Sábado, Dezembro 24

todos os esforços que um homem tem de fazer para se manter de pé

De pé, atrás de uma das janelas, olhando para a rua pardacenta através do ténue filtro esverdeado do ar do jardim, de relógio em punho, ele contava havia dez minutos os automóveis, os fiacres, os carros eléctricos e os rostos dos transeuntes, que a distância tornava indistintos e que giravam, apressados, diante da rede do seu olhar. Media as velocidades, os ângulos, o dinamismo das massas em movimento, que atraem o olhar de forma fulminante, o retêm, o libertam, que forçam a atenção, durante uma fracção de tempo incomensurável, a resistir-lhes, a soltar-se para passar ao seguinte e segui-lo. Enfim, depois de ter feito umas contas de cabeça, voltou a meter o relógio na algibeira com um sorriso e constatou que estava a fazer coisas sem sentido. Se fosse possível medir os saltos que a atenção dá, o trabalho dos músculos dos olhos, as oscilaçõs da alma e todos os esforços que um homem tem de fazer para se manter de pé no fluxo de movimento de uma rua, talvez daí resultasse — era o que tinha pensado, ao entrar no jogo de calcular o impossível — uma grandeza perante a qual a força de que Atlas precisa para sustentar o mundo seria uma insignificância; a partir daí poderia avaliar-se o enorme esforço que faz hoje em dia uma pesssoa que não está a fazer nada.

Robert Musil, O homem sem qualidades, tradução de João Barrento, Dom Quixote