Terça-feira, Outubro 26

- Para mim, não há luz do dia nem vida sem ti; passo as noites a sonhar em vales floridos. Quando te vejo sinto-me bem e desejo fazer coisas, longe de ti sinto-me enfadado e insolente, apetece-me ir para a cama e não pensar em nada...
Deteve-se subitamente. "Que estou eu a dizer? Não foi para isto que vim", pensou, e franzindo a testa principiou a pigarrear.
- E se eu morrer? - perguntou Olga.
- Que ideia! - protestou ele, sorridente.
- Sim - prosseguiu ela -, apanho frio e adoeço com febres; tu vens aqui procurar-me e não me encontras; vais a nossa casa e dizem-te que me encontro doente, e sucede a mesma coisa no dia seguinte; fecham-se as persianas do meu quarto; o médico abana a cabeça; Katia sai e aproxima-se de ti na ponta dos pés, a chorar, e segreda: "Ela está muito doente, está a morrer..."
- Oh! - exclamou Oblomov subitamente angustiado.
Olga desatou a rir.
- Que seria de ti depois? - perguntou ela.
- Que seria de mim? Ou enlouquecia, ou metia um tiro na cabeça, e depois tu talvez acabasses por te curar!
- Não, não, não repitas isso - atalhou ela nervosamente. - Que tolices estás a dizer! E depois eras capaz de aparecer-me transformado em fantasma, a mim que tenho tanto medo das almas do outro mundo...

Ivan Goncharov, Oblomov, o Magnífico Preguiçoso. Tradução de Daniel Gonçalves.