Domingo, Outubro 31




«22 de Fevereiro. A maioria dos homens está tão fraca e doente com febre que nem se aguenta de pé. O soldado Justo González bebeu a minha tinta pensando que fosse remédio. Não posso escrever mais. Vogamos em círculos.» Este é o ultimo registo do diário do padre Gaspar de Carvajal. O movimento circular é o fim da expedição. No último plano, depois do terrível manifesto de Aguirre aos macacos, depois desse contracampo perturbador do céu, a câmara aproxima-se veloz da jangada, circula em seu redor — destroços, cadáveres, macacos, Aguirre —, a imagem desfaz-se em negro. O poder e a glória.

Sábado, Outubro 30

die größte Angst




Sabemos desde o início que Aguirre é uma viagem às trevas, mas o que o filme de Werner Herzog nos dá é mais perturbador e ambíguo: uma sensação permanente de sufoco e aperto (isso que a palavra angústia descreve, tão perto da Angst alemã). Enquanto descem o rio (em busca de quê?), não há um único momento em que se possa respirar, tudo oprime — os sentimentos mais vis, os gestos cobardes, a paisagem bravia, a luz desconcertante, e, para além ainda, a suspeita de que a força que une estes elementos díspares não é contraditória.

Sexta-feira, Outubro 29

A hora — tratada como coisa substancial e fechada numa sala onde não se consegue entrar.

Is time long or is it wide?

Chuva, fotografada por Abbas Kiarostami (2007).

Quinta-feira, Outubro 28

Cinco e meia da tarde

Às vezes Tontcho Ponsada tem vontade de bater com a cabeça na parede. De atirar coisas à cara. De levantar a mão contra si próprio, partir os próprios dentes, engolir vidro, roer os dedos, arrancar os cabelos, deitar fogo aos papéis. Há momentos em que se tivesse um revólver à mão, matava-se.
Depois, lembra-se que ninguém consegue comer bolo de chocolate com os miolos de fora. E a verdade é que são cinco e meia da tarde e ele já comia qualquer coisa.

Vertigens

Quarta-feira, Outubro 27

Tessin had grasped an essential point: in Tiepolo the poor do not appear to be less rich than the rich. In the anonymous crowd prostating themselves before Saint Dominic on the ceiling of the Gesuati, there is a powerfully built young man, lost in devotion, who is pressing one check to the ground as if he wished to plunge even lower, while in his right hand he is clutching a rosary. If we look at his clothes, we note the bright pink of his shirt, sublimely delicate and elegant, in contrast with his knotted muscles and unkempt hair. Above the postate man, a magnificent lower-class woman — perhaps his wife — has arranged with the skill and meticulous care of a lady-in-waiting her various garments and the striped cloth in which she has wrapped her little boy. These two figures stand next to the doge, who is holding out his hand to receive the rosary from Saint Dominic. But certainly the doge has no more majesty or presence than they. Indeed the roles could be reversed: the doge might be the postulant and the supporting player were he not betrayed by his doge's hat, while the lower-class couple might aspire to the rank of the main figures. In this way Tiepolo invented something one might dream about to this day: a democracy leveled off toward the top, where aesthetic quality makes it possible to eliminate any divergence in status. It is the boldest and most plausible political program, still not invalidated. And still waiting to be put into practice.
Tiepolo Pink, by Roberto Calasso, p. 43/44
On the ceiling of the Scuola dei Carmini (one of his most devotional compositions, dedicated to the scapulary of Saint Simon Stock) he paited one of his most attractive angels — and, in general, seldom in paiting have there been angels as attractive as Tiepolo's. This angel has his arms raised and in the hollow of his armpits we see a soft down. This was not customary with angels. Not even in Guercino or Guy François or Caravaggio. And obviously there is no need to attribute to Tiepolo any intention of emphasizing a certain earthly nature in the figure. Nothing was more alien to Tiepolo than the animus of Caravaggio. And nothing is as calmly celestial as this angel, despite that unusual physiological characteristic. Tiepolo Pink, by Roberto Calasso, p. 40
Magnífica. A série dedicada ao tema "Música clássica e porrada", no blogue Euterpe. Começa aqui.

Terça-feira, Outubro 26

- Para mim, não há luz do dia nem vida sem ti; passo as noites a sonhar em vales floridos. Quando te vejo sinto-me bem e desejo fazer coisas, longe de ti sinto-me enfadado e insolente, apetece-me ir para a cama e não pensar em nada...
Deteve-se subitamente. "Que estou eu a dizer? Não foi para isto que vim", pensou, e franzindo a testa principiou a pigarrear.
- E se eu morrer? - perguntou Olga.
- Que ideia! - protestou ele, sorridente.
- Sim - prosseguiu ela -, apanho frio e adoeço com febres; tu vens aqui procurar-me e não me encontras; vais a nossa casa e dizem-te que me encontro doente, e sucede a mesma coisa no dia seguinte; fecham-se as persianas do meu quarto; o médico abana a cabeça; Katia sai e aproxima-se de ti na ponta dos pés, a chorar, e segreda: "Ela está muito doente, está a morrer..."
- Oh! - exclamou Oblomov subitamente angustiado.
Olga desatou a rir.
- Que seria de ti depois? - perguntou ela.
- Que seria de mim? Ou enlouquecia, ou metia um tiro na cabeça, e depois tu talvez acabasses por te curar!
- Não, não, não repitas isso - atalhou ela nervosamente. - Que tolices estás a dizer! E depois eras capaz de aparecer-me transformado em fantasma, a mim que tenho tanto medo das almas do outro mundo...

Ivan Goncharov, Oblomov, o Magnífico Preguiçoso. Tradução de Daniel Gonçalves.
Lembrava-me de Mona e do seu desapego ao mundo, mas já não me lembrava das cores — as cores mais verdadeiras para o frio e a solidão. Tambem é isto que o cinema pode guardar.

Segunda-feira, Outubro 25



Sandrine Bonnaire. No estúdio do Campo Alegre, às 22h00, até ao próximo domingo.

Domingo, Outubro 24

- Já está curado do seu terçol? - perguntou ela, fitando o olho direito de Oblomov.
Ele corou:
- Sim, graças a Deus!
- Quando começar a sentir dores nos olhos, banhe-os com vodka, evita os terçolhos. Foi a minha ama quem me ensinou isso.
«Porque será que ela insiste em falar em terçolhos?», congeminou Oblomov.
- E não ceie - acrescentou ela com um ar grave.

Ivan Goncharov, Oblomov, o Magnífico Preguiçoso. Tradução de Daniel Gonçalves.

Modo de preparar


...
O diálogo que recordo com mais nitidez de Ma nuit chez Maud (e talvez também com alguns erros) é estranho às discussões filosóficas das personagens. Depois de jantarem, Trintignant acompanha Françoise a casa. É tarde, está mau tempo, e o carro não pega, por isso ele vê-se obrigado a passar lá a noite. Antes de irem cada um para a sua cama, conversam na cozinha. Trintignant explica a Françoise como se prepara o chá: basta seguir as instruções escritas na embalagem, diz ele, e esperar cerca de 7 minutos depois de mergulhar as folhas na água a ferver.

Sábado, Outubro 23

Doutor Avalanche

Sprezzatura. Bela, musical e um pouco obscura, esta palavra italiana parece-me perfeita para descrever o trabalho de Rohmer. Isto nem sequer é uma ideia minha, é algo que vem dos próprios filmes, uma espécie de qualidade aérea dos corpos. Em Janeiro, Gilbert Adair fez a mesma descoberta. O vento nas árvores — voltamos sempre aí.

Sexta-feira, Outubro 22

Autocarro

Tinham avançado cerca de três quilómetros no interior do trânsito. Chovia. A atmosfera no autocarro era quente e enjoativa, como no interior de uma ostra. No meio daquela nuvem impenetrável, uma velha lançava sobre Ruf Lanz alguns olhares ocasionais. A princípio discretos, depois mais insistentes. “Que estará de errado comigo?” – pensou ele, espiando-a ansiosamente de soslaio. Faltavam ainda algumas paragens para chegar ao seu destino. Procurou distrair-se com um livro. De repente, notou que no lado oposto do autocarro outra velha o observava com o mesmo interesse. Espreitou as suas próprias roupas e passou dissimuladamente a mão pelo rosto pensando que talvez tivesse uma migalha esquecida na barba. Verificou os botões para ter a certeza de que estavam apertados. Tudo parecia em ordem.
Ousou lançar às velhotas uma olhadela rápida. Continuavam a fitá-lo com uma expressão muito aguda, como se o quisessem atingir com um certeiro golpe de fogo, queimando-o, torturando-lhe os nervos. O autocarro arrastava-se, um metro após outro. Lanz esforçava-se por parecer natural e à vontade, mas havia cada vez mais gente a observá-lo. Nunca lhe tinha acontecido semelhante coisa. Sentia vontade de desaparecer por qualquer fresta. Fixou um ponto no chão, esquivando-se aos olhares silenciosos e persistentes. Mas mal ergueu a cabeça, encontrou, num estremecimento, dezenas de olhos, brilhando de curiosidade, examinando-o insistentemente.
Olhou para um lado e depois para outro a fim de verificar se não estaria enganado e as atenções se não dirigiam antes para outro passageiro. Mas não restavam dúvidas: era sobre ele que se concentravam todos os espíritos. Dez vezes menos do que isto bastaria para assustar qualquer um. Tudo fervia dentro dele. O sangue corria-lhe rapidamente nas veias, o pulso batia duas vezes mais depressa, o coração parecia louco, e tudo isso produzia um efeito tal que o fazia respirar lenta e penosamente.
Sentia-se confuso, embaraçado, constrangido, monstruoso. E não lhe servia de nada conservar os olhos baixos ou afundar-se no assento: não conseguia de maneira nenhuma evitar os terríveis e ferozes olhares dos outros passageiros. Não aguentou mais. Compôs uma expressão grave e saiu precipitadamente do autocarro. Deambulou a passos rápidos pelas ruas, quase sem ter consciência daquilo que fazia. Depois, parando ofegante em frente de uma montra, Ruf Lanz viu a sua imagem reflectida no vidro. Só então, no meio do mais puro horror, compreendeu.

Quinta-feira, Outubro 21

Sprezzatura

The ultimate peculiarity of Italian culture, the quality it could be proudest of, also because over the centuries it has proved untranslatable into other languages (whereas by contrast the meaning of the word has become obscure and remote for the majority of Italians), is what is known as sprezzatura. Baldassare Castiglione defined it as follows, in complete contrast with the thing he advised people to "steer clear of as far as possible, as if from the sharpest and most dangerous rocks," in other words "affectation." According to Castiglione, the remedy for the "bane of affectation" consisted in "using in all things a certain nonchalance [sprezzatura] that may conceal art and demonstrate that what one does and says is done without effort and almost without thinking." A gloss followed: "From this, I believe, does much grace derive." And a decisive consequence: "It can be said that true art is that which does not seem to be art; nor should a man study anything more than the concealment of it." Roberto Calasso

Quarta-feira, Outubro 20

As flores de Makhmalbaf

Há um momento na vida de um leitor intensivo a partir do qual tudo o que lemos se liga visivelmente a quase tudo o que já tínhamos lido. É como se um gigantesco mecanismo se pusesse enfim em movimento.

Luís Mourão.

Terça-feira, Outubro 19

Bicha

Millôr Fernandes chegou da Europa e é bicha: Martha Alencar é bicha e o marido dela, o Hugo Carvana bicha; o Sérgio Cabral, por sua vez, tem vergonha, acha que pai de família não deve confessar isso mas eu sei é bicha; o Paulo Francis, que fica fazendo aquele bico, é bicha; o Chacrinha, nem se fala, é bicha; o Gérson mesmo jogando pra burro, é bicha; o Fortuna é bicha, bicha declarada, o Armando Marques é bicha; a tia da namorada do Denner é bicha; a namorada do Denner é bicha; o Denner é bicha; o Edvaldo Pacote é bicha, a Gal Costa é bicha; a Elis Regina é bicha; o Nelsinho Motta é bicha; os Luiz Carlos Maciel são bichas, os Monteiro de Carvalho são bichas; os Monteiro de Carvalho são bichas, menos um, por falta de tempo, o Ricardo Amaral é bicha; aquêle amigo do Ricardo Amaral é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o meu contrabandista é bicha; ele é bicha; o Flávio Rangel é bicha; o Pedro Álvares Cabral era bicha; o Antônio Houaiss é bicha; o Ulisses é bicha; o Maneco Muller é bicha; o Fernando Fernandes é bicha; o Vinícius de Moraes é bicha; o Carlos Drummond de Andrade, que ainda não me deu aquela entrevista, é bicha; o Sérgio Cavalcanti é bicha; o Jaguar é bicha; os contatos de publicidade, o Ewaldo e o Paulo Augusto, são tremendas bichas; e o chefe dêles, o Grossi, é bicha; o lvon Cury é bicha; o Daniel Mas, sem qualquer apelação, é bicha; como bicha é, também, o Antônio Guerreiro; o José Silveira é bicha; o Manolo é bicha;

o Chico Buarque é bicha; o Caetano Veloso é bicha; o Gilberto Gil é bicha; o Roberto Carlos é bicha; o Erasmo Carlos é bicha; o Zózimo Barroso do Amaral é bicha; o Jaguar é bicha; a Márcia Barroso é bicha; a Scarlet Moon de Chevalier, digo, a Scarlet é bicha, a Moon é bicha e a Chevalier é bicha; meu Deus, como o Paulo José e Dina Sfat são bichas; ah, sim, o Ênio Silveira é bicha; como esquecer que a Danusa é tão bicha como a Leão; bicha, também, pois, a Nara Leão, e o Cacá Diégues, que é marido dela, é bicha; e o Glauber Rocha, como todos os baianos, é bicha; a Rosinha, mulher do Glauber, é uma tremenda bicha;

o Antônio Guerreiro é bicha; o Jaquar, que eu ia esquecendo, é bicha; o José Hugo Celidônio é bicha; nunca vi ninguém tão bicha quanto o Rogerio Sganzerla; bicha, mesmo, paravaler, é o lbrahim Sued, que não pode ser mais bicha; Doval é bicha; Jairzinho é uma bicha radical; falando em bicha: como vai você, Henfil; Minas Gerais é um viveiro de bichas; Ziraldo, por exemplo, quem pode negar? É a maior bicha de Caratinga; aliás, se vocês não sabem, esse tal de Caratinga também era bicha; o filho do Jaguar, tão pequenino já é bicha; também, o professor dêle é bicha, sô; ah, Virgem Santa, o João Saldanha é bicha; o César Thedim é bicha e a Tonia Carreiro, para provar o dito, também é bicha, falando nisso, o John Mowinckel é bicha; e o Pedrinho Valente, embora ainda não saiba, é bicha; a êsse lá sabe: o Ivo Pitanguy é bicha; há alguém mais bicha do que o Sérgio Bernardes? há, o Jaguar;

ah, que saudades que eu tenho da bicha Cláudio Abramo; Afonso, Afonsinho, Afonsão, todos bichas; os Afonsos em geral, todos bichas,- tenho melancolia do Rio Grande do Sul porque as bichas que aqui são bichas não são bichas como lá; Olavo Bilac é bicha; o bigodinho do Oscar Niemayer não me engana; é bicha; ora Tom Jobim, vai ser bicha lá com a bicha do Frank Sinatra; como se não bastasse, de bichas, é claro, agora ainda anda por aí aquela bicha da Florinda; a bênção, minha bicha Baden; falando em bicha nada melhor do que uma bicha do Jorge Ben depois da outra; Charles Anjo 45 é bicha enrustida; você é bicha; o leitor, todos os leitores, são bichas; fala, bichonilda Sérgio Noronha; a Olga Savary é bicha e o livro dela é mais bicha ainda; Paulo Garcez é a chamada bicha respeitável; Jango é bicha; Brizola é subverbicha; e a Wanderléia, segundo a bicha do Flávio Rangel não a do no sentido possessivo mas do êle, Flávio – é bicha ternurinha; e quem diria, hem? todos os Macedos Soares são bichas; Rubem Braga anda caindo de tanto ser bicha.

Este parágrafo é bicha.

Por outro lado, Maria Bethânia é bicha; a democracia é bicha; êle é bicha mas eu não sou louco de dizer; salve a bicha mais bicha de Londres, a bicha do Ivan Lessa; o Jaguar é bicha, o Ferreira Gullar já representou o Maranhão no concurso nacional de bichas; todos os componentes do velho PSD são bichas; Paulo Mendes Campos é a bicha mais intelectualizada que eu conheço; falando em bicha, vocês lá viram que coisa mais incrível o gênero bicha-barbuda que é o Carlinhos Oliveira?; bicha para falar a verdade, mas bicha mesmo, é o Hélio Fernandes; criança, nunca verás uma bicha tão grande quanto a Maria Raja Gabália; fala minha bicha Marlene Dabus; você é tão linda, Teresa Souza Campos, mas é bicha, Joaquim Pedro e MeIo Franco e, portanto , bicha, pois todos os MeIo Franco são bichas; a Danusa Leão, insisto, é bicha; olha aqui, ô Matarazzo, não queira me comprar:, tôda a familia é bicha; e tem mais:

- Vocês lembram da Maysa, ex-Matarazzo? Pois é bicha, bicha é a torcida do Flamengo; e a do Botafogo se existisse, bicha seria; os velhinhos do Vasco são bichas; o Fluminense, vocês sabem, andam de salto alto; todos os brasileiros são bichas; Europa, França e Bahia – tudo bicha; Ásia, África, América e Passo Fundo, tudo bicha; inclusive o Jaguar, tudo bicha; é a maior bichite da história do mundo; que, por sinal, é bicha.

O único macho do mundo é o Nélson Rodrigues.

Tarso de Castro.

Poesia de choque

A próxima sessão de "Poesia de Choque" tem lugar na próxima quinta, 21, pelas 22h00 no Clube Literário do Porto. Além dos diseurs residentes Luís Carvalho e António Pedro Ribeiro, o evento conta com a participação de Rui Manuel Amaral que vai fazer a apresentação de alguns textos do seu novo livro "Doutor Avalanche" (Angelus Novus).
— Vejo um anel, disse Bernard suspenso por cima de mim. Tremula e balança num laço de luz.
— Vejo uma faixa de amarelo pálido, disse Susan, alongando-se ao encontro de um risco violeta.
— Ouço um ruído, disse Rhoda. Chip... Chap... Chip... Chap... sobe e em seguida volta a descer.
— Vejo um globo, disse Neville. Suspenso como uma pequena gota de água dos imensos flancos de uma colina.
— Vejo uma borla vermelha entrelaçada com fios de ouro, disse Jinny.
— Ouço qualquer coisa a bater, disse Louis. A pata de um grande animal acorrentado. A bater no chão, a bater no chão...
— Olhem a teia de aranha no canto da varanda, disse Bernard. Há nela gotas de água suspensas, brancas pérolas de luz.
— As folhas encostam-se à janela como orelhas ponteagudas, disse Susan.
— O braço dobrado de uma sombra cai sobre a vereda, murmurou Louis.
...

As Ondas, de Virginia Wolf, tradução de Francisco Vale, Relógio d'Água, 1988

Segunda-feira, Outubro 18

Enquanto não vivi a minha própria vida, enquanto a vida alheia me levava nas suas ondas, enquanto acreditava que a vida tinha sentido, embora eu não fosse capaz de o exprimir, todo o género de reflexões da vida na poesia e nas artes me dava alegria; eu tinha prazer em mirar a vida no espelhinho da arte; porém, quando comecei a procurar o sentido da vida, quando senti a necessidade de ter a minha própria vida, esse espelho tornou-se inútil para mim, ou então ridículo, ou então torturante.

Tolstói, Confissão.
The outcome of these little perceptions is therefore more efficacious than one would think. They form that je ne sais quoi, those inclinations, those images of the qualities of the senses, clear as a whole, but confused in their parts; those impressions that surrounding bodies make on us, and that embody infinity; the bond that every living being has with the rest of the universe. One may even say that as a consequence of these little perceptions the present is pregnant with the future and laden with the past, which plots all (sýmpnoia pánta, as Hippocrates put it), and that in the smallest of substances penetrating eyes like those of God might read all the concatenation of the things of the universe. G. W. Leibniz, New Essays on Human Understanding

Num instante

Chidlovski bocejou alto, abrindo lenta e leoninamente a boca. Ao seu lado, Heiko bocejou até às lágrimas. Também Dirk, logo a seguir, abriu a boca como se obedecesse a uma ordem. A corrente de bocejos comunicou-se a outros: dez bocejaram quase em simultâneo e contaminaram outros dez. Num instante, mais de cem pessoas - que digo? - duzentas bocejaram.
A onda contaminou toda a gente, entrou nas casas, espalhou-se pelos cafés. Uma cidade inteira bocejou em uníssono. E quando a onda parecia prestes a extinguir-se, havia sempre alguém que voltava a ateá-la, pegando fogo ao rastilho com um breve bocejo.
Milhares de pessoas bocejaram durante alguns segundos. Depois começaram gradualmente a serenar. Uma enxugou os olhos, outra assoou-se, outra pigarreou, enquanto uma quarta fungava. Por fim, toda a cidade mergulhou no mais completo silêncio. Um frio, gelado, um branco silêncio de morte.

Domingo, Outubro 17

Há uma palavra japonesa

«Ela diz», contou-nos ele por fim, «que há uma palavra japonesa, gattai, para quando duas ou mais coisas se juntam para de algum modo se tornarem uma só.

O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey, tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China

É como um plano em zoom

Os endereços japoneses, com toda a razão, parecem complicados para os gaijin. Digamos que a morada do nosso amigo é 1-12-33 Asakusa Chome, Taito-ku. Isto significa que ele vive na zona de Taito, no bairro de Asakusa. Em Asakusa vamos ter de localizar a área número um. Se estivermos bem preparados, temos um mapa; se não, perguntamos a alguém. Depois, usa-se o mesmo processo para encontrar o quarteirão número 12 e aí, mais tarde ou mais cedo, encontra-se o edifício número 33. É claro que ele não estará, nem pouco mais ou menos, perto dos edifícios números 32 e 34. O mais provável é que esteja ensanduichado entre o número 20 e o número 7. Imagine-se o que isto provocou no espírito das forças de ocupação americanas em 1945. Ruas sem nome. Números sem sentido. Os vencedores alteraram muitas coisas no Japão, obtendo por muitas dessas alterações — por exemplo, a instauração do primeiro governo democrático da história do país — a gratidão dos japoneses. Mas o plano americano de tornar os endereços japoneses «mais lógicos» nunca teve a mais pequena hipótese de ser posto em prática.
— Não é porque nós sejamos dissimulados — dir-me-ia Takashi mais tarde. — Os ocidentais acham que nós queremos esconder-nos deles. Ninguém se está a esconder. O nosso método é lógico. É como um plano em zoom, está a ver? Começa aberto, depois faz um zoom até termos o GP do nosso edifício.
— GP?
— Grande Plano

O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey, tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China

Sábado, Outubro 16

O fabricante de espadas

Que queríamos nós saber? Bem, eu seguramente não estava preparado para falar a este homem de desenhos animados. Em vez disso, lembrei-me do que estava escrito em A Espada Japonesa: A Alma do Samurai: «Tradicionalmente, o forjar de uma espada japonesa acontecia em condições quase religiosas. A forja era purificada por um monge xintoísta e devia ter — a toda a volta — papel sagrado (gohei) preso por uma corda de palha de arroz (shimenawa) como símbolos de pureza.»
Por isso perguntei se fabricar uma espada tinha qualquer coisa de espiritual para ele.
Yoshihara-san sorriu. «Andou a ler livros americanos?»
— Ingleses — admiti.
— Talvez algumas pessoas tenham experiências espirituais. Ouvem vozes que falam com elas. portanto são loucas.
Mais tarde Charley diria: «Ele era extremamente enérgico. Ria-se muito.»
Na verdade ria. Tinha também uns olhos brilhantes e desafiadores e um atraente carácter terra-a-terra

O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey, tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China

Sexta-feira, Outubro 15

- Que desgraça! - exclamava. - Vai morrer alguém com certeza; sinto comichão na ponta do nariz...
- Valha-me Deus! - exclamava a mulher, apertando as mãos uma na outra. - Como pode ser uma morte se a comichão é na ponta do nariz? É morte quando a comichão é na cana do nariz. És um homem impossível, nunca te lembras de nada, Ilia Ivanovitch! Um dia ainda dizes uma coisa dessas diante de estranhos e ficas malvisto.
- E o que é que quer dizer quando a comichão é na ponta do nariz? - perguntava Ilia Ivanovitch cheio de vergonha.
- Significa que a pessoa vai meter o nariz dentro de um copo. Uma morte, não fazes as coisas por menos! Que mais hás-de tu inventar?
- Confundo tudo - confessava Ilia Ivanovitch. - Como é possível uma pessoa recordar-se? Comichão numa asa do nariz, na ponta, ou nas sobrancelhas...
- Se é numa asa - intrometia-se Pelagea Ivanovna - quer dizer novidades; se são as sobrancelhas que comem, significa lágrimas; se é a testa, quer dizer vénia, vénia a um homem se for do lado direito, a uma mulher se for do lado esquerdo; comichão nas orelhas significa chuva; nos lábios, beijos; no bigode, comer doces; nos cotovelos, dormir longe de casa; na sola dos pés, uma viagem...
- Muito bem, Pelagea Ivanovna! - aplaudia Ilia Ivanovitch. - E não há qualquer coisa a respeito de comer a parte de trás da cabeça de uma pessoa quando a manteiga vai baixar de preço?

Ivan Goncharov, Oblomov, o Magnífico Preguiçoso. Tradução de Daniel Gonçalves.

Quinta-feira, Outubro 14

No deserto de Atacama

Mário Sepúlveda trouxe uma saca de pedras da mina e disse: "Não nos tratem como artistas, tratem-nos como mineiros". Pedras e palavras concretas — a política dos homens contra a política dos produtores de imagens.

Fábula

Um homem passou três noites seguidas a uivar debaixo de uma janela. A meio da quarta noite, o homem parou de uivar e foi-se embora. Nada mais aconteceu. Ninguém morreu ou ficou doente, a casa não foi devorada pelo fogo, a lua não caiu do céu. O que levou, pois, o homem a uivar de forma tão desesperada durante três noites e meia? Eis um assunto que tanto tem dado que pensar aos cães do bairro.

Quarta-feira, Outubro 13

O mar, por exemplo, que Deus lhe perdoe! Só serve para entristecer uma pessoa: só de olhá-lo um homem sente vontade de chorar. O medo apodera-se dos corações à vista daquela ilimitada extensão de água e não há nada que repouse os olhos fatigados pela infindável monotonia da paisagem. O rugido, o bravio tropel das vagas não acaricia o débil ouvido do homem; repetem uma melodia muito delas, lúgubre e misteriosa, sempre a mesma desde que o mundo é mundo; ouve-se constantemente o mesmo antigo queixume, o mesmo lamento, como o de um monstro condenado à tortura e soltando gritos horripilantes e sinistros. Por cima dele não chilreiam as aves; somente as silenciosas gaivotas, como no cumprimento de uma pena, voam tristemente de um lado para o outro ao longo da praia ou descrevem círculos sobre as águas.
O rugido de uma fera é impotente diante destes gritos da natureza, a voz humana nada é, o próprio homem é tão pequeno e tão fraco, encontra-se tão completamente perdido entre os ínfimos pormenores do vastíssimo quadro! Não, para mim não quero o mar! A sua própria calma e imobilidade não proporcionam conforto a ninguém; na quase imperceptível ondulação da água o homem vê, dormitando por um momento, essa força ilimitada capaz de mofar amargamente da sua vontade orgulhosa e sepultar profundamente os seus mais ousados planos e todo o seu trabalho e esforço.

Ivan Goncharov, Oblomov, o Magnífico Preguiçoso. Tradução de Daniel Gonçalves.

Terça-feira, Outubro 12

A arte de ler a sina nas linhas dos pés

Entre os mortos é costume algumas pessoas dedicarem-se a ofícios que os vivos consideram pouco edificantes. Quem já morreu sabe do que falo. Um dos ofícios que goza aqui do maior prestígio é o de ler a sina nas linhas dos pés. Este trabalho é desempenhado por poetas. E dizer que é muito bem desempenhado é dizer pouco. Trata-se de verdadeiros profissionais: fazem-no com impressionante competência, curvando-se respeitosamente sobre os pés, pousando a mão no peito e proferindo somente três ou quatro palavrinhas muito doces. Toda a gente tem por eles sincera estima e admiração.
Ora, os mortos acreditam que o seu destino é sempre muito feliz. Não receiam nenhuma desilusão, nenhum contratempo ou revés. O destino não contém para eles qualquer surpresa. Mesmo assim alegra-lhes escutar as circunstâncias de que se reveste o seu futuro. E se um morto se sente feliz, os outros não lhe querem ficar atrás.
Contudo, é muito provável que os poetas mintam e digam apenas aquilo que os interlocutores querem ouvir, com o propósito de assegurarem uma boa remuneração. Na verdade, não faltam casos de mortos a quem aconteceram coisas, digamos, esquisitas. Kluszczynska, por exemplo, escutava com um largo e significativo sorriso a sua alegre sina quando, nesse instante, nesse preciso instante, tombou como que cortado por uma foice.

Doutor Avalanche, p. 103.

Segunda-feira, Outubro 11


Café et cigarettes.

Domingo, Outubro 10

A fascinação do encontro

Veio parar às minhas mãos uma folha de jornal com uma Crónica de João Bénard da Costa sobre Etty Hillesum. O texto foi publicado em Maio de 2008 e é o primeiro de dois. De repente, dou por mim no passado, à espera da continuação que Bénard ainda não escreveu (a morte não é um fenómeno tão objectivo como nos querem fazer crer).

Nesta crónica, em jeito de introdução aos pensamentos perturbantes de Etty, Bénard da Costa transcreve alguns excertos do seu Diário (do livre de poche das Éditions du Seuil, e da colecção Teofanias da Assírio & Alvim). As anotações são de uma sinceridade inabitual; como se Etty não escrevesse com palavras abstractas mas arrancadas a si própria, ou como se as palavras renascessem depois de um grande silêncio — não sei explicar bem, ainda não consigo explicar o fascínio que esta rapariga me provoca; talvez nunca consiga.

Sábado, Outubro 9

La fête du cinéma français chez moi


Quando entra no quarto, Esther é a perfeita representação do quadro de Miró pendurado na parede: as cores do vestido, a mancha vermelha do casaquinho e até o guarda-chuva. Ou então é ao contrário: Esther é o modelo e o quadro, a sua reprodução gráfica.

chacun pour soi est reparti dans l'tourbillon de la vie

Os encontros de Paris são um bom exemplo do modo delicado de Eric Rohmer trabalhar a banalidade. Sob a aparente ligeireza das histórias — apetece é chamar-lhes historietas —, cada encontro traz em si próprio o seu reverso sombrio, quer dizer, a perda. No Encontro das 7 horas, Esther perde a carteira e Horace; Horace perde, num ápice, duas namoradas; Aricie perde Horace na esplanada de Dame Tartine; o engatatão perde a oportunidade. N' Os bancos de Paris, a rapariga perde Benoit, o professor de subúrbio perde-a a ela e ambos perdem os jardins e o hotel de Montmartre. Em Mãe e filho, o pintor perde, quase sem dar por isso, a rapariga desconhecida e a turista sueca.

Todas estas perdas são contadas de mansinho, sem qualquer sinal de tragédia ou de revolta (estamos a léguas do melodrama — há música mas não há drama — e de costas voltadas para os sentimentos formatados da televisão), cada um resolve o seu pequeno problema indo de férias, voltando para casa da mãe ou ao trabalho — aceitando, sem sobressaltos, o correr do tempo, da fortuna e dos infortúnios.
Eu não sei se isto é a modernidade, mas é com certeza uma óptima lição de vida.

Sexta-feira, Outubro 8

Dobrar a finados

Um homem decidiu comprar uma cana de pesca. Este homem tinha uma corcunda. Ora bem, para que queria um homem da sua idade, com seis dioptrias e proeminente corcunda uma cana de pesca? “Para pescar moscas no tecto”, disse ele. Enfim, uma coisa absolutamente estúpida.
Sendo ou não uma coisa estúpida, o certo é que o homem comprou a cana de pesca e passou dias e semanas, estendido na cama, de barriga para cima, a lançar metodicamente o anzol ao tecto. Mas o primeiro mês passou-se sem nenhum resultado positivo. No mês seguinte sucedeu exactamente o mesmo. No outro mês, também. A pesca à mosca transformou-se então numa obsessão, a sua razão de viver. O tempo corria devagar, e nada. O desânimo e a aflição começaram a roê-lo interiormente. Depois, o mau humor turvou-lhe o olhar, a dor empalideceu-lhe as faces e o cabelo começou a cair cruelmente.
Numa carta a F. Grondahl, datada de 22 de Março de 1823, o homem escreveu: “Amaldiçoo o surgir do dia que me chama para uma vida cuja sentido se me tornou duvidoso. Durante a noite acordo com inquietantes sonhos. Procuro angustiadamente um rasgo de sorte que me permita escapar a estes errantes caminhos da dúvida. Lanço o anzol para o alto, mas mergulho sempre mais no
abismo.”
Precisamente nessa altura, quando estava já muito próximo de desistir da pesca e de tudo, sem nada que o fizesse prever, o homem capturou uma mosca. Espantosa, gorda, farfalhuda. Na realidade, não uma mosca, mas uma abelha inocente. E não com a cana de pesca – esta é a crua verdade –, mas com uma pantufa.
O que aconteceu foi o seguinte: o homem achava-se deitado na cama a pescar, como habitualmente, e nisto viu passar um percevejo pelo tecto*. O homem pousou a cana, pegou numa pantufa e lançou-a com toda a força contra o minúsculo insecto. Para o percevejo o caso não teve qualquer consequência, pois escapou ileso, mas para a abelha, que se encontrava no quarto por mero acaso, foi um dobrar a finados.
E com isto, adeus.

* Facto estranho. Como se explica que um homem com sérios problemas de visão tenha conseguido distinguir tão claramente no tecto um insecto que mede não mais do que meio centímetro?

Quinta-feira, Outubro 7

E continuando em maré de boas notícias: neste formidável site dedicado ao trabalho de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub há uma secção intitulada vocabulary.

Let's face the music and dance



Para que conste (nos meus registos particulares sobre os movimentos de espectadores de cinema na cidade do Porto): A Dança – Le Ballet de L'Opera de Paris, de Frederick Wiseman já está na terceira semana (agora apenas na sessão das 18H30). Wiseman tem um olhar envolvente maravilhosamente anónimo (para não levantar polémicas, devo afirmar que isto é um dos maiores elogios que eu posso fazer a um cineasta). Quando vi o filme, a sala estava quase cheia de público bastante heterogéneo, o que também é bom sinal. Só lamento a fraca qualidade do projector digital do estúdio do Campo Alegre.

Quarta-feira, Outubro 6

revenir à l'amateurisme




Por coincidência, e por mãos amigas, a semana passada vi As quatro aventuras de Reinette e Mirabelle pela primeira vez. O tal filme que Rohmer fez para reencontrar as suas raízes e o tom das primeiras curtas metragens. — Je voulais aussi réagir contre le côté tape-à-l'eil et mégalomane du cinéma et revenir à l'amateurisme. Tourner un film que n'importe qui, possédant une caméra vidéo ou super-8 peut parfaitement réaliser avec l'aide de quelques amis.

Curiosamente o filme foi editado por cá junto com A árvore, o presidente e a mediateca e Os encontros de Paris, sob o titulo Eric Rohmer: O Moderno.

Mas passando por cima das considerações sérias (— Mama, was sind das moderne menschen?) e voltando à minha sessão privada, a primeira coisa em que reparei foi no padrão: as riscas coloridas e oblíquas do genérico (e talvez da capa do argumento?) aparecem no primeiro episódio, na fronha da almofada de Mirabelle. A minha atenção desvia-se sempre para estes pormenores sem importância pelo que sou levada a pensar que também há um jeito amador de ver um filme. Também gosto da palavra diletante.

De alma tão leve como sombra de borboleta

Christoph Robbé perdeu todos os dentes num só dia. A coisa começou pela manhã e ao princípio da tarde já não restava nenhum na arcada superior. “Apesar de tudo”, pensou, “a situação não é grave, pois restam-me vários na arcada inferior”. Mas tinha acabado de pensar isto quando caiu mais um.
Seguiu então, como habitualmente, pela Avenida Bommel e, detendo-se por momentos na frente de uma tabacaria para ler os títulos dos jornais, perdeu outro. As coisas começavam a ficar feias. Christoph tirou um lenço, assoou o nariz e caiu outro ainda. Apanhou-o e observou-o entre os dedos: era o molar que o incomodava há anos e que o dentista declarara sempre, contra todas as evidências, saudável e cheio de vida.
Entretanto, a própria língua começara a empurrar um incisivo com a maliciosa intenção de pô-lo fora da boca, o que veio a suceder por volta das três da tarde. Christoph arranjou a gravata, passou a mão pelo cabelo, olhou o horizonte com ar sonhador, imaginou prados cobertos de papoilas, deu alguns passos decididos e caíram sete dentes de uma vez. “Os dentes têm uma maneira muito própria de se expressarem”, pensou filosoficamente. E acrescentou em voz alta, por dentro, para si mesmo: “É uma coisa que salta logo à vista.” Nesse preciso instante, o penúltimo dente caiu no chão e deu dois pulos à sua frente.
Chegou, por fim, a noite, mas também não trouxe nada de bom. Sobrava um único dente. Um triste, desolado e solitário canino do lado direito. Foi quando aconteceu aquele clarão branco. E o dente voou, de alma tão leve como sombra de borboleta, para muito longe.

Doutor Avalanche, p. 47.

Terça-feira, Outubro 5


O Lobo do Mar, de Michael Curtiz (argumento de Robert Rossen sobre romance de Jack London), com Edward G. Robinson, Ida Lupino, John Garfield. Logo às 22h00, no cine estúdio do Campo Alegre.

Segunda-feira, Outubro 4

- Tens muito trabalho?
- Sim, bastante. Escrevo dois artigos por semana para o jornal, faço a crítica literária e acabo de escrever um conto...
- A respeito de quê?
- Dos maus tratos que o administrador de uma cidadezinha de província infligia aos comerciantes...
- Sim, isso deve filiar-se no realismo literário - admitiu Oblomov.
- Não é verdade? - o literato parecia muito satisfeito. - A ideia que eu quero exprimir é esta (e tenho a certeza de que se trata de uma ideia nova e audaciosa): um viajante que passa pela cidade testemunha uma das tareias e queixa-se ao governador. O governador ordena a um funcionário que vá à cidade em comissão de serviço para averiguar discretamente a queixa e saber tudo o que for possível a respeito da índole e conduta do administrador. O funcionário promove uma reunião de comerciantes com o pretexto de falar de negócios e pergunta-lhes o que pensam do administrador. E que imaginas tu? Aquela malta desfaz-se em sorrisos e coloca o administrador nos cornos da lua. O funcionário indaga junto de outras instâncias e informam-no de que os comerciantes são uns canalhas sem escrúpulos, que vendem mercadorias deterioradas, roubam no peso, intrujam o fisco, vivem no deboche, e que portanto as tareias são o menos que eles merecem...
- Portanto os punhos do administrador desempenham o papel do Fado das tragédias clássicas? - perguntou Oblomov.
- Nem mais nem menos - aquiesceu Penkine. - És dotado de grande sensibilidade, Ilia Iliitch, devias ser escritor! Creio que consegui mostrar de uma penada a tirania do administrador e a degradação do povo; os métodos detestáveis adoptados pelo funcionário averiguante e a necessidade de medidas severas mas justas. Não achas que se trata de uma ideia de certo modo... nova?
- Sim, especialmente para mim - concordou Oblomov. - Leio tão pouco!
- Isso é verdade, não se vêem muitos livros no teu quarto! - disse Penkine. - Mas imploro-te que leias uma coisa, um magnífico poema que vai ser publicado, uma verdadeira denúncia pública, assim se lhe pode chamar, intitulado O Amor de um Concussionário por Uma Mulher Perdida. Não te posso revelar ainda o nome do autor, constitui segredo.
- E de que trata?
- Denuncia todo o mecanismo da nossa vida social, de uma maneira poética. Toca todas as teclas e todos os degraus da escala social. O autor cita, como perante um tribunal, um estadista franco e vicioso e um enxame de funcionários corruptos que o enganam; aparecem todas as espécies de mulheres perdidas... francesas, alemãs, finlandesas; e é tudo descrito com um realismo maravilhoso e incrível... Ouvi recitar passagens do poema: o autor é um génio. Uma pessoa sente-se tentada a compará-lo a Dante, a Shakespeare...

Ivan Goncharov, Oblomov, o Magnífico Preguiçoso. Tradução de Daniel Gonçalves.
O SABOR DO CINEMA regressa no próximo domingo ao Auditório de Serralves com «uma obra deliciosamente mordaz mas pouco conhecida de Eric Rohmer – AS QUATRO AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE

Domingo, Outubro 3

Strangers talk only about the weather #107

Sábado, Outubro 2

Um passarinho malicioso

Lazaros Leumorfis tinha o hábito de segurar a cabeça com as mãos porque acreditava que a qualquer momento esta podia desprender-se do pescoço e cair ao chão. Por isso, nunca se distraía da sua importante tarefa, segurando a cabeça com o maior zelo de que era capaz.
Mas fosse porque algum passarinho malicioso lhe soprara qualquer coisa ao ouvido, fosse por outro motivo que não procurarei determinar, o certo é que houve um momento em que Lazaros se distraiu e largou a cabeça. Esta caiu instantaneamente ao chão, saltou duas ou três vezes com a elasticidade de uma bola de borracha, e rolou rua abaixo e em contramão, rumo à Place Dauphine, que brilhava lá ao longe.
Em que estado de espírito se encontrou Lazaros depois deste infeliz acontecimento, é algo que não nos atrevemos sequer a imaginar. Diremos apenas que não se poupou a esforços para recuperar a cabeça, procurando-a por toda a parte, durante dias a fio. E de bom grado teria continuado a procurá-la se entretanto vários assuntos de maior importância o não tivessem chamado a outro lado.

Doutor Avalanche, p. 17.
Linha D (Repérage). Quando o metro regressa à superfície, já muito perto do Hospital de São João, atravessa um campo de ervas altas e plumas.

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Sexta-feira, Outubro 1

Também gostava de traduzir os textos da Laurie Anderson para japonês.
E, já agora, cá vai a minha teoria a propósito da pontuação: em vez de um ponto final no fim de cada frase devia haver um pequeno relógio que indicasse o tempo que levámos a escrevê-la.
Laurie Anderson, the end of the moon