Segunda-feira, Dezembro 26

Um conto de Natal com um dia de atraso

Escondido atrás da poltrona da sala, o pequeno Henri esperava com o coração aos pulos. Era meia-noite menos três minutos. Daqui a pouco poderia surpreender o Pai Natal e arrancar-lhe, à força de súplicas, a carruagem-correio para o seu comboio eléctrico.
Soaram as doze badaladas e logo depois pedacinhos de fuligem começaram a cair nos sapatos que o pequeno Henri deixara debaixo da chaminé.
De seguida, apareceu o Pai Natal em pessoa, no seu belo fato vermelho manchado de fuligem.
- Puf! – fez ele numa voz de falsete e ciciando – zuzei-me todo!
Mal se apercebeu da presença de Henri, bateu as palmas.
- Oh! Que maravilha de rapazinho! Olá rapazinho!
- Olá, Pai Natal…
O pequeno Henri estava perplexo. Não era assim que imaginara o Pai Natal. Este era jovem e bastante amaneirado.
- Vem zentar-te noz meuz joelhoz. Quero dar-te rebuzadoz.
O Pai Natal tinha-se sentado na beira da chaminé. Henri apressou-se a obedecer. Os rebuçados eram deliciosos e as carícias que os acompanharam eram doces, muito doces…
- Onde eztão oz teuz paiz? – perguntou o Pai Natal num tom insidioso.
- A mamã está na montanha e o papá está a dormir no quarto dele – disse Henri muito sério.
- Muito bem! Zendo azzim vou dizer olá ao teu papá… vai deitar-te e zê bonzinho.
Com pezinhos de lã, o homem de vermelho deslizou até ao quarto do papá de Henri.
Sem fazer barulho, descalçou as botas.
O pai, ensonado, balbuciou:
- Quem está aí?
- É o Pai Natal – respondeu o Pai Natal.
E sodomizou-o.

Conto de Natal, de Roland Topor.

2 Comments:

Blogger Angela said...

que ótimo conto!
e o papai do Henri devia já estar esperando este presente, pois não?

3:04 AM  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Talvez, Ângela, talvez...

12:25 PM  

Enviar um comentário

<< Home