Segunda-feira, Outubro 31

Que calmo é o mar revolto, o céu tempestuoso, o fogo no bosque, comparados com a louca, desenfreada, frenética aceleração deste nascer e morrer de homens!

Francisco Tario.

Domingo, Outubro 30

Notas sobre «Voodoo Child», de Jimi Hendrix em Berkeley (1970)

(...)
Mas queria ater-me à electricidade. Sempre me pareceu que o efeito de presença do rock passa pela torrente eléctrica e pelo volume (volume sem torrente eléctrica é Wagner, por exemplo). Em [Jimi] Hendrix isso é também nítido e creio que se «sente», ao assistir a esta peça, que a massa eléctrica desaba sobre o ouvinte, que fica sem grande margem de manobra. É esta, provavelmente, uma das aporias da estética do rock: uma estética da imersão que, contudo, limita poderosamente o espectro de participação do espectador. Digamos que intensifica essa participação num registo expressivo: uma forma de catarse colectiva. O rock produz algo como um «body electric» colectivo, que seria a versão contemporânea do «body politic». É difícil não ver aqui o apelo fortíssimo da presença e, ao mesmo tempo, de esvaziamento do sujeito que a presença, nesta versão, parece induzir. (...) E aí ocorre uma dificuldade inamovível: como produzir um discurso sobre isto? No caso do rock, universo no qual o preconceito anti-intelectual é muito forte, creio que a rejeição de qualquer discurso minimamente interpretativo tem a ver com essa suspeita de que a interpretação dissolve o privilégio da presença. Os melhores escritores sobre rock que conheço (Greil Marcus acima de todos) não produzem tanto interpretação como «redescrição». Como se se esforçassem por produzir um discurso que nos fizesse recuperar a intensidade da experiência. Uma forma de suplemento, na acepção de Derrida. E sempre que um discurso sobre rock vai além disso, parece que se torna ilegítimo. Falo por experiência própria, pois já escrevi sobre rock e senti isso de imediato.

Osvaldo Manuel Silvestre.

Para que vejam como o cinema é uma espécie de hipnotismo

Parece que os tempos difíceis tornaram a Cinemateca Portuguesa mais destemida e mais presente. Fui ao site buscar o link para a programação de Novembro e nem sei o que sublinhar: a imagem do jovem Buñuel (em Histórias do Cinema, Miguel Marias propõe sete filmes de Buñuel, realizados entre 1929 e 1977)? os filmes de Jean Rouch? o programa Resíduos? o cinema à volta de cinco artes, cinco artes à volta do cinema (quem me dera voltar a ver e a ouvir "O Camião")? os filmes maravilhosos que só conheço de nome?

on ne meurt d'amour qu'au cinéma

Não é preciso ler os artigos da Science sobre as artimanhas das cobras pitão, ao ver Os guarda-chuvas de Cherbourg conseguimos perceber que o coração é um órgão que se estende ou encolhe, que se adapta às situações: às vezes não cabe no peito, às vezes não passa de uma pequena noz.
Não tarda nada e estou a reclassificar o musical de Demy na secção cinema científico.

Sábado, Outubro 29

Sessão dupla de Jacques Demy (eixo Cherbourg, Rochefort), logo à noite na rtp2.

Sexta-feira, Outubro 28

Dança moderna de Chaplin,


dedicada ao presidente executivo da Sociedade Central de Cervejas, Alberto da Ponte.

Quinta-feira, Outubro 27

A ESCAVAÇÃO

TRADUÇÃO António Pescada
PÁGINAS 176
ANO 2011
EDIÇÃO 1.ª
PREÇO 16,00 €
ISBN 978-972-608-218-7

A Escavação, obra-prima de Platónov, é um perturbador romance distópico que retrata um grupo de operários que escava os alicerces de um monstruoso edifício: a casa do proletariado, promessa de um futuro risonho convertida num atroz abismo que suga impiedosamente vidas e almas. Violenta crítica à construção do socialismo soviético e negra reflexão sobre o preço do progresso e os sacrifícios aterradores feitos pelo povo em nome de objectivos absurdos, esta obra, escrita em 1930, foi somente publicada na Rússia em finais dos anos 80, devido à censura. Com esta distopia, a Antígona conta agora com três romances do género: Nós, de Evgueni Zamiatine, 1984, de George Orwell, e A Escavação, de Andrei Platónov.

5 de Novembro, 17h00

strangers talk only about the weather #123

Trouxe duas tangerinas para o lanche, pousei-as sobre o Conte de Printemps.

Quarta-feira, Outubro 26

Lista de pêras portuguesas ou tidas como tais:

Pêra «Rosa», pêra «Sete Cotovelos», pêra «Santa Susana», pêra «Bergamota do Douro», pêra «Cabaça», pêra «Parda», pêra «Pintaroxa», pêra «S. Bento de Chaves», pêra «Virgulosa de Inverno», pêra «Bela do Vale Abraão», pêra «Virgulosa do Bispo», pêra «Bela de Múceres», pêra «Ribeirinha» e pêra «Maravilhosa de Inverno».

Rain

Woke up this morning with
a terrific urge to lie in bed all day
and read. Fought against it for a minute.

Then looked out the window at the rain.
And gave over. Put myself entirely
in the keep of this rainy morning.

Would I live my life over again?
Make the same unforgivable mistakes?
Yes, given half a chance. Yes.

Raymond Carver, Where Water comes Together with Other Water, 1983

Terça-feira, Outubro 25

colecção outono/inverno

... Pas une scène historique à la Cecil B. de Mille. Mais dans ce tableau de Delacroix: un ensemble de cris, de larmes, de bruits d'armures et de cheveaux qui aboutit à ces deux femme à droite en bas, pliant le dos sous le choc, et que l'on pourra retrouver, pas les femmes (ou peut-être l'une d'elles si l'idée de figuration se tient) mais le mouvement de ce puissant dos nu et de cette tête renversée de douleur. Le mouvement que l'on pourra retrouver (je ne cherche pas, je trouve, disait Picaso) dans l'immobilitée d'une ouvrière figée par la fatigue, et affalée au café après l'arrivée des gendarmes.

Passion, introduction à un scénario | Jean-Luc Godard

Segunda-feira, Outubro 24

Felizmente tudo isto tinha passado, embora nenhuma delas pudesse acreditar que o pai não voltasse mais. Josefina tivera um momento de terror quando, ao ver descer o caixão à cova, se lembrou de que nem ela nem Constança haviam pedido ao pai licença para tal. Que iria ele dizer quando se visse ali? Era evidente que, cedo ou tarde, acabaria por dar por isso. Sabia sempre tudo. "Enterrado! Quê, raparigas, vocês duas enterraram-me?" Josefina ouvia-lhe a bengala. Oh, que haviam elas de dizer? Que desculpa lhe haviam de dar? Que abominável falta de coração aquilo significava! Era abusar cruelmente da situação de impotência em que um indivíduo se achava. As outras pessoas pareciam considerar aquilo como uma coisa natural. Eram estranhos; admitia-se perfeitamente que não compreendessem que o pai delas era a pessoa menos indicada para se prestar a uma coisa assim. Não, só ela e Constança eram as verdadeiras responsáveis. E a despesa, pensava ela, ao subir para a carruagem hermeticamente fechada. Quando ela lhe mostrasse as contas... Que diria ele então?
Estava a vê-lo completamente transtornado. "E julgam vocês que eu vou pagar as despesas da vossa tola extursão?
- Oh", suspirava a pobre Josefina, "nunca devíamos ter feito isto, Tança!"
E Constança, pálida como um limão, no meio daquelas trevas, dissera, num sussurro medroso: "Ter feito o quê, Fina?
- Deixar en... enterrar o pai assim", disse Josefina quebrantada, pondo-se a soluçar por detrás do lenço novo orlado de preto de que se desprendia um aroma estranho.
"Mas que havíamos nós então de ter feito?" perguntou Constança admirada. "Não podíamos ter ficado com ele em casa, Fina... Não podíamos deixá-lo desenterrado. Pelo menos numa pequena casa como a nossa."
Josefina assoou-se; a carruagem era abafadíssima.
"Não sei", disse ela num desespero. "Como isto é horrível. Acho que devíamos ter experimentado, ao menos por algum tempo. Assim tínhamos a certeza. Mas uma coisa, pelo menos, é certa", e as lágrimas saltaram-lhe outra vez dos olhos - "o pai nunca nos perdoará isto... nunca!"

Katherine Mansfield, "As filhas do defunto coronel". Tradução de João Gaspar Simões.

Cinema com órgãos


É difícil dizer o que é Terra em Transe, precisávamos de mais do que uma boca a falar ao mesmo tempo em sentidos contrários e também uma metralhadora. O filme de Glauber Rocha documenta para fora e para dentro os movimentos de êxtase, o rapto (the Shakespearean rapture). O filme assemelha-se a um corpo em convulsão; não é só Paulo Martins quem vai até ao fim das suas contradições, é também a própria película — a projecção nas condições certas deveria terminar num incêndio.
Ainda não me habituei a estar sentada na sala de Serralves às escuras e não encontrar mais a silhueta de Ângelo de Sousa duas ou três filas à minha frente, inclinando-se para um lado e para o outro, brincando com o guarda-chuva.
É um mistério porque é que gostamos à revelia dos nossos gostos, à revelia do nosso sólido cânone.

Domingo, Outubro 23

"Largueza", disse Mrs. Stubbs. "Dêem-me largueza. Era o que o meu defunto marido estava sempre a dizer. Não suportava nada pequeno. Dava-lhe arrepios. E, por mais estranho que isso pareça, minha querida", - aqui Mrs. Stubbs rangeu e pareceu confiar-se às suas recordações - "foi a hidropisia que o levou desta para melhor. No hospital tiraram-lhe, por mais que uma vez, litro e meio... Parecia mesmo castigo".
Alice ardia em desejos de saber o que é que lhe tinham tirado. Arriscou-se a dizer: "Água, não é verdade?"
Mas Mrs. Stubbs fitou Alice e replicou, significativamente: "Líquido, minha querida, líquido."
Líquido! Alice deu um pulo diante da palavra, tal qual como um gato, e voltou de novo atrás, para cheirar, muito circunspecta.
"Ali o tem!" exclamou Mrs. Stubbs e apontou, dramaticamente, para a cabeça e os ombros, em tamanho natural, de um homem corpulento, com uma rosa branca, murcha, na lapela do casaco, que nos fazia pensar numa rodela de toucinho. Por baixo, em letras prateadas, sob um fundo de cartão vermelho, estavam estas palavras: "Não tenhas medo, sou eu."

Katherine Mansfield, "Na Enseada". Tradução de João Gaspar Simões.
Di Cavalcanti di Glauber Rocha e Terra em Transe, às 16h00, no Auditório de Serralves.

O som do pão quando sai do forno

Pater é uma espécie de prova, ensaio, exercício de bastidores filmado antes do filme. Alain Cavalier faz de presidente da república e convida Vincente Lindon para primeiro-ministro — este é o ponto de partida, a partir daqui eles e os amigos vão discutindo camisas e sapatos, petiscos, ideias políticas. Encontram-se em locais onde habitualmente não vemos os políticos profissionais e tentam também pensar leis diferentes: por exemplo, estabelecer um valor máximo para um ordenado. Mas até que ponto é possível uma certa justiça? Estamos dispostos a persistir ou a ceder? O que é o poder? Como é que ele age sobre as pessoas? O que é que sustenta a desigualdade universal dos homens?

O filme não nos dá respostas, eles só estão a experimentar as personagens, como quem experimenta uma gravata de seda Inès de la Fressange ou um Borgonha, e às vezes até se esquecem do papel, inventam, improvisam, fazem festas à gata, riem-se; às vezes Alain Cavalier é apenas um homem com uma câmara e Vincent Lindon um homem a ser filmado. Mas o carácter fragmentado e não definitivo de Pater dá-nos espaço para pensar, fazer perguntas e rir — precisamente isso que os meios de comunicação destroem por completo, o cinema ainda nos oferece e, neste caso particular, com uma graça formidável: a visita de Lindon à padaria, a cena das raspadinhas, ou o almoço final em que Cavalier derrotado dá a Lindon vencedor a pequena medalha simbólica do poder e em que ambos estão frente a frente e ambos se filmam, bom, estas cenas são simplesmente maravilhosas.

Por isso, em vez de editar o filme em DVD, seria muito mais interessante editar os textos — talvez até seja mais apropriado chamar-lhes anotações de trabalho? — para também nós ensaiarmos à mesa, num bosque, ou no autocarro, à nossa maneira, com o nosso sotaque, os nossos adjectivos, o discurso de tomada de posse, a estruturação de uma lei, os pequenos golpes de distracção, a carta de demissão; para podermos, enfim, perceber, por dentro, o tom de farsa que domina o mundo dos cargos políticos e da passagem familiar do poder.

No fim, Vicent diz: Si c'est un film, c'est que c'est vrai.

Sábado, Outubro 22

Lembrete

Apresentação no Porto do livro "Espantalhos", de Oliverio Girondo (Edição Língua Morta).
Hoje, às 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281).

Com leituras de Carolina Lapa, António Pedro Pombo, Nuno Corvacho, Rui Loureiro, António Pedro Ribeiro, Isabel Rocha, Ana Ribeiro e Sandra Rolão.



8

Eu não tenho uma personalidade; eu sou um cocktail, um conglomerado, uma manifestação de personalidades.
Em mim, a personalidade é uma espécie de furunculose anímica em estado crónico de erupção; não se passa meia hora sem que me nasça uma nova personalidade.
Desde que estou comigo mesmo, é tamanha a multidão das que me rodeiam, que a minha casa parece o consultório de uma quiromante da moda. Há personalidades em todas as divisões: no vestíbulo, no corredor, na cozinha, até no W.C.
É impossível ter um momento de trégua, de repouso! Impossível saber qual delas é a verdadeira! Embora me veja forçado a conviver com todas na mais absoluta promiscuidade, não quero acreditar que sejam minhas.
Que género de relação podem ter comigo – pergunto-me – todas estas personalidades inconfessáveis que fariam corar um talhante? Deixarei que me identifique, por exemplo, com este pederasta murcho e cobarde cuja vontade nunca passou da intenção, ou com este cretinóide cujo sorriso é capaz de congelar uma locomotiva?
Fico doente de raiva só de pensar neste bando que se acolhe sob a minha pele. Já que não posso ignorar a sua existência, pretendi que se retirassem para os mais recônditos sulcos do meu cérebro. Contudo, são de uma petulância… de um egoísmo… de uma falta de tacto…
Até as personalidades mais insignificantes se dão ares de transatlântico. Todas, sem qualquer excepção, consideram-se no direito de manifestar um desprezo olímpico pelas outras e, naturalmente, surgem rixas, conflitos de toda a espécie, discussões sem fim. Em vez de confraternizarem, já que têm que viver juntas, pois não senhor!, cada uma pretende impor a sua vontade, sem ter em conta as opiniões e o gosto das restantes. Se alguma tem um pensamento que me leva às gargalhadas, logo aparece outra a propor-me um curto passeio ao cemitério. E se aquela deseja que me deite com todas as mulheres da cidade, esta empenha-se em demonstrar-me as vantagens da abstinência, e enquanto uma abusa da noite e me impede de dormir até de madrugada, a outra desperta-me à primeira hora da manhã e exige que me levante com as galinhas.
A minha vida resulta assim numa gravidez de possibilidades que nunca se concretizam, uma explosão de forças contrárias que lutam entre si e se destroem mutuamente. Tomar uma pequena resolução implica uma tal montanha de dificuldades, realizar o acto mais insignificante exige conciliar tantas personalidades, que prefiro renunciar a tudo e esperar que se cansem a discutir o que fazer comigo, para ter, ao menos, a satisfação de mandá-las todas juntas à merda.

Oliverio Girondo, "Espantalhos" (Língua Morta, 2011).

O Porto está cheio de ruas tristes

Só passo em Morgado Mateus quando apanho o 303. Por volta das dezanove horas a Neveiros está a fechar, a empregada recolhe o carrinho de gelados da entrada. Apesar do cor-de-rosa garrido, a gelataria é sombria. Ao lado, as prostitutas, quase todas velhas e gastas, esperam. O corpo delas é denso e opaco, parecem saídas de um filme de Fassbinder.

Sexta-feira, Outubro 21



Os políticos na cozinha e na padaria: duas imagens de Pater, de Alain Cavalier.

Estreou ontem no Teatro do Campo Alegre e fica em exibição até à próxima quarta-feira.

Quinta-feira, Outubro 20

Um desejo para o meu filho

Todos desejamos ter um filho inteligente;
no entanto, a inteligência fez-me perder a vida.
Agora quero um menino ignorante e estúpido:
sem dificuldades chegará a ministro.

Su Tong-Po (1036-1101). Tradução de Luís Filipe Parrado.
Quando nos recusamos ao lirismo, preencher uma página torna-se um prova: de que serve escrever para dizer exactamente o que tínhamos a dizer?

Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né

Quarta-feira, Outubro 19

Contracampo por vir

Campo e contracampo ou a ausência do contracampo, a velha aula de Godard — não é só cinema, não é só no filme de Hawks, é no jornal de hoje.

A importância das práticas Marxistas nos tempos que correm


The Big Store, às 18h30, na Biblioteca Almeida Garrett.

O dinheiro

Com mais ou menos dinheiro, sempre vivi como quase-pobre; por isso agora nem me custa muito, feitas as contas pelos números da Pordata, descobrir que pouco (um ordenado mínimo e um palmo) nos afasta do limiar da pobreza — mais ano menos ano chegaremos lá. Nenhum de nós é funcionário público, mas desde reduções de ordenado a despedimentos, temos usufruído de todas as benesses da crise e elas ainda não terminaram. Devia estar preocupada? ao fim de algum tempo as preocupações desfazem-se, felizmente. Sempre vivi preparada para qualquer coisa, pensava que era uma guerra ou uma catástrofe porque sonhava com explosões e ondas gigantes, mas não, era isto.

Terça-feira, Outubro 18

Três boas notícias de rajada: a gingko do Infante já está amarela; a neblina voltou e é fresca; as próximas terças-feiras clássicas do Teatro do Campo Alegre são dedicadas a Chris Marker (hoje é a vez de  La jetée e  Sans Soleil).

Próximo sábado, 22, 17h00. No Gato Vadio, Porto

Sim, o moderno contista que se filia em Tchékhov ou na Mrs Gaskell de Cranford recusa-se a distinguir-se do objecto: funde-se com ele. Eis como o conflito, o drama, a intriga desaparecem em grande parte da obra destes contistas. Realmente, na obra de Katherine Mansfield, em muitos dos seus mais belos contos, não chega a haver acção. Há apenas realidade no sentido puro. Pois que outra coisa é senão realidade o conto Miss Brill que figura neste livro? Uma rapariga vagamente chamada Brill, põe ao pescoço a sua pele ainda polvilhada de naftalina e sai para o jardim público de uma pequena cidadezinha da beira-mar. Senta-se num banco. Lá diante toca uma filarmónica, a seu lado há um casal de velhos silenciosos. Miss Brill vai observando tudo, tudo: as crianças que correm, as aves que voam, os desconhecidos que passam. E ali fica até que um casal de jovens se vem sentar no seu banco e a sacode, desdenhoso. Miss Brill recolhe-se e volta a guardar a pele na caixa com naftalina. É isto a história. Mas o que neste conto importa não é o que decorre, sim o que está: aquela miraculosa realidade vem-se plantar diante de nós tão viva e fresca que ouvimos o próprio som dos instrumentos, que vemos o próprio azul do mar, que sentimos a música triste ou alegre consoante as esperanças ou as desilusões dos que passeiam pelo jardim. Dir-se-á estarmos diante de um quadro e vermos o íntimo não só das pessoas mas das próprias coisas.
(...)
Isto explica [também] que o monólogo do [conto] Criada de Quarto nos faça sentir o que há de mais comovedoramente trivial na vida de uma criada sem termos passado, entretanto, por qualquer episódio objectivo onde a vida dessa mulher nos seja dada em acção dramática. Mansfield não é a própria criada de quarto, mas é tão universalmente humana que pode ser cada um de nós.

João Gaspar Simões, introdução ao volume "Garden Party", de Katherine Mansfield (Portugália, 1943).
— Why the title Low Life?
— The title provides a color, an atmosphere. We like its sound. To begin with, it is a very well known song by Public Image Limited. A post-punk hymn that has united many people from our generation. We work a lot by means of associating ideas, by connections. Low Life are low frequencies, a way of living in which the characters try to escape from the radars of society. It is also the figure of the zombie which is a metaphore for the living dead, of the one who dies and the one who reflourishes. Friendship, love, art, politics, dance... the zombies are those who precede the revolt, who live in a suspended era, there, where the past, present and future combine to fill them with a new life.

INTERVIEW WITH NICOLAS KLOTZ AND ELISABETH PERCEVAL, Statements Collected by Jacques Robert

Segunda-feira, Outubro 17

Domingo, Outubro 16

Ferdydurke

Este foi o fim-de-semana de Ferdydurke nos principais suplementos culturais portugueses, a propósito da primeira edição portuguesa da obra-prima de Gombrowicz, recentemente lançada pela editora 7 Nós. Dois artigos: um no Expresso, por António Guerreiro, e outro no Ípsilon, por José Riço Direitinho. No texto do Ípsilon, José Riço Direitinho refere a origem da edição argentina de 1947, surgida a partir de "uma espécie de tradução colectiva" realizada "com os poucos amigos polacos de Gombrowicz, frequentadores do Café Rex".
Uma das pessoas que contribuiu decisivamente para esta tradução foi o cubano Virgilio Piñera, autor de vários livros fabulosos, entre os quais a antologia Contos Frios, que vivia em Buenos Aires desde 1946. Piñera presidiu ao comité que levou a cabo a tal tradução colectiva do livro, apesar de não dominar o polaco. Mais tarde, no exemplar que dedicou a Piñera, Gombrowicz escreveu: “Outorgo-lhe a dignidade de chefe do Ferdydurkismo sul-americano e ordeno que todos os Ferdydurkistas o venerem como a mim mesmo.”
Enfim, isto anda tudo ligado.

Sábado, Outubro 15

O Cinematógrafo

Os filmes de Robert Bresson já não passam na televisão; longe vão os tempos em que Diário de um Pároco de Aldeia desnorteava o domingo de Páscoa ou então O Carteirista, já não me lembro quando, que gravei numa cassete de VHS e acompanhava as minhas leituras adolescentes de Dostoievski.
Por isso a surpresa é maior: hoje à noite, na rtp 2, Au Hasard Balthazar (22h42) e Mouchette (00h20) põem à prova o nosso coração.

A vida amorosa dos polvos

Fui à estante buscar "Malone está a morrer" (prefiro a tradução literal "Malone morre") para fazer uns sublinhados. É uma edição já um bocado antiga com a capa amarelada do tempo e do pó.  Mal abri o livro encontrei dois papéis perdidos: um cartão de um restaurante de Viana e um recorte de jornal sem data. «Investigadores norte-americanos descobriram que as espécies de polvos Octopus marginatus (da Indonésia) e Octopus aculeatus (da Austrália) conseguem mover-se apenas com dois braços, o que lhes permite utilizar os outros seis para se disfarçarem ante os predadores», diz o primeiro parágrafo; e a notícia vai por aí fora a descrever os movimentos bípedes hidrostáticos das criaturas marinhas.
Malone que me perdoe, mas as artimanhas dos polvos são ainda mais fascinantes do que a literatura.

Sexta-feira, Outubro 14

Greguería orçamental:

as fitas do orgulho nacional servem para condecorar os pacotinhos de leite achocolatado.
Tudo o que se faz parece-me pernicioso e, no melhor dos casos, inútil. Em rigor, posso agitar-me mas não posso agir. Compreendo bem, demasiado bem, as palavras de Wordsworth sobre Coleridge: Eternal activity without action.

Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
Hum, está na hora de mudar de nome. Adeus dias felizes.

Quinta-feira, Outubro 13

Como vê a proposta do fim da gratuitidade dos museus tutelados pelo Instituto dos Museus e da Conservação aos domingos, avançada pelo secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas?

É uma medida periférica e residual, relativamente a uma política de museus dentro da Secretaria de Estado da Cultura (SEC). O seu impacto financeiro, e é essa a sua motivação, é de 2% ou 3% no funcionamento corrente dos museus. Gera 700 ou 800 mil euros. Os números baixarão. E nós próprios, directores de museus, podemos confrontar os nossos resultados das manhãs com os das tardes de domingo, que são pagas, e é metade. Qualquer medida que se tome tem de ter em conta custos e benefícios. E esta penaliza a classe média, média baixa e baixa. É financeiramente irrelevante e é socialmente impactante. Não se ganhando em bilhetes pode ganhar-se com uma boa política de lojas e merchandising ou boas exposições temporárias pagas.

Luís Raposo, Director do Museu Nacional de Arqueologia em entrevista ao DN de hoje.

a widespread public misperception

Chinese philologist Victor H. Mair of the University of Pennsylvania calls the popular interpretation of wēijī in the English-speaking world a "widespread public misperception." Mair argues that while wēi (危) does roughly mean "danger, dangerous; endanger, jeopardize; perilous; precipitous, precarious; high; fear, afraid" (as in wēixiăn 危险, "dangerous"), the polysemous (机) does not necessarily mean "opportunity." The compound noun jīhuì (机会) means "opportunity," but is only a part of it; has numerous meanings, including "machine, mechanical; airplane; suitable occasion; crucial point; pivot; incipient moment; opportune, opportunity; chance; key link; secret; cunning." More importantly, these are "secondary" meanings—according to Mair, only acquires the connotations of secondary meanings (such as "opportunity") when used in conjunction with another morpheme (in this case, in jīhuì); by itself, it does not have these meanings. Mair suggests that in wēijī is closer to "crucial point" than to "opportunity." Chinese word for "crisis", from wikipédia

Quarta-feira, Outubro 12


Enquanto o computador processa os zeros e os uns, dou umas voltas à sala, espreito os cedros do Palácio, tento esquecer a máquina de café avariada, sento-me a pensar na morte da bezerra.
Agora mesmo, ocorreu-me que o melhor sítio para fazer uma homenagem a Jean-Luc Godard não é o Centro Pompidou mas uma estação de serviço. Do outro lado da estrada, o lago Léman.
Em francês diz-se: l'essence du cinéma.
Passeava a uma hora tardia nessa alameda bordejada de árvores, uma castanha caiu aos meus pés.
O barulho que ela fez ao estourar, o eco que despertou em mim, e um choque desproporcional ao incidente diminuto, mergulharam-me no milagre, na bebedeira do definitivo, como se não houvesse mais questões, apenas respostas. Estava ébrio de mil evidências inesperadas, das quais não sabia o que fazer... Foi assim que falhei tocar o supremo. Mas achei preferível continuar o meu passeio.

Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né

Terça-feira, Outubro 11

Bida di gossi é bida mariado!

Em vez de aproveitar a nossa periferia, os políticos portugueses fazem tudo o que podem para nos aproximar do norte da Europa. Felizmente nem todos seguem essa direcção. Noutro dia, num noticiário televisivo, perguntaram a Anthímio de Azevedo o que pensava deste verão prolongado; ele disse que vamos ter de mudar de vida, vamos ter de nos adaptar a um clima tropical com duas estações como em Cabo Verde. Eu já estou pronta.

Segunda-feira, Outubro 10

(...)
Aqui há alguns anos
vi dois sóis.

E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.

Wislawa Szymborska, Elogio dos Sonhos.

Afinal tenho uma lista

Totò, as marionetas, o movimento indisciplinado do público, os recortes do homem do lixo e, claro, as nuvens. Tudo isso atirou o filme de Pier Paolo Pasolini (Che cosa sona le nuvole? 123) directamente para a minha lista de filmes preferidos.

Domingo, Outubro 9

Vertigem

Sábado, Outubro 8

No final do século XVIII, um camponês dos arredores de Paris teve um filho, e este filho, por sua vez, teve um filho, que teve um filho, que também teve um filho, que também teve um filho, sendo que este último filho, na qualidade de campeão mundial, disputava uma partida de ténis no campo principal do Racing Club de Paris, num ambiente carregado de grande tensão e envolto pelo trovejar incessante e vigoroso dos aplausos. No entanto, (como a vida pode ser traiçoeira!), um certo coronel de zuavos sentado numa das arquibancadas laterais sentiu inveja do impecável e electrizante jogo dos dois campeões e, querendo mostrar diante de seis mil espectadores (especialmente à sua noiva, sentada a seu lado) do que era capaz, inesperadamente sacou do revólver e atingiu a bola em pleno ar. A bola explodiu e caiu sobre o campo, e os campeões, repentinamente privados do indispensável objecto, tentaram ainda por algum tempo bater no vazio com as suas raquetas. Ao constatarem, porém, o absurdo dos seus movimentos sem a bola, lançaram-se um contra o outro, com unhas e dentes. Uma ensurdecedora onda de aplausos elevou-se do meio do público.

Witold Gombrowicz, "Ferdydurke". Tradução de Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes.

strangers talk only about the weather #122

Quando vier o frio, vou ficar em casa a beber chá quente e a escrever maluquices sobre o Desaparecido de Franz Kafka e as Relações de Classe de Danièle e Jean-Marie.
Nos dicionários, contemporâneo significa "que é do mesmo tempo, que é do tempo actual ou de hoje"; a palavra funciona dentro de uma escala temporal sem qualquer tipo de julgamento estético.
No entanto, graças ao discurso publicitário (não é apanágio da publicidade e age sobre a língua como a literatura já não ousa fazer), o adjectivo passou a trazer consigo uma série de sentidos estranhos à sua etimologia, tornou-se pretensioso. Assim, quando se fala, por exemplo, de um edifício ou mobiliário contemporâneo, o que interessa sublinhar não é a sua actualidade mas uma certa sofisticação (que se revela essencialmente no preço). Quando um artista se proclama "contemporâneo" também não está a brincar ao senhor de La Palisse, ele reclama uma atitude de arrojo, modernidade (ora aqui está outra palavra que já perdeu o seu pé) e complexidade que, à semelhança dos móveis, pretendem apenas inflacionar a sua cotação no mercado. Por isso, quando ouço na televisão alguém descrever-se como um "artista contemporâneo", recorro às minhas imagens (uma espécie de baralho de tarot excêntrico): fecho os olhos e vejo uma pessoa a caminhar sobre um chão acolchoado de seda com galochas enlameadas nos pés. As galochas foram enlameadas de propósito para  o cliché.

Sexta-feira, Outubro 7


Exposição do Grupo KAMERAPHOTO no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga.
«It didn’t occur to me that there were things beside linear, rational, Socratic thought. In the West, it is an insult is to say, "But that’s illogical!' Here, if you want to devastate a person, tell him he’s ronri-teki — too logical. One of the main ways of communication in Japan is through associative thought. In Japan, something that is too logical is stiff, unnatural, stilted.»

Donald Richie, citado na página da wikipédia dedicada a Edward Seidensticker.

Falsa anatomia

Às vezes o coração dói-me do lado direito.

Quinta-feira, Outubro 6

No parapeito da janela, um canivete, uma baratucha caneta de tinta permanente, de seis zloty, uma maçã, um programa de competições desportivas, fotografias de Fred Astaire com Ginger Rogers, um maço de cigarros opiados, uma escova de dentes, uma sapatilha e, dentro dela, uma flor; um cravo atirado ao acaso. Era tudo. Tão modesto e, ao mesmo tempo, tão poderoso!
Fiquei parado, em silêncio diante daquele cravo. Não podia deixar de admirar a colegial! Que subtileza! Ao atirar a flor para o interior de uma sapatilha suada, em vez de o fazer para um qualquer sapato, porque sabia que a única coisa que não prejudica as flores é o suor do atleta. Ao associar o suor do atleta à flor, impingia uma simpatia pelo seu suor, associando-o a algo perfumado e desportivo. Que golpe de génio! Enquanto jovens retrógradas, ingénuas e previsíveis cultivam azáleas em vasos, ela atirava uma flor para dentro de um sapato, mas não de um sapato qualquer, antes uma sapatilha! E a espertinha, com certeza, fê-lo inconscientemente, por puro acaso!

Witold Gombrowicz, "Ferdydurke". Tradução de Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes.
... el nombre "Go" designa una "conversación manual" o "de las manos", ya que cada jugador va colocando las piezas una por una como palabras en un debate. Cada jugada es una respuesta inteligente a lo expresado anteriormente por el otro. Salvo por la primera movida, uno siempre toma y fortalece la posición propia en relación a la del otro.

Anna Kazumi Stahl, na introdução à tradução espanhola  d' O Mestre de Go
"The question is whether I last that long," he said, as if taking me into his confidence. "It seems strange that I've come as far as I have. I'm not much of a thinker, and I don't have what you might call beliefs. People talk about my responsibility to the game, but that hasn't been enough to bring me this far. And they can call it physical strenght if they like — but that really isn't it either." He spoke slowly, his head slightly bowed. "Maybe I have no nerves. A vague, absent sort — maybe the vagueness* has been good for me. The word means two different things in Tokyo and in Osaka, you know. In Tokyo it means stupidity, but in Osaka they talk about vagueness in a painting and in a game of Go. That sort of thing." The Master seemed to savor the word as he spoke, and I savored it as I listened.

O Mestre de Go, Kawabata, traduzido Edward G. Seidensticker, Vintage, p. 76

__________
* Kawabata utiliza a palavra japonesa bonyari (ぼんや); as traduções francesa e espanhola também.
The skies, clear in the morning, had clouded over. The storm that was to bring floods in both the east and the west of Japan was on its way.



Uma nota do tradutor diz-nos que se trata da tempestade descrita n' As Irmãs Makioka. É a segunda vez que me aproximo do romance de Tanizaki. Lentamente, construo um cerco em redor do livro; esse é também o modo de colocar as peças de Go no tabuleiro.

Quarta-feira, Outubro 5

Primeiro texto de "Espantalhos", de Oliverio Girondo

1

Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem tempo as que pretendam seduzir-me.
Foi esta – e não outra – a razão por que me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios às prestações e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as extremidades de palmípede e os olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma autêntica pluma!
Mal amanhecia, voava do quarto para a cozinha, da sala para a despensa. A voar preparava-me o banho, a camisa. A voar fazia as compras, terminava os seus afazeres.
Com que impaciência esperava que ela voltasse, voando, de algum passeio pelos arredores. Ali, bem longe, perdido entre as nuvens, um pontinho cor-de-rosa. «Maria Luísa! Maria Luísa!»… e em poucos segundos abraçava-me com as suas pernas de pluma, para me levar, voando, a qualquer parte.
Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras habitávamos uma nuvem, como dois anjos, e de repente, caindo em espiral, como uma folha seca, a aterragem forçada de um espasmo.
Que prazer ter uma mulher tão ligeira…, ainda que, de vez em quando, nos faça ver estrelas! Que volúpia passar os dias entre as nuvens… e as noites num só voo!
Depois de conhecer uma mulher etérea, pode achar-se algum atractivo numa mulher terrestre? Existirá alguma diferença entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do chão?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender o interesse de uma mulher pedestre, e por mais que tente, não consigo sequer imaginar que se possa fazer amor senão a voar.

Oliverio Girondo, "Espantalhos". Edição Língua Morta.
Disponível na livraria Poesia Incompleta.

Terça-feira, Outubro 4

Para além dos resultados das bilheteiras


Começam no próximo domingo as sessões d' O Sabor do Cinema (momento XX): Che Cosa Sono Le Nuvole e  Passarinhos e Passarões, de Pier Paolo Pasolini. Seguir-se-ão filmes de Glauber Rocha, Sergei Paradjanov e Paulo Rocha. No auditório de Serralves, domingos, às 16h00. A entrada é gratuita.

Poesia traduzida (edições especiais, colheitas e reservas)

A minha escolha é baseada em dois critérios simples: livros que li e livros que fazem parte da minha biblioteca.
A ordem é arbitrária.

- Iluminações/Uma cerveja no inferno, de Arthur Rimbaud, na versão de Mário Cesariny (Assírio & Alvim, 1989). Das Iluminações é fundamental destacar também a impressionante versão de Maria Gabriela Llansol (Relógio D'Água, 1998).

- Poemas, de Maiakóvski, na tradução já clássica de Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. Uma edição com a chancela da brasileira Perspectiva. Continua a faltar uma grande antologia de Maiakóvski em Portugal.

- Sete rosas mais tarde, de Paul Celan (Cotovia, 1993). Não esqueço o impacto que este livro teve em mim quando o li pela primeira vez. Um livro belo e terrível.

- Do mundo grego outro sol, antologia de poesia grega antiga, com organização e tradução de Albano Martins (Asa, 2002). Infelizmente, não tenho a antologia de Poesia Grega Arcaica, da Maria Helena da Rocha Pereira (custa 50 euros).

- Os Cantos, de Ezra Pound, na versão de José Lino Grünewald. Tenho uma das edições da brasileira Nova Fronteira (2002). Entretanto, a Assírio & Alvim publicou esta mesma tradução em 2005. De Ezra Pound é preciso também não esquecer as suas singulares versões de poesia chinesa clássica, reunidas no volume Cathay, com tradução de Gualter Cunha (Relógio D'Água, 1995).

- Osso a osso, de Vasko Popa, na tradução de Aleksandar Jovanovic (Perspectiva, 1989). Não se trata de uma grande tradução, mas adivinha-se facilmente, sob o texto, a originalidade da poesia de Popa.

- Louvada Seja (Axíon Estí), de Odysséas Elytis, na notabilíssima tradução de Manuel Resende (Assírio & Alvim, 2004). No Posfácio, Manuel Resende inclui uma nota sobre o trabalho de traduzir Elytis. Começa assim: "Tarefa temerosa, esta de traduzir Elytis, sobretudo porque o mesmo acreditava que apenas 20% dos poemas se transmitiam na tradução (e isso mesmo era para ele um obstáculo ou pelo menos um desafio à integração europeia)." Nada mais actual.

- Paisagem com grão de areia, de Wislawa Szymborska (pronuncia-se "vissuava ximborsca"), na tradução de Júlio Sousa Gomes (Relógio D'Água, 1998).

- Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese, na tradução de Carlos Leite (Cotovia, 1997). Inclui, entre muitos outros, o inesquecível poema "Virá a morte e terá os teus olhos" (p. 351).

- livrodepoemas, de E. E. Cummings (assim mesmo, com iniciais maiúsculas), na tradução de Cecília Rego Pinheiro (Assírio & Alvim, 1999).

- Cartas de aniversário, de Ted Hughes, na tradução de Manuel Dias (Assírio & Alvim, 2000). Livro impressionante com a sombra de Sylvia Plath a pairar sobre cada poema, cada verso, cada palavra. O único livro de poemas de Ted Hughes publicado em português.

- Antologia, de Henri Michaux, na tradução de Margarida Vale de Gato (Relógio D'Água, 1999). Michaux é um génio. De leitura obrigatória para quem, como eu, quer aprender a escrever.

- 90 e mais quatro poemas, de Constantin Cavafy (uso a grafia adoptada pelo tradutor), na versão de Jorge de Sena (Centelha, 1986).

- Guarda a minha fala para sempre, de Ossip Mandelstam, na tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra (Assírio & Alvim, 1996). O primeiro livro da longa e incontornável série de traduções da dupla Guerra.

- Canto de mim mesmo, de Walt Whitman, na versão de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim, 1992).

- Spoon River - Uma antologia, de Edgar Lee Masters, na tradução de José Miguel Silva (Relógio D'Água, 2003). Um livro a propósito do qual não quero poupar nos adjectivos: admirável, extraordinário, importante, perfeito. Dos raros livros que não empresto a ninguém.

Selecção disponível aqui. Haverá outras.

Segunda-feira, Outubro 3

Anunciado no cinema e na tv



A primeira tradução para português de "Espantalhos" de Oliverio Girondo, já está disponível na livraria Poesia Incompleta. Uma edição Língua Morta.
Pedidos para poesia.incompleta@gmail.com

Domingo, Outubro 2

Histórias de fantasmas

Foi a meio da conversa, queria falar dos sentimentos que, apesar de já não existirem, continuamos a sentir — uma moideira que se insinua. Calei-me para ganhar tempo para explicar os sintomas e foi então que me apercebi da semelhança com os membros amputados; algures no nosso corpo existe ainda uma imagem do que já desapareceu e essa imagem afecta o sistema nervoso como se fosse a coisa real. Assustada, apaguei o cigarro e não disse mais nada.

In the realm of the shõsetsu

«Mr. Kawabata has described The Master of Go as "a faithful chronicle-novel". The word used, of course is not "novel" but shõsetsu, a rather more flexible and generous and catholic term than "novel". Frequently what would seem to the Western reader a piece of autobiography or a set of memoirs, somewhat embroidered and colored but essentially nonfiction all the same, is placed by the Japanese reader in the realm of the shõsetsu

Edward G. Seidensticker na Introdução à tradução d' O Mestre de Go, de Yasunari Kawabata.

Sábado, Outubro 1