Quinta-feira, Junho 30
Se o senhor não tivesse a profissão [médico] que tem aqui, garanto-lhe que também entrava na bebida.
- Sabe-se lá... Ainda teria outras coisas em que me ocupar... Nunca ninguém o viu pegar num livro, Jaretzki.
- Ora diga-me cá, mas com toda a franqueza, o senhor lê, realmente, todos esses livros que tem para aí, a cada canto do quarto?
- Leio.
- É formidável! E isso tem qualquer sentido ou qualquer objectivo?
- Nenhum.
- Então, estou descansado... Quer saber, Dr. Flurschütz... Sim, vou ficar descansado... Bom, realmente, o senhor já deve ter feito passar muita gente desta para melhor, de resto não é para outra coisa que o senhor aqui está, mas quando uma pessoa já matou alguém a valer... então, meu amigo, nunca mais tem necessidade, em toda a sua vida, de pegar num livro... Aqui tem o que sinto... Já está tudo liquidado e é por essa razão que a guerra nunca mais acaba...
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
- Sabe-se lá... Ainda teria outras coisas em que me ocupar... Nunca ninguém o viu pegar num livro, Jaretzki.
- Ora diga-me cá, mas com toda a franqueza, o senhor lê, realmente, todos esses livros que tem para aí, a cada canto do quarto?
- Leio.
- É formidável! E isso tem qualquer sentido ou qualquer objectivo?
- Nenhum.
- Então, estou descansado... Quer saber, Dr. Flurschütz... Sim, vou ficar descansado... Bom, realmente, o senhor já deve ter feito passar muita gente desta para melhor, de resto não é para outra coisa que o senhor aqui está, mas quando uma pessoa já matou alguém a valer... então, meu amigo, nunca mais tem necessidade, em toda a sua vida, de pegar num livro... Aqui tem o que sinto... Já está tudo liquidado e é por essa razão que a guerra nunca mais acaba...
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
Me pregunto si Film Socialisme no se podría traducir al castellano por “Socialismo de película".
Al borde, por Miguel Marías, p. 12
Al borde, por Miguel Marías, p. 12
Quarta-feira, Junho 29
Terça-feira, Junho 28
PL: Aquí tenemos al asno monteiro-bresoniano.
JN: Este plano es magnífico. Estamos ante una especie de King Lear soviético.
PL: ¡Ah sí! No había pensado en ello. "Aún me queda una hija…".

Nervosiamente optimistas, Conversación entre Pierre Léon y Jean Narboni, por Fernando Ganzo, p. 123
JN: Este plano es magnífico. Estamos ante una especie de King Lear soviético.
PL: ¡Ah sí! No había pensado en ello. "Aún me queda una hija…".

Nervosiamente optimistas, Conversación entre Pierre Léon y Jean Narboni, por Fernando Ganzo, p. 123
"o senhor me daria
um autógrafo, Seu Poe?"
Frank pergunta à pilha de ossos
entre pás de pó
"mas é claro meu caro
jovem" responde Frank com
uma voz diferente
CAConrad.
um autógrafo, Seu Poe?"
Frank pergunta à pilha de ossos
entre pás de pó
"mas é claro meu caro
jovem" responde Frank com
uma voz diferente
CAConrad.
PL: (...) Para retomar la imagen de la corriente, es muy agradable pasar de una corriente de agua fría a otra caliente. Pero al mismo tiempo es algo que me molesta. Porque me veo inmerso en algo que conozco, que me es muy querido, porque estoy en la misma pendiente, nostálgica, que él, de decirme que filmar a un hombre con una mujer, a una mujer fregando la vajilla con un chaval que se agarra a ella, en efecto, no veo cómo sería posible hacerlo hoy. Nadie sabe hacerlo. Ningún Desplechin sabe hacer eso. Godard sí. Cuando veo que la época del cine que vivimos no filma eso, para mí, es triste. Alguien fregando es una elipsis hoy. No existe ya. Nervosiamente optimistas, Conversación entre Pierre Léon y Jean Narboni, por Fernando Ganzo, p. 125
Segunda-feira, Junho 27


(...) Como yo pienso que el cine sirve (entre otras cosas) para ayudar e invitar a pensar, sigo viendo Film Socialisme en permanente tensión, con un suspense interno comparable al (de otro tipo) que suscita Hitchcock en Psycho (1960), y con varios momentos de reposo que muchos parecen desdeñar como decepcionantes, tras el torbellino inicial, pero que yo encuentro singularmente emocionantes, como remansos recapitulativos u oasis de serenidad y reflexión en medio de un caos que describe fragmentariamente, como astillas de un espejo roto que sería el mundo tal como hoy mismo va y como lo ve Godard. Me refiero, claro está, a Mme. Martin, la propietaria de la gasolinera francesa en la que cohabitan un asno y una llama con su marido y sus hijos. Al borde, por Miguel Marías, p. 13
Se por essa altura não tivesse sido aventada a hipótese de se construir uma casa, Hanna Wendling talvez se não houvesse apaixonado pelo jovem advogado de província. Mas, em 1918, as raparigas da boa burguesia liam O Estúdio, A Decoração Interior, Decoração e Arte Alemãs; possuíam O Estilo Mobiliário em Inglaterra; e as suas representações eróticas do casamento fundiam-se da maneira mais íntima com os problemas arquitectónicas. A casa Wendling, ou A Casa das Rosas, como podia ler-se-lhe na empena, em letras no género barroco, correspondia, numa modesta proporção, a estes ideais. Tinha um telhado que descia até muito abaixo, cupidos de cerâmica de cada lado da entrada, símbolos do amor e da fecundidade. Tinha um hall inglês, com uma lareira de grandes tijolos cuja prateleira estava cheia de bibelots de cobre. Alegria e esforço haviam sido gastos a colocar os móveis numa posição tão exacta que, em toda a parte, se haviam cumprido as condições indispensáveis para que reinasse um equilíbrio arquitectónico perfeito. Após isso, Hanna Wendling teve a sensação de que só ela se apercebia da perfeição desse equilíbrio, embora Heinrich pudesse ter nela a sua parte, a grande porção da sua felicidade conjugal pudesse depender deste conhecimento da harmonia secreta e do contraponto do arranjo dos móveis e dos quadros.
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
Sexta-feira, Junho 24
Quinta-feira, Junho 23

Yvonne deambula pelo mercado de Bunker Hill. Ri-se do macaco que faz bolhinhas de sabão. Esta imagem faz-me lembrar o início de Sans Soleil e este diálogo de Tokyo Monogatari, juntos.
Quarta-feira, Junho 22
Terça-feira, Junho 21
Botas para atravessar pontes com fissuras e sapatos amarelos
Quando reduzo os meus contactos com o mundo, viro-me para o que não existe. O que não existe é tão repousante como a estrutura do universo. Por exemplo: e se Wittgenstein fosse cineasta?
Ele tinha uma habilidade rara para pensar com imagens, e o cinema como actividade lógica é uma hipótese — basta que o coelho esteja e não esteja na sala. Continuando o raciocínio, desconfio que Wittgenstein não se iria meter em coboiadas ou musicais, apesar do gosto.
Então? Um novo tipo de comédia que nos fizesse rir e arrepiar de medo ao mesmo tempo, isso sim, um medo formidável — a verdadeira gargalhada filosófica!
Ele tinha uma habilidade rara para pensar com imagens, e o cinema como actividade lógica é uma hipótese — basta que o coelho esteja e não esteja na sala. Continuando o raciocínio, desconfio que Wittgenstein não se iria meter em coboiadas ou musicais, apesar do gosto.
Então? Um novo tipo de comédia que nos fizesse rir e arrepiar de medo ao mesmo tempo, isso sim, um medo formidável — a verdadeira gargalhada filosófica!
Segunda-feira, Junho 20

Kent Mackenzie on The Exiles: The Exiles is an “anti-theatrical” and “anti-social-documentary” film. It was conceived, not necessarily in protest against those two forms of film usage, but rather in search for a true and different format which would reveal the complex problems of the Indians in the city. Instead of leading an audience through an orderly sequence of problems-decisions-action and solution on the part of the characters, we sought to photograph the infinite details surrounding these people, to let them speak for themselves, and to let the fragments mount up. Then, instead of supplying a resolution, we hoped that somewhere in the showing, the picture would become, to the viewer, a revelation of a condition about which he will either do something, or not — whichever his own reaction dictates.
Domingo, Junho 19
Mestre Pina ensina a ler
Há um poema que termina com o verso "Conto estas aventuras extraordinárias". Ocorreu-me que pudesses ter sacado a expressão de um livro do Poe, que se chama, na edição portuguesa, "As Aventuras Extraordinárias de Gordon Pym".
Não me lembro, mas, inconscientemente, é capaz de vir daí. Também lá aparece uma referência ao "Palácio da Ventura" do Antero. Tenho, aliás, uma teoria sobre esse soneto. É dado como sendo poesia filosófica, mas acho que é erótica. Ora repara: "Sonho que sou um cavaleiro andante./ Por desertos, por sóis, por noite escura, [com as mãos vai apontando no seu próprio corpo as partes da anatomia feminina a que Antero se estaria metaforicamente a referir]/ Paladino do amor busco anelante [interrompe para emitir sons arquejantes]/ O palácio encantado da Ventura." E vê como continua: "Quebrada a espada já, rota a armadura...". E a seguir: "Abri-vos portas d'ouro ante meus ais!". E vê como acaba: "Abrem-se as portas d'ouro, com fragor.../ Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão - e nada mais!".
Está-se mesmo a ver que é uma queca que acabou mal.
Manuel António Pina em entrevista a Luís Miguel Queirós, publicada no Ípsilom de sexta-feira passada.
Não me lembro, mas, inconscientemente, é capaz de vir daí. Também lá aparece uma referência ao "Palácio da Ventura" do Antero. Tenho, aliás, uma teoria sobre esse soneto. É dado como sendo poesia filosófica, mas acho que é erótica. Ora repara: "Sonho que sou um cavaleiro andante./ Por desertos, por sóis, por noite escura, [com as mãos vai apontando no seu próprio corpo as partes da anatomia feminina a que Antero se estaria metaforicamente a referir]/ Paladino do amor busco anelante [interrompe para emitir sons arquejantes]/ O palácio encantado da Ventura." E vê como continua: "Quebrada a espada já, rota a armadura...". E a seguir: "Abri-vos portas d'ouro ante meus ais!". E vê como acaba: "Abrem-se as portas d'ouro, com fragor.../ Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão - e nada mais!".
Está-se mesmo a ver que é uma queca que acabou mal.
Manuel António Pina em entrevista a Luís Miguel Queirós, publicada no Ípsilom de sexta-feira passada.
Sexta-feira, Junho 17
Eu também me interesso pela lavoura

A prática de pousio para o controle de plantas daninhas tem uma longa história de sucesso
(in Comportamento de plantas daninhas em função do sistema de produção agrícola).
La Portugaise
Antoine Forqueray, La Portugaise.
Nima Ben David (viola da gamba) com Jonathan Rubin, Sophie Bauchet e Helene Clerc-Murgier.
Nima Ben David (viola da gamba) com Jonathan Rubin, Sophie Bauchet e Helene Clerc-Murgier.
Grazas, José.
Quinta-feira, Junho 16
O Elefante
(...)
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
Excerto de "O Elefante", do Drummond. O poema na íntegra está aqui. Quando chegar ao fim, voltar ao princípio, uma e outra vez, etc.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
Excerto de "O Elefante", do Drummond. O poema na íntegra está aqui. Quando chegar ao fim, voltar ao princípio, uma e outra vez, etc.
Quarta-feira, Junho 15
Segunda-feira, Junho 13
As peças de Tchékhov não revelam a sua profundidade poética à primeira vista. Lêem-se e diz-se: "É bom, mas não tem nada de extraordinário, nada de prodigioso. É tudo como deve ser... conhecido... verdadeiro... mas nada de novo..."
Não é raro ficar-se desiludido quando pela primeira vez se lêem as suas peças: lê-se e fica-se com a impressão de não ter nada a dizer. O assunto? A intriga? Contam-se em duas palavras. Os papéis? Muitos papéis bons mas nenhum de êxito garantido, nenhum papel com características por que tanto anseiam os actores (e há-os). A maior parte são pequenos papéis, "sem agrafes" (quer dizer: que cabem numa única página e que por isso não necessitam de "agrafes" para juntar as folhas...). O que é que fica na memória? Palavras isoladas, uma passagem aqui e ali... Mas é curioso: quanto mais se dá asas à memória, mais se tem vontade de pensar na peça. Certas passagens obrigam-nos - por encadeamento interno - a lembrarmo-nos doutras, ainda melhores, e finalmente a lembrarmo-nos da peça toda. Relê-se a peça uma vez, duas, e começa-se a descobrir o filão que ela encerra.
Constantin Stanislavski.
Não é raro ficar-se desiludido quando pela primeira vez se lêem as suas peças: lê-se e fica-se com a impressão de não ter nada a dizer. O assunto? A intriga? Contam-se em duas palavras. Os papéis? Muitos papéis bons mas nenhum de êxito garantido, nenhum papel com características por que tanto anseiam os actores (e há-os). A maior parte são pequenos papéis, "sem agrafes" (quer dizer: que cabem numa única página e que por isso não necessitam de "agrafes" para juntar as folhas...). O que é que fica na memória? Palavras isoladas, uma passagem aqui e ali... Mas é curioso: quanto mais se dá asas à memória, mais se tem vontade de pensar na peça. Certas passagens obrigam-nos - por encadeamento interno - a lembrarmo-nos doutras, ainda melhores, e finalmente a lembrarmo-nos da peça toda. Relê-se a peça uma vez, duas, e começa-se a descobrir o filão que ela encerra.
Constantin Stanislavski.
Domingo, Junho 12
Utilizando as palavras correntes, esquecemos que são fragmentos de histórias antigas e eternas, que estamos – como os bárbaros – a construir a casa com destroços de estátuas dos deuses. Os nossos termos e os nossos conceitos mais concretos são velhos derivados seus. Nas nossas ideias, nem um só átomo deixa de descender deles, deixa de ser uma mitologia transformada, estropiada, alterada. A mais primitiva das funções do espírito é criar contos, “histórias”. A ciência sempre foi buscar a sua força motriz à convicção de encontrar, depois de fazer esforços e chegar ao cimo dos seus andaimes artificiais, o derradeiro sentido do mundo. No entanto, os elementos que utiliza já serviram e provêm de antigas e desmontadas histórias. A poesia reconhece o sentido perdido, restitui as palavras ao seu lugar, liga-as segundo significados vários. Manejado por um poeta, o verbo recupera consciência do seu primeiro sentido, se assim podemos dizê-lo; floresce espontaneamente e recupera, de acordo com leis próprias, a sua integralidade.
Bruno Schulz.
Bruno Schulz.
Sábado, Junho 11
Antepenúltima fala de Tusenbach
Tenho de ir, são horas... Olha ali uma árvore seca, mas como ela se balança ao vento como as outras. Quer-me parecer que, se eu morresse, havia de continuar mesmo assim a fazer parte da vida, de uma maneira ou de outra.
Tchékhov, Três Irmãs. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Tchékhov, Três Irmãs. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Senhores, que mal vos nembrades


Agora, em vez de agricultura, os políticos dizem lavoura. É muito curiosa esta recente alteração de vocabulário; a palavra tem reminescências quase bucólicas: vemos um homem a cavar o campo e nenhuma maquinaria em redor. O regresso à terra mãe, aos frutos e ao paraíso, oh!
Não será de estranhar se, um dia destes, acrescentarem aos seus discursos a bem da nação a palavra misteres — para ocupar as classes baixas do litoral urbano que esbanjam os rendimentos mínimos sem frugalidade, pois então! Mas porque é que tudo isto soa tão serôdio?
Quinta-feira, Junho 9
- Deverei esconder-vos que o meu irmão, depois de uma longa e incurável doença, se foi transformando aos poucos numa tripa de borracha? (...) E que a minha cunhada era obrigada a tê-lo dia e noite em cima de almofadas, a cantarolar músicas sem fim que embalassem, nas noites de Inverno, a desgraçada criatura? Haverá coisa mais triste do que um ser humano transformado em tubo de borracha? Que desilusão para os pais, que perturbação feita aos seus sentimentos, que desabar de todas as esperanças!... Um rapaz que prometia tanto! Mas o amor fiel da minha pobre cunhada acompanhou-o sempre, mesmo na metamorfose.
Bruno Schulz, As lojas de canela. Tradução de Aníbal Fernandes.
Bruno Schulz, As lojas de canela. Tradução de Aníbal Fernandes.
Las cosas que existen
Cuando sólo quedaron cuatro, se volvió un poco más íntimo y entonces Straub habló a todos, les habló de su cine y de comunismo… entre los que se quedaron, había un chico que un día le preguntó a Danièle algo magnífico: “Madame, estamos aquí desde el primer día y la vemos muy concentrada siempre, trabajando para encontrar el momento ideal para cortar, para encontrar algo…” Yo estaba aterrorizado, y mi sonidista también, se produjo un silencio enorme… y Danièle se giró hacia el chico y le dijo: “Querido, tengo demasiados problemas con las cosas que existen como para preocuparme por cosas que no existen”. Esa frase constituye una bella sentencia de lo que supone su montaje y su cine, hecho de cosas que existen, de toda esa fuerza y belleza que el cine puede conservar… no creo que sea pretencioso, es algo puramente humano, es un cine que trabaja con algo muy bello y humano. Eso es lo mejor que conservo de los Straub, es algo que siento cuando filmo, esa convicción profunda, sin necesidad de hacer caso al dinero, la producción y ese tipo de cosas que restringen al cine…
Conversación registrada en el diálogo con Pedro Costa y Jacques Rancière celebrado tras la proyección de Où gît votre sourire enfoui? (Pedro Costa, 2001) en el Institut Français de Barcelona, 13 de mayo de 2011.
Conversación registrada en el diálogo con Pedro Costa y Jacques Rancière celebrado tras la proyección de Où gît votre sourire enfoui? (Pedro Costa, 2001) en el Institut Français de Barcelona, 13 de mayo de 2011.
Quarta-feira, Junho 8
Coisas que me tiram o sono
A direcção de Foster foi mais clara que o habitual e o conjunto manteve-se coeso, não percebo apenas o passar da batuta para a mão esquerda para depois andar aflito sem saber onde a colocar! A orquestra esteve a elevado nível e apenas a falta de aprumo de alguns músicos também se lamenta, não é próprio ver fivelas de cintos com as competentes banhas abdominais sobrepostas em traje de casaca, para evitar isso existem coletes brancos ou faixas brancas.
Henrique Silveira.
Henrique Silveira.
Terça-feira, Junho 7
Segunda-feira, Junho 6
Hora de almoço
Em manhãs de muita luz, Adélia voltava abrasada como Pomona, regressava do esplendor do dia e despejava o cesto com todas as belezas coloridas do sol. Começava pelas cerejas brilhantes, inchadas de água por baixo da pele fina e transparente, as misteriosas ginjas negras com os damascos de polpa amarela onde dormitavam tardes longas e abrasadoras; e depois da pura poesia dos frutos vinham os enormes pedaços de carne cheios de força e nutrição, com o teclado musical das costeletas de vitela; os legumes parecidos com plantas aquáticas, medusas mortas e moluscos - todo um material para refeições que tinham um gosto inerte e ainda não determinado, os ingredientes vegetais e telúricos do futuro almoço, com bravio e campesino cheiro.
Bruno Schulz, As lojas de canela. Tradução de Aníbal Fernandes.
Bruno Schulz, As lojas de canela. Tradução de Aníbal Fernandes.
Domingo, Junho 5
— Como é que trabalha?
Thomas Bernhard — Muito concentradamente. Sendo possível, cedo. Das cinco às nove da manhã, depois dou um passeio, vou buscar o jornal, tomo um café, consolo-me por não fazer absolutamente nada, gozar de ar puro e de sol estupendo, de dias límpidos, de montanhas e de repente de pessoas também estupendas. Ao meio dia como abundantemente, tanto quanto posso, do mais são possível, encho-me bem. E aí pelas quatro, volto a trabalhar, melhor ainda que pela manhã. E depois, para as sete ou sete e meia estou farto, vou dar outro passeio e logo devagar vem o jantar. Que é realmente muito parco. Um pouco de vinho, água mineral, meio melão, um pedaço de presunto e é tudo. E a seguir um bocadinho de televisão. Mesmo em espanhol. Olham-se as caras e imagina-se qualquer coisa. E quando não se compreende o idioma, torna-se muito repousante, porque provavelmente se põe mais do que realmente dizem as imagens. No próprio país vêem-se as imagens, compreende-se tudo e é uma chatice. E aqui é capaz de ser também uma chatice, mas não se nota, porque não se compreende. E depois, o mais importante para o trabalho, para mim pelo menos — cada pessoa é diferente —, é estar num país em que não entende o idioma, porque se tem sempre a impressão de que as pessoas só dizem coisas agradáveis e só falam de importantes questões filosoficas. Quando, no nosso país, compreendemos o idioma temos a impressão de que só dizem tolices, não acha?(...)
Thomas Bernhard — Muito concentradamente. Sendo possível, cedo. Das cinco às nove da manhã, depois dou um passeio, vou buscar o jornal, tomo um café, consolo-me por não fazer absolutamente nada, gozar de ar puro e de sol estupendo, de dias límpidos, de montanhas e de repente de pessoas também estupendas. Ao meio dia como abundantemente, tanto quanto posso, do mais são possível, encho-me bem. E aí pelas quatro, volto a trabalhar, melhor ainda que pela manhã. E depois, para as sete ou sete e meia estou farto, vou dar outro passeio e logo devagar vem o jantar. Que é realmente muito parco. Um pouco de vinho, água mineral, meio melão, um pedaço de presunto e é tudo. E a seguir um bocadinho de televisão. Mesmo em espanhol. Olham-se as caras e imagina-se qualquer coisa. E quando não se compreende o idioma, torna-se muito repousante, porque provavelmente se põe mais do que realmente dizem as imagens. No próprio país vêem-se as imagens, compreende-se tudo e é uma chatice. E aqui é capaz de ser também uma chatice, mas não se nota, porque não se compreende. E depois, o mais importante para o trabalho, para mim pelo menos — cada pessoa é diferente —, é estar num país em que não entende o idioma, porque se tem sempre a impressão de que as pessoas só dizem coisas agradáveis e só falam de importantes questões filosoficas. Quando, no nosso país, compreendemos o idioma temos a impressão de que só dizem tolices, não acha?(...)
Sábado, Junho 4
Sexta-feira, Junho 3
Às 22h00, no Passos Manuel.
Quinta-feira, Junho 2
O viajante
Ali de onde venho ninguém me retinha.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.
Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.
Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá.
Juan Bonilla.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.
Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.
Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá.
Juan Bonilla.

É uma das sequências mais belas de Passion. Godard não filma a pintura mas as condições de possibilidade do cinema. As escadas são o local de passagem, as personagens vêm e vão, os pares fazem-se e desfazem-se. Godard ilumina com a luz e com a sombra. Todos os movimentos são duplos na sua gênese.
Quarta-feira, Junho 1
Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com este nem se adequa às suas pretensões e é por isso, neste sentido, inatual; mas, justo por isto, justo através desta separação e deste anacronismo, ele é mais capaz que os outros de perceber e agarrar o seu tempo.
Giorgio Agamben a propósito de Giorgio Caproni.
Giorgio Agamben a propósito de Giorgio Caproni.
Elementos para uma história paralela da literatura
Os comentadores de Shakespeare são unânimes em considerar que o texto [de "Medida por Medida"] que serviu de base à representação referida era algo diferente daquele que o primeiro in-fólio veio a consagrar, atribuindo essa diferença a vários factores que vão desde erros e intromissões do escriba que copiou o original até aos erros e omissões da responsabilidade dos tipógrafos que compuseram a primeira publicação impressa. Em conseuquência disso, torna-se natural que algumas passagens mais intrigantes devido às sérias dificuldades de interpretação que levantam se possam atribuir aos factores que adulteraram o texto originariamente produzido por Shakespeare. E se é verdade que os estudiosos apontam, por um lado, para supressões ou saltos de texto, por outro, detectam prováveis acrescentos que não terão sido da responsabilidade do dramaturgo, mas sim dos intermediários que, sucessivamente, foram lidando com o texto.
(...)
O que acontecia ao tempo era que mais do que um compositor intervinha na feitura tipográfica de uma mesma obra. Para isso o manuscrito era dividido em partes, de forma a que a cada compositor coubesse a responsabilidade de compor um caderno. (No caso de "Medida por Medida" terão intervido quatro compositores.) Dificilmente os cálculos para a partilha do texto terão sido sempre exactos, e desse modo um tipógrafo poderá ter-se confrontado ou com um excesso de texto ou com excesso de espaço para lá meter o que lhe tinha sido distribuído em manuscrito. A solução, se tinha texto a mais, era, por exemplo, transformar verso em prosa, para assim aproveitar melhor as páginas, metendo mais texto nas linhas disponíveis; ou, na hipótese contrária, transformar prosa em verso para assim encher espaço sobrante.
Introdução de M. Gomes da Torre a "Medida por Medida", de William Shakespeare.
(...)
O que acontecia ao tempo era que mais do que um compositor intervinha na feitura tipográfica de uma mesma obra. Para isso o manuscrito era dividido em partes, de forma a que a cada compositor coubesse a responsabilidade de compor um caderno. (No caso de "Medida por Medida" terão intervido quatro compositores.) Dificilmente os cálculos para a partilha do texto terão sido sempre exactos, e desse modo um tipógrafo poderá ter-se confrontado ou com um excesso de texto ou com excesso de espaço para lá meter o que lhe tinha sido distribuído em manuscrito. A solução, se tinha texto a mais, era, por exemplo, transformar verso em prosa, para assim aproveitar melhor as páginas, metendo mais texto nas linhas disponíveis; ou, na hipótese contrária, transformar prosa em verso para assim encher espaço sobrante.
Introdução de M. Gomes da Torre a "Medida por Medida", de William Shakespeare.






