Domingo, Janeiro 31




Planos de corpo inteiro.

A mão esquerda

Não sou canhota, mas habituei-me a fazer uma série de coisas menores com a mão esquerda: acender o isqueiro, fumar, pegar na chávena de café, comer maçãs, abrir e fechar portas.
A mão esquerda é mais lenta, mais hesitante, mais pensativa, do que a direita.

Sábado, Janeiro 30

(on imperfection)

The second reason is, that imperfection is in some sort essential to all that we know of life. It is the sign of life in a mortal body, that is to say, of a state of progress and change. Nothing that lives is, or can be, rigidly perfect; part of it is decaying, part nascent. The foxglove blossom, — a third part bud, a third part past, a third part in full bloom, — is a type of the life of this world. And in all things that live there are certain irregularities and deficiencies which are not only signs of life, but sources of beauty. No human face is exactly the same in its lines on each side, no leaf perfect in its lobes, no branch in its symmetry. All admit irregularity as they imply change; and to banish imperfection is to destroy expression, to check exertion, to paralyze vitality. (...)

The nature of Gothic, John Ruskin

Sexta-feira, Janeiro 29

Ginjas

Faz 150 anos que nasceu Anton Tchékhov, um homem bom, e não um bom homem, senhora Revisora, de quem alguém me disse “gostaria que fosse meu pai”, mas não vou dizer quem, por suspeita de que haja nesse alguém eventual pudor, e na Rússia hoje é tudo Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov. E depois? Depois, 150 anos depois, ainda se continua a descrever Tchékhov como o mestre da nostalgia, quando se trata de melancolia, doutores, que no tempo dele era uma doença (e no nosso tempo, se fores ao psicas e pagares bem), a melancolia dos escritores russos tal como a dos escritores de Istambul tão bem descrita pelo tchekhoviano Orhan Pamuk em Istambul (Presença), e, 150 anos depois, ainda se continua a dizer Cerejal ou, ainda mais poeticamente, Jardim de Cerejas, quando se trata de Ginjal, doutores, um grande pomar de ginjas para comercialização e industrialização (a cereja na época era demasiado frágil para isso), pomar que foi derrubado pelo pragmatismo económico da época e cujas machadadas melancólicas no abate arborífero deram azo ao mais belo momento de teatro que jamais vistes na vida, doutores.

Filipe Guerra.

Quinta-feira, Janeiro 28

TEDDY

Palavras e expressões para ver na biblioteca amanhã quando fores entregar os livros:
                            nefrite
                            miríade
                            cavalo dado
                            astuto
                            trinvirato


(...)

A vida é um cavalo dado na minha opinião.

As justas recomendações do médico Kubelik

Friedrich tinha hábitos esquisitos. Passava as noites acordado a observar o céu. E os dias, ocupava-os a cofiar a barba.
Ora, como é sabido, não são hábitos que se possam considerar saudáveis. O médico Viacheslav Kubelik avisou-o: “Aviso-o que se quer ter mais alguns segundos de vida, tem que abandonar os seus hábitos esquisitos.”
Mas Friedrich ignorou inteiramente as justas recomendações do médico Kubelik. E continuou com as mesmas esquisitices: de noite, a cofiar o céu; de dia, a perscrutar as estrelas na sua barba.

Quarta-feira, Janeiro 27

- Isto é encantador... absolutamente encantador! - disse o Sr. Pickwick, em cujo semblante expressivo se via a pele a descascar da exposição ao sol.
- Ah, é sim... é sim, meu velho - respondeu Wardle. - Vá, um copo de ponche!
- Com todo o gosto - disse o Sr. Pickwick, em cujo semblante se veio então a espelhar, ingerido o líquido, uma prova cabal da sinceridade da sua resposta.
(...)
- Ora, este ponche é mesmo do melhor - disse o Sr. Pickwick, a olhar avidamente para a botija de barro - e faz um calor imenso, e... Tupman, meu amigo, não quer um copo de ponche?
- Com o maior prazer - respondeu o Sr. Tupman; e, depois de beber aquele copo, o Sr. Pickwick tomou outro, só para ver se o ponche tinha casca de laranja, porque a casca de laranja lhe fazia sempre mal; vendo que não havia, o Sr. Pickwick bebeu mais um copo à saúde do amigo ausente, e depois sentiu ainda a necessidade imperiosa de propor outro em honra do incógnito fabricante do ponche.

Charles Dickens, "Os Cadernos Póstumos do Clube Pickwick". Tradução de Margarida Vale de Gato.

A organização do espaço

Filmes de planície e filmes de montanha. É assim que Eric Rohmer classifica os seus filmes.
O ciclo continua amanhã (Os outros somos nós), no Campo Alegre.

Se isto não é o princípio da Primavera, anda lá perto.

Terça-feira, Janeiro 26

Houdini

Como habitualmente, o senhor Houdini apareceu* debaixo de uma forte chuva de aplausos, agradeceu com uma vénia elegante e deu alguns passos decididos até ao centro do palco. Depois, desenhou no ar alguns gestos misteriosos e de dentro da cartola tirou uma omolete. Na verdade, a mais bela e apetitosa e perfumada omolete que alguma vez se viu sair de uma cartola.
O público achou-se perfeitamente assoberbado de espanto e perplexidade, de tal forma que algumas pessoas desmaiaram ali mesmo, e tiveram de ser levadas em braços. Tudo isto eu posso narrar-vos com verdade, pois testemunhei-o com os meus próprios olhos.

* Jaqueta curta com botões de prata muito juntos, camisa engomada com gola direita, colete debruado com sutache de seda, calção estreito amarrado ao joelho com raminhos de felpa de lã e botas amarelas.

Segunda-feira, Janeiro 25

Domingo, Janeiro 24

- Que era essa negociata? - perguntou Johnny, com a impaciência do grande público a quem se contam histórias.
- É contrário à arte e à filosofia dar essa informação - disse Keogh, calmamente. - A arte da narrativa consiste em esconder do auditório tudo o que ele quer saber até se ter exposto a nossa opinião favorita sobre tópicos completamente estranhos ao assunto. Uma boa história é como uma pílula amarga com a capa de açucar por dentro. Começarei, se me dás licença, com um horóscopo situado na Nação Cherokee; e terminarei com uma música moral de fonógrafo.

O. Henry, Palmeiras e Presidentes. Tradução de Mário Henrique Leiria.

Fiodor e Arsinoé


Sábado, Janeiro 23


Mais moi, j'aime bien les histoires.

Pas des histoires. Apprendre à dire une phrase.

As palavras têm vida própria, dizem sempre ou mais ou menos do que queremos. Para encontrar as que nos descrevem é preciso ir na direcção contrária ao pensamento, quer dizer, evitar a justa medida.

Sexta-feira, Janeiro 22

Jasmíneas

Jasmim, jasmim-amarelo, gelsémio, giestó, jasmim-azul, bela-emília, cinamomo, jasmim-de-soldado, jasmim-azul-do-brasil, jasmim-do-cabo, jasmim-da-arábia, nictanto, jasmim-da-carolina, gelsemina, jasmim-da-itália, arrebenta-bois, jasmim-da-virgínia, gelsémio, jasmim-de-cera, jasmim-do-mato, jasmim-de-cuba, alamanda, jasmim-do-imperador, aruca, erva-de-lagarto, guamixinga, jasmim-manga-da-índia, paratucu, jasmim-laranja, pau-da-china, jasmim-pipoca, catavento.

Quinta-feira, Janeiro 21

E nem sequer é Outono

Um homem deu à luz uma romã. Tivesse dado à luz qualquer outro fruto e o assunto tinha acabado ali. Mas era uma romã, valha-nos Deus, e isso deixava-o muito inquieto. Semicerrou os olhos e começou a examinar o fruto, segurando-o com a pontinha dos dedos, e rodando-o com elaborado rigor científico. Concluiu que se tratava, de facto, e segundo todos os seus conhecimentos, de uma romã. Era uma romã, tinha a certeza. “E nem sequer é Outono”, pensou com impressionante objectividade.
Logo que chegou a essa conclusão, uma pequena ruga de perplexidade abriu caminho por entre as sobrancelhas e um ar apreensivo instalou-se-lhe em redor da boca. Pousou então o fruto sobre a mesa e, ao seu lado, dispôs com todo o cuidado três generosos charutos. Foi buscar a cadeira de lona, descalçou os sapatos e estendeu-se confortavelmente. Fumaria aqueles três charutos enquanto consideraria o problema.
Eric Rohmer no Cine-Estúdio do Teatro do Campo Alegre. De 21 a 27 Janeiro.

§

Sabor do Cinema — Momento XVII
. De 31 de Janeiro a 28 de Feveiro. No Auditório de Serralves.

Quarta-feira, Janeiro 20

Outras curiosidades sentimentais das redes sociais subterrâneas


É fácil marcar encontros com os mortos (o cinema, aliás, não nos ensina outra coisa). Nestes dias frios tenho imaginado o meu encontro oficial com Ozu. A primeira coisa de que me apercebi é que seria um encontro do género baixo contínuo, se é me posso exprimir assim. Começavamos numa estação de metro (pela perspectiva aberta, a das Águas Férreas é a mais adequada) a falar, obviamente, do tempo — eu com o meu cachecol vermelho, e ele com o seu chapeuzinho. Depois, sentados ao balcão de um café a conversar sobre comida. E, por fim, numa sala onde eu lhe desvendaria dois casos da língua portuguesa: que casamento e casa são da mesma família, que estação tem os dois sentidos que ele tanto aprecia. Bom, nesta altura isto já é mais sólido do que muitos dos meus encontros fugazes.

Terça-feira, Janeiro 19

- Ah, meu caro senhor! - exclamou o homenzinho, indo ao seu encontro [do Sr. Pickwick]. - Fico muito feliz por vê-lo aqui, meu caro senhor. Sente-se, por favor. Com que então sempre realizou o seu projecto? Veio até cá para ver uma eleição?
O Sr. Pickwick respondeu afirmativamente.
- É uma luta renhida, meu caro senhor - comentou o homenzinho.
- Fico absolutamente encantado! - disse o Dr. Pickwick, esfregando as mãos. - Gosto de ver o patriotismo assanhado, venha de que lado vier. Com que então vamos ter uma luta renhida?
- Oh, sim, extremamente renhida - confirmou o homenzinho. (...) Mas estamos muito esperançados - confidenciou o Sr. Perker, com a voz sumindo-se-lhe quase num murmúrio. - A noite passada organizámos aqui um chazinho... cinquenta e quatro mulheres, caro senhor... e demos uma sombrinha verde a cada uma, à saída.
- Uma sombrinha! - exclamou o Sr. Pickwick.
- É verdade, meu caro senhor, é verdade. Quarenta e cinco sombrinhas verdes, a seis xelins e seis pence cada uma. Todas as mulheres gostam do luxo... um efeito estupendo, aquelas sombrinhas! Angariaram-nos os votos de todos os maridos, e de metade dos irmãos... é melhor do que um par de collants, ou combinações, e todas essas frioleiras. Ideia minha, meu caro senhor, toda minha. Faça granizo, ou chuva, ou sol, não pode um homem andar mais de dez passos pela rua sem dar com meia dúzia de sombrinhas verdes.
Com estas palavras, o comissário desatou às gargalhadas, apenas interrompidas pela chegada de uma terceira pessoa.

Charles Dickens, "Os Cadernos Póstumos do Clube Pickwick". Tradução de Margarida Vale de Gato.

Porto

Este episódio é apenas mais um revoltante sinal entre tantos, tantos outros, da morte lenta do Porto. Uma lenta decadência que acelerou trágica e irremediavelmente a partir do final de 2001. A propósito da possível extinção da Fundação Eugénio de Andrade, nem o mais leve comentário por parte da Câmara do Porto. E que fique claro que o tão propalado "desinvestimento de Rui Rio na cultura" é um detalhe no meio desta tragédia. Não é só o Porto que perde. É sobretudo o país, que corre o risco de desaparecer.
Trata-se de um importante manual técnico para pintura de interiores e exteriores, incluindo fórmulas de fabrico e aplicação de pigmentos, óleos e resinas, quer para utilização corrente, quer artística. O primeiro tomo traça uma muito sucinta história da pintura e completa-se por um dicionário de pintores. De muita utilidade para os então designados pintores-fingidores.

Aqui.

Segunda-feira, Janeiro 18

I wonder whether Mark means that he eats dogs or is fond of them?


Bringing up Baby parece uma corrida de estafetas, mas também é um filme formidável sobre as particularidades da língua inglesa.

Domingo, Janeiro 17

Os panos de chijimi existem porque a neve existe

É na neve que o fio é fiado e na neve que ele se vai tecendo. É a neve que lava e branqueia o tecido. Todo o fabrico começa e acaba na neve. «Os panos de chijimi existem porque a neve existe: pode dizer-se que a neve é a mãe do chijimi», como alguém afirmou em tempos.
As mãos das mulheres, nesta Terra de Neve, passam os meses nevados do Inverno a fiar, a tecer, a transformar em tecidos leves o cânhamo colhido nos campos em declive da montanha. E Shimamura, que sabia apreciar este tecido, que se tinha tornado raro, ir procurá-lo nas velhas lojas de Tóquio para com ele mandar fazer os seus quimonos de Verão. As suas relações no mundo da dança permitiram-lhe descobrir uma certa loja que tinha a especialidade dos antigos trajes do teatro Nô, e havia combinado com o proprietário que seria ele, Shimamura, o primeiro a ser prevenido, sempre que uma peça de verdadeiro chikimi lhe viesse parar às mãos.
Conta-se que em tempos passados, nas feiras de chijimi, realizadas depois de as neves derreterem, pela Primavera, quando na região se tinham já retirado as janelas duplas de Inverno, as pessoas chegavam de toda a parte para comprar esse tecido famoso, até mesmo os ricos mercadores de cidades tão importantes como Edo, Nagoia ou Osaca, e que por tradição tinham os seus lugares marcados nos hotéis. Naturalmente, a juventude da região descia dos altos vales com o produto dos últimos seis meses de trabalho; e era numa atmosfera de festa que entravam em concorrência com as exposições dos vendedores, tabuleiros de todas as espécies, feirantes, espectáculos, em frente dos quais rapazes e raparigas se acotovelavam, em multidão. Os tecidos expostos traziam uma etiqueta de papel com o nome e a morada daquele que os tinha fabricado, pois havia um concurso para recompensar o melhor trabalho. Era também ocasião de procurar um bom partido. As raparigas, que aprendiam a tecer desde a infância, realizavam as suas obras-primas entre os catorze e os vinte e cinco anos. Mas, com a idade, iam perdendo essa agilidade dos gestos que dava qualidade aos tecidos de chijimi. Assim, a emulação era viva entre essas raparigas, que trabalhavam com tanto ardor como amor durante os meses em que a neve as mantinha prisioneiras, isto é, depois do décimo mês, altura em que começavam a fiar, até à segunda lua, com a qual devia ter findado o branqueamento sobre os campos, prados e jardins, ainda cobertos de neve.

Terra de Neve, de Yasunari Kawabata, tradução de Armando da Silva Carvalho,
Publicações Dom Quixote, pág. 147 e 148.

Sábado, Janeiro 16

O Tatu

Um homem chega a casa depois de um longo dia de trabalho no escritório. Dá a volta à chave e abre a porta. Está tudo escuro. Tacteia a parede em busca do interruptor. A luz irrompe num clarão e o homem descobre, no meio do maior terror, que a casa está vazia. A mulher e os filhos desapareceram. Os móveis, os aparelhos, os livros, os discos, tudo desapareceu. Restam as paredes, o tecto e o chão. E um tatu de casaco preto e botas altas, ainda mais surpreendido do que o homem, a observá-lo no meio daquele imenso vazio.
Entretanto, o homem recupera a calma, reflecte um pouco e conclui que afinal se enganou na porta. Sai para o corredor e sobe mais um lanço de escadas. Agora sim, esta é a sua casa. A mulher e os filhos esperam-no, como habitualmente, para jantar. Tudo está no seu lugar. O homem está contentíssimo. O homem bate as palminhas.

Curiosidade sentimental

Num dos vidros da tabacaria em frente da minha casa está colado um papelinho com um texto de Wenceslau de Moraes: «Ora, eis aqui uma curiosidade sentimental, que ressalta da comparação das duas diferentes formas de linguagem. Nós dizemos, e connosco muito outros: — as aves cantam. Os japoneses dizem: — tori ga naku (as aves choram)...»

Quinta-feira, Janeiro 14


María Onetto, Verónica, a mulher sem cabeça.

Stereotyping People by Their Favorite Author

Leo Tolstoy
Guys I want to date.

Fyodor Dostoevsky
Guys I want to sleep with. (The difference between the two Russian authors lies in the fact that I think the Underground Man is sexier than Pierre Buzukhov).

Jane Austen (or Bronte Sisters)
Girls who made out with other girls in college when they were going through a “phase”.

Charles Dickens
Ninth graders who think they’re going to be authors someday but end up in marketing.

William Shakespeare
People who like bondage.

Mark Twain
Liars.

Edgar Allan Poe
Men who live in their mother’s basements. Or goth seventh graders.

William Faulkner

People who are good at crosswords.

Ernest Hemingway
Men who own cottages.

F. Scott Fitzgerald
People who get adjustable-rate mortgages.

Vladimir Nabokov
Men who use words like ‘dubious’ and ‘tenacity’.

Thomas Pynchon
People who used to be fans of J.D. Salinger.

Dan Brown
People who used to get lost in supermarkets when they were kids.

Lista completa aqui.

Quarta-feira, Janeiro 13

No comboio

Nenhum homem me amou mais
do que o homem que se sentou
ao meu lado no comboio.

Amou-me durante vinte e cinco minutos,
profundamente, sem olhos para mais nada.
Amou o meu perfil,
as minhas mãos a segurar o livro,
amou todas as vezes que olhei pela janela.

Amou-me de um sítio onde
não era capaz de falar-me do seu amor.
E quando se levantou, e me deixou para sempre,
ofereceu-me uma lâmina de madeira, limpa e macia,
dizendo que era para eu marcar
as páginas do livro: toda a riqueza do seu reino.


Daqui.

Terça-feira, Janeiro 12

Todas as noites e todas as manhãs

É preciso convir que se há homens bem maus, há almofadas ainda piores. A almofada de Polónio Panayotov nunca dormia e a sua imaginação achava-se continuamente ocupada com sonhos muito negros. À noite, entregava-se – estou convencido disso – a toda a espécie de tenebrosos projectos destinados a prejudicar o dono. O demónio que havia nela era impiedoso.
Ora, Polónio Panayotov deitava-se com as galinhas. E o certo é que mal se estendia na cama, caía num sono profundo, mergulhando a cabeça na maldosa almofada. Assim, sem alternativa, precipitava-se para o seu terrível destino. De manhã, despertava com um sintomático e estranho rubor cálido nas faces.
Isto repetiu-se todas as noites e todas as manhãs, durante muito, muito tempo. Desta maneira tornou-se-lhe impossível continuar a viver e… morreu. Tinha noventa e seis anos.

Segunda-feira, Janeiro 11

Os olhos azuis de Maurice Schérer

e todavia isso é o homem

...
E o que completa a nossa impotência para conhecer as coisas é que elas são simples e nós somos compostos de duas naturezas opostas e de género diverso, de alma e de corpo. Porque é impossível que a parte que em nós raciocina seja senão espiritual; e, ainda que se pretendesse que fôssemos simplesmente corporais, isso nos excluiria muito mais do conhecimento das coisas, pois nada há mais inconcebível do que dizer que a matéria se conhece a si mesma; não nos é possível conhecer como se conheceria ela.
E, assim, se nós [somos] simples [seres] materiais, nada podemos conhecer, e se somos compostos de espírito e de matéria, não podemos conhecer perfeitamente as coisas simples, espirituais ou corporais.
Donde vem que quase todos os filósofos confundam as ideias das coisas, e falem das coisas corporais espirtitualmente e das espirituais corporalmente. Porque dizem ousadamente que os corpos tendem para baixo, que aspiram ao seu centro, que fogem da sua destruição, que receiam o vazio, que [têm] inclinações, simpatias, antipatias, que são todas elas coisas que só pertencem aos espíritos. E, falando dos espíritos, consideram-nos como em um lugar, e atribuem-lhes o movimento de um lugar para outro, que são coisas que só pertencem aos corpos.
Em vez de receber as ideias dessas coisas puras, tingimo-las das nossas qualidades, e impregnamos [de] o nosso ser composto todas as coisas simples que contemplamos.
Quem não julgará, ao ver-nos compor todas as coisas de espírito e de corpo, que essa mistura nos seria muito compreensível? E, no entanto, é o que menos compreendemos. O homem é em si mesmo o mais prodigioso objecto da natureza; porque não pode conceber que vem a ser corpo, e ainda menos que vem a ser espírito e menos que coisa alguma como pode um corpo estar unido com um espírito. É esse o cúmulo das suas dificuldades, e, no entanto, é esse o seu próprio ser: Modus quo corporibus adhaerent spiritus comprehendi ab hominibus non potest, et hoc tamen homo est.


Blaise Pascal, "Do espírito geométrico e da arte de persuadir" (O lugar do homem na natureza: os dois infinitos), tradução de Henrique Barrilaro Ruas, Elementos do Sudeste #3, Porto Editora, p. 95 e 96

Domingo, Janeiro 10

Escribiendo demasiado arruinamos nuestro espíritu; no escribiendo, lo oxidamos.

Cuando se escribe con facilidad siempre se cree contar con más talento del que se tiene.

Sólo se debe emplear en un libro la dosis de ingenio que se requiere, pero en la conversación se puede emplear más de la que se requiere.

Para escribir bien se necesita una facilidad natural y una dificultad adquirida.

Hay que ser profundos en términos claros y no en términos oscuros.

Lo que acarrea todos los males a nuestra literatura se halla en que nuestros sabios tienen poco ingenio y nuestros hombres de ingenio no son sabios.

Sólo buscando las palabras se encuentran los pensamientos

Las palabras son como el vidrio; oscurecen todo aquello que no ayudan a ver mejor

Antes de emplear una palabra hermosa hazle un sitio.

Ciertos escritores se crean noches artificiales para dar un aspecto de profundidad a su superficie y más relumbre a sus luces mortecinas

Son buenas obras sólo aquellas que han sido durante mucho tiempo, si no trabajadas, al menos soñadas.


Joseph Joubert (1754-1824 ), “Sobre arte y literatura” (Periférica, 2007), traducción de Luis E. Rivera a partir de la selección y edición póstuma que hiciera Chateaubriand, amigo de Joubert.
[No blogue de Eduardo Berti]

Sábado, Janeiro 9

Strangers talk only about the weather #101

O frio torna os meus pensamentos mais agéis e leves, mas tolhe as minhas mãos. Tudo o que não escrevemos é perfeito e vago como um sonho, querido Walser. Janeiro, a neve amontoa-se à tua porta.

Sexta-feira, Janeiro 8

A MORTE: Perguntas-me quem somos. Nada somos e no entanto somos alguma coisa. Não somos nada porque não possuímos nem vida, nem ser, nem forma; não somos um espírito, não somos nem visível, nem palpável e somos alguma coisa porque somos o fim da vida, o fim da existência, o fim do ser, e a origem do mundo.

Johannes von Saaz, "O Lavrador da Boémia". Tradução de Isabel Lopes.

Quinta-feira, Janeiro 7

Quarta-feira, Janeiro 6

Mecânica dos movimentos


Não tem explicação, mas esta onda pintada por Courbet é o que se aproxima mais de falhar melhor.

A mais bela asa do mundo

Boniface desejava ganhar asas e voar. Isto, claro, não tem nada de extraordinário. Em toda a parte há gente que gostaria de voar, mas não como ele. Boniface estava possesso daquela mania, num desvario cada vez maior. A obsessão era tão completa, que no seu pensamento não restava espaço para mais nada. E tanto desejou voar que em Março de mil e novecentos e cinquenta e três, pof, transformou-se em nada menos do que uma asa. Vejam como são as coisas. Uma asa verdadeiramente imensa. A mais bela asa do mundo. Tão bela quanto superlativa e brilhante. Não havia ave cuja inveja ela não suscitasse. Nem nos seus sonhos mais loucos isto lhe passara pela cabeça.
Pois muito bem. Agora, uma pergunta: o que podia ele fazer sendo apenas uma asa? Apesar das longas penas douradas com raros toques de púrpura azul ou violeta, lamento dizê-lo, uma asa não chega para voar. Boniface viu subitamente o caso descarrilar. Oh, não, não, não, dez mil vezes não! Cheio de arrependimento - pobrezinho! -, pensava na vida segura e sem imprevistos que desdenhara em favor daquele terrível desejo de voar. Nunca vi uma asa com um ar tão desanimado.
De facto, o mundo é duro e cruel. De facto, ninguém sabe por que estamos aqui; ninguém sabe para onde vamos. De facto, deveríamos compreender humildemente a beleza da quietude, esforçarmo-nos por atravessar a vida sem barulho, a fim de não sermos notados pela sorte. De facto, desejar pouco ou nada, viver escondido num cantinho, os pés bem assentes na terra, eis a verdadeira sabedoria. Com efeito, tinha sido melhor que Boniface tivesse ouvido o seu pai e fosse hoje apenas um modesto carpinteiro*.
Assim, manteve-se asa para sempre. Nos anos que se seguiram, sobreviveu sem que se saiba exactamente como. Ele próprio é extremamente discreto acerca deste ponto nas suas memórias.

* Creio que esta educação para o fado, para a resignação e para a morte será uma das funções principais da literatura. Talvez haja outras, mas agora não me vêm à cabeça.

Terça-feira, Janeiro 5

O amor a Portugal e a mágoa, a dor e a melancolia incurável de ter visto a luz «neste país perdido», é um topos camoniano que percorre como um veneno, como uma maldição e às vezes como uma utopia regeneradora e uma visão futurante a literatura portuguesa, desde Garrett e sobretudo desde o tempo finissecular oitocentista até Pessoa, Torga, Manuel Alegre, Ruy Belo e outros autores, e que eu vivo dramaticamente. Um topos camoniano que se converte irremediavelmente num tropo do camonismo. Felizes, neste país cronicamente pobre, endividado, injusto, em estado permanente de «ruína cultural», como disse Pessoa, só alguns gestores e alguns economistas…

Vítor Aguiar e Silva.

Segunda-feira, Janeiro 4

Nessa mesma época, ouvi falar de um piantado cujo humor negro se resume numa carta tão breve como gloriosa. Este sujeito tinha saído de casa sem deixar o mais pequeno pré-aviso, deixando a sua mulher com um hanjinho hinocente nos braços. Exactamente vinte e três anos mais tarde, o hanjinho recebeu um envelope de Turim, onde vinha uma mensagem lacónica e um pedaço de cordel. A mensagem dizia: «Querido Gilberto, apesar de terem passado tantos anos não deixei de pensar na tua mamã e em ti. Vivo em Itália, onde agora já sou chefe na fábrica de chapéus Borsalino. Aqui te envio este cordel para que meças a tua cabeça e mo devolvas, porque queria oferecer-te um dos nossos chapéus. O teu papá que se lembra de ti, X.» Não cheguei a saber ao certo o que fez Gilberto, além de se ter embebedado e mostrado o cordel em diversos cafés da calle Once.

Julio Cortázar, "A volta ao dia em 80 mundos". Tradução de Alberto Simões.

Domingo, Janeiro 3

Um violentíssimo ataque de tosse

Mais ou menos a meio do segundo andamento da Sinfonia n.º 99*, de Joseph Haydn, o maestro foi acometido por um violentíssimo ataque de tosse. Um ataque de tosse tão violento e fulminante que ele não resistiu e acabou por sucumbir em pleno palco.
Felizmente, os músicos eram excelentes e conduziram a obra até ao final, sem a regência de ninguém, numa interpretação luminosa e cheia de uma contagiante alegria.
O público, reconhecido, aplaudiu de pé durante mais de meia hora, o que atrasou a remoção do corpo. Quando os bombeiros entraram em palco, o maestro achava-se já um pouco frio.

* O segundo andamento da Sinfonia n.º 99 é um Adágio muito sério, na tonalidade inesperada de Sol maior, e tem início com a alternância de longas frases entre os violinos e as madeiras com trompas.



Andando (Aruitemo aruitemo), de Hirokazu Koreeda. Em exibição no Cine-Estúdio do Campo Alegre.

Nada mais — rien ne va plus

Na alienação que é o pensamento
as coisas escorrem pelos dedos abaixo
a matéria, a «phisis»
tudo nos escorre pelos dedos abaixo
na alienação que é o pensamento
Dominam-se as coisas até onde o céu
pode ser aberto
e a geometria uma realidade nossa
para limitar o espaço
A cabeça em limites
onde um limite um ser
uma coisa
e tudo cá dentro cá dentro cá dentro
até onde um limite
ainda torna possível a existência
dum outro por abrir
Hoje o céu é novo é diferente
é dormir e acordar de novo para as coisas
o céu os pássaros
a fantasia dos pássaros
Hoje é o céu novo o céu novo
hoje é a Grécia de ontem
foi ontem a Grécia
mas a Grécia ainda é hoje
é hoje porque é dormir e acordar de novo para as coisas
achá-las vê-las
cumprimentar as coisas com bons dias ao Sol
bom dia meu irmão
ressuscitar um morto
dizer aqui S. Francisco de Assis
aqui a cabeça cheia de vento
a graça as flores
o vento na cabeça
a cabeça a janela
aberta aberta
de S. Francisco de Assis
Hoje é dizer fui ontem mas ainda sou amanhã
amanhã amanhã
amanhã até onde o céu for aberto
e até onde a Estrela Polar distante distante
Hoje é dormir cantar
dormir com uma canção na cabeça
dizer boa noite meu amor meus astros minha esfera
amanhã outra vez amanhã de novo te conheço
ressuscito para as coisas
e assim o sono a existência o momento que passa
e nada mais
porque nada mais meu bom Sartre na verdade
nada mais que o momento
conta senão para nós.


António Gancho, O ar da manhã, Assírio & Alvim, Junho de 1995.