Quinta-feira, Dezembro 31

O ovo é uma coisa suspensa.


Paul Cézanne, "Pão e ovos", 1865, óleo em tela

Considerably warmer, & thawing this afternoon, but appears to be freezing again tonight. 5 eggs. George Orwell, 31.12.39

Quarta-feira, Dezembro 30

Gosto dos contos fantásticos de Sir Hugh Walpole, e quando encontrei Mrs. Lunt faltou-me tempo para me servir um trago de whisky e acender um cigarro, operações sem as quais um conto inglês é normalmente desaproveitado.

Julio Cortázar, "A volta ao dia em 80 mundos". Tradução de Alberto Simões.

Vai e não se sabe para onde. O futuro é um enigma.

Edward Hopper, Road in Maine, 1914, Oil on canvas, the Whitney Museum of American Art, New York.

Domo arigato, Isabela

«O próprio Shingo sentira uma palpitação que só poderia ser definida como um amor celestial, embora pecaminoso. Queria rir de si mesmo e de sua vista cansada, pois a máscara de Jido lhe parecia mais sensual do que uma mulher de verdade.»

O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata, tradução e notas de Meiko Shimon, Estação Liberdade, p. 113

Segunda-feira, Dezembro 28

e Motivos

Um dos padrões mais bonitos de Outono Tardio — mas aqui, talvez seja mais ajustado dizer, como na tecelagem, motivo — são as sombras ondulantes dos ramos das árvores nas paredes das casas. Principalmente nesta cena, a última viagem que Ayako e Akiko fazem juntas:



Padrões

Na segunda ronda que faço aos últimos filmes de Ozu já não penso na história, detenho-me nos pormenores, nos planos recuados, no que se sobrepõe. Outono Tardio (1960), por exemplo, retoma o problema da desagregação familiar provocado pelo casamento das filhas, em forma de variação. Se em Primavera tardia (1949) Noriko era a rapariga renitente em casar e abandonar o pai, agora é Ayako que não se quer separar da mãe, e o mesmo acontecerá dois anos mais tarde a Michiko (O Gosto do Saké). Digamos que o papel da rapariga indecisa entre os pais e um marido vai passando de filme para filme* tornando-se, para além do que é por si mesmo, um padrão. E esta é uma das palavras que mais ressoa nos últimos trabalhos de Ozu (mas com um sentido ligeiramente diferente do que é habitual).

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* e convém lembrar que os actores também não escapam a este movimento regular: a presença constante de Chishu Ryu ou Setsuko Hara interpretando a filha de Suchiki Somiya em Primavera tardia e mãe de Ayako em Outono Tardio.
Resta, quiçá, uma terceira e mais subtil razão para o silêncio turvo que envolve a obra de Lezama [Lima]. (...) Refiro-me às incorrecções formais que abundam na sua prosa e que, por contraste com a subtileza e profundidade do conteúdo, suscitam no leitor superficialmente refinado um movimento de escândalo e impaciência que quase nunca é capaz de ultrapassar. (...) Obviamente que para os argentinos idiossincráticos a correcção formal no escrever como no vestir é sempre uma garantia de seriedade, e qualquer um que anuncie que a terra é redonda com um «estilo» aceitável merecerá mais respeito do que um cronópio com uma batata na boca mas com muito que dizer atrás da batata. Se falo da Argentina é porque a conheço um pouco, mas quando estive em Cuba também me encontrei com jovens intelectuais que sorriam ironicamente entre si ao lembrarem como Lezama costuma pronunciar caprichosamente o nome de algum poeta estrangeiro; a diferença começava no momento em que esses jovens, instados a dizer qualquer coisa sobre o poeta em questão, se ficavam pela boa fonética, ao passo que Lezama, ao fim de cinco minutos a falarem com ele, os deixava a todos a olhar para o tecto.

Julio Cortázar, "A volta ao dia em 80 mundos". Tradução de Alberto Simões.
Uma verdadeira revelação, me parece, termina por emergir somente depois da teimosa concentração em um problema solitário. Eu não me incluo entre os inventores ou os aventureiros, nem entre os viajantes que buscam destinos exóticos. O meio mais certo — e também o mais rápido — de despertar o senso de maravilhamento em nós mesmos é olhar intencional e ininterruptamente para um único objecto. Repentinamente, milagrosamente, ele irá revelar-se como algo que jamais havíamos visto.

Cesare Pavese, Dialogos com Leucó, 1947 — citado por André Stolarski na apresentação à edição brasileira de ELEMENTOS do ESTILO TIPOGRÁFICO

Domingo, Dezembro 27

As Variações Goldberg eram tidas no passado como um exercício técnico árido e aborrecido. (wikipédia)

Sábado, Dezembro 26


A normalidade no prédio: o vizinho do 3º esqº voltou aos exercícios de piano.

Play it again, Sam

Depois dos sabores ricos do Natal, o que me apetece mesmo é uma sopa, um pão e uma laranja.

Quinta-feira, Dezembro 24

Ana e John



Não há muita gente a quem se possa ainda oferecer uma maçã. Aos amigos mais queridos e (estranhamente) ... aos leitores desconhecidos de um blogue.

Quarta-feira, Dezembro 23


The movie business is the biggest bourgeoise family in the world. Godard in America (1970)

Giovanni del Gobbo

Naquela manhã, algo mudou na disposição de Giovanni del Gobbo. Para ser franco, não posso jurar que o seu nome fosse exactamente esse. Mas eu gosto de Giovanni del Gobbo e quero acreditar que era assim que se chamava. Mas voltemos à história. Até então Giovanni tinha vivido muito quieto no seu canto. Há muito que renunciara a qualquer espécie de ambição e se abandonara à mais plácida, simples, bucólica e humilde das existências, mergulhando numa aprazível e inefável solidão: ano após ano, longe de qualquer paixão, desejo, alvoroço.
Mas naquela manhã Giovanni del Gobbo acordou com uma singular disposição para tomar resoluções enérgicas. E, de facto, tomou as iniciativas mais surpreendentes. Ergueu a cabeça cerca de vinte centímetros, assoou-se com estrondo, pousou duas canetas atrás da orelha, apanhou uma mosca curiosa que pousara em cima da mesa para coscuvilhar, coçou poeticamente o cocuruto, deixou escapar um determinado número de “huns”, soltou uma gargalhada estridente, onde havia – é preciso dizê-lo – uma nota de maldade bastante desagradável ao ouvido, e começou a escrever: “Naquela manhã, algo mudou na disposição de Giovanni del Gobbo…”

Um conto com desconto.

Terça-feira, Dezembro 22

Largo da Paz: o castanheiro continua cheio de folhas; já se vêem os rebentos da magnólia.
Composição do rosto humano, segundo Giuseppe Arcimboldo. Só a vi dos ombros para cima, tinha o rosto bravio da Medusa grega. Falava alto ou berrava, esqueci-me do que dizia. A sua língua era o braço de uma estrela-do-mar — vermelho brilhante, ágil e cheio de espinhos.

Café com leite para o pequeno-almoço

Um homem entra no chuveiro, pela manhã. Abre a água, molha a garbosa cabeleira e espalha o champô. O cabelo cai em longos cachos à medida que o homem esfrega a cabeça. Tudo acontece em menos de dez minutos. Quando sai do chuveiro, já não lhe resta um único cabelo.
“Que grande desgraça. Perdi todo o cabelo no banho.”
Boceja um pouco.
“Seja como for, ainda há café com leite para o pequeno-almoço.”

Segunda-feira, Dezembro 21

Quando tudo igualmente se mexe, nada na aparência se mexe, como num navio. Quando todos vão seguindo na corrente, não há nenhum que pareça ir. Aquele que pára faz notar, como um ponto fixo, a movimentação dos outros. dos pensamentos sobre cinema de Blaise Pascal
Os escritores morrem duas vezes: uma quando morre o corpo e outra quando morre o seu talento.

Martin Amis sobre Nabokov.
Não parece ser necessário ter assistido a muitos happenings para saber do que se trata, em parte porque a literatura a eles associada é abundante, e além disso porque um verdadeiro happening acontece por vezes sem que uma pessoa se aperceba conscientemente, e esses são quase sempre os melhores. Benjamin Patterson, músico norte-americano, imaginou uma obra que se chama Lawful Dance e que consiste em deter-se numa esquina até o semáforo passar para verde, momento em que se atravessa a estrada para o passeio oposto e se espera que o semáforo passe outra vez para verde de modo a atravessar-se novamente a rua, operação que prosseguirá enquanto uma pessoa tiver vontade.
Higgins a quem devo esta notícia, conta que o happening em questão lhe valeu a companhia de três amiguinhas que, uma vez superada a primeira surpresa de ver um tipo a atravessar infinitas vezes a estrada de um lado para o outro em perfeita sincronia com os semáforos, acharam a dança divertidíssima e daí nasceram grandes intimidades e todo o género de novos happenings.

Julio Cortázar, "A volta ao dia em 80 mundos". Tradução de Alberto Simões.

Domingo, Dezembro 20

Strangers talk only about the weather #100

Toda a gente anda em busca do método de não errar

Uma noite Louise não arranja companhia para ir dançar. No dia seguinte diz ao confidente Octave que não lhe apeteceu sair (mais uma das suas pequenas mentiras); ficou no apartamento de Paris, a ler, na cama, durante duas horas. Experimentou pela primeira vez a solidão, diz ela, pensa ela — e até gostou. Só que isso não é a solidão. No plano em que ela sente, pela primeira vez, solidão (finais de Fevereiro), nem sequer está sozinha.

Sábado, Dezembro 19

Qui a deux femmes perd son âme, qui a deux maisons perd sa raison


Pascale Ogier em Noites de lua cheia, de Éric Rohmer. Às 22h00, no Cine-Estúdio do Campo Alegre.

Sexta-feira, Dezembro 18

Le manteau de D.

(...) Elle avait un jour, racontait-elle, eu pour but «le manteau des manteaux». Elle se jugeait assez forte pour cela; mais au bout du compte «le problème du boutonnage» que je devais, comme écrivain, connaître moi aussi, l'avait fait échouer (c'est ce qui lui avait, paraît-il, fait perdre sa «folie des grandeurs»). Mais l'ébauche du manteau des manteaux était si belle que les gens la contemplaient, recueillis, quand elle la portait dans le métro.
C'était elle qui, à Paris, ne cessait de me transmettre des messages: par exemple «on surmonte ses ennemis par la maîtrise de soi» ou «un homme a du pouvoir sur les autres par sa vulnérabilité». Quand elle vit Under the Capricon de Hitchcock, elle parla des lèvres de Joseph Cotten, si «tranquillement posées au milieu du visage» et quand elle se coupait les ongles, après les films d'Ozu, elle étendait un journal par terre parce que l'acteur principal du maître japonais le faisait aussi. (...)

La leçon de la Saint-Victoire, Peter Handke,
traduit de l'allemand par Georges-Arthur Goldschmidt, Gallimard (collection folio bilingue).

Quinta-feira, Dezembro 17

37 semanas no top de vendas da Lapónia



Um produto indispensável em qualquer lar, este Natal.
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6,0

As coisas encadeiam-se segundo uma lógica interna, da qual não percebemos nada. É noite, tomo mais um café para aguentar a sobrecarga de trabalho, vou à janela fumar um cigarro, quase não há luzes acesas. Vejo as nuvens no céu escuro e uma mulher lá em baixo com um envelope na mão. Começa a falar comigo, aproxima-se, pergunta-me pela segurança social, ali na Rua da Saudade. Nao conheço, mas à noite, tão tarde, para quê? Ela insiste e então eu percebo que é importante; talvez a rua continue para além de Júlio Dinis, talvez a segurança Social seja do outro lado. Ela mete-se dentro de um carro e desaparece. É o tipo de mulher que atropela veados. Chego a casa tarde, dou voltas, vou para a cama, sinto o meu corpo a tremer — uma coisa de nada, inesquecível, entre o medo e o fascínio, como na história da menina e do grão de ervilha. Penso outra vez na mulher, nos veados e na segurança social. A terra devia tremer mais vezes.

Terça-feira, Dezembro 15

Outro que tal


Donald Richie conta que durante uma campanha publicitária para Samma no aji, Ozu declarou: "sempre digo às pessoas que nada faço além de tofu, pois sou estritamente um vendedor de tofu".

No Brasil, o título do filme foi traduzido por "A rotina tem seu encanto".

Segunda-feira, Dezembro 14

Tenham sempre em mente
Que a cerimónia do chá, em essência,
Nada mais é
Que ferver a água,
Fazer o chá e beber.

Kakuzo Okakura, citado por Nöel Burch no seu texto em Ozu: o extraordinário cineasta do cotidiano

§

Não sei se a citação de Okakura é mesmo dele como assinala Nöel Burch, ou de Rikiu, como se pode ler aqui. É certo que isso não interessa muito pois os pensamentos justos aguentam-se sem os autores.
N' O Livro do Chá, Okakura conta diversas histórias semelhantes, também gosto desta:
Certo dia, Soshi caminhava com um amigo pela margem de um rio. «Com que prazer se divertem os peixes na água!» esclamou Soshi. O amigo falou-lhe assim: «Tu não és peixe; como sabes que os peixes se divertem?» «Tu não és eu,» responde Soshi, «como sabes que eu não sei que os peixes se divertem?»

Domingo, Dezembro 13

Amendoins

Contam que Kosta Diakowski tinha o rosto coberto de sardas. E que essas sardas, no conjunto, formavam uma curiosa composição na qual se podiam observar, entre outros, pelicanos, gafanhotos, tartarugas, cynamolgos, argátylos, grandes caprimulgos, tynúnculos, crotenotários, onocrótalos, stymphálidos com as suas monstruosas patas, harpias, panteras, dórcades, cemades, sátiros, cartassónicos, mónopes, perphágios, bisontes, musicões e até ophirus de quatro tenazes.
Esta perspectiva, contudo, não resiste a um exame mais aprofundado. E o leitor a quem estas sardas fabulosas causassem desconfiança não tardaria a ser confirmado nas suas dúvidas. Porque Kosta não possuía qualquer sarda e, por consequência, não figuravam no seu rosto as ditas imagens.
Na verdade, Kosta Diakowski tinha o rosto coberto de sinais. E, observando com atenção, os sinais formavam um incrível e harmónico emaranhado de objectos e criaturas: goniómetros, bússolas, cogumelos, relógios sem corda, nuvens, uma escrivaninha inteiramente desmontável, que oferecia todo um sortido de gavetas e tabuinhas de puxar, um velho distribuidor de amendoins, isqueiros, máquinas de café, guarda-chuvas, ovos de passajar, naperões, um catavento, caixas de bolachas, grandes árvores, vibrafones, cavalos e anões amarelos.
Tudo muito bem. No entanto, os problemas começaram quando desapareceu da bochecha direita o distribuidor de amendoins. Os cavalos acusaram os anões amarelos do sumiço e estes devolveram a acusação aos cavalos, apontando também o dedo aos cogumelos. Entre denúncias, queixas e dichotes, mantiveram entre si, durante muito tempo, um festivo diálogo de surdos. E de todas as coisas que chamaram uns aos outros, a mais delicada foi “cevado”.
Kosta Diakowski, por seu lado, fumando longa e tranquilamente o seu cachimbo, abanava de vez em quando a cabeça – ora caía um cavalo, ora resvalava um anão amarelo –, sem dar atenção de maior ao caso.

3 vistas da ginkgo biloba do Jardim das Virtudes

Sábado, Dezembro 12

3. c

O casamento de Michiko é finalmente arranjado.
Os planos que antecedem a cerimónia mostram-nos: o pai, Michiko, o irmão mais velho e a cunhada, em enquadramentos isolados e frontais; um plano de conjunto em que a noiva aparece de costas e a cunhada a um canto, quase encoberta. Saem todos, Koichi e a mulher levam as malas.






Seguem-se quatro planos fixos da casa vazia (mas reparem no movimento real que existe entre eles). Depois uma outra sala, ouvem-se vozes — é a casa da chá onde Hirayama Shishei e os seus dois amigos bebem e se descontraem depois da cerimónia que nunca chegamos a ver.







1. a







A sequência da esquerda surge no início do filme, depois de dois planos sobre as chaminés. A rapariga entra. Hirayama Shishei pergunta-lhe por uma colega. Parece que está para se casar. — E o seu marido? O que é que ele faz? Ela não é casada, ainda vive com o pai. Passada mais de uma hora, em que Hirayama é confrontado com a obrigação de casar a sua própria filha, voltamos a ver a mesma janela, o mesmo corredor. Ele está sentado na mesma posição. A rapariga entra e anuncia o seu casamento e o abandono do emprego. Hirayama deseja-lhe felicidades. O relógio marca quatro horas e um quarto.

Sexta-feira, Dezembro 11

2. b





Holofotes, música, o som de um estádio cheio de gente. Depois um plano do desafio de basebol transmitido pela televisão. O aparelho está a um canto do balcão; é para lá que os homens olham.

Quinta-feira, Dezembro 10

Dentro da mercearia, o homem sentado junto à montra deita fora as folhas velhas do coração. Uma chiclete cor-de-rosa colada por baixo do puxador amarelo da primeira carruagem do metro, em frente aos meus olhos. Mas o que me apetecia agora mesmo era uma cena tipo Maquiavel.

Quarta-feira, Dezembro 9

Terça-feira, Dezembro 8

¿Usted qué relación tiene con sus contemporáneos, con los menores? ¿Los lee?

-Sí, los leo. Leo bastantes dos primeras páginas. Es raro que siga. Creo que la narrativa, en la Argentina por lo menos, ha caído en un realismo un poco chato, casi costumbrista, costumbrista tecno, pero costumbrista al fin. Hay una chatura tal (y me sucede con muchos jóvenes que se reclaman de mi influencia, de mí como modelo) que, cuando leo lo que escriben, me sorprendo. Ha quedado muy relegada la invención. Hay como más voluntad de testimonio, de estas vidas maravillosas que estamos llevando. Creo que la historia les ha jugado una mala pasada a los novelistas, y es que les ha solucionado muchos problemas. Y una novela sin conflicto... Estos jóvenes de clase media, que son los que escriben, los que van a la Facultad de Letras, hoy día ya no tienen ningún problema, la historia se encargó de solucionarles todo. El problema sexual, por ejemplo: hoy los jóvenes no tienen los problemas que teníamos nosotros. Entonces se inventan. O recurren a la neurosis. A la hipocondría. Y toda esa miseria psicológica a mí me cansa. Yo quedé como enganchado a las novelas de piratas: salgamos al mar a hacer algo, a tener aventuras. Este realismo de barrio elegante, Palermo Soho, no me convence.


César Aira.

(Little Nemo goes into Slumberland)


Imagem de Nosso Século (Mer dare), de Artevazd Pelechian, 1982

Peixes

O sono dos peixes está para além da imaginação. Mesmo no recanto mais sombrio do lago, entre os juncos, descansam vigilantes: permanecem na mesma posição durante uma eternidade e é absolutamente impossível dizer que repousam com a cabeça numa almofada.

Também as suas lágrimas são como um grito no deserto — inúmeras.

Os peixes não conseguem exprimir o seu desespero. Isto justifica a faca embotada que avança ao longo da espinha rasgando as lantejoulas das escamas.


"Escolhido pelas estrelas - antologia poética", de Zbigniew Herbert,
tradução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Outubro de 2009.

Segunda-feira, Dezembro 7

New Addictions: Artavazd Peleshian The Complete Films (1966-1994)

...I was thinking of everything. It's not specifically the seasons of the year or of people: it's everything.

Samma no aji

Ontem à noite voltei a ver o último filme de Yasujiro Ozu. Já não me lembrava do prazer que o velho professor sente ao experimentar, pela primeira vez na sua vida, o sabor do congro, ou da sua alegria ébria ao beber um bom whisky. É daí que vem o título, mas também das repetições rítmicas dos planos, das cenas e dos objectos. Há sempre qualquer coisa que vai e vem e a cada vez muda um pouco, apenas um pouco. Por exemplo, a conversa inicial entre Hirayama Shishei e a jovem secretária é retomada mais ou menos a meio do filme (1. a), com pequenas alterações; é quase tudo igual mas nesse quase, nessa falsa simetria, joga-se a nossa vida. Uma vida que se exprime "em voz baixa", quase sempre numa sala, quase sempre entre copos e pratos [os únicos acontecimentos verdadeiramente sociais — um jogo de basebol (2.b) e o casamento de Michiko (3. c) — passam-se num círculo exterior à câmara de Ozu], aproximações e afastamentos, seguindo ou afrontando a mão do destino — isso já nem interessa. Dar-se à alegria, à tristeza, ao esquecimento, com um coração leve e inteiro.

Aqui está o que sucede quando nos dá para fazer só aquilo que nos passa pela cabeça

Um homem sumamente constipado espirra com toda a força. Do nariz sai, aos trambolhões, uma coruja com óculos. Durante breves segundos, o homem e a ave observam-se com um respeito gelado e cauteloso. Depois, a coruja bate as asas e tenta regressar às doces e cálidas fossas nasais do homem – o seu palácio.
Entre os dois dá-se então uma cena, pequena mas muito violenta. O homem trava as sucessivas tentativas da ave com uma mão e tapa o nariz com a outra. A coruja bate-se como pode, mas a cada segundo que passa, e dada a aguda resistência do homem, cresce o receio de quebrar os preciosos óculos*. Imaginem agora as palavras que ambos dirigem um ao outro. Imaginem, porque não as repetirei. Incapaz de vencer a oposição do homem, a ave desiste de reivindicar o seu estimado cantinho no nariz e, fazendo uma boquinha de menina mimada, voa para longe.
Inútil será dizer que sem a presença da coruja, o homem não sobrevive mais do que algumas horas. Assim, morri bruscamente antes mesmo de o dia terminar. Aqui está o que sucede quando nos dá para fazer só aquilo que nos passa pela cabeça.

* A coruja (ajuroc, quando lido ao contrário) tem astigmatismo em grau muito elevado e um nível apreciável de hipermetropia.

Gosto muito destes serões tradicionais na aldeia: cada um dos membros da família camponesa diante do seu computador, num silêncio prenhe de sentido e de ser, sem necessidade desses gadgets modernos como a televisão ou o rádio; só nós e as estrelas.

manel

PS: fui comprar alhos para plantar. disse eu: «então, eu só queria duas dúzias de dentes, tenho de levar a réstia toda?» e o homem: «ora, estes também são grados, não são assim tantos como parece e o resto, pode usá-lo para cozinhar.»

Domingo, Dezembro 6


As árvores já são de ouro, Stefan.

Être tout près

À Paris, au Jeu de Paume, se trouve un tableau de Cézanne devant lequel je crus compreendre de quoi il s'agissait, non seulement pour lui, le peintre, et non seulement, en ce moment même, pour moi, un écrivain.
Il a été peint pendant les dernières années de sa vie après le tournant du siècle et, comme ce fut déjà souvent le cas à cette époque, il a pour motif des blocs de rocher et des pins. Le lieu et l'endroit sont indiqués par le titre du tableau: Rochers près des grottes au-dessus de Château-Noir (une vieille maison de maître au-dessus du Tholonet).
Il est difficile de dire ce que je compris. Le sentiment que j'avais, c'étais surtout d'être «tout près». Dans ce besoin que j'ai de transmettre tout de même ce que j'ai éprouvé, après avoir «longuement pensé à ce qui était arrivé» (plutôt une tempête d'idées), il m'est venu à l'esprit l'image d'un film: Henry Fonda dansant avec sa mère dans Les raisins de la colère de John Ford.
Dans cette scène tous dansent pour se protéger d'un péril mortel. Chassés sans relâche par le manque de terre, ils défendent ainsi le sol où ils ont enfin trouvé refuge contre les ennemis qui les encerclent. Bien que la danse ne soit qu'une ruse pure et simple (la mère et le fils tout en tournant se jettent — et aux autres aussi — des regards malins et vigilants), c'est une danse comme tout les autres (et comme aucunne autre), elle dépasse tout et rend solidaire.
Danger, danse, solidarité, cordialité — c'était de cela aussi qu'était fait le sentiment que le tableau me donnait d'être tout près: les pins, les rochers se dressaient tels quels au plus intime de moi-même — comme s'envole un oiseau qui traverse le corps à gigantesques coups d'ailes; mais ils ne se dissipèrent pas comme cet instant terrifiant, ils restèrent.

La leçon de la Saint-Victoire, Peter Handke,
traduit de l'allemand par Georges-Arthur Goldschmidt, Gallimard (collection folio bilingue).

Sábado, Dezembro 5

Um acontecimento não fica perdido para sempre, um dia ressurge,
como esses corpos afogados que, depois de algum tempo
no fundo, reaparecem à superfície, boiando.
E então já não há mais nada a fazer, senão enterrá-lo em poema
sem reza, sem pompa, sem flores,
e, cumprida a obrigação, com este ao menos,
dormir um pouco, enquanto ainda temos
algum tempo.

Simone Brantes.

Sexta-feira, Dezembro 4

— Olha, um melão de inverno.