De quando em vez fazemos teatro, pequenos divertimentos que aos poucos degeneram em farsas até que a professora com um sinal nos diz para parar: A mãe: «Não posso permitir que se case com a minha filha. O senhor é demasiado pobre.» O herói: «A pobreza não é vergonha.» - A mãe: «Pois, pois, palavras leva-as o vento. Quais são as suas perspectivas?» - A namorada: «Mamã, peço-lhe, com toda a consideração que sinto por si, que seja mais gentil com o homem que eu amo.» - A mãe: «Calada! Um dia vais agradecer-me por ter respondido com esta severidade impiedosa. - Diga-me, meu senhor, onde foi que fez os seus estudos?» - o herói (um polaco representado por Schilinski): «Estimada senhora, estudei no Instituto Benjamenta. Perdoe-me o orgulho com que o digo.» - A filha: «Oh, mamã, veja só como ele responde. Que finas maneiras.» - A mãe (severa): «Não me venhas com maneiras. Nos nossos dias já não têm qualquer valor as maneiras aristocráticas. O senhor diga-me, por cortesia: O que foi que aprendeu nesse Instituto Bagnamenta?» - O herói: «Perdão: Benjamenta é como se chama a escola, não Bagnamenta. O que eu aprendi? Pois devo dizer que muito pouco. Mas hoje em dia saber muito já não é importante. A senhora concordará.» - A filha: «Está a ouvir, mamã querida?» - A mãe: «Cala-te, estouvada, não me digas para ouvir ou levar a sério estas tolices. O senhor, um jovem bem-parecido, fazia-me um favor se desaparecesse e nunca mais voltasse.» - O herói: «Atrevem-se a pedir-me tal coisa? - Pois seja. Adeus, vou-me embora.» Ele sai, etc. etc. as nossas pequenas peças aludem sempre à escola e aos alunos. O mesmo aluno vive diferentes destinos, bons e maus, que se entrecruzam coloridamente. Tem êxito no mundo ou é vitima das piores desgraças. As peças acabam sempre com a consagração do serviço humilde erigido em símbolo. A fortuna é serva: eis a moral da nossa literatura dramática.
Robert Walser, Jakob von Gunten. Tradução de Isabel Castro Silva.
Robert Walser, Jakob von Gunten. Tradução de Isabel Castro Silva.


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