Terça-feira, Agosto 31
Vinte quatro personagens principais, quase todas nervosas ou intriguistas (em alguns casos, nervosas e intriguistas). Maria Timoféievna Lebiádkina é uma walseriana pura e Aleksei Nílitch Kiríllov fala russo como se estivesse a lutar com as palavras. Não parecem pertencer à história, apesar de intimamente implicados em tudo o que se passa. Digamos que têm um ar alheado, que recuperam de uma doença? São as minhas personagens preferidas d' Os Demónios.
O que esse livro significa exatamente para você?
Ele nunca foi incluído em minha “Obra poética”, porque até hoje eu não sei o que ele é. Só o publiquei quando me tornei autor da José Olympio. Ele tem uma linguagem muito inventada, como o “Roçzeiral”. E tem poemas com palavras soltas — é, provavelmente, um precursor da poesia concreta. É resultado da busca de novos caminhos. É totalmente arbitrário, às vezes chega a ser uma maluquice. O final é mais louco ainda. Eu não sabia como acabar o livro, então peguei uma caneta preta e outra vermelha, contei uma história com a preta, outra com a vermelha, e depois datilografei tudo em uma cor só. Não importa o que ele seja: ao terminá-lo, eu tinha reconstituído a minha possibilidade de escrever.
Ferreira Gullar.
Ele nunca foi incluído em minha “Obra poética”, porque até hoje eu não sei o que ele é. Só o publiquei quando me tornei autor da José Olympio. Ele tem uma linguagem muito inventada, como o “Roçzeiral”. E tem poemas com palavras soltas — é, provavelmente, um precursor da poesia concreta. É resultado da busca de novos caminhos. É totalmente arbitrário, às vezes chega a ser uma maluquice. O final é mais louco ainda. Eu não sabia como acabar o livro, então peguei uma caneta preta e outra vermelha, contei uma história com a preta, outra com a vermelha, e depois datilografei tudo em uma cor só. Não importa o que ele seja: ao terminá-lo, eu tinha reconstituído a minha possibilidade de escrever.
Ferreira Gullar.
Sapatos de camurça
Um homem encontra-se a meio do seu habitual passeio dominical. Solta, aqui e ali, algumas tossidelas secas de inefável estatuto. Parece muito orgulhoso dos seus novos e imponentes sapatos de camurça: levanta tanto o nariz que o chapéu mal se segura na cabeça. De repente, sem dar por isso, esmaga violentamente uma formiga. Alguns metros à frente, uma grua que assistira muito impressionada à pavorosa tragédia da formiga, finge uma indisposição, deixa-se cair e, no meio do maior estrondo, esmaga o homem.
No dia seguinte, como sempre, os jornais ignoram todos estes factos e relatam uma história escandalosamente diferente.
No dia seguinte, como sempre, os jornais ignoram todos estes factos e relatam uma história escandalosamente diferente.
Segunda-feira, Agosto 30
"Caravana", segundo Manuel Resende
Tags: Caravana, Doutor Avalanche, Adília Lopes, José Rodrigues dos Santos, fantasma do Prof. Jorge de Sena.
Outros filmes de Manuel Resende aqui.
Los novelistas y los editores creen que una novela es más importante que un cuento. No les creas. Sólo es más larga.
Los cuentistas afirman que el cuento es el género más difícil. Tampoco les creas. Sólo es más corto.
Abelardo Castillo, "Ser Escritor".
Los cuentistas afirman que el cuento es el género más difícil. Tampoco les creas. Sólo es más corto.
Abelardo Castillo, "Ser Escritor".
Ratos sim, mas o rato está do lado do poeta, luta contra o sistema, mina-o e contamina-o numa batalha sem quartel que dura desde a primeira cidade dos homens e só acabará com a última.
Julio Cortázar, Papéis inesperados. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Julio Cortázar, Papéis inesperados. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Domingo, Agosto 29
Há lá romance mais estival?
Mas não agora. Depois do humor torcido de Flannery O'Connor, e graças à amável disponibilidade da Biblioteca, passo para o humor demoníaco de Dostoievski. Arrumado, como mandam as normas de higiene e segurança, na subsecção "chá preto e cigarros".
As palavras de Flannery O'Connor projectam uma sombra poderosa sobre quem as lê. Nos contos acontece de um modo fulgurante como, imagino, se disparassem sobre nós — esse instante terrível em que as personagens perdem o pé e nos arrastam quer para baixo quer para cima. O'Connor tem uma ideia muito definida e religiosa de ambas as direcções que esbarra e dá luta à minha propensão horizontal. Curiosamente só me dei conta disto tudo (e também de uma música de fundo que existe em toda a sua obra) ao ler os romances que seguem um ritmo mais insistente e repetitivo — de facto "Sangue Sábio" e "O Céu é dos violentos" avançam como uma cavalgada. Tenho de voltar ao princípio.
Sábado, Agosto 28
Wo aber Gefahr ist, wächst / Das Rettende auch
Em vez dos géneros (que podemos deixar para os alimentos), prefiro arrumar os livros 1. por afinidades (um trabalho de aranha, mas mais parecido com o Spider de Cronenberg do que com o bicho, que facilmente aproxima "O céu é dos violentos" de Hölderlin). Ou então 2. dentro de caixas (copiando Joseph Cornell). Por exemplo, a caixa de Flannery O'Connor forrada a um azul coruscante...
Sexta-feira, Agosto 27
Esta ideia de dividir os livros em géneros serve apenas para proteger os que não sabem ler nem escrever.
Miguel Esteves Cardoso no Ípsilom de hoje.
Miguel Esteves Cardoso no Ípsilom de hoje.
Things Werner Herzog and Errol Morris have done together:
Visited serial killer Ed Kemper in prison
Visited Plainfield, Wisconsin, to investigate the murderer Ed Gein
Dug up Ed Gein’s mother’s grave to see if she was still there (almost)


...
Werner Herzog: And I showed up in Plainfield.
Errol Morris: And so there was this horrible realization: he’s actually going to do it. And I have to say, I did get scared. I had this picture—you know, I was always really—I probably still am—trying to please my mother. I had already been thrown out of these various graduate schools. I was a ne’er-do-well, and down for the count, and I saw my life flashing before my eyes. I saw myself arrested with the Germans. I saw this full moon. I saw the Plainfield police. I saw the police photographers. I saw myself being led away with the Germans in handcuffs, the complete disgrace.
So this is an opportunity to apologize. I apologize for not showing up.
WH: I have to apologize for something else, because my car had broken down and there was no mechanic in the mile out there. There was a wreckage yard, and I fell in love with the guy who fixed my car.
EM: Clayton Schlapinski.
WH: Yes, Clayton Schlapinski. And I said that we were going to do a film there in Plainfield, and that really upset Errol a lot. He thought I was a thief without loot. This was his country, his territory, his Plainfield, and I shot in Plainfield. I shot a film, Stroszek, which I think is forgotten and forgiven by now, and we can maintain friendship over this now.
EM: I told Werner: For you to steal a character or a story isn’t real theft. But to steal a landscape, that is a very, very serious crime.
WH: I understand that. I take it to heart, but there actually is a film out there, and we can’t take it off the map.
EM: It’s a very good film.
WH: It has a beautiful end with a dancing chicken, and I really like it.
EM: Yes.
WH: But what might be interesting is what somehow creates movies. What sort of odd fascinations, and they return in a very different form somewhere. And even I forgot about putting the head to the ground and banging the ground and listening whether there was anything hollow. And all of a sudden in the film that I just finished and showed yesterday, something similar like that in staged form appears.
EM: And it’s a wonderful scene.
WERNER HERZOG IN CONVERSATION WITH ERROL MORRIS
Visited Plainfield, Wisconsin, to investigate the murderer Ed Gein
Dug up Ed Gein’s mother’s grave to see if she was still there (almost)


...
Werner Herzog: And I showed up in Plainfield.
Errol Morris: And so there was this horrible realization: he’s actually going to do it. And I have to say, I did get scared. I had this picture—you know, I was always really—I probably still am—trying to please my mother. I had already been thrown out of these various graduate schools. I was a ne’er-do-well, and down for the count, and I saw my life flashing before my eyes. I saw myself arrested with the Germans. I saw this full moon. I saw the Plainfield police. I saw the police photographers. I saw myself being led away with the Germans in handcuffs, the complete disgrace.
So this is an opportunity to apologize. I apologize for not showing up.
WH: I have to apologize for something else, because my car had broken down and there was no mechanic in the mile out there. There was a wreckage yard, and I fell in love with the guy who fixed my car.
EM: Clayton Schlapinski.
WH: Yes, Clayton Schlapinski. And I said that we were going to do a film there in Plainfield, and that really upset Errol a lot. He thought I was a thief without loot. This was his country, his territory, his Plainfield, and I shot in Plainfield. I shot a film, Stroszek, which I think is forgotten and forgiven by now, and we can maintain friendship over this now.
EM: I told Werner: For you to steal a character or a story isn’t real theft. But to steal a landscape, that is a very, very serious crime.
WH: I understand that. I take it to heart, but there actually is a film out there, and we can’t take it off the map.
EM: It’s a very good film.
WH: It has a beautiful end with a dancing chicken, and I really like it.
EM: Yes.
WH: But what might be interesting is what somehow creates movies. What sort of odd fascinations, and they return in a very different form somewhere. And even I forgot about putting the head to the ground and banging the ground and listening whether there was anything hollow. And all of a sudden in the film that I just finished and showed yesterday, something similar like that in staged form appears.
EM: And it’s a wonderful scene.
WERNER HERZOG IN CONVERSATION WITH ERROL MORRIS
Falhar melhor

Eu gosto do Bruno Stroszek. Chegar àquele ponto — a que os especialistas facilmente chamariam de ruptura — e ter ainda — falta-me uma palavra exacta que misture euforia do corpo e silêncio do pensamento, mas digamos, por exemplo, genica para pôr uma carrinha, um teleférico e uma galinha em movimento circular, num rodopio tal que ficamos de boca aberta, sem perceber e no entanto, mesmo assim, percebendo alguma coisa, porque no meio da nossa grande ignorância percebemos sempre qualquer coisa. Ah bom! isso é admirável.

Temos aqui uma carrinha a arder. Está um homem no teleférico e não conseguimos desligá-lo. Não conseguimos parar a galinha dançante. Enviem um electricista. Ficamos a aguardar. Terminado.
Quinta-feira, Agosto 26
O gato morto
Um homem batia num gato morto. Batia-lhe com toda a força, ventilando ao mesmo tempo os seus sentimentos de desprezo por meio dos piores insultos que jamais foram dirigidos a um gato. Ora, estando morto, o bicho evidentemente não reagia. Mas nem por isso o homem parecia disposto a parar. Pelo contrário: cada vez mais encarniçado, batia-lhe umas vezes nas costas, outras nas patas, outras no focinho, puxando-lhe outras vezes a cauda e os bigodes. Numa palavra, assentava-lhe bem as costuras. Isto prolongou-se durante longos minutos, só abrandando quando se sentiu fatigado e quando já não havia no corpo do bicho um lugar sequer que não estivesse macerado. Foi então que de repente o gato se lançou furiosamente sobre o homem e lhe esgadanhou a cara com tal ímpeto que só por um incrível rasgo de sorte lhe não arrancou o nariz e as orelhas.
Setembro
As vozes do silêncio em Bragança.
Griffith na Biblioteca Almeida Garret.
Reabertura do Teatro do Campo Alegre com Meu filho, olha o que fizeste!, de Werner Herzog.
Seguem-se Canino, O Casamento a três, Arrependimentos, A Dança.
E as Terças Clássicas a partir de 7, com Dietrich e Lubitsch.
Griffith na Biblioteca Almeida Garret.
Reabertura do Teatro do Campo Alegre com Meu filho, olha o que fizeste!, de Werner Herzog.
Seguem-se Canino, O Casamento a três, Arrependimentos, A Dança.
E as Terças Clássicas a partir de 7, com Dietrich e Lubitsch.
Às vezes, ao ler as histórias de Flannery O'Connor, tenho a sensação de ouvir Tom Waits ao fundo, a assobiar uma canção desconjuntada. É uma imagem esperada e interior, quer dizer, feita no interior da minha cabeça, exterior ao livro, à matéria do livro — sem qualquer importância ou, talvez seja melhor assim, sem movimento. O que me surpreendeu, verdadeiramente me surpreendeu com a força de um trovão, ao ler O Mundo é dos violentos (The Violent Bear It Away no original e O céu é dos violentos na mais recente edição da Cavalo de Ferro) foi a imagem de Nino no restaurante com o tio e o primo, irritado, a anotar o preço da refeição para mais tarde ajustar contas (da primeira à última página, Tarwater não faz mais do que ajustar contas, mas não sabemos nunca muito bem com ou contra quem). Depois lembrei-me da visita ao Aquário, das tartarugas e da fuga nessa cidade estranha. Sim, Nino, o miúdo selvagem como um gato do filme de Pedro Costa. Fora da minha cabeça, desconhecido, intocável, real, enfiado no seu blusão. Ali estava ele.
Quarta-feira, Agosto 25
Já agora: até quando vamos continuar colados às bibliotecas? Dia a dia sinto que as aparentemente liquidadas torres de marfim continuam habitadas em todos os seus pisos e até no sótão por uma raça de escribas que se horripila com qualquer acto extraliterário dentro da literatura, entendendo que esta nasce do homem como um gesto de conformismo e não com o movimento livre de Prometeu ao roubar o fogo ao gorila do seu tempo.
Julio Cortázar, Papéis inesperados. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Julio Cortázar, Papéis inesperados. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
A tagarelice de Novalis
«Quando se fala e quando se escreve acontece algo de louco: a verdadeira conversa é um puro jogo de palavras. Temos apenas de ficar surpreendidos se, devido a um erro irrisório, as pessoas pensam falar pelas coisas. Todos ignoram, precisamente, o que a linguagem tem de peculiar, o facto de se preocupar apenas consigo própria. Por isso é um mistério tão admirável e proveitoso — a ponto de, se uma pessoa falar apenas por falar, exprimir as verdades mais esplêndidas, mais originais. Mas se quiser falar de alguma coisa determinada, a linguagem caprichosa faz com que diga as coisas mais irrisórias e descoordenadas. Daí nasce também o ódio que algumas pessoas sérias têm em relação à linguagem. Observam os seus caprichos, mas não observam que a tagarelice desprezível é o lado infinitamente sério da linguagem. Se fosse possível fazer com que as pessoas percebessem que com a linguagem as coisas são exactamente como com as fórmulas matemáticas — que constituem um mundo à parte, jogam apenas consigo mesmas, não exprimem senão a sua natureza prodigiosa, e precisamente por isso são tão expressivas — precisamente por isso se espelha nelas o estranho jogo de relações das coisas. Só através da sua liberdade elas são articulações da natureza e só nos seus livres movimentos se manifesta a alma do mundo e faz delas uma delicada medida e perfil das coisas. O mesmo vale para a linguagem: quem tem um sentido subtil do seu dedilhado, do seu tempo, do seu espírito musical, quem sente em si o delicado operar da sua natureza íntima e, seguindo-a, move a sua língua ou a sua mão, será um profeta; por outro lado, quem sabe isso, mas não tem ouvido suficiente e capacidade para escrever semelhantes verdades, será ridicularizado pela própria linguagem e pelos homens, como Cassandra pelos Troianos. Se, com isto, creio ter indicado do modo mais claro a essência e a função da poesia, no entanto eu sei que nenhum homem o poderá perceber e que terei dito algo de tolo precisamente porque o quis dizer, e desse modo não nasceu nenhuma poesia. E se, pelo contrário, me sentisse obrigado a falar? e se este impulso linguístico para falar fosse a marca da inspiração da linguagem, da acção da linguagem sobre mim? e se também a minha vontade quisesse só aquilo a que eu fosse obrigado ou cresse, ser poesia e tornar compreensível o mistério da linguagem? e serei então eu um escritor por vocação, dado que um escritor é somente alguém que foi entusiasmado pela linguagem?»
Novalis citado por Roberto Calasso em A Literatura e os Deuses
Novalis citado por Roberto Calasso em A Literatura e os Deuses
Terça-feira, Agosto 24
O consentimento de Melanie Renoir (e outros estudos cinematográficos)
Uma imensa distância separa o aksara do lógos joanino. Lógos é um discurso articulado, uma concatenação de significados. Aksara é uma vibração irredutível, que antecede o significado, que o compõe, mas que não se deixa absorver por ele. Quando aksara, a Grande Sílaba, for identificada com um som, será om, que é uma interjeição e não um substantivo. Om é «a sílaba que exprime o assentimento». Antes de afirmar alguma coisa sobre o mundo, o aksara é um sinal de assentimento em relação ao mundo. No momento exacto em que se começa a articular, a palavra aprova o mundo. E esse momento permanecerá preoeminente em relação a qualquer significado que for, mais tarde, atribuído no mundo, assim como o momento do despertar ressalta no fluxo da consciência. Ainda hoje, «o grito OM! é o som mais comum que se ouve durante o sacríficio». Um incessante sim envolve todos os gestos e todas as palavras. Esse sim ao todo da existência, que para Nietzsche devia coincidir com a revelação do eterno retorno, acompanhava desde sempre todos os rituais védicos, era o seu halo sonoro.
Roberto Calasso, A Literatura e os Deuses, tradução de Clara Rowland, Gótica, Lisboa, 2003.
Roberto Calasso, A Literatura e os Deuses, tradução de Clara Rowland, Gótica, Lisboa, 2003.
Não sei se é gralha, intenção deliberada, distracção dos dedos, ou sabe-se lá o quê, porque Vila-Matas não é um tipo em quem se possa confiar a esse ponto: na página 199 Da Cidade Nervosa (Campo das Letras, 2006), graças à troca de uma letra, Walser transforma-se num verdadeiro caminhante, quer dizer, o sujeito transforma-se no verbo e desaparece:
E tem uma característica que ainda a minimiza mais: não se desenvolve demasiado, quase recorda essa prosa dos contos de Robert Walker que é uma prosa indefinidamente extensível, elástica, desprovida de esqueleto, prolongada tagarelice que oculta a ausência de qualquer progresso.
«At certain times I have preferred walking that is to say walking with my feet to talking that is to say walking with my mouth – but in the end it is the same thing.» Serge Daney, Perseverance
Sexta-feira, Agosto 13
Rua da Restauração
É o melhor sítio para trabalhar: sobre as ruínas do Convento de Monchique, sobre o rio, ao lado dos jardins e da Biblioteca do Palácio (que tem livros novos e apetecíveis da Relógio d'Água e os dois volumes da colecção Werner Herzog), perto da Index (com saldos de 20% até ao fim do mês).
Hoje já não tenho nada para fazer nem arrumar: vou lá abaixo à cozinha comer qualquer coisa, fumo um cigarro no quintal, encosto as portadas e ensaio o assombro das histórias de Alice Munro ("Fugas", traduzidas por Margarida Vale de Gato).
Isto também serve para dizer que vamos de férias até ao fim de Agosto. Os dias felizes ficam por conta da música do verão.
— Mas o que é "a música do verão"?
Hoje já não tenho nada para fazer nem arrumar: vou lá abaixo à cozinha comer qualquer coisa, fumo um cigarro no quintal, encosto as portadas e ensaio o assombro das histórias de Alice Munro ("Fugas", traduzidas por Margarida Vale de Gato).
Isto também serve para dizer que vamos de férias até ao fim de Agosto. Os dias felizes ficam por conta da música do verão.
— Mas o que é "a música do verão"?
It is among the common people that you find grace
Who are the young dancers in Degas’ ballet paintings? We know the names of only a few. But many of them came from working-class families and became dancers at the Opera-Ballet to add to their parents’ income. Some of their mothers were the laundresses Degas depicted in his art; their fathers may have been tailors, factory workers, or day laborers.
Degas, himself from a wealthy family, wrote in his diary: "It is among the common people that you find grace." Throughout his career the artist made images of milliners, laundresses, and dancers, finding great dignity in honest labor.
from The Dance Lesson, by Edgar Degas. Para a Ana.
Degas, himself from a wealthy family, wrote in his diary: "It is among the common people that you find grace." Throughout his career the artist made images of milliners, laundresses, and dancers, finding great dignity in honest labor.
from The Dance Lesson, by Edgar Degas. Para a Ana.
Quinta-feira, Agosto 12
FREDERICK WISEMAN: É exactamente isso: quando olho para os corpos dos bailarinos, para os seus movimentos, lembro–me dos movimentos das pessoas que encontramos todos os dias a descer a rua.
FREDERICK WISEMAN: Well, I mean, I define the result of saying it's a movie. But the editing of one of my movies is a lot like writing. It's like writing a novel or a play except that a novelist is limited only by his imagination and his talent. A filmmaker is limited by the material you have in the rushes. But with 130 hours of rushes, I have a wide range of choice, so I have to study them and I have to figure out what I think material means. So in a literal sense the movie is a report on what I've found and what it's like to run a ballet company.
But in an abstract sense, it's a movie with a story — with a beginning, a middle and an end — which deals, at least in my mind, with complex ideas, ideas that I think are complicated about dance and movement and the nature of ballet and the passage of time.
But in an abstract sense, it's a movie with a story — with a beginning, a middle and an end — which deals, at least in my mind, with complex ideas, ideas that I think are complicated about dance and movement and the nature of ballet and the passage of time.
As minhas colecções (10): uma das empregadas da cantina da Porto Editora estava a fumar um cigarro junto ao portão; aproveitava o sol (e a passagem do tempo). Se eu fosse um dos irmãos Lumière, era isso que filmava — o momento de pausa (café e cigarros).
Quarta-feira, Agosto 11
Terça-feira, Agosto 10
I was surprised when I came into Mother’s room in the nursing home to see that the TV set was on. The program was teenagers dancing to rock-and-roll. I asked Mother how she liked the new music.
She said, “Oh, I’m not fussy about music.” Then, brightening up, she went on, “You’re not fussy about music either.” John Cage
Segunda história do nono dia do Decâmeron
Sabereis, pois, que há na Lombardia um mosteiro muito famoso pela sua santidade e religião. Entre outras freiras que ali se encontravam, contava-se uma juvenil dama de sangue nobre, e dotada de maravilhosa beleza.
Chamava-se Isabetta, e um dia em que seus pais tinham vindo vê-la ao locutório, trazendo em sua companhia um belo mancebo, a donzela apaixonou-se por ele.
Pela sua parte, o belo mancebo, vendo-a tão formosa, e lendo em seus olhos o que a dama desejava, sentiu-se igualmente inflamado em amor, e ambos sofreram por algum tempo em silêncio a sua paixão, sem obterem o menor resultado.
Finalmente, impelidos ambos pelo mesmo desejo, o mancebo encontrou meio de ver secretamente a sua querida freirinha, com o que ela ficou tão contente, que o obrigou a renovar as visitas com grande prazer de uma parte e outra.
Como esta hábil manobra continuasse, sucedeu ser visto o audacioso amante por algumas freiras. (...) Isabetta, não desconfiando disto e ignorando tudo, foi continuando nos seus amores, e mandou certa noite chamar o seu amante, o que souberam logo as que a andavam espreitando.
Quando julgaram chegada a ocasião, porquanto havia já decorrido uma boa parte da noite, dividiram-se em dois grupos, um dos quais ficou a fazer sentinela à porta da cela de Isabetta, e o outro correu ao quarto da abadessa, a bater-lhe à porta. Quando ela respondeu, uma das freiras disse-lhe:
- Venerável madre, venerável madre, levante-se depressa porque acabamos de descobrir que Isabetta tem um rapaz metido na sua cela.
Nessa mesma noite a abadessa estava em companhia de um padre, que introduzia muitas vezes no seu dormitório dentro de uma arca. Ouvindo toda esta bulha, e receando que as freiras por demasiada precipitação ou por maus desejos, empurrassem a porta, levantou-se precipitadamente, e vestiu-se o melhor que pôde. Imaginando pôr certo véu que as freiras trazem na cabeça, e que elas chamam psaltério, pegou nos calções do padre, e tamanha foi a sua pressa, que, sem dar por isso, ajeitou-os na cabeça em lugar do psaltério, e saiu do quarto, fechando cuidadosamente a porta e dizendo:
- Onde está essa maldita de Deus?
Boccaccio, Decâmeron, Vol. III. Tradução de Joaquim Lopes de Macedo.
Chamava-se Isabetta, e um dia em que seus pais tinham vindo vê-la ao locutório, trazendo em sua companhia um belo mancebo, a donzela apaixonou-se por ele.
Pela sua parte, o belo mancebo, vendo-a tão formosa, e lendo em seus olhos o que a dama desejava, sentiu-se igualmente inflamado em amor, e ambos sofreram por algum tempo em silêncio a sua paixão, sem obterem o menor resultado.
Finalmente, impelidos ambos pelo mesmo desejo, o mancebo encontrou meio de ver secretamente a sua querida freirinha, com o que ela ficou tão contente, que o obrigou a renovar as visitas com grande prazer de uma parte e outra.
Como esta hábil manobra continuasse, sucedeu ser visto o audacioso amante por algumas freiras. (...) Isabetta, não desconfiando disto e ignorando tudo, foi continuando nos seus amores, e mandou certa noite chamar o seu amante, o que souberam logo as que a andavam espreitando.
Quando julgaram chegada a ocasião, porquanto havia já decorrido uma boa parte da noite, dividiram-se em dois grupos, um dos quais ficou a fazer sentinela à porta da cela de Isabetta, e o outro correu ao quarto da abadessa, a bater-lhe à porta. Quando ela respondeu, uma das freiras disse-lhe:
- Venerável madre, venerável madre, levante-se depressa porque acabamos de descobrir que Isabetta tem um rapaz metido na sua cela.
Nessa mesma noite a abadessa estava em companhia de um padre, que introduzia muitas vezes no seu dormitório dentro de uma arca. Ouvindo toda esta bulha, e receando que as freiras por demasiada precipitação ou por maus desejos, empurrassem a porta, levantou-se precipitadamente, e vestiu-se o melhor que pôde. Imaginando pôr certo véu que as freiras trazem na cabeça, e que elas chamam psaltério, pegou nos calções do padre, e tamanha foi a sua pressa, que, sem dar por isso, ajeitou-os na cabeça em lugar do psaltério, e saiu do quarto, fechando cuidadosamente a porta e dizendo:
- Onde está essa maldita de Deus?
Boccaccio, Decâmeron, Vol. III. Tradução de Joaquim Lopes de Macedo.
Segunda-feira, Agosto 9
Domingo, Agosto 8
Embora seja o autor do manifesto neoconcreto, [Ferreira] Gullar, que foi aplaudido em diversos momentos da apresentação, criticou os manifestos nas artes por se inspirarem e serem semelhantes aos dos políticos, ou seja, com muitas promessas que não serão cumpridas.
Aqui.
Aqui.
Sábado, Agosto 7
Dor de dentes
Por causa de uma violenta dor de dentes, Hugo Salinas mal dormia e mal comia. Para acabar com aquilo, tomou um comprimido. A dor não passou, mas para sua surpresa nasceu um dedo suplementar na sua mão direita. Uma mão com seis dedos. Uma coisa abominável.
O dente continuou a doer terrivelmente. À força de desesperar, tomou um segundo comprimido. A dor não diminuiu, mas o nariz transformou-se numa espécie de grande bola achatada com o assombroso tamanho de um melão. Hugo sentiu-se enlouquecer. Para cúmulo da desgraça, a dor parecia mergulhar ainda mais fundo na carne e espalhar-se por toda a parte.
Maldizendo a sorte, tomou então um terceiro comprimido. De imediato, nasceu uma boca monstruosa na sua nuca. Tinha agora duas bocas, pois. E o pior é que na boca da nuca irrompeu uma fulminante, atroz e medonha dor de dentes. Hugo sentiu-se horrorizado em todas as fibras do seu ser. E à falta de melhor solução, duplicou a dose de comprimidos.
O dente continuou a doer terrivelmente. À força de desesperar, tomou um segundo comprimido. A dor não diminuiu, mas o nariz transformou-se numa espécie de grande bola achatada com o assombroso tamanho de um melão. Hugo sentiu-se enlouquecer. Para cúmulo da desgraça, a dor parecia mergulhar ainda mais fundo na carne e espalhar-se por toda a parte.
Maldizendo a sorte, tomou então um terceiro comprimido. De imediato, nasceu uma boca monstruosa na sua nuca. Tinha agora duas bocas, pois. E o pior é que na boca da nuca irrompeu uma fulminante, atroz e medonha dor de dentes. Hugo sentiu-se horrorizado em todas as fibras do seu ser. E à falta de melhor solução, duplicou a dose de comprimidos.
Sexta-feira, Agosto 6
Fordiano
Metade das páginas d' O Coração dos Ponders, de Eudora Welty, são passadas dentro de um tribunal (em Clay, Mississipi) que é, sem tirar nem pôr, um tribunal fordiano.
O julgamento de Daniel Ponder ainda mal começou quando o Juiz interrompe a menina Teacake:
O julgamento de Daniel Ponder ainda mal começou quando o Juiz interrompe a menina Teacake:
«Só um momento», disse o Juiz. «A criada da Sra. Edna Earle está à porta a perguntar quantos dos presentes pretendem almoçar no hotel. Proponho que os interessados levantem o braço», e foi o primeiro a levantá-lo.
A espantosa realidade das cousas
As rendas das casas baixaram por causa da crise e isso trouxe mais imigrantes e miúdos para o meu bairro: cores e sotaques diferentes, meninas de tranças e um rapazinho reguila saído de um filme de Ozu. Encontro-os nos autocarros e nos supermercados. São eles que fazem a cidade mais cosmopolita — à revelia do provincianismo local. É assim que as coisas mudam.
Quinta-feira, Agosto 5
Ah, die Geschichte kenn' ich ja,
Foi por um triz que Jakob von Gunten e a Branca de Neve não se encontraram na caixa do correio.
Apesar de já se ter tornado cristão na Tunísia, Tertuliano ainda escreve: «As almas que não conheceram a voluptuosidade sexual estão eivadas do despeito da vida falhada. A fecundidade em falta torna-as más.» É aquilo a que os filósofos alemães chamavam a Sehnsucht, a nostalgia perigosa. É a sentimentalidade terrível.
Pascal Quignard, por Filipe Guerra, que está de regresso.
Pascal Quignard, por Filipe Guerra, que está de regresso.
Quarta-feira, Agosto 4
Nora Bayes, The Argentines, The Portuguese, and Greeks, 1920.
(...)
There are pretty girls, there are witty girls
There is every kind of a girl
Some you like a little, some a little more
But none of them will set your heart a whirl
When you really feel you’ve met your ideal
A girl with smart and chic
You will find she belongs to an Argentine or
A Portuguese or a Greek
They don’t know the language
They don’t know the law
But they vote in the country of the free
(...)
[Via Bertigo.]
(...)
There are pretty girls, there are witty girls
There is every kind of a girl
Some you like a little, some a little more
But none of them will set your heart a whirl
When you really feel you’ve met your ideal
A girl with smart and chic
You will find she belongs to an Argentine or
A Portuguese or a Greek
They don’t know the language
They don’t know the law
But they vote in the country of the free
(...)
[Via Bertigo.]
Terça-feira, Agosto 3
O mais próximo do que se pode considerar um milagre
Nada acontece por acaso. E a prova mais eloquente disso mesmo é a minha própria história. Eu explico: certo dia, enquanto mudava a água aos peixes, caí dentro do aquário. Nesse exacto instante, começou o período mais importante e feliz da minha vida. De resto, guardo na minha memória todos os pormenores desses momentos iniciais, como minúsculas pedras preciosas cujo brilho continua a estontear-me.
Caí na água, pois. E onde qualquer outra pessoa encontraria motivos para lançar pragas ao ar e abanar a cabeça com desprezo, eu achei tudo maravilhoso e magnífico. Reinava no interior do aquário um silêncio tão completo e uma calma tão plena que dir-se-ia que o meu próprio coração parara de bater. Recordo-me de ter adormecido profundamente e de ter despertado mais tarde, no meio de uma paz, que à falta de melhor palavra, chamarei absoluta. Nenhum som, nenhum murmúrio. Apenas a lenta e muda deslocação dos peixes em volta da minha cabeça.
O caso provocou uma forte emoção na minha mulher. Calcule-se o seu desespero. Quando me descobriu, imobilizado no interior do aquário, de cabeça para baixo, coberto de água, os olhos cresceram-lhe nas órbitas e o seu queixo caiu como uma pedra. Nos primeiros dias, tentou por todos os meios convencer-me a abandonar a minha nova morada. Mas perante a minha firme recusa, fez o que pôde para se acalmar. Em todo o caso, nunca se conformou. Ainda hoje, por vezes, desata a chorar, cobre a cara com as mãos e corre para o quarto.
No interior do aquário, o tempo é lento e tem uma tendência geral para ser ainda mais lento, anunciando a suprema lentidão. Tudo se repete como num espelho eterno: manhã, tarde, noite, e de novo a manhã, e o resto do dia, e a noite seguinte, num encadeamento rigoroso e eficaz. Mas a monotonia excita a imaginação. Nunca me senti tão livre como agora, mergulhado num pequeníssimo oceano, rodeado de peixes vermelhos e algas de plástico.
Na verdade, não sou capaz de descrever com rigor os momentos de rara felicidade e bem-estar que desde então tenho vivido neste mundo impoluto. É talvez o mais próximo do que se pode considerar um milagre. As vozes, ruídos e clamores tumultuosos que incessantemente se elevam do mundo exterior, só aqui chegam de longe a longe como o eco de um som cuja natureza ou origem não chega sequer a ser perceptível.
Gerações de homens precederam-nos e outras gerações viverão depois de nós sem nunca terem uma experiência parecida com a minha. Esses nunca serão capazes de me compreender.
Caí na água, pois. E onde qualquer outra pessoa encontraria motivos para lançar pragas ao ar e abanar a cabeça com desprezo, eu achei tudo maravilhoso e magnífico. Reinava no interior do aquário um silêncio tão completo e uma calma tão plena que dir-se-ia que o meu próprio coração parara de bater. Recordo-me de ter adormecido profundamente e de ter despertado mais tarde, no meio de uma paz, que à falta de melhor palavra, chamarei absoluta. Nenhum som, nenhum murmúrio. Apenas a lenta e muda deslocação dos peixes em volta da minha cabeça.
O caso provocou uma forte emoção na minha mulher. Calcule-se o seu desespero. Quando me descobriu, imobilizado no interior do aquário, de cabeça para baixo, coberto de água, os olhos cresceram-lhe nas órbitas e o seu queixo caiu como uma pedra. Nos primeiros dias, tentou por todos os meios convencer-me a abandonar a minha nova morada. Mas perante a minha firme recusa, fez o que pôde para se acalmar. Em todo o caso, nunca se conformou. Ainda hoje, por vezes, desata a chorar, cobre a cara com as mãos e corre para o quarto.
No interior do aquário, o tempo é lento e tem uma tendência geral para ser ainda mais lento, anunciando a suprema lentidão. Tudo se repete como num espelho eterno: manhã, tarde, noite, e de novo a manhã, e o resto do dia, e a noite seguinte, num encadeamento rigoroso e eficaz. Mas a monotonia excita a imaginação. Nunca me senti tão livre como agora, mergulhado num pequeníssimo oceano, rodeado de peixes vermelhos e algas de plástico.
Na verdade, não sou capaz de descrever com rigor os momentos de rara felicidade e bem-estar que desde então tenho vivido neste mundo impoluto. É talvez o mais próximo do que se pode considerar um milagre. As vozes, ruídos e clamores tumultuosos que incessantemente se elevam do mundo exterior, só aqui chegam de longe a longe como o eco de um som cuja natureza ou origem não chega sequer a ser perceptível.
Gerações de homens precederam-nos e outras gerações viverão depois de nós sem nunca terem uma experiência parecida com a minha. Esses nunca serão capazes de me compreender.
Segunda-feira, Agosto 2
Depois do almoço, fomos visitar o mais rico proprietário da aldeia, o senhor Williams. Encontrámo-lo na sua loja ocupado a vender a alguns Índios múltiplos objectos de pouco valor, como facas, colares de pérolas de vidro, brincos. Despertava compaixão ver como esses desgraçados eram tratados pelos seus irmãos civilizados da Europa. Aliás, todos os Índios que lá encontrámos faziam brilhantemente justiça aos selvagens. Eram bondosos, inofensivos, mil vezes menos inclinados para roubar do que o Branco. Porém, pena era que começassem a ficar mais esclarecidos sobre o preço das coisas, diziam-nos os comerciantes. E por que razão?, se faz favor. Porque o benefício que se retirava do comércio com eles tornava-se menor cada dia que passava. Observais aqui a superioridade do homem civilizado? O Índio teria afirmado na sua simplicidade ingénua que todos os dias lhe era mais difícil enganar o seu vizinho. No entanto, o Branco descobre no aperfeiçoamento da linguagem uma oportuna nuance que lhe permite exprimir a mesma coisa sem desonra.
Alexis de Tocqueville, "Quinze dias no deserto americano". Tradução de Bénédicte Houart.
Alexis de Tocqueville, "Quinze dias no deserto americano". Tradução de Bénédicte Houart.






