Sábado, Abril 30

Oh! poor Superman


'Cause when love is gone, there's always justice. And when justive is gone, there's always force. And when force is gone, there's always Mom. Hi Mom! So hold me, Mom, in your long arms. So hold me, Mom, in your long arms. In your automatic arms. Your electronic arms. In your arms. So hold me, Mom, in your long arms. Your petrochemical arms. Your military arms. In your electronic arms.

Sexta-feira, Abril 29

Vida dupla

Quando soube que meu pai tinha levado, nos seus últimos trinta anos, uma vida dupla, sucumbi à curiosidade e averiguei o nome de sua outra mulher e o endereço do seu outro lar. Toquei a campainha com uma desculpa qualquer – uma inspeção da companhia de seguros, ou algo assim – e uma mulher alta e equina me convidou a entrar. Na hora não pude acreditar no que via: o interior daquela casa era uma réplica perfeita daquela que havíamos compartilhado meu pai, minha mãe e eu; os mesmos móveis, os mesmos sofás, com o mesmo estofamento, distribuídos exatamente da mesma forma, e até os mesmos quadros, os mesmos pratos de porcelana e as mesmas esculturas de gesso.
De volta à casa, aquela noite, me dediquei com malévolo prazer a desordenar os móveis e a revolver as coisas nas estantes. Minha mãe acompanhava perplexa meus movimentos, mas eu não lhe disse nada da minha visita, e jantamos em silêncio.
De repente, lembrei me da vez em que, ainda menino, quebrei o jarro chinês que flanqueava o divã. A zanga do meu pai, ao saber do acidente, me pareceu, naquele momento, desproporcional. Agora, podia entendê-lo. Podia inclusive imaginá-lo no dia seguinte, destruindo, propositalmente, o jarro igual, só para conservar a simetria com o seu outro lar.

Eduardo Berti. Traduzido por Patrícia Melo.
A parte boa:

Os Livros Cotovia apresentam

Robert Walser: Histórias de Imagens

O primeiro interlocutor de Robert Walser foi um pintor, Karl Walser, seu irmão mais velho. Mesmo quando acaba a cumplicidade e a colaboração de ambos, o diálogo com a pintura permanece uma fonte de inspiração essencial para o escritor. Os textos apresentados neste volume comprovam‑no. O rigor da descrição importa menos do que a proeza d a transposição: os quadros, ou por vezes o reflexo deles na memória, libertam o imaginário, a reflexão e o estilo. Pensando em Fragonard ou em Delacroix, em Bruegel ou em Anker, em Daumier, em Renoir ou em Beardsley, Walser transporta o leitor para um jogo que alia de forma inimitável a insolência e a admiração.


A parte pior:

24€


Ou seja, quase 5 contos.

Quarta-feira, Abril 27

Música para os meus ouvidos

Me inquieta el concepto de cuento e inquiero aquí acerca de una estirpe de textos híbridos, de andróginos que se sitúan en un campo fronterizo entre canto y cuento, que instrumentan en grueso materia narrativa pero que parecen refractarios a esa maquinación particular, calificada propiamente como cuento. (...) Entre sus exponentes contemporáneos de neto cuño vanguardista, se encuentran Le cornet a des de Max Jacob, las Tres inmensas novelas de Vicente Huidobro y Hans Harp, y Espantapájaros (Al alcance de todos) que Oliverio Girando publicara en 1932. Sus veinticuatro piezas, numeradas y sin título, oscilan entre los polos narrativo y poético, pero sólo dos se alinean nítidamente en las categorías poema y cuento. (Ambas se sitúan en posiciones simétricas, la una es la décimosegunda, la otra, la vigésimocuarta).
(...)
Los otros textos se asientan en una zona incierta, desde el punto de vista de su atribución a un género netamente constituido. Todo intento de clasificación que tienda a endilgarles un rótulo rotundo se mete en un atolladero categorial del cual es difícil salir bien parado. Me pregunto en qué zona operan aquéllos, la mayoría, donde aparecen manifiestos los ingredientes narrativos, donde en grueso la materia prima es calificable de narrativa, pero que no adoptan la configuración del cuento ; rehusan el módulo de composición, el encuadre, la disposición, los recursos de localización y de caracterización, la concatenación, las determinaciones fácticas, el tipo de engarce o enlace cuentísticos. Por de pronto, estos textos escapan a la cohesión (no a la compresión), a la rigurosa congruencia, a la precisa interdependencia de las partes, a la ajustada mecánica del cuento. No simulan historificarse, no fingen instalarse en geografías y cronologías localizables, no guardan el equilibrado paralelismo entre el hilo causal y el hilo temporal, ni una prudente interrelación entre espacio interior y espacio exterior. No representan un microcosmos unitario que aparezca como recorte del macrocosmos, no presuponen una continuidad habitual entre texto y extratexto, entre la letra y el universo iletrado. No respetan las separaciones o los cortes diferenciadores entre exterior e interior, sujeto y objeto, conciencia y mundo. Sin transición, provocan toda clase de tránsitos, transferencias, trasmutaciones, una irrestricta intercomunicación, con todos los pasajes de ida y vuelta entre hombre, cuerpo individual, cuerpo social, naturaleza y orbe objetual.

Saúl Yurkievich.

Terça-feira, Abril 26

Guimarães, hoje, 26 de Abril, terça-feira, pelas 21h30

Café Falado com António Ferreira e Rui Manuel Amaral, no Centro Cultural Vila Flor. Entrada livre. Mais informações aqui.

Segunda-feira, Abril 25

Argentina e Portugal. Descubra as diferenças.

Cada año, cuando llega esta época, buena parte de los editores que conozco están un poco más nerviosos que de costumbre. Durante veinte días, la Feria del Libro organiza sus tiempos, los consume, los moviliza y los agota. Es entendible: en estas pocas semanas venderán, probablemente, la misma cantidad de libros que durante todo el año. Dije editores, no libreros ni escritores. Los libreros miran la feria con desconfianza. Es el momento de las ganancias netas para las editoriales, cuando desaparece el intermediario entre el productor y el comprador de libros, que suele quedarse con un porcentaje de la transacción que va del 35 al 50 por ciento. Los libreros deben contentarse con la cláusula que impide que el precio de los libros dentro de la feria sea menor que el de las librerías. Para la mayoría de los escritores, los críticos, los periodistas culturales y los lectores conspicuos, la feria es algo que produce, en general, cierta indiferencia: ¿qué interés puede tener para alguien habituado al trato constante y perdurable con los libros ese espacio agobiante inyectado de luces, metales, alfombras, promotores, folletería, ruidos y familias enteras que atestan los stands, locales y pasillos en busca de su dosis de lectura anual?

Maximiliano Tomas, no suplemento de cultura do jornal argentino Perfil.

Domingo, Abril 24


Sardinhas e compota.

Sábado, Abril 23

Tchékhov não oferece nenhuma tese. É uma das coisas que tornam os seus personagens insatisfeitos com as suas vidas. Ele não detém uma visão do mundo que se possa discutir à saída do teatro. (...) Tchékhov não sentia nenhuma obrigação de teorizar sobre a vida, mas apenas de registá-la fielmente como a percebia. Foi capaz de ver o que haviam visto, mas sem que o entendessem, outros escritores antes dele. Escreveu tudo isso para que o mundo entendesse: o funcionamento do ser humano, enquanto indivíduo, com o seu sofrimento íntimo. Tchékhov parou de fazer pregações em idade precoce e tornou-se observador. A sua compreensão da vida revelava a empatia que ele sentia pelas pessoas. (...) A compaixão que Tchékhov revela, universalmente, é o motivo para ele ser muito mais encenado do que outros autores.

Stella Adler, Sobre Ibsen, Strindberg e Chekov. Tradução de Sónia Coutinho.

Strangers talk only about the weather #116

Voltando à meteorologia da Páscoa. Ontem à hora do almoço, num café de bairro, duas mulheres idosas discutiam o tempo. "Mas a senhora não é católica? Então não sabe que chove sempre na sexta-feira santa? Começou a chover quando Cristo chegou à cruz. Veio nos jornais". A outra mulher mostrou-se um bocado incrédula, ou então esquecida das regras de representação. "E no sábado aleluia faz sempre sol. É sempre assim".

Tequila ou rum?

Acho uma certa piada a estes delírios caleidoscópicos mas sou incapaz de acompanhar o jogo e a meio da lista já estou enfartada (cada vez mais, a minha cinefilia é uma cinefilia de escassez). Ao ver Road to nowhere, a atenção prendeu-se, perdeu-se com um pormenor que nem aparece no filme. Uma sensação de falta, de estranheza: nenhum actor fuma, nenhuma personagem. Comem, bebem, beijam-se mas ninguém acende um cigarro; nem um ao longo de duas horas e não sei quantos filmes noir fantasmas. Não é uma falha do filme, não é isso que quero dizer, mas se fosse detective era por aí que começava a investigação. Se fosse detective só me interessava descobrir o que é a imagem de um rosto — um único enigma basta para a vida inteira (um enigma que assusta basta para todo o cinema). No entanto e para que conste: quando a rapariga leva flores e uma garrafa (tequila ou rum?) à campa de Velma Duran, isso faz lembrar o quê? Ah, e a neblina sobre o lago. Um lago plácido pode ser a imagem mais terrível da morte.

Sexta-feira, Abril 22

Três parágrafos do Assis valem trinta romances

«Pertencia o tenente a essa classe feliz de homens que não têm idade; uns lhe davam 30 anos, outros 35 e outros 40; alguns chegavam até os 45, e tanto esses como os outros podiam ter igualmente razão. A todas as hipóteses se prestavam a cara e as suíças castanhas do tenente. Era ele magro e de estatura meã; vestia com certa graça, e, comparado com um boneco não havia grande diferença. A única coisa que destoava um pouco era o modo de pisar; o Tenente Porfírio pisava para fora a tal ponto, que da ponta do pé esquerdo à ponta do pé direito, quase se podia traçar uma linha reta. Mas como tudo tem compensação, usava ele sapatos rasos de verniz, mostrando um fino par de meias de fio-de-escócia mais lisas que a superfície de uma bola de bilhar.
Entrou com a graça que lhe era peculiar. Para cumprimentar os noivos arredondou o braço direito, pôs a mão atrás das costas segurando o chapéu, e curvou profundamente o busto, ficando em posição que fazia lembrar (de longe!) os antigos lampiões das nossas ruas.
Porfírio tinha sido tenente do exército, e dera baixa, com o que andou perfeitamente, porque entrou no comércio de trastes e já possuía algum pecúlio. Não era bonito, mas algumas senhoras afirmavam que apesar disso era mais perigoso que uma lata de nitroglicerina. Naturalmente não devia essa qualidade à graça da linguagem, pois falava sibilando muito a letra s; dizia sempre: Asss minhasss botasss...»

Machado de Assis, As Bodas de Luís Duarte.

Quinta-feira, Abril 21

Como reconhecer um génio literário num parágrafo

«A conversa, entretanto, não passou de cousas totalmente indiferentes; mas Isabel falava com tanta doçura e graça, posto não alterasse nunca a sua habitual reserva; os olhos eram tão bonitos de ver ao perto, e os cabelos também, e a boca igualmente, e as mãos do mesmo modo, que o nosso ardente mancebo, só mudando de natureza, poderia resistir ao influxo de tantas graças juntas.»

Machado de Assis, A Parasita Azul, capítulo V.
Os itálicos são meus.

Para qual lado é o Ocidente?


E ainda: há uma diferença entre narração e música. Uma peça musical intitulada "Valsa dos Cinco Minutos" dura cinco minutos. É nisso, e em nada mais, que consiste a sua relação com o tempo. Mas uma história cuja acção dure cinco minutos pode, por seu lado, estender-se por um período mil vezes mais longo desde que esses cinco minutos sejam preenchidos por uma consciência excepcional; e pode parecer muito curta apesar de, em relação à sua duração imaginária, ser muito longa.
O oriente compreendeu isto muito bem mas o ocidente não.

Jean-Luc Godard (plus La Montagne Magique, de Thomas Mann,) dans Allemagne neuf zéro
A vida de cada um de nós, se a abarcarmos no seu conjunto com um só olhar, se apenas considerarmos os traços marcantes, é uma verdadeira tragédia; mas quando é preciso, passo a passo, esgotá-la em pormenor, ela toma a aparência duma comédia. Cada dia traz o seu trabalho, a sua preocupação; cada instante, o seu temor; cada hora, os seus desapontamentos, visto que o acaso está lá, sempre à espreita para fazer qualquer maldade: tudo isto são puras cenas cómicas. Mas os desejos nunca atendidos, a dor sempre gasta em vão, as esperanças quebradas por um destino impiedoso, os desenganos cruéis que compõem a vida inteira, o sofrimento que vai aumentando, e, na extremidade de tudo, a morte, eis o bastante para fazer uma tragédia. Dir-se-ia que a fatalidade quer, na nossa existência, completar a tortura com o escárnio: ela coloca-lhe todas as dores da tragédia, mas, para não nos deixar ao menos a dignidade da personagem trágica, reduz-nos, nos pormenores da vida, ao papel de bobo.

Arthur Schopenhauer, O mundo como vontade e representação. Tradução de M. F. Sá Correia.

(política e futebol)

Tento informar-me: leio jornais (porque é que os jornalistas insistem em registar os disparates de Otelo?), ouço os que eles dizem — não adianta, não percebo nada de nada. Um dos nossos maiores problemas políticos é linguístico. Em vez do FMI deviamos recorrer a Confúcio, ou então, como Godard, a Eddie Constantine.


O futebol são os tipos que param no café por baixo da minha casa e fazem um barulho desgraçado em noite de jogo. Essencialmente é isso. Mas nos últimos tempos comecei a apreciar: uma certa gaguez no discurso; o hermetismo desta frase — Houve algo que inclinou o campo.

Quarta-feira, Abril 20


Já tocamos a Winter Music um bom número de vezes. Já lhe perdi a conta. Quando a tocamos pela primeira vez, os silêncios pareciam muito longos e os sons pareciam realmente separados no espaço, não se estorvando uns aos outros. No entanto, em Estocolmo, quando a tocamos na Ópera como interlúdio do programa de dança de Merce Cunningham e Carolyn Brown em princípios de Outubro, reparei que se tinha tornado melódica. Christian Wolff previu isso há muitos anos. Ele disse — caminhavamos ao longo da sétima Avenida a conversar — e ele disse: "Faças o que fizeres, acaba por se tornar melódico." Na minha opinião, foi isso que aconteceu a Webern há alguns anos. Uma vez Karlheinz Stockhausen disse-me — estávamos nós em Copenhaga — "Eu exijo duas coisas de um compositor: invenção e capacidade de surpreender." John Cage, indeterminacy #14

Terça-feira, Abril 19

No autocarro duas mulheres conversavam sobre a chuva repentina e a Páscoa. Uma delas citou um ditado qualquer "que os velhos diziam". Passado um bocado repetiu a frase mas substituiu a palavra "velhos" por "antigos".
Os propósitos de vida não se dividem em úteis ou inúteis, justos ou injustos, para isso há decálogos que cheguem. Não matarás não é um propósito de vida, é uma regra. Escrever pode ser um propósito de vida. Amar aquela pessoa pode ser um propósito de vida. Porque não se sabe onde vai dar nem o que nos trará pelo caminho. Mas sabe-se que uma vez começado jamais poderemos continuar como se nunca tivesse começado.

Luís Mourão.

Uma fotografia de Paulo Nozolino.

Segunda-feira, Abril 18

esta especie de equilibrio entre las cosas antiguas y las cosas completamente contemporáneas

Amerika es una novela de la preguerra puesto que en su mayor parte está escrita entre 1912 y 1914. Ha llamado a su película Klassenverhältnisse. ¿Qué es lo que es sincrónico para usted, entre la época en la que este texto fue escrito y hoy en día?

JMS: Es la crisis económica. Sentí el deseo de hacer una película confrontando la situación de la época en la que Kafka escribía con la nuestra, de ver cómo las cosas se parecían y no se parecían. ¡Por desgracia se parecen demasiado! Es por ello que descartamos en seguida la idea de hacer una película de época. Y es algo de lo que estoy muy orgulloso en esta película, esta especie de equilibrio entre las cosas antiguas, como los uniformes de policía, los coches, los decorados, la arquitectura, y las cosas completamente contemporáneas, como los trenes eléctricos, los teléfonos, las máquinas de escribir modernas.

ALGO QUEMA EN EL PLANO | Entrevista con Jean-Marie Straub y Danièle Huillet
Por Alain Bergala, Alain Philippon y Serge Toubiana | LUMIÈRE INTERNATIONAL STRAUB
Nada se pode esperar. Nada se pode oferecer aos altares vazios da história e da utopia. Acabou o tempo em que os faraós inscreviam seu nome nas rochas do tempo. Para Cioran os ciganos são o verdadeiro povo eleito: “triunfaram do mundo por sua vontade de não fundar nada nele.”

Marco Lucchesi. Mais Cioran aqui.

Sábado, Abril 16



O FOSSO (Jiabiangou), de Wang Bing, às 21:25, no canal arte.

Cair no goto (uma súbita calamidade)

Joyce devia ter percebido, logo a partir desse momento, mesmo que ele próprio ainda estivesse longe de o saber. Edie estava a cair no goto de Jon.
Cair no goto. A expressão sugere um intervalo de tempo, uma escorregadela. Mas podia ser vista como uma aceleração, o instante ou o segundo em que a pessoa cai. Jon não está apaixonado por Edie. Plim. Agora já está. Uma coisa daquelas era totalmente imprevisível ou implausível, que só podia explicar-se por uma pancada na cabeça, uma súbita calamidade. O golpe do destino que deixa um homem aleijado, a piada maldosa que converte uns olhos brilhantes em duas pedras cegas.

Alice Munro, Ficção, in "Demasiada Felicidade", tradução de José Miguel Silva
Relógio d'Água, novembro 2010

Sexta-feira, Abril 15

Dirigi a palavra a Nástenka, perguntando-lhe de quem era a poesia.
- Pois, pois, de quem é? - agitou-se o meu tio. - Deve ser de um poeta inteligente...
(...)
- Foi o senhor Kozmá Prutkov quem a escreveu, paizinho, e foi publicada na [revista] Sovreménnik - intrometeu-se Sáchenka.
- Kozmá Prutkov! Não conheço - disse o meu tio. - Conheço Púchkin, esse conheço!... Aliás, vê-se que é um poeta com qualidades... não é verdade, Serguei? Além disso, possuidor de nobilíssimas qualidades como homem: isso é claro como a luz do dia! Se calhar faz parte do oficialato do exército... Aprovo! A revista Sovreménnik é excelente! É preciso assiná-la sem falta, já que colaboram nela poetas assim... Gosto dos poetas! São queridos! Descrevem tudo em verso! Serguei, lembras-te de eu ter visto em tua casa um literato? Tinha um nariz um bocado esquisito... francamente...

Dostoiévski, A aldeia de Stepantchikovo e os seus habitantes. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

A arte de evitar a santidade

Aprender a considerar: as ilusões como virtudes; a tristeza como uma elegância; o medo como um pretexto; o amor como um esquecimento; o despreendimento como um luxo; o homem como uma recordação; a vida como uma cantilena; o sofrimento como um exercício; a plenitude da morte como um objectivo; a existência como uma ninharia. Emil Cioran (traduzido a partir do francês)

Quinta-feira, Abril 14


A propósito de «Rosa de Areia»: é um filme para quem pode ainda ver e ouvir como que pela primeira vez; como se fosse o primeiro filme surgido na terra e falando sobre ela. Houve a luta com as formas, muito tempo antes de serem filmadas; o filme «mental» mudou vezes sem conta, mesmo após ter sido sujeito à escrita prévia da(s) découpage(s). Filmadas, as formas revelaram-se muito belas, estranhas, hostis ou mesmo incompatíveis (planos que não puderam incorporar-se na montagem). Impunham-se, rejeitavam-se, atraíam-se, estavam vivas. Finalmente, «Rosa de Areia» estava ali, contra mim (fazendo parte de mim), no escuro das salas, palimpsesto complexo e fugitivo no ecrã, jogo de luzes e sombras, de sons e de silêncio. E a alegria muito funda e grave durante todo este longo e inenarrável processo. Margarida Cordeiro

Eu diria que «Rosa de Areia» é, totalmente, um filme de matérias. Matérias em permanente devir: o vento natural torna-se vento de tuba, o vestido das actrizes contracena com as nuvens, a tri-dimensionalidade cai aos pés da bi-dimensionalidade, o plano-sequência é emparedado pelo fixo, a música é o silêncio e a cor modulada, a luz mais pura passa a flutuante e difusa. O sentido do labor sobre as matérias (implicando-se e implicadas) não pode, pois, delimitar-se: é múltiplo, refaz-se constantemente e sobretudo interroga, elabora formas... «Rosa de Areia» não passa como uma torrente: esvai-se em lenta rotação, em lenta translação, movido pela insubmissa energia das formas cinematográficas. António Reis

ROSA DE AREIA, de António Reis e Margarida Cordeiro. Hoje, às 22h00, no Passos Manuel.
Segundo São Tiago de Sarug (c. 449-521), monge e bispo sírio, "Moisés enunciou os mistérios, mas sem os explicar. Com efeito, ele tinha dificuldade em falar e não conseguia exprimir-se claramente (Ex 4, 10). Esta dificuldade em falar foi-lhe conservada como desígnio, para que todos os seus discursos permanecessem inexplicados."

Mário Avelar.

Quarta-feira, Abril 13

Coragem

A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza
que significavam alguma coisa, mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.

Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.

Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.

Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.

Judith Herzberg, "O que resta do dia", tradução de Ana Maria Carvalho, cavalo de ferro

Terça-feira, Abril 12

Viajando de trem, o que mais se vê é o verso das cidades. A visão é lateral, ao passo que para o homem a visão mais natural é a frontal, como no automóvel. Mas no carro o assento é muito baixo, tão baixo que a gente fica com medo de ralar o traseiro no calçamento. E o que se vê é uma paisagem que é a continuação daquela que se vê na televisão, que se vê quando se está sentado.
Viajando de ônibus, pelo menos quando se consegue sentar na primeira fileira, pode-se desfrutar a visão ideal,a mais rara e a mais nobre, a visão do homem a cavalo. Agora, infelizmente, começaram a escurecer os vidros como proteção contra o sol, e o que se vê é uma triste paisagem crepuscular, mesmo quando o sol brilha forte. Ou então tingem de azul o para-brisa, mais escuro em cima, mais claro embaixo; e assim a paisagem se transforma numa estampa japonesa.

Saul Steinberg, Reflexos e Sombras.

Segunda-feira, Abril 11

قافلة



Versão em língua árabe do livro "Caravana". Tradução de Saïd Benabdelouahed e edição das Éditions Dar Attaouhidi, de Rabat.
Mais informações aqui.

Domingo, Abril 10

a realidade, como nos filmes de Godard

Foi encontrado numa antiga lixeira de Peloponeso, na Grécia, aquele que é considerado o texto decifrável mais antigo da Europa. (...) Ao que tudo indica, a placa terá sido um documento financeiro, proveniente de uma antiga cidade do período micénico. “Num dos lados da peça podem-se ver nomes e números, e do outro lado um verbo relativo à confecção”, acrescentou Michael Cosmopoulo.

Além disso ainda estamos vivos

Temos a impressão que não aprendemos nada, mas com o passar dos anos reconhecemos mais e mais cogumelos e descobrimos que os nomes que casam com eles começam a ficar nas nossas cabeças.
Além disso ainda estamos vivos. No entanto, devemos ser cautelosos. Às vezes Guy Nearing diz que todos os especialistas em cogumelos morrem de envenenamento por cogumelos. Donald Malcomb acha os perigos da caça ao leão em grande parte imaginários e os dos caça dos cogumelos perfeitamente reais. John Cage, indeterminacy #131

Sábado, Abril 9

Strangers talk only about the weather #115

Só consigo traduzir textos curtos. Do sombrio Cioran ao solar John Cage (Walser é outro assunto), mas não podem ser longos. E mesmo assim é uma luta desde que começo a substituir uma palavra por outra, a mexer na ordem das frases, a colocar as vírgulas — tudo me parece desajeitado. Isto tem uma explicação, ou melhor, duas. Por um lado nenhuma tradução é totalmente justa, é como vestir uma camisa do irmão mais velho ou mais novo: sobra sempre, ou falta, qualquer coisa. Por outro lado, e aqui o padrão é pessoal, vou contra as palavras como vou contra os móveis e as paredes. Mas nas traduções ninguém vê os encontrões, as nódoas negras; do exterior, o texto traduzido parece um trabalho limpo.

Sexta-feira, Abril 8

Hoje aqui, amanhã em Serralves.

De um amigo, numa mensagem de email

(...) Não me canso de dizer (e ninguém me liga nenhuma, nem o meu cão que tanto me deve) que a ciência chegou a um impasse.
E que a linguagem que falamos no dia a dia é de uma potência muito superior à lógica e ao cálculo.
Foi dela que nasceu a lógica e o cálculo (curiosamente, logos em grego quer dizer fala, arrazoado - por contraposição ao epos, descrição do passado, narrativa - mas também cálculo). Mas ela, a linguagem, está num plano superior, pelo que um professor de português ou francês ou o caralho é mais importante do que um professor de física, ou biologia ou etc. (os professores de matemática serão analisados noutra circunstância, mas, aqui para nós, são todos meios malucos - quando não são aleijados).
Estamos então perante um caso extraordinário: são as línguas particulares que melhor nos permitem aspirar ao (impossível) universal. Ao passo que a língua universal (aqui para nós, a matemática) só pode aspirar a miseráveis particulares.
Resumindo e concluindo: estamos fodidos. Os conhecimentos absolutamente certos são necessariamente absolutamente duvidosos. Atacamos esta e aquela bactéria e as morconas defendem-se (falta de fair play). O objecto de conhecimento não fica quieto como devia ficar e põe-se a repontar, o filho da puta.
Por isso, eu diria que um professor digamos de literatura é mais importante do que um professor de física.
Quanto mais não seja porque, se a coisa der para o torto, e é para o que está a dar, vai ser preciso competência (competência, ouviram bem?) para interpretar os textos que sempre hão-de ficar da tragédia universal. (...)

Para onde é que você ia se fosse para algum lado?

Uma vez ofereceram a uma mulher esquimó, que não falava nem entendia uma palavra de inglês, transporte gratuito para os Estados Unidos mais 500 dólares para acompanhar o repatriamento de um cadáver. Ela aceitou. Quando chegou, olhou à sua volta e reparou que as pessoas que entravam na estação de comboios deixavam a cidade e ela e nunca mais as via. Aparentemente viajavam para outro lugar. Também percebeu que antes de sair as pessoas iam ao guiché, diziam qualquer coisa ao funcionário, e conseguiam um bilhete. Pôs-se na fila, ouviu atentamente o que a pessoa à sua frente disse ao vendedor de bilhetes, repetiu o que essa pessoa disse, e depois viajou para onde essa pessoa viajou. Desta forma ela deambulava pelo país de cidade em cidade. Passado algum tempo, o seu dinheiro estava a acabar e ela decidiu estabelecer-se no próximo sítio aonde chegasse, encontrar emprego, e viver lá para o resto da vida. Mas quando tomou esta decisão estava numa vila, em Wisconsin, da qual nesse dia ninguém ia partir. No decurso das suas deambulações ela acabou por aprender um bocado de inglês. Então dirigiu-se ao guiché e perguntou ao homem que lá estava: "Para onde é que você ia se fosse para algum lado?" Ele disse o nome de uma vila no Ohio, onde ela vive ainda hoje. John Cage, indeterminacy #25

Quinta-feira, Abril 7

As preocupações resultantes da conjuntura perturbavam naturalmente o sossego espiritual do escritor, prejudicando o rendimento do seu trabalho criador.

Mário Neves, a propósito de José Rodrigues Miguéis.

A "Falência civil"

A ideia de um homem falido nasceu dos debates recentes sobre a questão da "falência civil" ou "valorização pessoal". Esta medida, que existe desde 1878 na região da Alsácia-Moselle, mantida depois de 1918, permite que as pessoas afectadas liquidem as suas dívidas desfazendo-se de todos os seus pertences. Uma espécie de "falência" não aplicada às empresas, mas aos indivíduos. O problema voltou recentemente à agenda, depois do presidente da câmara se ter comprometido a prorrogar a medida em todo o território francês, tendo chocado inicialmente contra os Ministérios da Justiça e do Consumo, bancos e empresas de crédito. O projecto foi, no entanto, aprovado na Assembleia em Julho de 2003. Não posso deixar de ver nessa realidade social um convite para o teatro, para a fábula. Na minha segunda peça - A Associação, sondei a relação dos homens com os objectos, na concreta realidade da vida comercial. Em Um Homem Falido, gostaria de considerar a questão dos direitos humanos nos termos da “propriedade”. A história de Um Homem Falido será então a de um indivíduo, a meio da sua existência, despojando-se de tudo o que possui para poder continuar a viver. Evocando como principais factores de redenção: a dívida do consumidor e uma "segunda oportunidade", digamos de renascimento e a questão das “contrariedades da vida”. Os termos técnicos do processo estão inevitavelmente carregados de fantasia. O estado de falência é decidido logo no início da peça onde se constata uma "situação irremediavelmente comprometida." Chamando indispensáveis à “vida corrente" à convenção dos “bens inalienáveis” do indivíduo, que este necessita para um “mínimo de subsistência.” Um “Mandatário Liquidatário" é designado para estabelecer o inventário dos bens da pessoa endividada, negociar com os credores e organizar um plano de recuperação. Vejo nesta “falência civil” uma irresistível máquina teatral, que não pede senão ser dramatizada, porque se situa na ligação de uma realidade social com um imaginário pessoal, e que convida a observar o mundo como só o teatro o pode fazer: com grande espanto e incredulidade. Quis fazer minha esta fórmula de Günther Anders, grande crítico de Kafka: “ modificar afim de constatar”, deformar um pouco, ligeiramente a realidade, para descobrir como ela verdadeiramente funciona. David Lescot

Quarta-feira, Abril 6

Terça-feira, Abril 5

Não acredito na absolutização da ideia mil vezes proclamada de «escrever para a gaveta». Mesmo o escritor não publicado – ou aquele que sabe ter escassas ou nulas hipóteses de vir a sê-lo – escreve sempre para alguém. Será, se para mais ninguém for, para a/o amante, para um amigo cúmplice ou para o leitor ideal que um dia cairá do céu. Em contrapartida, são inúmeros os escritores condicionados pela censura ou pelo medo do julgamento público impiedoso que escrevem a maior parte da obra, se não toda ela, sem a perspectiva de que esta possa vir a ser editada. Em «Amar Dostoievski», um artigo de Susan Sontag integrado na compilação póstuma Ao Mesmo Tempo (recém-traduzida pela Quetzal), evoca-se o caso peculiar de Leonid Tsípkin (1926-1982).
Este médico russo de origem judaica viu a família ser repetidamente atingida pela repressão estalinista, e viu-se a ele próprio debaixo de constante suspeita, tendo por isso decidido escrever apenas para os mais chegados. Recusando-se até, com medo de ter problemas com o KGB, a deixar que os seus originais circulassem através da rede clandestina samizdat. Da sua perseverança contida diz a dado passo Sontag: «Escrever sem esperança ou perspectiva de ser publicado – que reserva de fé na literatura isso não implica?». Acabaria no entanto por aceder a publicar no estrangeiro Verão em Baden-Baden, o romance construído em volta de um episódio da vida de Fiódor Dostoievski. A 13 de Março de 1982, um semanário nova-iorquino começaria a publicar o Verão em forma de folhetim. A 15 de Março, uma segunda-feira, Tsípkin foi despedido do instituto médico no qual trabalhara a maior parte da vida. A 20 de Março sentiu-se mal quando trabalhava em casa numa tradução, deitou-se, chamou pela mulher e morreu. Foi um «autor publicado» durante sete dias.

Rui Bebiano.
Um compositor meu amigo que passou algum tempo num centro de reabilitação mental foi encorajado a praticar bridge. Depois de um jogo, o seu parceiro criticou-o por ter jogado um ás numa vaza que já estava ganha. O meu amigo levantou-se e disse: "Se pensa que vim para o manicómio para aprender a jogar da bridge, está maluco." John Cage, indeterminacy #56

Segunda-feira, Abril 4

Stravinsky fala de Rachmaninov

A última vez em que eu vi aquele homem assustador, ele apareceu na minha casa em Hollywood trazendo de presente para mim um pote de mel. Eu não era especialmente amigo de Rachmaninov naquele tempo; ninguém era, eu acho: relações sociais com um homem do temperamento de Rachmaninov exigem mais perseverança do que sou capaz: ele só estava me trazendo mel.
...Algumas pessoas adquirem um tipo de imortalidade simplesmente graças à completude com que possuem ou deixam de possuir alguma qualidade ou característica. A totalidade imortalizadora de Rachmaninov era seu mau humor. Ele era um mau humor de um metro e noventa de altura.
Suponho que minhas conversas com ele, ou melhor, com a mulher dele, pois ele ficava sempre em silêncio, eram típicas:
Sra. Rachmaninov: Qual é a primeira coisa que o senhor faz quando acorda de manhã? [Isso poderia ter sido indiscreto, mas não se você visse a maneira com que ela perguntava]
Eu: Durante quinze minutos eu faço exercícios que um ginasta húngaro me ensinou, ou melhor, eu fazia até saber que o húngaro morreu muito moço, e muito de repente, e depois eu tomo uma ducha.
Sra. Rachmaninov: Está vendo, Serge, Stravinsky toma ducha. Que extraordinário. Você continua dizendo que tem medo de tomar ducha? E você ouviu ele dizer que faz exercício? O que é que você acha disso? Que vergonha, você nem faz uma caminhada.
Rachmaninov: (Silêncio)

...Quando eu penso nele, acho que o seu silêncio surge como um contraste nobre em comparação com os auto-elogios que são o único assunto dos intérpretes e da maioria dos outros músicos. E ele era o único pianista que eu vi que não fazia caretas. É uma grande coisa.

Stravinsky, “Conversas”, 1959.

Epitáfio do apaixonado

Se alguém quiser escrever a minha biografia
não há nada mais simples.
À sua disposição tem apenas duas datas:
a do dia em que te conheci
e a daquele em que te foste.
Entre uma e outra decorreu a minha vida.
O que sucedeu antes, esqueci-o.
O que acontece agora, carece já de importância.

Juan Bonilla.

A nossa discreta falha


Não sei falar dos contos de Alice Munro em termos literários; é talvez por isso que não me passa pela cabeça compará-la a Tchékhov. No início de "Jacarta", confesso, lembrei-me de Katherine Mansfield e assustei-me quando na página seguinte li o seu nome. Foi por causa do sol, do bebé, da areia, do mar, e desse jeito subtil de virar do avesso as condições climatéricas. Por fora das personagens tudo parece calmo e por dentro tudo é terrivelmente assustador. Conforme avançamos nas páginas, vamos detectando pequenos sinais de perigo e de repente, sem darmos conta, já estamos imersos nessa zona opaca onde guardamos o que não compreendemos, o que pressentimos interdito, os pensamentos cruéis — os sonhos inconfessáveis da pequena noiva ou de Enid.

Agora que cheguei ao fim dos três livros que a Biblioteca tem para empréstimo (Fugas, A Vista de Castle Rock, O Amor de uma Boa Mulher), sinto-me aliviada mas também um bocado enojada, triste, ansiosa. A leitura fez-me regressar a um tempo distante, à aflição que certas cores me provocavam quando era pequena (o verde das árvores através dos vidros do carro em movimento, o castanho junto ao vermelho das flores do jardim da Praça Velasquez, o rosa desmaiado do cacau que não se desfazia completamente no leite e deixava sempre farfalhos na chávena azul cobalto). É tão estranho como umas quantas palavras alinhadas nos devolvem a percepção da nossa discreta falha.
A exegese de Walser, assim como a de Kafka (e em alguma medida a de Bruno Schulz) adquiriu autonomia a ponto de ser quase um gênero, muitas vezes ficcional.

Joca Terron.
Somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. A definição de literatura podia, aliás, ser essa: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. Como se o esperasse - e a melhor descrição de literatura é essa, em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir - desde sempre destinando-se ao mundo.

Abel Barros Baptista, De espécie complicada.

Domingo, Abril 3

один, два, три, четыре

Sábado, Abril 2

moi aussi je veux t'aimer passionnément


Um filme sem história, não conhecemos o passado nem o futuro das personagens, elas estão ali de passagem, à procura de qualquer coisa — a luz perfeita? Ou um lugar na terra? O verso: Jerzy entre Hannah e Isabelle (mas é com Sarah que parte no fim, sabe-se lá para onde, num carro que é um tapete voador, ah! a adolescência do cinema, quando o cinema era um homem uma mulher e um carro). E o reverso: Isabelle sem patrão nem amante.

Pourquoi on ne montre jamais les gens en train de travailler au cinéma?

C'est interdit de fumer dans les usines.

— Alors j'avais raison. Je me dis que, profondément, le travail c'est pareil que du plaisir. C'est les mêmes gestes que l'amour; pas forcement la même vitesse mais les mêmes gestes.

A mãe, o pai. Um filme é como uma fábrica? É preciso dinheiro para acender os holofotes e pôr as máquinas em movimento, mas quem entra com o dinheiro quer apenas multiplicá-lo, essa é a primeira regra do jogo.

Mais si, monsieur Coutard, il y a des régles dans le cinéma!
Mais non, monsieur Coutard, il faut les brisser!

Quanto custa filmar um rosto? Rápido, rápido, o tempo é curto, o relógio é uma máquina de contar moedas, é por isso que os actores correm e gritam, rápido, rápido. E no entanto: a impossibilidade de filmar Maja nua, os fuzilamentos de 3 de Maio, a entrada dos cruzados em Constantinopla. A impossibilidade de iluminar como Sternberg. A impossibilidade de enquadrar um povo (jamais un peuple a pensée à un autre peuple).

Mas pode-se filmar ainda a impossibilidade, esse momento breve entre uma coisa e outra coisa, um rastro de avião, uma brecha no tempo. On fait un film ordinaire mais on a perdu le centre (é a segunda vez que penso em Renoir), alors on cherche. On cherche et on prend ce qu'il y à pendre.

Pode-se filmar o rosto de Hannah. O rosto de Isabelle. Qualquer rosto. O rosto é um centro?





Sexta-feira, Abril 1