Quarta-feira, Junho 30

La mejor literatura en lengua inglesa que se escribió en aquella época [finais do século XIX] fue la dirigida a los niños. Pero muchos de esos autores eran infelices, como J. M. Barrie [criador de Peter Pan], querían continuar en la infancia porque no soportaban las frustraciones de la vida adulta. Y eso no dejaba espacio para que sus niños fueran niños, porque ya lo eran ellos. Cultivaron un universo imaginativo extraordinario aunque en sus vidas privadas fueran un desastre. Ni a Hans Christian Andersen le gustaban los niños. Descubrí que muchos hijos de autores infantiles habían vivido auténticos infiernos, incluso llegado a suicidarse, y eso me interesó dramáticamente. Alison Uttley, mi escritora favorita cuando niña, llevó a su marido y a su único hijo al suicidio.

A.S. Byatt.

Enquanto ainda flutuavam

Conheci em tempos um rapaz que tinha um pequeno buraco no topo da cabeça. Ele próprio o abrira para que os sonhos se desprendessem mais facilmente durante a noite. De manhã, recolhia-os com cuidado enquanto ainda flutuavam no ar quente do quarto. Depois vendia-os na rua, dentro de sacos de plástico. Alguns velhos pagavam um bom preço por esses sonhos.
Batiúshkov não merece piedade.
"Que horas são?", perguntaram-lhe uma vez,
E ele só respondeu: "Eternidade."

Ossip Mandelstam.

Terça-feira, Junho 29

Um profundo rubor nas conjuntivas

Josef olhava para o outro lado das coisas e via o que mais ninguém conseguia ver. Ele via claramente a máquina de escrever por trás de cada frigorífico. Os loucos motores que laboram por trás de cada árvore. Os comboios velozes das paredes. Visões demasiado impressionantes para um homem simples e vulnerável. Por causa disso, era atacado de violentas dores de cabeça. Ninguém como ele tinha os olhos tão cansados, pesados, velados. Um profundo rubor nas conjuntivas conferia-lhe uma permanente expressão de fadiga. De nervos torturados e cada vez mais exausto, Josef evitava sobretudo observar-se ao espelho. O que via por trás da sua imagem era suficiente para aterrar o homem mais resoluto: mas esse era um assunto de ordem puramente particular e que apenas ao próprio dizia respeito.

Segunda-feira, Junho 28

Mas, então, surpresa: nesses dez anos de que falo, "O jogo da amarelinha" [O jogo do mundo - Rayuela] foi lido por inúmeros jovens do mundo, muitíssimos dos quais já eram parte dessa luta que eu só vim a encontrar no final. E enquanto os "velhos", os leitores lógicos do livro, escolhiam ficar à margem, os jovens e "O jogo da amarelinha" entraram numa espécie de combate amoroso, de amarga batalha fraterna e rancorosa ao mesmo tempo, fizeram outro livro desse livro que não era conscientemente destinado a eles.
Dez anos depois, enquanto eu me distancio pouco a pouco de "O jogo da amarelinha", uma infinidade de rapazes aparentemente chamados a estar longe dele se aproximam do risco de seus quadrados de giz e jogam a pedra em direção ao Céu. E esse céu, e isto é o que nos une, eles e eu chamamos de revolução.


Julio Cortázar, "Papéis Inesperados".

Domingo, Junho 27


Abbas Kiarostami: (...) In fact, it is a combination of both freedom and restriction. I suggest you watch another world which is more attractive than the story. I believe if you dare let go of the story, you will come across a new thing which is the Cinema itself. In fact, I suggest you let go of the story and just keep your eyes on the screen.
§

Diria que este filme é o mais artificial que já fiz, mas também o mais autêntico. É o filme que tem mais verdade. Consegui vê-lo pelo menos 150 vezes, o que não aconteceu com nenhum dos meus outros filmes. Tenho a impressão de que foi feito por outros e não por mim. A verdade resulta de estas mulheres mostrarem reacções verdadeiras a emoções verdadeiras. Dão a sua própria verdade ao filme. Foi isso que aconteceu. Abbas Kiarostami, entrevistado por Pedro Rosa Mendes (pág 10 ípsilon).

§

Contrariamente às evidências, as mulheres não estão a ver filme nenhum, nem é seguro que estejam a ouvir o que nós ouvimos (o som e os diálogos do suposto filme): olhamos para elas sem saber o que é "reacção" e o que é "representação", o que é "espontâneo" e o que é "encenação". Razão para suspeitar, ou mais do que isso, para afirmar, que "Shirin" é a mais sofisticada "mise-en-scène" do olhar que alguma vez alguém fez. Seguramente, a mais bela. Luís Miguel Oliveira. (E eu, que pego na palavra "mise-en-scène" com pinças, também o afirmo)

Sábado, Junho 26


Eu sempre gostei de anéis azul turquesa.
Ao ouvir a história de Shirin, lembrei-me de Berenice e de Godard (rien n’est plus contraire à l’image de l’être aimé que celle de l’état — Rimbaud, Histoire(s) du Cinéma, 4b. Les signes parmi nous).
Mas não era preciso nada disso, creio, para compreender logo que Shirin é um filme político — o mais político e o mais comovente que eu vi nos últimos anos.
Em 1910, no seu livro Les Fonctions Mentales dans les Sociétés Inférieures, Lévi-Bruhl afirmava que os Trumai, uma tribo do Norte do Brasil, diziam que eram animais aquáticos, e os seus vizinhos Bororo gabavam-se de ser araras vermelhas, o que não significava que após a sua morte se tornassem araras, nem sequer que as araras se metamorfoseassem em bororos. Estava-se perante algo de radicalmente distinto: não um nome que atribuíam a si mesmos ou uma relação sugerida, mas antes a afirmação de que poderiam ser humanos e pássaros de plumagem vermelha ao mesmo tempo, o que sendo inconcebível para um entnógrafo ocidental não o era para estes grupos. A participação implicaria que se considerasse o carácter sensitivo dos conceitos que estariam carregados de qualidades emotivas e seriam marcados pela actividade corporal dos sujeitos. Ou seja, e usando uma linguagem próxima da fenomenologia, os conceitos faziam parte do mundo vivido dos sujeitos e dos grupos e não poderiam ser pensados como construções estritamente intelectuais sem assento na experiência.

Luís Quintais, Cultura e Cognição.

Sexta-feira, Junho 25

Pergunta Goethe: "E não pertence a cor inteira e profundamente ao rosto?"

pág. 38 de Símbolo, Analogia e Afinidade, de Maria Filomena Molder.

Quinta-feira, Junho 24

O que porventura eu tenha conseguido como poeta não é coisa de que ficar particularmente orgulhoso. Há excelentes poetas entre meus contemporâneos, outros, ainda melhores, viveram antes de mim; outros me sucederão. Mas, em meu próprio país, sou eu o único homem a saber o que é certo na difícil ciência das cores; e isto me causa uma satisfação verdadeira e um sentimento de superioridade sobre muitos.

Goethe em carta a Eckermann (19 de Fevereiro de 1829). Citado por Erich Heller em "Kafka".

Os amores de Shirin

(...) Era uma vez um filme, Shirin. Para dizer a verdade, eram duas vezes o filme Shirin. Pois, Kiarostami com este nome realizou duas obras de cinema. Que uma seja apenas perceptível na banda-sonora não faz dela um exercício menor, pois de forma muito visual e simples conta a história de Shirin, mesmo só se formando estas imagens nos nossos espíritos. Como Shirin se apaixona pelo rei Khosrow depois de ter visto o ser retrato. Como ele a surpreende enquanto se banha. Os caminhos que os separam tanto tempo. Como Khosrow casa com outra e ela é amada e ama outro. As batalhas, as explosões, os receios, os momentos de felicidade e desespero. Este filme cujas imagens são inspiradas na nossa imaginação pelo som – a nós espectadores ocidentais que descobrimos a história e aos espectadores iranianos que a conhecem de cor – é “visto” pelos espectadores, que nós olhamos. E este é o segundo filme. Tem o melhor casting com que um realizador pode sonhar: todas as grandes actrizes do seu país, quatro gerações estão presentes no ecrã. Entre elas, infiltrou-se uma grande actriz estrangeira, Juliette Binoche. Actrizes, vedetas, mulheres muito belas. Pois o filme de Kiarostami não se chama Khosrow e Shirin como o texto em que é inspirado, mas apenas Shirin. É a história dela, contada por ela, e é na luz reflectida nos rostos de todas aquelas mulheres, espectadoras, também algo da sua história. Elas, “estas irmãs” que invocam a heroína infeliz, e cujo destino toca tão profundamente as que olham e que nós vemos. Elas – as mulheres do Irão – e é claro, as mulheres em geral. Que olham elas na verdade? De que fenómeno luminoso nos tornamos nós a refracção nestes rostos tão belos, tão diferentes, tão intensos? Não o saberemos. Não mais do que olhava Falconetti em A Paixão de Joana d’Arc ou Vivien Leigh nas escadas em E Tudo o Vento levou. Talvez os carris de um travelling. São actrizes. Jean-Michel Frodon

Shirin, de Abbas Kiarostami, estreia hoje. No Cinema Nun`Álvares, às 19h30 (até 7 de Julho).

Quarta-feira, Junho 23

São João



Terça-feira, Junho 22

N'êtes-vous jamais fatigué?
— Je ne me fatigue jamais parce que je ne me presse pas.

Manoel de Oliveira, Cahiers du cinéma, mai 2010


Sergio Leone, Once Upon a Time in the West, 1968.

Segunda-feira, Junho 21

Mis queridos amigos,
(...)
Isabelle se equivocaría de no casarse si se presenta alguien serio e instruido, alguien con un porvenir. La vida es así y la soledad es una mala cosa. Por mi parte, siento no haberme casado y tener una familia. Pero ahora estoy condenado a errar, atado a una empresa lejana, y día a día pierdo el recuerdo del clima y la manera de vivir e incluso la lengua de Europa. ¿Para qué sirven estas idas y venidas, estas fatigas y estas aventuras en lugares de razas extrañas, y estas lenguas que llenan la memoria, y estas penas sin nombre, si un día, después de algunos años, no puedo descansar en un lugar que me guste más o menos, y encontrar una familia, y tener por lo menos un hijo para pasar el resto de mi vida educándole según mis ideas, dotándole de la más completa instrucción que se puede dar en nuestra época, y verle convertido en un ingeniero de renombre, un hombre rico y poderoso para la ciencia? Pero ¿quién sabe cuánto puede durar mi estancia en estas montañas? Puedo desaparecer en medio de estas tribus sin que nadie tenga noticia.
(...)
Adiós,

RIMBAUD

Campainha

A meio da noite, o toque da campainha ressoou brutalmente pela casa. Acordei num sobressalto. De olhos abertos no escuro, tentei reaver a consciência. Sentia a boca seca, o coração batia com força. A campainha tocou de novo, ainda mais insistente. Levantei-me e arrastei-me pelo corredor em direcção à entrada. Um, dois, três, quatro, cinco, seis passos. Um arrepio forte percorreu-me então todo o corpo: a porta da rua, que eu fechara - tenho absoluta certeza - antes de me deitar, estava aberta. Alguém abrira a porta e entrara. Alguém entrara e escondera-se num qualquer canto sombrio da casa, espiando os meus movimentos. Voltei a ser percorrido por um arrepio ainda mais terrível. Cerrei os punhos e olhei em volta. Avancei até à cozinha. Tudo normal. Regressei ao corredor. Entrei na sala. O confronto foi rápido e violento. Quando voltei para a cama, exausto como nunca me sentira na vida, trazia ainda alguns peixinhos minúsculos presos ao pijama.

Domingo, Junho 20


Escola Soares dos Reis.

Sábado, Junho 19

A carreira teatral de Robert Walser

Sem qualquer argumento literário, apenas tocada por uma intuição caprichosa — é o que faz ler certos livros ao ar livre —, aconteceu-me ver, com olhos de ver, é o que eu quero dizer, lado a lado, o jovem Wilhelm Meister, Karl Rossman e Robert Walser.
Cada um segue o seu caminho, mas também cada um sente-se atraído por uma promissora carreira teatral. Meister, porque o seu coração ingénuo assim o dirige; Rossman, de mãos vazias, apanhado nas redes do perturbante Teatro Natural de Oklahoma; e Walser, virado do avesso, quieto e em silêncio, perdendo-se dentro de si mesmo como quem se afoga no lago de uma gravura antiga.

Não se pode dizer quais são os olhos que vêem a cor real do céu.

Trouxe da Biblioteca Almeida Garret o único Kawabata que me faltava ler em português. É uma pequena colectânea de quatro contos que toma o título da primeiro: "A Dançarina de Izu" (tradução de Pedro Alvim, edição da Vega, 1994). Mas é do último, "A lua na água", que eu mais gosto, porque me faz lembrar o fim de um filme de Mizoguchi e, ao mesmo tempo, "A casa das belas adormecidas". Começa assim:
Um dia ocorreu a Kyoko dar a ver, através de um espelho de mão, o jardim ao marido, acamado no andar de cima. Este gesto era o início duma nova vida para quem estava dentro de casa há tanto tempo. O espelho de mão fazia parte do enxoval de Kyoko. O suporte do espelho era tal como a própria moldura: madeira de amoreira e não muito grande. Este espelho de mão lembrava-lhe a sua timidez nos primeiros anos de casada, quando, com o espelho de parede, procurava captar na nuca o reflexo da sua cabeleira. Então a manga do quimono deslizava, expondo-lhe o ombro...

Quinta-feira, Junho 17


Sentada de costas para o mar.

Questões laborais

Mudei de emprego; agora trabalho no 1º andar de uma casa antiga sobre o rio. A cozinha fica três andares para baixo. A escada é em madeira escura, iluminada apenas pela luz da clarabóia.
A meio da tarde vou ao frigorífico buscar um iogurte; quando não tenho tempo para o comer no quintal das traseiras, retiro-lhe a tampa e volto a subir os degraus — fingindo que sou, num só corpo, Cary Grant e Joan Fontaine.

Quarta-feira, Junho 16

Que tremendo exemplo da força das circunstâncias

O homem começou a sangrar, sem qualquer motivo, por uma ferida minúscula, quase invisível, na parte mais sombria da mão esquerda. Uma lenta gota de sangue, depois outra e outra ainda. O homem pressionou o local com um dedo, mas o sangue continuou a correr incontidamente, em gotinhas sucessivas e pachorrentas. Cobriu a ferida com toda a sorte de pensos rápidos: pequenos, grandes, redondos, compridos. A ténue gota, porém, insistia em brotar uma e outra vez. Embrulhou a mão num lenço. Em breve, não passava de um pano encharcado em vermelho vivo.
O homem dirigiu-se ao hospital. O caso surpreendeu os especialistas, inflamou as imaginações e deu motivo a muita espécie de especulações. Era um problema para o qual – e isso deixa-me sempre de novo admirado – os médicos não possuíam uma explicação e muito menos um tratamento.
Continuou a perder sangue lenta e inexoravelmente. Ao fim de alguns dias, naquele momento da manhã em que os galos, pelas aldeias, depois de terem lançado o seu cocoricó, adormecem de novo ainda mais profundamente, o homem sucumbiu ao seu ridículo ferimento. As lamúrias da viúva facilmente trespassariam um coração de pedra. Que tremendo exemplo da força das circunstâncias.
É claro que estou só a brincar. Inventei tudo isto. Mas esta história bem podia ter acontecido.

Terça-feira, Junho 15

As I have not said. On the other hand.


We should have to understand things which Shakespeare did not understand himself.

Segunda-feira, Junho 14

A moeda

Dois homens percorriam a avenida Nerudova. O primeiro vindo do princípio e o segundo do fim. A meio do caminho, e quando estavam prestes a cruzar-se, avistaram ao mesmo tempo uma tímida moeda que cintilava no chão. Ora, ambos dedicavam ao dinheiro um carinho verdadeiramente fraternal e, por isso, nenhum deles se achava disposto a prescindir daquele momento áureo que as fadas lhes
concediam.
Estacaram, indecisos, na frente um do outro. Depois, cumprimentaram-se polidamente com um leve aceno de cabeça. Não trocaram palavra alguma, achando-se demasiado ocupados em manter a moeda dentro do seu campo de visão. Com o ar altivo de orgulhosos imperadores romanos, respondiam ao mais leve movimento do adversário com uma espécie de grunhido surdo que logo o desencorajava de quaisquer pretensões.
Assim se mantiveram durante longos minutos, horas, de punhos discretamente cerrados, conservando um silêncio glacial e trespassando-se mutuamente com olhares de ódio. Veio a noite, e o dia, e a noite e outra vez o dia. E nada mudou: a pequena moeda brilhava entre eles e nenhum mostrava vontade de renunciar a tão precioso tesouro. Neste exacto momento, podem vê-los no mesmo ponto da avenida Nerudova, a imaginarem estratagemas para realizar os seus intentos.

The time is out of joint; O cursed spite, / That ever I was born to set it right!

"O tempo está fora da charneira; ai de mim, que nasci para o voltar a encaixar!"
«Nestas palavras, parece-me a mim, encontra-se a chave de todo o comportamento de Hamlet, e vejo claramente o que Shakespeare quis descrever: um grande feito imposto a uma alma que não está à altura desse feito. E acho toda a peça elaborada nesse sentido. Aqui, é plantado um carvalho num vaso precioso, que só devia acolher dentro de si lindas flores; as raízes expandem-se, o vaso é aniquilado.


Wilhelm em conversa com Serlo e Aurelie, no Capítulo Décimo Terceiro do Livro Quarto.
O maior absurdo é dizer que ele [Kafka] está interessado em literatura. Não há um grão de verdade nisso, protesta Kafka [em carta dirigida a Felice Bauer]: "Não tenho interesse literário, sou feito de literatura; nada sou além disso e não posso ser outra coisa." E prossegue, contando-lhe o pequeno episódio de uma história de satanismo que lia naquele momento: um frade tinha o dom de cantar tão bem que todos o ouviam com o mais puro deleite. Certo dia, porém, outro clérigo julgou reconhecer a voz de Satã naquele encantamento e tratou de exorcizá-lo. O cantor, cuja vida se concentrava inteiramente em seu dom, caiu morto e seu corpo entrou imediatamente em decomposição. Kafka comenta que "a relação entre mim e a literatura é similar... excepto que minha literatura não é tão doce quanto a voz daquele monge".

Erich Heller, Kafka. Tradução de James Amado.

Domingo, Junho 13


E dos jacarandás.

Sábado, Junho 12

O cheiro das tílias.

Sexta-feira, Junho 11

À espera de Heinrich von Ofterdingen

Wilhelm, é certo, não passa de um "pobre diabo", mas é com personagens destas que melhor se deixam mostrar o jogo inconstante da vida e as inúmeras e diversas tarefas da existência, e não com caracteres rígidos e já formados. Goethe a Schiller, 22 de Janeiro de 1821.

Acontece a Meister o que acontece aos alquimistas — procuram muito e, por acaso, indirectamente, encontram mais. Novalis, Fragmentos e Estudos, 1790-1800.


Do prefácio de João Barrento a Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister

Quinta-feira, Junho 10

As representações das coisas belas seguiram sempre um certo cânone, deixando um espaço limitado para a imaginação do artista. Com o Feio, os artistas podem ser mais inventivos. Tente imaginar a descrição literária de uma mulher bela: depois de enaltecer os olhos, o perfil, os lábios ou os cabelos, resta muito pouco a acrescentar (excepto no caso em que o escritor não descreve simplesmente qualidades físicas, mas sugere uma espécie de misterioso glamour, ou um apelo impalpável). Pelo contrário, na representação do horrível e do repugnante a fantasia do artista pode ter rédea solta. A Beleza tem limites canónicos. A Fealdade é ilimitada nas suas possibilidades.

Umberto Eco.
Uma praça vermelha, uma praça azul, capas flamejantes, guloseimas. A Feira do Livro não é para mim e eu não sou para ela. Não encontrei o livro de Calasso (nem literatura nem deuses), a Cotovia ocupa apenas um bocadinho de um stand. Meti o Robinson Crusoe no saco e fui recompor-me com um bife nos Irmãos Unidos que, feitos os cálculos proporcionais, equivale a um bom clássico de capa dura.
Só lá volto por Otelo (traduzido pelo Manuel Resende).

Quarta-feira, Junho 9

Um encontro muito feliz

Janusz perdeu um olho durante umas férias na praia, em 1957, próximo de Dog’s Bay, na Irlanda. Encontrou-o alguns anos mais tarde no interior de uma lata de sardinhas de conserva, quando preparava o jantar para a família. O olho achava-se em perfeito estado, vivo e brilhante como no dia em que desapareceu. Foi um encontro muito feliz, pois Janusz acreditou sempre, contra todas as evidências, que não seria zarolho para o resto da vida.

Terça-feira, Junho 8

UM RECADINHO

vou ao mercado
peço-te que me esperes aqui até eu voltar
podes lavar a tua roupa se te sentires aborrecida
e se a porta te perturbar
então arranca-a
e põe qualquer coisa no seu lugar
peço-te que não deixes a tua cara no espelho
e não saias pela janela
não te mates como é teu costume
mas
espera-me
aqui
até
eu voltar


"Ítaca Nº1, cadernos de ideias, textos e imagens" - Ahmed Barakat / trad: André Simões

Já que falei em recados, uma das formas escritas que mais prezo, não posso deixar de publicar este de que tanto gosto. (via Trama)

Strangers talk only about the weather #103

Nem a chuva consegue tirar-me desta modorra silenciosa. A única coisa que escrevi nos últimos dias foi um recado para mim mesma, num post-it amarelo: não esquecer o amor de Betteredge a Robinson Crusoe. Amanhã passo na Avenida dos Aliados.

Uma estranha árvore de Natal

Desde sempre fui levado a acreditar que as coisas, tanto em ficção como na vida, acontecem por uma razão. Mas num mundo desordenado, oscilante, confuso, incompreensível e regido arbitrariamente pelo Acaso, de nada valem os esforços do entendimento, os mecanismos do saber, a experiência humana. Nicolae Casadesus é o exemplo vivo de que por vezes somos vítimas de acontecimentos irrevogáveis para os quais não temos qualquer explicação plausível. Mas já chega de preâmbulo. Vamos aos factos.
Rapaz direito, de cabelos claros, com uma cara dura, bonita e uns estúpidos olhos azuis, Nicolae parecia-se bastante com Xavier Bardenklänge, que é da mesma idade. As histórias de ambos, porém, são muito diferentes. A de Nicolae é bastante mais simples: certa manhã de domingo, um modesto rádio de pilhas, que irrompera de parte nenhuma, colou-se tenazmente à sua perna direita como se possuísse desde sempre longas raízes por baixo da pele. Absolutamente horrorizado, tentou repetidas vezes arrancá-lo à força. Sem resultado. Parecia que o rádio jamais estivera separado da
perna.
Ao princípio, ainda pensou que talvez se tratasse de um fenómeno, digamos, natural, quer dizer, algo que pudesse acontecer a qualquer homem enervado. Mas não tinha decorrido um minuto, quando subitamente um ferro de engomar se veio colar com estrondo ao braço esquerdo. Nicolae ficou a olhar para o objecto, mudo de espanto, de fascinação, de repugnância. Era pesado e fazia-lhe doer os músculos. De novo, tentou arrancá-lo, mas só conseguiu agravar a dor. Seguiu-se então uma pausa muito breve, como se a má sorte precisasse de ganhar fôlego.
De repente, uma cadeira de jardim colou-se com veemência às suas costas. Profundamente impressionado, já não tinha reacção. Com os nervos torturados, cada vez mais aflito, chegou a pensar que estaria doido e que tudo aquilo não passava de um produto da sua terrível imaginação. E enquanto pensava isso, um pequeno frigorífico colou-se à perna esquerda. Num ápice, o caso evoluiu de um excesso a outro: seguiram-se um velho armário, uma máquina de escrever, um relógio de parede e toda a sorte de outros objectos que seria fastidioso enumerar aqui.
Caiu no chão, vergado pela violência e o peso de tudo aquilo. Levantou-se a custo e começou a caminhar de um lado para o outro com a maior das dificuldades. Olhou para o espelho do quarto com pasmo indescritível. Parecia uma estranha árvore de Natal, carregada de objectos de diferentes tamanhos, formas, cores, alguns deles francamente monstruosos.
Sim, era terrível o que ele tinha que suportar. Mas não havendo mais nada a fazer, pegou resolutamente no chapéu e no casaco, arrastou-se até ao café e pediu uma cerveja.

Domingo, Junho 6

Los más jóvenes, mis menores e incluso mis contemporáneos, parecen convencidos de que en la siguiente feria del libro, en el próximo catálogo de Houghton Mifflin o en este número de The New Yorker, aparecerán más libros dignos de su atención que en todos los siglos anteriores.
El problema es que es difícil construir un futuro interesante cuando uno empieza a funcionar como si solo existiera el presente: el impulso de lo anterior se extravía, uno se desorienta rebotando sobre el mismo sitio, el futuro deja de existir (sin pasado, no hay siquiera motivo para intuir la importancia del futuro), la idea de la tradición se esfuma.
Y no me refiero a ningún concepto decimonónico de tradición; me refiero a una de las constantes cruciales del trabajo literario: el consciente regreso creativo a la literatura del pasado en busca de los elelementos que harán la literatura del porvenir; el mecanismo que llevó a Faulkner hacia la Biblia, a Joyce hacia Homero, a Kafka hacia Cervantes; el mismo que llevó a Onetti hacia Faulkner, a Cabrera Infante hacia Joyce, a Piglia hacia Kafka, y, por tanto, a Onetti hacia la Biblia, a Cabrera Infante hacia Homero, a Piglia hacia Cervantes.


Gustavo Faverón Patriau.

Sábado, Junho 5

aquilo que não havia no romance e que acontece na vida

Depois, toda a gente se viu sentada na sala de estar, com as caras muito sérias. Vera Ióssifovna lia o seu romance. Começava assim: «Estava um frio de rachar...» As janelas estavam abertas de par em par, chegava da cozinha o bater das facas e o cheiro da cebola frita... Era cómodo estar sentado nas poltronas macias e fundas, as luzes cintilavam com carinho na penumbra da sala de estar; e agora, neste fim de tarde estival, quando se ouviam as vozes e os risos vindos da rua e entrava na sala a fragrância dos lilases, era difícil perceber o frio de rachar e o pôr-de-sol a alumiar com os seus raios gélidos a estepe coberta de neve, e o caminhante a andar, sozinho, pela estrada. Vera Ióssifovna lia coisas sobre uma condessa jovem e bonita que organizava na sua aldeia escolas, hospitais, bibliotecas e se apaixonou por um pintor ambulante — lia coisas que nunca acontecem na vida, e mesmo assim era agradável ouvi-la, muito confortável, e vinham à cabeça pensamentos bons, serenos: não apetecia à gente levantar-se.
— Nada malíssimo — pronunciou baixinho Ivan Petróvitch.
Um dos convidados, ouvindo e levado por pensamentos muito, muito longínquos, disse de modo quase imperceptível:
— Sim... realmente...
Passou uma hora, outra hora. No jardim municipal, próximo da casa, tocava uma orquestra e cantava um coro tradicional. Quando Vera Ióssifovna fechou o seu caderno, toda a gente ficou uns cinco minutos calada, ouvindo a «Estilha»* executada pelo coro, e essa canção transmitia aquilo que não havia no romance e que acontece na vida.

Do Conto Iónitch de Anton Tchékhov, (vol. II), tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água.

____________
* Canção poular russa.

Quinta-feira, Junho 3


Ventríloqua numa festa de aniversário em Outubro de 1947. Jeff Wall. 1990.
porque, de todas as leis da natureza, a mais maravilhosa é talvez a da sobrevivência dos mais fracos.
Do Prefácio de Vladimir Nabokov no Vol. I dos Contos de Tchékhov

É assim que o biscoito fica em migalhas

Pascal Lesszinsky é daquelas pessoas que, diante de uma cortina fechada, logo dão largas a fantasias ardentes. Pois bem, Pascal está justamente diante de uma alta, nobre e bela cortina de veludo vermelho. Passa os dedos pelo queixo barbeado e murmura um “hum” pleno de significado. Algum nervo oculto desenha-lhe na testa uma ruga em sinal de profunda reflexão. Não tira os olhos da cortina. Concentra-se, contendo o ar. Está a reunir os factos e a tirar conclusões, perdido entre as mais amplas e apimentadas regiões da imaginação.
Nada do que possa acontecer do outro lado da cortina lhe escapa. Sente o cheiro da luxúria como se sente o cheiro de um incêndio distante. O seu rosto brilha como uma maçã madura. Leva uma mão ao ouvido, como que desejoso de não perder um sussurro, um vago movimento, o som de um dedo a percorrer a pele. Contorce os lábios nas caretas mais inconcebíveis, o que o código das conveniências não permite nem recomenda. Imagina detalhes anatómicos deslumbrantes e esfrega as mãos com um ar extremamente satisfeito. Eis as mais lindas pernas que alguma vez sonhou.
Estão as coisas neste excitante pé, quando de repente o detém uma interrupção inesperada*, a saber: a alta, nobre e bela cortina de veludo vermelho sobe lentamente no ar e revela um palco. O cenário representa uma rua de Veneza. Rodrigo e Iago entram em cena. A peça começa.

* É assim que o biscoito fica em migalhas.

Quarta-feira, Junho 2

c'est ça c'est ça c'est ça

No estoy de acuerdo con separar esferas: literatura por un lado, política por el otro. Toda escritura está penetrada de política, lo que pasa es que hay que leerla así. No leer lo político como una esfera totalmente separada y superpuesta, de modo que habría literatura política según la referencia a violencias o cosas del pasado. No lo veo así. La escritura es una práctica política: no hago esas divisiones, no voy a decir acá esta lo político, acá lo literario. Creo van juntos.
Dado que hoy casi no se lee literatura, dado que la literatura es una práctica totalmente minoritaria y no se puede pensar la literatura en términos políticos de multitudes o de gran público como se la pensaba antes -leen los que escriben: prácticamente leen los que escriben; consideremos esa realidad-, a partir de esa miniaturización -podríamos decir- de la práctica literaria y del público literario podríamos pensar en una política inherente a esa práctica minoritaria que, por ser tan minoritaria, se estetiza. Se estetiza porque es una práctica chiquita y minoritaria.


Josefina Ludmer.

Terça-feira, Junho 1

Mas o conto inglês - ao contrário do francês ou do russo - se caracteriza, principalmente, pela finalidade simples e objectiva de contar uma "história". O "conteur" francês tece suas palavras sempre em torno de uma situação dramática. O russo, procura nas profundezas da alma humana o sentido trágico da vida. O nosso Machado filosofava ironicamente sobre os aspectos grotescos das suas criaturas. O inglês é diferente: ele, simplesmente, procura contar uma história. Uma história que geralmente possui princípio, meio e fim. Mesmo numa contista tão introspectiva como Katherine Mansfield não falta o "suspense" com o desfecho lógico ou imprevisto. B. Blackstone observa que aquilo que um britânico espera encontrar num conto é qualquer coisa que o alheie de si próprio. "Não quer, diz ele, que o levem a pensar de mais ou a escarafunchar profundamente no seu consciente. Quer que o convençam, por meia hora, de que não é ele mesmo; quer é ter férias da sua vida quotidiana e gozar duma existência mais livre e mais ampla."

Edgard Cavalheiro. Introdução a "Maravilhas do Conto Inglês" (Cultrix, 1957).