O inconveniente de praticar uma língua de empréstimo é não ter o direito de cometer demasiados erros. Ora, é ao procurar a incorrecção sem contudo dela abusar, é ao roçar a cada momento o solecismo, que damos uma aparência de vida à escrita
O verdadeiro contacto entre os seres só se estabelece pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e sem palavras que se assemelha a uma prece interior.
O que eu sei aos sessenta, já o sabia aos vinte. Quarenta anos de um longo, de um supérfluo trabalho de verificação...
Se nos pudéssemos ver com os olhos dos outros, desapareceríamos num ápice.
A única confissão sincera é aquela que fazemos indirectamente — ao falar dos outros.
Se, à medida que envelhecemos, remexemos cada vez mais o nosso próprio passado em detrimento dos "problemas", é sem dúvida porque é mais fácil revolver as memórias do que as ideias.
Vivíamos no campo, eu ia à escola, e, detalhe importante, dormia no mesmo quarto que os meus pais. À noite, o meu pai costumava ler para a minha mãe. Embora fosse padre, ele lia não importa o quê, pensando sem dúvida que, dada a minha tenra idade, não era suposto eu entender. Em geral, eu não ouvia e adormecia, salvo se se tratasse de uma história que me agarrasse. Uma noite agucei o ouvido. Tratava-se, numa biografia de Rasputine, da cena em que o pai, às portas da morte, chama o seu filho e diz-lhe: "Vai para São Petersburgo, faz-te dono da cidade, não recues perante nada, não temas ninguém, pois Deus é um velho porco."
Uma tal enormidade na boca do meu pai, para quem o sacerdócio não era uma piada, impressionou-me tanto como um incêndio ou um terramoto. Mas também me lembro muito claramente — e já lá vão mais de 50 anos — que a minha emoção foi seguida por um prazer estranho, não ouso dizer perverso.
Queria uma oração com palavras-punhais. Infelizmente, assim que nos pomos a rezar, rezamos como toda a gente. É aí que reside uma das maiores dificuldades da fé.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né
§
O verdadeiro contacto entre os seres só se estabelece pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e sem palavras que se assemelha a uma prece interior.
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O que eu sei aos sessenta, já o sabia aos vinte. Quarenta anos de um longo, de um supérfluo trabalho de verificação...
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Se nos pudéssemos ver com os olhos dos outros, desapareceríamos num ápice.
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A única confissão sincera é aquela que fazemos indirectamente — ao falar dos outros.
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Se, à medida que envelhecemos, remexemos cada vez mais o nosso próprio passado em detrimento dos "problemas", é sem dúvida porque é mais fácil revolver as memórias do que as ideias.
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Vivíamos no campo, eu ia à escola, e, detalhe importante, dormia no mesmo quarto que os meus pais. À noite, o meu pai costumava ler para a minha mãe. Embora fosse padre, ele lia não importa o quê, pensando sem dúvida que, dada a minha tenra idade, não era suposto eu entender. Em geral, eu não ouvia e adormecia, salvo se se tratasse de uma história que me agarrasse. Uma noite agucei o ouvido. Tratava-se, numa biografia de Rasputine, da cena em que o pai, às portas da morte, chama o seu filho e diz-lhe: "Vai para São Petersburgo, faz-te dono da cidade, não recues perante nada, não temas ninguém, pois Deus é um velho porco."
Uma tal enormidade na boca do meu pai, para quem o sacerdócio não era uma piada, impressionou-me tanto como um incêndio ou um terramoto. Mas também me lembro muito claramente — e já lá vão mais de 50 anos — que a minha emoção foi seguida por um prazer estranho, não ouso dizer perverso.
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Queria uma oração com palavras-punhais. Infelizmente, assim que nos pomos a rezar, rezamos como toda a gente. É aí que reside uma das maiores dificuldades da fé.
Emil Cioran, De l’inconvénient d’être né


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