Café de la Montaña. Certo dia o tópico da conversa era o duelo pendente entre López del Castillo e Leal da Câmara. Valle-Inclán e Manuel Bueno discutiam a legalidade do duelo; este contestava-a invocando o facto do pintor português ser menor de idade. Embora fossem amigos, envolveram-se numa violentíssima discussão. No calor da contenda, Bueno bateu com a bengala num dos botões de punho do adversário, esmagando-o contra o pulso. Terminada a escaramuça por intervenção dos presentes, Valle-Inclán não prestou atenção à ferida; alguns dias depois a infecção estava já tão avançada que o braço esquerdo teve que ser amputado. Apesar das anedotas que indicam o contrário, o maneta reagiu de maneira muito humana, sentindo toda a angústia, dor e medo que um tal traumatismo pode provocar. Chegou a chorar pelo braço perdido. E ainda que não tenham faltado momentos em que desejou a morte de Bueno, acabou por se reconciliar com ele, e a amizade entre ambos, que tal como o braço tinha desaparecido, reanimou-se. Assim era a sua generosidade.
Com o objectivo de comprar um braço ortopédico a Valle-Inclán, estreou-se mais tarde [a peça de teatro] Cenizas e publicou-se a obra. A sessão única alcançou o fim desejado, e o maneta pôde usar um braço postiço. Durante os meses seguintes o aparelho mecânico serviu-lhe de ponte entre a adaptação psicológica e a resignação estóica. No entanto, Valle-Inclán cansou-se desse jogo e devolveu o braço, pensando nas vantagens de ser maneta para a sua personalidade altiva e polémica; pelo acidente aproximava-se mais do autor de Don Quijote de quem, como diria Bradomín na Sonata de Invierno, invejava mais a carreira militar do que o génio artístico. Desde então, Valle-Inclán via-se a si mesmo, e procurava que os outros o vissem do mesmo modo, como o segundo grande maneta das letras espanholas*.
É verdade que teve que abandonar o sonho de ser actor, mas a sua nova condição compensou o sacrifício trazendo-lhe mais notoriedade pública, o que para ele era muito agradável. As anedotas sobre as circunstâncias em que tinha perdido o braço multiplicaram-se e as versões chegaram a ser tantas e tão absurdas, que Ramón Gómez de la Serna fez uma colecção das principais. Valle-Inclán, entretanto, não negava nada nem procurava corrigir o que escreviam os jornalistas; aceitava tudo para gáudio de um público faminto de heróis. Assim se foi criando o mito de Valle-Inclán. A condição de maneta rapidamente se converteu num síndrome literário. Muitos dos textos que escreveu, de todos os géneros, reflectem a perda do braço, e o tema é facilmente reconhecível na sua obra dessa época em diante.
Com a deficiência às costas, Valle-Inclán viu-se confrontado com uma decisão de enorme importância. Até então a sua actividade literária tinha sido esporádica e temperamental. Nesse momento reconheceu a sua inaptidão para prosseguir a sua busca pela aventura e optou definitivamente pelo que antes havia desdenhado: ser escritor.

* Cervantes tinha perdido a mão esquerda na sequência de um ferimento contraído na batalha de Lepanto, em 1571.

Robert Lima, Rutas Vitales y Literarias de Valle-Inclán. Incluído no volume Suma valleinclaniana, organizado por John P. Gabriele.

Sábado, Dezembro 17

Loukanikos
Há duas coisas (um bocado marginais mas) muito curiosas na escolha da personalidade do ano da revista Time. Quando passamos da abstração The Protester para a lista de protestadores, encontramos, no meio das mais diversas pessoas, o cão Loukanikos. Um rafeiro protesta contra o poder político e policial assim como Argos reconheceu Ulisses ou Cérbero guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos — os mitos gregos continuam a explicar o nosso mundo.

A outra tem a ver com a forma indulgente como The Protester foi traduzido em português por Manifestante, renunciando à origem latina da palavra e à sua força.

Natal dos hospitais

Os autocarros andam cheios de mulheres e velhos, muito agasalhados, com tosse e queixas. Ao meu lado, uma mulher chora a sua viuvez de abril e outra mulher diz-lhe para se conformar — as palavras repetem o padrão dos discursos vigentes. A viúva sai, senta-se uma mulher mais nova no seu lugar, agora falam da falta de jeito dos motoristas dos STCP e do tempo; a chuva é um transtorno mas faz bem às hortaliças. No regresso trazem sacos com comida (cheira-me a café moído) e roupa para os filhos.
Letter to Jamie Hamilton
21 December 1951


Well, Christmas with all its ancients horrors is on us again. The stores are full of fantastic junk and everything you want is out of stock. People with strained, agonized expressions are poring over pieces of distorted glass and pottery, and being waited on, if that is the correct expression, by specially recruited morons on temporary parole from mental institutions, some of whom by determined effort can tell a teapot from a pickaxe.

Raymond Chandler

Sexta-feira, Dezembro 16


Um pano branco desprende-se do 9º andar e transforma-se numa bandeira de rendição.
- Ali vai ele!
- Quem?
- Florisel.
- Porque lhe chamas Florisel?
Ela disse-me com um riso alegre:
- Florisel é o pajem, por quem, num conto, se enamora certa princesa inconsolável.
- Um conto de quem?
- Os contos nunca são de ninguém.

Ramón del Valle-Inclán, Memórias do Marquês de Bradomin. Tradução de Domingos Monteiro.
A implosão da Torre 5 do bairro do Aleixo é uma metáfora formidável. Seria uma pena, por distracção, não a desviar para uso particular.

Quinta-feira, Dezembro 15

Com o tema “Crítica literária hoje: impasses e desafios”, a primeira mesa do dia começou com uma apresentação que a argentina Josefina Ludmer, professora da Universidade de Yale, anunciou como “um manifesto”. O título do texto – “A crítica: um beco de muitas saídas” – deu o tom da intervenção. No momento em que passamos da “cultura da biblioteca” para uma “cultura dos meios e das redes”, propôs Ludmer, a crítica não deve existir em uma esfera autônoma, e sim mesclar-se com a literatura e outras disciplinas para melhor intervir no que ela chama de “imaginação pública”, o conjunto de discursos e saberes que circulam na sociedade. “A crítica literária precisa passar ao ativismo cultural”, disse Ludmer, que aprofunda essas ideias no ensaio “Literaturas pós-autônomas”.

Texto completo aqui.

Quarta-feira, Dezembro 14


Neve, fotografada por Daido Moriyama.
Diário de um Pároco de Aldeia é um filme imperfeito; Bresson ensaia o seu olhar sonâmbulo, troca os actores por modelos mas ainda está longe do rigor profundo do cinematógrafo. Se não me falha a memória, na folha de sala da Cinemateca, João Benárd da Costa fala da pureza do filme. Sim, há qualquer coisa de muito puro e frágil, também.

Bresson tem 50 anos e filma como um jovem que corre todos os riscos (ah, a juventude da cantata de Bach). Mais tarde, imagino, se Bresson pudesse refazer o filme, cortava, talvez, a música, aquele plano de Chantal espiando pela janela e outras coisas — mas, como Joaquim Manuel Magalhães, ficava apenas com um jardim de pedras. Por sorte, é mais difícil refazer um filme do que um poema. Os filmes podem ser eterna e maravilhosamente imperfeitos. E sabe deus como nós precisamos da imperfeição.

Terça-feira, Dezembro 13

Ágnes Nemes Nagy

Pássaro

Tenho um pássaro empoleirado no ombro,
um pássaro-gémeo, um pássaro que nasceu comigo.
Cresceu tanto, ficou tão pesado,
cada passo que dou é uma tortura.

Um peso morto, um peso morto, um peso morto sobre mim.
Devia deitá-lo ao chão - é tenaz,
as suas garras cravam-se no meu ombro
como as raízes de um carvalho.

A um palmo do meu ouvido: o som
do seu horrível coração de pássaro a palpitar.
Se um dia levantar voo
cairei logo por terra.

Tradução de Luís Filipe Parrado.



Lázaro

Erguendo-se, lento, no ombro esquerdo doíam
os músculos, de uma vida inteira.
Sua morte descolando, qual gaze.
Pois ressuscitar é igualmente difícil.

Tradução de Ernesto Rodrigues.
There’s a battle going on between the blue and the grey.

Segunda-feira, Dezembro 12

Only in Russia is poetry respected — it gets people killed. Is there anywhere else where poetry is so common a motive for murder?
Ossip Mandelstam.

Manchas


As manchas do mata-borrão do diário do pároco são uma das primeiras imagens do filme.


Mais tarde, já depois da reconciliação e da morte da Condessa, o pároco deita, sem querer, uma garrafa ao chão e o vinho forma aos seus pés um padrão semelhante. Nada disto é premeditado, faz parte de um método que se dá ao acaso e ao poder imprevisto das imagens captadas por uma câmara.
Como Bresson escreve nas suas Notas: Que poder têm as coisas que conseguimos por acaso!

Uma leve vibração

Talvez os filmes de Bresson sejam sempre filmes de portas janelas e grades ou, pelo menos, de pessoas aprisionadas. O pároco de Ambricourt não tem saída; vemos isso logo nas primeiras palavras do seu diário. Nem na pequena aldeia povoada de gente mesquinha que o despreza, nem no seu corpo débil e doente — tudo é agreste, ele é apenas um junco. O seu desamparo é tão silenciosamente visível que nos faz chorar. No entanto, o pároco aguenta e luta, dir-se-ia que pretende o impossível: suportar o peso de todas as culpas e orgulhos; perdoar a toda a gente (como a mulher de cabelo grisalho). O filme dura quase duas horas e há apenas um breve momento de paz, uma brecha no muro, quando Olivier, o primo de Chantal, leva Claude Laydu na mota até à estação de comboios: o pároco já não é um pároco, é um rapaz franzino e alegre sobre uma mota contra o vento.




«Não quero que você fale assim», bradou a rapariga, que estava curiosamente animada. «Você só começou a falar assim desde que se tornou um horrível não-sei-quê. Sabe muito bem do que estou a falar. O que é que se chama a um homem que queira abraçar o limpa-chaminés?
«Um santo», disse o Padre Brown.
«Julgo», disse Sir Leopold, com um altivo sorriso, «que o que a Ruby quer dizer é um Socialista.»
«Um Radical não é um homem que só coma raízes», observou Crook, com certa impaciência, «e um Conservador não é um homem que faça conservas de geleia. Tão-pouco, garanto-lho eu, um Socialista é um homem que deseje uma noite de convívio social com o limpa-chaminés. Um Socialista é um homem que quer todas as chaminés limpas e todos os limpa-chaminés pagos por tal serviço.»
«Mas que não lhes permitirá», disse o Padre Brown em voz baixa, «serem donos da sua própria fuligem.»


G. K. Chesterton, As Estrelas Cadentes, in Os melhores contos do Padre Brown, 
trad. de Jorge Pereirinha Pires, Assírio & Alvim

Domingo, Dezembro 11


Para fechar a sessão de ontem dedicada a Robert Walser, gostaria de acrescentar alguns factos mais ou menos estatísticos. Primeiro: o texto BASTA! (o último, lido pelo Rui) tem oito copos de cerveja o que equivale a dezasseis palavras; ora, num total de 908 palavras (no original alemão), isso dá um teor alcoólico superior a 17% e diz muito sobre a incapacidade de definir a escrita de Walser segundo parâmetros meramente literários.
Já no final e perante uma conversa em pé e em círculo (alguém disse: "como em Trás-os-Montes" mas a mim aquilo parecia um círculo de índios desejosos de mais chuva e, talvez, até, martelos), contei pelo menos 5 pessoas dispostas a jurar que não só gostam de Walser mas também de Godard.

Sábado, Dezembro 10

Um chinês


(...) Para ser franco, sou um chinês; quer dizer, uma pessoa que considera tudo o que é pequeno e modesto, belo e agradável, e para quem o que é grande e exigente é assustador e horrivel. (...)

Sexta-feira, Dezembro 9

A música

A música é a coisa mais doce do mundo. Adoro notas musicais. Correria mil léguas só para ouvir uma. Muitas vezes, no Verão, quando passeio pelas ruas e ouço o som de um piano vindo de uma casa desconhecida, páro, pronto a morrer logo ali. Gostava de morrer a ouvir um bocado de musica. Imagino isso tão fácil, tão natural, mas claro que é impossível. As notas apunhalam-nos muito suavemente. As feridas que deixam podem arder mas não infectam. Delas jorram melancolia e dor em vez de sangue. Quando as notas páram, tudo se acalma de novo dentro de mim. Então vou fazer os trabalhos de casa, comer ou jogar e não penso mais nisso. Um piano, acho eu, é o que soa com mais encanto. Mesmo nas mãos de um amador. Não é a interpretação que escuto, apenas o som. Nunca poderia ser músico. Porque fazer música nunca seria suficientemente doce, suficientemente inebriante para mim. Ouvir música é, de longe, mais espiritual. A música deixa-me sempre triste mas triste no sentido em que um sorriso triste é triste. Uma tristeza simpática, é o que quero dizer. A música mais alegre não é alegre para mim e a mais melancólica não me toca com particular melancolia ou desânimo. Ao ouvir música, tenho sempre a mesma impressão: falta qualquer coisa. Nunca descobrirei a causa desta suave tristeza, nunca hei-de investigá-la. Não desejo saber o que é. Não desejo saber tudo. Inteligente, como penso que sou, tenho, no entanto, por assim dizer, pouca sede de conhecimento. Desconfio que é por eu ser, por natureza, o oposto de curioso. Sinto-me perfeitamente feliz deixando todas as coisas em meu redor correrem sem preocupar a minha cabeça com o modo como acontecem. De certeza que isto é deplorável e não me ajudará a seguir uma carreira. Talvez. Não tenho medo da morte, por isso também não temo a vida. Vejo que comecei a filosofar. A música é a arte mais estouvada e por isso a mais doce. Os intelectuais nunca a apreciarão mas são os que mais profundamente beneficiam quando a ouvem. Não é possível querer entender e apreciar uma arte. A arte quer enroscar-se em nós. É uma criatura tão terrivelmente pura e autosatisfeita que se ofende quando alguém tenta passá-la à frente. Castiga quem se aproxima com a intenção de se apoderar dela. Os artistas depressa percebem isto. Acham que a sua profissão é lidar com a arte, com aquela que não se deixa tocar por ninguém. É por isso que nunca quis ser músico. Tenho medo do castigo que uma criatura tão justa possa infligir. É bom gostar de uma arte, mas deve-se ter cuidado e não o admitir para si próprio. O nosso amor é sempre mais forte quando não sabemos que amamos. — A música magoa-me. Nem sei mesmo se a amo de verdade. É ela que me encontra onde quer que seja, eu não a procuro. Deixo-a acariciar-me. Mas essas carícias são dolorosas. Como devo dizer? A música é um choro melodioso, uma evocação em notas, um quadro de sons. Não sei dizer com acerto. Por isso é que ninguém leva a sério as minhas considerações sobre arte. Sem dúvida que elas falham o alvo, aliás, como a música, que hoje ainda não me atingiu. Falta qualquer coisa quando não ouço música e quando ouço, então é que falta mesmo qualquer coisa. É o melhor que posso dizer sobre a música.

Robert Walser, 1902 (traduzido em 2005, a partir da versão inglesa)

Aproveitem: a Cristina tem uma belíssima voz de soprano

Amanhã, sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00, os autores deste blogue vão estar no Gato Vadio (rua do Rosário, 281), no Porto, para lerem em voz alta algumas histórias de Robert Walser, um autor muito cá de casa.
Haverá bolos e vinho tinto.

Quinta-feira, Dezembro 8

Teoria da criação literária

Criar dentro de mim um estado com uma política, com partidos e revoluções, e ser eu isso tudo, ser eu Deus no panteísmo real desse povo-eu, essência e acção dos seus corpos, das suas almas, da terra que pisam e dos actos que fazem. Ser tudo, ser eles e não eles. Ai de mim! este ainda é um dos sonhos que não logro realizar. Se o realizasse morreria talvez, não sei porquê, mas não se deve poder viver depois disso, tamanho o sacrilégio cometido contra Deus, tamanha usurpação do poder divino de ser tudo.
O prazer que me daria criar um jesuitismo das sensações!
Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parágrafos meus há que me arrefecem de pavor, tão nitidamente gente eu os sinto, tão recortados de encontro aos muros do meu quarto, na noite, na sombra, (...). Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo – é impossível ocultar-lhes o som – é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente.
Porque exponho eu de vez em quando processos contraditórios e inconciliáveis de sonhar e de aprender a sonhar? Porque, provavelmente, tanto me habituei a sentir o falso como o verdadeiro, o sonhado tão nitidamente como o visto, que perdi a distinção humana, falsa, creio, entre a verdade e a mentira.
Basta que eu veja nitidamente, com os olhos ou com os ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que eu sinta que aquilo é real. Pode ser mesmo que eu sinta duas coisas inconjugáveis ao mesmo tempo. Não importa.
Há criaturas que são capazes de sofrer longas horas por não lhes ser possível ser uma figura dum quadro ou dum naipe de baralho de cartas. Há almas sobre quem pesa como uma maldição o não lhes ser possível ser hoje gente da idade média. Aconteceu[-me] deste sofrimento em tempo. Hoje já me não acontece. Requintei para além disso. Mas dói-me, por exemplo, não me poder sonhar dois reis em reinos diversos, pertencentes, por exemplo, a universos com diversas espécies de espaços e de tempos. Não conseguir isso magoa-me verdadeiramente. Sabe-me a passar fome.
Poder sonhar o inconcebível visibilizando-o é um dos grandes triunfos que não eu, que sou tão grande, senão raras vezes atinjo. Sim, sonhar que sou por exemplo, simultaneamente, separadamente, inconfusamente, o homem e a mulher dum passeio que um homem e uma mulher dão à beira-rio. Ver-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integração nelas, um navio consciente num mar do sul e uma página impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, ed. Assírio & Alvim, pp. 157-158.

As duas partes do cérebro de Enoch Emery

O cérebro de Enoch dividia-se em duas partes. A parte que estava em comunicação com o sangue fazia as cogitações todas, mas nunca se exprimia em palavras. A outra parte estava abastecida de toda a variedade de palavras e frases.

Flannery O'Connor, O coração do Parque (publicado na revista Partisan, vol. 16, Fev. de 1949.
Reescrito e integrado no romance Sangue Sábio), in O Gerânio | Contos Dispersos, Cavalo de Ferro.

Quarta-feira, Dezembro 7


É pouco provável que neve no próximo sábado. No entanto, na minha agenda de bolso está escrito que das 12h46 às 16h18, poderá ser observado um eclipse total da lua. O símbolo do eclipse é um circulo vazio ou, por outras palavras: um zero muito redondo e encantador.
(...) “In that connexion” he said “I recall one superb pun anyway:
‘qui vive la pietà quando è ben morta. . .’ ”

She said nothing.

“Is it not a great phrase?” he gushed.

She said nothing.

“Now” he said like a fool “I wonder how you could translate that?”

Still she said nothing. Then:
“Do you think” she murmured “it is absolutely necessary to translate it?” (...)


Dante and the Lobster (an excerpt), 
by Samuel Beckett (1934)
Como eu gostaria de me esgueirar pela estreita porta de serviço e penetrar nos palácios da literatura e ali deliciar-me, servindo como humilde criado.

Robert Walser, A Rosa. Próximo sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00, no Gato Vadio.
Hoje o priberam falhou o alvo; basta consultar as páginas de economia dos jornais para perceber que a palavra do dia é bazuca.

Terça-feira, Dezembro 6

A partir de Robert Walser

Quando estava a escrever à secretária, apoiava, muitas vezes, a cabeça na mão e sonhava que vivia uma vida diferente. Nada, porém, acontecia de diferente no seu dia-a-dia. Nada, porém, acontecia de diferente no seu dia-a-dia. Nada, porém, acontecia de diferente no seu dia-a-dia.

Segunda-feira, Dezembro 5

Próximo sábado, 17h00, no Porto



Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto.
Destaque para os filmes de José Luis Guerín integrados no IV Ciclo de Cinema Espanhol: Duas Cartas para Ana e Em construção (5 e 6 de Dezembro, às 21h30, no Auditório de Serralves).

Domingo, Dezembro 4

Every generation writes its own kind of bad poetry, but many young poets of today are bad in an intricate and involved way that defies description. Freer and more conscious than any of their predecessors, they seem unable to surmount passivity, which is the very opposite of freedom and awareness. They can be highly formalised, but without any real sense of decorum; extravagantly free, without enjoying their daring; minutely precious, without any true taste for language. At best, they turn around in a cage, all their myths exploded one by one, and keep making up the inventory of the failures they have inherited. At worst, they strike poses and mistake imitation for mask, talking endlessly and uninterestingly about themselves in elaborately borrowed references.

Paul de Man, Critical writings, 1953-1978.

Sábado, Dezembro 3

Cultivar numa estufa distante os dois brancos e incipientes bolbos daquela jovenzinha de quinze anos.
Cultivá-los num vaso de barro, acompanhando a mágica evolução do seu aroma.
E salpicá-los todas as manhãs com água. E ficar sentado todas as tardes a observar o sol a dourar-lhes a pele. E esperar sem pressa, à sombra de qualquer ramo, que irrompam de um golpe as duas opulentas, inevitáveis magnólias.

Francisco Tario, Equinócio.

Sexta-feira, Dezembro 2

A minha mãe entrega-me o dinheiro dentro de um envelope RSF da Vital Aire.

Quinta-feira, Dezembro 1

Uma animosidade inconsciente contra a caneta

Ser um escritor, uma pessoa que usa as mãos para transformar pensamentos em traços no papel, era difícil para [Robert] Walser no mais elementar dos níveis. Na juventude, ele tinha uma letra nítida e bem desenhada de que se orgulhava muito. Os manuscritos que conhecemos desses dias - as versões finais de seus textos - são verdadeiros modelos de bela caligrafia. A caligrafia, entretanto, foi uma das primeiras áreas em que as perturbações psíquicas de Walser se manifestaram. Em algum momento entre os seus trinta e os seus quarenta anos de idade (ele é vago quanto à data), começou a sofrer de cãibras psicossomáticas na mão direita. Atribuía o problema a uma animosidade inconsciente contra a caneta como instrumento de trabalho, e só conseguiu superá-las quando finalmente abandonou a caneta em favor do lápis.
Escrever a lápis era tão importante que Walser batizou o processo de "sistema do lápis" ou "método do lápis"." E o método do lápis significava bem mais que o mero uso de um lápis. (...) Como um desenhista com um bastão de carvão entre os dedos, Walser precisava desencadear um movimento regular e rítmico da mão antes de conseguir entrar num estado de espírito em que o devaneio, a composição e o fluxo do instrumento de escrita se tornavam uma coisa só.


J. M. Coetzee, Mecanismos Internos. Tradução de Sergio Flaksman.

Mensagem de um amigo que recebi via mail e que, pela sua pertinência, partilho com os nossos leitores

Meus caros:

na altura em que nos aproximamos do dia 8 de Dezembro, solenidade da Imaculada Conceição - Rainha e Padroeira de Portugal - mas também do Natal, informamos que temos exemplares de duas obras do maior interesse para todos:

1 - «Portugal reza com Maria. A maravilhosa História da devoção dos portugueses por Nossa Senhora»

http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=14168


Livro em que se dá a conhecer a relação de Fé e devoção do povo português a Maria Santíssima ao longo da nossa secular História + um historial das várias invocações marianas + compilação geral de orações de acção de graças, louvor e de súplica à Virgem Maria, para serem lidas, rezadas e, acima de tudo, meditadas por todos nós. A obra contém, ainda, diversas ilustrações.

2 - «O Segredo para ser Feliz»
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=14148

Conhecedor profundo dos segredos da fé cristã, o Padre Paul O’Sullivan, autor do livro, preocupado com o rumo do mundo, escreveu este livro que ensina aos católicos o caminho da felicidade através da oração e de uma relação de maior proximidade com Deus.

Hoje, quando o País e o Mundo atravessam momentos delicados, desafios de complexa superação que, em última instância, podem levar a muitas dificuldades existenciais no seio das famílias e na mente de cada um de nós, este livro pretende ajudar a ultrapassar estas situações.

Aos que desejam adquirir estas obras, informamos que:
- o vol. 1 - «Portugal reza com Maria» - tem um PVP de 13,70 euros, mas vendemos, por esta via, por apenas 10 euros;
- o vol. 2 - «Segredo para ser Feliz» - tem um PVP de 11,90 euros, mas é vendido, por esta via, por apenas 8 euros;
- a quem desejar os dois volumes (1 + 2), o preço é de 17 euros.

Em todos os casos, os portes de envio, pelos CTT, são sempre oferta. O objectivo não é «vender» os livros, mas permitir a divulgação mais fácil das obras e do seu conteúdo a todos os interessados.
Parece-nos, nestes tempos de dificuldade, uma boa sugestão para oferecer de presente de Natal.
Uma prenda oportuna e muito útil a não perder!
Aguardamos o vosso contacto.
Desejamos, desde já, e se nos permitem, um Santo Natal e um próspero Ano Bom de 2012, com as maiores bênçãos do Menino-Deus e de Sua Mãe, Maria Santíssima.

N. B. - pedidos podem e devem ser feitos por esta via.
(...) Estou junto aos semáforos do Palácio de Cristal, mas o sítio é um bocado diferente. O carro está sujo, eu sei que no jardim há uma mangueira, meto por uma rua à esquerda, saio do carro e dou-lhe uma lavadela rápida, mas depois não consigo sair do jardim, a rua já não existe e ando às voltas como num carrossel. À direita há um caminho estreito, anguloso e muito íngreme; tenho de sair por ali.
O carro transforma-se numa bicicleta, subo com ela ao ombro. Depois a bicicleta volta a ser um carro. (...) A maior parte dos meus sonhos é assim: não merecem a atenção imaginativa de Freud, basta um desenhador mais ou menos hábil com o lápis e a borracha.