Segunda-feira, Janeiro 31

História de um pêlo

Um pêlo brutalmente arrancado às paredes do nariz e abandonado à sua sorte numa qualquer casa de banho. Deve haver aqui uma história. Como acham que se sente um pêlo nestas circunstâncias? Um pêlo do nariz é uma criatura de sentimentos muito impressionáveis e delicados.
Outrora fora um dos pêlos mais alegres e engenhosos dentro do nariz e, digamos, à face da terra. Tão à vontade na guitarra como no dito espirituoso, no trapézio como nas paralelas. Jovem, loiro, bonito e robusto. Quem me dera que o tivessem visto. Fazia inveja olhá-lo. Era o que se pode chamar um pêlo bem posto. Oh meu Deus! Como a vida era encantadora! Em menos de nada, tudo acabou. Agora, não passa de um cinzento, apagado e triste pêlo inciso, literalmente sufocado pela amargura e pelo pesar.
Seria necessário outro Homero para descrever minuciosamente todos os matizes desta dilacerante história. Tudo são precipícios em seu redor. Tem vontade de arrancar os cabelos (e, com efeito, chega a arrancar dois ou três). Um espectáculo brutal e impressionante. Como pudera aquilo suceder? Eis um fio de raciocínio que o conduz à mais horrível das conclusões: neste mundo, um pêlo é menos que nada.
De facto, neste mundo, lamento dizê-lo, um pêlo do nariz não vale um figo podre.

De um amigo, numa mensagem de email

(...) desculpa, mas não pode ser. porque o mark twain vive aqui em bruxelas. é carteiro na minha rua. por sinal, bem fraco: troca as cartas todas - temos que nos reunir às sete da tarde todos os dias, os vizinhos, para destrocarmos a correspondência.
o gajo diz que tem mais que fazer do que estar agora a reparar nos endereços e que só nos faz bem, porque sempre convivemos. é a maneira de ele lutar contra a solidão que impera nas grandes metrópoles e até nas pequenas.

Sábado, Janeiro 29

Strangers talk only about the weather #110


Quando dizemos silêncio, nunca é silêncio. Não estou a pensar nos batimentos do coração, no movimento do sangue. É um fluxo interminável de palavras invisíveis que ouvimos, sem som nem nexo, dentro da nossa cabeça. Mas, que música é esta?

Sexta-feira, Janeiro 28

histoire(s) du cinéma #5

Actualmente, todo poder (económico, militar, desportivo, religioso) tem o ‘seu visual’; e o que é o visual senão uma imagem à qual expurgaram qualquer risco de se encontrar com a experiência do outro, seja ele qual for. Serge Daney

Quinta-feira, Janeiro 27

Eric Satie no abría nunca las cartas que recibía, pero las contestaba todas. Miraba quién era el remitente y le escribía una respuesta. Encontraron las cartas cerradas en un altillo y las publicaron junto con las respuestas de Satie. La correspondencia es fantástica porque todos hablan de cosas distintas y ésa, por supuesto, es la esencia del diálogo.

Ricardo Piglia.

sombre fidélité pour les choses tombées





Histoire(s) du cinéma. 1a. Toutes les histoires. 6'19:
Os planos da caça ao coelho d'A Regra do Jogo e os planos da fuga dos Amantes Crucificados.

Que acontece quando Godard aproxima os planos dos filmes de Renoir e Mizoguchi?

Podemos dizer que se trata de uma equação (e sabemos bem como Godard gosta de equações).
No entanto, creio, a igualdade seria redutora para ambas as partes e o que nós experimentamos ao observar a sequência é, pelo contrário, uma expansão de sensações, um passo em território desconhecido (ou há muito abandonado; o bosque) em que uma imagem age sobre a outra abrindo brechas profundas no significado de fuga e perseguição, reconstituindo a memória de algo que nunca existiu (fazer uma descrição precisa daquilo que não aconteceu é o trabalho do historiador), criando uma linha de pensamento inesperada (um pensamento que forma uma forma que pensa).
Talvez seja então um passe de feitiçaria antiga; esse fogo que Edgar tenta alcançar, em King Lear, batendo uma pedra na outra (ce que nous cherchons est semblable à ce feu, il détruit ce dont il se nourrit). O fogo que há-de destruir a Biblioteca de Alexandria.
"Estávamos sentados uma noite no Moskovitz, no East Side de Nova Iorque. Devia ter sido durante a Lei Seca, porque bebíamos vinho de nabo.
Um rapaz de cabelo negro, pálido, e com uma expressão ardente, levanta-se de outra mesa e deixa-se cair em frente da minha, e anuncia que está a acabar o curso dos liceus. Lança-me um olhar colérico através dos óculos.
- Estive a observá-lo toda a noite.
- Que horror!
- O que eu pretendo saber é por que é que o senhor não se comporta como um escritor?!
- Como é que um escritor se deve comportar?
- Sabe tão bem como eu, como se deve comportar um escritor.
Tentei livrar-me dele com brandura:- Suponde que sei - respondi-lhe eu tão calmamente quanto possível - como é que sabe que eu me quero comportar como um escritor?
Olhou-me furioso através das lentes. Procurava as palavras. Pôs-se em pé.- Deixe-me dizer-lhe uma coisa - gaguejou ele, ofegante - conhecê-lo é uma decepção."

John dos Passos, Os Melhores Tempos, uma biografia não oficial.

Quarta-feira, Janeiro 26

histoire(s) du cinéma #3


Uns pensam, diz-se, outros agem, mas a verdadeira condição do homem é pensar com as suas mãos. Denis de Rougemont
Nos meus sonhos, as maiores tragédias (explosões, afogamentos, quedas, sobressaltos) acontecem sob um olhar tranquilo e até mesmo benevolente — dentro do leito morno, experimento a indiferença dos deuses.

Terça-feira, Janeiro 25

histoire(s) du cinéma #2

... Car l’essentiel, il me semble, n’est pas de ne pas se tromper sur la valeur absolue de l’objet de son amour, mais d’aimer.  Élie Faure

História simples

Numa estação de caminho-de-ferro, ao princípio da noite, um homem espera o comboio que o conduzirá a casa. Está cansado e triste. O coração parece que, a qualquer momento, vai afundar dentro dele como uma pedra.
No momento de embarcar, o homem confunde as linhas e toma um comboio que não é o seu. A noite é das mais escuras e, embalado pelo movimento da carruagem, adormece profundamente. O comboio avança por dentro da escuridão. Em volta, toda a terra dorme. Não se avista vivalma.
Quando acorda, é de manhã e está numa cidade que não conhece, num país estranho. Passado o primeiro e gélido espanto, saindo da estação, o homem escolhe uma direcção ao acaso. Nunca em toda a vida se sentiu tão afortunado. Desaparece ao fundo de uma rua, cantando e dançando, tão feliz que não cabe na sua pele.
“Dos hombres jóvenes trabajan en una plantación de té en las colinas y deben ir a buscar el correo lejos de allí, de modo que lo reciben en intervalos más bien largos. Uno de ellos, llamémoslo A, suele recibir más cartas, diez o doce, a veces más, mientras que el otro, B, jamás recibe ninguna y suele mirar con envidia a A, hasta que un día, yendo a buscar el correo, le propone: ‘Te daré cinco libras si me dejas leer una carta’. ‘De acuerdo’, dice B y, cuando llega el momento, A escoge una de las cartas para B. De noche, mientras beben whisky con soda, A pregunta qué noticia traía esa carta. ‘Asunto mío’, responde B. Discuten, se pelean. A hace todo lo posible porque B le muestre la carta, pero B sigue negándose. A la larga, muy ansioso, A le propone B: ‘Acá están las cinco libras, dame de nuevo la carta’. ‘Ni loco’, contesta B. ‘Yo pagué por ella, es mía.’ Eso es todo”, dice la entrada que data de 1938. Y nada más. El resto es silencio de Maugham y culpa enteramente mía.

Somerset Maugham/Eduardo Berti.

Segunda-feira, Janeiro 24

Some came rambling


Nada que se compare, ainda, com os passeios musicais de João Vuvu a bordo do autocarro nº 100.
Para o M. J. Marmelo:

Sempre pensei que ele cantarolava uma espécie de rap contestatário; sentado num dos cantos da última fila de cadeiras do 300, risonho e festivo. Mas hoje o autocarro vinha mais silencioso e eu percebi que o rapaz dá ordens de movimento: "Fora!" quando alguém sai; "Entra, entra!" e "Senta, senta!" quando alguém entra e procura lugar. A voz dele é forte e musical, de vez em quando ri-se.

Domingo, Janeiro 23

China my China

Paradoxalmente, o chinês clássico é e não é muito difícil: é um pouco como trabalhar com coleópteros — mas enquanto estes estão vivos e voam no ar livre das terras. A grande dificuldade é dominar o conjunto, numa cultura tão imbricadamente enciclopédica como é a chinesa.

Gil de Carvalho, Uma Antologia de Poesia Chinesa, Assírio & Alvim

§

* Aquilo que, parecendo garatujas, foi comparado a rastos de insectos, a inconsistentes vestígios de patas de aves na areia, continua a conter, inalterada, sempre legível, compreensível, eficaz, a língua chinesa, a mais velha língua viva do mundo.


* Reduzidos, deformados como são, esses caracteres ilegíveis para centenas de milhões de chineses não eram, no entanto, letra morta para eles. Mantidos fora do cículo dos letrados, é verdade que os camponeses os olhavam sem compreendê-los, mas não sem sentir que se tratava de uma coisa familiar; aqueles signos ágeis eram parentes dos telhados curvados, dos dragões e das personagens de teatro, dos desenhos de nuvens também, e geralmente das paisagens de ramos floridos de bambu que tinham visto em imagens e apreciavam.

Henri Michaux, Ideogramas na China, tradução de Ernesto Sampaio, Livros Cotovia

Sábado, Janeiro 22


(Teoricamente, não é inconcebível um idioma no qual o nome de cada coisa diga todos os pormenores do seu destino, passado e futuro)
No dia 22 de janeiro de 1941, George Orwell escreveu no seu diário: The Daily Express has used “blitz” as a verb (c.f. 2.1.41: The word “blitz” now used everywhere to mean any kind of attack on anything. Cf. “strafe” in the last war. “Blitz” is not yet used as a verb, a development I am expecting.)

Sexta-feira, Janeiro 21

No nosso tempo

Na nossa época dizem que há liberdade de expressão.
Dizem que não há castigo para os poetas,
não há castigo por se escrever poemas.
Isto é o que dizem. Este é o castigo.

Muriel Rukeyser.

Um outro

O que fazia com que Garbo e Dietrich fossem estrelas é que elas olhavam ao longe alguma coisa que não era, afinal, inimaginável. A modernidade começa quando a foto de Monika, de Bergman, circula entre toda uma geração de cinéfilos sem que Harriet Andersson se torne, no entanto, uma estrela. Ou quando os olhares-câmera furtivos e insistentes do Pickpocket de Bresson influenciam todo o cinema da Nouvelle Vague, enquanto o próprio nome do "ator", do portador desse olhar, é esquecido.
O que mudou? Esses olhares nos colocam numa situação insustentável. Insustentável em todo o caso para o "grande", para o "bom" público do cinema: ser testemunha do gozo do outro. Um outro que não é mais uma estrela, mas qualquer um. Um outro que "não sabe nada", e que olha através de nós. Sem nos ver. Erotismo, certo, mas extremamente batailliano: excesso e sofrimento.

A Rampa, Serge Daney, Cosac & Naify p. 232

Quinta-feira, Janeiro 20

A RECÉM-CASADA

No terceiro dia vai à cozinha
E lava as mãos, prepara o mingau.
Não conhece bem os gostos da sogra
Pede à «irmã» maior que prove primeiro.


Wang Jian 768-833, Uma Antologia de Poesia Chinesa, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim

A grande viagem

Um homem teve um edema pulmonar: o fim já se sabe qual é. Veio um anjo para o conduzir ao Céu. Mas o homem recusou-se a acompanhá-lo porque não queria deixar o seu velho cão, Gaspar, sozinho na Terra. O anjo disse ao homem, com a voz cheia de música, que a grande viagem era inevitável. Mas o homem não quis saber. Agradeceu o cuidado e a pontualidade do anjo, apertou-lhe a mão e despediu-se. E não foi para o Céu.
Fechado no seu níveo paraíso, despeitado e triste, triste e tenso, Deus tomou uma decisão drástica: matou o cão. Veio um cão-anjo para conduzir Gaspar ao Céu. Mas este recusou-se a embarcar na longa viagem porque não queria deixar o seu velho dono sozinho na Terra. Latiu um qualquer cumprimento afectuoso, abanou a cauda e despediu-se do cão-anjo. Não foi para o Céu.
E isto repete-se, ano após ano, há quase dois séculos. Talvez mais de dois séculos.

Quarta-feira, Janeiro 19

Uma vez, num baile, uma rapariga permaneceu sentada dança após dança e ninguém se preocupou por ela estar sozinha. Eu não a conhecia, mas o rosto dela comoveu-me e fiz-lhe uma vénia. Então? Mas não, abanou a cabeça. "Não pretende dançar?", perguntei-lhe. "Consegue imaginar?", proferiu ela. "O meu pai era um homem bonito, a minha mãe de uma perfeita beleza e o meu pai conquistou-a como um relâmpago. Mas eu nasci coxa."

Knut Hamsun, Pan. Tradução de João Cruz e Mário Cruz.

da vida das plantas


A tensão dos músculos do atleta antes do som de partida, a tensão da corda do arco antes de largar a seta, a tensão da flor da magnólia prestes a abrir.

Terça-feira, Janeiro 18

E os Kinks mandam um telegrama a Immanuel Kant

Uma caveira usando chapéu do Mickey, ao lado de uma gravura que mostra a chegada dos Espanhóis na América, uma imagem religiosa (Virgem de Guadalupe?) ao lado da Mulher-Maravilha, um grupo de camponeses mexicanos ajoelhados diante do busto de George Washington, tal como aparece em notas de um dólar. Em outra página, um desenho do Mickey com cara de perplexo diante de uma série de perguntas, como “Are you experiencing once again an Identity crisis?”. Um padre aponta para o céu durante sua pregação, mas acima de sua cabeça o que vemos não é uma imagem religiosa, mas uma nave espacial, de revistas de ficção científica. Em outra página a figura de um monge copista é sobreposta por duas xilogravuras, uma reproduzindo Las Demoiseles d'Avignon, de Picasso, e a outra A Persistência da Memória, de Salvador Dali. Em outra página, em uma cena de brutalidade dos povos civilizados mutilando alguns indígenas, é sobreposta a figura do Homem-Aranha, mas com a cabeça de outro personagem não identificado. Mickey olha a cena sorrindo, o que transparece o sarcasmo. Em uma pagina dupla, o Pateta está no topo de um monumento de pedra, e ao lado o Mickey aparece novamente, sobre o chapéu de uma caveira de uma conhecida xilogravura de José Guadalupe Posada.

Aqui.

Aleksei Ivánovitch escreve a Angela Merkel

— Preferia ser nómada e viver numa tenda quirguize toda a vida — gritei — do que venerar o ídolo alemão.
— Qual ídolo? — gritou o general começando a zangar-se a sério.
— O ídolo do método alemão de acumulação da riqueza.(...)

Sobre a bebida

Embriaguês, esperança e sono, mediante os quais os homens armam a si mesmos contra os males. (Por que principalmente povos nórdicos gostam tanto de embriagar-se?)
(Aguardente é uma bebida clandestina. (Embriagar-se solitariamente parece mal -— aguardente.) Opium. Beber em excesso torna bruto e selvagem, suprime a sociabilidade. Observadores astutos não bebem.) (Vivificação da sociabilidade.)
Judeus não se embriagam devido a sua relação civil, mulheres não, devido a seu sexo e religiosos não, devido a sua classe. Em todos os casos eles necessitam cautela. Pessoas sociais* embriagam-se: meio para a jovialidade (não só. Não aguardente). Suprimir cuidados; uma pessoa sóbria é inoportuna (loquaz). Catão (virtusincaluit mero.) Os alemães concebiam seus conselhos durante a bebida. O que se expressa é uma diversidade de temperamentos, não de caráter. Trata-se de um novo fluidum no sangue. (Se a abstenção da bebida em sociedade é suspeita?)
Embriaguez dos selvagens (dos turcos macassários por opium. Bang.)
(Não convém a jovens embriagar-se.)
Entre os asiáticos a bebida debilita o entendimento e aumenta os impulsos, entre os europeus o último não <é o caso>.


Immanuel Kant, Reflexões de antropologia.

Segunda-feira, Janeiro 17

Começa amanhã. Destaque para as escolhas de Pedro Costa: THE CROWD, de King Vidor, 1 FEV às 18h30; NOVYY VAVILON, de Grigori Kozintsev & Leonid Trauberg, 1 FEV às 21h30; NUMÉRO ZÉRO, de Jean Eustache, 2 FEV às 21h30.
(Une seule chose était incontestable pour Goethe: le blanc n'est pas une couleur intermédiaire entre les autres couleurs.)

Domingo, Janeiro 16

ne chantera pas


«A pior de todas as censuras é a pressão de um público que é educado, hoje, por Hollywood. O cinema americano lançou-nos num desastre negro: acabamos sempre com um final feliz adocicado de um herói que, tal como na mitologia grega, destrói todas as forças más à sua volta. E isso é um sonho falso.»

Otar Iosseliani, entrevista com Francisco Valente, Ípsilon

Filmar os destroços, filmar o lago Léman


Pluggy: Ce que nous cherchons est semblable à ce feu, il détruit ce dont il se nourrit.

Um conto de fadas perverso (talvez prefira retorcido), um filme alvejado nas costas (ou rodado na contramão?), um estudo, uma aproximação, uma clareira, e mais mil e uma definições possíveis. Godard não adapta a peça de Shakespeare como a Cannon Films queria, como um produtor americano entende contabilisticamente a palavra adaptação. Godard trabalha no interior do seu próprio sistema operativo que não é apenas o Cinema, que não é apenas a História, que não é apenas palavras imagens e sons (as palavras são imagens por vir, as verdadeiras imagens ainda não foram criadas, ver com os ouvidos), e que é tudo isso ao mesmo tempo, ou fragmentos disso. Godard filma Lear de dentro (dentro da língua inglesa, dentro dos personagens, dos seus sentimentos e das suas perplexidades (o amor, o poder e a virtude) e em extensão — como Mnemosyne (em grego Mνημοσύνη, pronounciado /nɪˈmɒzɪni/ ou /nɪˈmɒsəni/), a divindade da enumeração vivificadora frente aos perigos da infinitude, frente aos perigos do esquecimento.

Sábado, Janeiro 15

notação musical




King Lear, de Jean-Luc Godard. Repete hoje, às 17h32, no fox next.

Sexta-feira, Janeiro 14

Para matar a curiosidade do Alexandre Andrade e esclarecer um leitor desiludido:

O ensaio sobre Winnie-the-Pooh, escrito por Manuel António Pina, foi publicado na revista aguasfurtadas n.º 10, a última.

Eis um excerto:

"(...) 'Winnie-the-Pooh' é um dos mais persistentes ruídos de fundo da minha relação com as coisas e com a literatura, para não falar da minha relação comigo mesmo. Pooh e o seu olhar desprendidamente curioso intrometem-se, eu é que sei!, constantemente na minha vida (ou lá o que isto é). Principalmente em certas respostas que a minha vida me vai dando, onde me parece escutar a silenciosa voz da feliz e amável sabedoria de um Urso Com Muito Pouco Miolo, que talvez seja afinal, suspeito eu, a voz elementar da própria existência, pois que, convocando agora Alberto Caeiro, pode bem acontecer que haja metafísica bastante em não haver metafísica nenhuma."
Muitos anos mais tarde, quando Damon Runyon se transformou num nome familiar onde quer que se vendessem jornais, seu filho, Damon Jr., escreveu-lhe uma carta desencorajado com as perspectivas de uma carreira jornalística. Runyon respondeu: "Dizes que não sabes se alguma vez serás mais do que um repórter sofrível. Bem, meu filho, penso que isso é melhor do que ser rei."

Tom Clark, O Mundo de Damon Runyon. Tradução de José Manuel Batista.

Quinta-feira, Janeiro 13

O cinema psicadélico de Godard


Ontem apanhei o Rei Lear de Godard num canal de filmes e séries formatadas. Deve ser o efeito do Óscar, os telespectadores desprevenidos não sabem os riscos que correm. Vi o filme de uma forma intermitente, de manhã não me saía da cabeça esta frase: a palavra traz o erro. O erro traz o conhecimento?
Circula pelas caixas de correio electrónico um gentilíssimo texto sobre esta livraria. Não conheço a pessoa que o escreveu e de modo nenhum quero parecer mal agradecido.
Cumpre-me, porém, dizer uma ou duas palavras: Não subscrevo o estardalhaço ou a comiseração em relação a quase nada, e sempre me provocou estranheza a solidariedade das correntes que, não raras vezes, dão em pouco ou nada. Sendo, por isso, complicado digerir tal movimento em relação a uma casa que idealizei e mantenho com esforço e que falirá, como abriu, sem ilusões de coisa nenhuma. Se sobreviver dez anos ou dez dias, terá valido a pena. Mas quem cá não veio, naturalmente, não o faça agora, dois anos depois da abertura, com esperanças de se tornar um bom samaritano. Não é disso que esta ou outras livrarias precisam. A única coisa que falta às livrarias – e daria jeito que fosse criada por parte de dois ministérios a inventar (um da Cultura e outro da Educação), através de um trabalho sério sobre a leitura – escreve-se com oito letras: leitores.


Livraria Poesia Incompleta.

Quarta-feira, Janeiro 12

(...) In winter we had cocoa after the show and in the summer orange crush or lemonade. Winter and summer the cakes were always the same.  They were made by Lucille, the cook we had in those days, and I have never tasted cakes as good as those cakes we used to have. The secret of their goodness lay, I believe, in the fact that they were always cakes that failed. They were chocolate raisin cupcakes that did not rise, so that there was no proper cupcake cap — the cakes were dank, flat and dense with raisins. The charm of those cakes was altogether accidental.

Carson McCullers, How I begin to write, September 1948

La recomendación de libros habitualmente tiene, como presupuesto, la simpatía y el elogio del libro que se recomienda (...).
Sin embargo, lo cierto es que, sobre todo en los tiempos de formación de un escritor, los libros malos, los que no debería haber leído para dedicar en cambio su atención a otros más valiosos, son muy importantes. La lectura de esos libros malos - admitan, por favor, por un rato, esa categoría, aunque la utilizo por comodidad o desgano, pero sé muy bien, y es obvio, que es imprecisa, incierta y su uso debería desterrarse - tiene, en palabras de Borges, “repercusiones incalculables” en un escritor.


Aníbal Jarkowski.

Terça-feira, Janeiro 11


E quase no fim do filme, Juliette e Shimell representam a estátua da fonte: ela está descalça e ele não parece um monstro.

o meu defeito de misturar tudo com tudo

É também nessa praça da fonte e da estátua, onde Juliette e Shimell representam, em inebriante tom bufo, um casal; ela no papel de acusadora magoada, ele à defesa desajeitada — é nessa praça que Jean-Claude Carrière dá um conselho a Himmel, de pai para filho. Basta caminhar ao lado dela e pôr-lhe a mão sobre o ombro, é mais ou menos o que ele diz. A frase transformou-se em imagem e a imagem em sensação déjà vu. Depois percebi que era apenas meio déjà vu, era apenas o movimento de caminharem juntos, um homem e uma mulher, um ao lado do outro, esses belíssimos travelings oblíquos dos filmes de Naruse; o toque, como em Kawabata, é contido.

Segunda-feira, Janeiro 10

Entrevista

(¿Lezama?)
¿Que cuál es la diferencia entre las mujeres y los libros? Buena pregunta. Aunque existen mujeres que poseen el sabor de la buena literatura, y en muchas oportunidades lo superan. Lamentablemente, nuestra civilización occidental, demasiado católica, demasiado cristianizada, nos obliga a casarnos con una sola mujer so pena de excomulgación o de condena por bigamia o más. Sin embargo, no pone restricciones ni límites a nuestro matrimonio con los libros. Hay quienes se casan con un solo libro y son felices. Están los eunucos detentadores, que cuidan o mercan libros, pero no los disfrutan. Otros, a pesar de su virilidad latente, prefieren permanecer célibes y no complicarse demasiado. Pero están los otros, aquellos que quieren gozar de la libertad a sus anchas y se convierten en musulmanes de por vida, beneficiarios de una boda múltiple, acumulando su biblioteca para sentirse a gusto en el harén. El serrallo y sus preferidas. Ellos son los que saben apreciar con sutilidad las diferencias.

Saturnino Rodríguez Riverón, Un altar para San José de Trocadero.

Domingo, Janeiro 9

Le jardin du dépouillement, qui ose nier sa beauté?



Breves anotações: a profusão de espelhos e janelas (as personagens surgem muitas vezes enquadradas através de vidros ou de reflexos, cópias de si mesmas); um tom burlesco, ligeiro e amável como Marie (a cópia intuitiva de Miller?); a trama das línguas (a tradução como cópia certificada?).

Quando eles estão sentados na fonte, quando Juliette Binoche (se não me engano, ela nunca é nomeada no filme) elogia o gesto da estátua (fora de campo), James Miller diz-lhe: tu es une fleur bleue (die blaue Blume).
Um dia, ao escrever uma carta, aconteceu que Otoko abriu o dicionário no carácter para «pensar». Ao ler os seus outros significados («anseio por», «ser incapaz de esquecer», estar triste»), sentiu o peito a apertar-se. Tinha receio de tocar no dicionário (...).

A beleza e a tristeza, Yasunary Kawabata, D. Quixote, novembro 2010, p. 146

Sábado, Janeiro 8

Dois casais americanos de meia-idade voltaram da carruagem restaurante e, assim que viram o monte Fuji para lá de Numazu, pararam ansiosos junto das janelas a tirar fotografias. Na altura em que o Fuji se tornou completamente visível, até aos campo no seu sopé, pareceram cansados de fotografar e viraram-lhe as costas.

A beleza e a tristeza, Yasunary Kawabata, D. Quixote, novembro 2010, p. 10

Sexta-feira, Janeiro 7

Bruxos lançam feitiços contra o Governo

Uma dúzia de bruxos da Roménia vai lançar esta quinta-feira feitiços contra o governo e o Presidente do país, num protesto contra o novo código fiscal que instituiu impostos sobre a sua actividade.

Os bruxos tencionam atirar mandrágora para as águas do Danúbio, de forma a "chamar o mal" sobre os governantes romenos, disse à agência noticiosa norte-americana Associated Press a feiticeira Alisia. (Na cultura romena, os feiticeiros costumam identificar-se apenas por um nome.)

"Esta lei é um disparate. Como é que nos querem cobrar impostos se não ganhamos quase nada?", disse Alisia à AP.

O novo código fiscal, que entrou em vigor no início deste ano, visa aumentar as receitas do Estado romeno e combater a fuga aos impostos. Pela primeira vez na Roménia, as atividades de bruxo, astrólogo ou vidente foram incluídas entre as profissões taxadas.

Bratara Buzea, outra bruxa contactada pela AP na localidade de Mogosoaia (perto de Bucareste), disse estar a preparar um feitiço com recurso a excrementos de gato e ao cadáver de um cão, que causará grandes desgraças aos políticos romenos: "As minhas maldições resultam sempre!"

Nem todos os feiticeiros romenos se opõem ao novo código fiscal. "Esta lei é óptima", disse Mihaela Minca, que vê na obrigação de pagar impostos uma forma de validação estatal. "Significa que os nossos poderes mágicos foram reconhecidos", afirmou.

Diário de Notícias.

Haïkuleaks

Quinta-feira, Janeiro 6


Terça-feira, Janeiro 4

Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.


Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia.


Sandro Penna. Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.

O cinema experimental de Jean Renoir






A primeira vez que vi La nuit du carrefour não percebi quase nada da história. Era uma versão sem legendas, o francês escapava-me por causa das pronúncias e também pela sobreposição dos sons (o som directo, utilizado de novo por Renoir, surgia com uma força e desordem extravagantes). Havia drogas, jóias roubadas, um judeu assassinado, um dinamarquês só com um olho, uma rapariga insinuante e pedrada, Maigret com o seu cachimbo e até uma tartaruga, mas as relações entre as personagens e os objectos não eram claras.

Nada disso importa; a verdadeira matéria de La nuit du carrefour é a própria escuridão, o nevoeiro, a chuva, a lama, a forma como os pés ficam presos na lama, os gestos das mãos.

A recepção estética, para ele [John Dewey], é uma ação de recriação do processo de produção. O artista cria apenas o "produto artístico". A "obra de arte" é o que ele provoca em quem o experimenta.

Ana Beatriz Duarte.

Segunda-feira, Janeiro 3

Uma linha recta labiríntica

No próximo dia 25 (às 21h30, sala Dr. Félix Ribeiro) a Cinemateca propõe uma sequência tripla formidável: L’HIPPOCAMPE, de Jean Painlevé; L’ÉTOILE DE MER, de Man Ray; e VAMPYR, de Carl Th. Dreyer. Eu arrisco uma intersecção, já noite dentro, com LA NUIT DU CARREFOUR.
Normally I just go a sentence at a time. I find the most difficult part of writing is to get it down initially because what you have written is usually so terrible that it’s disheartening, you don’t want to go on. That’s what I think is hard—the discouragement that comes from seeing what you have done. This is all you could manage?

James Salter.

Domingo, Janeiro 2

Fui dar com Hemlock Jones nos velhos aposentos da Brook Street, meditando em frente à lareira. Com a familiaridade de um velho amigo, atirei-me a seus pés imediatamente, na minha atitude costumeira, e acariciei suavemente a sua bota. Fui levado a fazer aquilo por duas razões; uma, porque me permitia olhar directamente para o seu rosto inclinado e tenso de concentração, outra porque assim lhe deixava entender a minha reverência pela sua perspicácia sobre-humana. Tão absorto estava, mesmo assim, a ruminar nalguma pista misteriosa, que pareceu não dar pela minha presença. Mas nisso eu estava enganado - como sempre estava nas minhas tentativas para compreender aquele poderoso intelecto.
"Está a chover", disse ele, sem levantar a cabeça.
"Foi lá fora"? perguntei de imediato.
"Não. Mas vejo que o teu guarda-chuva está húmido, e que o teu sobretudo, que atiraste ao acaso quando entraste, tem pingos de água."
Fiquei aterrado com a sua acuidade. Depois de uma pequena pausa, disse ele sem grande ênfase, como se desprezasse o assunto: "Para além disso, ouço a chuva a bater na janela. Ouve."
Escutei. Mal podia acreditar nos meus ouvidos, mas sentia-se o tranquilo gotejar de encontro ao vidro da janela. Era mais que evidente, não havia como enganar aquele homem!

Bret Hart, A Cigarreira Roubada. Tradução de Ricardo Namora.

La nuit du carrefour

Mon ambition était de rendre par l'image le mystère de cette histoire rigoureusement mystérieuse. J'entendais subordonner l'intrigue à l'atmosphère. Le livre de Simenon évoque magnifiquement la grisaille de ce carrefour situé à une cinquantaine de kilomètres de Paris. Je ne crois pas qu'il existe sur terre un coin plus déprimant. Ces quelques maisons perdues dans un océan de brouillard, de pluie et de boue, sont superbement décrites dans le roman. Elles auraient pu avoir été peintes par Vlaminck. Mon enthousiasme pour l'atmosphère que Simenon avait réussi à créer me faisait une fois de plus oublier mes affirmations sur le danger de tirer un film d'une oeuvre littéraire. Jean Renoir

Strangers talk only about the weather #109

Whenever people talk to me about the weather, I always feel quite certain that they mean something else. And that makes me so nervous. Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest. (Cortesia do Hugo Santos.)
1ª anotação: o nevoeiro como desígnio.

Sábado, Janeiro 1










Kitsune, de João Penalva.
[CANÇÃO DE BATER NO CHÃO]

Nasce o sol trabalhamos
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
— Queremos lá saber!

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É uma canção  anónima (c. - 1000?) e segundo Gil de Carvalho (nas suas preciosas Notas a Poemas e Poetas) pode ser muito antiga, como sustentam alguns, ou pode ser de feitura mais recente. Serviria aos camponeses mais velhos — batendo no chão — para marcar o tempo. É precisamente para isso que me serve: marcar o tempo passado,  marcar o tempo futuro — como uma estaca.

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Gosto tanto dos poemas chineses como dos textos de introdução e das pequenas notas de Gil de Carvalho ("Uma Antologia de Poesia Chinesa", Assírio & Alvim, 2ª edição, Setembro de 2010). Encontro nas duas formas uma concisão exemplar — por vezes parece-me que também as anotações foram traduzidas e que em cada tradução Gil de Carvalho perde o pé na sua própria língua; escreve num português de arestas definidas e no entanto envolto em nevoeiro. Já experimentei a mesma sensação no meio do oceano entre duas ilhas.