Quarta-feira, Novembro 30
O Casamento de Maria Braun, de R. W. Fassbinder, hoje; Xavier, de Manuel Mozos, amanhã. Às 22h00.
Ideia para um documentário curto
Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentares tentam abrir as suas próprias embalagens. Lydia Davis
Terça-feira, Novembro 29
um movimento parado
(...) no nosso barroco falta por completo o movimento musical que se verifica noutros países, sobretudo na Áustria e nos arredores alpinos. Se o movimento é uma das características mais salientes do barroco, temos de ver que esse movimento toma entre nós uma feição especial que o afasta inteiramente do país das valsas. É um movimento parado, uma espécie de imóvel «perpetuum mobile», como diz Santiago Kastner ao referir-se aos ostinati dos compositores portugueses. De facto, a actividade portuguesa é de tipo físico, embora seja determinada pela imaginação, mas há qualquer coisa de estático na emoção portuguesa. O fundo contemplativo da alma lusitana compraz-se na repetição ou na imobilidade da imagem. (...)
Jorge Dias, Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa
Jorge Dias, Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa
Em se tratando da concepção do poema, poucos foram os que, como Ezra Pound, compreenderam a efetiva conexão entre técnica e inspiração. O controverso poeta americano não via aí uma oposição dialética entre ambas, como é vulgarmente entendida, mas uma mecânica complementar: a inspiração como combustível para os diversos modos de complexidade da escrita.
Márcio-André.
Márcio-André.
Segunda-feira, Novembro 28
De quando em vez fazemos teatro, pequenos divertimentos que aos poucos degeneram em farsas até que a professora com um sinal nos diz para parar: A mãe: «Não posso permitir que se case com a minha filha. O senhor é demasiado pobre.» O herói: «A pobreza não é vergonha.» - A mãe: «Pois, pois, palavras leva-as o vento. Quais são as suas perspectivas?» - A namorada: «Mamã, peço-lhe, com toda a consideração que sinto por si, que seja mais gentil com o homem que eu amo.» - A mãe: «Calada! Um dia vais agradecer-me por ter respondido com esta severidade impiedosa. - Diga-me, meu senhor, onde foi que fez os seus estudos?» - o herói (um polaco representado por Schilinski): «Estimada senhora, estudei no Instituto Benjamenta. Perdoe-me o orgulho com que o digo.» - A filha: «Oh, mamã, veja só como ele responde. Que finas maneiras.» - A mãe (severa): «Não me venhas com maneiras. Nos nossos dias já não têm qualquer valor as maneiras aristocráticas. O senhor diga-me, por cortesia: O que foi que aprendeu nesse Instituto Bagnamenta?» - O herói: «Perdão: Benjamenta é como se chama a escola, não Bagnamenta. O que eu aprendi? Pois devo dizer que muito pouco. Mas hoje em dia saber muito já não é importante. A senhora concordará.» - A filha: «Está a ouvir, mamã querida?» - A mãe: «Cala-te, estouvada, não me digas para ouvir ou levar a sério estas tolices. O senhor, um jovem bem-parecido, fazia-me um favor se desaparecesse e nunca mais voltasse.» - O herói: «Atrevem-se a pedir-me tal coisa? - Pois seja. Adeus, vou-me embora.» Ele sai, etc. etc. as nossas pequenas peças aludem sempre à escola e aos alunos. O mesmo aluno vive diferentes destinos, bons e maus, que se entrecruzam coloridamente. Tem êxito no mundo ou é vitima das piores desgraças. As peças acabam sempre com a consagração do serviço humilde erigido em símbolo. A fortuna é serva: eis a moral da nossa literatura dramática.
Robert Walser, Jakob von Gunten. Tradução de Isabel Castro Silva.
Robert Walser, Jakob von Gunten. Tradução de Isabel Castro Silva.
A principal diferença técnica entre o conto e o romance pode resumir-se nisto: a situação é a preocupação principal do conto, enquanto que o personagem é a do romance.
Edith Wharton.
Edith Wharton.
Hitchcock também almoçou com Buñuel. Foi em casa de George Cukor, estava lá uma data de gente famosa, eles ficaram sentados um ao lado do outro, Hitchcock falava de Tristana plano a plano, com verdadeiro entusiasmo. Descreveu a primeira cena depois da amputação: Tristana toca piano furiosamente, a câmara desce até ao chão e vemos que ela só tem uma perna; quando volta ao seu rosto, Tristana é outra mulher, disse Hitchcock.
É de facto nesta altura que o filme mergulha de cabeça para baixo, quer dizer, as personagens principais fazem uma inversão radical do seu comportamento moral. Sem a perna, Tristana é agora uma "mulher honesta" segundo os parâmetros de Don Lope, e dentro dessa honestidade descobre uma força súbita para fazer as "coisas grandes" a que se julgava predestinada — torna-se uma mulher poderosa e ríspida, nos seus olhos brilha uma centelha de êxtase.
Também Don Lope, velho, tropêgo e baço, já não é o mesmo: convida os padres para lanches de chocolate quente e bolos, leva Tristana à igreja — apega-se a esses pequenos rituais pequeno-burgueses como às pantufas e, pelo menos assim me parece, retira deles (e da submissão) mais consolo do que das suas ideias liberais (e tremendamente contraditórias) anteriores.
Cada um a seu modo, e em sentidos contrários, vai o mais longe possível. A moral não é um território hierarquizado, não há compartimentos estanques, tudo é diabolicamente possível.
É de facto nesta altura que o filme mergulha de cabeça para baixo, quer dizer, as personagens principais fazem uma inversão radical do seu comportamento moral. Sem a perna, Tristana é agora uma "mulher honesta" segundo os parâmetros de Don Lope, e dentro dessa honestidade descobre uma força súbita para fazer as "coisas grandes" a que se julgava predestinada — torna-se uma mulher poderosa e ríspida, nos seus olhos brilha uma centelha de êxtase.
Também Don Lope, velho, tropêgo e baço, já não é o mesmo: convida os padres para lanches de chocolate quente e bolos, leva Tristana à igreja — apega-se a esses pequenos rituais pequeno-burgueses como às pantufas e, pelo menos assim me parece, retira deles (e da submissão) mais consolo do que das suas ideias liberais (e tremendamente contraditórias) anteriores.
Cada um a seu modo, e em sentidos contrários, vai o mais longe possível. A moral não é um território hierarquizado, não há compartimentos estanques, tudo é diabolicamente possível.
Domingo, Novembro 27
Sábado, Novembro 26
Todos os filmes são políticos
O título da notícia sobre o surto de malária na Grécia (sem risco de contágio a Portugal) faz lembrar as notícias económicas (mas é com certeza ao contrário, são os discursos económicos que utilizam constantemente palavras/imagens alheias à sua disciplina) e faz lembrar, também, o início impressionante de Viagem a Itália, de Roberto Rossellini:
«A primeira cena do filme: um homem e uma mulher, Alex e Katherine Joyce, interpretados por George Sanders e Ingrid Bergman; ingleses, ricos, emproados, irritantes e desorientados; casados um com o outro; dentro de um carro numa estrada italiana; dois travellings instáveis a preparar o que há-de vir. A cena dura cerca de seis minutos. Katherine assusta-se com um rasto de sangue no vidro do automóvel, haverá o perigo de apanhar malária? Não, são apenas insectos mortos, o perigo é outro, o perigo está dentro deles. No fim deste diálogo de abertura (tão ríspido como os que se seguirão) ela repara, surpreendida, que é a primeira vez que os dois estão sozinhos desde que casaram; Alex responde com um certo enfado "Sim, suponho que sim".»Agora o que salta aos meus olhos não é relação conjugal de Alex e Katherine Joyce, mas a diferença entre a europa do norte e a europa do sul. O medo de apanhar malária.
Sexta-feira, Novembro 25

Naomi Watts plays Marnie (tributo a Alfred Hitchcock, Vanity Fair, 2008)
Os papéis de mulheres complicadas são muito apetecíveis. Catherine Deneuve, por exemplo, gostava de ter feito Marnie (em 64, ela era a jovem Geneviève de Cherbourg, uma principiante). Com um sentido apurado de carreira, Deneuve ainda tentou trabalhar com Hitchcock; houve um almoço em Paris, mas o realizador já estava com alguns problemas de saúde e não aconteceu mais nada entre os dois. Se franzir os olhos, consigo vê-la como Marnie mas prefiro — e talvez Hitchcock também, principalmente por causa da perna falsa — vê-la como Tristana. Logo à noite.
Bibliografia obrigatória
Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos, Assírio & Alvim, 2004.
Robert Walser, A Rosa, Relógio D'Água, 2004
Daniil Harms, A Velha e outras histórias, Assírio & Alvim, 2007
Russell Edson, O espelho atormentado, OVNI, 2008
Virgilio Piñera, Contos Frios, Iluminuras, 1989
István Örkény, Histórias de 1 minuto, Cavalo de Ferro, 2004
Oliverio Girondo, Espantalhos, Língua Morta, 2011
Charles Baudelaire, O Spleen de Paris, Relógio D'Água, 1991
Max Aub, Crimes exemplares, Antígona, 1995
Material: papel e esferográfica.
Mais informações aqui.
Robert Walser, A Rosa, Relógio D'Água, 2004
Daniil Harms, A Velha e outras histórias, Assírio & Alvim, 2007
Russell Edson, O espelho atormentado, OVNI, 2008
Virgilio Piñera, Contos Frios, Iluminuras, 1989
István Örkény, Histórias de 1 minuto, Cavalo de Ferro, 2004
Oliverio Girondo, Espantalhos, Língua Morta, 2011
Charles Baudelaire, O Spleen de Paris, Relógio D'Água, 1991
Max Aub, Crimes exemplares, Antígona, 1995
Material: papel e esferográfica.
Mais informações aqui.
Quinta-feira, Novembro 24
Tríptico de Sônia Maria do Recife
I
Meu Santo Antônio de Itabira
ou de Apicucos
ensina-me um verso
que seja brando e fale de amanhecer
e se debruce à beira-rio
e pare na estrada
e converse com a menina
como se costuma conversar com formigas
besouros
folhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeira
esses assuntos importantíssimos
que não adianta o rei escutar
porque não entende nossa linpim-guapá-gempém.
II
Meu Santo Antônio do Recife
preciso de outro verso bem diferente
mas tirado daquele como um jardim se tira da terra
e todo macio dourado
ágil fosforescente cantábile
para significar a moça
que pouco a pouco se formou ao sol do espelho
e agora está sorrindo
sobre a cordilheira de antepassados
e finca no olhar um ramo
de música, à maneira dos passarinhos.
III
E assim terei celebrado Sônia Maria
Sônia de som e sonho
sonata mozartiana que em modinha
brasileira se ensombra
e vai soar suavíssima no sono
Maria de Maria mariamente
ou de mar de canaviais mar murmurante
Sônia Maria do Recife
nesse ponto de luz tamisada
onde as meninas começam a transformar-se
em nuvem, e as mulheres
meditam sua grave adolescência.
Carlos Drummond de Andrade.
Meu Santo Antônio de Itabira
ou de Apicucos
ensina-me um verso
que seja brando e fale de amanhecer
e se debruce à beira-rio
e pare na estrada
e converse com a menina
como se costuma conversar com formigas
besouros
folhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeira
esses assuntos importantíssimos
que não adianta o rei escutar
porque não entende nossa linpim-guapá-gempém.
II
Meu Santo Antônio do Recife
preciso de outro verso bem diferente
mas tirado daquele como um jardim se tira da terra
e todo macio dourado
ágil fosforescente cantábile
para significar a moça
que pouco a pouco se formou ao sol do espelho
e agora está sorrindo
sobre a cordilheira de antepassados
e finca no olhar um ramo
de música, à maneira dos passarinhos.
III
E assim terei celebrado Sônia Maria
Sônia de som e sonho
sonata mozartiana que em modinha
brasileira se ensombra
e vai soar suavíssima no sono
Maria de Maria mariamente
ou de mar de canaviais mar murmurante
Sônia Maria do Recife
nesse ponto de luz tamisada
onde as meninas começam a transformar-se
em nuvem, e as mulheres
meditam sua grave adolescência.
Carlos Drummond de Andrade.
Call for the lady with the alligator purse
A primeira perversão de Marnie é, de certa forma, exterior ao filme. Alfred Hitchcock queria que fosse Grace Kelly a representar a rapariga com distúrbios: uma princesa muito bela que rouba e tem medo de trovoadas, de homens e de vermelho.
A segunda perversão é que todas as personagens do filme, e não apenas Marnie como o título sugere, têm um lado profundamente sombrio. São todas detestáveis, até a pequena Jessie Cotton.








A segunda perversão é que todas as personagens do filme, e não apenas Marnie como o título sugere, têm um lado profundamente sombrio. São todas detestáveis, até a pequena Jessie Cotton.








strangers talk only about the weather #124
Mais ou menos quarenta minutos de casa até à Restauração: nem um autocarro, pouca gente nas paragens, um dia primaveril.
Quarta-feira, Novembro 23
Ao arrepio do desenvolvimento tecnológico, nos discursos e nos gestos políticos só vejo alavancas e catapultas.
Passarinhos e passarões (uccellacci e uccellini)
Frei Ciccillo: Falcões, falcões, venham, escutem... Venham, escutem...
Falcões: Quem sois? Que quereis?
Frei Ciccillo: Somos criaturas de Deus, queremos falar convosco, criaturas de Deus.
Falcões: Deus? Quem é Deus?
Frei Ciccillo: O criador de todas as criaturas.
Falcões: E por que razão Deus as criou?
Frei Ciccillo: Vós, porque criaste os vossos filhos?
Falcões: Então, qualquer um de nós é Deus.
Frei Ciccillo: Que exagero! Se lhes damos um pouco mais de atenção, abusam logo.
Falcões: E o que quer este Deus de nós?
Frei Ciccillo: Amor!
Falcões: Amor! AMOR!
Pier Paolo Pasolini (1965).
Falcões: Quem sois? Que quereis?
Frei Ciccillo: Somos criaturas de Deus, queremos falar convosco, criaturas de Deus.
Falcões: Deus? Quem é Deus?
Frei Ciccillo: O criador de todas as criaturas.
Falcões: E por que razão Deus as criou?
Frei Ciccillo: Vós, porque criaste os vossos filhos?
Falcões: Então, qualquer um de nós é Deus.
Frei Ciccillo: Que exagero! Se lhes damos um pouco mais de atenção, abusam logo.
Falcões: E o que quer este Deus de nós?
Frei Ciccillo: Amor!
Falcões: Amor! AMOR!
Pier Paolo Pasolini (1965).
Terça-feira, Novembro 22
8
Eu não tenho uma personalidade; eu sou um cocktail, um conglomerado, uma manifestação de personalidades.
Em mim, a personalidade é uma espécie de furunculose anímica em estado crónico de erupção; não se passa meia hora sem que me nasça uma nova personalidade.
Desde que estou comigo mesmo, é tamanha a multidão das que me rodeiam, que a minha casa parece o consultório de uma quiromante da moda. Há personalidades em todas as divisões: no vestíbulo, no corredor, na cozinha, até no W.C.
É impossível ter um momento de trégua, de repouso! Impossível saber qual delas é a verdadeira! Embora me veja forçado a conviver com todas na mais absoluta promiscuidade, não quero acreditar que sejam minhas.
Que género de relação podem ter comigo – pergunto-me – todas estas personalidades inconfessáveis que fariam corar um talhante? Deixarei que me identifique, por exemplo, com este pederasta murcho e cobarde cuja vontade nunca passou da intenção, ou com este cretinóide cujo sorriso é capaz de congelar uma locomotiva?
Fico doente de raiva só de pensar neste bando que se acolhe sob a minha pele. Já que não posso ignorar a sua existência, pretendi que se retirassem para os mais recônditos sulcos do meu cérebro. Contudo, são de uma petulância… de um egoísmo… de uma falta de tacto…
Até as personalidades mais insignificantes se dão ares de transatlântico. Todas, sem qualquer excepção, consideram-se no direito de manifestar um desprezo olímpico pelas outras e, naturalmente, surgem rixas, conflitos de toda a espécie, discussões sem fim. Em vez de confraternizarem, já que têm que viver juntas, pois não senhor!, cada uma pretende impor a sua vontade, sem ter em conta as opiniões e o gosto das restantes. Se alguma tem um pensamento que me leva às gargalhadas, logo aparece outra a propor-me um curto passeio ao cemitério. E se aquela deseja que me deite com todas as mulheres da cidade, esta empenha-se em demonstrar-me as vantagens da abstinência, e enquanto uma abusa da noite e me impede de dormir até de madrugada, a outra desperta-me à primeira hora da manhã e exige que me levante com as galinhas.
A minha vida resulta assim numa gravidez de possibilidades que nunca se concretizam, uma explosão de forças contrárias que lutam entre si e se destroem mutuamente. Tomar uma pequena resolução implica uma tal montanha de dificuldades, realizar o acto mais insignificante exige conciliar tantas personalidades, que prefiro renunciar a tudo e esperar que se cansem a discutir o que fazer comigo, para ter, ao menos, a satisfação de mandá-las todas juntas à merda.
Oliverio Girondo, Espantalhos. Edição Língua Morta.
Eu não tenho uma personalidade; eu sou um cocktail, um conglomerado, uma manifestação de personalidades.
Em mim, a personalidade é uma espécie de furunculose anímica em estado crónico de erupção; não se passa meia hora sem que me nasça uma nova personalidade.
Desde que estou comigo mesmo, é tamanha a multidão das que me rodeiam, que a minha casa parece o consultório de uma quiromante da moda. Há personalidades em todas as divisões: no vestíbulo, no corredor, na cozinha, até no W.C.
É impossível ter um momento de trégua, de repouso! Impossível saber qual delas é a verdadeira! Embora me veja forçado a conviver com todas na mais absoluta promiscuidade, não quero acreditar que sejam minhas.
Que género de relação podem ter comigo – pergunto-me – todas estas personalidades inconfessáveis que fariam corar um talhante? Deixarei que me identifique, por exemplo, com este pederasta murcho e cobarde cuja vontade nunca passou da intenção, ou com este cretinóide cujo sorriso é capaz de congelar uma locomotiva?
Fico doente de raiva só de pensar neste bando que se acolhe sob a minha pele. Já que não posso ignorar a sua existência, pretendi que se retirassem para os mais recônditos sulcos do meu cérebro. Contudo, são de uma petulância… de um egoísmo… de uma falta de tacto…
Até as personalidades mais insignificantes se dão ares de transatlântico. Todas, sem qualquer excepção, consideram-se no direito de manifestar um desprezo olímpico pelas outras e, naturalmente, surgem rixas, conflitos de toda a espécie, discussões sem fim. Em vez de confraternizarem, já que têm que viver juntas, pois não senhor!, cada uma pretende impor a sua vontade, sem ter em conta as opiniões e o gosto das restantes. Se alguma tem um pensamento que me leva às gargalhadas, logo aparece outra a propor-me um curto passeio ao cemitério. E se aquela deseja que me deite com todas as mulheres da cidade, esta empenha-se em demonstrar-me as vantagens da abstinência, e enquanto uma abusa da noite e me impede de dormir até de madrugada, a outra desperta-me à primeira hora da manhã e exige que me levante com as galinhas.
A minha vida resulta assim numa gravidez de possibilidades que nunca se concretizam, uma explosão de forças contrárias que lutam entre si e se destroem mutuamente. Tomar uma pequena resolução implica uma tal montanha de dificuldades, realizar o acto mais insignificante exige conciliar tantas personalidades, que prefiro renunciar a tudo e esperar que se cansem a discutir o que fazer comigo, para ter, ao menos, a satisfação de mandá-las todas juntas à merda.
Oliverio Girondo, Espantalhos. Edição Língua Morta.
Segunda-feira, Novembro 21
Directly from UbuWeb:
«John Cage Centenary (2012) In preparation for the hundred-year anniversary of John Cage's birth, we've quietly been beefing up Cage's audio and films. In particular, we've just added a number of lectures, interviews, and Q&A's with Cage, recorded between 1969 and 1991. There are also several of papers written on John Cage in UbuWeb Papers, as well as a variety of works of his in UbuWeb's Historical section. In fact, there's so much John Cage on Ubu's site that we can't keep up with it.»
Quase todas as manhãs, ainda cedo, eu e Kraus travamos um duelo de palavras sussurradas. Kraus pensa sempre que é seu dever incitar-me a trabalhar. E talvez não se engane ao pensar que eu não gosto de me levantar cedo. Mas sim, eu gosto de me levantar cedo, mas por outro lado acho verdadeiramente soberbo ficar na cama mais algum tempo do que devo. Não dever fazer alguma coisa é por vezes tão apetecível que não podemos impedir-nos de a fazer. E é por esta razão que sinto este amor fundamental por qualquer espécie de obrigação, porque a obrigação permite as alegrias da infracção. Se nenhuma ordem, nenhum dever vigorassem no mundo, eu morreria de fome, de atrofia, de aborrecimento. O que devem fazer é incitar-me, obrigar-me, tutelar-me. Agrada-me como mais não. Mas no fim quem decide sou eu e eu apenas. Atiço sempre um pouco a cólera da lei e quando a vejo então de testa franzida esforço-me por amansá-la. Kraus é o porta-voz de todos os regulamentos do Instituto Benjamenta, e por isso sempre que posso desafio à luta o melhor entre nós alunos. Gosto tanto de implicar que faz medo. Ficaria doente se não pudesse implicar, e para implicar e espicaçar não há ninguém melhor do que Kraus.
Robert Walser, Jakob von Gunten. Tradução de Isabel Castro Silva.
Robert Walser, Jakob von Gunten. Tradução de Isabel Castro Silva.
Domingo, Novembro 20
Se fui devidamente informado das circunstâncias, ela era mais modesta do que aparentava, pois o seu aspecto tinha qualquer coisa de severo, uma virtude que ela acompanhava com uma maneira de pensar suave e indulgente. Ela prometera a mão em casamento a um sapateiro trabalhador mas, aparentemente, um pouco estouvado, uma promessa que, embora tenha sido feita com sincera honestidade, não parecia, contudo, impedi-la de devotar a sua atenção a dois indivíduos bastante curiosos e ainda relativamente jovens, cada um diferente do outro em termos de temperamento, com quem se relacionava em alternância, ora visitando um nos seus aposentos, ora passeando com o outro nesse apartamento espaçoso conhecido por ar livre. Deixem-me chamar àquele que era, acima de tudo, caseiro, Indivíduo Profundamente Sonhador, enquando ao mesmo tempo resolvo dar ao outro, que gostava de sair para passear e distrair-se em boa companhia, o título de Luz do Coração. No seu íntimo, ela dizia a si própria que, na verdade, se sentia inclinada de igual modo para os dois; era, sem dúvida, nesse pé que as coisas se encontravam. E nem um nem outro poderia alguma vez imaginar uma namorada com maiores encantos [...] Robert Walser, Microscript 9
É talvez a minha imaturidade, a minha inocência ou, para dizê-lo de uma forma mais vulgar, a minha tolice que me levou a perguntar a mim mesmo se gostaria de estabelecer relações consigo. Por causa da minha total falta de conhecimentos da vida, chamam-me menino do coro. E de facto ainda não experimentei nada que valha a pena mencionar excepto que, de vez em quando, isto é, muito raramente, olho-me de relance a um pequeno espelho. A si que me pergunta se eu poderia, talvez, uma vez por outra, às nove da manhã, ter beijado com os meus lábios a colherzinha que uma mulher usou para comer, respondo com, digamos assim, serenidade, dirigindo-se a si informalmente [...] Robert Walser, Microscript 408
Sábado, Novembro 19
Abrir caminho ao futuro
Já temperei o peixe e as batatas, daqui a pouco vai para o forno, junto com os bolinhos de côco.
O vinho está no frigorífico. Começou a chover; não contava com chuva mas assim é melhor.
Depois do jantar sentamo-nos, às escuras, a ver Make Way for Tomorrow, de Leo McCarey.
Isto, claro, não é um flash mob.
O vinho está no frigorífico. Começou a chover; não contava com chuva mas assim é melhor.
Depois do jantar sentamo-nos, às escuras, a ver Make Way for Tomorrow, de Leo McCarey.
Isto, claro, não é um flash mob.
Sexta-feira, Novembro 18
(...) Le Tempestaire, há que reconhecer, não é nem um filme de ontem nem um filme de hoje. O que impressiona é a sua profunda poesia, a sua ressonância humana e o extremo equilíbrio da sua composição. É uma obra que demonstra o que poderia ser o cinema se algumas pessoas não estivessem mortas, se outras não estivessem condenadas ao silêncio, se o Estado cumprisse a sua tradição, esquecesse os conselhos dos seus peritos, dos seus contabilistas, dos seus pensionistas, dos seus turiferários e se lembrasse que o sector nacional tem de ser bem gerido produzindo obras compensatórias mas também que os benefícios devem permitir o progresso do cinema.
Henri Langlois| Cahiers du Cinéma, nº24 - 1953 | in catálogo "cinematografia - musicalidade 1"
John Cage & Arnold Schoenberg
Alguns anos atrás quando estudava com Arnold Schoenberg, alguém pediu-lhe para explicar a sua técnica de composição de doze tons. A resposta foi imediata: "Isso não é da sua conta". #X8
Um dia quando estudava com Schoenberg, ele apontou para a borracha do seu lápis e disse: "Esta ponta é mais importante que a outra". Passados vinte anos aprendi a escrever directamente a tinta. Recentemente, quando David Tudor regressou da Europa, trouxe-me uma lapiseira alemã muito moderna. Utiliza qualquer tipo de mina de carvão. Ao pressionar a extremidade da lapiseira a mina fica solta podendo assim ser recolhida, estendida ou substituida por outra. Um afia veio junto com a lapiseira. Este afia oferece não uma mas várias possibilidades. Isto é, podemos escolher a forma de bico que desejamos. Não existe borracha. #180
Um dia perguntei a Schoenberg o que pensava da situação internacional. Ele disse: "O importante é desenvolver o comércio externo". #52
Um dia quando estudava com Schoenberg, ele apontou para a borracha do seu lápis e disse: "Esta ponta é mais importante que a outra". Passados vinte anos aprendi a escrever directamente a tinta. Recentemente, quando David Tudor regressou da Europa, trouxe-me uma lapiseira alemã muito moderna. Utiliza qualquer tipo de mina de carvão. Ao pressionar a extremidade da lapiseira a mina fica solta podendo assim ser recolhida, estendida ou substituida por outra. Um afia veio junto com a lapiseira. Este afia oferece não uma mas várias possibilidades. Isto é, podemos escolher a forma de bico que desejamos. Não existe borracha. #180
Um dia perguntei a Schoenberg o que pensava da situação internacional. Ele disse: "O importante é desenvolver o comércio externo". #52
O mar – que nunca cala, que nunca cessa. O mar, cujas dimensões compreenderíamos com clareza se secasse.
Se secasse, quanto valeria o metro de terreno? E quem, quem o venderia?
A casa do homem rico – a dez mil pés de profundidade.
Francisco Tario, Equinócio.
Se secasse, quanto valeria o metro de terreno? E quem, quem o venderia?
A casa do homem rico – a dez mil pés de profundidade.
Francisco Tario, Equinócio.
Quinta-feira, Novembro 17
Os Pássaros é um dos filmes mais assustadores de Alfred Hitchcock. Uma das razões é porque o mal vem de onde menos se espera. Como diz a senhora Bundy, a velha ornitóloga que entra no restaurante, "os pássaros trazem beleza ao mundo" mas, por uma qualquer desordem desconhecida, também atacam as pessoas de Bodega Bay.
A beleza e a destruição juntas (como em Apolo, mas isso é outra história...) é o que mais me interessa no filme. No entanto, só me interessa porque Hitchcock filmou tudo com enorme rigor técnico. O trabalho delicado com as máscaras dos pássaros e as sobreposições; o tempo justo e ritmico dos planos (a duração longa do plano em que Melanie fuma um cigarro à porta da escola enquanto as crianças cantam uma lengalenga sem fim e os corvos se amontoam, ou então a segmentação dos planos rápidos do ataque no quarto da casa dos Brenner); a ausência de música para puxar o sentimento e o tratamento dos ruídos (e do silêncio perturbador das aves), são a forma cinematográfica mas também a matéria d' Os Pássaros, aquilo que desencadeia as sensações (Apolo outra vez, dual em si mesmo).
Bom, mas deixo essas ideias para desenvolver mais tarde e regresso a Bodega Bay, a casa dos Brenner: Mitch protegeu as portas e as janelas o melhor que pôde, é noite, estão todos na sala à espera de um novo ataque dos pássaros, têm medo. Ora vejam como Hitchcock distribuiu as personagens: Cathy está agarrada a Melanie quando seria mais natural que se agarrasse à mãe, afinal de contas ela acabou de conhecer Melanie; Lydia e Mitch estão na outra ponta, tensos, sob a imagem do pai. No enquadramento há um constrangimento um bocado esquisito que me leva a pressentir, mais do que as insinuações ciumentas de Annie Hayworth, qualquer coisa errada na família Brenner. E isso não me aflige a mim, espectadora do filme, menos do que o ataque dos pássaros.

A beleza e a destruição juntas (como em Apolo, mas isso é outra história...) é o que mais me interessa no filme. No entanto, só me interessa porque Hitchcock filmou tudo com enorme rigor técnico. O trabalho delicado com as máscaras dos pássaros e as sobreposições; o tempo justo e ritmico dos planos (a duração longa do plano em que Melanie fuma um cigarro à porta da escola enquanto as crianças cantam uma lengalenga sem fim e os corvos se amontoam, ou então a segmentação dos planos rápidos do ataque no quarto da casa dos Brenner); a ausência de música para puxar o sentimento e o tratamento dos ruídos (e do silêncio perturbador das aves), são a forma cinematográfica mas também a matéria d' Os Pássaros, aquilo que desencadeia as sensações (Apolo outra vez, dual em si mesmo).
Bom, mas deixo essas ideias para desenvolver mais tarde e regresso a Bodega Bay, a casa dos Brenner: Mitch protegeu as portas e as janelas o melhor que pôde, é noite, estão todos na sala à espera de um novo ataque dos pássaros, têm medo. Ora vejam como Hitchcock distribuiu as personagens: Cathy está agarrada a Melanie quando seria mais natural que se agarrasse à mãe, afinal de contas ela acabou de conhecer Melanie; Lydia e Mitch estão na outra ponta, tensos, sob a imagem do pai. No enquadramento há um constrangimento um bocado esquisito que me leva a pressentir, mais do que as insinuações ciumentas de Annie Hayworth, qualquer coisa errada na família Brenner. E isso não me aflige a mim, espectadora do filme, menos do que o ataque dos pássaros.

Quarta-feira, Novembro 16
Borlas:
Hoje à noite é projectado, no Auditório de Serralves, um dos mais belos filmes de Manoel de Oliveira: Viagem ao Princípio do Mundo. Amanhã, no Passos Manuel, o Cineclube apresenta de novo a obra Filme Socialismo de Jean-Luc Godard cuja exibição foi interrompida na sessão do dia 15 de Setembro, e arranca o pequeno ciclo dedicado a Greta Garbo, na Biblioteca Almeida Garrett. Domingo, chega ao fim o excelente programa (da responsabilidade de Amarante Abramovici e Tiago Afonso) d' O Sabor do Cinema com dois filmes de Paulo Rocha: A Pousada das Chagas e Máscara de Aço Contra Abismo Azul.
Um casal perfeito
(Segundo a melodia Shikuayu)
Eu sou muito tolo, tão tolo,
em todos os assuntos.
Ela é feia, tão feia,
não importa que olhos a vejam.
O tolo e a feia,
estamos bem um para o outro,
eu gosto e ela também.
Entregou-me
o seu formoso coração
e levou o meu.
Fomos os dois feitos
um para o outro.
Um casal perfeito
sem par no mundo.
Chu Lanfang (século XIV). Tradução de Luís Filipe Parrado.
Eu sou muito tolo, tão tolo,
em todos os assuntos.
Ela é feia, tão feia,
não importa que olhos a vejam.
O tolo e a feia,
estamos bem um para o outro,
eu gosto e ela também.
Entregou-me
o seu formoso coração
e levou o meu.
Fomos os dois feitos
um para o outro.
Um casal perfeito
sem par no mundo.
Chu Lanfang (século XIV). Tradução de Luís Filipe Parrado.
Um jovem que se preocupava com a sua posição na sociedade e que estava prestes a casar-se obrigou a futura mulher a prometer deixar-se de golpes de cleptomania. (Uma vez, por exemplo, ela entrou no Piggly Wiggly, pegou numa série de coisas, tentou sair sem pagar, e quando foi apanhada e lhe apontaram, item a item, o que tinha roubado, ela desistiu do que tinha sido mencionado, atravessou a rua, sentou-se no passeio e comeu um frasco de manteiga de amendoim que tinha escapado à atenção do vigilante.) Ela prometeu ao seu futuro marido nunca mais voltar a roubar. Mas alguns anos mais tarde, quando estavam a divorciar-se, contou-lhe que quando foram à joalharia comprar o anel de casamento, deixou-o por um momento enquanto ele comparava dois anéis e, não sendo observada, tinha deitado mão a um relógio de pulso.
Esta singular rapariga era de uma grande beleza. Uma vez um amigo dela, que tinha sido tutor na família real japonesa, dava uma palestra em Santa Maria, Califórnia; ela estava na parte de trás da sala em cima duma mesa, com saltos altos, casaco de pele, e uma rosa vermelha no cabelo preto. A determinada altura, quando os olhos do orador cairam sobre ela e a reconheceram, ela abriu o casaco; por baixo estava completamente nua. John Cage, indeterminacy #93
Esta singular rapariga era de uma grande beleza. Uma vez um amigo dela, que tinha sido tutor na família real japonesa, dava uma palestra em Santa Maria, Califórnia; ela estava na parte de trás da sala em cima duma mesa, com saltos altos, casaco de pele, e uma rosa vermelha no cabelo preto. A determinada altura, quando os olhos do orador cairam sobre ela e a reconheceram, ela abriu o casaco; por baixo estava completamente nua. John Cage, indeterminacy #93
Terça-feira, Novembro 15
[Enquanto prosseguia o meu passeio]
A um bom e honesto cão, cor de asas de corvo, deitado no caminho, dirigi as seguintes palavras brincalhonas: "Nem por sombras te passa pela cabeça, meu maroto, completamente ignorante e sem maneiras como és, a ideia de te levantares e me estenderes a tua pata preta como breu, em cumprimento, apesar de poderes ver pelo meu passo e por todo o meu restante comportamento que sou alguém que durante uns bons sete anos viveu na metrópole e capital do mundo e durante todo esse tempo nunca abandonou a convivência e o amável contacto exclusivamente com pessoas refinadas, nem por um minuto, quanto mais horas, ou até meses e semanas? Em que escola andaste, meu marotão sem maneiras? O quê? E nem sequer mereço uma resposta breve? Ficas para aí deitado e olhas-me impassível e sem pestanejar, imóvel como um monumento? Devias ter vergonha!"
Mas a verdade é que o cão me agradou, com o seu ar soberano e extremamente bondoso, com a sua cordial vigilância, com a calma e tranquilidade bem-humoradas que ostentava; e porque me fitava piscando os olhos tão alegres é que eu lhe falava e, como ele não entendia patavina, podia tomar a liberdade de ralhar com ele, o que, no entanto, de nenhum modo podia ser mal intencionado, como é fácil de verificar pelo tom burlesco do discurso.
Robert Walser, O Passeio (1917). Tradução de Fernanda Gil Costa.
Mas a verdade é que o cão me agradou, com o seu ar soberano e extremamente bondoso, com a sua cordial vigilância, com a calma e tranquilidade bem-humoradas que ostentava; e porque me fitava piscando os olhos tão alegres é que eu lhe falava e, como ele não entendia patavina, podia tomar a liberdade de ralhar com ele, o que, no entanto, de nenhum modo podia ser mal intencionado, como é fácil de verificar pelo tom burlesco do discurso.
Robert Walser, O Passeio (1917). Tradução de Fernanda Gil Costa.
O momento mais feliz
Se lhe perguntar qual das histórias que escreveu é a sua favorita, ela hesita muito tempo e depois diz que talvez seja a história que uma vez leu num livro: um professor de inglês na China perguntou ao seu estudante chinês qual foi o momento mais feliz da sua vida. O estudante hesitou muito tempo. Por fim, sorriu com embaraço e disse que uma vez a sua esposa foi a Pequim e comeu lá pato, e ela falava-lhe disso muitas vezes, então ele teria que dizer que o momento mais feliz da sua vida foi a viagem dela, e comer o tal pato. Lydia Davis
Segunda-feira, Novembro 14
Musicalidade
«Se nas edições anteriores a ideia de coreografia não se reduzia às comédias musicais, nem a teatralidade à representação do teatro ou à presença visível do teatro dentro do filme, trata-se agora de abordar a musicalidade como ela se revela na “mise en scène” dos filmes.
Isso leva-nos a abordar a musicalidade cinematográfica não apenas pela utilização que pode ser feita da música mas também, e sobretudo, pelo tratamento cinematográfico do tempo, quer seja pela montagem, o movimento, o contraponto imagem-som, as rupturas cronológicas, o ritmo, o leitmotiv, a alternância das luzes, etc. (...)»
Começa hoje mais uma edição d' o cinema à volta de cinco artes cinco artes à volta do cinema:
IT’S ALWAYS FAIR WEATHER, de Stanley Donen e Gene Kelly, às 21h30 na Sala Félix Ribeiro.
Isso leva-nos a abordar a musicalidade cinematográfica não apenas pela utilização que pode ser feita da música mas também, e sobretudo, pelo tratamento cinematográfico do tempo, quer seja pela montagem, o movimento, o contraponto imagem-som, as rupturas cronológicas, o ritmo, o leitmotiv, a alternância das luzes, etc. (...)»
Começa hoje mais uma edição d' o cinema à volta de cinco artes cinco artes à volta do cinema:
IT’S ALWAYS FAIR WEATHER, de Stanley Donen e Gene Kelly, às 21h30 na Sala Félix Ribeiro.
duas ou três coisas que eu sei dela

«Trata-se apenas disto: do meu teorema, segundo o qual não há um primum filosófico, também deriva que não se pode criar uma estrutura argumentativa segundo a habitual progressão gradual; pelo contrário, deve-se formar o conjunto a partir de uma série de complexos parciais, mais ou menos do mesmo peso e ordenados concentricamente, ao mesmo nível; porque o que dá a ideia não é a sucessão, é a constelação.»
Aesthetische Theorie, de T. Adorno, citado por Robert Calasso em "O carácter egípcio da arte"
Daquele estupendo caos de trevas, vulcões em erupção, rios fora das margens e enormes plantas venenosas trepando sem lei nem ordem, resta apenas isto: mil e quinhentos naturalistas ingerindo ervinhas sobre toalhas brancas…
Francisco Tario, Equinócio.
Francisco Tario, Equinócio.
Domingo, Novembro 13
Feed the birds
Quem dá comida aos pardais, enxota as pombas. Quem dá comida às pombas, enxota as gaivotas. Nunca vi ninguém a dar comida às gaivotas.
Sábado, Novembro 12
Rádio, de Robert Walser
Ontem liguei um receptor de rádio pela primeira vez. Foi uma maneira agradável, acho, de me convencer que o entretenimento é possível. Ouvimos qualquer coisa que está muito longe, e as pessoas que produzem aqueles sons audíveis falam, por assim dizer, para toda a gente — por outras palavras, elas ignoram por completo o número e as características dos seus ouvintes. Entre outras coisas, ouvi os resultados desportivos de Berlim. A pessoa que os anunciou não fazia a menor ideia da minha atenção, nem sequer da minha existência. Também escutei a leitura de poemas suiço-germânicos que achei, em parte, excepcionalmente divertidos. Quando um grupo de pessoas ouve rádio, interrompe, naturalmente, as conversas. Enquanto estão ocupadas com a audição, o convívio é, por assim dizer, um pouco negligenciado. Esta é uma consequência óbvia e inevitável. Eu e as pessoas sentadas ao meu lado ouvimos um violoncelo a ser tocado em Inglaterra. Havia qualquer coisa de estranho e maravilhoso nisto. Seria uma falta de cortesia não compreender de imediato o triunfo espiritual da inovação técnica. Como foi esplêndido desfrutar da música de piano que chegava de uma distância mágica, balanceando, até mim: a música parecia possuir um certo langor flutuante.
E agora mesmo descubro um anúncio para director, num jornal de referência. Lembro-me como uma vez alguém, a uma hora tardia, afirmou que eu era um completo sucesso — caracterização que, de modo algum, me pareceu lisonjeira — pergunto a mim próprio se não deveria responder ao anúncio. Um lugar de chefia. Que estranho, o modo como pormenores da nossa vida passada podem voltar de repente, por exemplo este incidente menor relativo ao meu estatudo de "pessoa de sucesso". E o modo como me levantei logo do meu lugar, nessa noite, para desafiar quem se saiu com aquela expressão que, tão inadequadamente, me apanhou. "Deve-me uma explicação", gritei na sua direcção. Ele respondeu que apenas desejava mostrar que me considerava uma pessoa extremamente simpática. Ao ouvir a sua resposta, dei-me por satisfeito. Quanto ao cargo de director, são exigidas energia e destreza aos candidatos. Uma educação geral sólida, diz o anúncio, é o principal pré-requisito. Que me ocupe em saber se possuo ou não uma quantidade suficiente do que aqui é pedido, não me surpreende por aí além.
A propósito, alguns dias atrás, a filha de um chefe de família do melhor bairro da cidade perguntou-me: "Gostaria que, no futuro, o tratasse por Röbi?" Esta pergunta foi feita junto a um portão de jardim, e eu acredito que estava certo ao responder afirmativamente. Têm de entender, este anúncio para director faz-me hesitar e, além disso, não considerem, nem sequer por um momento, incompreensível que eu esteja, em segredo, orgulhoso por uma pessoa da fina sociedade achar apropriado dirigir-se a mim. Ter ouvido rádio ontem pela primeira vez enche-me de um sentimento de internacionalização, e esta observação que acabo de fazer é, asseguro-vos, tudo menos modesta.
Vivo aqui numa espécie de quarto de hospital e estou a usar um jornal como apoio da folha em que escrevo este rascunho.
Rádio é o primeiro texto da excelente colectânea Microscripts, traduzido do alemão por Susan Bernofsky. O livro é muito bonito e, segundo sei, a primeira edição esgotou num apíce.
Agradeço a Sam a gentil oferta e dedico a tradução ao Pedro Coelho, como se fosse uma ostra.
E agora mesmo descubro um anúncio para director, num jornal de referência. Lembro-me como uma vez alguém, a uma hora tardia, afirmou que eu era um completo sucesso — caracterização que, de modo algum, me pareceu lisonjeira — pergunto a mim próprio se não deveria responder ao anúncio. Um lugar de chefia. Que estranho, o modo como pormenores da nossa vida passada podem voltar de repente, por exemplo este incidente menor relativo ao meu estatudo de "pessoa de sucesso". E o modo como me levantei logo do meu lugar, nessa noite, para desafiar quem se saiu com aquela expressão que, tão inadequadamente, me apanhou. "Deve-me uma explicação", gritei na sua direcção. Ele respondeu que apenas desejava mostrar que me considerava uma pessoa extremamente simpática. Ao ouvir a sua resposta, dei-me por satisfeito. Quanto ao cargo de director, são exigidas energia e destreza aos candidatos. Uma educação geral sólida, diz o anúncio, é o principal pré-requisito. Que me ocupe em saber se possuo ou não uma quantidade suficiente do que aqui é pedido, não me surpreende por aí além.
A propósito, alguns dias atrás, a filha de um chefe de família do melhor bairro da cidade perguntou-me: "Gostaria que, no futuro, o tratasse por Röbi?" Esta pergunta foi feita junto a um portão de jardim, e eu acredito que estava certo ao responder afirmativamente. Têm de entender, este anúncio para director faz-me hesitar e, além disso, não considerem, nem sequer por um momento, incompreensível que eu esteja, em segredo, orgulhoso por uma pessoa da fina sociedade achar apropriado dirigir-se a mim. Ter ouvido rádio ontem pela primeira vez enche-me de um sentimento de internacionalização, e esta observação que acabo de fazer é, asseguro-vos, tudo menos modesta.
Vivo aqui numa espécie de quarto de hospital e estou a usar um jornal como apoio da folha em que escrevo este rascunho.
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Rádio é o primeiro texto da excelente colectânea Microscripts, traduzido do alemão por Susan Bernofsky. O livro é muito bonito e, segundo sei, a primeira edição esgotou num apíce.
Agradeço a Sam a gentil oferta e dedico a tradução ao Pedro Coelho, como se fosse uma ostra.
Os malefícios da tradução
Por razões que mais adiante serão anunciadas, regresso a Walser. Regressar implica pôr-me no lugar de, refazer o discurso, traduzir. O problema é que para traduzir um pequeno texto de quatro parágrafos, tenho de beber dois cafés e fumar cinco cigarros.
A picture held us captive. And we could not get outside of it, for it lay in our language and language seemed to repeat it to us inexorably. L. W.
Sexta-feira, Novembro 11
Nietzschiana, de Manuel Bandeira
Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
— Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.
— Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.
Parece um tempo de viragem, mas depois do alvoroço tudo se acalma e afinal as coisas apenas mudam um pouco. Uns desaparecem e outros são promovidos — é sempre assim. Para ser promovido é necessário ser múltiplo (fazer parte de muitos círculos e redes sem contudo se ligar demasiado — neste caso, desconfio, "demasiado" é uma palavra que não convém, as ligações devem ser numerosas e um bocado lassas) e ter uma capacidade comercial apurada (imarketing, em que o "i" é "eu" e o resto é uma banca). Cada um terá de se perguntar: o que estou disposto a vender ? o que não estou disposto a vender? Quem não vender nada morre de fome. Se isto se passasse na Rússia antiga, podiamos falar da falência das almas, mas no tempo actual talvez seja mais apropriado esquecer os desgraçados e, com um optimismo digno do casal Arpel, dar as boas vindas às pessoas com drive.
Quinta-feira, Novembro 10
(...) A film by the Straubs is always a way of placing bodies that recite texts in a space; bodies, texts and spaces being almost inseparable.(...) JACQUES RANCIÈRE
Andar a pé
Para as crianças dos pobres, a estrada é no Verão como um quarto de recreio. (...) Malditos sejam os automóveis sibilantes que frios e pérfidos avançam para os jogos das crianças, para o paraíso da infância, e chegam a pôr estes pequenos seres inocentes em perigo de ser esmagados. A ideia tremenda de que uma criança possa de facto ser atropelada por um desses triunfantes monstros mecânicos, quero afastá-la completamente, pois doutro modo a indignação levar-me-ia a declarações rudes, as quais, como é sabido, não levam a grandes resultados.
Às pessoas que passam num automóvel sibilante, lançando nuvens de poeira, mostro sempre um semblante carregado e duro e elas não merecem, realmente, mais. Pensam então que sou um controlador ou polícia civil, encarregue por altas entidades e autoridades de vigiar o trânsito e de registar as matrículas dos veículos para depois fazer uma denúncia. Mas o meu olhar sombrio recai sobre os veículos, sobre o conjunto, e não sobre os ocupantes, que só desprezo por uma questão de princípio e não por razões pessoais. Pois não entendo nem nunca entenderei que se considere um prazer passar acelerando por todas as formas e objectos que o nosso belo planeta exibe, como se um ataque de loucura nos obrigasse a fugir para evitar cair num terrível desespero. De facto, amo a tranquilidade e o repouso. Amo a parcimónia e a moderação e sinto a mais profunda aversão pela pressa e pela precipitação. E não é preciso acrescentar mais nada à pura verdade. Não é por causa destas declarações que deixará de haver automóveis em circulação nem o correspondente mau cheiro que polui a atmosfera e que, seguramente, ninguém aprecia e defende. Seria mesmo antinatural que algum nariz inspirasse com gosto e satisfação aquilo que para qualquer nariz humano normal, mesmo atendendo às mudanças de humor, só pode ser revoltante e nauseabundo. Mas deixemos o assunto por aqui e continuemos com o passeio. Que prazer celestial, benéfico, ancestral e simples o andar a pé, desde que os sapatos e as botas estejam em bom estado!
Robert Walser, O Passeio (1917). Tradução de Fernanda Gil Costa.
Às pessoas que passam num automóvel sibilante, lançando nuvens de poeira, mostro sempre um semblante carregado e duro e elas não merecem, realmente, mais. Pensam então que sou um controlador ou polícia civil, encarregue por altas entidades e autoridades de vigiar o trânsito e de registar as matrículas dos veículos para depois fazer uma denúncia. Mas o meu olhar sombrio recai sobre os veículos, sobre o conjunto, e não sobre os ocupantes, que só desprezo por uma questão de princípio e não por razões pessoais. Pois não entendo nem nunca entenderei que se considere um prazer passar acelerando por todas as formas e objectos que o nosso belo planeta exibe, como se um ataque de loucura nos obrigasse a fugir para evitar cair num terrível desespero. De facto, amo a tranquilidade e o repouso. Amo a parcimónia e a moderação e sinto a mais profunda aversão pela pressa e pela precipitação. E não é preciso acrescentar mais nada à pura verdade. Não é por causa destas declarações que deixará de haver automóveis em circulação nem o correspondente mau cheiro que polui a atmosfera e que, seguramente, ninguém aprecia e defende. Seria mesmo antinatural que algum nariz inspirasse com gosto e satisfação aquilo que para qualquer nariz humano normal, mesmo atendendo às mudanças de humor, só pode ser revoltante e nauseabundo. Mas deixemos o assunto por aqui e continuemos com o passeio. Que prazer celestial, benéfico, ancestral e simples o andar a pé, desde que os sapatos e as botas estejam em bom estado!
Robert Walser, O Passeio (1917). Tradução de Fernanda Gil Costa.
Quarta-feira, Novembro 9
Coisas perdidas
Estão perdidas, mas também não perdidas, estão por aí em algum sítio. A maior parte delas é pequena, duas são maiores, uma é um casaco e uma é um cão. Das coisas pequenas, uma é um anel, uma é um botão. Estão perdidas de mim e de onde eu estou, mas não desapareceram. Estão noutro sítio e, é possível, estão lá para outra pessoa. Mas, se não estão lá para outra pessoa, o anel não está, mesmo assim, perdido para si próprio, apenas não está onde eu estou e o botão, também, apenas não está onde eu estou. Lydia Davis (tradução por conta própria, ligeiramente gaga)
Libertinagem de bolso
— ... os sentimentos estão mais ou menos protegidos.
— Achas?
— Sim, ninguém sabe, ou diz, sinceramente, o que sente. E a ignorância e a mentira, de certa forma, como o pó, protegem uma coisa que só se descobre mais tarde. O desejo é que é preciso libertar.
— Libertar de quê? das imagens? é isso que queres dizer?
— ... sim... talvez... não sei.
— Achas?
— Sim, ninguém sabe, ou diz, sinceramente, o que sente. E a ignorância e a mentira, de certa forma, como o pó, protegem uma coisa que só se descobre mais tarde. O desejo é que é preciso libertar.
— Libertar de quê? das imagens? é isso que queres dizer?
— ... sim... talvez... não sei.
Terça-feira, Novembro 8
definition of Hoist That Rag:
1. The second song on Tom Waits' 2004 album, Real Gone.
2. A sentiment based on the lyrics and tone of that song. To tell some one to 'Hoist That Rag' is to tell them that life is shit, but to stick it out.
1. The second song on Tom Waits' 2004 album, Real Gone.
2. A sentiment based on the lyrics and tone of that song. To tell some one to 'Hoist That Rag' is to tell them that life is shit, but to stick it out.
São estes os milagres
Erasmo está a passear-se pela rua, numa noite de Inverno, sob chuva intensa, quando vê um pequeno retalho de pergaminho impresso - estávamos no dealbar da imprensa - e grita: "Milagre, milagre, uma palavra, uma palavra!" Descobrir uma palavra no chão, numa esquina; descobrir, subitamente, um livro que começa a falar-nos e que pode mudar a nossa vida. São estes os milagres.
George Steiner.
George Steiner.
Segunda-feira, Novembro 7
das palavras
(...) Este é um filme de palavras. E é por isso que é "radical", disse o realizador. Tal como Cosmopolis, Um Método Perigoso "é um filme cheio de diálogos, e isso é muito radical hoje e muito difícil de conseguir financiar", declarou Cronenberg.
e do talento
(...) Tenho operadores de câmara com talento e sem talento. Gosto mais de trabalhar com um cameraman sem talento.
Serguei Paradjanov, numa entrevista publicada na revista A Grande Ilusão (1990) e citada na folha de sala da sessão de ontem.
Serguei Paradjanov, numa entrevista publicada na revista A Grande Ilusão (1990) e citada na folha de sala da sessão de ontem.
Domingo, Novembro 6
Os verdadeiros milagres
O bom do velho cura! Depois de nos ter deixado, vimo-lo levantar voo por sobre o lago, como um morcego. Ia tão absorto nos seus pensamentos, que nem sequer deu pelo milagre. A sotaina ficou molhada em baixo, ele espantou-se.
Max Jacob, O Copo dos Dados. Tradução de Luísa Neto Jorge.
Max Jacob, O Copo dos Dados. Tradução de Luísa Neto Jorge.

Hakop Hovnatanian e Sombra dos Antepassados Escondidos, de Sergei Paradjanov, às 16h00, no auditório de Serralves (XX Momento d' O Sabor do Cinema).
Thomas Struth
(...) quando se entra aqui vê-se um pormenor de um reactor de fusão ["Tomak Asdex. Upgrade Interior", 2009], quando se olha para a esquerda vêem-se duas ou três pequenas imagens a preto de branco de Nova Iorque. E nota-se uma estranha semelhança entre a arquitectura da cidade e a arquitectura de um aparelho científico. Thomas Struth
Sábado, Novembro 5
A sopa de alhos porros
Estão convencidos de que sabem fazê-la, de tal modo ela parece simples, e muitas vezes não lhe dão a devida importância. É preciso que coza entre quinze e vinte minutos e não durante duas horas — todas as mulheres francesas deixam cozer demasiado os legumes e as sopas. E depois, mais vale deitar os alhos porros na panela quando as batatas começam a ferver: a sopa fica com um tom esverdeado e ganha um aroma mais vivo. Alem disso, é preciso dosear bem os alhos porros: dois alhos porros médios são suficientes para um quilo de batatas. Nos restaurantes esta sopa nunca fica em condições: fica sempre cozida demais, demasiado «retardada», triste, morna, e acaba por incluir-se na lista comum das sopas de legumes — de que há falta — dos restaurantes franceses de província. Não, devemos querer fazê-la e fazê-la com cuidado, evitar esquecermo-nos dela ao «lume», para que não perca o sabor. É servida sem nada, ou com manteiga ou natas frescas. Também podemos juntar-lhe uns pedacinhos de pão torrado no momento de servi-la: dar-lhe-emos então um outro nome ou inventaremos um qualquer — deste modo as crianças comê-la-ão com mais vontade que se lhe dermos o nome ridículo de sopa de alhos porros com batatas. É preciso tempo, são precisos anos para reencontrarmos o sabor desta sopa, imposta às crianças sob diversos pretextos (a sopa faz crescer, faz os meninos bonitos, etc.). Não há nada na cozinha francesa que se possa igualar à simplicidade e à necessidade da sopa de alhos porros. Deve ter sido inventada numa região ocidental, numa noite de Inverno, por uma mulher ainda jovem, pertencendo à burguesia local, que, nessa noite, sentiu aversão aos molhos gordos — e a outras coisas mais, sem dúvida — mas sabia-o ela? O organismo absorve esta sopa com satisfação. Digamo-lo sem ambiguidades: não tem a suculência do toucinho, não é sopa para alimentar ou aquecer, não é a sopa magra para refrescar, o corpo sorve-a em grandes tragos, purifica-se, depura-se, embebendo os músculos nesta verdura primitiva. O seu aroma espalha-se nas casas muito rapidamente, é muito activo, vulgar como a comida do pobre, o trabalho das mulheres, o vomitado dos recém-nascidos. Pode não nos apetecer fazer nada e depois, fazer isso, sim, fazer essa sopa: entre estas duas vontades, uma margem muito estreita, sempre a mesma – o suicídio.
Marguerite Duras, “Outside – notas à margem” , trad. Maria Filomena Duarte, Difel.
Marguerite Duras, “Outside – notas à margem” , trad. Maria Filomena Duarte, Difel.
Sexta-feira, Novembro 4
Daniil Harms, amanhã, no Porto
Amanhã, sábado, Daniil Harms está no Porto, no Gato Vadio (Rua do Rosário, 281), a partir das 17h00.
Uma história, duas histórias, muitas histórias para todos.
Uma história, duas histórias, muitas histórias para todos.
Há tantas espécies de tristeza que é difícil a um homem decidir-se por uma delas. Há a tristeza do domingo, a tristeza da alegria, a tristeza da velha com peruca que vende cera.
A primeira é a tristeza de suicídio; a segunda, de blenorragia; a terceira, de crime. E há ainda essa tristeza inofensiva, astuciosa, mas que jamais se cura, que é a tristeza dos portos e dos circos.
Francisco Tario, Equinócio.
A primeira é a tristeza de suicídio; a segunda, de blenorragia; a terceira, de crime. E há ainda essa tristeza inofensiva, astuciosa, mas que jamais se cura, que é a tristeza dos portos e dos circos.
Francisco Tario, Equinócio.
Quinta-feira, Novembro 3
Quarta-feira, Novembro 2
Há palavras extraordinárias. Reparem na sequência de significados de
percalço
s.m.
1. Ganho.
2. Lucro eventual, proventos.
3. [Informal] Transtorno inerente a uma profissão, estado, etc.
Não faz lembrar aqueles presentes que os bonecos do Tex Avery recebem e passado um segundo explodem?
percalço
s.m.
1. Ganho.
2. Lucro eventual, proventos.
3. [Informal] Transtorno inerente a uma profissão, estado, etc.
Não faz lembrar aqueles presentes que os bonecos do Tex Avery recebem e passado um segundo explodem?
A rua Ravignan
«Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio», dizia o filósofo Heráclito. Contudo, são sempre os mesmos que sobem a corrente! Passam, sempre à mesma hora, alegres ou tristes. A todos vós, transeuntes da rua Ravignan, a todos eu dei os nomes dos defuntos da História! Ali vai Agamemnon! Acolá Mme. Hanska! Ulisses é um leiteiro! Pátrocles chega ao fim da rua, e já a meu lado tenho um Faraó. Castor e Polux são as senhoras do quinto andar. Mas a ti, velho trapeiro, a ti que, pela féerica madrugada, vens buscar os restos ainda vivos, quando eu apago a minha forte e boa lâmpada, a ti que eu não conheço, meu pobre e misterioso trapeiro, a ti, trapeiro, dei-te um nome nobre e célebre, o nome de Dostoiévski.
Max Jacob, O Copo dos Dados. Tradução - espantosa, como sempre - de Luísa Neto Jorge.
Max Jacob, O Copo dos Dados. Tradução - espantosa, como sempre - de Luísa Neto Jorge.
Aquilo que resta
Imagens de POUR MÉMOIRE (LA FORGE), de Jean-Daniel Pollet«Num dos planos de Die Donau Rauf, vemos uma criança a esgravatar e a reconstituir um pequeno monte de ossadas que retira da terra. O plano, um dos mais belos da sua vasta filmografia, concentra um dos temas mais importantes da sua obra, o da sedimentação e revelação do passado no presente e a importância da sua preservação. O filme é uma viagem pelo Danúbio e é um dos seus filmes sobre as histórias que a água conta, sobre o trabalho daqueles que vivem do rio e acerca da sua importância histórica e social.
Na década de 70, Peter Nestler realizou, em colaboração com Zsóka Nestler, uma série de filmes educativos para a televisão sueca sobre o modo como se produzem e fabricam as coisas (os tecidos, o vidro, o papel, um órgão de música, sobre a produção metalúrgica). Para além de filmar a "biografia dos objectos", estes documentários de Peter e Zsóka Nestler, como Wie Macht Man Glas (Handwerklich) e o segundo episódio dedicado às técnicas industriais de produção do vidro, mostram de modo exemplar que, para conhecermos um objecto, é fundamental conhecer a história do seu fabrico ao longo dos tempos, perceber a técnica e todas as complexidades que presidem à produção do seu valor.
O filme de Jean-Daniel Pollet é um testemunho "para memória" das técnicas e dos gestos de produção numa antiga forja, nos seus últimos dias de actividade. São dois dias numa forja aberta em 1876.
O filme é uma última homenagem ao trabalho ancestral dos operários que falam dos seus gestos que repetiram durante anos e sobre uma actividade em vias de desaparecer.
Seguimos passo a passo cada uma das fases de fabrico de um objecto: do molde em areia na manhã até ao objecto final à tarde, sem ignorar o momento belo e solene quando a fonte incandescente preenche o molde, expandindo-se.»
Ricardo Matos Cabo | RESÍDUOS (programa de cinema) | sessão 1, hoje, às 19h30, na Cinemateca: DIE DONAU RAUF “Subida do Danúbio” e WIE MACHT MAN GLAS (HANDWERKLICH) “Como se Faz o Vidro (Manualmente)”, de Peter Nestler com a colaboração de Zsóka Nestler; POUR MÉMOIRE (LA FORGE), de Jean-Daniel Pollet)
(...) o dinheiro está em todo o lado, e lutar contra ele é mais difícil do que lutar contra uma ideologia.
Jean-Marie Straub
Terça-feira, Novembro 1
A Corda não é dos meus filmes preferidos de Hitchcock mas noutro dia, ao revê-lo, reparei que havia qualquer coisa estranha que me tinha passado despercebida antes. O filme foi rodado num único cenário — o apartamento pequeno e luxuoso de Brandon Shaw e Phillip Morgan em Nova Iorque — e em sequências longas e ininterruptas, o que condiciona o movimento das personagens no espaço e a sua presença dentro do enquadramento, mas Hitchcock ultrapassa notoriamente a distância considerada conveniente entre as personagens daquele tempo, daquela cidade e daquela classe social.O caso mais extremo é a proximidade entre Brandon e Phillip. É possível ver esse embaraço, por exemplo, na cena em que comemoram a consumação artística do assassínio com um brinde de champanhe: os corpos dos dois rapazes estão ligeiramente sobrepostos — não como estariam na realidade (podem experimentar em casa, de preferência com as taças cheias), ou até num palco de teatro, mas como Hitchcock os quer apanhar pela câmara e insinuar na nossa cabeça (não nos esqueçamos que dois anos antes o realizador tinha feito o seu melhor golpe de contorcionismo ao filmar o célebre beijo/telefonema entre Cary Grant e Ingrid Bergman).
Assim como a posição dos corpos (e refira-se que Brandon não é canhoto como as imagens fazem supor, é com a mão direita que ele acende os cigarros e esconde a pistola dentro do bolso) também o diálogo entre Brandon e Phillip é deliciosamente íntimo, parece que acabaram de sair da cama:— Brandon, how did you feel?
— When?
— During it.
— I don't know, really. I don't remember feeling very much of anything, until his body went limp and I knew it was over.
— And then?
— Then I felt tremendously exhilarated. H-How did you feel?
— Oh, I... I... You don't think the party's a mistake?
— No, it's the finishing touch to our work. It's more. It's the signature of the artists. Not having it would be like, uh... Painting the picture and not hanging it?
Se continuarmos a observar bem todos os planos d' A Corda, descobrimos: raramente alguém está sozinho no enquadramento; é o professor Rupert Cadell quem surge mais vezes isolado. Sempre que se dá conta de algo errado na festa, ou então no fim, depois de se livrar de Brandon, depois de reconstituir (numa sequência magnífica de planos subjectivos) e condenar o crime (mas reparem na partida de Hitchcock: no fim, é ele quem tem a corda nas mãos!), vemos Rupert sozinho. Sendo Hitchcock um tipo que elabora os planos ao milímetro antes de filmar, isso não acontece por acaso.
Talvez o assassínio de David Kentley não seja (para além de um macguffin perfeito) nada mais do que um exercício exibicionista de Brandon para seduzir Rupert, a sua tentativa de formar um verdadeiro trângulo superior e livre de constrangimentos morais? A excitação de Brandon depois do crime e durante a festa é evidente mas é quando enuncia as ideias que aprendeu com Rupert (e que a seu modo distorceu? ou apenas pôs em prática?) que ele mais gagueja. Aos poucos, o professor Rupert Cadell vai-se transformando na personagem principal do filme, é em torno dele que tudo gira: a preparação teórica, o ritual, a descoberta e o julgamento do crime. Cercado e obrigado a reagir, não só aos ímpetos de Brandon mas também às suas próprias ideias, Rupert acaba enredado no crime por pensamento. É isso que nos mostra o último plano do filme: dentro de um triângulo (Brandon consegue de facto estabelecer um triângulo à força, ei-lo), Phillip toca despreocupadamente piano, Brandon bebe, e Rupert, sentado junto à arca/caixão com a pistola na mão, de costas para nós, é um homem derrotado.
Os livros, e as ideias que eles guardam, estão caídos no chão.
Claire Denis, cineasta resistente
Há uma concomitância entre os 25 anos dos Inrocks e a minha filmografia, começámos mais ou menos ao mesmo tempo. Quando a revista apareceu, não existia nada de comparável e ela fez-me muita companhia desde então. Pareceu-me pois sempre normal que os Inrocks existam, mesmo se se trata de um adquirido frágil, e é por isso que estou contente por poder falar antes dos 25 próximos anos. Como muita gente, tenho neste momento medo do futuro. Porque envelheço? Tenho a sensação de que, mais do que viver, nos mantemos à tona.
Fala-se muito da Grécia como calcanhar de Aquiles da Europa e eu penso em Portugal, a biqueira do sapato europeu. Os portugueses foram descobridores, viajantes, Portugal faz parte do meu sentimento do mundo. Este povo resistiu, resiste, mas não está no seu carácter indignar-se, revoltar-se como os gregos. Penso no filme de Manoel de Oliveira, Non ou a vã glória de mandar. Os portugueses resistem surdamente, sem estardalhaço. Este título de Oliveira está presente, para mim, todos os dias. A ideia de ganhar, de mandar, é vã. E dizer «não» é por vezes uma forma de coragem. «Não», quer dizer nada de fitas, nada de gloríola, nada dessa ilusão do mando, dessa patranha da dominação. Eis como imagino o amanhã.
Estamos no mesmo barco, o que acontecer aos Inrocks acontecer-me-á também, embarcámos num navio ideal esperando que ele não se transforme nas galés. Nesse imaginário que possuo de Portugal, existe um ideal sem o qual os portugueses não se teriam lançado a explorar o mundo numa casca de noz. Resumindo, espero que o futuro seja um pouco português.
Para os 25 anos por vir, este excerto de um poema de Fernando Pessoa:
Beber convosco em mares do Sul
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma,
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito!
Ir convosco, despir de mim - ah! põe-te daqui pra fora! -
O meu traje de civilizado, a minha brandura de ações,
Meu medo inato das cadeias,
Minha pacífica vida,
A minha vida sentada, estática, regrada e revista!
Claire Denis em depoimento a Les Inrockuptibles, nº 830, de 26 de Outubro a 1 de Novembro de 2011, por ocasião dos 25 anos da revista, sobre os próximos 25 anos.
Tradução de Osvaldo Manuel Silvestre. Uma prenda pelo nosso 7.º aniversário.
Fala-se muito da Grécia como calcanhar de Aquiles da Europa e eu penso em Portugal, a biqueira do sapato europeu. Os portugueses foram descobridores, viajantes, Portugal faz parte do meu sentimento do mundo. Este povo resistiu, resiste, mas não está no seu carácter indignar-se, revoltar-se como os gregos. Penso no filme de Manoel de Oliveira, Non ou a vã glória de mandar. Os portugueses resistem surdamente, sem estardalhaço. Este título de Oliveira está presente, para mim, todos os dias. A ideia de ganhar, de mandar, é vã. E dizer «não» é por vezes uma forma de coragem. «Não», quer dizer nada de fitas, nada de gloríola, nada dessa ilusão do mando, dessa patranha da dominação. Eis como imagino o amanhã.
Estamos no mesmo barco, o que acontecer aos Inrocks acontecer-me-á também, embarcámos num navio ideal esperando que ele não se transforme nas galés. Nesse imaginário que possuo de Portugal, existe um ideal sem o qual os portugueses não se teriam lançado a explorar o mundo numa casca de noz. Resumindo, espero que o futuro seja um pouco português.
Para os 25 anos por vir, este excerto de um poema de Fernando Pessoa:
Beber convosco em mares do Sul
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma,
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito!
Ir convosco, despir de mim - ah! põe-te daqui pra fora! -
O meu traje de civilizado, a minha brandura de ações,
Meu medo inato das cadeias,
Minha pacífica vida,
A minha vida sentada, estática, regrada e revista!
Claire Denis em depoimento a Les Inrockuptibles, nº 830, de 26 de Outubro a 1 de Novembro de 2011, por ocasião dos 25 anos da revista, sobre os próximos 25 anos.
Tradução de Osvaldo Manuel Silvestre. Uma prenda pelo nosso 7.º aniversário.
Hoje fazemos 7 anos. Como um blogue é um sítio um bocado apertado para fazer uma festa, resolvemos apenas observar uma festa, à distância salvaguardada dos espectadores. O dia obriga necessariamente a uma festa com mortos — pelo menos um —, flores, velas e alguma comida. Conjungando tudo isso chegamos a Alfred Hitchcock e A Corda: o filme que começa com um grito e acaba com tiros, tem champanhe, Poulenc e galinha assada. Quando começar a escurecer.



