Creio que era um filme japonês, mas não me lembro qual.
O meu filme preferido, como deves saber — se eu estivesse capaz de pensar no assunto, teria respondido assim à enfermeira que mo perguntou — é Morangos Silvestres. Lembro-me do cinema bolorento — como é que se chamava? — onde íamos ver aqueles filmes suecos, japoneses, indianos e italianos, e lembro-me que antes disso eles só costumavam passar os filmes da série Carry On ou as comédias com Lewis e Martin. Uma vez que ensinavas filosofia a futuros pastores, o teu filme preferido deveria ser O Sétimo Selo, mas seria mesmo? Creio que era um filme japonês, mas não me lembro qual. Seja como for, depois das sessões fazíamos a pé os três quilómetros até casa e conversávamos animadamante sobre o amor humano, o egoísmo, Deus, a fé e o desespero. Quando chegávamos à minha pensão tínhamos que nos calar e subir em silêncio até ao meu quarto.
Aahh, dizias tu ao entrar, maravilhado e agradecido.
Alice Munro, Antes da Mudança, in "O Amor de uma Boa Mulher", tradução de José Miguel Silva
Aahh, dizias tu ao entrar, maravilhado e agradecido.
Alice Munro, Antes da Mudança, in "O Amor de uma Boa Mulher", tradução de José Miguel Silva
Relógio d'Água, fevereiro 2008


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