É na neve que o fio é fiado e na neve que ele se vai tecendo. É a neve que lava e branqueia o tecido. Todo o fabrico começa e acaba na neve. «Os panos de
chijimi existem porque a neve existe: pode dizer-se que a neve é a mãe do
chijimi», como alguém afirmou em tempos.
As mãos das mulheres, nesta Terra de Neve, passam os meses nevados do Inverno a fiar, a tecer, a transformar em tecidos leves o cânhamo colhido nos campos em declive da montanha. E Shimamura, que sabia apreciar este tecido, que se tinha tornado raro, ir procurá-lo nas velhas lojas de Tóquio para com ele mandar fazer os seus quimonos de Verão. As suas relações no mundo da dança permitiram-lhe descobrir uma certa loja que tinha a especialidade dos antigos trajes do teatro Nô, e havia combinado com o proprietário que seria ele, Shimamura, o primeiro a ser prevenido, sempre que uma peça de verdadeiro
chikimi lhe viesse parar às mãos.
Conta-se que em tempos passados, nas feiras de
chijimi, realizadas depois de as neves derreterem, pela Primavera, quando na região se tinham já retirado as janelas duplas de Inverno, as pessoas chegavam de toda a parte para comprar esse tecido famoso, até mesmo os ricos mercadores de cidades tão importantes como Edo, Nagoia ou Osaca, e que por tradição tinham os seus lugares marcados nos hotéis. Naturalmente, a juventude da região descia dos altos vales com o produto dos últimos seis meses de trabalho; e era numa atmosfera de festa que entravam em concorrência com as exposições dos vendedores, tabuleiros de todas as espécies, feirantes, espectáculos, em frente dos quais rapazes e raparigas se acotovelavam, em multidão. Os tecidos expostos traziam uma etiqueta de papel com o nome e a morada daquele que os tinha fabricado, pois havia um concurso para recompensar o melhor trabalho. Era também ocasião de procurar um bom partido. As raparigas, que aprendiam a tecer desde a infância, realizavam as suas obras-primas entre os catorze e os vinte e cinco anos. Mas, com a idade, iam perdendo essa agilidade dos gestos que dava qualidade aos tecidos de
chijimi. Assim, a emulação era viva entre essas raparigas, que trabalhavam com tanto ardor como amor durante os meses em que a neve as mantinha prisioneiras, isto é, depois do décimo mês, altura em que começavam a fiar, até à segunda lua, com a qual devia ter findado o branqueamento sobre os campos, prados e jardins, ainda cobertos de neve.
Terra de Neve, de Yasunari Kawabata, tradução de Armando da Silva Carvalho,
Publicações Dom Quixote, pág. 147 e 148.