sexta-feira, Agosto 13

Summer songs #6

Rua da Restauração

É o melhor sítio para trabalhar: sobre as ruínas do Convento de Monchique, sobre o rio, ao lado dos jardins e da Biblioteca do Palácio (que tem livros novos e apetecíveis da Relógio d'Água e os dois volumes da colecção Werner Herzog), perto da Index (com saldos de 20% até ao fim do mês).
Hoje já não tenho nada para fazer nem arrumar: vou lá abaixo à cozinha comer qualquer coisa, fumo um cigarro no quintal, encosto as portadas e ensaio o assombro das histórias de Alice Munro ("Fugas", traduzidas por Margarida Vale de Gato).
Isto também serve para dizer que vamos de férias até ao fim de Agosto. Os dias felizes ficam por conta da música do verão.

Mas o que é "a música do verão"?

It is among the common people that you find grace

Who are the young dancers in Degas’ ballet paintings? We know the names of only a few. But many of them came from working-class families and became dancers at the Opera-Ballet to add to their parents’ income. Some of their mothers were the laundresses Degas depicted in his art; their fathers may have been tailors, factory workers, or day laborers.

Degas, himself from a wealthy family, wrote in his diary: "It is among the common people that you find grace." Throughout his career the artist made images of milliners, laundresses, and dancers, finding great dignity in honest labor.

from The Dance Lesson, by Edgar Degas. Para a Ana.

quinta-feira, Agosto 12

Summer songs #5

FREDERICK WISEMAN: É exactamente isso: quando olho para os corpos dos bailarinos, para os seus movimentos, lembro–me dos movimentos das pessoas que encontramos todos os dias a descer a rua.
FREDERICK WISEMAN: Well, I mean, I define the result of saying it's a movie. But the editing of one of my movies is a lot like writing. It's like writing a novel or a play except that a novelist is limited only by his imagination and his talent. A filmmaker is limited by the material you have in the rushes. But with 130 hours of rushes, I have a wide range of choice, so I have to study them and I have to figure out what I think material means. So in a literal sense the movie is a report on what I've found and what it's like to run a ballet company.

But in an abstract sense, it's a movie with a story — with a beginning, a middle and an end — which deals, at least in my mind, with complex ideas, ideas that I think are complicated about dance and movement and the nature of ballet and the passage of time.
As minhas colecções (10): uma das empregadas da cantina da Porto Editora estava a fumar um cigarro junto ao portão; aproveitava o sol (e a passagem do tempo). Se eu fosse um dos irmãos Lumière, era isso que filmava — o momento de pausa (café e cigarros).

quarta-feira, Agosto 11


Which brings us, interestingly enough, to Agapē Agape.

terça-feira, Agosto 10

I was surprised when I came into Mother’s room in the nursing home to see that the TV set was on. The program was teenagers dancing to rock-and-roll. I asked Mother how she liked the new music.
She said, “Oh, I’m not fussy about music.” Then, brightening up, she went on, “You’re not fussy about music either.” John Cage

Segunda história do nono dia do Decâmeron

Sabereis, pois, que há na Lombardia um mosteiro muito famoso pela sua santidade e religião. Entre outras freiras que ali se encontravam, contava-se uma juvenil dama de sangue nobre, e dotada de maravilhosa beleza.
Chamava-se Isabetta, e um dia em que seus pais tinham vindo vê-la ao locutório, trazendo em sua companhia um belo mancebo, a donzela apaixonou-se por ele.
Pela sua parte, o belo mancebo, vendo-a tão formosa, e lendo em seus olhos o que a dama desejava, sentiu-se igualmente inflamado em amor, e ambos sofreram por algum tempo em silêncio a sua paixão, sem obterem o menor resultado.
Finalmente, impelidos ambos pelo mesmo desejo, o mancebo encontrou meio de ver secretamente a sua querida freirinha, com o que ela ficou tão contente, que o obrigou a renovar as visitas com grande prazer de uma parte e outra.
Como esta hábil manobra continuasse, sucedeu ser visto o audacioso amante por algumas freiras. (...) Isabetta, não desconfiando disto e ignorando tudo, foi continuando nos seus amores, e mandou certa noite chamar o seu amante, o que souberam logo as que a andavam espreitando.
Quando julgaram chegada a ocasião, porquanto havia já decorrido uma boa parte da noite, dividiram-se em dois grupos, um dos quais ficou a fazer sentinela à porta da cela de Isabetta, e o outro correu ao quarto da abadessa, a bater-lhe à porta. Quando ela respondeu, uma das freiras disse-lhe:
- Venerável madre, venerável madre, levante-se depressa porque acabamos de descobrir que Isabetta tem um rapaz metido na sua cela.
Nessa mesma noite a abadessa estava em companhia de um padre, que introduzia muitas vezes no seu dormitório dentro de uma arca. Ouvindo toda esta bulha, e receando que as freiras por demasiada precipitação ou por maus desejos, empurrassem a porta, levantou-se precipitadamente, e vestiu-se o melhor que pôde. Imaginando pôr certo véu que as freiras trazem na cabeça, e que elas chamam psaltério, pegou nos calções do padre, e tamanha foi a sua pressa, que, sem dar por isso, ajeitou-os na cabeça em lugar do psaltério, e saiu do quarto, fechando cuidadosamente a porta e dizendo:
- Onde está essa maldita de Deus?

Boccaccio, Decâmeron, Vol. III. Tradução de Joaquim Lopes de Macedo.

segunda-feira, Agosto 9

Summer songs #4


Raparigas a mudar de roupa na Estrada Nacional 13

domingo, Agosto 8

Embora seja o autor do manifesto neoconcreto, [Ferreira] Gullar, que foi aplaudido em diversos momentos da apresentação, criticou os manifestos nas artes por se inspirarem e serem semelhantes aos dos políticos, ou seja, com muitas promessas que não serão cumpridas.
Aqui.

sábado, Agosto 7

Dor de dentes

Por causa de uma violenta dor de dentes, Hugo Salinas mal dormia e mal comia. Para acabar com aquilo, tomou um comprimido. A dor não passou, mas para sua surpresa nasceu um dedo suplementar na sua mão direita. Uma mão com seis dedos. Uma coisa abominável.
O dente continuou a doer terrivelmente. À força de desesperar, tomou um segundo comprimido. A dor não diminuiu, mas o nariz transformou-se numa espécie de grande bola achatada com o assombroso tamanho de um melão. Hugo sentiu-se enlouquecer. Para cúmulo da desgraça, a dor parecia mergulhar ainda mais fundo na carne e espalhar-se por toda a parte.
Maldizendo a sorte, tomou então um terceiro comprimido. De imediato, nasceu uma boca monstruosa na sua nuca. Tinha agora duas bocas, pois. E o pior é que na boca da nuca irrompeu uma fulminante, atroz e medonha dor de dentes. Hugo sentiu-se horrorizado em todas as fibras do seu ser. E à falta de melhor solução, duplicou a dose de comprimidos.

sexta-feira, Agosto 6


"The Rides, State Fair." Jackson, MS. 1935–1936. Eudora Welty as Photographer.

Fordiano

Metade das páginas d' O Coração dos Ponders, de Eudora Welty, são passadas dentro de um tribunal (em Clay, Mississipi) que é, sem tirar nem pôr, um tribunal fordiano.

O julgamento de Daniel Ponder ainda mal começou quando o Juiz interrompe a menina Teacake:
«Só um momento», disse o Juiz. «A criada da Sra. Edna Earle está à porta a perguntar quantos dos presentes pretendem almoçar no hotel. Proponho que os interessados levantem o braço», e foi o primeiro a levantá-lo.

A espantosa realidade das cousas

As rendas das casas baixaram por causa da crise e isso trouxe mais imigrantes e miúdos para o meu bairro: cores e sotaques diferentes, meninas de tranças e um rapazinho reguila saído de um filme de Ozu. Encontro-os nos autocarros e nos supermercados. São eles que fazem a cidade mais cosmopolita — à revelia do provincianismo local. É assim que as coisas mudam.

quinta-feira, Agosto 5

Ah, die Geschichte kenn' ich ja,

Foi por um triz que Jakob von Gunten e a Branca de Neve não se encontraram na caixa do correio.
Apesar de já se ter tornado cristão na Tunísia, Tertuliano ainda escreve: «As almas que não conheceram a voluptuosidade sexual estão eivadas do despeito da vida falhada. A fecundidade em falta torna-as más.» É aquilo a que os filósofos alemães chamavam a Sehnsucht, a nostalgia perigosa. É a sentimentalidade terrível.

Pascal Quignard, por Filipe Guerra, que está de regresso.

quarta-feira, Agosto 4

Summer songs #3

Nora Bayes, The Argentines, The Portuguese, and Greeks, 1920.

(...)
There are pretty girls, there are witty girls
There is every kind of a girl
Some you like a little, some a little more
But none of them will set your heart a whirl
When you really feel you’ve met your ideal
A girl with smart and chic
You will find she belongs to an Argentine or
A Portuguese or a Greek
They don’t know the language
They don’t know the law
But they vote in the country of the free
(...)

[Via Bertigo.]

terça-feira, Agosto 3

O mais próximo do que se pode considerar um milagre

Nada acontece por acaso. E a prova mais eloquente disso mesmo é a minha própria história. Eu explico: certo dia, enquanto mudava a água aos peixes, caí dentro do aquário. Nesse exacto instante, começou o período mais importante e feliz da minha vida. De resto, guardo na minha memória todos os pormenores desses momentos iniciais, como minúsculas pedras preciosas cujo brilho continua a estontear-me.
Caí na água, pois. E onde qualquer outra pessoa encontraria motivos para lançar pragas ao ar e abanar a cabeça com desprezo, eu achei tudo maravilhoso e magnífico. Reinava no interior do aquário um silêncio tão completo e uma calma tão plena que dir-se-ia que o meu próprio coração parara de bater. Recordo-me de ter adormecido profundamente e de ter despertado mais tarde, no meio de uma paz, que à falta de melhor palavra, chamarei absoluta. Nenhum som, nenhum murmúrio. Apenas a lenta e muda deslocação dos peixes em volta da minha cabeça.
O caso provocou uma forte emoção na minha mulher. Calcule-se o seu desespero. Quando me descobriu, imobilizado no interior do aquário, de cabeça para baixo, coberto de água, os olhos cresceram-lhe nas órbitas e o seu queixo caiu como uma pedra. Nos primeiros dias, tentou por todos os meios convencer-me a abandonar a minha nova morada. Mas perante a minha firme recusa, fez o que pôde para se acalmar. Em todo o caso, nunca se conformou. Ainda hoje, por vezes, desata a chorar, cobre a cara com as mãos e corre para o quarto.
No interior do aquário, o tempo é lento e tem uma tendência geral para ser ainda mais lento, anunciando a suprema lentidão. Tudo se repete como num espelho eterno: manhã, tarde, noite, e de novo a manhã, e o resto do dia, e a noite seguinte, num encadeamento rigoroso e eficaz. Mas a monotonia excita a imaginação. Nunca me senti tão livre como agora, mergulhado num pequeníssimo oceano, rodeado de peixes vermelhos e algas de plástico.
Na verdade, não sou capaz de descrever com rigor os momentos de rara felicidade e bem-estar que desde então tenho vivido neste mundo impoluto. É talvez o mais próximo do que se pode considerar um milagre. As vozes, ruídos e clamores tumultuosos que incessantemente se elevam do mundo exterior, só aqui chegam de longe a longe como o eco de um som cuja natureza ou origem não chega sequer a ser perceptível.
Gerações de homens precederam-nos e outras gerações viverão depois de nós sem nunca terem uma experiência parecida com a minha. Esses nunca serão capazes de me compreender.

segunda-feira, Agosto 2

Depois do almoço, fomos visitar o mais rico proprietário da aldeia, o senhor Williams. Encontrámo-lo na sua loja ocupado a vender a alguns Índios múltiplos objectos de pouco valor, como facas, colares de pérolas de vidro, brincos. Despertava compaixão ver como esses desgraçados eram tratados pelos seus irmãos civilizados da Europa. Aliás, todos os Índios que lá encontrámos faziam brilhantemente justiça aos selvagens. Eram bondosos, inofensivos, mil vezes menos inclinados para roubar do que o Branco. Porém, pena era que começassem a ficar mais esclarecidos sobre o preço das coisas, diziam-nos os comerciantes. E por que razão?, se faz favor. Porque o benefício que se retirava do comércio com eles tornava-se menor cada dia que passava. Observais aqui a superioridade do homem civilizado? O Índio teria afirmado na sua simplicidade ingénua que todos os dias lhe era mais difícil enganar o seu vizinho. No entanto, o Branco descobre no aperfeiçoamento da linguagem uma oportuna nuance que lhe permite exprimir a mesma coisa sem desonra.


Alexis de Tocqueville, "Quinze dias no deserto americano". Tradução de Bénédicte Houart.

sexta-feira, Julho 30

Os movimentos de um saco de juta







quinta-feira, Julho 29

Pode dizer-se que Allan Poe é a figura inaugural da modernidade no negativo. Mas também se pode dizer, sem errar demasiado, que, de facto, a figura inaugural é Charles Baudelaire. Na verdade, o primeiro é, em certa medida, uma invenção do segundo. A tal ponto que Baudelaire traduziu textos de Poe como uma forma de apropriação, chegando a deixar no ar que a fronteira entre um e outro era da ordem do idiscernível. Poe terá agradecido e nós por ele. A Baudelaire o que é de Poe e a Poe o que é de Baudelaire. Será assim tão importante a questão da assinatura? A literatura pode ser (in)apropriada.

Um texto excepcional. Continua aqui.

Este obscuro objecto de desejo

Para além do desatino de Mathieu, das reviravoltas de Conchita, do mordomo irónico, do anão psicólogo, do juiz eficiente, da mãe beata; para além dos atentados terroristas e explosões; para além de tudo isso, há uma história ainda mais desconcertante no filme: a história do saco de juta.

§

A plusieurs moments du film apparaît un sac de jute. Quel est son rôle ? Chez Buñuel, il y a toujours un objet dont l’utilisation est curieuse, qui n’a pas de réponse. Jean Douchet

§

L'imagination est notre premier privilège. Toute ma vie je me suis efforcé d'accepter, sans essayer de comprendre, les images compulsives qui se présentaient à moi. Par exemple, à Séville, pendant le tournage de Cet obscur objet du désir, à la fin d'une scène, j'ai brusquement demandé à Fernando Rey, par une inspiration subite, de ramasser un gros sac de jute de machiniste qui traînait sur un banc et de le jeter sur son épaule en s'en allant. […] toute l'équipe était d'accord — et moi aussi — pour affirmer que la scène était meilleure avec le sac. Pourquoi ? Impossible de le dire à moins de tomber dans les clichés de la psychanalyse, ou de toute autre explication. […] Horreur de comprendre. Bonheur d'accueillir l'inattendu. Luis Buñuel, Mon dernier soupir, Laffont, 1982, p. 216.

quarta-feira, Julho 28

Summer songs #2

Saídos de Nova Iorque e à medida que nos dirigíamos para noroeste, o objectivo da nossa viagem parecia desvanecer-se perante nós. Percorríamos lugares célebres na História dos Índios, subíamos vales por eles baptizados, atravessávamos rios que ainda hoje têm o nome das suas tribos, mas, em todo o lado, a cabana do selvagem tinha cedido espaço à habitação do homem civilizado.
(...)
O ser humano acostuma-se a tudo. À morte nos campos de batalha, à morte nos hospitais, a matar e a sofrer. Habitua-se a ver tudo: um povo ancestral, primeiro e legítimo senhor do continente americano, desvanece-se todos os dias como a neve derrete ao sol, e desaparece da face da Terra. Nos mesmos locais e em seu lugar, desenvolve-se outra raça mais depressa ainda. Pela sua mão, as florestas são arrasadas, os pântanos secam, surgem lagos parecidos com o mar, rios enormes fazem frente sem sucesso ao seu avanço vitorioso. Cada ano, os desertos tornam-se aldeias, as aldeias, cidades. O americano, testemunha diária desses êxitos, não se espanta com eles. Esta incrível destruição, este crescimento ainda mais surpreendente, parecem-lhe apenas constituir o rumo normal dos acontecimentos. Acostuma-se a ele como se se tratasse da ordem imutável e natural das coisas.

Alexis de Tocqueville, "Quinze dias no deserto americano". Tradução de Bénédicte Houart.

terça-feira, Julho 27

O miolo da maçã

Um homem descascava uma maçã. Ora, sob a casca havia outra casca e por baixo desta havia outra ainda. O homem descascava e voltava a descascar. Quando já nada restava do fruto, começou a descascar os próprios dedos. Finalmente, sob a pele dos dedos, o perfumado, doce e sumarento miolo da maçã.

Um dia tive um desgosto amoroso

Terças-feiras Clássicas


The Devil is a Woman, de Josef von Sternberg. No Teatro do Campo Alegre, às 22h00.

segunda-feira, Julho 26

Escrevendo poesia

De todo, não: não é difícil escrever poesia –
é impossível.
De contrário, pensas que teria persistido nisto
por mais de 40 anos?

Tenta, tenta só
pôr asas numa pedra, tenta
seguir o rasto de um pássaro
no ar.

Hans Børli.

Doutor Avalanche.

«Quando chegou aos doze anos, já ele sabia que viria a ser pregador. Mais tarde, Hazel viu Jesus movendo-se de árvore em árvore nos confins da sua mente, uma figura bruta e esfarrapada acenando-lhe para que desse meia volta e o seguisse para dentro da escuridão, onde não conseguiria ver bem onde punha os pés, onde poderia pôr-se a caminhar sobre água sem o saber e de repente perceber e afogar-se.»

§

A integridade de uma pessoa encontrar-se-á sempre naquilo que não consegue fazer?
Pergunta Flannery O'Connor no "Prefácio da autora à segunda edição (1962)" de Sangue sábio.

§

De uma maneira geral não gosto de classificações literárias; acho que só servem para escrever teses e vender livros. Algumas, por exemplo a escrita feminina, detesto na íntegra. Mas quando Flannery O'Connor escreve que Sangue sábio é um romance cómico, ah bom, isso deixa-me um sorriso intenso no rosto.

domingo, Julho 25

Summer songs #1

The sea was wet as wet could be,
The sands were dry as dry.
You could not see a cloud, because
No cloud was in the sky:
No birds were flying overhead —
There were no birds to fly.

sábado, Julho 24

and the luck of not having it

The importance of having the look

— Look they don't sentence picture directors to a place like this, for a little disagreement with a yard bull.
— Don't they?
— No.
— Oh. Well, then, maybe you ain't a movie director.
— Huh?
— Maybe that idea just come to you when you got hit on the head, maybe.
— Now, look...
— We used to have a fella here once that thought he was Lindbergh. He used to fly away every night but he was always back in the morning.
— Don't I look like a picture director?
— 'Course I never seen one. You look more like a soda jerk, or maybe a plasterer, maybe.
— But...


do filme Sullivan's Travels, de Preston Sturges

quinta-feira, Julho 22

A casa que eu quero

A projecção do filme de Joana Frazão e Raquel Marques foi adiada para amanhã.

Nunca tanta comoção agitou o céu

Por causa de uma secreta e inesperada avaria no grande mecanismo, o céu começou a enviar para a terra pessoas com defeito. Gente com o coração trocado, a alma usada ou bexigas no rosto. A avaria semeou o pânico no céu.
Veio o Inverno, e a Primavera, e o Verão, e outra vez o Inverno, e ninguém conseguia solucionar o problema. Rostos vermelhos, de bigodes espessos e suíças desgrenhadas, galopavam por entre as nuvens, para aqui e para ali, para trás e para diante, movidos pela impotência e o desespero. E a maneira como diziam palavrões e rogavam pragas! Nunca tanta comoção agitou o céu. Havia já quem acreditasse que era o fim.
Aqui na terra, no entanto, nada de novo. O senhor Golovina retirou um palito do bolso e, entregue à paz arrastada da tarde, deixou-se afundar no banco de jardim. Uma brisa deliciosa corria por entre as árvores.

quarta-feira, Julho 21

Aposto que Yoshihiro Tatsumi gostava de ter desenhado o último plano do último filme de Mizoguchi.

terça-feira, Julho 20

three minor chords


(...) Even the music was different then. Today in Japan's cities, if there is an urban backbeat, it's likely to be rock or rap or techno-pop, with ads relentlessly encouraging everyone to smile. Then, nearly every bar and noodle shop played Japanese ballads written with three minor chords, almost always with a saxophone accompaniment.

— in the introduction to Good-bye (Yoshihiro Tatsumi), by Frederik L. Schodt.

Durante toda a noite

O homem não se lembrava como viera ali parar. Saíra de casa para trabalhar, como todas as manhãs, seguira o caminho habitual, e de repente tomara consciência de estar a percorrer uma longa rua que não conhecia. Percorria-a há bastante tempo e não lhe vislumbrava o fim. Conseguia reconhecer o céu da sua cidade, alguns prédios, certos rostos. Mas não se lembrava de alguma vez ter pisado aquela rua. Caminhou ainda durante várias horas. A rua parecia prolongar-se até ao infinito. A noite aproximava-se a passo rápido. O homem deteve-se então, exausto, sem fôlego, e pensou: “Tudo isto é um pouco insólito. Que rua é esta? Estarei morto?”
- Estás morto, de facto. Esta é a rua que conduz…
Não me deixou terminar a frase. Desatou a correr em sentido contrário, fazendo tenções de não parar. Apesar das pernas de mil toneladas, correu durante toda a noite. Chegou a casa já a manhã ia alta.

segunda-feira, Julho 19

domingo, Julho 18

The only way to get us interested in business

Staying in India and finding the sun unbearable, Mrs. Coomaraswamy decided to shop for a parasol. She found two in the town nearby. One was in the window of a store dealing in American goods. It was reasonably priced but unattractive. The other was in an Indian store. It was Indian-made, desirable, but outlandishly expensive. Mrs. Coomaraswamy went back home without buying anything. But the weather continued dry and hot, so that a few days later she went again into town determined to make a purchase. Passing by the American shop, she noticed their parasol was still in the window, still reasonably priced. Going into the Indian shop, she asked to see the one she had admired a few days before. While she was looking at it, the price was mentioned. This time it was absurdly low. Surprised, Mrs. Coomaraswamy said, “How can I trust you? One day your prices are up; the next day they’re down. Perhaps your goods are equally undependable.” “Madame,” the storekeeper replied, “the people across the street are new in business. They are intent on profit. Their prices are stable. We, however, have been in business for generations. The best things we have we keep in the family, for we are reluctant to part with them. As for our prices, we change them continually. That’s the only way we’ve found in business to keep ourselves interested.”

John Cage, Indeterminacy (in economics) # 151