Pedro Costa, via Landscape Suicide
Quarta-feira, Agosto 31
You can still accomplish some revolutions in film, but not in life I'm afraid.
Pedro Costa, via Landscape Suicide
Pedro Costa, via Landscape Suicide
Para aprender francês, Wittgenstein recomendou à filha de O. K. Bouwsma as peças de Molière.
Voltei a lembrar-me disso ao ler, em Le Mariage forcé, os formidáveis diálogos (oh? serão mesmo, filosoficamente falando, diálogos?) de Sganarelle com Pancrace, doutor aristotélico, e Marphurius, doutor pirrónico. Também há uma tradução de Jorge de Sena, editada pela gentil Cotovia.
À lire aussi: Molière de A a Z > Auteur Au début de sa carrière, Molière se considère moins comme un écrivain que comme un acteur et un chef de troupe. Après avoir écrit avec L’Etourdi et Le Dépit amoureux des comédies en cinq actes et en vers, et avoir un peu plus tard connu le succès populaire avec Les Précieuses ridicules, il ne manque pas d’ironiser dans la préface de cette pièce : « Mon Dieu, […] qu’un auteur est neuf la première fois qu’on l’imprime ! Encore si l’on m’avait donné du temps, j’aurais pu mieux songer à moi, et j’aurais pris toutes les précautions que Messieurs les auteurs, à présent mes confrères, ont coutume de prendre en semblables occasions. (...)
Voltei a lembrar-me disso ao ler, em Le Mariage forcé, os formidáveis diálogos (oh? serão mesmo, filosoficamente falando, diálogos?) de Sganarelle com Pancrace, doutor aristotélico, e Marphurius, doutor pirrónico. Também há uma tradução de Jorge de Sena, editada pela gentil Cotovia.
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À lire aussi: Molière de A a Z > Auteur Au début de sa carrière, Molière se considère moins comme un écrivain que comme un acteur et un chef de troupe. Après avoir écrit avec L’Etourdi et Le Dépit amoureux des comédies en cinq actes et en vers, et avoir un peu plus tard connu le succès populaire avec Les Précieuses ridicules, il ne manque pas d’ironiser dans la préface de cette pièce : « Mon Dieu, […] qu’un auteur est neuf la première fois qu’on l’imprime ! Encore si l’on m’avait donné du temps, j’aurais pu mieux songer à moi, et j’aurais pris toutes les précautions que Messieurs les auteurs, à présent mes confrères, ont coutume de prendre en semblables occasions. (...)
Terça-feira, Agosto 30
Isto sucede exactamente assim
Suponhamos um homem de, talvez, dois metros e dez de altura por um metro e tantos de largura, de mãos largas e peludas, e cara de mau, a quem crescem, sem explicação, umas finas asas de ouro. Isto sucede exactamente assim. Um amplo, raro e perfeito par de asas, surgidas da noite para o dia.
Ora, o homem, que sempre se ultrapassara a si próprio e cujas proezas atingiram sempre o delírio, não despreza a oportunidade que o destino lhe concedeu. De sobrolho carregado e ar decidido, lança-se da janela. Bate alegremente as asas, uma, duas, três, quatro vezes, até atingir com estrondo o chão.
No telhado, um gato lambe-se ao sol.
Ora, o homem, que sempre se ultrapassara a si próprio e cujas proezas atingiram sempre o delírio, não despreza a oportunidade que o destino lhe concedeu. De sobrolho carregado e ar decidido, lança-se da janela. Bate alegremente as asas, uma, duas, três, quatro vezes, até atingir com estrondo o chão.
No telhado, um gato lambe-se ao sol.
Segunda-feira, Agosto 29
Domingo, Agosto 28
Dito dos cinco Ãhs ou suspiros
Montanha acima trepo. Ãh!
Lá está a capital do reino. Ãh!
Que altos têm os palácios. Ãh!
Duro é o trabalho do povo. Ãh!
Dar e dar. Ãh!
Liang Hong, século I, in Uma antologia de poesia chinesa, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim.
Lá está a capital do reino. Ãh!
Que altos têm os palácios. Ãh!
Duro é o trabalho do povo. Ãh!
Dar e dar. Ãh!
Liang Hong, século I, in Uma antologia de poesia chinesa, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim.
Sexta-feira, Agosto 26
Quinta-feira, Agosto 25
Quarta-feira, Agosto 24
Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.
Estrofe inicial de "Em celebração do meu útero", primeiro de cinco poemas magníficos de Anne Sexton, com tradução de Jorge Sousa Braga, no Poesia & Lda.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.
Estrofe inicial de "Em celebração do meu útero", primeiro de cinco poemas magníficos de Anne Sexton, com tradução de Jorge Sousa Braga, no Poesia & Lda.
Matvei acendeu a vela e começou a ler um livro que lhe emprestara o polícia da estação. (...) Ainda ficou muito tempo a ler - não tinha sono - e, finda a última página, tirou o lápis do baú e escreveu no livro:
"Este livro foi lido por mim, Matvei Térekhov, e acho que, de todos os livros que já li, é o melhor, pelo que mostro a minha gratidão a Kuzmá Nikoláev Júkov, oficial subalterno de gendarmaria dos caminhos-de-ferro, como proprietário deste livro de incalculável valor." Achava um dever de boa educação fazer semelhantes autógrafos nos livros dos outros.
Anton Tchékhov, "O Assassínio". Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
"Este livro foi lido por mim, Matvei Térekhov, e acho que, de todos os livros que já li, é o melhor, pelo que mostro a minha gratidão a Kuzmá Nikoláev Júkov, oficial subalterno de gendarmaria dos caminhos-de-ferro, como proprietário deste livro de incalculável valor." Achava um dever de boa educação fazer semelhantes autógrafos nos livros dos outros.
Anton Tchékhov, "O Assassínio". Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Terça-feira, Agosto 23
voltamos aos inconvenientes do senhor Cioran:
A poesia exclui cálculo e premeditação: ela é inconclusão, pressentimento, abismo. Nem geometria ronronante, nem sucessão de adjectivos exangues. Estamos todos demasiado feridos e demasiado caídos, demasiado cansados e demasiado bárbaros na nossa fadiga, para ainda apreciar o ofício.
Uma obra está acabada quando já não a podemos melhorar, apesar de a sabermos insuficiente e incompleta. Excedemos-nos de tal forma, que já não temos coragem de acrescentar uma só vírgula, ainda que ela seja indispensável. O que decide o grau de conclusão de uma obra, não é uma exigência de arte ou verdade, é a fadiga e, mais ainda, o desgosto.
Qualquer misantropo, se for sincero, lembra por momentos aquele velho poeta acamado e completamente esquecido que, furioso com os seus contemporâneos, decretou que não queria receber mais ninguém. Por caridade, a sua mulher ia de tempos a tempos bater à porta.
Houve um tempo em que escrever parecia-me uma coisa importante. De todas as minhas supertições, essa parece-me a mais comprometedora e a mais incompreensível.
O que faz os maus poetas ainda piores é eles não lerem senão poetas (assim como os maus filósofos não lêem senão filósofos), enquanto teriam maior proveito de um livro de botânica ou geologia. Só enriquecemos ao frequentar disciplinas estrangeiras às nossas. Isso só é verdade, bem entendido, nos domínios onde o eu causa estragos.
Nada mais abominável que o crítico e, com maior razão ainda, o filósofo em cada um de nós: se eu fosse poeta, reagiria como Dylan Thomas que, quando comentavam os seus poemas na sua presença, deixava-se cair no chão em convulsões.
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Uma obra está acabada quando já não a podemos melhorar, apesar de a sabermos insuficiente e incompleta. Excedemos-nos de tal forma, que já não temos coragem de acrescentar uma só vírgula, ainda que ela seja indispensável. O que decide o grau de conclusão de uma obra, não é uma exigência de arte ou verdade, é a fadiga e, mais ainda, o desgosto.
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Qualquer misantropo, se for sincero, lembra por momentos aquele velho poeta acamado e completamente esquecido que, furioso com os seus contemporâneos, decretou que não queria receber mais ninguém. Por caridade, a sua mulher ia de tempos a tempos bater à porta.
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Houve um tempo em que escrever parecia-me uma coisa importante. De todas as minhas supertições, essa parece-me a mais comprometedora e a mais incompreensível.
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O que faz os maus poetas ainda piores é eles não lerem senão poetas (assim como os maus filósofos não lêem senão filósofos), enquanto teriam maior proveito de um livro de botânica ou geologia. Só enriquecemos ao frequentar disciplinas estrangeiras às nossas. Isso só é verdade, bem entendido, nos domínios onde o eu causa estragos.
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Nada mais abominável que o crítico e, com maior razão ainda, o filósofo em cada um de nós: se eu fosse poeta, reagiria como Dylan Thomas que, quando comentavam os seus poemas na sua presença, deixava-se cair no chão em convulsões.
No vocabulário especializado encontram-se sempre bons títulos. Noutro dia, apanhei dois de uma assentada no telejornal: "Material Circulante" (referindo-se às carruagens da CP) e "Calendário Venatorio" (numa notícia sobre a disparatada caça ao melro).
Material Circulante também podia ser um ciclo de textos dedicado a Yasujiro Ozu. Não fosse a minha recente decisão de não utilizar adjectivos para falar de Ozu.
Material Circulante também podia ser um ciclo de textos dedicado a Yasujiro Ozu. Não fosse a minha recente decisão de não utilizar adjectivos para falar de Ozu.
Segunda-feira, Agosto 22
Rua Miguel Bombarda remix
Um recorte de jornal com imagens do "Livro de Carne", de Artur Barrio, colado na montra de uma galeria de arte. Mais à frente, depois do cruzamento com Adolfo Casais Monteiro, o letreiro no talho anuncia: "Carne é vida!"
Aprender a escrever com Tchékhov
"Na carruagem de primeira classe, um passageiro que acabara de almoçar na estação e estava um pouco embriagado estendeu-se no divã de veludo, espreguiçou-se com deleite e dormitou. Nem cinco minutos depois, abriu o olho oleoso para o seu vis-à-vis, sorriu e disse:
- O meu pai que Deus tenha gostava que, depois do almoço, as servas lhe coçassem os calcanhares. Eu saí ao meu pai, mas com uma diferença: depois do almoço não coço os calcanhares mas sim a língua e os miolos. Eu, homem pecador, gosto de tagarelar empanturrado. Dá-me licença que converse um pouquinho consigo?
- Faça o favor - anuiu o outro."
Primeiras linhas do conto "O passageiro de primeira classe", com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Uma pessoa não consegue evitar um arrepio. Para ler uma e outra vez até conseguir dizer de memória, palavra por palavra.
- O meu pai que Deus tenha gostava que, depois do almoço, as servas lhe coçassem os calcanhares. Eu saí ao meu pai, mas com uma diferença: depois do almoço não coço os calcanhares mas sim a língua e os miolos. Eu, homem pecador, gosto de tagarelar empanturrado. Dá-me licença que converse um pouquinho consigo?
- Faça o favor - anuiu o outro."
Primeiras linhas do conto "O passageiro de primeira classe", com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Uma pessoa não consegue evitar um arrepio. Para ler uma e outra vez até conseguir dizer de memória, palavra por palavra.
大跃进
À revelia das leis decrépitas dos mercados — ou talvez decrépitos sejam os mercados — duas lojas de chineses do meu bairro fecharam as portas na segunda quinzena de Agosto para férias.
Domingo, Agosto 21
Um homem cerra tranquilamente os olhos e morre. Acorda, segundos depois, do outro lado da morte, envergando ainda o seu roupão de corte estrangeiro e calçando lindas pantufas de feltro azul. Olha rapidamente em volta, cheio de esperança e curiosidade. Está tão emocionado que caminha na ponta dos pés e evita respirar pelo nariz. Depois… bem, depois encolhe os ombros e exclama com um certo (hesito dizê-lo) desdém:
- Era só isto?
- Era só isto?
E a mim elas parecem-me soltas
«Acho que percebo o que estavas a dizer», disse F. Jasmine. «Mas, ao mesmo tempo, quase que podias usar a palavra solto em vez de apanhado. Embora sejam duas palavras opostas. Quero dizer, andamos por aí e vemos todas as pessoas. E a mim elas parecem-me soltas.»
«Selvagens, é o que queres dizer?»
«Ah, não!» disse ela. «Quero dizer que não se vê o que é que as liga umas às outras. Não sabemos de onde é que vêm, nem para onde é que vão. (...)
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
«Selvagens, é o que queres dizer?»
«Ah, não!» disse ela. «Quero dizer que não se vê o que é que as liga umas às outras. Não sabemos de onde é que vêm, nem para onde é que vão. (...)
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
Às vezes, é um bocado mais do que se pode aguentar
(...) Foi Berenice quem, por fim, suspirou e deu início à conclusão daquela última conversa esquisita.
«Acho que tenho uma vaga ideia daquilo a que tu querias chegar», disse. «Todos nós estamos apanhados, de uma maneira ou de outra. Nascemos desta forma ou daquela e não sabemos porquê. Mas, seja como for, estamos apanhados. Eu nasci Berenice. Tu nasceste Frankie. O John Henry nasceu John Henry. E talvez queiramos alargarmo-nos e libertarmo-nos. Mas pouco importa o que possamos fazer, continuamos apanhados de qualquer maneira. Eu sou eu, e tu és tu, e ele e ele. De uma maneira ou de outra, cada um de nós está apanhado por si próprio. Era isto o que tu estavas a tentar dizer?»
«Não sei», disse F. Jasmine. «Mas eu não quero estar apanhada.»
«Nem eu», disse Berenice. «Nenhum de nós quer. E eu estou apanhada pior do que tu estás.»
F. Jasmine compreendeu porque é que ela tinha dito isto, e foi John Henry quem perguntou , na sua voz de criança: «Porquê?»
«Porque sou negra», disse Berenice. «Porque sou de cor. Toda a gente está apanhada de uma maneira ou de outra. Mas eles apertam muito mais todas as pessoas de cor. Empurram-nas para um canto, sozinhas. De forma que estamos todos apanhados, primeiro daquela maneira que eu te estava a dizer, como acontece com todos os seres humanos. E nós estamos apanhados também por sermos de cor. Às vezes, um rapaz como o Honey sente que já nem vai conseguir respirar. Sente que tem de acabar com qualquer coisa ou que acabar consigo mesmo. Às vezes, é um bocado mais do que se pode aguentar.»
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
«Acho que tenho uma vaga ideia daquilo a que tu querias chegar», disse. «Todos nós estamos apanhados, de uma maneira ou de outra. Nascemos desta forma ou daquela e não sabemos porquê. Mas, seja como for, estamos apanhados. Eu nasci Berenice. Tu nasceste Frankie. O John Henry nasceu John Henry. E talvez queiramos alargarmo-nos e libertarmo-nos. Mas pouco importa o que possamos fazer, continuamos apanhados de qualquer maneira. Eu sou eu, e tu és tu, e ele e ele. De uma maneira ou de outra, cada um de nós está apanhado por si próprio. Era isto o que tu estavas a tentar dizer?»
«Não sei», disse F. Jasmine. «Mas eu não quero estar apanhada.»
«Nem eu», disse Berenice. «Nenhum de nós quer. E eu estou apanhada pior do que tu estás.»
F. Jasmine compreendeu porque é que ela tinha dito isto, e foi John Henry quem perguntou , na sua voz de criança: «Porquê?»
«Porque sou negra», disse Berenice. «Porque sou de cor. Toda a gente está apanhada de uma maneira ou de outra. Mas eles apertam muito mais todas as pessoas de cor. Empurram-nas para um canto, sozinhas. De forma que estamos todos apanhados, primeiro daquela maneira que eu te estava a dizer, como acontece com todos os seres humanos. E nós estamos apanhados também por sermos de cor. Às vezes, um rapaz como o Honey sente que já nem vai conseguir respirar. Sente que tem de acabar com qualquer coisa ou que acabar consigo mesmo. Às vezes, é um bocado mais do que se pode aguentar.»
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
Seremos sócios do mundo inteiro
«E vamos encontrá-los. A todos. Basta dirigirmo-nos às pessoas e ficamos e conhecê-las de imediato. Vamos descendo uma estrada escura e vemos uma casa iluminada, e batemos à porta e pessoas desconhecidas correrão ao nosso encontro e dirão: Entrem! Entrem! Vamos conhecer aviadores condecorados, e gente de Nova Iorque, e estrelas de cinema. Vamos ter milhares de amigos, milhares e milhares e milhares de amigos. Vamos pertencer a tantos clubes que nem poderemos frequentá-los todos. Seremos sócios do mundo inteiro. Ah, caramba! Ah, caramba, meus senhores!»
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
O que eu quero dizer é isto
«O que eu quero dizer é isto», disse F. Jasmine. «Tu vais a descer uma rua e encontras alguém. Uma pessoa qualquer. E olham um para o outro. E tu és tu. E ele é ele. No entanto, quando olham um para o outro, os olhos estabelecem uma ligação. Depois tu partes num sentido. E ele parte noutro sentido. Partem para zonas diferentes da cidade e talvez nunca mais se vejam. Até ao fim da vida. Percebes o que eu quero dizer?»
«Não muito bem», disse Berenice.
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
«Não muito bem», disse Berenice.
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
Frankie e Berenice conversam na cozinha (L. Wittgenstein não é tido nem achado)
«Isto», disse. «Eu vejo uma árvore verde. E para mim é verde. E tu também dirias que a árvore é verde. Concordaríamos neste ponto. Mas será que a cor que tu vês como verde é a mesma cor que eu vejo como verde? Ou, digamos que ambas chamamos preto a uma cor. Mas como é que sabemos que o que tu vês como preto é a mesma cor que eu vejo como preto?»
Passado um momento, Berenice disse: «Nós, pura e simplesmente, não podemos provar essas coisas.»
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
«Isto», disse. «Eu vejo uma árvore verde. E para mim é verde. E tu também dirias que a árvore é verde. Concordaríamos neste ponto. Mas será que a cor que tu vês como verde é a mesma cor que eu vejo como verde? Ou, digamos que ambas chamamos preto a uma cor. Mas como é que sabemos que o que tu vês como preto é a mesma cor que eu vejo como preto?»
Passado um momento, Berenice disse: «Nós, pura e simplesmente, não podemos provar essas coisas.»
Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.
Segunda-feira, Agosto 8
Um livro é um livro?
E que dizer da capa da nova edição d' A Praia (chancela Ulisseia, grupo Leya)?
Aquela praia cheia daquela gente e daquelas cores parece-me um insulto ao livro de Pavese; é como se a capa gritasse em voz alta o contrário do que as personagens dizem em voz baixa. As editoras fariam um grande favor aos nossos olhos se trabalhassem melhor a escolha dos papéis (cores e texturas) e das fontes tipográficas e esquecessem os bancos de imagens e as reproduções de quadros. Mas no fundo, suspeito, o que elas pretendem é precisamente o oposto: inserir a edição literária no vasto e medíocre domínio dos conteúdos.
Terça-feira, Agosto 2
Strangers talk only about the weather #118

Na minha meteorologia privada, chamo a isto um verão pavesiano.
Segunda-feira, Agosto 1
Caçador solitário
Mick Kelly, Jake Blount, Biff Brannon e Benedict Copeland traçam um círculo de devoção em redor de Singer: projectam nele tudo o que são, o que amam, o que detestam. O surdo-mudo lê as palavras nos lábios, não compreende quase nada — mas o silêncio parece um assentimento. Só nós e o narrador percebemos que John Singer está tão perdido quanto os outros, sem nunca saber o que fazer às mãos e ao amor desmedido pelo grego Spiros Antonopoulos.
Os modernos perderam o sentido do destino e, por conseguinte, o gosto pela lamentação. No teatro, deveria ressuscitar-se, antes de mais, o coro; e nos funerais, as carpideiras.
«Tudo está cheio de deuses», dizia Thales, no alvorecer da filosofia; no outro extremo, este crepúsculo onde chegamos, podemos proclamar, não só pela necessidade de simetria, mas ainda por respeito à evidência, que «tudo está vazio de deuses.»
Os Brancos merecem cada vez mais o nome de pálidos que lhes davam os Indios da América.
«Nenhuma palavra pode esperar outra coisa senão a sua própria derrota.» (Grégoire Palamas)
Uma condenação tão radical de toda a literatura só podia vir de um místico, de um profissional do Inexprimível.
Só uma coisa importa: aprender a ser perdedor.
Segundo uma crença bastante difundida entre algumas tribos, os mortos falam a mesma língua que os vivos, com a diferença que para eles as palavras têm agora um sentido oposto: grande significa pequeno; próximo, longe; branco, preto...
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
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«Tudo está cheio de deuses», dizia Thales, no alvorecer da filosofia; no outro extremo, este crepúsculo onde chegamos, podemos proclamar, não só pela necessidade de simetria, mas ainda por respeito à evidência, que «tudo está vazio de deuses.»
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Os Brancos merecem cada vez mais o nome de pálidos que lhes davam os Indios da América.
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«Nenhuma palavra pode esperar outra coisa senão a sua própria derrota.» (Grégoire Palamas)
Uma condenação tão radical de toda a literatura só podia vir de um místico, de um profissional do Inexprimível.
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Só uma coisa importa: aprender a ser perdedor.
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Segundo uma crença bastante difundida entre algumas tribos, os mortos falam a mesma língua que os vivos, com a diferença que para eles as palavras têm agora um sentido oposto: grande significa pequeno; próximo, longe; branco, preto...
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né

