Domingo, Julho 31
Sábado, Julho 30
Estava cansada de ouvir os miúdos. Ia até à Biblioteca para ver os bonecos do National Geographic. Fotografias de todas as terras do mundo. Paris, França. E grandes glaciares. E as selvas de África.
— Não deixem o Ralph sair para a rua — recomendou ela.
O Bubber apoiou a grande espingarda no ombro:
— Traz-me de lá uma história para eu ler.
Só parecia que aquele pequeno tinha nascido a saber ler. Ainda andava no segundo grau, mas adorava ler histórias sozinho: nunca pedia a ninguém que lhas lesse.
— Que género queres tu desta vez?
— Traz histórias que falem de coisas pra comer. Eu gosto muito daquela a respeito dos meninos alemães que foram para a floresta e encontraram uma casa feita de doces de toda a espécie, e uma bruxa. Eu gosto mais das histórias onde há coisas que se comem.
— Vou ver se te encontro uma.
— Mas já estou um bocado farto de doces e rebuçados — disse ele. — Vê se me achas uma que fale duma sanduíche de carne assada no espeto. Mas se não achares nenhuma assim, então traz-me uma história de cowboys.
Coração, solitário caçador, de Carson McCullers, tradução de José Rodrigues Miguéis
— Não deixem o Ralph sair para a rua — recomendou ela.
O Bubber apoiou a grande espingarda no ombro:
— Traz-me de lá uma história para eu ler.
Só parecia que aquele pequeno tinha nascido a saber ler. Ainda andava no segundo grau, mas adorava ler histórias sozinho: nunca pedia a ninguém que lhas lesse.
— Que género queres tu desta vez?
— Traz histórias que falem de coisas pra comer. Eu gosto muito daquela a respeito dos meninos alemães que foram para a floresta e encontraram uma casa feita de doces de toda a espécie, e uma bruxa. Eu gosto mais das histórias onde há coisas que se comem.
— Vou ver se te encontro uma.
— Mas já estou um bocado farto de doces e rebuçados — disse ele. — Vê se me achas uma que fale duma sanduíche de carne assada no espeto. Mas se não achares nenhuma assim, então traz-me uma história de cowboys.
Coração, solitário caçador, de Carson McCullers, tradução de José Rodrigues Miguéis
Sexta-feira, Julho 29
Foi no verão de 1966, tinha apenas uns meses e a minha mãe levou-me à praia. Deve ser a Granja ou Aguda; estava frio. As fotografias já estão amareladas e há coisas que estão a desaparecer, a manta não se distingue da areia. Numa delas olho para a máquina ou para o fotógrafo. Não sei o que o meu rosto expressa, talvez apenas espanto — mas é um espanto tão intacto que faria inveja ao senhor Cioran.
O inconveniente de praticar uma língua de empréstimo é não ter o direito de cometer demasiados erros. Ora, é ao procurar a incorrecção sem contudo dela abusar, é ao roçar a cada momento o solecismo, que damos uma aparência de vida à escrita
O verdadeiro contacto entre os seres só se estabelece pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e sem palavras que se assemelha a uma prece interior.
O que eu sei aos sessenta, já o sabia aos vinte. Quarenta anos de um longo, de um supérfluo trabalho de verificação...
Se nos pudéssemos ver com os olhos dos outros, desapareceríamos num ápice.
A única confissão sincera é aquela que fazemos indirectamente — ao falar dos outros.
Se, à medida que envelhecemos, remexemos cada vez mais o nosso próprio passado em detrimento dos "problemas", é sem dúvida porque é mais fácil revolver as memórias do que as ideias.
Vivíamos no campo, eu ia à escola, e, detalhe importante, dormia no mesmo quarto que os meus pais. À noite, o meu pai costumava ler para a minha mãe. Embora fosse padre, ele lia não importa o quê, pensando sem dúvida que, dada a minha tenra idade, não era suposto eu entender. Em geral, eu não ouvia e adormecia, salvo se se tratasse de uma história que me agarrasse. Uma noite agucei o ouvido. Tratava-se, numa biografia de Rasputine, da cena em que o pai, às portas da morte, chama o seu filho e diz-lhe: "Vai para São Petersburgo, faz-te dono da cidade, não recues perante nada, não temas ninguém, pois Deus é um velho porco."
Uma tal enormidade na boca do meu pai, para quem o sacerdócio não era uma piada, impressionou-me tanto como um incêndio ou um terramoto. Mas também me lembro muito claramente — e já lá vão mais de 50 anos — que a minha emoção foi seguida por um prazer estranho, não ouso dizer perverso.
Queria uma oração com palavras-punhais. Infelizmente, assim que nos pomos a rezar, rezamos como toda a gente. É aí que reside uma das maiores dificuldades da fé.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
§
O verdadeiro contacto entre os seres só se estabelece pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e sem palavras que se assemelha a uma prece interior.
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O que eu sei aos sessenta, já o sabia aos vinte. Quarenta anos de um longo, de um supérfluo trabalho de verificação...
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Se nos pudéssemos ver com os olhos dos outros, desapareceríamos num ápice.
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A única confissão sincera é aquela que fazemos indirectamente — ao falar dos outros.
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Se, à medida que envelhecemos, remexemos cada vez mais o nosso próprio passado em detrimento dos "problemas", é sem dúvida porque é mais fácil revolver as memórias do que as ideias.
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Vivíamos no campo, eu ia à escola, e, detalhe importante, dormia no mesmo quarto que os meus pais. À noite, o meu pai costumava ler para a minha mãe. Embora fosse padre, ele lia não importa o quê, pensando sem dúvida que, dada a minha tenra idade, não era suposto eu entender. Em geral, eu não ouvia e adormecia, salvo se se tratasse de uma história que me agarrasse. Uma noite agucei o ouvido. Tratava-se, numa biografia de Rasputine, da cena em que o pai, às portas da morte, chama o seu filho e diz-lhe: "Vai para São Petersburgo, faz-te dono da cidade, não recues perante nada, não temas ninguém, pois Deus é um velho porco."
Uma tal enormidade na boca do meu pai, para quem o sacerdócio não era uma piada, impressionou-me tanto como um incêndio ou um terramoto. Mas também me lembro muito claramente — e já lá vão mais de 50 anos — que a minha emoção foi seguida por um prazer estranho, não ouso dizer perverso.
§
Queria uma oração com palavras-punhais. Infelizmente, assim que nos pomos a rezar, rezamos como toda a gente. É aí que reside uma das maiores dificuldades da fé.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
O rio está em vazante; o cheiro a lodo e a coisas podres ajuda-me a entender melhor as frases de Cioran.
Quinta-feira, Julho 28
A pederastia como arma
Aos rapazes que encontrava no cinema
declarava André Gide
na cama ou na manhã seguinte
depois de uma noite de amor:
Podes dizer aos teus amigos
que dormiste com um homem célebre
com um escritor
O meu nome é François Mauriac
Erich Fried. Tradução de Yvette Centeno.
Outra versão deste poema está disponível na Modo de Usar & Co, da autoria de Ricardo Domeneck, aqui.
declarava André Gide
na cama ou na manhã seguinte
depois de uma noite de amor:
Podes dizer aos teus amigos
que dormiste com um homem célebre
com um escritor
O meu nome é François Mauriac
Erich Fried. Tradução de Yvette Centeno.
Outra versão deste poema está disponível na Modo de Usar & Co, da autoria de Ricardo Domeneck, aqui.
Strangers talk only about the weather #117
Ao ouvir o boletim meteorológico, forte emoção por causa de "chuvas dispersas". O que prova que a poesia está em nós e não na expressão, ainda que dispersas seja um adjectivo susceptível de provocar uma certa vibração. Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
Quarta-feira, Julho 27
Ficções policiais
A Legend for Fountais (Fragments).
Filme de Joseph Cornell, com rapariga, gato, miúdos, portas, paredes, montras.
Filme de Joseph Cornell, com rapariga, gato, miúdos, portas, paredes, montras.
Jorge Luis Borges escreve a Jean-Luc Godard
(...) Pensar es generalizar y necesitamos esos útiles arquetípicos platónicos para poder afirmar algo. Entonces, ¿por qué no afirmar que hay géneros literarios? Yo agregaría una observación personal: los géneros literarios dependen, quizás, menos de los textos que del modo en que éstos son leídos. El hecho estético requiere la conjunción del lector y del texto y sólo entonces existe. Es absurdo suponer que un volumen sea mucho más que un volumen. Empieza a existir cuando un lector lo abre. Entonces existe el fenómeno estético, que puede parecerse al momento en el cual el libro fue engendrado.
Hay un tipo de lector actual, el lector de ficciones policiales. Ese lector ha sido – ese lector se encuentra en todos los países del mundo y se cuenta por millones – engendrado por Edgar Allan Poe. Vamos a suponer que no existe ese lector, o supongamos algo quizá más interesante; que se trata de una persona muy lejana de nosotros. Puede ser un persa, un malayo, un rústico, un niño, una persona a quien le dicen que el Quijote es una novela policial; vamos a suponer que ese hipotético personaje haya leído novelas policiales y empiece a leer el Quijote. Entonces, ¿qué lee?
“En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme, no hace mucho tiempo vivía un hidalgo…” y ya ese lector está lleno de sospechas, porque el lector de novelas policiales es un lector que lee con incredulidad, con suspicacias, una suspicacia especial. Por ejemplo, si lee: “En un lugar de la Mancha…,” desde luego supone que aquello no sucedió en la Mancha. Luego: “…de cuyo nombre no quiero acordarme…,” ¿por qué no quiso acordarse Cervantes? Porque sin duda Cervantes era el asesino, el culpable. Luego… “no hace mucho tiempo…” posiblemente lo que suceda no será tan aterrador como el futuro.
La novela policial ha creado un tipo especial de lector. Eso suele olvidarse cuando se juzga la obra de Poe; porque si Poe creó el relato policial, creó después el tipo de lector de ficciones policiales. (...)
Jorge Luis Borges, 16.06.1978
Hay un tipo de lector actual, el lector de ficciones policiales. Ese lector ha sido – ese lector se encuentra en todos los países del mundo y se cuenta por millones – engendrado por Edgar Allan Poe. Vamos a suponer que no existe ese lector, o supongamos algo quizá más interesante; que se trata de una persona muy lejana de nosotros. Puede ser un persa, un malayo, un rústico, un niño, una persona a quien le dicen que el Quijote es una novela policial; vamos a suponer que ese hipotético personaje haya leído novelas policiales y empiece a leer el Quijote. Entonces, ¿qué lee?
“En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme, no hace mucho tiempo vivía un hidalgo…” y ya ese lector está lleno de sospechas, porque el lector de novelas policiales es un lector que lee con incredulidad, con suspicacias, una suspicacia especial. Por ejemplo, si lee: “En un lugar de la Mancha…,” desde luego supone que aquello no sucedió en la Mancha. Luego: “…de cuyo nombre no quiero acordarme…,” ¿por qué no quiso acordarse Cervantes? Porque sin duda Cervantes era el asesino, el culpable. Luego… “no hace mucho tiempo…” posiblemente lo que suceda no será tan aterrador como el futuro.
La novela policial ha creado un tipo especial de lector. Eso suele olvidarse cuando se juzga la obra de Poe; porque si Poe creó el relato policial, creó después el tipo de lector de ficciones policiales. (...)
Jorge Luis Borges, 16.06.1978
Um grupo de novos - porque não acreditamos que velhos sejam capazes de semelhantes empreendimentos - resolveu, tomando como pretexto iniciar um movimento de renovação literária, despertar a atenção pública para algumas extravagâncias, geralmente de péssimo gosto e, na sua maioria, sem sombra de valor de arte.
É claro que a tentativa fez escândalo, e não falta quem reproduza e vulgarize os disparates metrificados, e até alguns sem possível metrificação, o que certamente muito agrada aos corifeus da nova escola. Nós não faremos o mesmo, porque achamos antipático comprometer vocações que, desviadas desse caminho, temos a certeza de que poderiam escrever obras sérias e perduráveis. Em literatura, como em arte, o futurismo não tem produzido senão aberrações. A lira deste Orpheu não mostra sonoridade nem grandeza. Há, com efeito, nas composições da nova escola, muita coisa nova; mas a crítica mostra-se implacável com os colaboradores da original revista, que começam a produzir exemplares curiosos, no género da literatura de manicómio.
O Primeiro de Janeiro, 7 de Abril de 1915. Citado por Maria Aliete Galhoz.
É claro que a tentativa fez escândalo, e não falta quem reproduza e vulgarize os disparates metrificados, e até alguns sem possível metrificação, o que certamente muito agrada aos corifeus da nova escola. Nós não faremos o mesmo, porque achamos antipático comprometer vocações que, desviadas desse caminho, temos a certeza de que poderiam escrever obras sérias e perduráveis. Em literatura, como em arte, o futurismo não tem produzido senão aberrações. A lira deste Orpheu não mostra sonoridade nem grandeza. Há, com efeito, nas composições da nova escola, muita coisa nova; mas a crítica mostra-se implacável com os colaboradores da original revista, que começam a produzir exemplares curiosos, no género da literatura de manicómio.
O Primeiro de Janeiro, 7 de Abril de 1915. Citado por Maria Aliete Galhoz.
Terça-feira, Julho 26
Um dos alunos de Mies van der Rohe, uma rapariga, foi ter com ele e disse: "Tenho dificuldade em estudar consigo porque você não deixa nenhum espaço para a auto-expressão." Ele perguntou-lhe se ela tinha uma caneta. Ela tinha. "Assine o seu nome". Ela assinou. "Isso é o que eu chamo auto-expressão." John Cage, indeterminacy #172
Segunda-feira, Julho 25
Mas desejaria acentuar que Rimbaud, sendo exemplar, não é um exemplo. Foi furiosamente um homem pérfido e um maravilhoso poeta, um ser que traiu na vida e na poesia todo o ilimitado. Não o estou condenando por não ter suportado a humanidade demasiado maternal de Verlaine ou por ter levado às últimas consequências as literatices sinestésicas de Baudelaire. Isso é com eles ou com a história literária. Mas que ele tenha resumido em si próprio, para quem como tal o queira ver, a inanidade da aventura humana a caminho da liberdade; que ele tenha esgotado e abandonado as virtualidades últimas da poesia e daquela dignidade derradeira que são a única garantia da nossa existência contra tudo e contra todos - eis o que hoje lhe não perdoo. Não lhe perdoo afinal aquilo mesmo por que o admiro. Devo realmente amá-lo muito.
Jorge de Sena, O poeta é um fingidor.
Jorge de Sena, O poeta é um fingidor.
M. C. Richards foi ver o Ballet Bolshoi. Ficou encantada com a dança. "Não é o que eles fazem, é o ardor com que o fazem", disse ela. "Sim: composição, desempenho, e audição ou observação são realmente coisas diferentes. Quase não têm nada a ver uma com a outra ", disse eu. Uma vez — contei-lhe — estava numa casa em Riverside Drive, onde as pessoas foram convidadas a presenciar um serviço Zen conduzido por um Mestre Japonês. Ele fez o ritual, com pétalas de rosa e tudo. Depois foi servido chá com bolinhos de arroz. Em seguida, a anfitriã e o seu marido, usando um piano desafinado e uma voz rachada, fizeram uma actuação miserável de um trecho de uma ópera italiana de terceira categoria. Eu estava envergonhado e olhei para o Mestre para ver como ele encarava a situação. A expressão do seu rosto era absolutamente beatífica. John Cage, indeterminacy #70
Domingo, Julho 24
A mais deslumbrante obra em prosa de Fernando Pessoa, uma obra que perdurará como um dos monumentos literários do século XX, nasceu de uma só palavra: desassossego, que agitou a alma de Pessoa em 1913, mais precisamente em 20 de Janeiro. Nesse dia redigiu, numa folha solta, o poema «Dobre», que reza assim:
Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão.
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
Ao lado do poema, pondo a folha na horizontal, rabiscou, em letras grandes, «O título Desassocego», sublinhando o vocábulo em grafia antiga com um traço bem vincado.
Richard Zenith.
Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão.
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
Ao lado do poema, pondo a folha na horizontal, rabiscou, em letras grandes, «O título Desassocego», sublinhando o vocábulo em grafia antiga com um traço bem vincado.
Richard Zenith.
Sexta-feira, Julho 22
Quinta-feira, Julho 21

A palavra nothing aparece 36 vezes ao longo d'O Rei Lear. Em duas das situações, cinco vezes quase seguidas. Na primeira Cena do primeiro Acto, quando Lear faz a pergunta infame às suas três filhas:
— Qual de vós diremos que nos ama mais?
Como se fosse possível medir o imensurável, responder por palavras escorregadias... Cordélia, a filha mais nova, responde calando-se:
Cordelia: Nada, meu senhor.
Lear: Nada?
Cordelia: Nada.
Lear: Nada de nada vem. Fala outra vez.
Mais tarde, na terceira Cena, após uma lengalenga pedagógica do Bobo:
Lear: Isso não é nada, bobo.
Bobo: É como a defesa de um advogado a quem não pagam; não me deste nada por isso. Não sabes fazer uso do nada, tio?
Lear: Pois não, rapaz; nada pode ser feito de nada.
A palavra never aparece 32 vezes. Mas nunca, em texto nenhum, em língua nenhuma, cinco vezes seguidas. É uma das últimas falas do rei; está tudo perdido e todos mortos. Talvez só uma palavra vulgar e profunda como um poço, dita até à exaustão, possa expressar o desastre.
A palavra traz o erro, diz Godard. Mas a palavra traz também o que vem a seguir e não tem mais continuidade: a perplexidade da morte.
Quarta-feira, Julho 20
Como a insónia das árvores das nossas avenidas se arrasta desde o aparecimento dos candeeiros de iluminação pública, três plátanos, sucumbindo a uma justa cólera, deixaram-se cair sobre vários candeeiros que esmagaram.
Jacques Rigaut. Tradução de Abel Prazer e Silva de Viseu.
Jacques Rigaut. Tradução de Abel Prazer e Silva de Viseu.
Terça-feira, Julho 19
- Poderão os seus ouvidos escutar coisas inacreditáveis?
- Desculpe, gaguejei um pouco atrapalhado, desculpe, não percebi muito bem.
- Disse: "Poderão os seus ouvidos escutar coisas inacreditáveis?"
Desta vez, limitei-me a responder: "Sim."
Arthur Cravan. Tradução de Abel Prazer e Silva de Viseu.
- Desculpe, gaguejei um pouco atrapalhado, desculpe, não percebi muito bem.
- Disse: "Poderão os seus ouvidos escutar coisas inacreditáveis?"
Desta vez, limitei-me a responder: "Sim."
Arthur Cravan. Tradução de Abel Prazer e Silva de Viseu.
Segunda-feira, Julho 18
Os famosos 300
Em Portugal há 300 leitores de poesia. Nem mais nem menos. Este é um daqueles lugares-comuns que, de tão repetidos, já ninguém contesta. No Brasil, país de 190 milhões de habitantes, pelos vistos, o número é o mesmo: 300 leitores.
Alguém tem dúvidas sobre o número de leitores de poesia existentes no Botswana?
Alguém tem dúvidas sobre o número de leitores de poesia existentes no Botswana?
Para el señor K. K., de Bytom
Utilizas el verso libre como si su libertad fuera absoluta. Pero la poesía (a pesar de lo que pueda decirse) es, era y será un juego. Y, como todos los niños saben, los juegos tienen reglas. ¿Por qué lo olvidan los adultos?
Para Boleslaw L-k, de Varsovia
Tus dolores existenciales te vienen con demasiada facilidad. Ya hemos padecido suficiente desesperanza y nos hemos adentrado en las sombrías profundidades demasiadas veces. “Los pensamientos profundos –dice mi querido Thomas (Mann, por supuesto, ¿de cuál otro podría tratarse?)– deben hacernos sonreír”. Leyendo tu poema “Océano” nos descubrimos forcejando en un pozo poco profundo. Concibe tu vida como una aventura extraordinaria que te ha acontecido. Por el momento ése es nuestro único consejo.
Para Marek, también de Varsovia
Tenemos por fundamento la creencia de que todos los poemas que versan sobre la primavera quedan automáticamente descalificados. El tema ha dejado de existir en la poesía. Por supuesto, continúa desarrollándose como parte de la vida. Pero se trata de dos asuntos distintos.
Como escrever e como não escrever poesia. Alguns conselhos de Wislawa Symborska. Há mais aqui.
Utilizas el verso libre como si su libertad fuera absoluta. Pero la poesía (a pesar de lo que pueda decirse) es, era y será un juego. Y, como todos los niños saben, los juegos tienen reglas. ¿Por qué lo olvidan los adultos?
Para Boleslaw L-k, de Varsovia
Tus dolores existenciales te vienen con demasiada facilidad. Ya hemos padecido suficiente desesperanza y nos hemos adentrado en las sombrías profundidades demasiadas veces. “Los pensamientos profundos –dice mi querido Thomas (Mann, por supuesto, ¿de cuál otro podría tratarse?)– deben hacernos sonreír”. Leyendo tu poema “Océano” nos descubrimos forcejando en un pozo poco profundo. Concibe tu vida como una aventura extraordinaria que te ha acontecido. Por el momento ése es nuestro único consejo.
Para Marek, también de Varsovia
Tenemos por fundamento la creencia de que todos los poemas que versan sobre la primavera quedan automáticamente descalificados. El tema ha dejado de existir en la poesía. Por supuesto, continúa desarrollándose como parte de la vida. Pero se trata de dos asuntos distintos.
Como escrever e como não escrever poesia. Alguns conselhos de Wislawa Symborska. Há mais aqui.
Domingo, Julho 17
Nos últimos tempos, quando a câmara se move demasiado (em movimentos encadeados ou muito rápida), fico enjoada. É uma sensação antiga que vem da infância e agora regressa para marcar não sei o quê. Nessa altura olhava pela janela lateral do carro porque queria seguir a paisagem mas o movimento dava-me voltas ao estômago e chegava a casa doente. Agora acontece-me nas salas de cinema. É uma reacção física mas acaba por ser também uma crítica sem razão, ou até uma defesa? Foi por isso que saí a meio d' A Árvore da vida. Mas não foi só por isso que não gostei do filme de Terrence Malick.
Sexta-feira, Julho 15

Ainda bem que me fazes essas perguntas, António.
A lista desencoraja, mas vou fazer como os políticos e respondo o que me apetecer (é tão fácil aprender o que não devemos). Na verdade, ando aborrecida com a literatura (e com os filmes também); já não leio o que lia, já tentei atirar A Morte de Empédocles, mas a quem? para onde?
(à parte) — Escolher o mundo é um trabalho de resistência, estimado Franz.
Na feira do livro (já lá vão dois meses) comprei:
Conversas com Wittgenstein — li e sublinhei pedaços. O filósofo atravessou um espelho feito de betão, se pudesse oferecia-lhe uns sapatos iguais aos do Piccoli (devem custar para cima de oitenta contos!);
Quanto aos Contos, de Dorothy Parker (também é uma personagem de Nouvelle Vague), bom, não consegui passar de dois ou três;
Eram os anos 80 (catálogo da Cinemateca, organizado por Antonio Rodrigues) fala de filmes marados e deixou-me a vontade de rever a cena do cavalo de Francisca.
É pouco para hábitos antigos; mas não é austeridade (gastei 18 euros, o resto vem da BAG, sem custos), é convalescença. No entanto: Wittgenstein, parco nos seus gostos literários, aconselha Molière em francês à filha de Bouwsma. Sigo, com precaução, o teatro. Na noite de quarta-feira, num instante antes de adormecer, experimentei As preciosas ridículas e o sobrolho desfranziu ligeiramente — são tantas por aí... Por causa dos Artistas Unidos, do Godard e do Rivette, passei a Com o amor não se brinca (quinta-feira à hora do almoço, no jardim). Amanhã, hei-de aproveitar o nevoeiro matinal com as Criadas para todo o serviço, de Carlo Goldoni. E se a convalescença se revelar fértil, dedicarei a próxima semana de férias ao Rei Lear (também é um dos tais filmes de Godard). Dizes bem, é preciso acompanhar os tempos interessantes que vivemos com uma certa simpatia.
Cheguei ao fim do meu brilharete mas, para completar os 180 segundos regulamentares, passo a ler em voz alta uma passagem edificante da comédia do jovem Musset, antes das coisas se complicarem (ia jurar que Rivette já filmou os ensaios dos desencontros de Perdican e Camille...):
LE BARON
Je serais bien aise de vous voir entreprendre ce garçon, - discrètement, s'entend - devant sa cousine ; cela ne peut produire qu'un bon effet ; – faites-le parler un peu latin, – non pas précisément pendant le dîner, cela deviendrait fastidieux, et quant à moi, je n'y comprends rien ; – mais au dessert, – entendez-vous ?
MAITRE BRIDAINE
Si vous n'y comprenez rien, monseigneur, il est probable que votre nièce est dans le même cas.
LE BARON
Raison de plus ; ne voulez-vous pas qu'une femme admire ce qu'elle comprend ? D'où sortez-vous, Bridaine ? Voilà un raisonnement qui fait pitié.
MAITRE BRIDAINE
Je connais peu les femmes ; mais il me semble qu'il est difficile qu'on admire ce qu'on ne comprend pas.
LE BARON
Je les connais, Bridaine ; je connais ces êtres charmants et indéfinissables. Soyez persuadé qu'elles aiment à avoir de la poudre dans les yeux, et que plus on leur en jette, plus elles les écarquillent, afin d'en gober davantage. (Perdican entre d'un côté, Camille de l'autre.)
Esqueci-me como se chama
Um inglês nunca mais conseguia lembrar-se de como se chama esta ave.
É uma — dizia ele — gaulinha. Ou seja, não é gaulinha, é gaulinalinha. Aliás, não é gaulinalinha, mas gaulianha. Irra! Não é gaulianha, é gaulinhanha. Também não é gaulinhanha, é gaulinhalenha.
Querem que lhes conte uma história sobre esta gaulinha? Ou seja, não é gaulinha, é gaulinalinha. Aliás, não é gaulinalinha. Irra! Não é gaulinalinha, é gaulianha. Não, bolas, não é gaulianha...
Continua em Setembro.
Um inglês nunca mais conseguia lembrar-se de como se chama esta ave.
É uma — dizia ele — gaulinha. Ou seja, não é gaulinha, é gaulinalinha. Aliás, não é gaulinalinha, mas gaulianha. Irra! Não é gaulianha, é gaulinhanha. Também não é gaulinhanha, é gaulinhalenha.
Querem que lhes conte uma história sobre esta gaulinha? Ou seja, não é gaulinha, é gaulinalinha. Aliás, não é gaulinalinha. Irra! Não é gaulinalinha, é gaulianha. Não, bolas, não é gaulianha...
Continua em Setembro.
Estes senhores devem ser primos do pasteleiro trotskista, quer dizer, isto até dava um musical, não?
Com a participação especial da esquadra das Mercês num maravilhoso número aquático com pistolas.
Com a participação especial da esquadra das Mercês num maravilhoso número aquático com pistolas.
Quinta-feira, Julho 14
Mad poets society
Poets seem almost required to manifest some degree of psychic disturbance, whether as a true affliction, a poetic persona, or a pose. “Despondency and madness” were the expectation before Wordsworth, and reached pandemic proportions in the twentieth century. Readers are disappointed by poets who aren’t at least a little mad.
(...)
When I haphazardly list twenty-five poets I’ve known—most, as it happens, with books, and some with big awards—the group includes two suicides, two attempted suicides, twelve on meds, three who’ve been committed, and two treated with electroconvulsive therapy. There are fifteen addicts, mainly recovering (eleven alcoholics, assorted coke and heroin addicts, and an opium addict).
Joshua Mehigan.
(...)
When I haphazardly list twenty-five poets I’ve known—most, as it happens, with books, and some with big awards—the group includes two suicides, two attempted suicides, twelve on meds, three who’ve been committed, and two treated with electroconvulsive therapy. There are fifteen addicts, mainly recovering (eleven alcoholics, assorted coke and heroin addicts, and an opium addict).
Joshua Mehigan.

Estava a ler as legendas do vídeo sobre O nosso homem e, talvez porque as palavras escritas são sempre mais resistentes, esbarrei nestas duas frases:
— A outra ideia seria fazer um filme que começasse com uma mãe e que terminasse com uma faca.
A conversa com a mãe ao princípio, ensaiada, e terminar com essa imagem de violência, ou contra a violência.
Parece apenas uma tentativa espontânea de descrição do processo de trabalho, mas há mais qualquer coisa, uma coisa de nada, mesmo no fim, nesse breve movimento de esclarecimento ou dúvida.
A ambiguidade entre uma imagem de violência e uma imagem contra a violência insinua já o modo como as imagens dos filmes de Pedro Costa nos atingem. (O que balança entre uma preposição e a outra, esse instante de perturbação, também existe nas personagens de Flannery O'Connor.)
Eu era bom pedreiro. Nunca fiz uma parede torta. / O meu patrão nunca se queixou de mim. / Um dia o trabalho acabou, fiquei sem fundo de desemprego. / Sem reforma, sem abono de família. / Procurei trabalho por todo o lado e nao encontrei. / Não levava dinheiro para casa e a Suzete correu comigo.
O NOSSO HOMEM (Pedro Costa . Portugal . 2010 . FIC . 24’), hoje às 23h00, no CURTAS.
O NOSSO HOMEM (Pedro Costa . Portugal . 2010 . FIC . 24’), hoje às 23h00, no CURTAS.
Quarta-feira, Julho 13
Diz-se nas fábulas: os degraus mais altos de uma escada falaram arrogantemente outrora para os mais baixos: «Não acreditem que vocês são iguais a nós, vocês ficam na lama enquanto nós livremente erguemo-nos sobre vocês, a hierarquia dos degraus foi estabelecida pela natureza, ela foi pelo tempo sacralizada, é legítima»; porém, um filósofo que passava e ouviu essa fala aristocrática riu e virou a escada de cima para baixo.
Heinrich Heine, traduzido por Pádua Fernandes.
Heinrich Heine, traduzido por Pádua Fernandes.
EMPORTEZ-MOI
Emportez-moi dans une caravelle,
Dans une vieille et douce caravelle,
Dans l'étrave, ou si l'on veut, dans l'écume,
Et perdez-moi, au loin, au loin.
Dans l'attelage d'un autre âge.
Dans le velours trompeur de la neige.
Dans l'haleine de quelques chiens réunis.
Dans la troupe exténuée des feuilles mortes.
Emportez-moi sans me briser, dans les baisers,
Dans les poitrines qui se soulèvent et respirent,
Sur les tapis des paumes et leur sourire,
Dans les corridors des os longs et des articulations.
Emportez-moi, ou plutôt enfouissez-moi.
Henri Michaux, Mes Propriétés
Emportez-moi dans une caravelle,
Dans une vieille et douce caravelle,
Dans l'étrave, ou si l'on veut, dans l'écume,
Et perdez-moi, au loin, au loin.
Dans l'attelage d'un autre âge.
Dans le velours trompeur de la neige.
Dans l'haleine de quelques chiens réunis.
Dans la troupe exténuée des feuilles mortes.
Emportez-moi sans me briser, dans les baisers,
Dans les poitrines qui se soulèvent et respirent,
Sur les tapis des paumes et leur sourire,
Dans les corridors des os longs et des articulations.
Emportez-moi, ou plutôt enfouissez-moi.
Henri Michaux, Mes Propriétés
Terça-feira, Julho 12
um mundo governado pela economia
Maldição, quando nesta rivalidade entre os departamentos dos valores, cujas forças mais ou menos se equilibram, um deles recebe preponderância, crescendo para além de todos os outros valores até atingir proporções desmedidas, como actualmente o sector militar nesta guerra, ou como a imagem de um mundo governado pela economia, a que a própria guerra está subordinada! Maldição, pois este sector de valores encerra o mundo, encerra todos os outros valores e extermina-os, como um enxame de gafanhotos que cai em cima de um campo!
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
Segunda-feira, Julho 11
Cena 5 do segundo Acto. A ultima fala de Perdican faz-me lembrar Gertrud. Agora não sei se isso me ajuda a compreender a palavra comédia ou a perder, mais uma vez, a personagem de Dreyer.
«Por protocolo assinado com a Reitoria da Universidade de Lisboa, vão os Artistas Unidos poder instalar-se, a partir de Outubro, no Teatro da Politécnica, na entrada do Jardim Botânico.

(...) Vamos fazer teatro.
Começamos com um clássico, sim, quem diria?
Peça escrita por um rapaz de vinte e poucos anos, Alfred de Musset, na volta de incurável desgosto de amor, Não se Brinca Com o Amor vem de 1830. Mas não foi aí que se inventou a juventude?
E “disponível, disponível é a juventude. Mesmo que seja incapaz, incompetente, estouvada, destrutiva. Mas é disponível.”, não foi o que nos disse Álvaro Lapa, no filme que fizemos sobre ele, amigo? (...)»

(...) Vamos fazer teatro.
Começamos com um clássico, sim, quem diria?
Peça escrita por um rapaz de vinte e poucos anos, Alfred de Musset, na volta de incurável desgosto de amor, Não se Brinca Com o Amor vem de 1830. Mas não foi aí que se inventou a juventude?
E “disponível, disponível é a juventude. Mesmo que seja incapaz, incompetente, estouvada, destrutiva. Mas é disponível.”, não foi o que nos disse Álvaro Lapa, no filme que fizemos sobre ele, amigo? (...)»
«Qual é a origem da expressão: fox trot? O dicionário de calão americano — aí está um livro que eu seria capaz de ler com gosto.» Disse-lhe que lhe arranjaria um.
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 111
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 111
Sábado, Julho 9
Hoje: Irene, de Alain Cavalier, às 18h30; Elogio do Amor, de Jean-Luc Godard, às 22h00.
Amanhã a ordem inverte-se. No Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre.
Amanhã a ordem inverte-se. No Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre.
Sexta-feira, Julho 8
Aussi on peut dire que jamais les grands n’ont été aussi entourés ; jamais sous aucun régime, dans aucun système les grands n’ont été aussi couverts contre le peuple, et le peuple aussi découvert contre les grands. Et jamais l’argent n’a été à ce point le seul maître et le Dieu. Et jamais le riche n’a été aussi couvert contre le pauvre et le pauvre aussi découvert contre le riche. Et jamais le temporel n’a été aussi couvert contre le spirituel, et jamais le spirituel n’a été aussi découvert contre le temporel. Et jamais le puissant n’a été aussi couvert contre le faible,et jamais le faible n’a été aussi découvert contre le puissant. Charles Péguy, 1913
Quinta-feira, Julho 7
Quarta-feira, Julho 6
A Irlanda diz: "Não somos Espanha, não somos Portugal, não somos a Grécia". Espanha diz: “Não somos Portugal, não somos a Grécia”. Portugal diz: "Não somos a Grécia". A Grécia diz: "Nós somos a Grécia!"
New York is a big friendly city, but it has its hands full taking care of its own. You may be the most beautiful gal in your home town. Your ma and your boy drummed into your ears the fact that you ought to be in the movies.
Sure we know that!
But the movies and the Broadway stage and model business are all crowded and there aren't enough shops in the world to provide jobs for all the ambitious little kids that drift into New York.
"New York: Behind the Scenes", a 1939 guide by Lee Mortimer.
Sure we know that!
But the movies and the Broadway stage and model business are all crowded and there aren't enough shops in the world to provide jobs for all the ambitious little kids that drift into New York.
"New York: Behind the Scenes", a 1939 guide by Lee Mortimer.
Fisicamente, Bartleby é parecido com o senhor Plume, ou melhor, com o desenho do senhor Plume (e, por favor, nada de perspectivas).
Assim como a força bruta de Popeye vem dos espinafres e a força inacessível das mulheres de Pavese, dos pêssegos e do pão; a força do contra de Bartleby vem dos biscoitos de gengibre.
Esta verdadeira austeridade (e não outra qualquer de pacotilha) garante a Bartleby uma força inquebrável. Quanto menos faz, quanto menos fala, quanto menos come, maior é o seu poder.
Assim como a força bruta de Popeye vem dos espinafres e a força inacessível das mulheres de Pavese, dos pêssegos e do pão; a força do contra de Bartleby vem dos biscoitos de gengibre.
Esta verdadeira austeridade (e não outra qualquer de pacotilha) garante a Bartleby uma força inquebrável. Quanto menos faz, quanto menos fala, quanto menos come, maior é o seu poder.
Pour arriver à un résultat nul
Donc Bartlebooth est Bartleby parce qu'il est tellement désespéré qu'il est au-delà du désespoir. Et il y a aussi Barnabooth, le milliardaire, qui veut organiser sa vie comme une oeuvre d'art. La conjonction des deux compose un personnage qui utiliserait toute sa vie, toute son énergie et toute sa fortune pour arriver à un résultat nul. Le projet de Bartlebooth: apprendre à peindre des aquarelles, peindre des aquarelles, les faire découper en puzzles par un artisan et enfin le reconstituer. C'est parfaitement fou et inutile. Et c'est pour moi l'image même de l'activité d'écrire. Un effort gigantesque pour quelque chose qui, une fois le livre terminé, vous échappe complètement. Georges Perec
Terça-feira, Julho 5
Il faut savoir renoncer à certaines beautés pour réduire tout au caractère facile, simple, naturel, clair et harmonieux. L'auteur qui a trop d'esprit fatigue le mien ; je n'en veux point avoir tant, et je voudrais qu'il en eût un peu moins. Je ne veux point qu'il me force à l'admirer sans relâche : il me tiendrait trop tendu ; la lecture de ses vers devient une étude. Ces éclairs m'éblouissent, je cherche une lumière douce. Je cherche un poète aimable, proportionné à tout le monde, qui cache son esprit au lieu de le montrer, et qui m'en donne ; je veux qu'il m'aplanisse tout mon chemin ; je veux penser aux choses dont il parle, et nullement à son bel esprit. Je veux qu'il prenne tant de peine dans sa composition, qu'il ne m'en laisse aucune en le lisant. Fénelon, Lettre à l'Académie, p. 56
Segunda-feira, Julho 4
Que sejam doces
Pelo caminho, perguntou-me se alguma vez eu tinha lido a carta de François Fénelon à Academia Francesa [p. 88/99], contra o purismo das suas regras. É preciso admitir outras palavras, contanto que sejam doces. Doces! Como ajuizar da doçura?
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 91/92
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 91/92
Oswald [de Andrade] nunca se acomodou e, se é verdade que sofreu muito com o ostracismo a que foi injustamente relegado, nem por isso abandonou a combatividade e a certeza de seu lugar na história das ideias. Um único exemplo: o inesquecível episódio narrado por Mário da Silva Brito, envolvendo um jovem poeta que subestimou o poder de fogo do antropófago. Em meio a um debate ácido, decidiu chamá-lo de “Calcanhar de Aquiles do Modernismo”. Sem pensar duas vezes, Oswald inventou o apodo arrasador: o jovem poeta, então, seria o “chulé de Apolo”... Oswald podia ter envelhecido, porém continuava afiado.
De uma entrevista com João Cezar de Castro Rocha.
De uma entrevista com João Cezar de Castro Rocha.
Maurice Blanchot escreve por exemplo que alguém que reconheça que a sua tarefa deva ser uma acção eficaz dentro da História não deve escolher a acção através da arte. Diz ele: "l'art agit mal et agit peu." E comenta: "se Marx tivesse seguido os seus sonhos da juventude talvez tivesse encantado o mundo mas não o teria abalado. Deve-se portanto escrever O Capital e não Guerra e Paz, não se deve descrever a morte de César mas ser Brutus."
Ana Hatherly, O Espaço Crítico - Do Simbolismo à Vanguarda.
Ana Hatherly, O Espaço Crítico - Do Simbolismo à Vanguarda.
Domingo, Julho 3
As coisas mais importantes
Mais tarde, enquanto percorríamos as colinas, voltou à maneira como recorremos a empréstimos — pistas. Uma vez tinha visto uma peça, uma pobre peça de terceira categoria, quando tinha vinte e dois anos. Um pormenor dessa peça produzira nele uma impressão poderosa. Uma coisa de nada. Mas havia um camponês, um imprestável, que dizia na peça: «Nada pode atingir-me.» Esta observação penetrara-o e está agora a lembrar-se dela. Desencadeava outras coisas. Nunca se sabe. As coisas mais importantes limitam-se assim a acontecer-nos.
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 92
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 92
Sábado, Julho 2
A cidade e os bosques
Depois, enquanto estávamos sentados, observou que há vinte anos teria considerado a acção de Newman incompreensível, talvez falha de sinceridade. Mas hoje, não. Quando instei com ele a esse respeito, acerca daquilo que o fizera mudar, refletiu, e disse a seguir que gradualmente acabara por ver que a vida não é o que parece. Calou-se por minutos. Depois disse: É assim: Na cidade, as ruas estão bem traçadas. E andamos pela direita, e temos semáforos nos cruzamentos, etc. Há regras. Quando saímos da cidade, continua a haver estradas, mas já não há semáforos. E quando vamos mais longe, já não há estradas, nem semáforos, nem regras, nada que nos guie. Não há senão bosques. E quando regressamos à cidade, podemos ter a impressão de que as regras são falsas, de que não deveriam existir regras, etc.
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 80/81
Conversas com Wittgenstein, O. K. Bouwsma, Relógio d'água, trad. de Miguel Serras Pereira, p. 80/81
Sexta-feira, Julho 1
Fiquei surprendido quando entrei no quarto da minha mãe na enfermaria e vi a televisão ligada. Estava a dar um programa com adolescentes a dançar rock-and-roll. Perguntei à minha mãe como é que ela gostava de música moderna. Ela disse: "Oh, não sou esquisita com a música". Depois, animando-se, continuou: "Tu também não és esquisito com a música". John Cage, indeterminacy #135








