terça-feira, Janeiro 11


E quase no fim do filme, Juliette e Shimell representam a estátua da fonte: ela está descalça e ele não parece um monstro.

o meu defeito de misturar tudo com tudo

É também nessa praça da fonte e da estátua, onde Juliette e Shimell representam, em inebriante tom bufo, um casal; ela no papel de acusadora magoada, ele à defesa desajeitada — é nessa praça que Jean-Claude Carrière dá um conselho a Himmel, de pai para filho. Basta caminhar ao lado dela e pôr-lhe a mão sobre o ombro, é mais ou menos o que ele diz. A frase transformou-se em imagem e a imagem em sensação déjà vu. Depois percebi que era apenas meio déjà vu, era apenas o movimento de caminharem juntos, um homem e uma mulher, um ao lado do outro, esses belíssimos travelings oblíquos dos filmes de Naruse; o toque, como em Kawabata, é contido.

segunda-feira, Janeiro 10

Entrevista

(¿Lezama?)
¿Que cuál es la diferencia entre las mujeres y los libros? Buena pregunta. Aunque existen mujeres que poseen el sabor de la buena literatura, y en muchas oportunidades lo superan. Lamentablemente, nuestra civilización occidental, demasiado católica, demasiado cristianizada, nos obliga a casarnos con una sola mujer so pena de excomulgación o de condena por bigamia o más. Sin embargo, no pone restricciones ni límites a nuestro matrimonio con los libros. Hay quienes se casan con un solo libro y son felices. Están los eunucos detentadores, que cuidan o mercan libros, pero no los disfrutan. Otros, a pesar de su virilidad latente, prefieren permanecer célibes y no complicarse demasiado. Pero están los otros, aquellos que quieren gozar de la libertad a sus anchas y se convierten en musulmanes de por vida, beneficiarios de una boda múltiple, acumulando su biblioteca para sentirse a gusto en el harén. El serrallo y sus preferidas. Ellos son los que saben apreciar con sutilidad las diferencias.

Saturnino Rodríguez Riverón, Un altar para San José de Trocadero.

domingo, Janeiro 9

Le jardin du dépouillement, qui ose nier sa beauté?



Breves anotações: a profusão de espelhos e janelas (as personagens surgem muitas vezes enquadradas através de vidros ou de reflexos, cópias de si mesmas); um tom burlesco, ligeiro e amável como Marie (a cópia intuitiva de Miller?); a trama das línguas (a tradução como cópia certificada?).

Quando eles estão sentados na fonte, quando Juliette Binoche (se não me engano, ela nunca é nomeada no filme) elogia o gesto da estátua (fora de campo), James Miller diz-lhe: tu es une fleur bleue (die blaue Blume).
Um dia, ao escrever uma carta, aconteceu que Otoko abriu o dicionário no carácter para «pensar». Ao ler os seus outros significados («anseio por», «ser incapaz de esquecer», estar triste»), sentiu o peito a apertar-se. Tinha receio de tocar no dicionário (...).

A beleza e a tristeza, Yasunary Kawabata, D. Quixote, novembro 2010, p. 146

sábado, Janeiro 8

Dois casais americanos de meia-idade voltaram da carruagem restaurante e, assim que viram o monte Fuji para lá de Numazu, pararam ansiosos junto das janelas a tirar fotografias. Na altura em que o Fuji se tornou completamente visível, até aos campo no seu sopé, pareceram cansados de fotografar e viraram-lhe as costas.

A beleza e a tristeza, Yasunary Kawabata, D. Quixote, novembro 2010, p. 10

sexta-feira, Janeiro 7

Bruxos lançam feitiços contra o Governo

Uma dúzia de bruxos da Roménia vai lançar esta quinta-feira feitiços contra o governo e o Presidente do país, num protesto contra o novo código fiscal que instituiu impostos sobre a sua actividade.

Os bruxos tencionam atirar mandrágora para as águas do Danúbio, de forma a "chamar o mal" sobre os governantes romenos, disse à agência noticiosa norte-americana Associated Press a feiticeira Alisia. (Na cultura romena, os feiticeiros costumam identificar-se apenas por um nome.)

"Esta lei é um disparate. Como é que nos querem cobrar impostos se não ganhamos quase nada?", disse Alisia à AP.

O novo código fiscal, que entrou em vigor no início deste ano, visa aumentar as receitas do Estado romeno e combater a fuga aos impostos. Pela primeira vez na Roménia, as atividades de bruxo, astrólogo ou vidente foram incluídas entre as profissões taxadas.

Bratara Buzea, outra bruxa contactada pela AP na localidade de Mogosoaia (perto de Bucareste), disse estar a preparar um feitiço com recurso a excrementos de gato e ao cadáver de um cão, que causará grandes desgraças aos políticos romenos: "As minhas maldições resultam sempre!"

Nem todos os feiticeiros romenos se opõem ao novo código fiscal. "Esta lei é óptima", disse Mihaela Minca, que vê na obrigação de pagar impostos uma forma de validação estatal. "Significa que os nossos poderes mágicos foram reconhecidos", afirmou.

Diário de Notícias.

Haïkuleaks

quinta-feira, Janeiro 6


terça-feira, Janeiro 4

Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.


Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia.


Sandro Penna. Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.

O cinema experimental de Jean Renoir






A primeira vez que vi La nuit du carrefour não percebi quase nada da história. Era uma versão sem legendas, o francês escapava-me por causa das pronúncias e também pela sobreposição dos sons (o som directo, utilizado de novo por Renoir, surgia com uma força e desordem extravagantes). Havia drogas, jóias roubadas, um judeu assassinado, um dinamarquês só com um olho, uma rapariga insinuante e pedrada, Maigret com o seu cachimbo e até uma tartaruga, mas as relações entre as personagens e os objectos não eram claras.

Nada disso importa; a verdadeira matéria de La nuit du carrefour é a própria escuridão, o nevoeiro, a chuva, a lama, a forma como os pés ficam presos na lama, os gestos das mãos.

A recepção estética, para ele [John Dewey], é uma ação de recriação do processo de produção. O artista cria apenas o "produto artístico". A "obra de arte" é o que ele provoca em quem o experimenta.

Ana Beatriz Duarte.

segunda-feira, Janeiro 3

Uma linha recta labiríntica

No próximo dia 25 (às 21h30, sala Dr. Félix Ribeiro) a Cinemateca propõe uma sequência tripla formidável: L’HIPPOCAMPE, de Jean Painlevé; L’ÉTOILE DE MER, de Man Ray; e VAMPYR, de Carl Th. Dreyer. Eu arrisco uma intersecção, já noite dentro, com LA NUIT DU CARREFOUR.
Normally I just go a sentence at a time. I find the most difficult part of writing is to get it down initially because what you have written is usually so terrible that it’s disheartening, you don’t want to go on. That’s what I think is hard—the discouragement that comes from seeing what you have done. This is all you could manage?

James Salter.

domingo, Janeiro 2

Fui dar com Hemlock Jones nos velhos aposentos da Brook Street, meditando em frente à lareira. Com a familiaridade de um velho amigo, atirei-me a seus pés imediatamente, na minha atitude costumeira, e acariciei suavemente a sua bota. Fui levado a fazer aquilo por duas razões; uma, porque me permitia olhar directamente para o seu rosto inclinado e tenso de concentração, outra porque assim lhe deixava entender a minha reverência pela sua perspicácia sobre-humana. Tão absorto estava, mesmo assim, a ruminar nalguma pista misteriosa, que pareceu não dar pela minha presença. Mas nisso eu estava enganado - como sempre estava nas minhas tentativas para compreender aquele poderoso intelecto.
"Está a chover", disse ele, sem levantar a cabeça.
"Foi lá fora"? perguntei de imediato.
"Não. Mas vejo que o teu guarda-chuva está húmido, e que o teu sobretudo, que atiraste ao acaso quando entraste, tem pingos de água."
Fiquei aterrado com a sua acuidade. Depois de uma pequena pausa, disse ele sem grande ênfase, como se desprezasse o assunto: "Para além disso, ouço a chuva a bater na janela. Ouve."
Escutei. Mal podia acreditar nos meus ouvidos, mas sentia-se o tranquilo gotejar de encontro ao vidro da janela. Era mais que evidente, não havia como enganar aquele homem!

Bret Hart, A Cigarreira Roubada. Tradução de Ricardo Namora.

La nuit du carrefour

Mon ambition était de rendre par l'image le mystère de cette histoire rigoureusement mystérieuse. J'entendais subordonner l'intrigue à l'atmosphère. Le livre de Simenon évoque magnifiquement la grisaille de ce carrefour situé à une cinquantaine de kilomètres de Paris. Je ne crois pas qu'il existe sur terre un coin plus déprimant. Ces quelques maisons perdues dans un océan de brouillard, de pluie et de boue, sont superbement décrites dans le roman. Elles auraient pu avoir été peintes par Vlaminck. Mon enthousiasme pour l'atmosphère que Simenon avait réussi à créer me faisait une fois de plus oublier mes affirmations sur le danger de tirer un film d'une oeuvre littéraire. Jean Renoir

Strangers talk only about the weather #109

Whenever people talk to me about the weather, I always feel quite certain that they mean something else. And that makes me so nervous. Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest. (Cortesia do Hugo Santos.)
1ª anotação: o nevoeiro como desígnio.

sábado, Janeiro 1










Kitsune, de João Penalva.
[CANÇÃO DE BATER NO CHÃO]

Nasce o sol trabalhamos
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
— Queremos lá saber!

§


É uma canção  anónima (c. - 1000?) e segundo Gil de Carvalho (nas suas preciosas Notas a Poemas e Poetas) pode ser muito antiga, como sustentam alguns, ou pode ser de feitura mais recente. Serviria aos camponeses mais velhos — batendo no chão — para marcar o tempo. É precisamente para isso que me serve: marcar o tempo passado,  marcar o tempo futuro — como uma estaca.

§


Gosto tanto dos poemas chineses como dos textos de introdução e das pequenas notas de Gil de Carvalho ("Uma Antologia de Poesia Chinesa", Assírio & Alvim, 2ª edição, Setembro de 2010). Encontro nas duas formas uma concisão exemplar — por vezes parece-me que também as anotações foram traduzidas e que em cada tradução Gil de Carvalho perde o pé na sua própria língua; escreve num português de arestas definidas e no entanto envolto em nevoeiro. Já experimentei a mesma sensação no meio do oceano entre duas ilhas.

quarta-feira, Dezembro 22

aos queridos leitores,

contra todos os princípios, resolvi escolher o meu melhor post do ano. É este e nem fui eu que o fiz. Serve para aguentar até Janeiro. Se puderem, abusem das guloseimas e dos passeios na neve. Boa noite.

Il fantasma di Fabrice Borel

L'eternità è una rottura. Ma ciascun morto ha i suoi metodi particolari per combattere la noia. L'attore Fabrice Borel, per esempio, continuò a fare teatro dopo la morte. Era molto richiesto per il personaggio del padre di Amleto, poiché era uno dei suoi più superbi interpreti.
Quasi ogni stagione il fantasma di Borel ritornava in mezzo ai vivi per stupire i grandi palcoscenici mondiali:
- Amleto, io sono lo spirito di tuo padre.
E pronunciava la battuta nella sua voce terribile di morto, e in modo così convincente che il pubblico ghiacciava sulle poltrone, strappando applausi entusiastici e critiche eccellenti sui giornali.
Tutto andò molto bene per anni e anni e anni e anni. Fino al giorno in cui, durante una rappresentazione presso il Theater an der Winkelwiese (*), gli cadde addosso parte dello scenario, provocando la sua morte immediata. La sua seconda morte, ben inteso. Dopo l'incidente, che sconvolse il mondo dell'arte e il pubblico dell'epoca, decise di abbandonare definitivamente il teatro. Attualmente, si dedica al commercio di cavalli.

(*) Winkelwiese, 4, 8001 Zurigo.

O Fantasma de Fabrice Borel, conto incluído em Doutor Avalanche. Traduzido para o italiano por Stefano Valente.

Animais escritos

terça-feira, Dezembro 21

De manhã faltam os risos e os disparates dos miúdos nos autocarros.
Q: If you were doing a whole literary fuckfest, what other authors would be on your list?

RB: I would fuck Kurt Vonnegut, Philip Roth and J.K. Rowling. Those are the top of my orgy list. My current favorite reads are comic books by Bryan K. Vaughan. Just finished "Y: The Last Man" and updated myself on "Ex Machina."

Rachel Bloom, a propósito do seu videoclip "Fuck Me, Ray Bradbury".
[Via Provas de Contacto.]

Fonemoramas

Si canto soy un cantueso
Si leo soy un león
Si emano soy una mano
Si amo soy un amasijo
Si lucho soy un serrucho
Si como soy como soy
Si río soy un río de risa
Si duermo enfermo de dormir
Si fumo me fumo hasta el humo
Si hablo me escucha el diablo
Si miento invento una verdad
Si me hundo me Carlos Edmundo

Carlos Edmundo de Ory.

domingo, Dezembro 19


Influenciado pelo cinema mudo; enquadra muitas vezes como Bresson; faz planos de corte e pausa em homenagem a Ozu; gosta de vermelho, tango e rock 'n roll; tem um sentido de humor discreto e enviesado; utiliza as palavras como os gangsters utilizam as armas nos filmes negros; as suas personagens são lentas e deslocadas, não têm onde cair mortas. Concluído o pequeno ciclo da trilogia proletária (ou de fracassados que vivem abaixo de cão, se optarmos por uma tradução menos marxista), gostava de desenvolver esta breve descrição do cinema de Aki Kaurismäki mas o quarto onde está o computador é o mais frio da casa — não tão frio como a Finlândia.

sábado, Dezembro 18

Finalmente, "Petersburgo", de Andrei Béli, em português de Portugal (até agora tínhamos apenas a tradução brasileira, da editora Ars Poetica). Esta nova tradução chega-nos pelas mãos de Nina Guerra e Filipe Guerra. Um Natal mais feliz.

A Rua da Vergonha (Akasen Chitai), de Kenji Mizoguchi, passa hoje às 19h00 na Sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca. (Li três vezes o texto publicado no cinecartaz e não consegui perceber se é hilariante ou se eu ainda estou a dormir.)

sexta-feira, Dezembro 17

Reflexões sobre a Arte

Mas sendo nós humildes e despretensiosos, no domínio da arte, as nossas investigações entre os monges e mártires pintados não foram inteiramente vãs. Esforçámo-nos muito por aprender. Conseguimos alguma coisa e dominámos certos aspectos, que talvez não tenham muita importância aos olhos dos especialistas, mas que a nós nos dão prazer, sendo que as nossas pequenas aquisições nos fazem tão orgulhosos como outros que aprenderam muito mais, e também nós adoramos exibi-las. Quando vemos um monge a passear com um leão e a olhar tranquilamente para o céu, sabemos logo que se trata de São Marcos. Quando vemos um monge com um livro e uma pena, a olhar tranquilamente para o céu a ver se encontra a palavra certa, reconhecemos logo São Mateus. Quando vemos um monge sentado numa rocha, a olhar tranquilamente para o céu, com uma caveira humana ao lado e sem outros adereços, sabemos imediatamente que é São Jerónimo. Porque sabemos que ele gostava de viajar sem bagagem. Quando vemos um tipo a olhar tranquilamente para o céu, sem se aperceber que tem o corpo todo trespassado por setas, percebemos nesse instante que é São Sebastião. Quando vemos outros monges a olhar tranquilamente para o céu, mas sem outra marca distintiva, perguntamos sempre de quem se trata. E isto porque queremos humildemente aprender. Já vimos treze mil São Jerónimos, e vinte e dois mil São Marcos, e dezasseis mil São Mateus, e sessenta mil São Sebastiões, mais quatro milhões de monges sortidos, sem nome, e estamos em crer que quando tivermos visto mais algumas destas pinturas, e adquirirmos mais experiência, sempre havemos de começar a interessar-nos profundamente por elas como os nossos conterrâneos cultos da Amérique.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

quinta-feira, Dezembro 16

Tchekov chegou ao teatro português mais de meio século depois da morte dele, com duas pequenas excepções, três: a primeira (suponho que tenha sido a primeira vez que se falou do teatro de Tchekov) terá sido em 1927, num estudo de Eduardo Scarlatti publicado num volume a que ele chamou Ideias de Outros: há um capítulo sobre o teatro de Tchekov (...). Scarlatti faz uma aproximação entre o teatro de Tchekov e a sensibilidade portuguesa. A certa altura ele diz o seguinte (...): Em leves tonalidades as psicologias das personagens de Anton Tchekov sugerem a catástrofe pairando entre o ódio popular e a cegueira da nobreza na Rússia. O conto Ariana principia como se um escritor português o tivesse começado. E depois o Eduardo Scarlatti transcreve uma parte do conto acrescentando uma pequenina coisa em itálico e que eu vou dizer qual é: Quando os alemães ou os ingleses se encontram, falam no preço da lã e dos seus negócios pessoais. Quando nós russos nos encontramos, não falamos senão de mulheres e de assuntos abstractos, mas falamos principalmente de mulheres. E o Eduardo Scarlatti transcreve dizendo assim: Quando os alemães ou os ingleses se encontram, falam no preço da lã e dos seus negócios pessoais. Quando nós russos, portugueses, nos encontramos, não falamos senão de mulheres e de assuntos abstractos, mas falamos principalmente de mulheres. Isto não significa muita coisa a não ser que há uma grande similitude entre as personagens do teatro russo e certas personagens do teatro português. Ou entre a maneira de reagir dos russos e do teatro português. Eu penso que, nos portugueses, a vontade de fazer as coisas é muitas vezes subjugada por uma certa incapacidade de as fazer, uma certa resignação, uma certa submissão ao destino. E isso aproxima o teatro de Tchekov do teatro e da maneira de ser portuguesa.

Luís Francisco Rebelo, Tchekov em Cena.

quarta-feira, Dezembro 15

Para além das posições desenhadas por Utagawa Kuniyoshi, o meu gato habituou-se, agora que está muito velho, a sentar-se no meu colo, inclinar a cabeça para baixo e encostá-la ao meu braço direito — fecha os olhos e deixa-se ficar assim muito tempo. Muro das lamentações, foi como classifiquei a posição. A legenda da imagem, obviamente, não corresponde ao gesto simples do gato; os gatos vivem num mundo sem legendas.
Nunca me importei de ter 20 visitas ou mesmo 3, desde que uma delas fosse Deus. De resto, para me guiar, ponho a bitola das visitas na seguinte base: a melhor e mais produtiva prostituta raramente ultrapassa as 25 visitas diárias. Actualmente, vou em 80!

Filipe Guerra.

terça-feira, Dezembro 14

Todos os gatos o gato

Em Milão

Queríamos ir à Biblioteca Ambrosiana, e também fomos. Vimos um manuscrito de Virgílio, anotado com a letra de Petrarca, aquele senhor que se apaixonou pela Laura de outro homem e passou a vida a cantá-la com um amor que foi um desperdício completo de matéria-prima. As intenções eram boas, mas sem juízo nenhum. Trouxeram fama aos dois e fizeram brotar dos peitos sentimentais uma fonte inesgotável de compaixão por ambos. Mas quem disse uma única palavra a favor do pobre Sr. Laura (nem sei o outro nome dele). Quem o glorifica? Quem chora por ele? Quem o louva? Ninguém. Pensam que lhe terá agradado a ele o processo que tanto tem agradado ao resto do mundo? Pensam que lhe caiu no goto ter outro homem na peugada da mulher por toda a parte, e a fazer do nome dela um substantivo comum em todas as bocas fedorentas de alho de Itália com os seus sonetos às distintas sobrancelhas dela, sobre as quais não tinha quaisquer direitos de propriedade? Eles gozaram de fama e simpatia; ele ficou sem nada. É um exemplo especialmente pungente daquilo a que se chama justiça poética. Que seja: só que não condiz com as minhas noções do que está certo. É uma coisa viciada e pouco generosa.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

"Doutor Avalanche" no Brasil

Para mais informações, clique aqui.

segunda-feira, Dezembro 13

Em Génova

E ainda por cima, tal como em Paris, tínhamos um guia. Sejam todos os guias amaldiçoados. Este apresentou-se como o linguista mais virtuoso de Génova, no que ao inglês dizia respeito, sendo que além dele próprio só mais duas pessoas na cidade sabiam falar uma palavra de inglês. Mostrou-nos o sítio onde nasceu Cristovão Colombo, e depois de nos quedarmos diante dele a reflectir por um quarto de hora, disse que não era Colombo que ali tinha nascido mas antes a sua avó! Quando exigimos uma explicação para o seu comportamento, limitou-se a encolher os ombros e a responder num italiano bárbaro.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

domingo, Dezembro 12

Tradução de Eduardo Coelho Júnior. Com 79 desenhos de Georges Roux. 476 páginas. Lisboa: Companhia Nacional Editora [Sucessora de David Corazzi e Justino Guedes], 1889. /// Encadernação com lombada em pele, quatro nervos e gravação a ouro. Assinatura de posse no ante-rosto. Algumas manchas de humidade, das quais apenas uma significativa, nas últimas 15 páginas. Exemplar razoável.

Ficção-científica da segunda metade do século XIX, da autoria de um ocasional colaborador de Júlio Verne, com curiosas ilustrações da época. André Laurie, pseudónimo de Paschal Grousset, político, jornalista e tradutor, criou n’Os Exilados da Terra uma delirante história de aventuras lunares, na esteira de Cyrano de Bergerac, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe e Júlio Verne.

Preço: 35 euros (vendido).

histoire(s) du cinéma #1

Sentei-me no sofá e tentei explicar a mim mesma o que são as HISTÓRIA(S) DO CINEMA; mas começava uma frase e ainda antes de a acabar já era outra frase. Numa escrita antiga eu poderia desenhar uma pirâmide enorme na parede branca e riscar até a parede ficar negra e assim representar o modo como Godard ergueu um monumento extensível (MATÉRIA E MEMÓRIA) feito de fragmentos (ou deveria dizer destroços, como o anjo de Benjamin?). Imagens, palavras, sons, a voz — uma saturação de signos magníficos que se banham na luz de sua ausência de explicação (Manoel de Oliveira).
Eu ensino ao gato duas ou três coisas práticas, ele ensina-me princípios de vida. Sem uma única palavra.