Se por essa altura não tivesse sido aventada a hipótese de se construir uma casa, Hanna Wendling talvez se não houvesse apaixonado pelo jovem advogado de província. Mas, em 1918, as raparigas da boa burguesia liam O Estúdio, A Decoração Interior, Decoração e Arte Alemãs; possuíam O Estilo Mobiliário em Inglaterra; e as suas representações eróticas do casamento fundiam-se da maneira mais íntima com os problemas arquitectónicas. A casa Wendling, ou A Casa das Rosas, como podia ler-se-lhe na empena, em letras no género barroco, correspondia, numa modesta proporção, a estes ideais. Tinha um telhado que descia até muito abaixo, cupidos de cerâmica de cada lado da entrada, símbolos do amor e da fecundidade. Tinha um hall inglês, com uma lareira de grandes tijolos cuja prateleira estava cheia de bibelots de cobre. Alegria e esforço haviam sido gastos a colocar os móveis numa posição tão exacta que, em toda a parte, se haviam cumprido as condições indispensáveis para que reinasse um equilíbrio arquitectónico perfeito. Após isso, Hanna Wendling teve a sensação de que só ela se apercebia da perfeição desse equilíbrio, embora Heinrich pudesse ter nela a sua parte, a grande porção da sua felicidade conjugal pudesse depender deste conhecimento da harmonia secreta e do contraponto do arranjo dos móveis e dos quadros.
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.
Hermann Broch, Huguenau ou o Realismo. Tradução de Jorge Camacho.


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