Sexta-feira, Julho 30

Os movimentos de um saco de juta







Quinta-feira, Julho 29

Pode dizer-se que Allan Poe é a figura inaugural da modernidade no negativo. Mas também se pode dizer, sem errar demasiado, que, de facto, a figura inaugural é Charles Baudelaire. Na verdade, o primeiro é, em certa medida, uma invenção do segundo. A tal ponto que Baudelaire traduziu textos de Poe como uma forma de apropriação, chegando a deixar no ar que a fronteira entre um e outro era da ordem do idiscernível. Poe terá agradecido e nós por ele. A Baudelaire o que é de Poe e a Poe o que é de Baudelaire. Será assim tão importante a questão da assinatura? A literatura pode ser (in)apropriada.

Um texto excepcional. Continua aqui.

Este obscuro objecto de desejo

Para além do desatino de Mathieu, das reviravoltas de Conchita, do mordomo irónico, do anão psicólogo, do juiz eficiente, da mãe beata; para além dos atentados terroristas e explosões; para além de tudo isso, há uma história ainda mais desconcertante no filme: a história do saco de juta.

§

A plusieurs moments du film apparaît un sac de jute. Quel est son rôle ? Chez Buñuel, il y a toujours un objet dont l’utilisation est curieuse, qui n’a pas de réponse. Jean Douchet

§

L'imagination est notre premier privilège. Toute ma vie je me suis efforcé d'accepter, sans essayer de comprendre, les images compulsives qui se présentaient à moi. Par exemple, à Séville, pendant le tournage de Cet obscur objet du désir, à la fin d'une scène, j'ai brusquement demandé à Fernando Rey, par une inspiration subite, de ramasser un gros sac de jute de machiniste qui traînait sur un banc et de le jeter sur son épaule en s'en allant. […] toute l'équipe était d'accord — et moi aussi — pour affirmer que la scène était meilleure avec le sac. Pourquoi ? Impossible de le dire à moins de tomber dans les clichés de la psychanalyse, ou de toute autre explication. […] Horreur de comprendre. Bonheur d'accueillir l'inattendu. Luis Buñuel, Mon dernier soupir, Laffont, 1982, p. 216.

Quarta-feira, Julho 28

Summer songs #2

Saídos de Nova Iorque e à medida que nos dirigíamos para noroeste, o objectivo da nossa viagem parecia desvanecer-se perante nós. Percorríamos lugares célebres na História dos Índios, subíamos vales por eles baptizados, atravessávamos rios que ainda hoje têm o nome das suas tribos, mas, em todo o lado, a cabana do selvagem tinha cedido espaço à habitação do homem civilizado.
(...)
O ser humano acostuma-se a tudo. À morte nos campos de batalha, à morte nos hospitais, a matar e a sofrer. Habitua-se a ver tudo: um povo ancestral, primeiro e legítimo senhor do continente americano, desvanece-se todos os dias como a neve derrete ao sol, e desaparece da face da Terra. Nos mesmos locais e em seu lugar, desenvolve-se outra raça mais depressa ainda. Pela sua mão, as florestas são arrasadas, os pântanos secam, surgem lagos parecidos com o mar, rios enormes fazem frente sem sucesso ao seu avanço vitorioso. Cada ano, os desertos tornam-se aldeias, as aldeias, cidades. O americano, testemunha diária desses êxitos, não se espanta com eles. Esta incrível destruição, este crescimento ainda mais surpreendente, parecem-lhe apenas constituir o rumo normal dos acontecimentos. Acostuma-se a ele como se se tratasse da ordem imutável e natural das coisas.

Alexis de Tocqueville, "Quinze dias no deserto americano". Tradução de Bénédicte Houart.

Terça-feira, Julho 27

O miolo da maçã

Um homem descascava uma maçã. Ora, sob a casca havia outra casca e por baixo desta havia outra ainda. O homem descascava e voltava a descascar. Quando já nada restava do fruto, começou a descascar os próprios dedos. Finalmente, sob a pele dos dedos, o perfumado, doce e sumarento miolo da maçã.

Um dia tive um desgosto amoroso

Terças-feiras Clássicas


The Devil is a Woman, de Josef von Sternberg. No Teatro do Campo Alegre, às 22h00.

Segunda-feira, Julho 26

Escrevendo poesia

De todo, não: não é difícil escrever poesia –
é impossível.
De contrário, pensas que teria persistido nisto
por mais de 40 anos?

Tenta, tenta só
pôr asas numa pedra, tenta
seguir o rasto de um pássaro
no ar.

Hans Børli.

Doutor Avalanche.

«Quando chegou aos doze anos, já ele sabia que viria a ser pregador. Mais tarde, Hazel viu Jesus movendo-se de árvore em árvore nos confins da sua mente, uma figura bruta e esfarrapada acenando-lhe para que desse meia volta e o seguisse para dentro da escuridão, onde não conseguiria ver bem onde punha os pés, onde poderia pôr-se a caminhar sobre água sem o saber e de repente perceber e afogar-se.»

§

A integridade de uma pessoa encontrar-se-á sempre naquilo que não consegue fazer?
Pergunta Flannery O'Connor no "Prefácio da autora à segunda edição (1962)" de Sangue sábio.

§

De uma maneira geral não gosto de classificações literárias; acho que só servem para escrever teses e vender livros. Algumas, por exemplo a escrita feminina, detesto na íntegra. Mas quando Flannery O'Connor escreve que Sangue sábio é um romance cómico, ah bom, isso deixa-me um sorriso intenso no rosto.

Domingo, Julho 25

Summer songs #1

The sea was wet as wet could be,
The sands were dry as dry.
You could not see a cloud, because
No cloud was in the sky:
No birds were flying overhead —
There were no birds to fly.

Sábado, Julho 24

and the luck of not having it

The importance of having the look

— Look they don't sentence picture directors to a place like this, for a little disagreement with a yard bull.
— Don't they?
— No.
— Oh. Well, then, maybe you ain't a movie director.
— Huh?
— Maybe that idea just come to you when you got hit on the head, maybe.
— Now, look...
— We used to have a fella here once that thought he was Lindbergh. He used to fly away every night but he was always back in the morning.
— Don't I look like a picture director?
— 'Course I never seen one. You look more like a soda jerk, or maybe a plasterer, maybe.
— But...


do filme Sullivan's Travels, de Preston Sturges

Quinta-feira, Julho 22

A casa que eu quero

A projecção do filme de Joana Frazão e Raquel Marques foi adiada para amanhã.

Nunca tanta comoção agitou o céu

Por causa de uma secreta e inesperada avaria no grande mecanismo, o céu começou a enviar para a terra pessoas com defeito. Gente com o coração trocado, a alma usada ou bexigas no rosto. A avaria semeou o pânico no céu.
Veio o Inverno, e a Primavera, e o Verão, e outra vez o Inverno, e ninguém conseguia solucionar o problema. Rostos vermelhos, de bigodes espessos e suíças desgrenhadas, galopavam por entre as nuvens, para aqui e para ali, para trás e para diante, movidos pela impotência e o desespero. E a maneira como diziam palavrões e rogavam pragas! Nunca tanta comoção agitou o céu. Havia já quem acreditasse que era o fim.
Aqui na terra, no entanto, nada de novo. O senhor Golovina retirou um palito do bolso e, entregue à paz arrastada da tarde, deixou-se afundar no banco de jardim. Uma brisa deliciosa corria por entre as árvores.

Quarta-feira, Julho 21

Aposto que Yoshihiro Tatsumi gostava de ter desenhado o último plano do último filme de Mizoguchi.

Terça-feira, Julho 20

three minor chords


(...) Even the music was different then. Today in Japan's cities, if there is an urban backbeat, it's likely to be rock or rap or techno-pop, with ads relentlessly encouraging everyone to smile. Then, nearly every bar and noodle shop played Japanese ballads written with three minor chords, almost always with a saxophone accompaniment.

— in the introduction to Good-bye (Yoshihiro Tatsumi), by Frederik L. Schodt.

Durante toda a noite

O homem não se lembrava como viera ali parar. Saíra de casa para trabalhar, como todas as manhãs, seguira o caminho habitual, e de repente tomara consciência de estar a percorrer uma longa rua que não conhecia. Percorria-a há bastante tempo e não lhe vislumbrava o fim. Conseguia reconhecer o céu da sua cidade, alguns prédios, certos rostos. Mas não se lembrava de alguma vez ter pisado aquela rua. Caminhou ainda durante várias horas. A rua parecia prolongar-se até ao infinito. A noite aproximava-se a passo rápido. O homem deteve-se então, exausto, sem fôlego, e pensou: “Tudo isto é um pouco insólito. Que rua é esta? Estarei morto?”
- Estás morto, de facto. Esta é a rua que conduz…
Não me deixou terminar a frase. Desatou a correr em sentido contrário, fazendo tenções de não parar. Apesar das pernas de mil toneladas, correu durante toda a noite. Chegou a casa já a manhã ia alta.

Segunda-feira, Julho 19

Domingo, Julho 18

The only way to get us interested in business

Staying in India and finding the sun unbearable, Mrs. Coomaraswamy decided to shop for a parasol. She found two in the town nearby. One was in the window of a store dealing in American goods. It was reasonably priced but unattractive. The other was in an Indian store. It was Indian-made, desirable, but outlandishly expensive. Mrs. Coomaraswamy went back home without buying anything. But the weather continued dry and hot, so that a few days later she went again into town determined to make a purchase. Passing by the American shop, she noticed their parasol was still in the window, still reasonably priced. Going into the Indian shop, she asked to see the one she had admired a few days before. While she was looking at it, the price was mentioned. This time it was absurdly low. Surprised, Mrs. Coomaraswamy said, “How can I trust you? One day your prices are up; the next day they’re down. Perhaps your goods are equally undependable.” “Madame,” the storekeeper replied, “the people across the street are new in business. They are intent on profit. Their prices are stable. We, however, have been in business for generations. The best things we have we keep in the family, for we are reluctant to part with them. As for our prices, we change them continually. That’s the only way we’ve found in business to keep ourselves interested.”

John Cage, Indeterminacy (in economics) # 151

Sábado, Julho 17


Forty guns, a belíssima cena do tornado. Às 15h00, na rtp memória.

Strangers talk only about the weather #106

As minhas práticas metereológicas não valem nada comparadas com os gestos simples do gato.
Quando ele se mete debaixo da cama ou do sofá é porque vem aí calor.

Sexta-feira, Julho 16

Verão

O relógio da igreja arrasta-se pelas horas da tarde.
Um após outro, os automóveis caem
no torpor do sono, junto aos semáforos.
Um gafanhoto salta vagamente e parte
as antenas contra a parede.
As moscas dizem “ah, meu Deus!” e desmaiam
com o calor.
Milhões de morangos frescos
no fundo do mar.

Juan Rulfo.

Quinta-feira, Julho 15

Pigeons at Dawn, by Charles Simic

Extraordinary efforts are being made
To hide things from us, my friend.
Some stay up into the wee hours
To search their souls.
Others undress each other in darkened rooms.

The creaky old elevator
Took us down to the icy cellar first
To show us a mop and a bucket
Before it deigned to ascend again
With a sigh of exasperation.

Under the vast, early-dawn sky
The city lay silent before us.
Everything on hold:
Rooftops and water towers,
Clouds and wisps of white smoke.

We must be patient, we told ourselves,
See if the pigeons will coo now
For the one who comes to her window
To feed them angel cake,
All but invisible, but for her slender arm.
Shirin continua em exibição no Nun' Álvares (desde 24 de Junho). É um sinal de resistência e vale mais do que não sei quantas assinaturas numa petição.

Terça-feira, Julho 13


L'Atalante, de Jean Vigo. Às 21h30, no Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre.
A poeta canadense Pat Lowther nasceu em Vancouver, em 1935, e cresceu nos arredores da cidade. Seu nome de batismo era Patricia Tinmuth. (...) Em 1963, conheceu e casou-se com o também poeta Roy Lowther, assumindo o nome de Pat Lowther e passando a publicar poemas em revistas literárias de seu país. Sua estreia em livro viria em 1968, com o volume "This Difficult Flowering", angariando atenção para seu trabalho na comunidade poética canadense. O próximo livro seria "The Age of the Bird" (1972), seguido de "Milk Stone" (1974). Seus poemas passam a ser frequentemente incluídos em antologias e ela começa a ensinar Literatura na University of British Columbia. (...) Em 1975, o manuscrito de seu importante "A Stone Diary" foi aceito para publicação pela prestigiosa Oxford University Press, mas teria apenas edição póstuma em 1977.
Apesar de sua escrita poética tornar-se cada vez melhor e mais conhecida, sua vida doméstica preocupava cada vez mais seus amigos, pois Roy Lowther, enciumado que sua mulher tivesse maior sucesso que ele como poeta, tornava-se cada vez mais violento. Na noite de 24 de Setembro de 1975, Pat Lowther era aguardada no Salão dos Metalúrgicos de Vancouver para uma leitura de poesia para os operários, com os poetas David Day, Pete Trower e Patrick Lane, mas a poeta jamais apareceu. Seu corpo seria encontrado três semanas mais tarde; a poeta fora assassinada pelo marido.


No Modo de Usar & Co.
O falar à moda do Porto, sem querer estar a armar ao pingarelho ou a arrotar postas de pescada, distingue-se basicamente por peculiaridades fonéticas (o famoso sotaque, que pode ser mais ou menos acentuado), pela utilização benévola do palavrão e pela invenção de palavras e expressões curiosas.

Aqui, carago.

Segunda-feira, Julho 12


Como era mesmo sua definição de melodrama, aquela em que você citava nomes?
Diga-me de uma vez, Ramon, é verdade que Lourdes falou com Enrique que Laura Jessica e Rafael Adriano não viram Doris Maria esta tarde? Se isso é verdade, Adalberto é inocente e Eugenia Salinas morreu à toa.


Carlos Monsivais numa entrevista inédita ao Prosa & Verso.
- Como quer que seja - observou Sesô - estamos aqui quatro cortezãs e queremos dirigir a conversação, para não parecermos crianças côr de rosa que só abrem a bôca para beberem leite. Faustina, tu és a mais nova, fala!
- Muito bem - disse Neucratés - Vamos escolher Faustina. Em que havemos de falar?
A jovem romana voltou a cabeça, ergueu os olhos, córou, e, com uma ondulação em todo o seu corpo, suspirou:
- No amor!
- Lindo assunto! - comentou Sesô, reprimindo um sorriso de inveja.
Mas ninguém tomou a palavra.


Pierre Louÿs, Aphrodite. Tradução de Chagas Franco.

Domingo, Julho 11

Why Must it Always be Tomato Soup?

Neste Bliss pode-se encontrá-la [Katherine Mansfield] por inteiro e é desnecessário explicar o conto. Érico Veríssimo já o havia traduzido aqui no Brasil, em 1940, publicando-o pela Editora Globo. Creio que a Nova Fronteira também republicou o volume Bliss and other Stories há uns nove anos. Mas Érico Veríssimo traduziu “Bliss” por “Felicidade”. Foi infeliz nesta escolha. Ana Cristina César parece ter acertado na mosca quando escolheu o termo “Êxtase”. “Bliss” é êxtase, felicidade, alegria, bem-aventurança, coisa divina, palpitação, frio na barriga... ia dizer tesão. Quem ler verá. (...)
Caio Túlio Costa

Sábado, Julho 10

Quando trabalhei num alfarrabista - um lugar que aqueles que nunca lá trabalharam facilmente imaginam como uma espécie de paraíso onde respeitáveis cavalheiros de ar simpático folheiam eternamente in-fólios encadernados -, o que mais me impressionou foi a escassez dos verdadeiros amantes de livros. Apesar de a nossa livraria dispor de um lote de obras excepcionalmente interessante, duvido que sequer dez por cento dos nossos clientes soubesse distinguir os bons livros dos que não prestam. Snobes à cata de primeiras edições eram bem mais numerosos do que os apaixonados pela literatura, mas estudantes orientais a regatear o preço de compêndios baratos eram ainda mais numerosos, e mulheres despassaradas em busca de presentes de aniversário para os sobrinhos eram as mais numerosas de todos.

George Orwell, Livros & Cigarros. Tradução de Paulo Faria.

There's trouble out at the mine!

Sexta-feira, Julho 9

Foi em Bad Wörishofen que Katherine Mansfield leu, pela primeira vez, os contos de Tchékhov.
O entusiasmo foi tal que se pôs logo a praticar.

Quinta-feira, Julho 8

Sítio 6

Na próxima segunda-feira, 12 de Julho, a partir das 18h00, a Livraria Livro do Dia, de Torres Vedras, celebra o quinto aniversário da sua abertura com o lançamento da revista Sítio n.º 6. Este número especial foi coordenado por manuel a. domingos. Mais informações aqui.

Quarta-feira, Julho 7

Strangers talk only about the weather #105

O céu está coberto de nuvens brancas. Se o efeito da borboleta funcionar, o meu caril de camarões vai trazer a trovoada e a chuva.

Sobre o lençol da cama

Durante toda a noite, uma melga incauta alimentou-se vorazmente do meu sangue.
Agora, a pobrezinha jaz, envenenada, sobre o lençol da cama.

Terça-feira, Julho 6

Strangers talk only about the weather #104

Dois rissóis de algas, uma maçã, um cigarro, um telefonema, dois contos de Katherine Mansfield (Os alemães à mesa e O Barão). Tudo à sombra das tílias.
O erudito Prodicos de Céus, que floresceu no fim do século V antes da nossa era, é o autor do célebre apólogo que S. Basílio recomendava às meditações dos cristãos: Hercules entre a Virtude e a Voluptuosidade. Sabemos que Hercules optou pela primeira, o que lhe permitiu realizar um certo número de grandes crimes contras as Corças, as Amazonas, os Pomos de Oiro e os Gigantes.

Pierre Louÿs, Aphrodite. Tradução de Chagas Franco.

Jesus no óleo aquecido numa frigideira

Zach Evans, de 26 anos, residente em Southampton, divulgou uma imagem que aparenta ser de Jesus Cristo, captada pelo Google Earth, quando procurava informações sobre Puspokladany, na Hungria, onde pretende passar férias.
(...)
Na semana passada, uma enfermeira inglesa, Alex Cotton, de 38 anos, garantiu ter visto a face de Jesus num cano em Coventry. Também Tobby Welles, de 22 anos, de Manchester, disse ter visto Jesus no óleo aquecido numa frigideira.


Podia ser uma notícia breve, fora de tempo, de Felix Fénéon. Mas é uma notícia do Jornal Digital.

Segunda-feira, Julho 5

Doutor Avalanche

Domingo, Julho 4

LXXIII. Objectos conservados do passado

Com P. Saufeius, contámos os objectos que tínhamos conservado do passado e cuja visão nos comovia.
Um pedaço de pano amarelo, do amarelo que se extrai das folhas de camomila.
Duas tábuas de Q. Alcimius onde nem três palavras havia.
O carro de duas rodas em restauro.
Um pião infantil de um azul tão desbotado que já está quase branco.
As unhas e o cabelo de Papianilha.
Publius diz:
— O único objecto do passado é cada noite em que brilha a lua cheia, e o chão seco, sem sombra de um vestígio.

As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia, capítulo IV (fólio 495 v° a fólio 499 v°), por Pascal Quignard, tradução de Ernesto Sampaio, Cotovia.

Sábado, Julho 3


Na cidade 24 os hibiscos floresciam, Chengdu resplandecia.

Sexta-feira, Julho 2

Goethe atravessa-se no caminho de Katherine Joyce

«Os sarcófagos são estupendos e comoventes, e representam sempre a vida»,
Viagem a Itália, 16 de Setembro de 1786.