Quinta-feira, Junho 3

É assim que o biscoito fica em migalhas

Pascal Lesszinsky é daquelas pessoas que, diante de uma cortina fechada, logo dão largas a fantasias ardentes. Pois bem, Pascal está justamente diante de uma alta, nobre e bela cortina de veludo vermelho. Passa os dedos pelo queixo barbeado e murmura um “hum” pleno de significado. Algum nervo oculto desenha-lhe na testa uma ruga em sinal de profunda reflexão. Não tira os olhos da cortina. Concentra-se, contendo o ar. Está a reunir os factos e a tirar conclusões, perdido entre as mais amplas e apimentadas regiões da imaginação.
Nada do que possa acontecer do outro lado da cortina lhe escapa. Sente o cheiro da luxúria como se sente o cheiro de um incêndio distante. O seu rosto brilha como uma maçã madura. Leva uma mão ao ouvido, como que desejoso de não perder um sussurro, um vago movimento, o som de um dedo a percorrer a pele. Contorce os lábios nas caretas mais inconcebíveis, o que o código das conveniências não permite nem recomenda. Imagina detalhes anatómicos deslumbrantes e esfrega as mãos com um ar extremamente satisfeito. Eis as mais lindas pernas que alguma vez sonhou.
Estão as coisas neste excitante pé, quando de repente o detém uma interrupção inesperada*, a saber: a alta, nobre e bela cortina de veludo vermelho sobe lentamente no ar e revela um palco. O cenário representa uma rua de Veneza. Rodrigo e Iago entram em cena. A peça começa.

* É assim que o biscoito fica em migalhas.

1 Comments:

Blogger Angela said...

Mag- ní - fi- co Rui!
Delicioso, perfeito! Que prazer ler isto! obrigada.

9:48 PM  

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