Terça-feira, Maio 31

De um mail enviado por um amigo

Acabou o mercado do Bom Sucesso. Quando era puto, mais precisamente em 1969, andava eu a distribuir propaganda da oposição democrática, fui detido por três latagões façanhudos que me meteram num carro para destino desconhecido.
Ora, as vendedeiras do Bom Sucesso quando aquilo viram viraram-se aos pides aos berros:
- Ó seus filhos da puta do caralho, deixem lá o catraio! O catraio fez-lhes alguma coisa, seus amarelos dos peidos?
E batiam no carro com grandes punhadas.
Os gajos, que já estavam no carro comigo, começaram a ficar nervosos, agarraram numas mocas e saíram para dispersar o mulherame.
Quando me vi sozinho desatei a correr e pisguei-me dali.
As vendedeiras desataram a bater palmas e os pides ficaram ali atónitos sem saber se haviam de ir atrás de mim se haviam de carregar sobre as mulheres.
Nunca mais me viram, os cabrões.
CINQ FOIS GODARD | LES ANNÉES 60,
a partir de hoje, às terças-feiras à noite, no Teatro do Campo Alegre: O Acossado (31.05), O desprezo (7.06), Pedro, o louco (14.06), Masculino Feminino (21.06), e 2 ou 3 coisas sobre ela (28.06).

Segunda-feira, Maio 30

Métodos de construção em meios urbanos


O barulho fez-me parar em frente ao prédio na esquina entre as ruas Barbosa du Bocage e Bom Sucesso. Só passado um bocado percebi que os gritos das crias de andorinha vinham dos buracos da chapa ondulada da empena. Foi aí que as andorinhas construíram os ninhos, escondidos entre o fibrocimento e os tijolos.
Retrospectiva de Boris Lehman no Passos Manuel.

Domingo, Maio 29

El único rincón que se ha salvado del desmantelamiento ha sido la biblioteca. “Hemos puesto todos los libros en cajas cuando hemos visto que se acercaban los Mossos de Esquadra”, explicaban un grupo de jóvenes que volvían a colocar los tomos.
Aqui.

Perdi o Yo Yo de Pierre Étaix. Afinal era apenas uma sessão, no sábado, à mesma hora da reunião de condomínio. Vim-me embora da Festa meia enxofrada. Mas entretanto descobri que se voltar a ver o filme de Rivette, o aborrecimento passa.
Sempre que preciso de compreender a alegria de Walser penso numa das primeiras frases de Lenz, quando ele atravessa a montanha :"Não sentia nenhum cansaço, era-lhe apenas por vezes desagradável não poder andar de cabeça para baixo". No meu exercício deixo Walser vencer a lei da gravidade como um acrobata dum circo extravagante. A ideia tinha o movimento mas faltava-lhe qualquer coisa... Descobri agora, ao ler o texto sobre Watteau; o que faltava à imagem era, evidentemente:
um estado de contentamento consigo próprio.

Sexta-feira, Maio 27

O bairro onde trabalho cheira a tília.
Um dos grandes, grandes contos de Nathaniel Hawthorne, "O véu negro do pastor". Está publicado em português na antologia "Contos Completos, vol. 1", da Cavalo de Ferro. Está disponível na versão original, aqui. Um conto absolutamente perfeito.

Quinta-feira, Maio 26

Da janela da sala onde trabalho vejo o prédio em frente, alguns ramos de um plátano, um fio de electricidade. Às vezes o homem que lava os vidros, gaivotas em voo ou pousadas no telhado.
O momento mais excitante de todo este movimento lento é quando, como ainda há pouco, um avião altera a sua rota habitual e atravessa a minha janela da direita para a esquerda.

huh, baby, you're so vicious

Vício (do latim "vitium" que significa "falha" ou "defeito") tem a ver com quantidade, excesso, adição. Mas nos últimos tempos, por circunstâncias várias, reparei que na abdicação (que é quase um acto contrário), também há um comportamento vicioso. Não em profundidade, porque abdicar estende-se logo no primeiro passo de uma forma radical destruindo qualquer ideia de perspectiva, mas em domínio: hoje abdicamos disto, amanhã daquilo, e por aí fora num caminho estranhamente perverso (mais ou menos como se Dennis "Spider" Cleg abdicasse das suas camisas, ou Walser da sua loucura).
Se assim for, temos de repensar a vida dos santos e de outros indivíduos do mesmo género.

Quarta-feira, Maio 25

(Escusam de se esforçar mais), as eleições já estão ganhas!

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Acrescentar na agenda: Yo Yo, de Pierre Étaix, 28 maio (sáb.), às 14h30; e Que Farei Eu Com Esta Espada?, de João César Monteiro, 5 de junho (dom.), às 16h00. Ambos no Auditório de Serralves.

A publicidade e os funcionários políticos (duas bocas do mesmo corpo) passam a vida a dizer-nos que temos o poder de fazer tudo o que quisermos. Nada mais falso. Temos, de facto, um poder nas mãos, mas é o inverso: o poder de não fazer. Ah, se um dia...

Terça-feira, Maio 24

O macaco que tirou um homem do nariz

Aconteceu num zoológico da China
E continua a intrigar quem raciocina,
Depois dessa anormal tarde de janeiro
Em que um macaco decidiu, do seu nariz
Assoar uma pessoa por inteiro.

Este insólito tornou-se um chamariz
Que se espalhou para fora do país
E ouviu-se contestar em todo o lado
É que o Mundo (o do ser inteligente)
Mostrou-se totalmente indignado.

Quem não ficou - e com razão - muito contente
Foi o símio, que se vê actualmente
Em prisão preventiva até ao outono
Porque um humano não podia conceber
(Por questões relacionadas com o poder)
Que do seu nariz, um macaco fosse dono.

Pedro de Almeida Rigueira

Segunda-feira, Maio 23


Cedro com ramo horizontal. Jardim do Palácio de Cristal, ao fundo da alameda das tílias.
(Como no filme de Godard, este ano o verão chegou mais cedo.)
E o mundo do livro? E quanto a isso? Todos editores e agentes e divulgadores e resenhistas? O que acontecerá com esse povo merecedor de emprego? Ah, essa espécie é resistente. Vão encontrar outros lugares para fazer o que fazem, apenas de maneira um pouco diferente. Eu não me preocuparia com eles.

E o ensino de escrita criativa? Qual é o sentido disso tudo? Todas essas pós-graduações em criação artística? Não, não, isso ainda é uma boa ideia. Afinal, as universidades estão cheias de cursos que já não dizem respeito a nada. Isso é triste? É uma droga, essa perda do livro-objeto, esse destronamento do ofício? Bem, para mim é uma droga, é claro. Passei muito tempo aprendendo esse ofício específico, em detrimento de todos outros Se você for lamentar o declínio do livro, lamente por pessoas como eu (e você: se você está lendo isso, provavelmente é uma dessas pessoas também). Lamente pela geração anterior à minha, e talvez por alguns dos nossos estudantes que foram bobos o bastante para acreditar quando dissemos que isso era algo de importante, nada a ver com estudar arte bizantina ou literatura francesa. Lamente por aqueles envolvidos na transição, as várias gerações que se prolongam, e por aqueles de nós que, como jovens crédulos, apostaram todas suas fichas no livro e então se tornaram tão especializados que logo qualquer outra vida estava fora do nosso alcance. Essa parte é uma droga.

Deb Olin Unferth.


Domingo, Maio 22

O português é menos exuberante, ruidoso e expansivo que os outros meridionais. Um só espanhol, numa carruagem de comboio, abafa com a sua voz a de todos os portugueses. Além disso, o Português é inibido por um forte sentimento do ridículo. Como é muito sensível e dotado da faculdade de se aperceber do que vai nos outros, receia ser vítima da ironia e da crítica trocista, tão comum em Portugal. De facto, a ironia, muito mais do que o humor, tem fundas raízes na cultura portuguesa; desde as cantigas de escárnio e maldizer da Idade Média até à ironia de Eça de Queirós há toda uma gama de coloridos. Temos a ironia benévola de Gil Vicente, a mordente de Nicolau Tolentino e de Bocage e a ironia pungente ou sarcástica de Fialho e de Camilo. Mas o próprio povo, com as suas certeiras alcunhas e apelidos, ou com os apodos tópicos, ou com os cantares ao desafio, etc., mostra a terrível arma de que é dotado. Por isso, a sensibilidade, que é um dos grandes elementos positivos da mentalidade portuguesa, é também um dos grandes elementos da sua fraqueza. O sentimento do ridículo e o medo da opinião alheia abafam nele muitos impulsos generosos, deformam a sua naturalidade e impedem-no de se entregar livremente aos prazeres simples e à alegria espontânea. Nas classes populares tal sentimento é moderado, mas nas outras classes é tão saliente que se tornam com frequência ridículos pelo medo de o parecer.

Jorge Dias, Os elementos fundamentais da cultura portuguesa, 1955.

Deixei estes planos fora da sequência anterior de propósito. Uma tarde, Noriko encontra-se com Hattori num café para tentar saber o que é que ele gostaria de receber como presente de casamento. Hattori convida-a para um concerto de violino mas Noriko não aceita; não quer correr o risco, diz ela. Vemos Hattori sentado na sala de concerto, ao lado de uma cadeira vazia, e depois vemos Noriko a caminhar pela rua. A câmara acompanha-a num travelling, primeiro de costas, depois de frente e mais aproximada: o seu rosto não expressa um sentimento como nos planos anteriores, mas uma acção — ela pensa. Ozu retoma o travelling de costas e deixa-a sair de campo, ficando uma árvore no centro do enquadramento.

Sábado, Maio 21

36 vistas do rosto de Noriko







Noriko é uma rapariga tímida e alegre. Desde a cena da cerimónia do chá, às conversas com o pai (viúvo), Hattori (o homem gentil com quem ela prefere não casar), Aya (a amiga divorciada), ou o tio Onodera (casado em segundas núpcias), Noriko sorri sempre — mesmo quando repreende o tio por ter voltado a casar. Sorrir é a sua forma de lutar por um mundo permanente, sujeito a um acordo indestrutível e imutável entre as coisas. Como se ela fosse a bela adormecida que prefere a doce sonolência ao princípe.

A cena mais alegre do filme é o passeio junto à praia com Hattori. Mas enquanto ela ri dos seus sentimentos escondidos, em casa, a tia tenta convencer o pai a casá-la. Ao princípio Noriko não leva a sério essa intenção porém, quando a tia lhe garante que o pai não ficará sozinho e fala-lhe da senhora Miwa (que ela não poderá pôr de lado como fez a Hattori), o seu rosto muda e expressa uma dor nova e absoluta: a terra move-se, a vida é precária e os laços entre as pessoas não duram para sempre. A sua relação discreta e amável com os outros desfaz-se; agora ela conhece a lei dos humanos.

Noriko demora muito tempo a aceitar o casamento e na última viagem que faz com o pai a Quioto tenta desfazer o compromisso — ela apenas quer não mudar nada. Aos poucos, Noriko volta a sorrir mas já não é a mesma coisa. No último plano em que a vemos é o dia do seu casamento; ela agradece ao pai todos os anos que passaram juntos, tem os olhos marejados e um sorriso triste no rosto. Depois desaparece do filme e de casa do pai.

Sexta-feira, Maio 20

"em tudo explêndidos"

Quinta-feira, Maio 19

Ainda estou a pensar nas notas de vinte dolares que a mãe de Chantal Akerman mandava nas cartas para a América (News from home). Destituído da sua simbologia corrente, o dinheiro pode tornar-se uma coisa comovente.
um chabrol (hoje) dois demy (em Junho). Com os devidos agradecimentos à milímetro.
Há também nos seus livros um grande amor pelo sono e pelo silêncio.
Abomino o ruído, e é por isso que não gosto dessa música norte-americana que nos invade. Deixei de ir a boîtes porque não suporto o rock, ou lá como lha chamam. Os norte-americanos introduziram o barulho no mundo inteiro. É o contrário da reflexão. Sou um homem que gosta de reflectir, e tenho tempo para reflectir.

Albert Cossery, em entrevista ao semanário Algérie-Actualité, 1990.

Quarta-feira, Maio 18


4ª Sessão do ciclo de cinema Babette Mangolte: O QUARTO, A CIDADE. Às 21h30, no Auditório de Serralves.

La Chambre, de Chantal Akerman, 1972, 11’, 16mm
News from Home, de Chantal Akerman, 1977, 95’, 16mm

«Dois filmes com imagem de Babette Mangolte. Akerman disse a propósito de News from Home: “Vivi em Nova Iorque pela primeira vez durante um ano e meio e durante todo este tempo recebi cartas da minha mãe. Em relação ao que estava a viver, em relação a Nova Iorque, era muito comovente. Como uma espécie de lamento-amoroso, repetitivo, sempre a acompanhar-me. Para a minha mãe, que é da velha Europa, a América é ainda o mito da Nova América. O filme parece-me muito europeu… É um filme sobre estar descentrado e isso é evidente na construção do filme. De um modo geral, mas não sistematicamente, o filme é composto de planos no metro e no exterior. E nunca sabemos onde estamos, nunca. A mesma construção surge ao nível do som… É como uma cantiga de amor que escutamos ou não, e ao mesmo tempo como algo que se esvai…” Em La Chambre, o primeiro filme de Chantal Akerman, “uma longa e lenta panorâmica descreve diversas vezes o espaço de um quarto em que vemos Chantal Akerman sentada na cama e a comer uma maçã. É um auto-retrato misterioso em que a cineasta surge no seu lugar predilecto que equivale no seu cinema a uma natureza morta: acumular motivos ‘mobiliários’, para deles dispor numa descrição repetitiva.”»

Terça-feira, Maio 17

Nobody
can do anything
when the sky
decides to rain.

Abbas Kiarostami, Walking with the Wind

Who Had the Best Civil War Facial Hair?


Votação aqui.

Segunda-feira, Maio 16

Duas histórias com rapazes

Primeira:

Um rapaz croata de seis anos é um autêntico íman humano. Sempre que tira a camisola, o seu corpo atrai os mais diversos objectos metálicos, desde colheres, a telemóveis e até frigideiras.
Jornal de Notícias.


Segunda:

Vieram os jornais para dizer que na Escócia (Aberdeen) estavam a acontecer umas coisas eléctricas que promoviam alguma inquietação local (escocesa). Era o caso de uma criança (masculino, o sexo) que se não contentava em absorver uma quantidade normal de electricidade estática. De tal modo se enchia ela de electricidade estática que ninguém lhe podia tocar.
Herberto Helder, Coisas eléctricas na Escócia.

Domingo, Maio 15


Mais do que o olhar (a uma certa distância, quantas vezes no limiar de uma porta), é o corpo de Cristi Puiu que dá ao filme um carácter tão intenso. Talvez nenhum actor se oferecesse à câmara de modo tão desapaixonado como ele: o rosto vazio, as mãos pendentes.
Não sei explicar bem, mas parece-me haver uma folga, ou até mesmo um fosso, entre o corpo e os pensamentos de Viorel; digamos que ele não reage a nada compreensível (receio que vocês não tenham percebido nada, diz aos polícias depois da confissão), move-se por uma estranha propulsão e por isso não podemos adivinhar em que pensa. E por isso não o podemos julgar (também nós somos incapazes de compreender a complexidade da sua relação com a ex-mulher).

Ao longo das três horas, imaginei que Cristi Puiu, para conseguir um desempenho tão modelar, elaborava listas mentais: uma lista para vestir uma camisa, outra lista para preparar a arma, e assim sucessivamente. Ao princípio, isso pareceu-me sem fundamento, depois lembrei-me de Crack-Up.

Sábado, Maio 14

Na segunda parte d' A Educação Sentimental, Jacques Arnoux já não é o proprietário do Art Industriel (estabelecimento híbrido [em Montmartre] que incluía um jornal de pintura e uma loja de quadros). Quando Frédéric o encontra na sua casa nova na rua Paradis-Poissonnière, explica-lhe porque mudou de indústria:

— Que fazer numa época de decadência como a nossa? A grande pintura passou de moda! Aliás, pode meter-se a arte em tudo. Sabe, eu aprecio o Belo! Um dia destes hei-de levá-lo à minha fábrica.
E quis mostrar-lhe, imediatamente, alguns dos seus produtos no armazém da sobreloja.
As travessas, as terrinas, os pratos e as saladeiras enchiam o sobrado. Encostados às paredes encontravam-se largos mosaicos para casas de banho e gabinetes de toilette, com temas mitológicos em estilo Renascença, enquanto, no meio, uma espécie de estante dupla, que chegava ao tecto, servia de suporte a recipientes para guardar gelo, a vasos para flores, a candelabros, a pequenas floreiras e a grandes estatuetas polícromas representando um negro ou uma pastora vestida à pompadour. As explicações de Arnoux aborreciam Frédéric, que tinha frio e fome.

Deixemos, pois, Frédéric cear e afastar as mágoas do seu amor próprio beliscado pela indiferença da senhora Arnoux, mas só depois de sublinhar os dois pensamentos modernos do negociante de faiança: meter a arte em tudo; apreciar o Belo!
Não estarás tu a par do caso das eleições?
- Não, nunca leio os jornais.
- Esse não vinha nos jornais. Contaram-mo.
- Diz lá então.
- Ora ouve! O caso passou-se há pouco tempo, numa aldeola do Baixo Egipto, durante as eleições para a junta de freguesia. Quando os funcionários do Governo abriram as urnas, notaram que na maioria dos boletins de voto estava escrito o nome Bargute. Ora os ditos funcionários do Governo não conheciam tal nome, que não figurava na lista de nenhum partido. Inquietos, logo se puseram à cata de informações; e acabaram por saber, pasmados de todo, que Bargute era o nome dum burro por quem toda a gente da aldeia nutria muita estima, por via da sabedoria do animal. Quase todos os moradores tinham votado nele. Que me dizes tu a esta história?

Albert Cossery, Mendigos e Altivos. Tradução de Júlio Henriques.
BABETTE MANGOLTE está em Serralves.

Quinta-feira, Maio 12


— Não só o dedo mindinho, disse Winnie the Pooh. E pôs-se a dançar com o tigre.
Agenda política: Jorge Silva Melo lê NUM PAÍS ONDE NÃO QUEREM DEFENDER OS MEUS DIREITOS, EU NÃO QUERO VIVER (a partir de "Michael Kolhaas" de Heinrich von Kleist), na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, Sáb 14 de Maio (Noite dos Museus) pelas 18h00.
«É uma das novelas mais extraordinárias do século XIX, onde, com o pano de fundo das revoltas camponeses, Heinrich von Kleist levanta as questões do poder político, da revolta, do poder popular, da justiça, da lei, da desobediência, dos limites da legitimidade. Durante uma hora, cavalgamos pelas planícies da Baixa Saxónia, questionando-nos.»
«Aos vinte anos é considerado o primeiro repórter português, título que jamais ninguém lhe arrebatará, na vida como na morte!» – escreve Artur Portela no prefácio à edição de 1956.
(...)
«Um dia, Reinaldo Ferreira aluga o fato esfarrapado, coberto de vérmina, de um pobre, encosta-se a uma esquina do Chiado e, com uns óculos negros de cego, estende a mão à caridade pública.
Ninguém o reconhece. Passam por ele os grandes senhores da fortuna, os ventres dourados da burguesia, os seus camaradas egoístas e distraídos. Há os que lhe dão uma esmola, os que a negam, os que o insultam. Resiste a tudo, como um actor num palco improvisado sofre as vaias dos espectadores.
Um deles é Joshua Benoliel, o melhor fotógrafo desse tempo, bastante avaro, que lhe nega o óbolo, por mais lamúrias que o falso pedinte debite numa voz caracteristicamente rouca e arrastada.
No dia seguinte, a sua crónica flagrante, caricatural, satírica, em que perpassam com os nomes dezenas de figuras conhecidas, faz rir Lisboa inteira!»
(...)
A viagem à Rússia dos sovietes, em 1925, com fotografia encenada e tornada pública, de parentes e amigos colunáveis a despedirem-se do jornalista no cais de embarque – que de lá, desse país remoto e mítico, “envia” vinte e cinco artigos para o magazine ABC –, é logro a que nenhum funcionário dos jornais se atreveria hoje, nem como exemplo de coragem criativa, nem de crítica mordaz à “objectividade” da informação.

A propósito de Memórias de um Ex-Morfinómano, de Reinaldo Ferreira.

Quarta-feira, Maio 11

Estratégias de dispersão

No seu livro sobre o estilo trancendental, Paul Schrader escreve que Ozu é essencialmente um artista do mono no aware. Schrader utiliza a tradução de Tamako Niwa, sympathetic sadness. Há cinco anos cheguei à mesma expressão, mas por um caminho diferente. Não sei se entrar pela porta das traseiras é uma passagem zen (se aprendi bem a lição das pauladas, arrisco dizer que é um verdadeiro movimento em ziguezague ou — e isso é que era bom — o percurso desorientado da mosca). De qualquer das formas, prefiro dedicar-me à transformação do sorriso de Noriko que atravessa Primavera tardia.


Entrar pelas traseiras (por uma pequena porta) também é o tema de 36 Vistas do Monte Saint-Loup.

Terça-feira, Maio 10

Notas particulares: não só na pintura, também na nossa vida é preciso evitar a literatura.

Oração do favelado

pai nosso
que nos deixa ao léu
santificada seja a nossa fome
venha a nós o vosso treino
e seja feita a vossa vontade
aqui na guerra
como entre os réus

o pão nosso de cada dia
roubai hoje
e perdoai a nossa imprensa
assim como perdoamos
as migalhas que nos têm oferecido,
não nos deixeis cair na transação
mas livrai-nos do sistema penal,
amém.

Marcus Fabiano.

Segunda-feira, Maio 9

No ano de 1733, amantes da música podem aguardar uma grande obra instrumental intitulada "Musique de table", da pena de Telemann. Ela consiste de nove peças longas com sete instrumentos, bem como várias pequenas com um, dois, três ou quatro instrumentos. A assinatura pode ser paga trimestralmente, e a referida obra será lançada em três partes: no Dia da Ascensão, na Festa de São Miguel e no Natal. Os nomes dos assinantes serão impressos na capa.

O marketing de Telemann.

Et aussi:


un poème de Rilke. Mise en scène par Jacques Rivette. (Comme disait l'autre: Tous les dragons de notre vie sont peut-être des princesses souffrantes qui demandent à être délivrées.)

Van Gogh

O pobre homem
não me pode fazer isto.
Perante a sua paleta grosseira
dissipa-se
em mim qualquer bela
perspectiva de vida. Ó, a frieza
com que pintou a obra da sua vida!
Pintava com correção excessiva.
Se alguém se quiser achar importante
na exposição, sentirá um aperto
perante o movimento deste pincel.
Medonho como estes campos, prados, árvores
tiram à noite, como penosos sonhos,
o sono. Grande respeito porém
merecem fogosas obras artísticas,
um quadro onde vemos, por exemplo,
no círculo do manicômio loucos.
A queimadura do sol, o ar, a terra, o vento
representou, sem dúvida, excepcionalmente.
Mas depressa desviamos os olhos
de tal força masoquista
em obras meramente satisfatórias.
Fica-se
horrorizado quando
a arte não consegue nada mais belo
do que revelar o seu ter, dever, querer
perante as almas que a olham.
Desejo, quando olho um quadro
ser acariciado como que por uma bela fada,
vai, vai-te
embora, adeus!

Robert Walser. Tradução de Pedro Sepúlveda.

Domingo, Maio 8

Les Marionnettes de Kleist







Mise en scène par Jacques Rivette.

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(...) Portanto, meu excelente amigo, disse o Senhor C..., está agora na posse de tudo o que é necessário para me compreender. Vemos que, no mundo orgânico, à medida que a reflexão se torna mais obscura e mais fraca, a graciosidade se apresenta cada vez mais radiosa e soberana. — Porém, tal como a intersecção de duas linhas por um lado de um ponto, depois de percorrido o trajecto pelo infinito, se volta a verificar subitamente pelo outro lado do mesmo ponto, ou como a imagem do espelho côncavo, depois de se afastar até ao infinito, volta subitamente a surgir perante nós: assim também a graciosidade, depois de, por assim dizer, o conhecimento ter atravessado o infinito, volta a apresentar-se; e de tal maneira que surge em simultâneo e de modo mais puro naquela estrutura de um corpo humano que ou não possui consciência alguma, ou possui uma consciência infinita, i.é. ou no boneco articulado, ou num deus.
Sobre o teatro de marionetas, Heinrich von Kleist (tradução de José Miranda Justo), ANTÍGONA

Sábado, Maio 7

Pina Bausch, filmes

Die Klage der Kaiserin [O Lamento da Imperatriz] | Realização: Pina Bausch (1989) | Duração: 1:43 || Café Müller | Realização: Pina Bausch (1985) | Duração: 55’ || Auditório de Serralves | hoje, 16h00

Damen und Herren ab 65 [Senhoras e Senhores com Mais de 65] | Realização: Lilo Mangelsdorf (2002) | Duração 1:10 || Sonhos de Dança || Realização: Anne Linsel, Rainer Hoffman (2010) | Duração: 1:29 || Auditório de Serralves | amanhã, 16h00

Pina | Realização: Wim Wenders (2011) | Duração: 1:46 | UCI Arrábida | amanhã, 21h30

Un jour, Pina a demandé | Realização: Chantal Akerman (1983) | Duração: 58’ || Auditório de Serralves | 2ª-feira, 21h30 || (Un jour Pina est arrivé en repétition et nous a demandé: qu'est-ce que vous vient à l'esprit quand je dis le mot amour?... Kyomi a dit: amour en japonais ce dit "ai".)

Sexta-feira, Maio 6

Não surpreende que uma teoria da tradução que procure escapar à ideia de cópia, reprodução ou simples comunicação de um sentido original, tido como pré-existente e claramente delimitável, recorra à tangente como metáfora. É o que faz Benjamin: «Assim como a tangente toca o círculo somente num ponto e de um modo fugidio [flüchtig] e é realmente este contacto, não o ponto, que lhe dita a lei segundo a qual progride em linha recta até ao infinito, do mesmo modo a tradução toca o original apenas no ponto infinitamente pequeno do sentido, prosseguindo, segundo a lei da fidelidade, o seu próprio caminho na liberdade do movimento da linguagem.» (em “A Tarefa do Tradutor” / “Die Aufgabe des Übersetzers”, trad. da minha responsabilidade). De outro modo Derrida, partindo precisamente da leitura do ensaio de Benjamin e sublinhando a ideia de um movimento que «não reproduz, não restitui, não representa, no seu carácter essencial não devolve [rend] o sentido do original, excepto nesse ponto de contacto ou de carência, o ponto infinitamente pequeno do sentido.» (“As Torres de Babel” / “Des Tours de Babel”, trad. da minha responsabilidade).
A fidelidade de uma tradução dependerá pois da perspicácia em encontrar não o ponto mas o devido contacto, o modo de tocar a outra língua sem a intersectar, fazendo-a ressoar num código diferente, no qual já não está presente. Trata-se afinal de um problema de tacto, de tocar o que é tangível.

Pedro Sepúlveda.

Quinta-feira, Maio 5

JAQUES
Sabeis nomear, por ordem, os graus de uma mentira?

BITOLAS
Senhor, discutimos em letra de forma, pelo livro - tal como vós tendes livros para as boas maneiras. Vou nomear-vos os graus: primeiro, a Réplica de cortesão; segundo, o Sarcasmo moderado; terceiro, a Resposta grosseira; quarto, a Reprovação valente; quinto, o Impedimento conflituoso; sexto, a Mentira de circunstância; sétimo, a Mentira directa. Todos eles podem ser evitados à excepção da mentira directa, mas mesmo esse podeis evitar com um "se". Eu soube dos sete juízes que não conseguiram resolver uma querela, mas quando as partes se encontraram uma delas lembrou-se do "se": deste modo, "se vós dizeis assim, eu digo assado". E cumprimentaram-se e fizeram juras de irmãos. Este "se" é o único pacificador: muitas virtudes há no "se".

W. Shakespeare, Como vos aprouver. Tradução de Fátima Vieira.
One should, as one old flower manual has it, place "the chrysanthemum in an earthen jar, the pure white lily in a rustic sake bottle, one floating plum blossom in a rice bowl. (Donald Richie)

Terça-feira, Maio 3

Numa nota de rodapé

Eliezer Kamenezky nasceu na Ucrânia, em 1888. Andou por vários lugares do mundo, desde os quinze anos, a partir de certa altura difundindo o naturismo e a «alimentação natural» (dizia-se «fungívero»). Chegou a Portugal, vindo do Brasil, nos anos 20, e aqui viria a morrer (em 1957). Conheceu Fernando Pessoa, que lhe escreveu um desconcertante prefácio para o livro de poemas, Alma Errante (1932). Deixou inédito um romance autobiográfico, Peregrinando. A investigadora italiana Amina Di Munno traduziu-o e apresentou-o em Itália com o título Eliezer, debaixo da autoria de Fernando Pessoa, num volume prefaciado por Luciana Stegagno Picchio (Roma, Lucarini, 1991). Se o livro tivesse sido escrito por Pessoa, decerto o mesmo se deveria pensar do outro, de poesia, pelo que a publicação italiana seria a um tempo revelação de um inédito, o romance, e descoberta de novo heterónimo, Eliezer, apesar de édito. Mas Eliezer Kamenezky não foi inventado por Fernando Pessoa.

Abel Barros Baptista, De espécie complicada, pp. 25-26.

Sobre picles e ciúmes






É um dos diálogos mais extraordinários de Primavera tardia: nove frases curtas, tão simples que até parece que não foram escritas (e no entanto imagino como devem ter obrigado Ozu e Noda a trabalhar, e a beber, noite dentro).
Noriko vai passear de bicicleta com Hattori para a beira mar; a sequência é alegre e descontraída. Quando se sentam nas dunas, Noriko abre um pouco o seu coração (só mais tarde compreendemos que ela entra em confidências apenas porque já renunciou a Hattori). Contrariando o elogio subtil de Hattori e o seu ar de rapariga dócil, Noriko afirma que é uma mulher ciumenta. Sorri e explica o sentimento implacável comparando-o ao modo como prepara os picles: corta-os quase sem os separar. A imagem evocada é vulgar (a preparação de takuan é uma cena da vida quotidiana japonesa); a sua aproximação a um sentimento é inesperada e ambígua.

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Noriko: E eu, de que tipo sou?

Hattori: Bem, não é do tipo ciumento.

Noriko: Pelo contrário, sou muito ciumenta!

Hattori: Não sei...

Noriko: Quando corto os picles, eles ficam colados.

Hattori: Mas isso tem a ver com a faca e não com picles ou ciúmes.

Noriko: Gosta dos picles juntos?

Hattori: Às vezes não me importo.

Noriko: Não?
Late Spring provided a chance for me to collaborate with Noda Kogo. Not since An Innocent Maid did such an opportunity present itself. If the director and the scriptwriter are always at odds with each, their work relationship is bound to collapse at some point. Say if one were an early to bed, early to rise type, while the other happened to be a night bird, they'd never strike the right balance, and would just let each other down. Whatever Noda, Saito and I did were in sync, even down to when we chose to take a break or have a drink. This was very important as Noda and I tended to think through every line or dialogue together when we wrote the script. Even without discussing details on props or costumes, there was an unspoken rapport between us. There was never a problem of disagreement, even when deciding to use an "oh" or an "ah" (wa or yo) in the dialogue. It was incredible. Naturally, there were times when we clung to our own opinions. After all, we were both rather stubborn and wouldn't compromise so easily. Yasujiro Ozu

Segunda-feira, Maio 2

ROSALINDA
Pois, mas para onde iremos?

CÉLIA
Procuremos meu tio na Floresta de Arden.

ROSALINDA
Céus! Em que perigos incorreremos
(donzelas que somos) indo tão longe?
A beleza atrai os ladrões mais do que o ouro.

CÉLIA
Trajarei de forma pobre e humilde
E com ocre escurecerei minha face.
O mesmo contigo. Passaremos despercebidas,
Sem provocar os assaltantes.

ROSALINDA
Não seria melhor,
Sendo alta como sou, se me vestisse
Exactamente à moda dos homens,
Um fino alfange batendo-me nas coxas,
Uma lança na mão, e no meu coração
Recolhidos todos os meus medos de mulher?
Teremos um fanfarrão aspecto marcial
Como tantos cobardes de ar viril
Que enfrentam o mundo com falsas aparências.

W. Shakespeare, Como vos aprouver. Tradução de Fátima Vieira.

Igualdade de todas as coisas

A vantagem dos presentes de aniversário atrasados é que podemos receber hoje um livro que ainda estava a ser impresso em Março. Avancei para o texto sobre Cézanne. Apesar das suas próprias reservas sobre o modo de expressão — deficiências, diz o querido tolo — chegamos a esta bela frase (página 76):
(...) É de realçar a singularidade do facto de ele olhar para a sua mulher do mesmo modo que olhava para um fruto sobre a toalha da mesa. Os limites, os contornos da mulher eram para ele extremamente simples e simultaneamente complexos, assim como o eram nas flores, nos copos, nos pratos, nas facas, nos garfos, nas toalhas de mesa, nos frutos, nas chávenas e nas cafeteiras. Um pedaço de manteiga era para ele tão importante como o doce relevo do vestido da mulher.
que antecipa acrobaticamente uma das notas de Bresson (Igualdade de todas as coisas. Cézanne pinta com o mesmo olhar e a mesma alma um doceiro, o seu filho, o monte de Sainte-Victoire).

Domingo, Maio 1