sexta-feira, Abril 30

A dip in the lake

Askja

Num país chamado Askja cada habitante nascia dotado de melodia. E do mesmo modo que não existem duas pessoas iguais, também não existiam duas melodias iguais. A melodia de cada habitante de Askja era como a sua impressão digital.
O país era governado por dois feiticeiros. O primeiro tinha um órgão negro na barriga do tamanho de um punho. O segundo tinha um órgão exactamente igual, mas de um azul delicado. Quando o primeiro feiticeiro abria a boca, ouvia-se a melodia daquele que ia morrer. Por seu lado, quando o segundo abria a boca, ouvia-se a melodia daquele que em breve nasceria. Tudo isto era muito natural e não havia nada nisto que espantasse.
Um dia o feiticeiro do órgão negro abriu a boca e ouviu-se a melodia do feiticeiro de órgão azul. Este morreu decorridos dois dias. Pouco depois, o feiticeiro do órgão negro abriu a boca e ouviu-se a sua própria melodia. Desde então, Askja transformou-se num país de velhos que não morrem.
Alguna vez, Borges dijo que Fogwill era “el hombre que más sabe de autos y cigarrillos”. Fogwill estaba contentísimo con la definición hasta que Pezzoni lo puso en vereda: “no te pongas contento, idiota, ¿no ves que dice hombre y no escritor?”.

-Borges no era Martín Kohan: cuando usaba un sustantivo sabía qué estaba diciendo.


Entrevista com Fogwill, aqui.

quinta-feira, Abril 29

Quando a realidade ultrapassa a ficção

Momento em que a realidade ultrapassa a ficção.

Procura-se escritores freelancers

Propomos agora uma oportunidade única a escritores freelancers para colaborarem connosco. Procuramos originalidade, conhecimento e criatividade nos seguintes temas:

- Finanças
- Fiscalidade
- Contabilidade

Respostas e envio de CV para aqui.

quarta-feira, Abril 28



Robert Doisneau, La Dame Indignée, 1948.

segunda-feira, Abril 26

( I stop and turn) and I go for a ride

John Wayne goes disco


Ontem, para comemorar o 25 de Abril, resolvi fazer arroz de favas. Segui a receita da minha avó e deitei-lhe um bocado de vinagre. Estava excelente.

Por distracção, perdi As operações SAAL, de João Dias. Por sorte, ainda apanhei um plano de Siza Vieira a falar sobre o bairro das Águas Férreas, com um poster de Thomas Bernhard em fundo.

domingo, Abril 25

sábado, Abril 24

John Ford goes surrealistic


Baixar as persianas e esperar pelo Sergeant Rutledge.

sexta-feira, Abril 23

Fim-de-semana cheio em Lisboa

Nada, a melhor revista portuguesa de pensamento, arte e ciência, é lançada amanhã, 24 de Abril, pelas 21h30, na livraria Letra Livre da ZDB (Galeria Zé dos Bois, Rua da Barroca, 56).

Mulher ao Mar, primeiro livro de poemas de Margarida Vale de Gato e um dos mais belos e originais da poesia portuguesa contemporânea (digo isto porque já o li), é lançado no domingo, 25 de Abril, pelas 21h00, no Espaço Sou, Rua Maria, 73. A apresentação da obra será feita por Hélia Correia, à qual se seguirá um Baile da Revolução.

quinta-feira, Abril 22

Creio que minha posição pessoal em relação ao assunto deve ficar clara aqui: me agrada a idéia de um pensamento sofisticado, sutil, mas me desagrada a idéia de texto restrito a iniciados, bem como detesto a idéia de especialistas quando o assunto é literatura. Parafraseando o grande alemão Lichtenberg: quem entende só de Clarice Lispector não entende nem de Clarice Lispector. Defendo o meu amadorismo no assunto até o fim, e admirava imensamente o Haroldo de Campos, que se metia, equipado ou não para isso, em poesia russa, alemã, japonesa, chinesa, yorubá, grega, e se dizia um “desespecialista em fragmentos”. Aliás, boa parte da frustração de uma certa espécie de leitor diante da poesia contemporânea não estará na presunção de que deve ler como “especialista”? Decifrando, interpretando, produzindo comentários “cultos”, em vez de partir para a leitura do poema com a garra do amador, que não investe nenhum narcisismo na operação e por isso mesmo não se sente ludibriado se um poema não lhe toca, apenas compreende que ele e aquele poema não foram feitos um para o outro?

Carlito Azevedo.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o.

Oswald de Andrade, "Manifesto Antropófago".

quarta-feira, Abril 21

História secreta da literatura

terça-feira, Abril 20








Ah, mas não se pode falar de malas sem fazer uma reverência a Alfred Hitchcock!

Imagem de Abschied von gestern (Anita G.). Para arquivar na secção: raparigas com malas.

§

Do Novo ao Novo Cinema Alemão. De 22 de Abril a 19 de Maio. No Cine Estúdio Campo Alegre.
Comemoração. Os Artistas Unidos voltam a Harold Pinter.

EMPREGADO O pato é para quem?

LAMBERT O pato é para mim.

JULIE Não é nada.

LAMBERT Não é nada. Então é para quem?

JULIE Para mim.

segunda-feira, Abril 19

The mirror is the imitation of life. What is interesting about a mirror is that it does not show yourself as you are, it shows you your own opposite. Douglas Sirk

domingo, Abril 18

the underlying element of hopelessness


There is another way in which I feel Imitation of Life and Written on the Wind, though so different, have something in common: it's the underlying element of hopelessness. In Written on the Wind the use of the flashback allows me to state the hopelessness right at the start, although the audience doesn't know the end. But it sets the mood. In Imitation of Life, you don't believe the happy end, and you're not really supposed to. What remains in your memory is the funeral. The pomp of the dead, anyway the funeral. You sense it's hopeless, even though in a very bare and brief little scene afterwards the happy turn is being indicated. Everything seems to be OK, but you well know it isn't. By just drawing out the characters you certainly could get a story — along the lines of hopelessness, of course. You could just go on. Lana will forget about the daughter again, and go back to the theatre and continue as the kind of actress she has been before. Gavin will go off with some other woman. Susan Kohner will go back to the escape world of vaudeville. Sandra Dee will marry a decent guy. The circle will be closed. But the point is you don't have to do this. And if you did, you would get a picture that the studio would have abhorred.
And this is where Euripides comes to the rescue again. Of course, I know this is a case of calling in the gods to witness in a dwarfish cause. Forgive me for unloading my classical education on you: do you know the last chorus of the Alcestis?

The manifestations of Gods happen in many shapes
Bring many matters to happy ends
What we thought would happen does not happen
The impossible is not impossible for the Unknowns
And that is the way it has happened here and today.

You see, there is no real solution of the predicament the people in the play are in, just the deus ex machina, which is now called 'the happy end', and which both Hollywood and Athenians and assorted Greeks were also so keen on. But this is what is being called Euripidean irony. It makes the crowd happy. (...) Douglas Sirk, Imitation of Life (Sirk on Sirk, by Jon Halliday), p. 229

(some others) sentimental colours

Ordinary women always console themselves. Some of them do it by going in for sentimental colours. Never trust a woman who wears mauve, whatever her age may be, or a woman over thirty-five who is fond of pink ribbons. It always means that they have a history.
The Picture of Dorian Gray (CHAPTER 8), by Oscar Wilde

§

I often choose colours like red and green, and I entitle these pictures "red-green sentimental colours." Nobuyoshi Araki Interviewed by Jérôme Sans

sábado, Abril 17

just as red as possible

A whole picture which I kind of liked was "Written on the Wind". It's a kind of surrealism. The people are heightened versions of reality — not realistic characters. Above all in its lighting and colors it is a non-realistic film. Fassbinder wrote a very perceptive thing about my style — he spoke of the craziness of my lighting. He points out that my lighting is never realistic, almost never from where the real light source would be. I was pleased that he saw that. Remember, "Written on the Wind" is basically one set. With "Written on the Wind" I had even more opportunity to furnish rooms and interiors lavishly. The studio expected it. But I determined to do the opposite. The material, I decided, is poster material, with a flat, simple lighting that concentrates the effects. It's a kind of expressionism, of course, like Wedekind, or late Strindberg, or early Brecht. And I avoid what a painter might call the sentimental colors — pale or soft colors. Here I paint in primary colors — like Kirchner or Nolde, for example. Or even like Miró. I have the flashing red of a car and I want that to be just as red as possible. Douglas Sirk, talking to James Harvey in Film Comment, 1978.


Dupla sessão Douglas Sirk na rtp memória. Escrito no vento, hoje; Imitação da Vida, amanhã. Às 21h15.
Figura 1

Era uma vez uma garota que amava um homem.
Eles tiveram um encontro próximo à estação da oitava rua do metrô da sexta avenida.
Ela havia vestido suas melhores roupas e um chapéu novo. Por alguma razão, ele não pôde ir.
Assim, o propósito desta imagem é mostrar como ela estava bonita. Quero dizer que ela estava realmente linda.

Louise Bourgeois, pág 46

sexta-feira, Abril 16

If Insects Were Bigger


A Dragon-Fly Captures an Unsuspecting Four-Wheeler in Liverpool.

Continua aqui.

I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more

O Elogio do Quotidiano

A vida quotidiana - quem não o sabe? - não é forçosamente alegre. Muito frequentemente é mesmo sufocante: uma repetição de gestos que se tornaram mecânicos, um afundamento nas preocupações impostas sem a possibilidade de levantar a cabeça, um esgotamento das forças no objectivo simples de sustentar a existência, a própria e a dos próximos (...).
A nossa sociedade soube agir sobre uma das causas de aflição que se pode experimentar no quotidiano, a fadiga física, substituindo a força humana pela acção das máquinas: o homem extenuado pelos esforços está mal colocado para gozar a qualidade de cada instante. Mas não soube, ou não quis, inflectir o nosso sistema de valores para que pudéssemos apreciar a beleza de cada gesto, dirigido aos objectos ou aos seres que nos rodeiam: apreciamos sobretudo a eficácia, transformando em meio, senão em instrumento, os nossos próximos e nós próprios.

Tzevetan Todorov, "Éloge du Quotidien - Essai sur la peinture hollandaise du XVII siècle". Citado por Luís Henriques, em Lisboa, "Cidade Triste e Alegre", revista Intervalo n.º 4.

quinta-feira, Abril 15

Como num filme de Rohmer

Adormeceu num dos bancos traseiros do 305; o corpo a escorregar, as pernas descontraídas, a boca ligeiramente entreaberta. Trazia uma pequena bolsa castanha a tiracolo e um saco plástico branco apertado na mão esquerda com uma banana e outras coisas de comer. Faltava-lhe o guarda-chuva, mas era a cara chapada do Bernfried Järvi, Rui.

É somente na literatura que a natureza compartilha dos nossos pesares e das nossas alegrias.

A admiração pelas belezas do mundo inanimado, que a poesia moderna tão larga e eloquentemente descreve, não constitui, mesmo nos melhores de nós, um dos instintos básicos do homem. As crianças não a sentem, nem as pessoas incultas. Aqueles cujas vida decorre entre a maravilhosa sucessão de paisagens marítimas e terrestres são os mais insensíveis a cada aspecto da natureza que não a relacione directamente com os seus interesses humanos. A nossa capacidade de apreciar os esplendores panorâmicos é, na verdade, uma aquisição da cultura que nós aprendemos como uma arte; mais ainda, raramente exercemos essa capacidade, excepto quando o nosso espírito está mais indolente e menos ocupado. Que parte tomam os atractivos da Natureza nas nossas dores e alegrias, nas nossas comoções ou nas dos nossos amigos? Que espaço ocupam nas mil e uma pequeninas narrativas íntimas que diariamente fazemos uns aos outros? Tudo o que a nossa inteligência compreende, tudo o que o nosso coração abarca, tanto pode verificar-se diante de uma pobre paisagem como de uma perspectiva deslumbrante com igual proveito e satisfação para nós. Há seguramente um motivo para esta falta de afinidade ingénita entre a criatura e a criação que a rodeia, motivo que se achará talvez na diversidade dos destinos do homem com o mundo em que ele vive. Está votada à destruição a mais alta montanha que o nosso olhar abrange, mas o mais pequeno sentimento experimentado por um coração puro será levado em conta para a imortalidade.

Wilkie Collins, "A Mulher de Branco", trad. de Maria Franco e Cabral do Nascimento, Relógio d'Água, 2009.

onde fica a casa do meu amigo

A empregada da recepção respondeu que tinha quartos disponíveis para a data pretendida e acrescentou estas palavras ambíguas: Favor tomar nota que não efectuamos qualquer bloqueio de espaço.
Não faço ideia do que ela estava a falar, mas a frase tem uma força abstracta formidável — reservei duas noites.

quarta-feira, Abril 14

nunca poderá perder tudo isso


Lançamento da INTERVALO nº 4. Às 21h30, n'A Barraca (Teatro Cinearte, Largo de Santos).


Dedicada à Alegria e a Olímpio Ferreira.


5ª FORMA DE ALEGRIA: UMA PLENITUDE SEVERA
A alegria como fatalidade (que toma conta de nós e não nos deixa sorrir). É como ser executante da vida, descobrir isso é descobrir o carácter sagrado da vida: [A Mulher] sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorrido são de náufrago», 169
Maria Filomena Molder, Sumário das Alegrias [Motes de Clarice Lispector],
em Sobre a alegria — à memória de Olímpio Ferreira, INTERVALO #4, pág. 86

terça-feira, Abril 13

Ouro

Ao princípio não passava de uma ideia muito simples, uma coisa de nada. Edwin brincava com ela e fazia-a deslizar pela ponta dos dedos. Atirava-a ao ar e voltava a apanhá-la. Deixava-a fugir e alcançava-a de novo. Transformava-a com as cambiantes da imaginação e aprimorava-a com as asas do paradoxo. A ideia mudava de forma e crescia. Antes de terminar o segundo cigarro, era já uma grande pepita de ouro puro, a maior pepita jamais vista, brilhando como um grande fogo no entardecer. Edwin contemplou-a então durante alguns segundos e depois, decepcionado, abandonou-a como se abandona um maço de tabaco vazio.

Chemical Structures Starting with the Letter C


Bigger than Life, de Nicholas Ray. Hoje, às 21h30, na sala 1 do Cinema Cidade do Porto.

§

James Mason mostra-nos como a cortisona dá cabo do espaço interior. Nicholas Ray mostra-nos como a cortisona dá cabo do espaço exterior. Mas, na verdade, nós ainda não sabemos o que é o espaço.

segunda-feira, Abril 12

Coca-cola killer

sábado, Abril 10

modalidade de longo curso (esquecer o Inverno)

Arrumar as vertigens de Cioran entre Marco Aurélio e Pascal. Procurar uma esplanada sossegada e dedicar-me, de coração aberto, a Wilkie Collins.

sexta-feira, Abril 9

Lembrete

Amanhã, sábado, Manuel Resende vai estar na Fundação Eugénio de Andrade (Passeio Alegre, Porto) para falar de tradução, literatura e ponto cruz. Às 18h30.

quinta-feira, Abril 8

Fatale beauté


Não há nada mais misterioso que o destino de um corpo. E.M.Cioran

4. Noites de lua cheia

Este filme — o mais belo da série — parece uma sonata de Mozart. Em cinzento e azul. Se Marne-la-Vallée é azul e branco, o quarto de Louise, em Paris [decorado por Pascale Ogier], é cinzento. E as écharpes mudam de cor ao sabor dos sentimentos. Pois ao fim de quatro meses (de Novembro a Fevereiro, um acto por mês) os sentimentos desenvolvem-se.

Claude-Marie Trémois, Guide du Cinéma, Ed. Télérama

Abril

Abril espalhou-se como um incêndio de uma ponta a outra do mundo. Uma incandescência dourada e doce e doce e doce. Com fios raros, Johann Haag fiou um casulo à sua volta. Fechou os olhos e adormeceu. Decorridos vinte dias e vinte noites, transformou-se numa borboleta. A mais tenebrosa, a mais horrível borboleta que já sobrevoou os campos na Primavera.

terça-feira, Abril 6


Árvore em flor, junto à Rua Ruben A.
No inferno, o círculo menos povoado mas o mais duro de todos deve ser aquele onde não podemos esquecer o Tempo um só instante.

§

Eternidade: pergunto-me como é que, sem perder a razão, pude articular tantas vezes esta palavra.

§

Eu não luto contra o mundo, luto contra uma força maior, contra a minha fadiga do mundo.

§

Desde há, digamos uns quarenta anos, nem um dia em que não tenha tido qualquer coisa como uma crise não declarada de epilepsia. Foi isso que me permitiu estar em forma e salvar as aparências.
... Quais aparências?

§

Impossível chegar à verdade pelas opiniões, pois qualquer opinião não é senão um ponto de vista louco sobre a realidade.

§

A verdadeira elegância moral consiste na arte de disfarçar as vitórias em derrotas.

§

No tempo em que eu fumava sem parar, o cigarro, depois de uma noite em branco, tinha um sabor fúnebre que me consolava de tudo.


E.M.Cioran

segunda-feira, Abril 5

Entre uma bofetada e uma indelicadeza, suporta-se sempre melhor a bofetada. E.M.Cioran
Por fim deu consigo na margem de um lago cheio de lírios e aves aquáticas. Um letreiro dizia: "Bilhetes para a Ilha do Lago de Innisfree", e três casais jovens estavam ao pé de um cais rústico.
- Só um? - perguntou a menina da bilheteira.
Os jovens esperavam tão abstractos como ele, cada par mergulhado numa quase visível aura de amor adolescente. Nem deram por Dennis, até que uma lancha eléctrica partiu da margem oposta e silenciosamente veio para o ancoradouro. Embarcaram todos, e após uma curta travessia os pares sumiram-se no jardim. Dennis ficou na margem, indeciso.
O barqueiro perguntou:
- Espera por alguém aqui, ó flor?
- Não.
- Esta tarde não apareceram damas sozinhas. Se tivessem aparecido, eu reparava. A maior parte das pessoas vem aos pares. De vez em quando um tipo marca encontro aqui e muitas das vezes a dama não põe cá os pés. O melhor é arranjar dama antes de tirar bilhete, é o que eu penso.
- Não - disse Dennis. - Venho só para escrever um poema. Será bom sítio?
- Lá isso não sei, minha flor. Nunca escrevi um poema. Mas o certo é que eles arranjaram isto à poética. O nome até é de um poema muito conhecido. E tem colmeias. Dantes até tinham abelhas, mas as pessoas andavam sempre mordidas, e agora é tudo mecânico e científico. Não há ferrões e há uma data de poesia. Não há dúvida de que plantaram aqui um lugar poético. Isto custa um milhar de notas. É o sítio mais poeticado do diabo do parque.

Evelyn Waugh, "O ente querido". Tradução de Jorge de Sena.

sábado, Abril 3

3. Pauline na praia


Branco, vermelho e azul.




Como n' A Blusa Romena, de Henri Matisse.


Como n' A Blusa Romena, de Henri Matisse.

A educação de Pauline

Todas as pesssoas querem ensinar-nos coisas sobre o amor, mas de nada adianta. O amor é sempre uma questão pessoal com inflexões extraordinárias; uma palavra lassa e uma palavra polvo.
Alexandre da Macedónia e o seu muleteiro, uma vez mortos, tanto faz um como o outro, ou foram reassumidos pelas mesmas razões geradoras do mundo ou então dispersaram-se de forma idêntica por entre os atómos. Marco Aurélio, Pensamentos, Livro VI, tradução de João Maia, BI. 037

sexta-feira, Abril 2

The idea of working on Don Quixote was one of the most exciting things that had happened to me as a translator. It was a privilege, an honor, and a glorious opportunity — thrilling, overwhelming, and terrifying. At this point I had the exchange with Julián Ríos that I mention in my translator’s note to Don Quixote. I told Julián about the project, and about the apprehension I felt, and he told me not to be afraid because, he said, Cervantes was our most modern writer. All I had to do, according to Julián, was translate Cervantes the way I translated everyone else, meaning the contemporary authors whose works — Ríos’s included — I had brought over into English. As I said in the note, this was “a revelation; it desacralized the project and allowed me, finally, to confront the text and find the voice in English”

Edith Grossman.
Se eu ficasse cego, o que me aborreceria mais era não poder observar até à tolice o desfile das nuvens. E.M.Cioran

Ruínas, de Manuel Mozos. No Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre.

(...) Há no filme um plano enigmático: vemos nele a tranquilidade do mar embalado pela praia. A vista perde-se-nos no horizonte aberto. Que faz aqui o mar, entre madeiras podres, estuques caídos, carris ferrugentos? DESTROÇOS, por Paulo Varela Gomes.

quinta-feira, Abril 1

O primeiro poema do primeiro livro de poesia publicado por Adília Lopes, "Memória para Esther Greenwood", é uma transcrição praticamente literal - em tradução portuguesa versificada - de um episódio do romance de Sylvia Plath A campânula de vidro (The Bell Jar, 1963), no qual a protagonista, Esther Greenwood, toma um banho quente após uma levemente sórdida saída à noite. Ao contrário do que acontecerá no magnífico e aterrador poema "A Elizabeth foi-se embora" (que amalgama e transforma profundamente dois poemas distintos de Anne Sexton, "You, Doctor Martin" e "Elizabeth Gone"), "Memória para Esther Greenwood" limita-se a traduzir para português e a recombinar muito ligeiramente a sua matéria-prima. O poema produz assim o que podíamos apelidar de um "efeito Pierre Menard", na esteira do conto de Borges: o episódio do romance de Plath não é propriamente canibalizado (pois não chega a ser digerido), nem dialogicamente interrogado, mas antes pura e simplesmente copiado. Porém, tal como Don Quijote reescrito por Pierre Menard, o texto sofre, por via deste processo, uma reformulação profunda do seu sentido, tornando-se simultaneamente o texto fundacional da obra poética de Adília Lopes.

Anna M. Klobucka, "O Formato Mulher".

Amêndoas (das boas) a preço de amigo