Sábado, Janeiro 1

[CANÇÃO DE BATER NO CHÃO]

Nasce o sol trabalhamos
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
— Queremos lá saber!

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É uma canção  anónima (c. - 1000?) e segundo Gil de Carvalho (nas suas preciosas Notas a Poemas e Poetas) pode ser muito antiga, como sustentam alguns, ou pode ser de feitura mais recente. Serviria aos camponeses mais velhos — batendo no chão — para marcar o tempo. É precisamente para isso que me serve: marcar o tempo passado,  marcar o tempo futuro — como uma estaca.

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Gosto tanto dos poemas chineses como dos textos de introdução e das pequenas notas de Gil de Carvalho ("Uma Antologia de Poesia Chinesa", Assírio & Alvim, 2ª edição, Setembro de 2010). Encontro nas duas formas uma concisão exemplar — por vezes parece-me que também as anotações foram traduzidas e que em cada tradução Gil de Carvalho perde o pé na sua própria língua; escreve num português de arestas definidas e no entanto envolto em nevoeiro. Já experimentei a mesma sensação no meio do oceano entre duas ilhas.