Segunda-feira, Fevereiro 28

Ce sont des beaux jours, les jours où il y a des bruits.

Sublinhado meu

O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.

Alexandre Andrade.

Mon nom est Jeanne

histoire(s) du cinéma #15

Os livros de filosofia e as obras de arte (...) têm em comum a resistência, a resistência à morte, à servidão, ao intolerável, à vergonha, ao presente. Deleuze & Guattari, "O que é a filosofia"

4B oui, c'est de notre temps que je suis l'ennemi fuyant; oui, le totalitarisme du présent... cette tyrannie sans visage qui les efface tous au profit exclusif de l’organisation systématique du temps unifié de l’instant... je tente de m’y opposer, parce que je tente dans mes compositions de montrer une oreille qui écoute le temps et tente aussi de le faire entendre et de surgir donc dans l'avenir la mort étant déjà comprise dans mon temps... je ne puis en effet qu'être l'ennemi fuyant de notre temps puisque sa tâche vise justement l'abolition du temps où je ne vois pas dans cet état qu'une vie mérite d'être vécue. (Bernard Lamarch-Vadel)

Domingo, Fevereiro 27

Rectificar as denominações

Confúcio dizia muitas vezes que, se alguma vez um soberano quisesse recorrer aos seus serviços, num ano faria muitas coisas, e em três anos atingiria os seus objectivos. Um dia, um dos seus discípulos disse-lhe: Suponha que um soberano lhe confiava um território que pudesse governar à sua maneira: qual seria a sua primeira iniciativa?" "A primeira de todas as minhas tarefas", respondeu Confúcio, "seria sem dúvida rectificar as denominações." O discípulo ficou desconcertado: "Rectificar as denominações? E seria essa a sua prioridade? Está a falar a sério" (Mas Chesterton e Orwell teriam percebido e aprovado imediatamente esta ideia.) Confúcio teve de lhe explicar: "Se as denominações não estiverem correctas, se não corresponderem à realidade, a linguagem não tem objecto. Quando a linguagem não tem objecto, a acção torna-se impossível, e, por conseguinte, as empresas humanas desintegram-se: é impossível e vão geri-las. É por isso que a primeira de todas as tarefas de um verdadeiro homem de Estado consiste em rectificar as denominações."

Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 259

Encontros, de Pierre-Marie Goulet, será apresentado hoje às 19h15, no pequeno auditório do Rivoli, no âmbito da homenagem a Paulo Trancoso pelo Festival Internacional de Cinema do Porto.

1957. Um grupo de camponeses e camponesas da aldeia de Peroguarda, no Alentejo, vai cantar ao Porto. O poeta António Reis, futuro realizador de Trás-os-Montes e Ana, ouve esses cantos em companhia de jovens amigos. Conquistado, António Reis, toma o caminho de Peroguarda, 700 km ao Sul, montado na sua motoreta com um gravador debaixo do braço. No seu encalço, outros jovens do Porto irão ao Alentejo ao longo dos anos seguintes. (...) Entre eles, Luís Ferreira Alves, Alexandre Alves Costa, José Mário Branco.

1959. Michel Giacometti, o corso que salvou a música tradicional portuguesa,começa uma pesquisa de 30 anos durante a qual recolherá a memória da cultura popular. Não tarda a descobrir a aldeia de Peroguarda onde regressará periodicamente. É lá que, em conformidade com o seu desejo, será enterrado em 1990.

1965. No Porto, o jovem poeta Manuel António Pina, e outros jovens aspirantes a poetas escolhem António Reis como referência.

1966. O cineasta Paulo Rocha, um dos realizadores que iniciou o Cinema Novo português com o seu primeiro filme Verdes Anos, decide rodar a segunda longa-metragem no Furadouro, situando a história no meio dos pescadores que na infância o haviam fascinado.

Estas e outras pessoas fazem parte de uma tribo informal cujos membros se reconhecem quando se encontram.

histoire(s) du cinéma #14

A minha ideia é dizer: vejam, isto é o que o cinema era. O facto de o vermos, o facto de ainda o podermos projectar, é como quando Schliemann descobriu umas ruínas e disse: "Bem, Tróia deve ter acontecido aqui". É assim que as coisas são.

Godard em conversa com Serge Daney (Libération, 26 dezembro de 1988), trad. Luís Miguel Oliveira, catálogo Godard 1985|1999, Cinemateca Portuguesa

Sábado, Fevereiro 26

“Não faltava àquele Cego vivacidade de engenho, facilidade de verso, boa frase e cor poética, para tornar-se um grande Lírico, mas a demasiada fecundidade de sua férvida fantasia, que ele não soube moderar, e a corrupção do bom gosto, que se iniciou naquele tempo, o prejudicaram muito. Por isso, em um volume tão grande de Rimas, pouquíssimas são aquelas que não sofram dos defeitos do Século XVII, e não tenham mais que novidades caprichosas e extravantíssimas. E sem contar os Sonetos bíblicos, os ‘sotádicos’ ou retrógrados e com Ecos contínuos, basta dizer que chegou a colocar em um Soneto até cinquenta e seis rimas; num outro, fazendo-se “Letrista”, todas as palavras principiam com a letra D; à tal bizarria foi levado pelo ardor que dedicou a uma certa Didania, em louvor da qual o compôs. Veio por isso mesmo a ser não poucas vezes acusado da depravação das belas Letras daquele século.”

La Vita di Luigi Grotto, Cieco d'Adria, por Giuseppe Grotto (1777). Citado por Augusto de Campos, em Poetas bizarros na web.

O vapor do arroz ao ser cozido

O termo qi é por vezes traduzido por "espírito", o que se presta a contra-sensos, a não ser que fique bem claro que os chineses têm uma concepção materialista do espírito, e uma concepção espiritualista da matéria: longe de serem antinómicos, os dois elementos interpenetram-se indissociavelmente. (...) Qi significa literalmente "sopro", "energia" (etimologicamente, o carácter designa o vapor do arroz ao ser cozido ). Em sentido lato e profundo, designa o impulso vital, o dinamismo interno da criação cósmica.

Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 194. 195

O seu erro era singularmente interessante e fecundo

Alguns sinólogos, cujo saber obscurece por vezes o seu entendimento, troçaram das traduções que Pound fez do chinês clássico. Pound possuía, é certo, um conhecimento escasso e defeituosos do chinês, e as suas traduções abundam em contra-sensos por vezes absurdos. Contudo, é significativo ver que, recentemente, alguns excelentes eruditos chuineses vieram em sua defesa: com efeito, as adaptações de Pound, filologicamente inaceitáveis, muitas vezes conseguem aproximar-se muito mais da estrutura e dos ritmos do original chinês do que os trabalhos dos especialistas... A ideia que Pound fazia da língua chinesa era tecnicamente falsa, mas o seu erro era singularmente interessante e fecundo, pois baseava-se numa intuição justa. Pound tinha observado correctamente que o poema chinês não se articulava em torno de um fio discursivo, mas que conseguia projectar uma série descontínua de imagens, até certo ponto comparáveis aos planos sucessivos de um filme. No que Pound se enganou, foi quando acreditou poder atribuir as virtudes "imagéticas" da linguagem poética chinesa à natureza pretensamente pictográfica da sua escrita. De facto, mesmo o principiante aprende desde muito cedo a arredar a crença ingénua segundo a qual os caracteres chineses seriam outros tantos "pequenos desenhos" (os pictogramas propriamente ditos representam apenas um por cento do léxico chinês); mas, coisa curiosa, esta noção errónea nunca abandonou verdadeiramente o espírito de Pound, e ditou-lhe aliás algumas das suas interpretações mais bizarras e mais desastradas.
Com efeito, aquilo que confere à poesia chinesa o seu carácter "imagético", aquilo que permite ao poeta fornecer directamente séries de percepções sem ter que passar por um discurso gramaticalmente organizado, é a fluidez morfológica do chinês clássico (a mesma palavra pode ser ora substantivo, ora adjectivo, ora verbo) e, sobretudo, a flexibilidade da sua sintaxe (as frases podem ficar sem verbo, e os verbos sem sujeito). Sem nos aventurarmos aqui nas areias movediças da linguística, limitemo-nos a dar um ou dois exemplos. Wen Tingyun descreve uma partida ao raiar da manhã, durante uma viagem, em dois versos clássicos; eis a sua transcrição palavra a palavra:

Galos-cantos, colmo-albergue, lua;
Homem-pegada, tábuas-ponte, geada.

Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 186,187

Sexta-feira, Fevereiro 25

Por que cantais a rosa, oh poetas!
fazei-a florescer no poema.


Huidobro.

Eu juro que é a última vez que escrevo isto

Amanhã, sábado, 26 de Fevereiro, pelas 17h30. Lançamento de "Doutor Avalanche" em Braga, na livraria Capítulos Soltos (Rua de Santo André, 93). Com apresentação de Luís Mourão.
Entretanto, o colectivo UmaCena, de Braga, criou um filme dedicado a este lançamento, que pode ser visto aqui.
One of the lessons of Godard: everything is there for us to pick up and use when it is useful.

Quinta-feira, Fevereiro 24

Dou mil voltas e quando começo a afastar-me em direcção à China, levada pela mão suave de Simon Leys (como em tempos ao Japão de Tanizaki), reparo que estou sempre no mesmo sítio. Deve ser isto avançar em total imobilidade; ou então, em linguagem vulgar: assim não vais longe!

Un pajarito travieso

Lázaro Leumorfi tenía la costumbre de sostener la cabeza entre sus manos porque creía que en cualquier momento podría desprenderse del cuello y caer al suelo. Por lo tanto, nunca se distraía de su importante tarea, sosteniendo la la cabeza con el mayor celo del que era capaz.
Pero fuese debido a que algún pajarito travieso le soplara algo al oído, fuese por otro motivo que no intentaremos determinar, lo cierto es que hubo un momento en que Lázaro se distrajo y dejó caer la cabeza. Ésta cayó instantáneamente al suelo, saltó dos o tres veces con la elasticidad de una pelota de goma, y rodó calle abajo y en contramano, hacia la plaza Dauphine, que brillaba a la distancia.
En qué estado de ánimo se sumió Lázaro después de este lamentable acontecimiento, es algo que no nos atrevemos siquiera a imaginar. Diremos sólo que no escatimó esfuerzos para recuperar la cabeza, buscando por todas partes, durante días y días. Y con mucho gusto hubiera seguido buscando si entretanto varios temas de la mayor importancia no lo hubiesen obligado a ir a otra parte.

Tradução de Carlos Roberto Morán de Um passarinho malicioso, conto incluído em Doutor Avalanche, e que faz parte de uma série de três contos traduzidos pelo mesmo autor.

Entretanto, relembro que no próximo sábado, 26 de Fevereiro, pelas 17h30, terá lugar o lançamento de Doutor Avalanche em Braga, na livraria Capítulos Soltos (Rua de Santo André, 93), numa sessão para a qual estão todos convidados. A apresentação será feita por Luís Mourão.

Quarta-feira, Fevereiro 23

Toda a poesia é evidentemente intraduzível por natureza, mas no caso da poesia chinesa essa impossibilidade é ainda reforçada por um mal-entendido. Aqui, com efeito, a tradução funciona como um crivo perverso que só salvasse o folhelho para eliminar o grão: aquilo que o tradutor propõe à admiração do leitor é precisamente a parte menos admirável do poema, ou seja, o seu argumento (geralmente banal) e as suas imagens (tiradas, nove em cada dez vezes, de um repertório convencional, desprovido de toda a originalidade). A virtude específica do poema escapa necessariamente ao tradutor, pois (como é aliás o caso da pintura e da caligrafia) não reside na criação de signos novos, mas sim na utilização nova de signos convencionais. Toda a arte está na disposição, no ajustamento e no confronto destas imagens pré-concebidas: é preciso que, do seu choque, brote a vida. No fundo, a estética chinesa é uma estética de interpretação, mais do que de invenção (...).

Ensaios sobre a China, de Simon Leys, tradução de António Gonçalves, Cotovia, p. 201, 202

Próximo sábado, 26, 17h30, em Braga

Próximo sábado, 26 de Fevereiro, pelas 17h30, em Braga, na livraria Capítulos Soltos (Rua de Santo André, 93). Vinho tinto e bolos à discrição*.
Mais informações aqui.

* Oferta limitada ao stock existente.

Terça-feira, Fevereiro 22

Que raízes se agarram, que ramos crescem
Neste pedregal? Como poderias sabê-lo
Ou adivinhá-lo, filho do homem, se só conheces
Um punhado de imagens quebradas,...

T.S. Eliot, A Terra devastada (Enterro dos mortos)

histoire(s) du cinéma #13


Toutes les femmes de Manet ont l'air de dire: "je sais à quoi tu penses".

Segunda-feira, Fevereiro 21

— O cavalo-marinho nada como um pauzinho. (Asa, no início do filme, a tentar impressionar Tulpan.)

Os manuscritos de Jeffrey Aspern

Talvez seja a minha cena preferida do livro de Heny James: o narrador deambula à toa por Veneza tentando esquecer a proposta atabalhoada de Miss Tina — os manuscritos de Jeffrey Aspern em troca do matrimónio? Há uma altura em que ele pensa escrever-lhe um recado de despedida mas não consegue encontrar as palavras certas, quer dizer, o silêncio parece-lhe brutal; em contrapartida, porém, qualquer palavra daria a entender uma aceitação, diz ele.

Ora, a impossibilidade de desfazer um equívoco por palavras não levanta uma dúvida razoável sobre a sua aproximação às duas Bordereau? Se não é possível escrever uma frase, se não é possível encontrar uma palavra que seja, não estará ele a enganar-se sobre o seu comportamento? Uma mulher com a idade e o aspecto de Miss Tina deveria ignorar todas as amabilidades da corte? todas as flores? Deitar a mão aos papéis privados de um poeta já morto justifica um pensamento-acção tão ignóbil? E será, para além disso, que o narrador, só porque domina o ponto de vista, é inocente e não um "canalha dum editor", como lhe chama Juliana?

A dúvida persegue-nos até ao fim e quando o narrador (que na história tem um nome verdadeiro e outro falso mas para nós é sempre e apenas o narrador) lamenta a perda dos manuscritos de Jeffrey Aspern, pressentimos que ele perdeu mais do que isso (na verdade, os manuscritos não passam de um MacGuffin), muito mais do que ele próprio pode aceitar: nas últimas páginas, Miss Tina Bordereau transformou-se na personagem principal da história.

Domingo, Fevereiro 20

Strangers talk only about the weather #112

William Faulkner acompañaba a su madre en su agonía. Su estado era irreversible y ella lo sabía. El escritor, para confortarla, comenzó a describirle las cosas y los elementos maravillosos que ella iba encontrar en el Paraíso. Todo iba bien hasta que Faulkner nombró a su padre. La anciana lo interrumpió y preguntó enojada: "¿Cómo? ¿En ese cielo voy a tener que encontrarme con tu padre?" "Si no quieres, no", respondió el escritor. La madre pudo decir algo más antes de expirar: "Qué bueno, porque ese hombre no me agradaba mucho".

Matías Bauso, Una épica de los últimos instantes.

Sábado, Fevereiro 19

O Porto à procura de um palco

Excelente, a reportagem de Inês Nadais, no Ípsilon de ontem, a propósito do ciclo de teatro do Porto, que terá lugar nos próximos dias em Lisboa. Desse texto, destaco três fragmentos, que me parecem particularmente interessantes para entender o actual momento cultural do Porto. Estamos a falar de teatro, mas podíamos falar de qualquer outra área da expressão artística: as ideias seriam as mesmas.

Primeiro fragmento:
"Não passaria pela cabeça de ninguém organizar um ciclo de teatro de Lisboa no Porto, até porque os espectáculos de Lisboa ainda vão sendo vistos no Porto. Se as coisas funcionassem normalmente, o Visões [Úteis] ia regularmente a Lisboa - e ia o [Teatro] Bruto, e ia a Palmilha [Dentada]. É um círculo vicioso: o trabalho que é mais visto constitui-se mais facilmente como referência, e por isso é ainda mais visto; o teatro do Porto é obviamente menos visto". A operação em si, completa Francisco Alves, do Teatro Plástico, que não faz parte da comitiva, "dá-nos o retrato de um país profundamente provinciano". É como se, pelo inusitado aparato da coisa, este ciclo reforçasse a distância em vez de a encurtar (...). Que o Porto precise de ir a Lisboa para se interrogar parece-me triste. E é absolutamente irónico que este ciclo se faça num teatro dos três teatros municipais de Lisboa quando no Porto estamos privados até desse instrumento básico - o que também nos impede de nos pensarmos colectivamente.

Segundo fragmento:
O agravamento das condições de produção e de apresentação, com a cedência às produções La Féria do mesmo Rivoli que Isabel Alves Costa transformou numa segunda casa da criação teatral independente da cidade e com a progressiva precarização do financiamento público, tornou o teatro do Porto um caso ainda mais particular nos últimos anos. "Quem fica a fazer teatro no Porto não fica porque há procura ou dinheiro a ganhar: fica porque tem mesmo necessidade de fazer coisas. Não há mercado para alimentar. Nós não respondemos a uma ânsia de programação, pela simples razão de que não há, como há em Lisboa, instituições a programar o que quer que seja, à excepção do S. João. Respondemos à nossa própria ânsia de fazer coisas", argumenta Ricardo Alves [da Palmilha Dentada]. "Talvez a grande marca do teatro do Porto seja uma grande capacidade de resistência: fazemos muito com muito pouco", reforça Francisco Alves [do Teatro Plástico].

Terceiro fragmento:
"O que falta muitas vezes no Porto é esse pé que se mete na porta e obriga a porta a abrir-se. Este ciclo põe o pé na porta", resume [o dramaturgo] Jorge Palinhos.
Que decepção, a homenagem do fantasporto a Jean Renoir resume-se a três filmes, dois dos quais no pequeno auditório do Rivoli. Pelo caminho das intenções, e apesar da colaboração da Embaixada de França, perderam-se sete filmes e a palavra homenagem deu um grande tombo.

ah, como eu invejo o urso-preto!

A temperatura média desta espécie, quando estão activos, é de cerca de 37 graus célsius. Durante os meses de hibernação, o que a equipa verificou, é que os mamíferos vão baixando gradualmente a temperatura do corpo até aos 30 graus.

Quando chegam a este valor, os ursos começam a tremer e a temperatura vai subindo devagar até aos 36 graus. Esta subida demora entre dois a sete dias. Assim que os animais alcançam os 36 graus param de tremer e a temperatura começa a decair outra vez, iniciando um novo ciclo.

Esta variação é acompanhada por uma respiração e batimento cardíaco irregular. Durante a hibernação, os ursos batem o coração 14 vezes por minuto, em vez das 55 vezes, quando estão activos. “Eles têm um batimento cardíaco quase normal quando inspiram. Mas entre as respirações, os batimentos ficam muito lentos”, explicou Tøien. Nestas ocasiões, o coração chega a ficar parado durante 20 segundos.

Ao longo dos meses, os ursos não comem, bebem, não urinam ou defecam. Entre duas vezes por dia até uma vez de dois em dois dias, os mamíferos levantam-se, rearranjam a cama e voltam a deitar-se, com a temperatura a subir em média até aos 33 graus.

Quando a temporada de hibernação termina, os ursos não retomam o metabolismo normal imediatamente, demoram até três semanas a ficarem totalmente acordados. Mas não têm perda nenhuma de massa muscular, tecido ósseo, estão perfeitamente em forma. publico.pt

Sexta-feira, Fevereiro 18

Strangers talk only about the weather #111

The essence of Kitsch consists of exchanging the ethical category with the aesthetic category. The artist pursues not a 'good' work of art, but a 'beautiful' work of art, what matters here is a beautiful effect. And this means that the kitsch novel, even while often using quite naturalistic language, i.e., the vocabulary of reality, describes the world not as it really is but as it is hoped and feared to be.

Hermann Broch, Geist and Zeitgeist: The Spirit in an Unspiritual Age

histoire(s) du cinéma #12

— Em França há uma expressão. Diz-se: "amar alguém cegamente..." que significa amar sem fazer perguntas. E em "História(s) do Cinema" eu disse que nós, da nouvelle vague, amávamos o cinema antes o conhecer. Porque os filmes de que falávamos não podiam ser vistos. Não eram distribuídos. Godard-aveugle

Quinta-feira, Fevereiro 17

coleccionar padrões


Este quarto de Klassenverhältnisse é parecido com o da rapariga da rua Asselin.
Alguém atravessa um bosque sombrio e ouve os uivos dos lobos, uma presença que não se deixa apanhar. Esta é a minha visão do passado; feras em vez de anjos.
Nana de Zola não chega a ser apreendido em 1880, graças ao seu tremendo êxito e ao trinfo da União Republicana presidida por Gambetta nas eleições legislativas de 1881, embora conheça um ataque feroz dos jornais moralistas, dado que para eles Zola é definitivamente "um pornógrafo". Mas Flaubert ("uma inteligência alimentada por Sade", dizem os Goncourt) escreve-lhe: "Meu caro Zola, passei ontem todo o dia até às 11 horas e meia da noite a ler Nana. Não consegui adormecer e sinto-me ainda estúpido. Santo Deus, que tomates você tem! (...) Um livro enorme, meu caro!"

Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.

Quarta-feira, Fevereiro 16

A propósito de Alberto Savinio:
Ahora bien, al método del autor, rebosante de biografismo y experiencia personal, contrario a cualquier erudición enciclopédica, se suma una manera rigurosa de razonar, una especie de discurso silogístico que lleva sin embargo al absurdo, no por un error de procedimiento, sino por una adhesión contundente a la realidad.

Eugène Atget, Une fille de la rue Asselin, mars 1921. Série "Paris pittoresque". Épreuve: 17,4 x 21,5 cm. Contretype par Marcel Bovis. © Bibliothèque nationale de France, Estampes

Terça-feira, Fevereiro 15

Em 1821, ao condenar uma reimpressão de As Ligações Perigosas, o tribunal dá como uma das razões dessa sua severidade o facto de o livro ter "provocado a Revolução Francesa". E isso não deixa de ser verdade. A obra suscitara um tremendo escândalo na Côrte e na cidade aquando da sua publicação em 1782. Por volta de 1770, as livrarias enchem-se de textos que revelam (exagerando-os num caso ou noutro) os costumes da alta sociedade e por vezes com muita crueldade.
(...)
Os Amores de Charlot et Toinette, em 1779, figuram entre os primeiros panfletos verdadeiramente obscenos contra Luís XVI e sobretudo contra Maria Antonieta. Em geral atribuído a Beaumarchais, o livro descreve, em versos conseguidos e sem circunlóquios inúteis, os amores de Charles d'Artois e a rainha.
(...)
Uma lista não exaustiva dos panfletos deste género publicados até 1789 poderá dar uma breve ideia dessa produção literária: As noites de Maria Antonieta (1774), Os passatempos de Antonieta (1780), As diversões de Antonieta (1783), O espaço da volúpia ou as aventuras de Querubim (1788), O godmiché real (1789), o bordel real, seguido de uma conversa secreta entre a rainha e o cardeal de Rohan (1789), etc.

Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.

Segunda-feira, Fevereiro 14

Uma visita esperada

Um homem desejava ser um bom escritor e estava disposto a tudo para o conseguir. Passou anos, anos e anos a ler e a estudar os grandes autores, e a escrever sem parar. Mas nada alcançou de relevante.
Um dia apareceu-lhe o diabo, com os seus olhinhos semi-cerrados e a sua cara de bobo atrevido. De certa forma, o homem já esperava aquela visita. O diabo, como é habitual, fez-lhe uma proposta: revelar-lhe-ia o segredo da grande literatura se o homem cortasse as próprias mãos. O homem aceitou e cortou as mãos. Rapidamente se apoderou dele a inspiração criadora. Ficou conhecido, nos manuais e nas enciclopédias, como o “grande escritor maneta”.
Eu pensava terminar aqui esta história. Mas – é certo – há ainda um ponto que exige esclarecimento: como escreveu ele as suas obras maiores se entretanto cortara as mãos? Pois bem, não sei.

histoire(s) du cinéma #11

facilis descensus averno


hoc opus hic labor est

Uma das constantes da França é que raros são os autores importantes que não se arriscam, num ou noutro momento, a escrever textos eróticos. Assim, o grande Corneille, por volta de 1650, realizará uma espécie de pequena obra-prima repleta de versos "corneilianos": A ocasião perdida e recuperada. Como penitência, o padre Paulin teria obrigado Corneille a pôr em versos e em francês A Imitação de Cristo, que apareceu realmente em 1651.

Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.

Domingo, Fevereiro 13

Gérard Castello-Lopes

Sobre as ondas, a pedra flutua.

Sábado, Fevereiro 12

Hei-de entrar nas casas
também

Como o silêncio

A ver os retratos dos mortos
nas paredes
um bombeiro um menino

A ver os monogramas bordados nos lençóis

os vestidos virados
os vestidos tingidos
os diplomas de honra
as redomas

E a caderneta dos Socorros Mútuos
e Fúnebres

em atraso

Hei-de entrar nas casas
também
como o luar

A ver as faltas de roupa interior
e de cama

os rostos preocupados
com os avisos da luz e da água

com a máquina de petróleo apagada
jornais nas paredes
e um pássaro na varanda
a cantar
ao lado duma flor


António Reis, Poemas Quotidianos, 1957
Já no seu tempo foram postos de lado (porque o seu ponto de vista abarca o que existe desde sempre e se prolonga?) e o que mais me entristece é que ainda hoje os filmes de António Reis e Margarida Cordeiro são vistos apenas por meia dúzia de pessoas, disponíveis, é certo, mas quem mais precisa de Trás-os-Montes ou Ana continua indiferente. Talvez estejam guardados para um futuro distante, talvez então sejam descobertos como tesouros preciosos, ou como ruínas de um mundo que existiu.

Sexta-feira, Fevereiro 11

Si Khalil ouve esta voz que se ergue na noite. É a voz de um povo que desperta e que cedo vai estrangulá-lo. Cada minuto que passa o separa da sua antiga vida. O futuro está cheio de gritos. O futuro está cheio de revoltas. Como represar este rio transbordante que vai submergir as cidades?
A casa da morte certa, Albert Cossery

Josefa de Óbidos, natureza morta, s/data. Barros e cesto, queijos e cerejas.
Em 1984, Pierre Bec publicou Burlesque et Obscénité chez les troubadours, em que coloca em grande destaque toda a criação dos melhores poetas [trovadores] da época [séculos XI, XII e XIII). Uma revelação: saem da sombra os poemas não apenas obscenos e estacatológicos, mas também misóginos ou contrários a todas as doutrinas do amor cortês que se julgava reinar sem partilha: Peire Cardenal, Raimon Rigaut, Bernard de Ventadour, Raimon de Durfort, Montan, Arnaud Daniel, que rivalizam em escárnio, em ironia e sobretudo, o que mais nos interessa, em obscenidade.

Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.
Chamem-nos saudosistas ou retrógrados, chamem-nos os nomes todos que quiserem. Como diz Francisco J. Viegas, isto não tem a ver com tecnologia, o que seria irónico num blog, mas com o «capitalismo financeiro» que transforma livros (ou jogadores de futebol…) em activos, conduzindo à proliferação incontrolada de lixo – em «alta rotação», como se diz no business. A combinação de ganância com iliteracia deu o que deu, lá fora e, em breve, numa livraria perto de si.

Uma livraria a menos.

Quinta-feira, Fevereiro 10

A Mesopotâmia, minha querida

Aposto que a minha avó havia de gostar de Ana. Ela não se ia pôr à procura de significados ou semelhanças (as imagens de Josefa de Óbidos?); compreenderia tudo de uma só vez, o filme por inteiro, sem esforço, sem destruir nada, beneficiando da relação secreta das coisas afins. Compreenderia a fruta espalhada pela casa — vês os limões no parapeito da janela?, a capa debruada (a roupa de Ana é tão bonita como os vestidos de Quei loro incontri), as brechas nas paredes, o fogo a água a terra o ar, a seriedade dos bichos, os jogos das crianças, o lenço manchado de sangue, o cansaço, a alegria silenciosa, a Mesopotâmia.

E  compreender, conforme eu uso o verbo, não é tanto alcançar com a inteligência, é mais a possibilidade de abranger, encerrar em si um objecto outro que é feito da mesma matéria. É o corpo que compreende, talvez as mãos talvez o coração, compreender é quase consubstanciar — um gesto silencioso e cheio de mistério. Eu sou tu.

Almocei com Henry James no jardim do Palácio, ao sol; fartei-me de rir. Até com os mortos se confirma o cliché amoroso: gostamos mais de quem nos faz rir.

Quarta-feira, Fevereiro 9

She comes in words

I remember his saying of her that she felt in italics and thought in capitals. Henry James
Talvez por volta do ano 313, o Império Romano é dividido em dois: Constantino tomou o Ocidente, de cultura latina, Licínio o Oriente, de cultura grega, tendo Constantinopla (a antiga Bizâncio) como capital, que resiste sempre ao caos que nela se vive, por volta de 500, à custa de um rigorismo muito beato, sob o reinado controverso de Justiniano e de Teodora. Aliás, o casal imperial faz tudo para erradicar a cultura clássico-pagã, através de severas recriminações. Neste contexto, a desertificação cultural do Império bizantino não podia deixar de se acentuar, e embora rigorosamente vigiado pelo poder, os textos audaciosos e raros circulam em segredo, surgindo então grandes figuras, como Paulo o Silenciário, que os fazem distribuir parcimoniosamente à sua volta. Como autores de epigramas cerca dos anos 550-560, Paulo o Silenciário (sobretudo ele) e Agátias o Escolástico representam bem esse género. O primeiro afirma-se melhor no exercício e é um verdadeiro apaixonado pela mulher, em todos os seus estados:

As tuas rugas, Filina, valem mais que a seiva que brota não importa de que corpo jovem. E, quanto a mim, sinto-me mais ávido de ter nas minhas mãos os teus pomos atrevidos do que os seios bem levantados de uma jovem na flor da idade. O teu Outono é melhor que a Primavera de qualquer outra e o teu Inverno mais quente que o seu Verão.

Jean-Jacques Pauvert, A literatura erótica. Tradução de Serafim Ferreira.

Terça-feira, Fevereiro 8

António Reis: Nous pouvons parler presque d’une espèce de dépôt géologique à propos des habitants du Tras-os-Montes. Quand nous fait ça, c’est pour une richesse des types. Les différences d’âges sont comme des sédiments de géologie. C’est une espèce de coupe dans la géologie d’un terrain social. C’est trop violent. Pas une information, mais une expression. Les choses sont doucement marquées par les modulations saisonnières. Il n’y a pas tellement de gens. L’immigration a en effet redéfini la densité des âges. Mais cela subsiste comme si tu faisais une coupe dans un terrain. C’est une richesse fantastique. En même temps c’est un désert. Nous avons porté à l’extrême la mise en scène parce que nous connaissons bien la vie sociale là-bas. Il y a une séquence où ce que nous venons de dire est poussé à l’extrême. Je te rappelle la scène où on sort de l’Eglise. C’est dimanche. Les hommes mangent des fraises. Il y a trois générations dans le plan, assises ou situées dans l’espace, dans une composition qui n’est pas artificielle. Ils voient pour nous. Mais que voient-ils ? Je pense que ce plan-là est très significatif. Dans l’éclipse nous dénions le soleil. Le soleil, un jour fait une sorte d’éclipse, parce qu’il disparaît. Et il y avait en contrepoint de cela l’éclipse que la grand-mère racontait, en créant une légende, en recourant à la mémoire de la petite. Et nous désirions des conditions exceptionnelles pour ce plan-là dont le repérage nous a posé beaucoup de problèmes. Pendant trois jours nous avons eu tout le matériel monté pour prendre cette vue panoramique avec cette lumière là, très limpide, très nette parce qu’elle allait justement parler de l’éclipse à midi. Pendant trois jours nous sommes restés là-haut avec le matériel et toute l’équipe, et le personnage. Nous avons filmé quelques nuages dans le ciel, c’était joli, mais nous trouvions que ce n’était pas du tout l’esprit de la scène, malgré ce que disait l’opérateur. Pendant trois jours... C’est seulement au bout de trois jours, avec un froid terrible, que nous avons réussi à trouver ce que nous désirions en effet.

histoire(s) du cinéma #10

Tu es face à une page, une page blanche, une plage blanche... mais il n’y a pas la mer et tu, peut-être, peux inventer les vagues, tu inventes une vague... C’est un murmure, c’est une vague... Tu as une idée que n’est que vague, mais c’est déjà un mouvement. Jean-Luc Godard, Scénario du film Passion
A literatura enquanto tal não suporta a qualificação; é o que é ou não é de todo, e desde que é classificada dentro de categorias limitadas, dizendo por exemplo que é erótica, policial, regional, feminina ou comprometida, ela perde a sua única qualidade incontestável que é a recusa de se especificar.

Marthe Robert, La Vérité littéraire. Citado em A Literatura Erótica, de Jean-Jacques Pauvert. Tradução de Serafim Ferreira.

Segunda-feira, Fevereiro 7

– Ah! Se houvesse facas e tesouras, escopros, chuços e arcabuzes, morteiros, foices e martelos, canhões, canhões, dinamite.

Vai e Vem, de João César Monteiro, encerra o ciclo Poemas com Cinema, amanhã às 22h, no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Meia hora mais cedo, e apenas a uns quilómetros de distância, será projectado Torre Bela, de Thomas Harlan. É o que se pode chamar um verdadeiro acontecimento político, por oposição (e aqui oposição quer dizer mesmo oposição) aos falsos acontecimentos políticos que a televisão nos oferece ao jantar.

Domingo, Fevereiro 6

Declaro-me escritor e que se foda. Sim, porque a minha vida dava um microconto. Nós, os escritores, como cada vez nos resumimos mais, cada vez nos sofisticamos mais, tem de ser. Os melhores escritores, mesmo sendo clássicos e abrutalhados, e até poetas mariconços de todas as épocas, percebemos isso muito bem e contribuímos com alguma coisinha. Vamos à questão. É Janeiro, noite, neve, frio, a alma invernal gelada como uma arca ligada no máximo – e parece que está tudo dito. Pois não está. Não exageremos na redução e acrescentemos um relógio branco e redondo de cozinha com orla vermelha como um sol nocturno e algarismos árabes, parado nas onze e meia da noite e do dia, um relógio portanto sem tiquetaque, silencioso e triste como um prostíbulo de província sem clientes, sem aquecimento e sem sabão na noite escura, um relógio “quartz”, para que saibam, porque adiante há-de aparecer um mestiço indonésio de apelido Schwartz falando um português comovente e um inglês sofrido. Não poupemos excessivamente nas personagens.

Filipe Guerra.

Paulo Rocha sobre António Reis

Quando voltei de Locarno, em 63, trazia já a ideia do Mudar de Vida. Pedi ajuda ao Bragança para os diálogos, mas ele não sabia nada de pescadores e mandou-me para o Cardoso Pires. O Cardoso Pires gostava de cinema, e estava no auge da fama: acabara de adaptar As Ilhas Encantadas do Melville para a fita do Vilardebó. O Cardoso Pires também sabia pouco de gente do mar, e mandou-me para a minha terra, o Porto, falar com o António. Era uma figura muito activa na cena portuense. Fazia trabalhos de campo, estudava a poesia popular do Alentejo e as falas dos pescadores da Costa Nova. Tinha sido um dos autores da Arquitectura Popular Portuguesa, um livro muito citado pelos arquitectos da escola do Porto. Era amigo do Lixa Filgueiras, a grande autoridade sobre arquitectura naval tradicional, e planeava fazer um filme sobre o barco rabelo do Douro. Lixa Filgueiras será mais tarde um personagem inesquecível num dos seus filmes de fundo [Ana]. Para o Cine Clube do Porto ajudara a rodar o Auto de Floripes, e tinha sido assistente de Manuel de Oliveira para o Acto de Primavera. Estava a preparar uma tese de doutoramento numa universidade suiça sobre questões de cultura popular.

E era sobretudo um grande poeta, de poucas palavras, que dizia o essencial através da experiência das coisas banais. Na cultura portuense de esquerda daquela época, o António Reis era uma figura luminosa. Humilde, humilhado, secreto, vegetava nos escritórios da Vista Alegre, em Gaia. Odiava a arrogância de um patrão marialva, e acompanhava de perto o fluir da vida comum. À primeira vista parecia um operário. Morava num apartamento em Gaia com vista para o rio. As paredes estavam cobertas com bonecos de pano de todas as cores, feitos pelos loucos de um asilo. Os bonecos eram monstros de várias cabeças e muitas pernas, e anunciavam já os desenhos de Jaime. Naquelas janelas que davam para o nevoeiro do rio havia uma energia irracional, um sopro vital à beira do abismo.

Com os meus complexos de menino afortunado, fiquei rendido... E o António deu-me uma grande lição. Trabalhou nos diálogos durante seis meses, riscando e deitando fora. Cada dia mais magro. sempre em suores frios, à procura da vírgula, da pausa, da assonância secreta e expressiva. Os diálogos, arrancados a ferros, chegavam às filmagens à última da hora, e não havia tempo para refletir sobre eles. Só anos mais tarde, quando o Mudar de Vida se estreou comercialmente em Tóquio, é que tive oportunidade de os estudar. O trabalho de os traduzir para japonês era muito lento, e só assim pude descobrir a concisão exemplar, a riqueza secreta daquelas frases escritas com um ouvido musical, infalível. Quantos diálogos haverá na nossa língua que se lhe possam comparar?

Mais tarde, quando traduzi do japonês uma série de 50 haiku que foram publicados em album pela Morais, pedi-lhe ajuda para "limpar" o texto. Não sei escrever em português, caio sempre em literatices falsas. Foi um trabalho de meses, as melhores aulas que tive na minha vida. O António sentia o peso de cada palavra, de cada sílaba, fugia dos efeitos. Por influência dos haiku, o António recomeçou a escrever poesia, lembro-me de ele me recitar um quase haiku belíssimo, uma cena de matança. Era sobre a neve a cair no prato, onde coalhava o sangue do porco. Onde estará este poema? Havia outro, misterioso, dedicado a um olmo. Perdido também? Começou a estudar chinês, apaixonou-se pelo Tufu, de quem eu lhe emprestei uma edição bilingue, comentada. Acabou por pôr o nome de Tufu a um grande mocho que vivia lá por casa em liberdade. O poeta chinês deve ter ficado encantado, lá no assento etéreo.

in Jornal de Letras 17.09.1991, incluído no catálogo da Cinemateca dedicado a Paulo Rocha (1996)

Sans rien changer, que tout soit différent.

Sábado, Fevereiro 5

A verdade é que o falcão me fascinava de tal modo, que tudo à sua volta perdia importância. Ele corporizava ou simbolizava para mim todos aqueles temas de conversa que verdadeiramente me interessavam, e que esta gente sociável, viajada e ociosa fazia o possível por evitar: doença, pobreza, sexo, religião, arte. Sempre que a conversa começava a aborrecer-me, uma solene mirada ao olhar maníaco do falcão bastava para que deixasse de os ouvir e começasse a pensar concentradamente em mim mesmo, ou por mim mesmo.

O falcão peregrino, Glenway Wescott, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Julho 2007

Numéro zéro — um documento

Odette Robert fala, hesita, fuma um cigarro, beberica um pouco de uísque e gelo, ajeita a toalha.

A conversa de Odette Robert com o neto Jean Eustache. É assim que construimos a nossa própria história: um amontoado de problemas e sentimentos contraditórios; a falta de dinheiro; as infidelidades; a maldade ou bondade dos outros; as mudanças de casa, de terra; uma alegria inesperada; os vestidos que detestamos; as doenças; as mortes. Não há uma cronologia exacta nem uma hierarquia de acontecimentos — tudo é importante, tudo conta (é por isso, talvez, que Eustache filma desse jeito desprotegido, sem montagem nem encenação, contrariando a linguagem do cinema).

Enquanto a narração avança, cresce a percepção de quem somos, da nossa passagem tão discreta e ao mesmo tempo tão imensa: através das suas palavras, Odette Robert descreve também a vida difícil das mulheres, a vida nas pequenas aldeias, a vida durante as guerras, ou até, como diz Antonio Rodrigues, uma parte da história da língua francesa.

É isso que me assombra, intensamente assombra; rodado como um pequeno filme familiar, NUMÉRO ZÉRO guarda o que nós fomos e somos ainda — o gesto inesquecível da avó ajeitando a toalha.

Sexta-feira, Fevereiro 4


Março é mês de Godard. O meu pequeno contributo: projecção de História(s) do Cinema, de Jean-Luc Godard, França, 1998, 268'. Dia 5 de Março, às 14h30,  no Teatro Lethes (Faro). Em resposta ao amável convite de Anabela Moutinho.

Quinta-feira, Fevereiro 3

Bookie Bob

É um tipo baixo, gordo e careca, com a cabeça sempre a abanar ligeiramente de um lado para o outro, o que é sinal de doença, para alguns, mas que, para a maior parte dos cidadãos resulta do hábito de Bookie Bob abanar a cabeça a dizer «Não» aos tipos que lhe vêm pedir crédito para apostar nas corridas.

Damon Runyon, O rapto de Bookie Bob. Tradução de José Manuel Batista.
Próximas sessões (integradas no Seminário Arquivo e Anacronia): MUDAR DE VIDA, de Paulo Rocha, 6 FEV (Dom.), às 21h30; TORRE BELA, de Thomas Harlan, 8 FEV (Ter.), às 21h30; ANA, de António Reis e Margarida Cordeiro, 9 FEV (Qua.), às 21h30.
Quando vejo NOVYY VAVILON, apetece-ve ver ODNA;
quando vejo NUMÉRO ZÉRO, apetece-ve rever LA MAMAN ET LA PUTAIN.
Fora esse ponto de insistência pessoal, concordo que opôr o filme de Eustache ao de Kozintsev & Trauberg é uma experiência avassaladora (e eu nunca duvidei do vigor da programação disjuntiva).

Quarta-feira, Fevereiro 2

Numéro Zéro


(...) Conta-nos Eustache que Odette Robert hesitou em ser filmada, em voltar a contar diante da câmara o que já lhe contara, argumentando que "não eram coisas bonitas". Não sentimos nunca em Odette Robert uma vontade de assumir poses de actriz, de dominar a conversa, buscar efeitos, agir de modo cabotino. Embora a ideia possa parecer paradoxal, devido às diferenças de âmbito e de ambição entre os dois filmes, NUMÉRO ZÉRO também pode ser visto como o reverso do filme que Eustache faria a seguir, LA MAMAN ET LA PUTAIN. Os dois filmes são totalmente conduzidos pelo verbo, mas se o texto de LA MAMAN ET LA PUTAIN é totalmente escrito, de teor quase literário e não isento de elegantes maneirismos verbais, o fluxo verbal de NUMÉRO ZÉRO não apenas nada tem de literário, mas nem sempre é articulado com clareza, sem sempre é perceptível, no sentido mais literal do termo, o que pode induzir o espectador a graves equívocos quanto ao sentido da palavra. A má dicção de Odette Robert e a sua pronúncia meridional não ajudam a perceber tudo o que é dito, mas é o seu fluxo contínuo que dá forma ao filme, com vaivéns e repetições, não obstante eventuais pausas na atenção do espectador. Talvez por isso, o prólogo seja totalmente mudo, pura imagem antes da instalação definitiva do verbo. A narrativa de Odette Robert cobre cerca de cem anos, num percurso que vai da sua avó aos seus bisnetos e também é um filme sobre a língua francesa, sobre uma das faces da língua francesa, personagem suplementar de um filme que é, do começo ao fim, uma evocação verbal. Antonio Rodrigues, As Folhas da Cinemateca - Jean Eustache

histoire(s) du cinéma #7

Tudo está nessa ou naquela justaposição de situações visuais. Tudo está nos intervalos. Dziga Vertov, Conselho dos Três (trad. de Marcelle Pithon, in A experiência do Cinema, org. Ismail Xavier, Graal/Embrafilme.)

Vélasquez peignait les choses qui sont entre les choses et je m’aperçois que… petit à petit… le cinéma c’est ce qui est entre les choses, c’est pas les choses, c’est ce qui est entre quelqu’un et quelqu’un d’autre, entre toi et moi et puis sur l’écran c’est entre les choses. JLG

Terça-feira, Fevereiro 1



2º AVISO: THE CROWD, de King Vidor, 98’, 1928, às 18h30 e NOVYY VAVILON, de Grigori Kozintsev & Leonid Trauberg, 93’, 1929, às 21h30. NUMÉRO ZÉRO, de Jean Eustache, 107’, 1971, amanhã às 21h30.

histoire(s) du cinéma #6

Qui veut se souvenir doit se confier à l’oubli au risque de l’oubli absolu et ce beau hasard que devient le souvenir. Maurice Blanchot


Mais informações aqui.