Quarta-feira, Março 31

et cet enfoiré de Cioran

Pierre Assouline: C'est la lecture de Cioran qui vous a assagi?
Jean-Luc Godard: Elle correspond à mon penchant pour l'aphorisme, la synthèse, les proverbes. Ce goût me vient peut-être des formules scientifiques. L'aphorisme résume quelque chose tout en permettant d'autres développements. Comme un nœud: il pourrait être fait dans d'autres sens, n'empêche que quand il est fait, le soulier tient aussi. Ce n'est pas la pensée mais une trace de la pensée. Alors Cioran, je le lis tout le temps dans tous les sens. C'est très bien écrit. Avec lui, l'esprit transforme la matière. Cioran me donne une matière dont l'esprit tire sa nourriture.

PA: Mais qu'est-ce qui vous séduit tant dans les aphorismes?
JLG: Le côté gare de triage. On y entre, on en sort, on y revient. Si on trouve une bonne pensée, on peut y rester longtemps. Puis on l'emporte avec soi. Pas besoin de tout lire. Pessoa, que j'aime beaucoup aussi, est tout de même très noir alors que Cioran aide à vivre. C'est une autre forme de pensée que la pensée avec un début, un milieu et une fin. Ça ne raconte pas d'histoire, c'est un moment de l'histoire.

PA: On peut voir ce que vous avez coché dans le volume d'Œuvres complètes de Cioran?
JLG: Des choses comme ça: «Chaque pensée devrait rappeler la ruine d'un sourire»; «Nous sommes tous des farceurs, nous survivons à nos problèmes»; «Tout problème profane un mystère; à son tour, le mystère est profané par sa solution»; «La pâleur nous montre jusqu'où le corps peut comprendre l'âme»; «Tôt ou tard, chaque désir doit rencontrer sa lassitude, sa vérité...» Et puis il y a celui-ci aussi qui me plaît beaucoup: «Objection contre la science; ce monde ne mérite pas d'être connu.» C'est autre chose que les conneries de Georges Charpak. Les scientifiques qui se permettent d'écrire sans savoir écrire, ça non! La logique du vivant de François Jacob, c'était écrit. J'en suis resté à Buffon: le style est l'homme même. Levinas avait de belles idées mais il était incapable de les faire passer à cause du problème de la langue. Popper et Einstein pareil. Il y a une déperdition du savoir-écrire. Alors Cioran... J'avais oublié celle-là: «J'ai perdu au contact des hommes toute la fraîcheur de mes névroses.»

Terça-feira, Março 30

A timidez, fonte inesgotável de infelicidade na vida prática, é a causa directa, ou até única, de toda a riqueza interior. E.M.Cioran

Segunda-feira, Março 29

2.b (no quarto de Sabine)


O sol,


a lua,


o candeeiro,


e o cartaz de Man Ray.

Há sempre surpresas neste mundo

No bloco operatório, um grupo de cirurgiões acotovelava-se em torno do paciente. Tinham feito uma incisão no peito e olhavam para o interior no mais enfático tom de espanto que se pode conceber. Uma nuvem sombria percorreu, um após outro, o rosto dos sábios. Era a coisa mais misteriosa e inexplicável que alguma vez tinham visto.
Há sempre surpresas neste mundo, mas os médicos não estavam preparados para aquilo. Nenhum calhamaço dá conta de casos semelhantes. O cirurgião Bommert tinha a boca tremendamente aberta. Eberhardt pestanejou muito depressa como se tivesse recebido uma violenta pancada na cabeça. O velho e experiente Antill empalideceu até ao aro dos óculos. Kieran soltou uma espécie de guincho e perdeu os sentidos.
Dentro do peito aberto do doente, um grupinho de cirurgiões minúsculos, mais pequenos que gafanhotos, acotovelava-se em torno do coração debilitado. Tinham aberto uma incisão do lado direito e afadigavam-se em intensa prospecção clínica. Não preciso dizer o susto que estes minúsculos médicos apanharam quando os primeiros espreitaram pela abertura. Tomados de terror, conservaram-se mudos, de respiração suspensa e olhos esbugalhados, ao ponto de lhes saltarem os globos oculares para fora das órbitas.

Na auto-estrada

Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.

Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?

Manuel Resende.

Em primeiríssima mão

Manuel Resende vai estar na Fundação Eugénio de Andrade, no Porto, no próximo dia 10 de Abril, no âmbito do ciclo dedicado a tradutores de poesia.
Repito: 10 de Abril, na Fundação Eugénio de Andrade, junto ao Passeio Alegre.

Domingo, Março 28

2. O bom casamento


Cores quentes,


de Outono.


Castanhos


e rosa.

Sábado, Março 27

1. A mulher do aviador


Cores frias. Azul, verde e um pouco de amarelo


(no forro da gabardine da rapariga


e na caneta bic).
Prece dos Atenienses: «Humedece, humedece, amadíssimo Zeus, os campos lavrados dos Atenienses e as planícies.» Ou bem se não reze, ou então reze-se assim com candura e espontaneidade.
Marco Aurélio, Pensamentos, Livro V, tradução de João Maia, BI. 037

Sexta-feira, Março 26

Não é com água que se molda o Homem, é com as lágrimas que Prometeu misturou ao barro.
... e ainda se fala, a propósito dos Antigos, de serenidade — vocábulo que não teve, em época alguma, o menor conteúdo

§

Os filósofos escrevem para os professores; os pensadores, para os escritores.

§

Nunca cheguei a saber o que ser quer dizer, salvo às vezes em momentos eminentemente não filosóficos.

§

O que não se pode traduzir em termos de mistério não merece ser vivido.

§

A esperança é a forma normal do delírio.

§

Grande exposição de insectos. No momento de entrar, dei meia volta. Não estava com disposição para admirar.

§

As conversa não é fecunda senão entre espíritos interessados em consolidar as suas perplexidades.

E.M. Cioran


Ryûnosuke Akutagawa.

Quinta-feira, Março 25

Conjunção adversativa em duas linhas

Traduzir as palavras francesas de Cioran dá-me bom ânimo,
mas desconfio que esta confissão irritaria os nervos do cartógrafo do desespero.

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Quarta-feira, Março 24

um fio de cabelo

In American typography, both en dashes and em dashes are set continuous with the text (as illustrated by use in the Chicago Manual of Style, 6.80, 6.83–86). However, an em dash can optionally be surrounded with a so-called hair space, U+200A (8202 decimal),...
Era uma tarde daquelas capazes de induzir dois cavalheiros idosos, num campo solitário, a despirem os sobretudos e a saltarem ao eixo apenas pela ligeireza de um coração puro, e sinceramente estamos em crer que, se nesse momento o Sr. Tupman se tivesse posto de gatas, o Sr. Pickwick teria aceitado tal oferta avidamente.

Charles Dickens, "Os Cadernos Póstumos do Clube Pickwick". Tradução de Margarida Vale de Gato.

Terça-feira, Março 23

Cage: Well the most important piece is my silent piece, 4'33".

Montague: That's very interesting. Why?

Cage: Because you don't need it in order to hear it.

Montague: Just a minute, let me think about that a moment.

Cage: You have it all the time. And it can change your mind, making it open to things outside it. It is continually changing. It's never the same twice. In fact, and Thoreau knew this, and it's been known traditionally in India, it is the statement that music is continuous. In India they say: "Music is continuous, it is we who turn away." So whenever you feel in need of a little music, all you have to do is to pay close attention to the sounds around you. I always think of my silent piece before I write the next piece.

John Cage at Seventy: An Interview, by Stephen Montague
Parece que na China, escutar com atenção o tique-taque dum relógio é (ou era, pois tudo isto cheira a passado), para os espíritos delicados, o prazer mais subtil. Esta atenção, na aparência material, ao Tempo, é na realidade um exercício altamente filosófico; obtêm-se, quando a ele nos entregamos, resultados maravilhosos no imediato — no imediato apenas. E.M.Cioran

Segunda-feira, Março 22

Le 15 novembre 1941

Cher ami,
Je suis de nouveau à Marseille, comme tu peux le voir par ma lettre, je suis chez mes parents. J’ai fait un peu plus d’un mois de vendange, et j’ai trouvé de la joie dans ce travail, malgré la fatigue.
Mais celui chez qui je devais aller travailler ensuite, et qui m’avait acceptée en principe, m’a écrit qu’il avait changé d’avis, qu’il ne veut pas nourrir de personnel et n’emploiera que des gens habitant dans le pays. Cet état d’esprit est un effet des privations; même à la campagne maintenant les gens n’ont pas beaucoup à manger.
Ainsi je suis de nouveau devant la mer. J’en jouis, car j’aime la mer avec passion.
J’ai acheté pour toi quelques petits livres scolaires en espagnol; c’est peu de chose, mais je n’ai rien trouvé d’autre en espagnol dans tout Marseille, et j’ai pensé que cela pourrait te faire plaisir.

Je te copie une copla que je trouve belle :

Las aves de Arabia
Viven eternas ;
Viven porque no sabien
Lo que son penas.
Que si penaron
En el mundo no hubiera
Aves de Arabia

Simone Weil

Um plátano

Grimsson decide comer um plátano.
Porquê?
Não sei.
Grimsson começa pelas folhas. Oh, as folhas dispostas ao longo de tenros raminhos com um sentido de composição tão tentador e apetitoso. Depois, pouco a pouco, avança pelos ramos mais fortes e de seguida pelo tronco. Grimsson cerra os dentes e arranca pedacinhos de madeira, mastigando devagar, com método, durante dias, meses a fio.
De quando em vez, um pássaro observa-o com ar grave e num tom de desconfortável censura. Mas Grimsson não cede. Sorridente, piscando os olhos por causa do sol, continua a devorar o plátano, lenta e persistentemente, até à raiz.
No fim, depois de engolir o último bocado da árvore com manifesta satisfação, dá três plácidas pancadinhas na barriga, seguidas de um forte e grave arroto.

Domingo

É domingo:
nos subúrbios do coração eles
lavam os carros.

Ela e as batatas
cozem na cozinha: o jantar
leva dez minutos a comer.

E ele levanta-se rapidamente com
as crianças: quem quer que
não tenha a sua custódia

pode visitá-las hoje.
A carne é maquilhada
e vestida: o pastor aperta-me a mão

como se o gesto tivesse significado.
O urso polar, por trás das grades,
ergue-se nas patas traseiras, e suspira.

Kathleen Spivack.

Sábado, Março 20

Outono

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.

Russell Edson em destaque no Poesia & Lda.

Notes and Sketches (Walden) #3 — See what happens.

Quinta-feira, Março 18

Acabei de ler numa biografia de Tchékhov que o livro que ele mais anotou foi o de Marco Aurélio.
Eis um detalhe que me satisfaz tanto como uma revelação. E.M. Cioran

Quarta-feira, Março 17


A prática cinéfila na ala conservadora do partido: comprei uns sapatinhos vermelhos!

Antes da Branca de Neve (— Tiens ma poule, voilà du cinema)

O Último Mergulho de João César Monteiro tem uma das declarações de amor mais bonitas que já vi no cinema. Cito-a de memória: é de manhã, Esperança está deitada, adormecida, Samuel aproxima-se da cama com um manjerico na mão, senta-se, faz-lhe festas nos ombros. Ela ergue-se um pouco, da sua boca sai um som seco e profundo: amo... Esperança é muda; a luta do seu corpo para articular a palavra tem uma força formidável e diz-nos, creio, qualquer coisa da natureza intrincada do amor.

Um degrau após outro

Depois de muita hesitação, Lindberg pousou o pé direito no primeiro degrau da escada, fechou os olhos, apertou as pálpebras com força e começou a subir. Um degrau após outro. Em movimentos lentos e cautelosos, abstendo-se de olhar para baixo. Mais um degrau e outro, e outro ainda. As pernas tremendo. Pé ante pé, calculando mentalmente o número de degraus percorridos. Pássaros surpreendidos batiam as asas à sua volta. Parecia que a escada não tinha fim e que estava naquilo há várias horas. Como é que ainda não chegara ao limite? Sentia-se como um acrobata num circo. Por baixo, apenas o abismo.
Esbaforido, pálido de fadiga, arrepiado até à raiz dos cabelos, continuava a trepar. Houve, no entanto, um momento em que ousou olhar para cima. Estava a poucos centímetros do final. Uma luzinha cintilou-lhe nos olhos. Estugou o passo e esticou o pescoço. Olhou, cheio de terror, para baixo. Estava a dois metros do solo, talvez três. Estendeu o braço e, com o coração quase parado, recolheu a inefável maçã que brilhava no ramo mais baixo da macieira. Na verdade, não tão brilhante como lhe parecera do chão. Afinal, uma maçã igual a todas as outras.

Finalmente, Ferdydurke

A 7 Nós, nova editora do Porto com ligações à livraria Gato Vadio, de Júlio do Carmo Gomes, inaugura o seu catálogo com Alberto Pimenta, Joseph Beuys, Bulgakov, Robert Louis Stevenson e Gombrowicz. Deste último, a 7 Nós irá lançar, em Setembro, o obrigatório "Ferdydurke", que nunca foi editado em Portugal (existe uma tradução brasileira da Companhia das Letras, mas sem distribuição entre nós). Melhor começo era impossível.

Terça-feira, Março 16

Como dizem os médicos,

— Como nasce o amor — dizia Aliókhin —, porque razão não se afeiçoou Pelagueia a qualquer outro que lhe fosse mais próximo pelas qualidades físicas e espirituais, mas se apaixonou precisamente por este Nikanor, por estas ventas (aqui toda a gente lhe chama o «Ventas»), tendo em conta que, no amor, o essencial são as questões da felicidade pessoal... tudo isso é uma incógnita e pode-se interpretá-lo como quisermos. Até hoje, apenas foi dita do amor uma verdade incontestável: «é um grande mistério»; de resto, tudo o que tem sido dito e escrito do amor nunca foi a solução, mas apenas um levantamento de questões a que nunca se deu resposta. Uma explicação que, aparentemente, serve para um caso já não se aplica a dez outros, e o melhor, a meu ver, é esclarecer cada caso em separado, sem tentar generalizar. Como dizem os médicos, é necessário individualizar cada caso concreto.

Contos de Tchékhov (volume III), "Sobre o Amor", tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra,
Relógio d'Água, Out. 2002.
Está aqui um homem num barco por baixo da janela — que apanha peixe todos os dias com uma forquilha de 5 pontas: um colete & uma espécie de ceroulas são toda a sua vestimenta. Por que é que eu não hei-de fazer o mesmo?

Edward Lear.

Segunda-feira, Março 15

Strangers talk only about the weather #102

Na praia dos ingleses, por volta da hora do almoço, um grupo de rapazes e raparigas entraram na água vestidos.
E há ainda esse modo demasiado nervoso e logo demasiado derrotado, que tanto ataca as personagens de Tchékhov. Penso em Vera Ivánovna Kárdina de volta ao "ninho materno", sonhando um futuro tão encantador e livre como a estepe que a rodeia. E todavia, incapaz de o alcançar, completamente paralisada por um enorme descontentamento ou cansaço (nunca sei bem qual é a doença que as magoa...), arrepia caminho e acomoda-se a uma vida maçadora e triste, a uma paisagem desoladora.

O humor começa na capa



P. G. Wodehouse, "Dinheiro para Nada". Editorial Século, 1947.
"O meu tio, meus senhores", disse o caixeiro-viajante, "era um dos tipos mais alegres, divertidos e engenhosos à face da terra. Quem me dera que os senhores o tivessem conhecido. Pensando melhor, mais vale que não o tenham conhecido, porque se tivessem, estariam todos, segundo o curso normal da natureza, ou mortos ou pelo menos tão à beira disso que por esta altura já estariam fechados em casa e apartados da sociedade, o que me privaria a mim do inestimável prazer de falar convosco neste momento. Meus senhores, quem me dera que os vossos progenitores tivessem conhecido o meu tio. Gostariam muito dele, especialmente as vossas respeitáveis mães, tenho a certeza. Se havia duas virtudes que sobressaíam de entre as muitas que lhe enalteciam o carácter, diria que eram a mistela de ponche que ele sabia fazer e a sua cantiga a seguir à ceia. Perdoem-me eu espraiar-me assim com estes pensamentos melancólicos sobre a virtude de um defunto, mas não se vê um homem como o meu tio todos os dias da semana."

Charles Dickens, "Os Cadernos Póstumos do Clube Pickwick". Tradução de Margarida Vale de Gato.

Domingo, Março 14

Paysages

Paysages paisibles ou désolés.
Paysages de la route de la vie plutôt que de la surface de la Terre.
Paysages du Temps qui coule lentement, presque immobile et parfois comme en arrière.
Paysage des lambeaux, des nerfs lacérés, des «saudades».
Paysages pour couvrir les plaies, l'acier, l'éclat, le mal, l'époque, la corde au cou, la mobilisation.
Paysages pour abolir les cris.
Paysages comme on se tire un drap sur la tête.

Henri Michaux – Peintures (éd. Gallimard, 1939 – 1964 )

Sábado, Março 13


Não é o campo delimitado e mais ou menos distante de John Berger, onde uma coisa qualquer trivial acontece e nos devolve, com delicada graça, as linhas da nossa própria vida. É quase o contrário. Apercebi-me disso, pela primeira vez, há uns anos, durante uma curta viagem entre as Flores e o Corvo num pequeno barco pneumático. Guardei, guardo ainda, a impressão intacta e esta fotografia tirada algumas horas mais tarde do topo do Corvo. O espaço aberto e inhabitual devolvia-me algo estranho que não era meu; seria, talvez, do campo das possibilidades (ou das impossibilidades). Como nos filmes de Naruse. Devenir plus forte et plus heureuse

Sexta-feira, Março 12

... Suddenly an experience of disinterested observation opens in its centre and gives birth to a happiness which is instantly recognizable as your own.
The field that you are standing before appears to have the same proportions as your own life.

John Berger, Field, 1971
Os cães de Pentti Sammallahti


Solovki, White Sea, Russia, 1992


Lianwuno, Wales, 1995


Cilento, Italy, 1999

Quinta-feira, Março 11

Uma dieta rigorosa à base de tomates e pimentos verdes

Era um tipo insuportável. Ignorante, tolo, impertinente, preguiçoso, obsceno, aquilo que nós, albaneses, chamamos de rematado tunante, velhaco, réprobo e escroque. Voz em tom de trovão. Nariz em forma de batata escandalosamente vermelha. Olhos cheios de azulada malícia. Um refinadíssimo celerado, um não sei quê. Na verdade, não me sinto inteiramente capaz de descrever uma pessoa como ele. Acrescentarei apenas que também gostava muito de acender fósforos. Enfim, traços de personalidade que só trazem suores, tremuras e não fazem bem nenhum.
(Pausa para ganhar fôlego.)
Até que um dia, ao fim de muitos anos, decidiu transformar-se num homem novo. Estas coisas nunca são fáceis, mas por meio de um processo higiénico, que incluía exercícios matinais, banhos de água gelada e uma dieta rigorosa à base de tomates e pimentos verdes, alcançou os seus intentos. Tornou-se um homem maravilhoso, gentil, muito simpático e, o que é mais importante, bastante sensato e correcto. A própria fisionomia mudou e espelhava agora os melhores e mais calorosos sentimentos que podem transmitir um rosto humano. Para onde quer que estendesse o olhar, via apenas beleza e bondade. Tudo para ele era motivo de alegria: uma brejeirice, um copo de vinho, um bonito rapaz.
Depois, desapareceu da superfície da página sem qualquer explicação.

Quarta-feira, Março 10

O Japão às vezes é como se lá estivesse...


A praia, a Ponta da Cruz e o cais

Lourdes Castro
«A Praia Formosa»
photografias do meu avô
Jacinto A. Moniz de Bettencourt
ilha da Madeira

porta 33
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça n.º 4/2010

Supremo Tribunal de Justiça

Constitui modalidade afim, e não jogo de fortuna ou azar, nos termos dos artigos 159.º, n.º 1, 161.º, 162.º e 163.º do Decreto-Lei n.º 422/89, de 2 de Dezembro, na redacção do Decreto-Lei n.º 10/95, de 19 de Janeiro, o jogo desenvolvido em máquina automática na qual o jogador introduz uma moeda e, rodando um manípulo, faz sair de forma aleatória uma cápsula contendo uma senha que dá direito a um prémio pecuniário no caso de o número nela inscrito coincidir com algum dos números constantes de um cartaz exposto ao público.

Segunda-feira, Março 8

Óculos sujos e embaciados

O que é pior do que um calo no pé? Eu respondo: óculos sujos e embaciados. Pode correr-se o mundo inteiro que não se encontrará coisa pior.
O que acontece quando os óculos se acham sujos e embaciados? Os homens, o mundo, os homens, enfim, o mundo, surgem sob um ângulo inteiramente novo, mais autêntico, mais verdadeiro. Os óculos sujos e embaciados apresentam a vida na sua mais repugnante vividez. É a verdade das coisas que se revela em toda a sua amplitude, até aos mais ínfimos pormenores.
Ora, nem eu – inevitável caixa de óculos – nem ninguém no mundo se agrada destas tristes extravagâncias. Ver as coisas tal como elas são não é uma brincadeira. Ver as coisas tal como elas são é uma tortura insuportável. Porque a verdade está cheia de monstros*. Esta é a razão pela qual todas as pessoas que usam óculos se esforçam por mantê-los com as lentes muito bem limpas. Assim, tudo continua no seu devido lugar. E continua muito bem.

* A respeito disto podia contar várias histórias incríveis e extraordinárias, algumas das quais far-me-iam passar certamente por mentiroso, de tão inacreditáveis que são.

Três citações

"Arte es quitar lo que sobra."

"La descripción prolija es completamente inútil. ¡Oh, una frase corta espiritual única, que lo evoque todo sin decirlo! El verdadero arte no debe mostrar, sino evocar. Y como en nuestra mente de viajeros eternos de la vida y del ideal no hay nada definido, la evocación hará surgir enjambres pintorescos, llenos de la verdadera virtud de realidad, confusos y bellos, como la vida."

"Cada vez me parece peor la pintura grande, la música grande, la escritura grande. Tan pesado me parece un poema largo como un discurso. La vida no es larga, sino intensa."

Juan Ramón Jiménez.
(Citado por Teresa Gómez Trueba, Ínsula, n.º 741.)
As duas mulheres que mais pratiquei: Teresa d'Ávila e a Brinvilliers. E. M. Cioran

§

(Hesitei traduzir pratiquer por praticar. Mas depois lembrei-me que podemos praticar a paciência, a música, a dança, os jogos, a religião, o bem, o mal... porque não praticar o pensamento ou as acções de alguém? Como se fosse uma língua estrangeira.)

Domingo, Março 7

O princípio do belíssimo texto de Maria Filomena Molder "Sobre a alegria (à memória de Olímpio Ferreira), publicado na Intervalo #4:
O VASO
Em primeiro lugar, a alegria é um vaso onde se guarda aquilo que jamais se poderá perder, mas que vem ao nosso encontro, a experiência imediata transfigurada em recordação. O vaso é inquebrável e poroso, é inquebrável porque poroso, resultado daquela transfiguração: as mudanças do céu numa tarde de aguaceiros, roupa a secar ao vento, os movimentos bruscos, ancestrais, secretos e cómicos dos melros em acasalamento, a coisa que perdemos e desistimos de procurar e um belo dia nos cai nas mãos. O tema é goethiano (Viagem a Itália).

§

Os flocos de neve caindo sobre o casaco escuro de Robert Walser. Na página 228 de Crónicas: imagens proféticas e outras (1º volume), de João Bénard da Costa

Sábado, Março 6

La première chose, c’est la découverte en 1965, en Suisse. On était là pour le sous-titrage de Non réconciliés. Dans une lointaine banlieue, on a vu Le Massacre de Fort Apache et c’était une révélation... «Le plus grand sens de la démarcation sociale» (Straub & Huillet sur Ford, 1990)

Sexta-feira, Março 5


Deus-aranha, segundo Fritz Lang.
Modos de ver. Quando penso em John Berger, vejo-o num mercado, a comprar fruta. Vejo a maneira como as suas mãos pegam nas maçãs e nas laranjas. É por isso que gosto dele. E vice-versa, quer dizer, também aqui se aplica o princípio da reciprocidade espontânea.
It was raining lightly: the trees were absolutely still. And I remember thinking as I drove round the hairpin bends that if I could define or realize the nature of the submission of the trees, I would learn something about the human body too — at least about the human body when loved. The rain ran down the trees. A leaf is so easily moved. A breath of wind is sufficient. And yet not a leaf moved.

John Berger, "Ernst Fisher: a Philosopher and Death" (Why look at animals, A Penguin Book, Great Ideas)

Quarta-feira, Março 3

Marco Aurélio escreve a E.M. Cioran

— Tens uma excelente maneira de te defenderes deles: evita ser-lhes semelhante.

Um enorme, pesado e terrível ponto de interrogação

Pouco antes da hora marcada, o despertador pigarreou um pouco e fez alguns exercícios para aclarar a voz. Kaljuste não ouviu isto porque estava mergulhado num sono de chumbo. Depois, exactamente às sete da manhã, a máquina abriu a goela e desatou aos urros, numa impressionante demonstração de pontualidade virtuosística.
Kaljuste acordou, suspirou fundo e levantou-se. Tomou café à pressa e saiu para o trabalho. Em pleno autocarro, foi assaltado pela desagradável sensação de ter esquecido qualquer coisa. Apalpou os bolsos, abriu e fechou a carteira, remexeu os papéis na pasta, rodou a cabeça em todos os sentidos. Alguma coisa, sem dúvida, lhe havia escapado. Mas o quê? Por mais que coçasse a memória, não se conseguia lembrar. Rodou a cabeça em todos os sentidos, remexeu os papéis na pasta, abriu e fechou a carteira, apalpou os bolsos. Sentia-se afundar numa negra angústia.
Era uma pessoa assim: fero e forte nos casos mais graves, mas a quem um minúsculo grão de areia no caminho era o suficiente para o deixar como louco. Iam passando os minutos e o assunto não se resolvia. Kaljuste transformou-se num enorme, pesado e terrível ponto de interrogação. Vieram-lhe ideias negras, passaram-lhe maus pensamentos pela cabeça. Escondeu o rosto anormalmente pálido nas mãos. Um lamento contínuo escapava-se-lhe dos lábios. Parecia-lhe impossível que o mundo continuasse a respirar, sem perder tempo com aquele gravíssimo problema.
De repente a sua expressão mudou, como se fosse atingido por um raio. Levantou-se, olhou fixamente em frente através dos óculos dourados e espetou o indicador no ar. Ah, sim, era isso. Lembrava-se perfeitamente. Era isso mesmo. Afinal, nada de muito importante. E agora que a memória recuperara o brilho habitual, notou que se esquecera também do pão com queijo gruyère para o lanche da tarde. Encolheu os ombros e suspirou. De facto, não era preciso ter levado a coisa tanto para o trágico.
Depois deste incidente continuou a sua vida do costume – sossegado, cortês, bastante amável, muitíssimo amável, em especial com as colegas do escritório. O que me faz lembrar um outro sujeito, de quem o leitor por certo também já ouviu falar.

Terça-feira, Março 2

La niña y el lobo

Una tarde, en un bosque oscuro, un gran lobo esperaba por una pequeña niña que iba a aparecer llevando una cesta de comida para su abuela. En efecto, la niña apareció cargando con la cesta de comida. "¿Vas a llevarle esa cesta a tu abuelita?", preguntó el lobo. La pequeña niña dijo que sí, que así era. Entonces el lobo le preguntó dónde vivía su abuela y la niña se lo dijo, y el lobo desapareció entre los árboles.

Cuando la niña abrió la puerta de la casa de su abuela vio que había alguien acostado en la cama con el gorro de dormir puesto. No se acercó a más de unos pasos cuando se dio cuenta de que no era su abuela sino el lobo el que yacía sobre la cama, ya que, aún con el gorro puesto, el lobo se parecía a su abuela tanto como el león de la Metro-Goldwyn se parece a Calvin Coolidge*. Por lo que la pequeña niña extrajo una pistola automática de la cesta y se la vació encima al lobo.

Moraleja: Hoy no es tan fácil engañar a las pequeñas niñas como lo era antes.

* Presidente de los Estados Unidos (1923-1929).

James Thurber.

Segunda-feira, Março 1


El tiempo no es dinero. El dinero no es tiempo. Nada reemplaza al tiempo y el genio no es más que una larga paciencia. Jean-Marie Straub
El tiempo es todavía una ventaja formidable porque nadie tiene más que el resto. Cuando se consigue prenderlo, ahí se pueden hacer saltar multitud de cosas.
Danièle Huillet