Sexta-feira, Setembro 30

Uma vez, quando estava em Ann Arbor com Alexander Smith, disse que uma das coisas de que gostava na botânica é que ela estava livre dos sentimentos de inveja e egoísmo que infestam as artes; quanto mais não fosse por essa razão, daria a minha vida para viver de novo e ser botânico em vez de músico. "Isso mostra como sabes pouco sobre botânica", disse ele. Mais tarde na conversa calhou mencionar o nome de um micologista ligado a uma outra universidade de Midwestern. Incisivamente, Smith disse: "Não menciones o nome desse homem na minha casa." John Cage, indeterminacy #115

strangers talk only about the weather #121

Estão previstos 29° para amanhã. O bom tempo é a única coisa gloriosa que contraria o discurso dominante de crise, pobreza e afundamento. Felizmente, os governos ainda não criaram um ministério da meteorologia. Das Leben findet sich aus Harmonie der Zeiten, escreveu Scardanelli em alemão.

Quinta-feira, Setembro 29

Consideremos

Consideremos o camponês que transforma o chapéu de palha na sua namorada; ou a velha que transforma um candeeiro de pé no seu filho; ou a jovem que impôs a si mesma a tarefa de raspar a sua sombra de uma parede…

Consideremos a velha que usa línguas de vaca fumadas como sapatos e que atravessou a pradaria colhendo excrementos de vaca no avental; ou o espelho escurecido pelo tempo e que foi oferecido a um cego; o mesmo cego que passa as noites a olhar-se ao espelho, entristecendo a sua mãe, convencida de que o filho se perdeu longamente na vaidade…

Consideremos o homem que fritou rosas para o jantar, cuja cozinha cheira a jardim de rosas queimado; ou o homem que se disfarçou de traça e comeu o próprio sobretudo, e que para sobremesa serviu a si mesmo um gelado de chapéu…

(Tentativa de tradução de Let us consider, de Russell Edson.)

Take Care of Yourself (Proof-reader), 2007 © Sophie Calle.

Em Braga

Por duas vezes lembrei-me de William Carlos Williams: na exposição do Grupo KAMERAPHOTO e em frente a uma parede do Mosteiro de Tibães.

Quarta-feira, Setembro 28

De um mail enviado por um amigo

(...)
Tive mais um dos meus sonhos esquisitos. Estavam uns gajos numa esplanada e começaram a chover dedos. Diz um gajo:

- estão a chover dedos. o são pedro deve estar a arrumar os restos da criação, as peças que sobraram.
- pois estão a chover dedos - diz o outro. - Olha a minha chávena de café. E mostra a chávena de café com um dedo lá dentro.
- porra, entornou-te o café todo.
- o pior não é isso: sujou-me a camisa para a entrevista.
nesse momento, cai um par de sapatos. um sem abrigo corre para o par de sapatos e grita, desolado:
- ora foda-se: estão cheios de pés lá dentro.
então, começam a cair caras:
- olha também caem cabeças de nabo - diz alguém
- e tomates e pepinos - diz outro, facecioso.
enfim, estavam a cair do céu os mais diversos pedaços de pessoas, era o que era.
(...)

As senhoras aproveitam

No autocarro pratica-se o comentário político de um jeito rude, sem palavras adequadas, sem metáforas, sem parábolas. O 401 aproximava-se do fim da linha; à minha frente, de costas, um casal discutia. Falava principalmente ele, com voz grave, e gesticulava — as mãos eram pequenas e fortes. Só quando já estava à beira da porta e eles se levantaram é que percebi: "uma velha reformada" anda a "oferecer-se a 3 e 4 euros" e ela (a mulher) não arranja trabalho. "As senhoras aproveitam", disse a mulher. "Devia dar-lhe um ataque, à velha", disse o homem antes de sair.

Terça-feira, Setembro 27

"ele adorava chinesices"


Fotografias (provas) de Pedro Letria, no Museu D. Diogo de Sousa, Braga.

O chão

Para o Charles Simic

O chão é algo contra o qual temos que lutar. Embora pareça uma simples plataforma para a humana postura, é aquele lugar sobre o qual os homens caem.

Não tenho vertigens. Elevo-me solidamente como uma torre, um farol; o pálido raio dos meus sentidos fluindo do meu rosto.
Mas tivesse eu vertigens e estatelava-me no chão; o meu rosto contra o chão, a minha atenção sangrando por entre as fendas do chão.

Querido lugar horizontal, não quero ser um tapete. Não arranques da difícil cabeça, este oscilante bolbo de assombro e sonho.

(Tentativa de tradução de The Floor, de Russell Edson.)

Segunda-feira, Setembro 26

strangers talk only about the weather #120

Por este andar, os poetas vão ter que transformar a melancolia do outono numa coisa mais ligeira.

Chega esta semana



Reservas e pedidos para a livraria Poesia Incompleta (clicar aqui).

Domingo, Setembro 25

A morte de uma mosca

Era uma vez um homem que se disfarçou de mosca e que foi pelo bairro depondo os seus excrementos.
Bem, ele tem que fazer qualquer coisa, não é? Disse fulano a sicrano.
Claro que sim, disse de volta sicrano a fulano.
Então, para quê tanto espalhafato? Disse fulano a sicrano.
Quem está a espalhafatar? Estou apenas a dizer que se ele não descer da parede daquele prédio a polícia terá que o abater.
Ah, isso, claro, não há nada mais bonito do que uma mosca morta.
Adoro moscas mortas, o modo como me fazem lembrar os indivíduos que encontraram o seu destino.

(Tentativa de tradução de The Death Of A Fly do grande Russell Edson.)

Sábado, Setembro 24

QC PASSED 06

Tenho um daqueles gatos que acena, como no filme de Chris Marker; mas este é de plástico dourado e é de uma loja de chineses. Quando a casa está em silêncio, o som do movimento do braço esquerdo parece o pêndulo de um relógio apressado: 120 movimentos por minuto. Deve ser esse o milagre da economia chinesa; o gato é um boneco mas a operária da cidade da lingerie é obrigada a fazer 400 peças por dia.

Quinta-feira, Setembro 22


Há quanto tempo não vou a Braga?
Ao entrar no google, uma seta azul aponta para o canto superior esquerdo do ecrã: + Tu. A tecnologia continua a valorizar demasiado o êxito, a hierarquia vertical e a adição. Como é que este "eu" constantemente promovido (mesmo que só de forma simbólica) poderá lidar com o "eu" que se vê aflito para não fracassar todos os dias?

Quarta-feira, Setembro 21

O ilusionista (de Sylvain Chomet) entra distraído num cinema; está a ser projectado O meu tio e a sala está vazia. No seu top 10, na página da Criterion, Pedro Costa diz: «In a normal world, one would go out and walk into just any theater to see a film by Jacques Tati. Or Chaplin.» Claro que um mundo normal é coisa que não existe, nem tão pouco essas quaisquer salas de cinema. E, no entanto, é em Tati que penso quando páro nos semáforos, quando observo os magotes de turistas à volta dos monumentos, quando entro num banco ou nas lojas tão modernas limpas e transparentes,...
Tudo comunica, como explica Madame Arpel.

Terça-feira, Setembro 20

Terra sangrenta

Chamam-lhe Pale of Settlement (Черта́ осе́длости, chertá osédlosti, em russo; e דער תּחום-המושבֿ, der tkhum-ha-moyshəv, em yiddish) o que de forma algo livre podemos traduzir por Área de Residência. Trata-se de uma região rigorosamente delimitada da Europa Oriental na qual, desde os finais do século XVIII até à Segunda Guerra Mundial, se fixou, com proibição de habitar noutras paragens, um conjunto importante de comunidades judaicas, até aí errantes, com as quais só a pequeníssima parte da primitiva população se dissolveu. Servindo-nos de um mapa atual, podemos dizer que ela se estendia desde o leste da Polónia até à parte mais ocidental da Rússia europeia, integrando ainda a Lituânia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Moldávia. Ali se foi erguendo um microcosmos cultural muito próprio, fundado numa sociedade particularmente dinâmica em volta da qual cedo confluíram, todavia, os fantasmas mais negros do antissemitismo. Foi em volta deste território que Timothy Snyder desenvolveu o trabalho de investigação do qual resultou Bloodlands: Europe between Hitler and Stalin (Basic Books).

Leio este texto de Rui Bebiano, no blogue Terceira Noite, e ocorre-me de imediato um nome: Bruno Schulz. E logo de seguida uma cidade: Drohobycz (45.000 habitantes antes da Segunda Guerra, duas refinarias de petróleo, florestas e colinas "com polacos, ucranianos e judeus lado a lado ou misturados, ou talvez nem uma coisa nem outra". E um livro terrível e muito belo: As Lojas de Canela, na tradução de Aníbal Fernandes.

- Então? - (esta pergunta neutra é do velho professor).
- Até Novembro vão liquidar-nos a todos - respondeu ele.
- Liquidar? Quem?
- Nós, judeus.
- Liquidar? O que quer isso dizer?
- Liquidar.
Chiu, caluda, silêncio. algo de misterioso está a acontecer, temos à nossa frente um escritor cinquentão ajoelhado diante do altar da arte, criando, meditando na sua obra-prima, na sua harmonia, precisão, beleza, espírito e superação; e temos também um especialista que se revela um profundo conhecedor da obra do autor, e é então que a obra é revelada ao mundo e chega às mãos do leitor - e tudo aquilo que começara com grandes sacrifícios e total dedicação será recebido em partes, entre telefonemas e costeletas de porco. Aqui temos o escritor que, com alma, coração e sofrimento. oferece um alimento - e ali um leitor que não está interessado em recebê-lo e, mesmo que o estivesse, seria de forma negligente, até que o telefone tocasse. As pequenas realidades da vida matam-nos. Sentimo-nos como alguém que, tendo desafiado um dragão, foi encurralado num canto por um cãozinho pequinês.

Witold Gombrowicz, "Ferdydurke". Tradução de Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes.

Segunda-feira, Setembro 19

HISTÓRIAS DO CINEMA é uma nova rubrica de programação explicitamente concebida e anunciada como um binómio: dum lado, um investigador de cinema – historiador, crítico, ensaísta, podendo também tratar- se de realizador ou técnico, por exemplo; de outro, um autor ou um tema histórico abordado pelo primeiro. Ao longo de cinco tardes e em torno de cinco filmes (ou em cinco sessões, com número variável de obras projectadas), o investigador discorrerá e conversará sobre o tema, numa sequência de encontros que são antes de mais pensados como experiência cumulativa.

Para além desta invariância – a relação entre um convidado e um tema – nada mais desta rubrica será fixado ou formatado, pretendendo- se que cada programa exprima, no âmbito como no modo, o que pode justamente ser único na relação em causa. Sendo uma alternativa à tradicional “carta branca”, não é uma soma de conferências nem um “curso livre”, podendo livremente ser visto como tal. É um programa de filmes e é também um convite a uma das possíveis leituras ou contextualizações dele. Remete para a História sem que tenha de ser sempre um acto de historiador. E, se não deixa de evocar Godard e o seu hoje famoso “Histoire(s) du Cinéma”, é apresentado como experiência de trabalho, ostensivamente efémera e parcelar, que a ausência do parêntesis (em relação àquele título) também quer acentuar.

Para abrir a rubrica, Bernard Eisenschitz apresentará cinco programas dedicados a Chaplin. Um dos maiores historiadores actuais fala- nos de um dos maiores realizadores de cinema de sempre, abordando- o exactamente por esse ângulo, ou seja, como realizador. Se a grandeza de Chaplin é uma evidência, é provável que essa dimensão o seja afinal muito menos do que se espera ou do que muitas vezes se faz crer. O homem que corporiza o burlesco cinematográfico, o actor genial, o ícone cinematográfico supremo ou aquele que fez da sua relação com a América um caso político, não é sempre ou necessariamente reconhecido nessa primeira dimensão. O tema central deste programa é a “mise en scène” chapliana.

EISENSCHITZ / CHAPLIN | De 19 a 23 de Setembro, ao fim da tarde, na sala Luís de Pina.
Aquilo que define a literatura é uma utopia, uma ideia generosa de partilha entre as diferentes pessoas do mundo que leem livros. A ideia de humanidades é a ideia de fazer amigos através dos livros. Foi o que me aconteceu no Brasil. Nunca pus os pés no Brasil antes de publicar os livros sobre Machado. Hoje tenho vários amigos que eu fiz através dos livros que publiquei. Talvez tenha contribuído para mostrar que muito do que se faz no Brasil sobre Machado de Assis está dominado por uma ideia liquidadora, a de que temos que primeiro conhecer o Brasil para depois conhecer Machado de Assis. Minha experiência de leitor prova exatamente o contrário.

Abel Barros Baptista.

Domingo, Setembro 18

Ainda tenho as marcas dos cortes nas mãos e nos braços. Escolhi as vinhas do fundo: o cheiro das uvas já a fermentar, da terra e da hortelã; os ruídos do tractor e dos trabalhadores ao longe: o calor; o cansaço — tudo isto tem uma força e uma rudeza que me fazem bem. «É o que eu preciso», penso enquanto parto o pão, mas — reparo — na outra mesa, um dos homens contratados parece o Pierre Clémenti e já é demasiado tarde para mudar de vida.

Sexta-feira, Setembro 16


Não se brinca com o amor, de Alfred de Musset, pelos Artistas Unidos.
Estreia hoje no Teatro Viriato, em Viseu.

Quarta-feira, Setembro 14

Façam o favor de anotar a seguinte dissertação como trabalho de casa: "Por que é que a poesia do grande poeta Juliusz Slowacki está impregnada de uma beleza imortal que a todos encanta?"
Neste ponto da prelecção, um dos alunos levantou-se e gemeu:
- Pois a mim, ela não encanta! Não me interessa! Não consigo ler mais que duas estrofes sem ficar farto! Meu Deus, socorro! Como pode ele encantar-me se não me encanta?
Dito isto, voltou a sentar-se com os olhos arregalados e fixos no chão, como se olhasse o abismo. A ingénua confissão aturdiu o professor.
- Silêncio, pelo amor de Deus! - exclamou. - Vou dar uma nega a Galkiewicz. Galkiewicz, você quer acabar comigo? Talvez você não tenha consciência do que está a fazer.
GALKIEWICZ
Mas não entendo! Não consigo compreender como pode ele encantar-me, se não me encanta!
O PROFESSOR
Como é que ele não pode encantá-lo se lhe expliquei, Galkiewicz, centenas de vezes, que ele o encanta?
GALKIEWICZ
Pois, mesmo assim, ele não me encanta.
O PROFESSOR
Isso, Galkiewicz, é um problema pessoal seu. Pelos vistos Galkiewicz não é inteligente. Os outros ficam encantados.
GALKIEWICZ
Dou-lhe a minha palavra de honra que ele não encanta a quem quer que seja. Como poderia encantar alguém se ninguém o lê, excepto nós, que estamos em idade escolar e o lemos por obrigação...
O PROFESSOR
Fale mais baixo, pelo amor de Deus! É que somos poucos os homens realmente cultos e que estão à altura...
GALKIEWICZ
Pois nem os cultos o lêem. Ninguém. Ninguém. Absolutamente ninguém.
O PROFESSOR
Galkiewicz, eu tenho mulher e um filho! Pelo menos Galkiewicz, tenha dó da criança! Saiba, Galkiewicz, que é indiscutível que a grande poesia nos deve encantar, e como Juliusz Slowacki foi um grande poeta... Pode ser até que Slowacki não o comova, mas não posso acreditar se me disser que a sua alma não se emociona com as obras de Mickiewicz, Byron, Pushkin, Shelley, Goethe...
GALKIEWICZ
Não comovem ninguém! Ninguém está interessado no que eles têm a dizer. Ninguém consegue ler duas ou três estrofes sem ficar farto. Meu Deus! Eu não consigo...
O PROFESSOR
Galkiewicz, isso é inadmissível. A grande poesia, sendo grandiosa e sendo poesia, não pode deixar de nos emocionar - portanto, emociona-nos.
GALKIEWICZ
Pois a mim não emociona - nem emociona aos demais! Ai, meu Deus!
A cara do professor cobriu-se de grossas gotas de suor. Tirou da carteira a fotografia da sua mulher e do seu filho e tentou, com ela, sensibilizar Galkiewicz; mas este continuava a repetir o estribilho: "Não consigo, não consigo." E esse incisivo "não consigo" multiplicava-se, crescia e contagiava, a ponto de ecoarem sussurros: "Nós também não conseguimos", e um sentimento geral de impotência começou a espalhar-se pela sala. O professor viu-se num terrível impasse.

Witold Gombrowicz, "Ferdydurke". Tradução de Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes.

Terça-feira, Setembro 13


Mais uma hipótese de ver ou rever ” FILME SOCIALISMO” de Jean-Luc Godard. Na próxima quinta-feira, dia 15, às 22h00, no Passos Manuel (sessões regulares do Cineclube do Porto).

Utilizando as mesmas armas que nos esmagam, talvez a Grécia pudesse lançar um imposto global sobre a raiz das palavras; o problema é: como calcular o valor da palavra democracia?
Depois de explicar ao telefone onde estou (Rua Miguel Bombarda), de onde venho (do Minipreço) e o que trago na mão (um saco plástico com pão, uma abóbora pequena e um pimento vermelho), reparo que, sem querer, descrevi com muita exactidão a minha relação com a movida da cidade.

Capítulo 1 - Rapto

Na terça-feira acordei àquela hora mortiça e difusa, quando a noite já se acabou e o dia mal amanheceu. Ao acordar estremunhado, tive o ímpeto de arrancar num táxi para a estação, pois fui invadido pela sensação de que estava de partida - só no minuto seguinte me dei conta, com grande pesar, de que não havia nenhum comboio à minha espera na estação e que nenhuma hora havia ainda soado.

Começa assim a obra-prima de Gombrowicz, "Ferdydurke", acabada de lançar pela 7 Nós, com tradução de Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes.

Segunda-feira, Setembro 12

Traduzir holy shit! por "meu Deus!" ou "virgem santíssima!" (como li ontem, vezes sem conta, na televisão) parece-me uma acção muito leviana.

Domingo, Setembro 11

Em vez da bandeira a meia haste, defendida pelo comissário alemão Gunther Oettinger para os países endividados, talvez pudéssemos enfiar, cada um de nós, um daqueles barretes com orelhas de burro que se usavam nas escolas há umas décadas (ver, por exemplo, o Aniki Bóbó). Não só uma democracia participativa, mas também — ou pelo menos — uma simbologia participativa.
São nove e pouco, dentro e fora de casa está tudo em silêncio. Fumo um cigarro junto à varanda e reparo num rosto no soalho: é, sem tirar nem pôr, o Ringo Starr, com cabelo à pajem e um grande bigode. Não passa do reflexo desfocado da camisa pendurada na cadeira mas mostra bem como as minhas experiências metafísicas são demasiado banais.

Sábado, Setembro 10


De manhã bem cedo, os pavões do Palácio passeiam pela Rua de Jorge Viterbo Ferreira. O princípio do mundo, penso, enquanto deixo o carro deslizar por entre as aves corpulentas e bamboleantes.
Entre los muchos objetos que constituyen el legado de quien en vida fue Jorge Luis Borges hay uno que sigue fascinando y cautivando a estudiosos y lectores en general: se trata de su lápida, que se erige ahora en el Cementerio de Plainpalais. Desde que fue alzada, los intentos de descifrar su contenido y propósito han sido a la vez múltiples pero, en la mayoría de los casos, vanos o incompletos. Algunos han alcanzado un éxito parcial al lograr identificar y traducir las inscripciones sobre ella grabadas. Pero el significado último de éstas, y su relación con la vida y obra del escritor, permanecían hasta ahora en total penumbra.

Martín Hadis.

Sexta-feira, Setembro 9

Os pobres, à força de pensar em dinheiro, e de nele pensarem sem descanso, chegam a perder as vantagens espirituais de nada possuir e a descer tão baixo como os ricos.

Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né

Quinta-feira, Setembro 8

Mathias Melhop

Mathias Melhop foi um dos mais famosos burlões de fins do século XIX e princípios do século XX. Thomas Mann inspirou-se nele para criar o personagem Felix Krull. A sua maior burla, porém, foi literária: enquanto escrevia as suas memórias, ameaçou várias pessoas de que as incluiria num ou noutro capítulo se não lhe pagassem, digamos, umas gorjetas. O livro vendeu-se muito bem (Mathias era um herói público), mas a chantagem, tal como previra, foi incomparavelmente mais lucrativa.
Como sempre acontece quando uma pessoa passa dos quarenta, o jornal inclinou-se para as páginas da necrologia; passei-lhes os olhos por cima, rapidamente, para me certificar de que o meu nome não constava da lista, e depois, após ter peneirado as bisbilhotices do teatro, do cinema e dos livros, pus-me a ler o jornal como qualquer esclarecido cobarde faz hoje em dia, de trás para a frente.

S. J. Perelman, O mundo de S. J. Perelman. Tradução de Júlio Henriques.

Quarta-feira, Setembro 7

Tears and treasures

... Yes, more and more things in nature are just veering out of control. But then again maybe control is different for women than for men. Things go out of control for men and they have to fix it. They have to do something. But things go off the rails for women and they have an option that men do not have. Because in a pinch, women can... women can always start to cry. Yes, they've got that card to play. Things go out of control and out come the crying cards. It's, let's say, it's acceptable. Now when men burst into tears it's awkward. It's a rare thing. I have a small jar of men's tears collected during the last war. One of my truest treasures. (...) Laurie Anderson, Delusion

Un hospital es un lugar con paredes blancas

— Costa contó, y nunca le había oído hacerlo con tanto detalle, cómo hizo algunas secuencias de Juventude em marcha. Ayer, Costa fue sobre todo un narrador. Me gustó cuando contó cómo acabaron rodando la secuencia del hospital en casa de Vanda. La idea de la secuencia no era de Costa, y é se resistía, porque no quería ir a un verdadero hospital, era algo muy complicado y no correspondía con sus métodos de rodaje. Entonces a Ventura se le ocurrió que podían rodar en casa de Vanda, al fin y al cabo un hospital es un lugar con paredes blancas, como el nuevo piso de Vanda.

Encuentro Pedro Costa / Jacques Rancière (preámbulo), Lumière 4, pág. 325

Uma rentrée de luxo

Uma rentrée que incluísse apenas Daniil Harms já era extraordinário. Mas uma rentrée que inclui Daniil Harms e o "Ferdydurke", do Gombrowicz, é algo que coloca as papilas fungiformes, as papilas foliáceas e as papilas filiformes de qualquer leitor em estado de profundo alvoroço, tumulto e reboliço. Mas há mais. Oliverio Girondo também está a chegar (mais informações em breve).

O lançamento de "Ferdydurke" (edição 7 nós) terá lugar amanhã, 8 de Setembro, no bar Bartleby, em Lisboa, e sexta-feira, 9 de Setembro, na Gato Vadio, no Porto.

Terça-feira, Setembro 6

Langue d'amour


Lui: Tu me donnes beaucoup l'envie d'aimer...
Elle: Toujours... les amours... rencontre. Moi aussi.

Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais. Às 22h00, no Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre.

Pertencer a uma comunidade

Uma emissão sobre lobos, com exemplos de uivos. Que língua! Nada existe mais dilacerante. Nunca os esquecerei e no futuro, em momentos de excessiva solidão, bastar-me-à recordá-los distintamente, para ter o sentimento de pertencer a uma comunidade.

Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né

A pantufa desirmanada

Em viagem por um país do Oriente, o senhor Palomar comprou num bazar um par de pantufas. De volta a casa, experimenta calçá-las: descobre que uma pantufa é mais larga do que a outra e que lhe cai do pé. Recorda o velho vendedor sentado sobre os calcanhares num nicho do bazar, diante de um monte de pantufas de várias dimensões, todas misturadas; revê-o enquanto revolve a pilha de pantufas até encontrar uma que sirva no seu pé, fazendo-lha experimentar, voltando a revolver o monte e entregando-lhe a suposta companheira da primeira, que ele aceita sem experimentar.
"Talvez agora - pensa o senhor Palomar - um outro homem esteja caminhando por aquele país com duas pantufas desirmanadas." E vê uma sombra franzina que percorre o deserto coxeando, com uma pantufa que lhe foge do pé a cada passo, ou então que lhe fica demasiado apertada, prendendo-lhe um pé todo torcido. "Talvez ele também esteja a pensar em mim neste momento, esperando encontrar-me para proceder à troca. A relação que nos liga é mais concreta e clara do que grande parte das relações que se estabelecem entre os seres humanos. E no entanto nunca nos encontraremos." Decide continuar a usar aquelas pantufas desirmanadas por solidariedade com o seu ignoto companheiro de desventura, para manter viva esta complementaridade. Tão precioso, este reflexo de passos claudicantes que vai de um continente ao outro.

Italo Calvino, Palomar. Tradução de João Reis.

Segunda-feira, Setembro 5


«Um dos muitos cães usados por Pavlov nas suas experiências, Museu Pavlov, Rússia. Note-se que o recipiente utilizado para o armazenamento da saliva está cirurgicamente implantado no maxilar do animal.» (wikipédia)
Rui,
ofereço este poema ao "dias felizes".
Um abraço,

André Sousa Martins



*
Tem um buraco no coração
e na pele a chuva fria do medo,
rios angustiados do corpo.

*
Quando se perde o horizonte,
o coração é fundo:
num dia fala com o Silêncio,
no outro ergue a bandeira dos ateus;
sem sossego nem sonhos,
acha consolo e dor
em lugares que já não existem;

Entre o rosário das horas,
imagina a paz perpétua,
sem nostalgia.


Agosto de 2011

Domingo, Setembro 4

A qualidade literária, que tanto me apaixonava noutros tempos (a primeira das minhas preocupações), é-me hoje indiferente.
No que se refere a informações, são os acontecimentos da actualidade que mas fornecem, a todo o momento, apaixonantes, cruéis, atrozes, terríveis, escandalosas, trágicas, cómicas é que nunca. E todos esses acontecimentos, todas essas informações, são mais significantes, mais carregados de ensinamentos, mais espectaculares, muito mais perturbadores e esmagadores e paralisantes do que as astúcias da literatura e dos literatos. Os jornais, os médicos, chegam-me e sobram.

Eugène Ionesco, A busca intermitente. Tradução de Manuel João Gomes.
A temática das relações entre língua e política, entre a condição do discurso humano e da escrita, e a condição do discurso do corpo político, passava a estar no cento das preocupações de Orwell. O autor declara-o sem rodeios no seu famoso ensaio A Política e Língua Inglesa, de 1946. A propaganda de guerra levada a cabo por ambos os lados tinha deixado Orwell repugnado. Pressentiu o tipo de erosão de estilo que as mendácias empacotadas dos meios de comunicação social haveriam de causar. A própria política, escreveu Orwell, «é um aglomerado de mentiras, evasões, disparates, ódio e esquizofrenia». E é precisamente porque «todos os assuntos são assuntos políticos» que este aglomerado ameaça invadir e extinguir o vigor respeitável de todo o discurso humano. A decadência da língua inglesa ainda tem cura. Nunca usar uma palavra longa quando se pode usar uma curta, preferir sempre que possível os modos activos aos passivos, não usar gíria quando se pode usar o inglês do quotidiano, «preferir quebrar qualquer destas regras a dizer uma barbaridade rematada». O encerramento do ensaio tem a eloquência da impaciência:
A linguagem política [...] está concebida para fazer a mentira parecer verdadeira e o crime respeitável, e para dar um aspecto sólido ao vento puro. Não se pode mudar tudo isto de um momento para o outro, mas pode-se, pelo menos, alterar os hábitos de cada um, e de tempos a tempos até se pode, caso se zombe alto e bom som, mandar algumas frases gastas e sem utilidade — botas da ditadura, calcanhar de aquiles, antro, caldeirão cultural, prova de fogo, verdadeiro inferno, ou outros bocados de detritos verbais — para o caixote do lixo, onde deviam estar.
George Steiner, Matar o tempo, em The New Yorker (págs. 140/141). Gradiva, Junho, 2010.

Quinta-feira, Setembro 1

Mais um recado com ameixas

Comprei o meu primeiro livro de Donald Barthelme (96 páginas, 13 das quais em branco) à hora do almoço. A simetria perfeita exigia que comprasse também um bolo de arroz para o lanche, mas na verdade as simetrias perfeitas assustam-me um bocado; por isso Alexandre, espero que não leves a mal, troquei o bolo por uma fatia de flan de ameixas.


Michal Pěchouček, Lessons in Art.

Strangers talk only about the weather #119

Colossal sempre foi uma palavra grandiosa como uma tempestade, mas agora não passa de uma palavra engelhada que os políticos trazem no bolso, um lenço ranhoso.