As peças de Tchékhov não revelam a sua profundidade poética à primeira vista. Lêem-se e diz-se: "É bom, mas não tem nada de extraordinário, nada de prodigioso. É tudo como deve ser... conhecido... verdadeiro... mas nada de novo..."
Não é raro ficar-se desiludido quando pela primeira vez se lêem as suas peças: lê-se e fica-se com a impressão de não ter nada a dizer. O assunto? A intriga? Contam-se em duas palavras. Os papéis? Muitos papéis bons mas nenhum de êxito garantido, nenhum papel com características por que tanto anseiam os actores (e há-os). A maior parte são pequenos papéis, "sem agrafes" (quer dizer: que cabem numa única página e que por isso não necessitam de "agrafes" para juntar as folhas...). O que é que fica na memória? Palavras isoladas, uma passagem aqui e ali... Mas é curioso: quanto mais se dá asas à memória, mais se tem vontade de pensar na peça. Certas passagens obrigam-nos - por encadeamento interno - a lembrarmo-nos doutras, ainda melhores, e finalmente a lembrarmo-nos da peça toda. Relê-se a peça uma vez, duas, e começa-se a descobrir o filão que ela encerra.
Constantin Stanislavski.
Não é raro ficar-se desiludido quando pela primeira vez se lêem as suas peças: lê-se e fica-se com a impressão de não ter nada a dizer. O assunto? A intriga? Contam-se em duas palavras. Os papéis? Muitos papéis bons mas nenhum de êxito garantido, nenhum papel com características por que tanto anseiam os actores (e há-os). A maior parte são pequenos papéis, "sem agrafes" (quer dizer: que cabem numa única página e que por isso não necessitam de "agrafes" para juntar as folhas...). O que é que fica na memória? Palavras isoladas, uma passagem aqui e ali... Mas é curioso: quanto mais se dá asas à memória, mais se tem vontade de pensar na peça. Certas passagens obrigam-nos - por encadeamento interno - a lembrarmo-nos doutras, ainda melhores, e finalmente a lembrarmo-nos da peça toda. Relê-se a peça uma vez, duas, e começa-se a descobrir o filão que ela encerra.
Constantin Stanislavski.


1 Comments:
Aqui se resume a mestria de Tchékhov, extensível aos contos, também eles magistrais. É curioso este fenómeno aqui descrito e que também me acontece. A escrita de Tchékhov, a meu ver, é uma espécie de prodígio disfarçado que com o tempo avoluma em nós a sua passagem discreta.
Enviar um comentário
<< Home