Todas as manhãs, pra ganhar o pão,

O mercado onde vamos comprar coisas é um edifício ou um sítio onde se espalham bancas de venda, ocupa espaço, tem cheiro, percebemos exactamente o que a palavra quer dizer. O mercado do poema de Brecht e de Fritz Lang é menos concreto mas paradoxalmente mais extenso; tentacular e devorador como os braços de um polvo. Mas agora quando ouvimos os mercados isto ou os mercados aquilo já não vemos nada, nem edifício nem polvo. Os mercados transformaram-se numa entidade abstracta e invísível (para sua protecção? só D. Quixote ataca o que não vê, mais ninguém), estão em todo o lado e em lado nenhum, falam-nos através de interlocutores*. A esse afastamento vertical do sentido da palavra — se assim podemos designar a sua perda de materialidade, a sua falsa espiritualização, como se Giordano Bruno voltasse a morrer por heresia —, corresponde também a apropriação de um discurso já nosso conhecido; ah, a velha igreja católica, Buñuel!
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*E o que é que dizem esses acólitos dos mercados? Os meios de comunicação, as agências de cotação financeira, a publicidade e as indústrias de entretenimento, os funcionários da governação, toda essa gente satisfeita? Pretendem afastar-nos dos pecados do incumprimento orçamental, guiar-nos no bom caminho do desenvolvimento, na ascensão à graça mercantil. Falam-nos em salvação e cobram juros como quem cobra avé-marias. Pedem-nos o corpo em troca de nada.


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