Domingo, Fevereiro 28

Certa noite, a mãe entrou no quarto, olhou para o meu berço e viu-me sem cabeça.
Sem cabeça?
O quarto mal iluminado, as cortinas do berço corridas, deram-lhe essa impressão. Desatou a gritar. A aranha era redonda, media mais dum palmo e cobria-me a cara toda. Os gritos assustaram-na. Começou a descer do berço, mas pesava tanto que levou minutos a chegar ao chão. A criada apareceu, esborrachou-a com a vassoura. Não deitou uma gota de sangue.
Então?
Quando a carcaça rebentou, saltaram os aranhiços. Uma dúzia, a fugir para os cantos do quarto.
Uma dúzia?
Ou mais. Não quero exagerar.
Eu sei.
A mãe continuou aos gritos, mas pôde afastar as cortinas do berço e ver-me de novo com cabeça. Desmaiou de alegria. A aranha não me comera os olhos.

Carlos de Oliveira, "Finisterra", capítulo III.