Domingo, Outubro 30

Notas sobre «Voodoo Child», de Jimi Hendrix em Berkeley (1970)

(...)
Mas queria ater-me à electricidade. Sempre me pareceu que o efeito de presença do rock passa pela torrente eléctrica e pelo volume (volume sem torrente eléctrica é Wagner, por exemplo). Em [Jimi] Hendrix isso é também nítido e creio que se «sente», ao assistir a esta peça, que a massa eléctrica desaba sobre o ouvinte, que fica sem grande margem de manobra. É esta, provavelmente, uma das aporias da estética do rock: uma estética da imersão que, contudo, limita poderosamente o espectro de participação do espectador. Digamos que intensifica essa participação num registo expressivo: uma forma de catarse colectiva. O rock produz algo como um «body electric» colectivo, que seria a versão contemporânea do «body politic». É difícil não ver aqui o apelo fortíssimo da presença e, ao mesmo tempo, de esvaziamento do sujeito que a presença, nesta versão, parece induzir. (...) E aí ocorre uma dificuldade inamovível: como produzir um discurso sobre isto? No caso do rock, universo no qual o preconceito anti-intelectual é muito forte, creio que a rejeição de qualquer discurso minimamente interpretativo tem a ver com essa suspeita de que a interpretação dissolve o privilégio da presença. Os melhores escritores sobre rock que conheço (Greil Marcus acima de todos) não produzem tanto interpretação como «redescrição». Como se se esforçassem por produzir um discurso que nos fizesse recuperar a intensidade da experiência. Uma forma de suplemento, na acepção de Derrida. E sempre que um discurso sobre rock vai além disso, parece que se torna ilegítimo. Falo por experiência própria, pois já escrevi sobre rock e senti isso de imediato.

Osvaldo Manuel Silvestre.