Terça-feira, Novembro 30


Na união da película vê-se uma ténue linha preta: as folhas são demasiado pequenas para as imagens de Jeff Wall. Uma falha material transforma-se num risco consentido pelo fotógrafo.

memória descritiva

Os homens varreram as folhas formando pequenos montes. Depois meteram-nas dentro de sacos de plástico (verde claro, semi-transparente) e distribuíram os sacos ao longo da rua, pela berma do passeio, cada um mais ou menos de 25 em 25 passos, às vezes dois sacos pelo dobro da distância.
Através do plástico molhado, vêem-se as folhas (amarelas, castanhas, douradas) amarfanhadas.

Reforma nos nomes das disciplinas de Letras

Passo a explicar que

O Oráculo é uma velha besta inofensiva que come por quatro e parece mais sábio do que toda a Academia Francesa, e nunca emprega um monossílabo quando lhe vem à ideia uma palavra mais comprida, e nunca, nem remotamente, conhece o significado de qualquer uma dessas palavras compridas ou consegue empregá-la com propriedade; porém, é capaz de dar tranquilamente a sua opinião sobre os assuntos mais recambolescos e secundá-la complacentemente com citações de autores que nunca existiram, até que, posto em xeque, desliza para o outro lado da questão, dizendo que sempre foi essa a sua posição, contra-argumentando com as razões que nós próprios lhe fornecemos, só que com os seus palavrões de permeio, a querer-nos convencer nas nossas barbas que tinha sido ele o primeiro a pensar assim.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

Segunda-feira, Novembro 29

Habitation, by Margaret Atwood

Marriage is not
a house or even a tent

it is before that, and colder:

The edge of the forest, the edge
of the desert
the unpainted stairs
at the back where we squat
outside, eating popcorn

where painfully and with wonder
at having survived even
this far

we are learning to make fire

Domingo, Novembro 28

Joseph Cornell

Sábado, Novembro 27

Folheei o livro (Da vaidade, Montaigne, tradução de Dóris Graça Dias, ÁTICA) ao acaso, na página 65 Montaigne diz: A mais útil e honrosa ciência e ocupação de uma mulher, é a arte do governo da casa. Nem mais, pensei eu, mas desviando o conceito de casa para onde bem entendi.
Aconcheguei o livro no saco das compras (pão, leite, hortaliças, um filme de detectives).
Também o gesto fala da vaidade.

the proper goal of each activity is its obviation

David Sylvester: In a sense, what you’re doing is to revert to an earlier period because Webern in a way belongs to the reaction against the nineteenth century. You’re really reverting to the Wagner/Bruckner/Mahler tradition of making a vast structure, creating a whole world surrounding the listener. It’s a reversion to a second half of the nineteenth century attitude toward the spectator.

John Cage:  I’m entertained by what you say, but I would hope it was not true. Now, why would I hope it’s not true? It’s because I connect those works of Mahler, Bruckner, and Wagner and so forth with the industrial business. They’re big machines. I’m not making a machine. I’m making something far more like weather. I’m making a nothingness.It strikes me as being aerial, whereas all those works you just referred to strike me as being heavy, having to be on the earth. Sometimes people ask me, what is the goal of technology. I say we really need a technology that will be so excellent that when we have it we won’t even know it’s there. And I see this occurring in all fields now. The proper goal — I don’t like the word goal but let’s use it — the proper goal of each activity is its obviation. Wouldn’t this be a lovely goal now, for politics, for economics?



Cage with David Sylvester and Roger Smalley, BBC Radio 3, London, December 1966

Sexta-feira, Novembro 26

an extremely useful principle in all the circumstances of our lives


David Sylvester: (...) In your essay on Jasper Johns you say there are two ways of learning to play chess*. One is when you make a mistake to take back the move; the other is, having made a mistake, to accept the consequences.

John Cage: Right.

David Sylvester: And that Johns is an artist . . .

John Cage: Who accepts the consequences.

David Sylvester: This seems to me a marvelous characterization of Johns as an artist, and it’s obviously something you feel morally is a very important point in Johns’s favor.

John Cage: Oh yes. Absolutely.

David Sylvester: And this presumably is an important principle in your own practice.

John Cage: It’s also an extremely useful principle in all the circumstances of our lives.

David Sylvester: The principle of generosity: is that what it is?

John Cage: Yes, and it leads toward enjoyment, experience, and all those things and away from the things we know about through Freud, which brought about [the] inability eventually to act at all—guilt, shame, conscience.

David Sylvester:It’s an act of faith in your material, then?

John Cage: Okay. It’s also an act of faith in yourself.



Cage with David Sylvester and Roger Smalley, BBC Radio 3, London, December 1966

_________________
* John Cage, “Jasper Johns: Stories and Ideas,” Jewish Museum catalog, 1964, reprinted in A Year from Monday: New Lectures and Writings (Middletown, CT: Wesleyan University Press, 1967), 74. “There are various ways to improve one’s chess game. One is to take back a move when it becomes clear that it was a bad one. Another is to accept the consequences, devastating as they are. Johns chooses the latter even when the former is offered.”
Chekhov is a mystery. There are some playwrights who are so busily present in their work that it's like you have the author beside you murmuring comments on the action. Chekhov is different; what does he think of his characters? Does he admire them or pity them? Ask us to examine or ridicule? It's never obvious. Chekhov's characters tend to let their mouths run away with them (Gayev in The Cherry Orchard fills a silence with an idiotic hymn of praise to a bookcase that, even as he's saying it, he must regret). It's almost as if Chekhov lets silences form in his play, which his characters nervously fill and thus reveal themselves.

Dan Rebellato.

Quinta-feira, Novembro 25

Tudo o que é mau e fraco em mim prendeu a minha vontade. Porque de facto não consigo acreditar que amanhã vou escrever qualquer coisa capaz.

Franz Kafka, Diários. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.

年々や 猿に着せたる 猿の面


Uma noite, no fim do Ossos, eu estava exausto, sentado lá para um canto, e a Vanda veio dizer-me: "0 cinema não pode ser só isto. Pode ser menos cansativo, mais natural. Se me filmares, simplesmente. Continuamos?" Isto foi um sonho. Foi a pequena "ficção" que eu arranjei para fazer este "filme-documentário". Fui então para o quarto dela, para estar com ela e esperar com ela pelos "bulldozers" que viriam arrasar as Fontaínhas. Toda a gente tem um lugar no mundo. Este é o lugar da Vanda. E esta é a irmã da Vanda; a Zita. E a mãe. E aquele que vai ali é o Pango, um rapaz sem casa. E assim por diante. Quer dizer, nesta sociedade horrível, é bom ter um lugar, um centro, senão somos roubados no nosso próprio interior. E eu podia começar a filmar porque encontrei um lugar, esse centro que me permitia olhar à volta, quase a 360 graus, e ver os outros, os habitantes, os amigos. E comecei a ver como o bairro entrava e saía no quarto da Vanda. E podia sair eu próprio para ir com o Pango, o Russo, o Paulo... Comecei a ver que era possível fIlmar algumas coisas: a mentira que lançaram sobre aquele lugar, a repressão, a exploração, a pura tentativa de genocídio, o castigo imposto pela droga - que não é uma doença como alguns querem fazer crer... E ver como as pessoas resistem à violência e se armam emocionalmente. É preciso ser muito forte e muito frágil ao mesmo tempo, para aguentar tanto: ser fraterno e ser frio como gelo. É indispensável ver isto para começar a ver qualquer coisa. Pedro Costa

NO QUARTO DA VANDA. Às 18h30, no Teatro do Campo Alegre.

Quarta-feira, Novembro 24

De vidro colorido

Comove-me bastante um pormenor
da coroação, em Blahernai, de João Cantacuzeno,
e de Irene, a filha de Andrónico Asan.
Porque preciosas pedras tinham poucas
(grande era a miséria do nosso país),
usaram pedras falsas. Uma quantidade
de vidrinhos vermelhos, azuis, verdes. Nada
existe de mesquinho ou de ridículo,
em minha opinião, nesses pedaços
de vidro colorido. São até
dir-se-ia que o protesto amargo contra
a iníqua sorte dos que iam ser coroados:
o manifesto símbolo do que deviam,
por majestade, usar na coroação —
um príncipe qual João Cantacuzeno,
uma princesa como Irene, a filha de Andrónico Asan.

Constantino Cavafy, "90 e mais quatro poemas", tradução de Jorge de Sena, Edições Asa

História de uma galinha de Dundee

Em pleno Inverno, uma galinha depenada quase morre de frio. Mas nem todas as galinhas depenadas se deixam vencer pelas circunstâncias. Numa noite gelada e inquieta, atravessada de relâmpagos, Rebekka Thomsen, uma galinha depenada de Dundee, decidiu embarcar para os trópicos. Partiu logo na manhã seguinte. Aí chegada, conheceu um papagaio por quem depressa se apaixonou*. Um caso realmente extraordinário.
O papagaio era barrigudo, chalaceiro e um pouco pândego, e tinha ainda outros vícios que é melhor calar. Mas o amor não conhece impossíveis e os brilhantes olhos castanhos de Rebekka tocaram no peito dele uma corda sensível. Ambos sentiam-se flutuar num firmamento de nuvens resplandecentes, num céu iluminado de êxtase, cheio de encanto e maravilha. Dez vezes menos do que isto bastaria para comover-me**.
A conclusão desta história varia conforme os amigos a quem a conto. A ti direi que Rebekka Thomsen nunca mais regressou à fria Dundee e é hoje mãe de três belos e saudáveis ouriços-cacheiros, que são a cara do pai.

* Vou chamar a este papagaio Dejan Plecnik. O seu apelido verdadeiro – um apelido francês, porque era de descendência francesa – tornou-se mais tarde bastante célebre.
** Lágrimas ocorrem-me aos olhos quando recordo esta história de amor verdadeiramente rara de excelência e beleza.

Terça-feira, Novembro 23

vai uma voltinha de carrossel?

(...) O che, piuttosto, come suggerisce Humphrey Bogart alla fine del Falcone maltese, che veramente spirituale e poetica è la consapevolezza che le cose e i fatti cui siamo irrevocabilmente consegnati sono, come la statuetta del falco, soltanto “la materia di cui sono fatti i nostri sogni”? Che, nel nostro errare fra i fatti e le cose, non dobbiamo smarrire il ricordo di quel punto di intensità (spirituale, cioè evanescente e sottile) che decide ogni volta del nostro desiderio e della nostra forma di vita?
Giorgio Agamben
Diários de Kafka. Dia 23 de Novembro de 1911. Verbos usados pelo autor, a partir do terceiro parágrafo: trabalhar, surgir, esperar, pertencer, persuadir, acreditar, chicotear, arrancar, flagelar, bater nos ombros, desmaiar, decapitar, coxear, dançar com botas russas, bailar com saias levantadas, rolar no canapé, ser, contrapor, relembrar, reconhecer, causar, emergir, manter à parte, querer, julgar, encontrar, escrever, estar, jogar cartas, sentar, rir, levantar, estender os braços, falar, pensar, brotar, estragar, consolar, anotar, conter, deixar o lugar, lançar na luta, agarrar, viver, passar, levar, resplandecer.

Segunda-feira, Novembro 22

"Doutor Avalanche". Lançamento alfacinha. O filme.



4 de Dezembro, 16h00. Fnac do Chiado. Apresentação de Pedro Mexia.
Mais informações aqui ou aqui.

Domingo, Novembro 21

O arenque fumado

Era um grande muro branco – nu, nu, nu,
Posta no muro uma escada – alta, alta, alta,
No chão, um arenque fumado – seco, seco, seco.

Ele chega, trazendo nas mãos – porcas, porcas, porcas,
Um martelo pesado, um prego – bicudo, bicudo, bicudo,
Um novelo de fio – grosso, grosso, grosso.

Subindo então à escada – alta, alta, alta,
Espeta o prego bicudo – toque, toque, toque,
Ao alto do muro branco – nu, nu, nu.

Deixa fugir o martelo – que cai, que cai, que cai,
ao prego amarra a corda – longa, longa, longa,
E à ponta o arenque funado – seco, seco, seco.

Volta descer a escada – alta, alta, alta,
Leva-a, e ao martelo – pesado, pesado, pesado.
E lá se afasta para – longe, longe, longe.

Então o arenque fumado – seco, seco, seco,
Na ponta da corda – longa, longa, longa,
Balança devagarinho – sempre, sempre, sempre.

E eu inventei esta história – banal, banal, banal,
Para enfurecer as pessoas – graves, graves, graves,
E divertir as criancinhas – pequenas, pequenas, pequenas.

Charles Cros. Tradução de Aníbal Fernandes.
Cada imagem reflete-se numa outra, idêntica mas autónoma, e essa numa terceira, pondo em marcha um mecanismo de espelhos e desdobramentos impressionante, uma espécie de ondulação — o ritmo de Mr. Klein é caleidoscópico, fragmentado, estilhaçado. Este é o meu ponto de partida para o filme.

A imagem que acompanha o genérico é um abutre trespassado por uma seta. Mais tarde a imagem transforma-se numa tapeçaria; o licitador descreve todos os elementos reais e simbólicos que compõem a peça (a sua carga cabalística). No castelo, Florence compara Robert a um abutre (e não é como abutre que ele se lança sobre o quadro de Adriaen Van Ostade? não é de rapina a sua actividade?) Quando visita o pai, Robert convoca de novo o abutre ferido no coração para definir remorsos. É como se a cada nova ocorrência o abutre ganhasse mais possibilidades. O mesmo acontece com Robert Klein.

Francês, católico ("somos franceses e católicos desde Luís XIV!", assegura-lhe o pai), endinheirado, "um bom francês que acredita nas instituições" como ele se auto-proclama, indiferente a tudo e a todos como nós o vemos, é levado por um estranho acaso ou armadilha (não são ambos a mesma coisa?) a perseguir um homem com quem partilha o nome, a leitura de Moby Dick (Melville escreveu sobre Ahab: Mordido na carne e lacerado no espírito, trespassado pela lança de uma impiedosa ideia fixa, semelhante personagem parecia ser homem para lançar o arpão contra o mais teimoso de todos os brutos. (...), Ahab tinha embarcado na presente viagem com o único fim, que inteiramente o absorvia, de caçar a Baleia branca.) e talvez algumas semelhanças físicas mas que é o seu oposto radical (um verdadeiro contracampo?), quer dizer é judeu numa França hipócrita e colaboracionista. E é aí, creio, que se situa o ponto de vertigem do filme onde confluem a história de Robert Klein e a história do nosso mundo (une histoire avance vers nous à pas précipités, une autre histoire nous accompagne à pas lents).


A primeira cena do filme: uma mulher é medida e catalogada por um médico. São imagens intoleráveis que nos atiram à cara a eficácia da violência nazi. Esta sensação geométrica volta a ressoar quando Klein mede o quadro de Van Ostade, na sala de arquivo onde funcionários analisam fichas, no mapa que marca os avanços da política francesa ou na organização por ordem alfabética dos judeus raptados e amontoados no Velódromo de Inverno.

As repercussões continuam a estender-se subtilmente. No plano em que a namorada de Klein pinta os lábios ao espelho num quarto de banho luxuoso, lembramo-nos do rosto da mulher subjugada pela arrogância clínica e apercebemo-nos do confronto do gesto e do lugar — o espaço já está dividido.


O misterioso Klein. Logo à noite, na TV5.

A queda de Charles Arrowby

Uma vez que estou a narrar o sucedido, é evidente que sobrevivi, e não consigo ter a esperança de contar como foi a experiência, quão longa foi, quão terrível e desesperada: uma experiência primordial de absoluto abandono da esperança. A queda, aquilo que a criança teme, que o homem receia, é em si mesma uma imagem da morte, da fragilidade do corpo, da sua mortalidade, da sua completa sujeição a causas exteriores. Mesmo numa inofensiva escorregadela em plena rua há sempre um segundo de terror em que a pessoa percebe que não pode fazer nada; um mecanismo inapelável apropriou-se do seu corpo e a pessoa tem de continuar até ao fim e suportar as consequências. «Já não posso fazer nada.» Quão longo, quão infinitamente expansivo um segundo se revela quando se pensa tal coisa, que é em si mesma uma efígie da morte. Uma completa queda no vazio, algo que eu muitas vezes imaginara ao viajar de avião, é evidentemente o pior que se pode imaginar. Mãos, pés, músculos, todos os conhecidos mecanismos de protecção do corpo se tornem de repente inúteis. A hostilidade da matéria é libertada contra a frágil e quebradiça forma animal, que talvez seja sempre uma estranha neste duro cenário mineral da gravidade.
Era como se cada parte do meu corpo experimentasse o seu próprio desespero, em separado. Nas costas e na cintura senti o medonho impacto de umas mãos que com súbita violência e uma intensidade por demais evidente me empurraram para o abismo. As minhas mãos procuraram em vão algo a que se agarrarem. Os meus pés, ainda em contacto com a pedra da qual se estavam já a despreender, retesaram-se num espasmo inútil, um derradeiro intento de recuperar o equilíbrio. Depois, ficaram a estremecer no espaço vazio enquanto eu me precipitava de cabeça para baixo, como se a minha cabeça e os meus ombros fossem de chumbo. Ao mesmo tempo senti, ou pensei, num derradeiro exercício de pensamento, quão frágil era o meu crânio, e percebi que as minhas mãos faziam agora o possível por protegê-lo. O meu corpo rodopiou de uma forma repugnante, tentando inutilmente aperceber-se da sua posição. Naquela difusa penumbra de meados de Verão, vi verdadeiramente as ondas debaixo de mim, espessas, encrespadas, assim como o vórtice do seu movimento no interior daquele espaço fechado. Num ápice, estava dentro de água, cuja frescura me surpreendeu com um choque à parte, e fiz os movimentos instintivos do nadador que tenta endireitar-se; mas o meu corpo sabia que naquele vórtice era impossível nadar. Senti como se o meu pescoço se fosse partir, ao erguer a cabeça e deparar com uma cúpula de verde ligeiramente translúcido: a onda por cima de mim. Exclusivamente concentrado no esforço de respirar, senti-me a sufocar, enquanto a água me entrava pela boca às golfadas. Ao mesmo tempo, tive ainda tempo para pensar: isto é o fim. Ofereci resistência, com todo o meu corpo a agitar-se absurdamente num torvelinho de forças que pareciam prestes a desmembrar-me. Depois bati violentamente com a cabeça na parede de pedra lisa e desmaiei.

O Mar, o Mar, de Iris Murdoch, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Maio 2005, p. 3371/372

Sábado, Novembro 20

the deep thing


(...) On the other hand, and this I think is a deep thing in the book, which no critic will ever see, but I will tell it to you, in a way I think James could be thought of as having saved himself because he goes on in the book, he says things to Charles, about how in order to be liberated you mustn't have any emotional attachments. Now the deep thing of course is that James has always been in love with Charles and this he more or less says at one point (and again nobody notices this kind of work in a book) and this is what is worrying James.

Iris Murdoch, From a tiny corner in the house of fiction: conversations with Iris Murdoch, p. 106

Sexta-feira, Novembro 19

Para não mais se levantar

Markus sai de casa para comprar uma faca. Carl dirige-se à padaria para comprar pão. No regresso, cruzam-se por mero acaso na Rittergasse. Markus sente-se ameaçado pelo terrível bigode de Carl. E este desconfia da brancura do lábio superior do outro. Envolvem-se num violento combate, coisa rara nesta parte da cidade.
Tudo acontece em breves segundos. Markus desfere um golpe com a faca, que atravessa o casaco e a camisa de Carl, e se lhe afunda no peito. Este cambaleia um pouco mas recupera facilmente o equilíbrio. Em resposta, apunhala Markus com o pão de cacete. Ferido de morte (“ó Deus todo-poderoso”), Markus cai no chão para não mais se levantar.

Quinta-feira, Novembro 18

207, Campanhã

— Ao domingo acordo na mesma às sete, mas fico na cama até mais tarde.
— Na monhice?
— Sim. (Ri-se) Depois levanto-me e vou tomar o pequeno-almoço ao café.
O nosso gato ou o nosso cão não têm focinho, nem mesmo focinhito, focico, fociquito. Têm caras. (...) Filipe Guerra, in O Vermelho e o Negro

Um gato mia à lua

Empoleirado no alto da chaminé, um gato mia à lua. Cheia e indiferente, a lua desliza pelo céu, orgulhosa da sua inteireza de pedra.
O gato não desiste e continua a preencher a noite com os seus miados desesperados, forçando lamentavelmente as frágeis cordas vocais. De repente, a lua abre os olhos monstruosos, fita o gato com ar de poucos amigos e cacareja qualquer coisa que só as galinhas entendem. O gato salta num relâmpago, atravessa um mar de telhados e esconde-se na cave escura de casa. Com a pressa, quase perde a cauda.
No céu, a lua avança lenta e silenciosamente por dentro da noite, como se nada tivesse acontecido.

Quarta-feira, Novembro 17



Mais informações aqui.

Decreto Legislativo Regional n.º 31/2010/A

Região Autónoma dos Açores - Assembleia Legislativa
Estabelece medidas de prevenção, controlo e redução da presença de roedores invasores e comensais.
«(...) Estás a fazer uma indução muito arriscada; e uma indução, no melhor dos casos, é sempre uma coisa incerta, lembra-te da galinha de Russell...»
«A galinha de Russell?»
«A mulher do lavrador chega todos os dias ao galinheiro e dá de comer à galinha, até que um dia chega e lhe torce o pescoço.»

O Mar, o Mar, de Iris Murdoch, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Maio 2005, p. 344

Terça-feira, Novembro 16

(...) Eu voltei à minha obsessão por coleccionar pedras, recolhendo-as nas fendas banhadas pelo mar e nos charcos dos rochedos, trazendo-as depois para o meu jardim de relva, onde Gilbert me ajudava a dispô-las num friso, a toda a volta do relvado. Essas pedras, de textura tão cerrada, de tão vária decoração, tão individuais, tão manejáveis, agradavam-me como se fossem uma pequena e pacífica tribo que eu tivesse descoberto. Algumas delas eram belas, com uma delicadeza de concepção que sobrepujava a de qualquer artista: cinzentas com pequenos arabescos cor-de-rosa, negras com elaboradas cruzes brancas, castanhas com elipses púrpuras, pintalgadas, manchadas ou às riscas, com as suas formas suaves e requintadamente moldadas pela incessante acção do mar. Eram cada vez em maior número as pedras que trazia para dentro de casa, que iam depois ocupar o seu lugar em cima da mesa de pau-rosa ou no peitoril da janela do meu quarto.

O Mar, o Mar, de Iris Murdoch, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Maio 2005, p. 250/251
Mas de que serve manejar as palavras com inteligência, se os gestos do dia a dia são mesquinhos?
O que é glorioso para a literatura é desprezível para a vida.

Segunda-feira, Novembro 15

OS DOIS HOMENS estão sentados num banco na praça da aldeia. Estrelas, lua cheia e o piar paciente do mocho que chama pela fêmea.

PRIMEIRO HOMEM - Tomás.
SEGUNDO HOMEM - O que é?
PRIMEIRO HOMEM - Observa aquela estrela.
SEGUNDO HOMEM - Qual?
PRIMEIRO HOMEM - A que está ao lado do galo do campanário.
SEGUNDO HOMEM - Sim, já estou a ver. Que se passa?

Incha o peito, sopra com força e a estrela apaga-se.

SEGUNDO HOMEM - (Admirado.) Oh!

Silêncio. Aproxima-se dali o bêbado do acordeão. Uma vaca muge e as galinhas, no galinheiro, acordam sobressaltadas.


Javier Tomeo, Histórias Mínimas. Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes.

Domingo, Novembro 14

«O ser humano é tão reservado, e essa intimidade é o mais espantoso que há em nós, ainda mais espantoso do que a racionalidade. Mas não nos é possível entrar simplesmente na caverna e dar uma espreitadela, sem mais nem menos. A maior parte das coisas que julgamos saber sobre a nossa mente não são mais do que pseudoconhecimento. É aterrador o modo como fingimos; somos especialistas em exagerar a importância do nosso valor. Segundo Estesícoro, os heróis de Tróia lutaram não por Helena, mas por um fantasma de Helena. Guerras vãs por ilusórios bens. Espero que no teu livro te detenhas o suficiente a refletir sobre a vaidade humana. As pessoas mentem tanto, até nós, os velhos. Mas, em certo sentido, isso não é importante, se for feito com arte, porque na arte há uma outra espécie de verdade. Proust é a nossa autoridade em matéria de aristocratas franceses. Quem é que quer saber como eles eram de facto? Que significado tem isso, de resto?»

O Mar, o Mar, de Iris Murdoch, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Maio 2005, p. 185
Duas fatias de pão escuro torradas, cobertas com queijo de cabra e o doce de marmelo feito ontem e ainda tão macio; chá de rooibos com amêndoa, muito quente. Um pequeno almoço tardio em jeito de homenagem a Charles Arrowby — pela sua última e magnífica encenação.

Sábado, Novembro 13

uma luz de consolação filosófica

Passaram-se duas horas e estou sentado no quartinho vermelho. Acabei agora mesmo de fixar por escrito a visita de Lizzie, exercício que, não sei porquê, me proporcionou gozo e bem-estar. Se tivéssemos tempo para relatar assim a nossa vida, momento a momento, como se fosse um romance, quão gratificante não seria. As partes agradáveis seriam duplamente agradáveis, as partes engraçadas teriam mais graça, enquanto o desgosto e o pecado seriam atenuados por uma luz de consolação filosófica.

O Mar, o Mar, de Iris Murdoch, tradução de José Miguel Silva, Relógio d'Água, Maio 2005, p. 109

Sexta-feira, Novembro 12

Ory

Morreu Carlos Edmundo de Ory, o magnífico escritor de Cádiz que descobri graças a Herberto Helder e a Doze Nós Numa Corda. Escreveu poemas, aforismos (que designava por aerolitos), narrativas e memórias. Morreu com 87 anos em Thezy-Glimont, França.

Quinta-feira, Novembro 11


LOLA, de Brillante Mendoza. No estúdio do Campo Alegre, às 22h00.


Lola foi rodado em Malabon, a 45 minutos do centro de Manila, onde uma comunidade vive alagada todo o ano, com o nível da água a subir ou a descer, conforme a intensidade da chuva.
«Decidi fazer o filme nessa zona de Manila para mostrar as condições de vida das pessoas que aí se fixaram — porque não têm outro sítio para morar — e a forma como lidam com o quotidiano e se adaptam àquele ambiente», diz Brillante Mendoza, que filmou durante a época das chuvas, para que uma atmosfera carregada evocasse a dor destas duas avós. E a água é um símbolo importante porque «sendo uma fonte de vida, é também uma fonte de estagnação e sujidade; e porque podemos flutuar na água, mas podemos igualmente afogarmo-nos nela. E os filipinos são basicamente sobreviventes», resume o realizador.
Tenho a infeliz convicção de que não tenho tempo para a menor parcela de bom trabalho, porque de facto não tenho tempo para uma história, não tenho tempo para me expandir no mundo em todas as direcções como deveria fazer. Mas então acredito mais uma vez que a minha viagem será melhor, que eu compreenderei melhor se me sentir descansado por ter escrito um pouco, e por isso tento de novo.

Franz Kafka, Diários. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.
Quando conheci o Paulo, em 1962, graças ao Cunha Telles, no «Vává», achei que ele era um personagem de Heinrich von Kleist e não um cineasta. Para mim, um cineasta era alguém enérgico, parecido com um americano – Ford, Welles, Walsh – e não aquele ser frágil e romântico, de voz quebrada, que dava pelo nome de Paulo Rocha, do Norte, do Furadouro. O Telles anunciou-me que o Paulo ia fazer o primeiro filme das suas produções – Os Verdes Anos. E que esse filme se passava nas Avenidas Novas e arredores. Fiquei zangado. As Avenidas Novas eram o meu território natural e o «Vává» o meu poiso quotidiano. Como é que um intruso, do Norte e ainda por cima do Furadouro, se atrevia a roubar-me aquilo que eu considerava minha propriedade privada? O Telles aplacou-me a ira e propôs-me o Belarmino. Assinámos contrato em guardanapo de papel do «Vává» e dividimos a cidade: eu ficava com a Lisboa do Parque Mayer, do Rossio e das Portas de Sto. Antão e o Paulo com as Avenidas Novas e territórios adjacentes: aquilo que hoje conhecemos como Bairro do Relógio. O Telles, sempre prático, concluiu: «e assim vamos, eu, tu e o Paulo fazer o novo cinema português e dar um outro olhar a esta cidade». Estávamos em 62. (…) Fernando Lopes

Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, às 22 horas, no Cinema Passos Manuel.

Terça-feira, Novembro 9

conselho a um trapezista desempregado


Rui, o trapezista devia seguir os movimentos felinos de Céline e Julie e esquecer a literatura. O mais certo era o público continuar a detestar (o público só gosta do que conhece e conhece pouco), ele era despedido na mesma, mas já ninguém lhe tirava os rebuçados.

(A cinefilia) sujeita ao rigor das palavras

Se Rivette tivesse filmado em português, as aventuras de Céline e Julie seriam um musical? para literalmente (apesar de continuar a não saber o que quer dizer literal) elas embarcarem em cantigas?

Like all of Rivette’s characters, Céline and Julie are cinema’s great sleepwalkers.
Há alguns anos, em Chicago, fui convidado para acompanhar dois dançarinos que animavam um baile de mulheres de negócios num salão da YWCA. Depois do espectáculo, ligaram a juke box para todos poderem dançar: não havia orquestra (estavam a poupar dinheiro). No entanto, o vai e vem ficou muito caro. Um dos braços da jukebox deslocou um disco seleccionado para o prato. O braço com a agulha subiu para uma posição elevadissíma. Depois de uma pequena pausa desceu rápida e pesadamente sobre o disco e quebrou-o. Surgiu outro braço que removeu os estilhaços. O primeiro braço deslocou outro disco para o prato. O braço da agulha subiu de novo, parou, desceu rapidamente e quebrou o disco. Os estilhaços foram removidos pelo terceiro braço. E assim sucessivamente. Entretanto todas as luzes coloridas da jukebox funcionavam na perfeição, tornando a cena fascinante. John Cage, indeterminacy
Um dia em que as janelas estavam abertas, Christian Wolff tocou uma das suas peças ao piano. Sons do trânsito, sirenes de navios, ouviam-se não apenas durante os silêncios da música mas, sendo mais altos, ouviam-se mais facilmente do que os sons do piano. Depois alguém pediu a Christian Wolff para tocar a peça de novo com as janelas fechadas, Christian Wolff disse que ficaria muito contente mas era desnecessário, uma vez que os sons da rua não eram de forma alguma uma interrupção dos sons da música. John Cage, indeterminacy

Segunda-feira, Novembro 8

Quando queria sair da cama esta manhã, tive um colapso. A causa é muito simples, estou arrasado. Não por causa do escritório, mas por causa do meu outro trabalho. O escritório tem pouca culpa no caso, só na medida em que, se eu não tivesse de lá ir, podia viver calmamente para o meu trabalho e não teria de perder seis horas por dia, especialmente às sextas-feiras e aos sábados, porque estava cheio das minhas coisas (...). No fundo, sei-o bem, isto é só garganta, eu é que tenho a culpa, e o escritório tem o direito de me fazer as mais claras e justificadas exigências. Mas para mim em particular é uma vida dupla horrível, donde não há outra saída senão a loucura. (...)
Quanto ao resto, amanhã já serei de novo eu, e irei ao escritório.


Franz Kafka, Diários. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.

O SOMMA LUCE


Un jour, à l’hôpital, Straub demande qu’on lui apporte le texte de La Divine Comédie. Après avoir longtemps douté d’y trouver un passage qu’il puisse travailler pour la scène, il choisit un fragment du Chant XXXIII du «Paradis», les deux derniers tiers, soit les vingt-six derniers tercets du poème. Dante décrit sa rencontre avec le divin. Les quatre derniers vers:

A l'alta fantasia qui mancò possa;
ma già volgeva il mio disio e 'l velle,
sì come rota ch'igualmente è mossa,

l'amor che move il sole e l'altre stelle.
...

Cyril Neyrat. Rome, 25 septembre 2009.
O Somma Luce e Corneille-Brecht, às 19h00, na sala Félix Ribeiro.

Domingo, Novembro 7

És arrastado para o mar e nunca mais ninguém te vê.

Talvez o melhor diálogo de "Indignação" seja a primeira conversa entre Marcus e Caudwell. O jovem Messner brande as palavras com uma liberdade fora do comum na muito conservadora Universidade de Winesburg e no final, sem intenção mas criando um memorável happening somático, vomita sobre a carpete do escritório do deão dos alunos. No entanto, creio, gosto ainda mais da visita da mãe de Marcus à enfermaria do hospital. Quando chega, ela está disposta a mudar de vida, a dar-se a si própria, a divorciar-se de um marido que não reconhece e a assusta, a cortar a eito; mas depois de ver Olivia, a rapariga instável de pulsos cortados, junto ao seu filho, volta atrás, volta à sua imagem e ao seu papel. É uma mulher grande e forte, imagino a sua voz tão grave quanto o seu olhar. Despede-se assim:
maior do que os teus sentimentos, não sou eu que to exijo - é a vida. Caso contrário és arrastado pelos sentimentos. És arrastado para o mar e nunca mais ninguém te vê. Os sentimentos podem ser o maior problema da vida. Os sentimentos podem pregar-nos as mais terríveis partidas. Pregaram-mas a mim quando eu cheguei ao pé de ti e disse que me ia divorciar do teu pai. Agora já me vi livre desses sentimentos. Promete-me que vais fazer o mesmo aos teus.
Noite, onze e trinta. O facto de eu, enquanto não me liberto do escritório, estar simplesmente perdido é para mim mais claro do que qualquer outra coisa, é só uma questão de, enquanto for possível, pôr a cabeça tão alto que não me afogue. Até que ponto será difícil, que força será necessário extrair de mim, isso vê-se já claramente no facto de eu hoje não ter conseguido manter o meu horário de estar à secretária das oito às onze, e neste momento até nem considero ser uma grande infelicidade ter só escrito estas linhas para ir para a cama.

Franz Kafka, Diários. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.

Ambição para o futuro

Reconheço o modo indignado como Marcus Messner muda de quarto na Universidade de Winesburg, Ohio — uma razão sem razão, dizem os deões do mundo. Sempre aprendi muito com Philip Roth, por isso agora temo também acabar no pior quarto da pior residência. Pelo sim pelo não, vou decorar o hino chinês. Levantai-vos, vós que recusais a condição de escravos!...

Sábado, Novembro 6


Beja, de Julião Sarmento. Duas casas construídas na alameda das tílias.
O lado menos amável do amor, se assim se pode dizer. Algo que cresce bravio, com fúria; um travo desagradável e logo puxa-nos para baixo como um redemoinho. Não se respira nem se escreve poemas sublimes — amaldiçoa-se qualquer coisa inominável, inatingível, dentro de nós.

Sexta-feira, Novembro 5

Nós e as pessoas que conhecemos somos nesse aspecto irreconhecíveis, porque estamos completamente escondidos, eu, por exemplo, estou escondido na minha profissão, nas minhas dores imaginadas ou reais, nas minhas tendências literárias, etc.

Franz Kafka, Diários. Tradução de Maria Adélia Silva Melo.
(...) De resto, nossa cidade é melancólica por natureza. Nas manhãs de inverno, há um cheiro particular de ferrovia e fuligem, espalhado por todas as ruas e por todas as avenidas; quando se chega de manhã, a encontramos cinza de neblina e envolta naquele cheiro. Às vezes, se infiltra pela neve um sol débil, que tinge os flocos de rosa e de violeta, os ramos nus das plantas; a neve, nas ruas e nas avenidas, foi retirada e recolhida em pequenos montes, mas os jardins públicos estão ainda sepultados sob uma densa colcha, intacta e macia, com um dedo de altura sobre os bancos abandonados e sobre as beiradas das fontes; o relógio da Hípica está parado, há tempos incalculáveis, às quinze para as onze. Do outro lado do rio se ergue a colina, ela também branca de neve mas manchada aqui e ali por moitas avermelhadas; e no cume da colina se alteia uma construção alaranjada, de forma circular, que tempos atrás foi a Opera Nazionale Balilla. Se faz um pouco de sol, e a cúpula de vidro do Salão do Automóvel se ilumina, e o rio escorre com um brilho verde por debaixo das grandes pontes de pedra, por um momento, a cidade pode até parecer risonha e hospitaleira, mas é uma impressão fugaz. A natureza essencial da cidade é a melancolia: o rio, desaparecendo ao longe, evapora-se num horizonte violeta de neblina, que nos leva a pensar no pôr-do-sol mesmo sendo meio-dia; em qualquer ponto se respira aquele mesmo cheiro pesado e laborioso de fuligem e se ouve o apito do trem. (...)

RETRATO DE UM AMIGO, Natalia Ginzburg

Quinta-feira, Novembro 4

Lektion 97


Die Rosen aus dem frankfurter Garten im herbstlichen Gewand überleben auf ihre Weise am guten Platz.
Outono tardio: céu limpo, vento fraco, 24°.

Quarta-feira, Novembro 3

Vim... Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões.

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

História de um casaco

O HEAVENLY LIGHT

The first clip from Empedocles inserted in Cézanne is devoted to light: “O heavenly light, humans have not taught it to me — already for a long time, when my languishing heart could not find the all living I then turned towards you.…
This excerpt follows Cézanne’s thoughts who wonders: “The chance fashion in which its rays fall, the way it moves, infiltrates things, becomes part of the earth’s fabric — who will ever paint that? Who will ever tell that story? The physical history of the earth, its psychology.”

Straub, Hölderlin, Cézanne, by Dominique Païni (translated by Sally Shafto).

Conto curto

DR 213 SÉRIE I de 2010-11-03

Decreto do Presidente da República n.º 107/2010
Presidência da República
Exonera o Professor Catedrático Manuel Maria Ferreira Carrilho do cargo de Representante Permanente junto da Organização para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em Paris.

Decreto do Presidente da República n.º 108/2010
Presidência da República
Exonera o embaixador Luís Filipe Carrilho de Castro Mendes do cargo de Embaixador de Portugal em Nova Delhi.

Decreto do Presidente da República n.º 109/2010
Presidência da República
Nomeia o embaixador Luís Filipe Carrilho de Castro Mendes para o cargo de Representante Permanente junto da Organização para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em Paris.

Terça-feira, Novembro 2

O sábio

Morava sozinho. Morreu de repente, rodeado por milhares de livros, documentos, fotos e testemunhos de gratidão de instituições científicas. Quando examinaram tudo aquilo, encontraram um papel azul com o início de uma confissão: "Eu queria ter sido actor."

David Lagmanovich.

Segunda-feira, Novembro 1

Em Setembro de 1652, Johann Froberger encontrou-se em Paris com o famoso alaudista Blancrocher nos jardins do Palácio Real. Quando regressavam a casa, Blancrocher faleceu na sequência duma queda numas escadas. Froberger, que presenciou o trágico acontecimento, decidiu escrever uma elegia em memória do amigo que intitulou Tombeau pour M. le Blancrocher. Escrita na tonalidade de Dó menor, a obra é de uma expressividade intensa. Os grandes saltos descendentes na mão esquerda parecem lembrar os degraus das escadas, enquanto as passagens nos registos agudos representam a ascensão ao céu do alaudista. Froberger termina a peça com a escala de Dó menor escrita em sentido descendente, numa espécie de reminiscência musical da queda.

Ana Maria Liberal. Excerto incluído no programa "À Volta do Barroco", da Casa da Música.
— Ao fim de seis anos (quantas salas são precisas para guardar seis anos?) o nosso arquivo parece um pescoço de girafa. So happy birthday!