
Na união da película vê-se uma ténue linha preta: as folhas são demasiado pequenas para as imagens de Jeff Wall. Uma falha material transforma-se num risco consentido pelo fotógrafo.
O que interessa é só prestar atenção aos sobressaltos
@ cristina//@ Rui Manuel Amaral



A imagem que acompanha o genérico é um abutre trespassado por uma seta. Mais tarde a imagem transforma-se numa tapeçaria; o licitador descreve todos os elementos reais e simbólicos que compõem a peça (a sua carga cabalística). No castelo, Florence compara Robert a um abutre (e não é como abutre que ele se lança sobre o quadro de Adriaen Van Ostade? não é de rapina a sua actividade?) Quando visita o pai, Robert convoca de novo o abutre ferido no coração para definir remorsos. É como se a cada nova ocorrência o abutre ganhasse mais possibilidades. O mesmo acontece com Robert Klein.
Francês, católico ("somos franceses e católicos desde Luís XIV!", assegura-lhe o pai), endinheirado, "um bom francês que acredita nas instituições" como ele se auto-proclama, indiferente a tudo e a todos como nós o vemos, é levado por um estranho acaso ou armadilha (não são ambos a mesma coisa?) a perseguir um homem com quem partilha o nome, a leitura de Moby Dick (Melville escreveu sobre Ahab: Mordido na carne e lacerado no espírito, trespassado pela lança de uma impiedosa ideia fixa, semelhante personagem parecia ser homem para lançar o arpão contra o mais teimoso de todos os brutos. (...), Ahab tinha embarcado na presente viagem com o único fim, que inteiramente o absorvia, de caçar a Baleia branca.) e talvez algumas semelhanças físicas mas que é o seu oposto radical (um verdadeiro contracampo?), quer dizer é judeu numa França hipócrita e colaboracionista. E é aí, creio, que se situa o ponto de vertigem do filme onde confluem a história de Robert Klein e a história do nosso mundo (une histoire avance vers nous à pas précipités, une autre histoire nous accompagne à pas lents).




Sê maior do que os teus sentimentos, não sou eu que to exijo - é a vida. Caso contrário és arrastado pelos sentimentos. És arrastado para o mar e nunca mais ninguém te vê. Os sentimentos podem ser o maior problema da vida. Os sentimentos podem pregar-nos as mais terríveis partidas. Pregaram-mas a mim quando eu cheguei ao pé de ti e disse que me ia divorciar do teu pai. Agora já me vi livre desses sentimentos. Promete-me que vais fazer o mesmo aos teus.
