Segunda-feira, Fevereiro 28
Sublinhado meu
Alexandre Andrade.
histoire(s) du cinéma #15
4B oui, c'est de notre temps que je suis l'ennemi fuyant; oui, le totalitarisme du présent... cette tyrannie sans visage qui les efface tous au profit exclusif de l’organisation systématique du temps unifié de l’instant... je tente de m’y opposer, parce que je tente dans mes compositions de montrer une oreille qui écoute le temps et tente aussi de le faire entendre et de surgir donc dans l'avenir la mort étant déjà comprise dans mon temps... je ne puis en effet qu'être l'ennemi fuyant de notre temps puisque sa tâche vise justement l'abolition du temps où je ne vois pas dans cet état qu'une vie mérite d'être vécue. (Bernard Lamarch-Vadel)
Domingo, Fevereiro 27
Rectificar as denominações
Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 259

Encontros, de Pierre-Marie Goulet, será apresentado hoje às 19h15, no pequeno auditório do Rivoli, no âmbito da homenagem a Paulo Trancoso pelo Festival Internacional de Cinema do Porto.
1957. Um grupo de camponeses e camponesas da aldeia de Peroguarda, no Alentejo, vai cantar ao Porto. O poeta António Reis, futuro realizador de Trás-os-Montes e Ana, ouve esses cantos em companhia de jovens amigos. Conquistado, António Reis, toma o caminho de Peroguarda, 700 km ao Sul, montado na sua motoreta com um gravador debaixo do braço. No seu encalço, outros jovens do Porto irão ao Alentejo ao longo dos anos seguintes. (...) Entre eles, Luís Ferreira Alves, Alexandre Alves Costa, José Mário Branco.
1959. Michel Giacometti, o corso que salvou a música tradicional portuguesa,começa uma pesquisa de 30 anos durante a qual recolherá a memória da cultura popular. Não tarda a descobrir a aldeia de Peroguarda onde regressará periodicamente. É lá que, em conformidade com o seu desejo, será enterrado em 1990.
1965. No Porto, o jovem poeta Manuel António Pina, e outros jovens aspirantes a poetas escolhem António Reis como referência.
1966. O cineasta Paulo Rocha, um dos realizadores que iniciou o Cinema Novo português com o seu primeiro filme Verdes Anos, decide rodar a segunda longa-metragem no Furadouro, situando a história no meio dos pescadores que na infância o haviam fascinado.
Estas e outras pessoas fazem parte de uma tribo informal cujos membros se reconhecem quando se encontram.
histoire(s) du cinéma #14
Godard em conversa com Serge Daney (Libération, 26 dezembro de 1988), trad. Luís Miguel Oliveira, catálogo Godard 1985|1999, Cinemateca Portuguesa
Sábado, Fevereiro 26
La Vita di Luigi Grotto, Cieco d'Adria, por Giuseppe Grotto (1777). Citado por Augusto de Campos, em Poetas bizarros na web.
O vapor do arroz ao ser cozido
Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 194. 195
O seu erro era singularmente interessante e fecundo
Com efeito, aquilo que confere à poesia chinesa o seu carácter "imagético", aquilo que permite ao poeta fornecer directamente séries de percepções sem ter que passar por um discurso gramaticalmente organizado, é a fluidez morfológica do chinês clássico (a mesma palavra pode ser ora substantivo, ora adjectivo, ora verbo) e, sobretudo, a flexibilidade da sua sintaxe (as frases podem ficar sem verbo, e os verbos sem sujeito). Sem nos aventurarmos aqui nas areias movediças da linguística, limitemo-nos a dar um ou dois exemplos. Wen Tingyun descreve uma partida ao raiar da manhã, durante uma viagem, em dois versos clássicos; eis a sua transcrição palavra a palavra:
Galos-cantos, colmo-albergue, lua;
Homem-pegada, tábuas-ponte, geada.
Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 186,187
Sexta-feira, Fevereiro 25
Eu juro que é a última vez que escrevo isto
Entretanto, o colectivo UmaCena, de Braga, criou um filme dedicado a este lançamento, que pode ser visto aqui.
Quinta-feira, Fevereiro 24
Un pajarito travieso
Pero fuese debido a que algún pajarito travieso le soplara algo al oído, fuese por otro motivo que no intentaremos determinar, lo cierto es que hubo un momento en que Lázaro se distrajo y dejó caer la cabeza. Ésta cayó instantáneamente al suelo, saltó dos o tres veces con la elasticidad de una pelota de goma, y rodó calle abajo y en contramano, hacia la plaza Dauphine, que brillaba a la distancia.
En qué estado de ánimo se sumió Lázaro después de este lamentable acontecimiento, es algo que no nos atrevemos siquiera a imaginar. Diremos sólo que no escatimó esfuerzos para recuperar la cabeza, buscando por todas partes, durante días y días. Y con mucho gusto hubiera seguido buscando si entretanto varios temas de la mayor importancia no lo hubiesen obligado a ir a otra parte.
Tradução de Carlos Roberto Morán de Um passarinho malicioso, conto incluído em Doutor Avalanche, e que faz parte de uma série de três contos traduzidos pelo mesmo autor.
Entretanto, relembro que no próximo sábado, 26 de Fevereiro, pelas 17h30, terá lugar o lançamento de Doutor Avalanche em Braga, na livraria Capítulos Soltos (Rua de Santo André, 93), numa sessão para a qual estão todos convidados. A apresentação será feita por Luís Mourão.
Quarta-feira, Fevereiro 23
Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 201, 202
Próximo sábado, 26, 17h30, em Braga
Mais informações aqui.
* Oferta limitada ao stock existente.
Terça-feira, Fevereiro 22
Neste pedregal? Como poderias sabê-lo
Ou adivinhá-lo, filho do homem, se só conheces
Um punhado de imagens quebradas,...
T.S. Eliot, A Terra devastada (Enterro dos mortos)
Segunda-feira, Fevereiro 21
Os manuscritos de Jeffrey Aspern
Ora, a impossibilidade de desfazer um equívoco por palavras não levanta uma dúvida razoável sobre a sua aproximação às duas Bordereau? Se não é possível escrever uma frase, se não é possível encontrar uma palavra que seja, não estará ele a enganar-se sobre o seu comportamento? Uma mulher com a idade e o aspecto de Miss Tina deveria ignorar todas as amabilidades da corte? todas as flores? Deitar a mão aos papéis privados de um poeta já morto justifica um pensamento-acção tão ignóbil? E será, para além disso, que o narrador, só porque domina o ponto de vista, é inocente e não um "canalha dum editor", como lhe chama Juliana?
A dúvida persegue-nos até ao fim e quando o narrador (que na história tem um nome verdadeiro e outro falso mas para nós é sempre e apenas o narrador) lamenta a perda dos manuscritos de Jeffrey Aspern, pressentimos que ele perdeu mais do que isso (na verdade, os manuscritos não passam de um MacGuffin), muito mais do que ele próprio pode aceitar: nas últimas páginas, Miss Tina Bordereau transformou-se na personagem principal da história.
Domingo, Fevereiro 20
Matías Bauso, Una épica de los últimos instantes.
Sábado, Fevereiro 19
O Porto à procura de um palco
Primeiro fragmento:
"Não passaria pela cabeça de ninguém organizar um ciclo de teatro de Lisboa no Porto, até porque os espectáculos de Lisboa ainda vão sendo vistos no Porto. Se as coisas funcionassem normalmente, o Visões [Úteis] ia regularmente a Lisboa - e ia o [Teatro] Bruto, e ia a Palmilha [Dentada]. É um círculo vicioso: o trabalho que é mais visto constitui-se mais facilmente como referência, e por isso é ainda mais visto; o teatro do Porto é obviamente menos visto". A operação em si, completa Francisco Alves, do Teatro Plástico, que não faz parte da comitiva, "dá-nos o retrato de um país profundamente provinciano". É como se, pelo inusitado aparato da coisa, este ciclo reforçasse a distância em vez de a encurtar (...). Que o Porto precise de ir a Lisboa para se interrogar parece-me triste. E é absolutamente irónico que este ciclo se faça num teatro dos três teatros municipais de Lisboa quando no Porto estamos privados até desse instrumento básico - o que também nos impede de nos pensarmos colectivamente.
Segundo fragmento:
O agravamento das condições de produção e de apresentação, com a cedência às produções La Féria do mesmo Rivoli que Isabel Alves Costa transformou numa segunda casa da criação teatral independente da cidade e com a progressiva precarização do financiamento público, tornou o teatro do Porto um caso ainda mais particular nos últimos anos. "Quem fica a fazer teatro no Porto não fica porque há procura ou dinheiro a ganhar: fica porque tem mesmo necessidade de fazer coisas. Não há mercado para alimentar. Nós não respondemos a uma ânsia de programação, pela simples razão de que não há, como há em Lisboa, instituições a programar o que quer que seja, à excepção do S. João. Respondemos à nossa própria ânsia de fazer coisas", argumenta Ricardo Alves [da Palmilha Dentada]. "Talvez a grande marca do teatro do Porto seja uma grande capacidade de resistência: fazemos muito com muito pouco", reforça Francisco Alves [do Teatro Plástico].
Terceiro fragmento:
"O que falta muitas vezes no Porto é esse pé que se mete na porta e obriga a porta a abrir-se. Este ciclo põe o pé na porta", resume [o dramaturgo] Jorge Palinhos.
ah, como eu invejo o urso-preto!
Quando chegam a este valor, os ursos começam a tremer e a temperatura vai subindo devagar até aos 36 graus. Esta subida demora entre dois a sete dias. Assim que os animais alcançam os 36 graus param de tremer e a temperatura começa a decair outra vez, iniciando um novo ciclo.
Esta variação é acompanhada por uma respiração e batimento cardíaco irregular. Durante a hibernação, os ursos batem o coração 14 vezes por minuto, em vez das 55 vezes, quando estão activos. “Eles têm um batimento cardíaco quase normal quando inspiram. Mas entre as respirações, os batimentos ficam muito lentos”, explicou Tøien. Nestas ocasiões, o coração chega a ficar parado durante 20 segundos.
Ao longo dos meses, os ursos não comem, bebem, não urinam ou defecam. Entre duas vezes por dia até uma vez de dois em dois dias, os mamíferos levantam-se, rearranjam a cama e voltam a deitar-se, com a temperatura a subir em média até aos 33 graus.
Quando a temporada de hibernação termina, os ursos não retomam o metabolismo normal imediatamente, demoram até três semanas a ficarem totalmente acordados. Mas não têm perda nenhuma de massa muscular, tecido ósseo, estão perfeitamente em forma. publico.pt
Sexta-feira, Fevereiro 18
Hermann Broch, Geist and Zeitgeist: The Spirit in an Unspiritual Age
histoire(s) du cinéma #12
Quinta-feira, Fevereiro 17
Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.
Quarta-feira, Fevereiro 16
Ahora bien, al método del autor, rebosante de biografismo y experiencia personal, contrario a cualquier erudición enciclopédica, se suma una manera rigurosa de razonar, una especie de discurso silogístico que lleva sin embargo al absurdo, no por un error de procedimiento, sino por una adhesión contundente a la realidad.

Eugène Atget, Une fille de la rue Asselin, mars 1921. Série "Paris pittoresque". Épreuve: 17,4 x 21,5 cm. Contretype par Marcel Bovis. © Bibliothèque nationale de France, Estampes
Terça-feira, Fevereiro 15
(...)
Os Amores de Charlot et Toinette, em 1779, figuram entre os primeiros panfletos verdadeiramente obscenos contra Luís XVI e sobretudo contra Maria Antonieta. Em geral atribuído a Beaumarchais, o livro descreve, em versos conseguidos e sem circunlóquios inúteis, os amores de Charles d'Artois e a rainha.
(...)
Uma lista não exaustiva dos panfletos deste género publicados até 1789 poderá dar uma breve ideia dessa produção literária: As noites de Maria Antonieta (1774), Os passatempos de Antonieta (1780), As diversões de Antonieta (1783), O espaço da volúpia ou as aventuras de Querubim (1788), O godmiché real (1789), o bordel real, seguido de uma conversa secreta entre a rainha e o cardeal de Rohan (1789), etc.
Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.
Segunda-feira, Fevereiro 14
Uma visita esperada
Um dia apareceu-lhe o diabo, com os seus olhinhos semi-cerrados e a sua cara de bobo atrevido. De certa forma, o homem já esperava aquela visita. O diabo, como é habitual, fez-lhe uma proposta: revelar-lhe-ia o segredo da grande literatura se o homem cortasse as próprias mãos. O homem aceitou e cortou as mãos. Rapidamente se apoderou dele a inspiração criadora. Ficou conhecido, nos manuais e nas enciclopédias, como o “grande escritor maneta”.
Eu pensava terminar aqui esta história. Mas – é certo – há ainda um ponto que exige esclarecimento: como escreveu ele as suas obras maiores se entretanto cortara as mãos? Pois bem, não sei.
Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.
Domingo, Fevereiro 13
Sábado, Fevereiro 12
também
Como o silêncio
A ver os retratos dos mortos
nas paredes
um bombeiro um menino
A ver os monogramas bordados nos lençóis
os vestidos virados
os vestidos tingidos
os diplomas de honra
as redomas
E a caderneta dos Socorros Mútuos
e Fúnebres
em atraso
Hei-de entrar nas casas
também
como o luar
A ver as faltas de roupa interior
e de cama
os rostos preocupados
com os avisos da luz e da água
com a máquina de petróleo apagada
jornais nas paredes
e um pássaro na varanda
a cantar
ao lado duma flor
António Reis, Poemas Quotidianos, 1957
Sexta-feira, Fevereiro 11
A casa da morte certa, Albert Cossery
Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.
Uma livraria a menos.
Quinta-feira, Fevereiro 10
A Mesopotâmia, minha querida
Aposto que a minha avó havia de gostar de Ana. Ela não se ia pôr à procura de significados ou semelhanças (as imagens de Josefa de Óbidos?); compreenderia tudo de uma só vez, o filme por inteiro, sem esforço, sem destruir nada, beneficiando da relação secreta das coisas afins. Compreenderia a fruta espalhada pela casa — vês os limões no parapeito da janela?, a capa debruada (a roupa de Ana é tão bonita como os vestidos de Quei loro incontri), as brechas nas paredes, o fogo a água a terra o ar, a seriedade dos bichos, os jogos das crianças, o lenço manchado de sangue, o cansaço, a alegria silenciosa, a Mesopotâmia.
E compreender, conforme eu uso o verbo, não é tanto alcançar com a inteligência, é mais a possibilidade de abranger, encerrar em si um objecto outro que é feito da mesma matéria. É o corpo que compreende, talvez as mãos talvez o coração, compreender é quase consubstanciar — um gesto silencioso e cheio de mistério. Eu sou tu.
Quarta-feira, Fevereiro 9
She comes in words
As tuas rugas, Filina, valem mais que a seiva que brota não importa de que corpo jovem. E, quanto a mim, sinto-me mais ávido de ter nas minhas mãos os teus pomos atrevidos do que os seios bem levantados de uma jovem na flor da idade. O teu Outono é melhor que a Primavera de qualquer outra e o teu Inverno mais quente que o seu Verão.
Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.
Terça-feira, Fevereiro 8
histoire(s) du cinéma #10
Marthe Robert, La Vérité littéraire. Citado em A Literatura Erótica, de Jean-Jacques Pauvert. Tradução de Serafim Ferreira.
Segunda-feira, Fevereiro 7
Vai e Vem, de João César Monteiro, encerra o ciclo Poemas com Cinema, amanhã às 22h, no Teatro do Campo Alegre, no Porto.
Meia hora mais cedo, e apenas a uns quilómetros de distância, será projectado Torre Bela, de Thomas Harlan. É o que se pode chamar um verdadeiro acontecimento político, por oposição (e aqui oposição quer dizer mesmo oposição) aos falsos acontecimentos políticos que a televisão nos oferece ao jantar.
Domingo, Fevereiro 6
Filipe Guerra.
Paulo Rocha sobre António Reis
E era sobretudo um grande poeta, de poucas palavras, que dizia o essencial através da experiência das coisas banais. Na cultura portuense de esquerda daquela época, o António Reis era uma figura luminosa. Humilde, humilhado, secreto, vegetava nos escritórios da Vista Alegre, em Gaia. Odiava a arrogância de um patrão marialva, e acompanhava de perto o fluir da vida comum. À primeira vista parecia um operário. Morava num apartamento em Gaia com vista para o rio. As paredes estavam cobertas com bonecos de pano de todas as cores, feitos pelos loucos de um asilo. Os bonecos eram monstros de várias cabeças e muitas pernas, e anunciavam já os desenhos de Jaime. Naquelas janelas que davam para o nevoeiro do rio havia uma energia irracional, um sopro vital à beira do abismo.
Com os meus complexos de menino afortunado, fiquei rendido... E o António deu-me uma grande lição. Trabalhou nos diálogos durante seis meses, riscando e deitando fora. Cada dia mais magro. sempre em suores frios, à procura da vírgula, da pausa, da assonância secreta e expressiva. Os diálogos, arrancados a ferros, chegavam às filmagens à última da hora, e não havia tempo para refletir sobre eles. Só anos mais tarde, quando o Mudar de Vida se estreou comercialmente em Tóquio, é que tive oportunidade de os estudar. O trabalho de os traduzir para japonês era muito lento, e só assim pude descobrir a concisão exemplar, a riqueza secreta daquelas frases escritas com um ouvido musical, infalível. Quantos diálogos haverá na nossa língua que se lhe possam comparar?
Mais tarde, quando traduzi do japonês uma série de 50 haiku que foram publicados em album pela Morais, pedi-lhe ajuda para "limpar" o texto. Não sei escrever em português, caio sempre em literatices falsas. Foi um trabalho de meses, as melhores aulas que tive na minha vida. O António sentia o peso de cada palavra, de cada sílaba, fugia dos efeitos. Por influência dos haiku, o António recomeçou a escrever poesia, lembro-me de ele me recitar um quase haiku belíssimo, uma cena de matança. Era sobre a neve a cair no prato, onde coalhava o sangue do porco. Onde estará este poema? Havia outro, misterioso, dedicado a um olmo. Perdido também? Começou a estudar chinês, apaixonou-se pelo Tufu, de quem eu lhe emprestei uma edição bilingue, comentada. Acabou por pôr o nome de Tufu a um grande mocho que vivia lá por casa em liberdade. O poeta chinês deve ter ficado encantado, lá no assento etéreo.
in Jornal de Letras 17.09.1991, incluído no catálogo da Cinemateca dedicado a Paulo Rocha (1996)
Sábado, Fevereiro 5
A verdade é que o falcão me fascinava de tal modo, que tudo à sua volta perdia importância. Ele corporizava ou simbolizava para mim todos aqueles temas de conversa que verdadeiramente me interessavam, e que esta gente sociável, viajada e ociosa fazia o possível por evitar: doença, pobreza, sexo, religião, arte. Sempre que a conversa começava a aborrecer-me, uma solene mirada ao olhar maníaco do falcão bastava para que deixasse de os ouvir e começasse a pensar concentradamente em mim mesmo, ou por mim mesmo.
O falcão peregrino, Glenway Wescott, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Julho 2007
Numéro zéro — um documento
A conversa de Odette Robert com o neto Jean Eustache. É assim que construimos a nossa própria história: um amontoado de problemas e sentimentos contraditórios; a falta de dinheiro; as infidelidades; a maldade ou bondade dos outros; as mudanças de casa, de terra; uma alegria inesperada; os vestidos que detestamos; as doenças; as mortes. Não há uma cronologia exacta nem uma hierarquia de acontecimentos — tudo é importante, tudo conta (é por isso, talvez, que Eustache filma desse jeito desprotegido, sem montagem nem encenação, contrariando a linguagem do cinema).
Enquanto a narração avança, cresce a percepção de quem somos, da nossa passagem tão discreta e ao mesmo tempo tão imensa: através das suas palavras, Odette Robert descreve também a vida difícil das mulheres, a vida nas pequenas aldeias, a vida durante as guerras, ou até, como diz Antonio Rodrigues, uma parte da história da língua francesa.
É isso que me assombra, intensamente assombra; rodado como um pequeno filme familiar, NUMÉRO ZÉRO guarda o que nós fomos e somos ainda — o gesto inesquecível da avó ajeitando a toalha.
Sexta-feira, Fevereiro 4

Março é mês de Godard. O meu pequeno contributo: projecção de História(s) do Cinema, de Jean-Luc Godard, França, 1998, 268'. Dia 5 de Março, às 14h30, no Teatro Lethes (Faro). Em resposta ao amável convite de Anabela Moutinho.
Quinta-feira, Fevereiro 3
Bookie Bob
Damon Runyon, O rapto de Bookie Bob. Tradução de José Manuel Batista.
quando vejo NUMÉRO ZÉRO, apetece-ve rever LA MAMAN ET LA PUTAIN.
Fora esse ponto de insistência pessoal, concordo que opôr o filme de Eustache ao de Kozintsev & Trauberg é uma experiência avassaladora (e eu nunca duvidei do vigor da programação disjuntiva).
Quarta-feira, Fevereiro 2
Numéro Zéro

(...) Conta-nos Eustache que Odette Robert hesitou em ser filmada, em voltar a contar diante da câmara o que já lhe contara, argumentando que "não eram coisas bonitas". Não sentimos nunca em Odette Robert uma vontade de assumir poses de actriz, de dominar a conversa, buscar efeitos, agir de modo cabotino. Embora a ideia possa parecer paradoxal, devido às diferenças de âmbito e de ambição entre os dois filmes, NUMÉRO ZÉRO também pode ser visto como o reverso do filme que Eustache faria a seguir, LA MAMAN ET LA PUTAIN. Os dois filmes são totalmente conduzidos pelo verbo, mas se o texto de LA MAMAN ET LA PUTAIN é totalmente escrito, de teor quase literário e não isento de elegantes maneirismos verbais, o fluxo verbal de NUMÉRO ZÉRO não apenas nada tem de literário, mas nem sempre é articulado com clareza, sem sempre é perceptível, no sentido mais literal do termo, o que pode induzir o espectador a graves equívocos quanto ao sentido da palavra. A má dicção de Odette Robert e a sua pronúncia meridional não ajudam a perceber tudo o que é dito, mas é o seu fluxo contínuo que dá forma ao filme, com vaivéns e repetições, não obstante eventuais pausas na atenção do espectador. Talvez por isso, o prólogo seja totalmente mudo, pura imagem antes da instalação definitiva do verbo. A narrativa de Odette Robert cobre cerca de cem anos, num percurso que vai da sua avó aos seus bisnetos e também é um filme sobre a língua francesa, sobre uma das faces da língua francesa, personagem suplementar de um filme que é, do começo ao fim, uma evocação verbal. Antonio Rodrigues, As Folhas da Cinemateca - Jean Eustache
histoire(s) du cinéma #7
Vélasquez peignait les choses qui sont entre les choses et je m’aperçois que… petit à petit… le cinéma c’est ce qui est entre les choses, c’est pas les choses, c’est ce qui est entre quelqu’un et quelqu’un d’autre, entre toi et moi et puis sur l’écran c’est entre les choses. JLG
Terça-feira, Fevereiro 1


2º AVISO: THE CROWD, de King Vidor, 98’, 1928, às 18h30 e NOVYY VAVILON, de Grigori Kozintsev & Leonid Trauberg, 93’, 1929, às 21h30. NUMÉRO ZÉRO, de Jean Eustache, 107’, 1971, amanhã às 21h30.








