Segunda-feira, Novembro 30
As Bodas de Caná fazem-me lembrar certos planos de Jean Renoir. Não é só uma questão de distribuição dos elementos (et voilà, la mise-em-scène rampe à nouveau), nem apenas a lei da boa vizinhança, querida Mnemosyne — apesar de estarem ambas harmoniosamente implicadas. Tem a ver com a palavra "algazarra"; com o que é cor, som e ritmo em "algazarra". Veronese e Renoir têm um jeito apurado e doce para captar a desorganização interna dos movimentos colectivos. Esta atenção ao mundo — que é também um amor desmesurado ao mundo — transforma qualquer coisa em vida, toda a correria numa dança radiosa e sem moral.
Peacocks
Um homem apanha sol no Jardim das Tulherias.
Outro – pequeno, seco, com um fino bigode preto – aproxima-se subrepticiamente e deita-lhe um líquido no ouvido.
O primeiro começa a ouvir coisas espantosas: as árvores falam com ele.
Nesse mesmo dia desaparece, deixando à mulher um bilhete lacónico explicando que morre de tédio e que parte para realizar o seu sonho de sempre: ser criador de pavões (peacocks).
Outro – pequeno, seco, com um fino bigode preto – aproxima-se subrepticiamente e deita-lhe um líquido no ouvido.
O primeiro começa a ouvir coisas espantosas: as árvores falam com ele.
Nesse mesmo dia desaparece, deixando à mulher um bilhete lacónico explicando que morre de tédio e que parte para realizar o seu sonho de sempre: ser criador de pavões (peacocks).
Domingo, Novembro 29


Isto é pintura. O pormenor, o conjunto, os volumes, os valores, a composição, a emoção, está tudo aí... Ouça, é estupendo! O que é que nós somos? Feche os olhos, espere, não pense em nada. Abra-os... Então? Apercebemo-nos apenas de uma grande ondulação colorida, não é? Uma irisão, cores, uma riqueza de cores. É isto que o quadro, antes do mais, nos deve oferecer, um calor harmonioso, um abismo onde os olhos mergulham, uma surda germinação, um estado de graça colorida. Todos esses tons correm-lhe no sangue, não é? Sentimo-nos revigorados. Nascemos num mundo verdadeiro. Tornamo-nos nós próprios, tornamo-nos pintura... Para amar um quadro, é preciso primeiro tê-lo bebido assim, em grandes tragos. Perder a consciência. Descer com o pintor às raízes sombrias, desordenadas, das coisas e regressar com as cores, abrir-se à luz com elas. Saber ver. Sentir. Sobretudo frente a uma grande máquina como as que construía Véronese. Ele, oh, ele era feliz. E todos os que que o compreendem tornam-se felizes. É um fenómeno único. Ele pintava como nós olhamos. Sem qualquer esforço. Dançando. Essas torrentes de nuances corriam-lhe pelo cérebro, como tudo o que lhe digo corre pela minha boca. Ele falava em cores. É espantoso, eu não sei quase nada da sua vida! E parece-me que sempre o conheci. Vejo-o a caminhar, ir, vir, amar, em Veneza, frente às suas telas, com os seus amigos. Um belo sorriso. Um sorriso quente. Um corpo franco. As coisas, os seres, entravam-lhe na alma com o sol, sem nada a separá-los da luz, sem desenho, sem abstrações, tudo em cores. Saiam-lhe, um dia, os mesmos, mas não se sabe porquê, vestidos de uma doce glória. Todos felizes como se tivessem respirado uma música misteriosa. Essa que irradia, veja, desse grupo, no meio, que as mulheres e os cães escutam, que os homens acariciam com as suas mãos fortes. A plenitude do pensamento no prazer e do prazer na saúde, ouça bem, eu creio que a plenitude da ideia nas cores é Veronese. Ele cobria as suas telas com uma vasta grisalha, sim, como todos faziam nessa época, e era a sua primeira influência — como um pedaço da terra antes do dia, o espírito ergue-se...
Cézanne, de Joachim Gasquet, tradução a partir da reedição da encre marine (2002)
Sábado, Novembro 28

Tarrafal, dezasseis minutos, quinze planos, histórias e diálogos estendidos na calma da noite ou do campo. O lugar é, antes do mais, um desses “quartos do cineasta” (Jacques Rancière), onde há vozes que emergem da penumbra e remoem interminavelmente. Há deserdados que falam para as dominarem com a sua vida, a sua sobrevivência: aqui uma mulher e o filho mais velho de rastas, com uns trinta anos. Nada é mais quotidiano, mais concreto do que as situacções e as informacções dadas. A primeira palavra é “mamã”, as relacções de família são omnipresentes, trata-se do regresso a Cabo Verde, onde viver, como construir uma casa, o que comer. Os lugares são nomeados, enumerados: Mourão, Montinho, Achada, Ungueira, Raçatchó, Montinho de Cima, Montinho de Baixo, Milho Branco, Santana perto de Assomado. A mãe tem frio, tosse, aquece as mãos debaixo dos braços, morre de calor só de pensar no seu país e tem vontade de descansar os ossos. E depois trata-se de enfeitiçamento e de morte, como em todos os filmes de Pedro Costa. No mesmo tom, a mãe conta uma história da terra dela, um vampiro que dá às suas vítimas um papel, sem que elas se apercebam, e as mata quando o vem reclamar.(...)
início do texto O QUE CONTA ESTE FILME(S)?, de Bernard Eisenschitz, incluído no livro Cem Mil Cigarros
§
Tarrafal será projectado amanhã, às 16h00, no Auditório de Serralves.
Afinidades literárias
Fui à cozinha buscar uma faca de cabo de madeira para abrir as páginas de Paesi tuoi. O livro foi impresso na Tipografia Nunes (Rua José Falcão, 57) em Março de 1969; cheira a papel velho e, no entanto, está intacto. Conforme avanço, vejo que a faca é semelhante ao romance de Pavese.
Sexta-feira, Novembro 27
The Partial Explanation, by Charles Simic
Seems like a long time
Since the waiter took my order.
Grimy little luncheonette,
The snow falling outside.
Seems like it has grown darker
Since I last heard the kitchen door
Behind my back
Since I last noticed
Anyone pass on the street.
A glass of ice-water
Keeps me company
At this table I chose myself
Upon entering.
And a longing,
Incredible longing
To eavesdrop
On the conversation
Of cooks.
Quinta-feira, Novembro 26
Pastilhas brancas
Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
Simone Brantes.
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
Simone Brantes.
Quarta-feira, Novembro 25
Os operários de Metropolis trabalhavam em turnos extenuantes de dez horas. As coisas entretanto melhoraram muito, senhor Lang; agora ninguém puxa da pistola, basta o uso de uma linguagem pomposa e chantagista.
Contar carneiros
É mais ou menos o contrário de um conceito sério e a sua situação estratégica (o "mais ou menos" e o "contrário", em iguais proporções) diz logo do seu despropósito. Mesmo assim, a noite passada decidi definir o ponto de distracção de um filme.
Enseñar es pervertir. Ustedes vienen aquí a perder su virginidad literaria; pero sólo para recuperarla después. Lo difícil en verdad, no es perder la virginidad, sino ganarla, conquistarla. Hay que ir a los libros desde el conocimiento, para que ellos, si son realmente grandes, mediante su propio poder nos devuelvan la inocencia. ¿Puede entenderse eso?
Juan García Ponce.
Juan García Ponce.
Segunda-feira, Novembro 23
Ele próprio estaria no quadro, à maneira daqueles pintores do Renascimento que reservavam sempre para si um lugar minúsculo no meio da multidão dos vassalos, dos soldados, dos bispos ou dos mercadores; não um lugar central, não um lugar privilegiado e significativo numa intersecção escolhida, ao longo de um eixo especial, segundo esta ou aquela perspectiva iluminadora, no prolongamento de um dado olhar cheio de sentido a partir do qual se poderia construir toda uma reinterpretação do quadro - mas um lugar aparentemente inofensivo, como se aquilo tivesse sido feito assim mesmo, de passagem, um pouco por acaso, porque a ideia teria ocorrido sem se saber porquê, como se não se desejasse muito que se notasse, como se não devesse passar de uma assinatura para iniciados, algo como uma marca com a qual o cliente do quadro contrariadamente tolerasse que o pintor tivesse assinado a sua obra, qualquer coisa que só deveria ser do conhecimento de alguns e logo esquecida.
Georges Perec, "A Vida Modo de Usar". Tradução de Pedro Tamen.
Georges Perec, "A Vida Modo de Usar". Tradução de Pedro Tamen.
Domingo, Novembro 22
Uma visita ao Louvre
Repare. Olhe-me para isto... a Vitória de Samotrácia. É uma ideia, é todo um povo, um momento heróico na vida de um povo, mas o tecido cola-se, as asas batem, os seios dilatam-se. Não preciso de ver a cabeça para imaginar o olhar, porque todo o sangue que chicoteia, circula, canta pelas pernas, pelas ancas, por todo o corpo, passou em torrente pelo cérebro, subiu ao coração. Está em movimento, é o movimento de todas as mulheres, de todas as estátuas, de toda a Grécia. Quando a cabeça se separou bom, o mármore sangrou...
Ao passo que lá em cima, você pode, com o sabre do carrasco, decapitar todos esses pequenos martíres. Um pouco de vermilhão, gotas de sangue, isso. Eles já estão completamente envoltos em Deus, exangues. Não se pinta almas. E repare, as asas da Vitória, não as vemos, já não as vejo, já não se pensa nelas, tão naturais elas surgem. O corpo não precisa delas para se erguer em pleno triunfo. Ele tem o seu impulso... Enquanto as auréolas, em redor do Cristo, das Virgens e dos Santos, não nos apercebemos senão delas. Impõem-se. Incomodam-me. Que é que quer? Não se pinta almas. Pinta-se corpos; e quando os corpos são bem pintados, caramba! a alma, se eles a tiverem, a alma irradia e transparece por todos os poros.
Cézanne, de Joachim Gasquet, tradução a partir da belíssima reedição da encre marine (2002)
Ao passo que lá em cima, você pode, com o sabre do carrasco, decapitar todos esses pequenos martíres. Um pouco de vermilhão, gotas de sangue, isso. Eles já estão completamente envoltos em Deus, exangues. Não se pinta almas. E repare, as asas da Vitória, não as vemos, já não as vejo, já não se pensa nelas, tão naturais elas surgem. O corpo não precisa delas para se erguer em pleno triunfo. Ele tem o seu impulso... Enquanto as auréolas, em redor do Cristo, das Virgens e dos Santos, não nos apercebemos senão delas. Impõem-se. Incomodam-me. Que é que quer? Não se pinta almas. Pinta-se corpos; e quando os corpos são bem pintados, caramba! a alma, se eles a tiverem, a alma irradia e transparece por todos os poros.
Cézanne, de Joachim Gasquet, tradução a partir da belíssima reedição da encre marine (2002)
Sábado, Novembro 21
Porque não escrevo poemas
Se for necessário, o poeta
persegue uma palavra durante dias
a fio, semanas, meses, anos, duas
vidas.
Ora,
dada a minha compleição
física, o médico
é de opinião que
eu leve uma existência calma e
regrada.
persegue uma palavra durante dias
a fio, semanas, meses, anos, duas
vidas.
Ora,
dada a minha compleição
física, o médico
é de opinião que
eu leve uma existência calma e
regrada.

O Sangue começa quase de noite ou quase de dia, à hora indistinta do escurecer e do clarear. Antes de o sabermos, e durante alguns segundos é só o que sabemos, ainda não vimos ninguém. Mas já vimos negro. O negro, o muito negro, dos planos negros do início do filme. Misturados com eles, diversos ruídos: trovões, vento, motores de arranque e de desarranque. De súbito — um dos começos mais súbitos de qualquer filme, como sempre sucederia depois em filmes de Pedro Costa — vinda do escuro, a primeira personagem do filme está diante de nós. Um rapaz alto, novo, magro, com expressão obstinada. É enquadrado a meio-corpo (plano de busto) e se está diante de nós não nos olha a nós. Olha quem? A resposta não vem de nenhuma palavra mas duma mão que atravessa rapidíssima o enquadramento e lhe dá uma bofetada. Contraplano (ou novo plano?) e vemos quem deu a bofetada. Um homem baixo, de meia idade, gordo, com uma expressão perdida. Novo contraplano (ou novo plano) e voltamos a ver o rapaz. A expressão não mudou, continua a olhar o homem mais velho e não esboça nem movimento de defesa nem movimento de resposta. Seguem-se mais dois contraplanos (ou mais dois planos), o primeiro do homem olhando o imóvel rapaz, o segundo deste. Pela primeira vez, alguém fala. É o rapaz. E diz: “Faça de mim o que quiser.” O ecrã volta a ficar todo escuro, todo negro. Mas sabemos que entre aquele rapaz e aquele homem — filho e pai, como a seu tempo saberemos — se perdeu a confiança. Só a morte é tão súbita, tão preparada e tão irremediável como a confiança perdida. Diz-se “faça de mim o que quiser”, mas não há qualquer doação ou qualquer entrega. Não há nada. Nada que se possa fazer. Nada que se possa dizer. Nada que se possa ver. Escuro, muito escuro.
excerto do texto O NEGRO É UMA COR OU O CINEMA DE PEDRO COSTA, de João Bénard da Costa, a abrir o livro Cem Mil Cigarros
§
O SANGUE, de Pedro Costa. Hoje e amanhã às 18h00, no Auditório de Serralves.
Sexta-feira, Novembro 20
La cultura dels kakis vermells


Manzan Benigaki (Le village des kakis rouges / Red Persimmons), Shinsuke Ogawa, Xiaolian Peng, 2001, 90', 16mm.
Shinsuke Ogawa és reconegut com un dels grans mestres del documental japonès. El 1974 es va instal·lar a Yamagata, i va basar el seu mètode en la immersió de l'equip en la comunitat rural, amb una concepció artesanal del cinema lliurada a la filmació de gestos i relats a punt de desaparèixer. Manzan Benigaki va ser el seu últim film, que va començar el 1984 i va acabar una jove col·laboradora xinesa el 2001.
§
Ogawa Shinsuke é o realizador de Sen nen kizami no hidekei: Maginomura monogatari [A Aldeia de Magino: Um Conto], que passou recentemente na Cinemateca, integrado no programa de Ricardo Matos Cabo: Contar o Tempo (sessão 8).
Quinta-feira, Novembro 19
Gostar ou não gostar de dióspiros (uma amizade)

...Uma das coisas mais bonitas dos Outonos em Sacramento são as árvores de dióspiros espalhadas pelas ruas, pelos quintais. Podes esticar o braço, arrancar um e comê-lo logo ali.
§
Otow Orchard is renowned for preserving the Japanese art of hoshigaki — hoshi means dried and gaki is from kaki, the Japanese word for persimmon.
Our fresh persimmons are dried each fall in a slow, patient, hands-on process that usually takes three to six weeks... per persimmon. Each persimmon is hand-peeled, strung onto a rack, and massaged every 3 to 5 days for several weeks. Weather conditions are watched carefully. The result is a transformation into a sugary delicacy that is tender and moist with concentrated persimmon flavor.
Se tivesse uma fotografia percebia-se melhor
Havia já algum tempo que Goetz Hebler se sentia vigiado. Voltando-se, quando caminhava pela rua, não avistava vivalma; mas tinha a certeza de que alguém o observava. Por vezes, ainda entrevia uma sombra, uma fugaz corrente de ar, um repentino movimento nas árvores. Olhava com mais atenção e… nada.
À noite, quando apagava a luz, a angústia espalhava-se como sangue no escuro. Era evidente que uns olhos odientos e maus o fitavam por detrás das sombras. Goetz cerrava os punhos, e mordia a língua. Levantava-se, passava água fria pela cara e não dormia. Não há palavras que descrevam o seu desespero. Se tivesse uma fotografia percebia-se melhor.
Foi quando imaginou uma solução engenhosa: comprou um cão. Um bicho enorme e destemido, que dava pelo nome de Donatello. “Mais vale um bom companheiro do que ter muito dinheiro”, pensou Goetz, que se sentia mais confiante. Tudo parecia então correr pelo melhor.
Ao fim de algum tempo, porém, o cão começou a cofiar os bigodes sem parar (era o seu tique de impaciência). Tinha a impressão de que algo muito negro se urdia nas suas costas. Para onde quer que fosse, acreditava estar a ser vigiado, talvez por outro cão, embora não farejasse nada num raio de vários quilómetros.
Com tudo isto, também Donatello se deixou afundar no medo. De rabo entre as pernas, tremia como varas verdes. Enfim, aquilo era mais forte do que ele. Foi quando imaginou uma solução engenhosa: fingindo um fanico, atirou-se para o chão e nunca mais se levantou. Vendo o exemplo do cão, Goetz Hebler fez o mesmo.
À noite, quando apagava a luz, a angústia espalhava-se como sangue no escuro. Era evidente que uns olhos odientos e maus o fitavam por detrás das sombras. Goetz cerrava os punhos, e mordia a língua. Levantava-se, passava água fria pela cara e não dormia. Não há palavras que descrevam o seu desespero. Se tivesse uma fotografia percebia-se melhor.
Foi quando imaginou uma solução engenhosa: comprou um cão. Um bicho enorme e destemido, que dava pelo nome de Donatello. “Mais vale um bom companheiro do que ter muito dinheiro”, pensou Goetz, que se sentia mais confiante. Tudo parecia então correr pelo melhor.
Ao fim de algum tempo, porém, o cão começou a cofiar os bigodes sem parar (era o seu tique de impaciência). Tinha a impressão de que algo muito negro se urdia nas suas costas. Para onde quer que fosse, acreditava estar a ser vigiado, talvez por outro cão, embora não farejasse nada num raio de vários quilómetros.
Com tudo isto, também Donatello se deixou afundar no medo. De rabo entre as pernas, tremia como varas verdes. Enfim, aquilo era mais forte do que ele. Foi quando imaginou uma solução engenhosa: fingindo um fanico, atirou-se para o chão e nunca mais se levantou. Vendo o exemplo do cão, Goetz Hebler fez o mesmo.
Quarta-feira, Novembro 18
A aranha sonâmbula
É uma aranha pequena, move-se muito devagar, de vez em quando pára — parece um asterisco riscado na parede. Agora está quase junto ao meu ombro.
Um projecto futuro de Ivo [Dimchev] é fazer uma performance com uma equipa internacional de críticos de teatro. Alguns deles dançarão, enquanto outros comentarão a dança e vice-versa, numa espécie de pesquisa sobre o corpo dos críticos e o seu interior constitutivo...
Aglika Stefanova, "O corpo como objecto de consumo".
Revista Sinais de Cena 10.
Aglika Stefanova, "O corpo como objecto de consumo".
Revista Sinais de Cena 10.
Há muitas histórias de bibliotecas, há as bibliotecas perdidas, como a de Alexandria, e há as bibliotecas em que se entra e se sai logo, porque se reconhece que só contêm histórias e ideias absurdas. Tal é a biblioteca de Saint-Victor onde entra Pantagruel, uns decénios antes de Quixote nascer, compraz-se com aquelas centenas de volumes que lhe prometem a sapiência dos séculos, mas pelo que sabemos bem depressa se põe a andar decidindo que tinha mais que fazer.
Umberto Eco, "Sobre literatura". Tradução de José Colaço Barreiros.
Umberto Eco, "Sobre literatura". Tradução de José Colaço Barreiros.
Terça-feira, Novembro 17
Donovan's Reef
Ao ver Donovan's Reef, percebo como John Ford se resguardou da arte ao dizer que fazia westerns. É o trabalho com os materais que conta — a forma de resolver os problemas, os acidentes de percurso; a arte como carreira ou inspiração é uma sensaboria de salão para preguiçosos e correctores da bolsa
Donovan's Reef é um filme fabuloso sobre o choque dos corpos (a pancadaria fraterna de Lee Marvin e John Wayne, a paixão tempestuosa e cómica de Wayne e Elizabeth Allen) e os movimentos da paisagem. Entre esses dois pontos — um tão pequeno, o outro tão grande e ambos tão desmesurados — traça-se a perspectiva mais inebriante que os nossos olhos podem percepcionar; como se a respiração fosse palpável, como se fosse possível compreender sem interpretar (o inexplicável).
E talvez seja esse rasto aéreo (o azul de que fala Cézanne), mais do que a indiferença da natureza ou a filha que vai procurar o pai, que nos liga a Ozu.
Claro, Ford fazia westerns, mas o que nós vemos — ou acabamos por ver, graças a uma insistência teimosa — também é outra coisa. Os seus filmes são tão assustadoramente belos como o Grand Canyon e, como essas rochas vermelhas, dão-se a todos.
Donovan's Reef é um filme fabuloso sobre o choque dos corpos (a pancadaria fraterna de Lee Marvin e John Wayne, a paixão tempestuosa e cómica de Wayne e Elizabeth Allen) e os movimentos da paisagem. Entre esses dois pontos — um tão pequeno, o outro tão grande e ambos tão desmesurados — traça-se a perspectiva mais inebriante que os nossos olhos podem percepcionar; como se a respiração fosse palpável, como se fosse possível compreender sem interpretar (o inexplicável).
E talvez seja esse rasto aéreo (o azul de que fala Cézanne), mais do que a indiferença da natureza ou a filha que vai procurar o pai, que nos liga a Ozu.
Claro, Ford fazia westerns, mas o que nós vemos — ou acabamos por ver, graças a uma insistência teimosa — também é outra coisa. Os seus filmes são tão assustadoramente belos como o Grand Canyon e, como essas rochas vermelhas, dão-se a todos.
Segunda-feira, Novembro 16
to come all the way from Japan
Anyway, he was explaining one day the meaning of a Chinese character — Yu, I believe it was — spending the whole time explaining it and yet its meaning as close as he could get to it in English was “unexplainable.”
Finally he laughed and then said, “Isn’t it strange that come all the way from Japan I spend my time explaining to you which is not to be explained?”
John Cage, indeterminacy #X7
Finally he laughed and then said, “Isn’t it strange that come all the way from Japan I spend my time explaining to you which is not to be explained?”
John Cage, indeterminacy #X7
Domingo, Novembro 15
Ponto morto
A minha primeira mulher
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um dos meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar o seu nome.
Por segundos, a vida parou, em ponto morto.
Augusto Massi.
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um dos meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar o seu nome.
Por segundos, a vida parou, em ponto morto.
Augusto Massi.
Lee Marvin playing Tom Waits

and the King of United States of America

No maravilhoso Donovan's Reef (A Taberna do Irlandês), de John Ford.

and the King of United States of America

No maravilhoso Donovan's Reef (A Taberna do Irlandês), de John Ford.
Está demasiado vento e chuva para sair de casa, ainda não é hoje que vou buscar a antologia de Zbigniew Herbert ("Escolhido pelas estrelas", selecção e tradução de Jorge Sousa Braga, Assírio e Alvim). Mas isso não é razão para não me dedicar ao estudo dos objectos. Três pontos formam um triângulo.
Objects
Inanimate objects are always correct and cannot, unfortunately, be reproached with anything. I have never observed a chair shift from one foot to another, or a bed rear on its hind legs. And tables, even when they are tired, will not dare to bend their knees. I suspect that objects do this from pedagogical considerations, to reprove us constantly for our instability.
Still Life
Violently separated from life, these shapes were scattered on the table with deliberate carelessness: a fish, an apple, a handful of vegetables mixed with flowers. To this was added a dead leaf of light, and a small bird with a bleeding head. In its petrified claws the bird clenches a small planet of emptiness, and air taken away.
The most beautiful / is the object which does not exist...
«Forgive me, my Prince, but I’m afraid that Your Highness didn’t understand a piece entitled ‘A Study of the Object’. It’s not a denial of an existing matter at all. Treating faith as a subject of a prose of ‘savants’ is for me as disgusting as for the Prince. My poem describes an adventure of a reason which seeks purity by negation. It’s a mask-poem. In Your school, Your Highness, I had been learning this form and it’s unpleasant beyond words for me that Prince deigned to identify the voice of the poem with the author. Following Your Highness’s suit, I am also on the side of trees and whales. Constantly, although inefficiently, I was expressing in my pieces the faith in the concrete. Not as a materialist but as somebody who knows that only the full acceptance of the sensual world may lead to recognizing the Essence. Disgusting as the Greek under-world—full of wet shadows—is for me this little frenchman Mallarmé, who is justly named by Prince—I would say, a little bit in Russian style—a rabble.»
Carta de Zbigniew Herbert a Czesław Miłosz, Agosto de 1963
Objects
Inanimate objects are always correct and cannot, unfortunately, be reproached with anything. I have never observed a chair shift from one foot to another, or a bed rear on its hind legs. And tables, even when they are tired, will not dare to bend their knees. I suspect that objects do this from pedagogical considerations, to reprove us constantly for our instability.
Still Life
Violently separated from life, these shapes were scattered on the table with deliberate carelessness: a fish, an apple, a handful of vegetables mixed with flowers. To this was added a dead leaf of light, and a small bird with a bleeding head. In its petrified claws the bird clenches a small planet of emptiness, and air taken away.
The most beautiful / is the object which does not exist...
«Forgive me, my Prince, but I’m afraid that Your Highness didn’t understand a piece entitled ‘A Study of the Object’. It’s not a denial of an existing matter at all. Treating faith as a subject of a prose of ‘savants’ is for me as disgusting as for the Prince. My poem describes an adventure of a reason which seeks purity by negation. It’s a mask-poem. In Your school, Your Highness, I had been learning this form and it’s unpleasant beyond words for me that Prince deigned to identify the voice of the poem with the author. Following Your Highness’s suit, I am also on the side of trees and whales. Constantly, although inefficiently, I was expressing in my pieces the faith in the concrete. Not as a materialist but as somebody who knows that only the full acceptance of the sensual world may lead to recognizing the Essence. Disgusting as the Greek under-world—full of wet shadows—is for me this little frenchman Mallarmé, who is justly named by Prince—I would say, a little bit in Russian style—a rabble.»
Carta de Zbigniew Herbert a Czesław Miłosz, Agosto de 1963
Sábado, Novembro 14
La mise-en-scène

Já um pouco afastada de Ne change rien, começo a ver melhor uma teia que se insinua num plano recuado à música mas nada obscuro.
1. Na sua passagem por Los Angeles, Pedro Costa falou de dois planos de Le petit théâtre de Jean Renoir : “It’s just two shots — one where she’s standing on a stage and you see her whole body, and the second half of the song is a close-up. And you see a lot of things — it’s amazing what you see in two shots.” (Past, Moving Forward: The Little Theater of Pedro Costa). Ela é Jeanne Moreau e canta Quand l'amour meurt; como Marlene Dietrich em Morocco, iluminada por Josef von Sternberg.
2. O libreto da ópera que Jeanne Balibar ensaia — La Périchole, de Offenbach — , baseia-se na mesma peça de Mérimée — Le carrosse du Saint-Sacrement —, que serviu de inspiração a Jean Renoir para Le carrosse d'or, peça fundamental do jogo rivettiano Va savoir, onde Balibar é uma outra Camilla-actriz, desorientada com os seus quebrados amores num país estrangeiro.
Se é certo que é Pedro Costa quem faz essas ligações — e aqui sim, surge-me pela primeira vez, cheia de graça e vigor, a palavra mise-en-scène —, não deixo de pensar que há eternamente na história da personagem de Camilla qualquer coisa de Balibar, ou vice-versa; qualquer coisa muito ténue mas verdadeira, uma afinidade de gestos, corpo e voz. E então, nesse encadeamento múltiplo fora de campo, quando Balibar se distrai do palco e do texto, percebo o que é uma actriz e quais são os seus poderes de representação do mundo.
§
À atenção do Leandro: as próximas projecções de Ne change rien estão marcadas para os dias 19 a 24, 29 e 30 Nov. e 01 e 02 Dez. 2009, às 21h30, no Auditório de Serralves.
Sexta-feira, Novembro 13
Quinta-feira, Novembro 12
Quarta-feira, Novembro 11
Terça-feira, Novembro 10
"What is it you want me to talk about?"
"Yourself."
"No, no. It's got to be something more stimulating than that. Ask me what I think about Shakespeare. Go on. I'm in the attitude."
Entrevista com O. Henry.
"Yourself."
"No, no. It's got to be something more stimulating than that. Ask me what I think about Shakespeare. Go on. I'm in the attitude."
Entrevista com O. Henry.
Segunda-feira, Novembro 9
Vaguear entre os ventos


Quando dispara nos olhos do índio morto, Ethan diz ao Reverendo: um comanche acredita que sem olhos não pode entrar na terra dos Espíritos. Vagueará para sempre entre os ventos.
“O poço”, publicado às vésperas da Segunda Guerra, quando o autor tinha 30 anos, é a estreia literária de Onetti. É o relato em primeira pessoa de Eladio Linacero, um homem que, aos 40 anos, sozinho e sem tabaco, trancado em sua casa suja, resolve escrever a história de sua vida, apesar de não ter muito o que contar. O poço é a história desta escrita e da impossibilidade de uma transcendência através do verbo. Diante da dificuldade de contar uma vida mal vivida, Linacero recorre a outra instância, a dos sonhos, como uma fonte de relatos dignos de narração. O projeto do narrador-escritor, exposto nas primeiras linhas da novela, é alternar o relato de um acontecimento vivido e de um sonho, “Ficaríamos todos contentes”, diz ele em sua ironia proto-existencialista.
Wilson Alves-Bezerra a propósito da edição no Brasil de "O poço" e "Para uma tumba sem nome", de Juan Carlos Onetti.
Wilson Alves-Bezerra a propósito da edição no Brasil de "O poço" e "Para uma tumba sem nome", de Juan Carlos Onetti.
Domingo, Novembro 8
Tiras oscilantes de lã
A saída da opacidade profana, a intensificação da vida seja em que direcção for, honra ou morte, vitória ou sacrifício, núpcias ou súplica, iniciação ou posse, purificação ou luto, em direcção a tudo o que perturba e exige um significado, era assinalado entre os Gregos com a aparição de tiras oscilantes de lã; brancas ou vermelhas, na maioria dos casos, enroladas à cabeça, nos braços, a um ramo, a uma proa, a uma estátua, a um machado, a uma pedra, a uma trípode. O olhar moderno encontra-as em toda a parte, nos fragmentos sobreviventes, e não as vê, afasta-as do centro da atenção como pormenores decorativos insignificantes. Para o olhar grego eram o oposto: eram esses pedaços leves e móveis que geravam o significado, o delimitavam, o celebravam. Tudo o que acontecia na macia moldura das tiras de lã era diferente e separado do resto. O que anunciavam essas tiras, essas fitas? Um excedente, um rasto flutuante que se acrescentava a um ser ou a uma coisa. E, ao mesmo tempo, um laço que ligava esse ser ou coisa.
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 275
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 275
Sábado, Novembro 7
Quando Perséfone se sentou no trono de Hades,
e o seu rosto perfumado aparecia por detrás da barba pontiaguda do esposo, quando Perséfone provou a romã que crescera nos jardins tenebrosos, a morte sofreu uma mudança não menos grave do que a que sofrera a vida desde que fora roubada à donzela. Os dois reinos estavam desequilibrados e cada um se expandia em direcção ao outro. Hades impunha a ausência à face da terra, impunha que qualquer presença fosse envolta num manto muito mais amplo de ausência. No meio dos mortos, Perséfone impunha o sangue: mas já não o sangue negro dos sacrifícios, já não o sangue que os mortos bebem avidamente. Era o sangue invisível que continuava a pulsar nos seus braços brancos, o sangue de quem continua a estar plenamente vivo, mesmo no palácio da morte.
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 209
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 209
Sexta-feira, Novembro 6
Trás-os-Montes
Maria da Glória Barros Novais Velho aparece de bata nas traseiras, grisalha, botas de borracha, dentes a menos. No filme tem uma beleza melancólica, escura. E de repente olha-nos a direito e é ela:
— "Não fica ninguém. Vai-se embora a filha da Mariana e amanhã quem será?"
São as palavras que António Reis e Margarida Cordeiro lhe deram para dizer, há 35 anos. Ainda as sabe de cor, aqui, nestas traseiras do mundo.
— Outra vez a doutora pôs-me de chefe numa moagem com uma bata branca. Outra vez eu fazia que vinha do campo. Punha as alforjas às costas e ia ver se os filhos estavam bem.
...
Reportagem de Alexandra Lucas Coelho (texto) e Nelson Garrido (fotos):
Nos passos do filme Trás-os-Montes I — Como tudo e nada mudou em terras de Miranda
Das aldeias de Bragança a um atelier no Porto
— "Não fica ninguém. Vai-se embora a filha da Mariana e amanhã quem será?"
São as palavras que António Reis e Margarida Cordeiro lhe deram para dizer, há 35 anos. Ainda as sabe de cor, aqui, nestas traseiras do mundo.
— Outra vez a doutora pôs-me de chefe numa moagem com uma bata branca. Outra vez eu fazia que vinha do campo. Punha as alforjas às costas e ia ver se os filhos estavam bem.
...
Reportagem de Alexandra Lucas Coelho (texto) e Nelson Garrido (fotos):
Nos passos do filme Trás-os-Montes I — Como tudo e nada mudou em terras de Miranda
Das aldeias de Bragança a um atelier no Porto
Em Trás-os-Montes


Guardamos uma imagem de um filme, uma em muitas. Sem movimento nem continuidade, fica apenas o reflexo de qualquer coisa fechada dentro de um rectângulo, imóvel e silenciosa. Liberto até do confronto da montagem, um fotograma é quase nada — um fragmento ou uma ruína. E no entanto, uma força estranha atinge-nos. Dir-se-ia que vem de fora, muito longe, para nos surpreender; mas o longe é o mais interior do interior. Esquecido o filme, a matéria resiste ainda, e este é outro dos mistérios do cinema: a sobrevivência impetuosa de um plano na nossa memória. A menina que retira os grãos da romã, o rapaz que toca o peixe sob o gelo — ambos reconstroem os gestos dos deuses antigos e isso quer dizer que reconstroem o nosso mundo.
Quinta-feira, Novembro 5
Numa dada ocasião, para se sentir devidamente informado numa passagem relativa a um homem enganado, [James Joyce] pediu-lhe [a Nora Barnacle, sua mulher] que saísse um pouco com outros homens, para ver como é que ele reagia. Ao que parece Nora negou-se à experiência e Joyce teve que conformar-se com que ela aceitasse iniciar uma carta do seguinte modo: "Querido Cornudo." Se isso lhe bastou é necessário admitir que se tratava de um romancista mais imaginativo do que aquilo que até agora se pensava.
Javier Marías, "Literatura e Fantasma". Tradução de Francisco Vale.
Javier Marías, "Literatura e Fantasma". Tradução de Francisco Vale.
Quarta-feira, Novembro 4
Plano para acabar com o mundo
Wilbert Frederick tinha um plano para acabar com o mundo. Um plano diabólico e terrivelmente eficaz. Dizer que ele fervia de entusiasmo com a ideia, como se estivesse possuído por mil diabos enegrecidos, é pouco. Pela primeira vez na vida, sentia-se feliz. Uma felicidade que se adivinhava pelas gargalhadinhas maldosas e pelas frases ameaçadoras, debitadas de enfiada sem pontos nem vírgulas.
Ora, antes de pôr a coisa em marcha, e como é usual em tais ocasiões, Wilbert Frederick guardou o plano num cofre. Um cofre secreto e inviolável, cuidadosamente fechado com uma chave também ela inviolável e secreta. Depois, esfregando as mãos como um actor de teatro, saiu de casa para beber uma cerveja.
Pois bem, por alguma manobra do destino difícil de explicar, perdeu a chave no caminho. E apesar de todos os esforços para a recuperar, esta nunca mais apareceu e o cofre não mais foi aberto. Wilbert mergulhou então no mais horrível desespero, enredando-se num discurso alucinado, em que infância e erva cidreira, pimpampum e peixes voadores se combinavam entre si, sem limites de tempo ou espaço, enquanto se lhe revirava o branco dos olhos e uma espessa espuma lhe pingava da boca.
E eis aqui como o mundo foi salvo, em circunstâncias pouco brilhantes, pelo mais puro dos acasos. Talvez o leitor estivesse à espera de um final um pouco mais espectacular. Compreendo perfeitamente. Mas o meu trabalho consiste em relatar a verdade e não em falsear ou apimentar os factos.
Conto incluído na revista Inútil.
Ora, antes de pôr a coisa em marcha, e como é usual em tais ocasiões, Wilbert Frederick guardou o plano num cofre. Um cofre secreto e inviolável, cuidadosamente fechado com uma chave também ela inviolável e secreta. Depois, esfregando as mãos como um actor de teatro, saiu de casa para beber uma cerveja.
Pois bem, por alguma manobra do destino difícil de explicar, perdeu a chave no caminho. E apesar de todos os esforços para a recuperar, esta nunca mais apareceu e o cofre não mais foi aberto. Wilbert mergulhou então no mais horrível desespero, enredando-se num discurso alucinado, em que infância e erva cidreira, pimpampum e peixes voadores se combinavam entre si, sem limites de tempo ou espaço, enquanto se lhe revirava o branco dos olhos e uma espessa espuma lhe pingava da boca.
E eis aqui como o mundo foi salvo, em circunstâncias pouco brilhantes, pelo mais puro dos acasos. Talvez o leitor estivesse à espera de um final um pouco mais espectacular. Compreendo perfeitamente. Mas o meu trabalho consiste em relatar a verdade e não em falsear ou apimentar os factos.
Conto incluído na revista Inútil.

o único, não apoiado por laços sacrais, precário, efémero, e no entanto não substitível, não permutável, destinado a uma breve aparição, que se conclui com a morte, e por isso mesmo incomensurável. Aquilo que existe só uma vez, e por pouco tempo, não pode ser comparado a nenhum outro bem.
Uma qualidade que a matemática védica ignorava
Aquiles é a majestade sem reino, que contém em si a sua força, sem necessidade de uma ordem hierárquica que a apoie. Por graça, e não por poder, Aquiles é mais majestoso do que os outros. E é precisamente por isso que Agamémnon quer demonstrar-lhe que é mais rei do que ele, como Nestor, com uma precisão quase pedante, explica: «Filho de Peleu, não teimes em te opor frontalmente a um rei: não há prestígio que iguale o de um rei que tem ceptro, a quem Zeus deu a glória. Tu és forte, a tua mãe é uma deusa; mas ele é ainda mais forte do que tu, porque comanda homens». De um lado há o rei, que é rei na medida em que para ele converge uma sociedade; do outro há o indivíduo, que é real no isolamento da sua figura, na unicidade do seu dom. Com Aquiles manifesta-se, na claridade homérica, uma qualidade que a matemática védica ignorava: o único, não apoiado por laços sacrais, precário, efémero, e no entanto não substitível, não permutável, destinado a uma breve aparição, que se conclui com a morte, e por isso mesmo incomensurável. Aquilo que existe só uma vez, e por pouco tempo, não pode ser comparado a nenhum outro bem.
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 119
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 119
Terça-feira, Novembro 3
A Teoria das cordas no obscuro passado da raça
Segundo Parménides, o próprio ser é envolvido por «laços da corda» da «poderosa Anankê». E, na visão platónica, aparece uma imensa luz «ligada ao céu como as cordas de cânhamo que atam as quilhas das trirremes, envolvendo toda a sua circunferência». Em cada caso, o vínculo é essencial. A fatalidade é um laço curvo, uma corda com nós (peírar) que contém tudo dentro de limites (péras). Deî, «é necessário», palavra fundadora, aparece pela primeira vez na Ilíada: «Porque é necessário que os Argivos façam guerra aos Troianos?» Aquela forma verbal regida por um sujeito neutro, que é o es de tudo o que escapa a uma vontade, foi associada por Onians ao déõ, «ligar» e não ao déõ, «faltar», que outros filólogos defendem. É a mesma imagem, observava Onians, que encontramos «numa locução da nossa língua quotidiana sem repararmos no significado que possuía no obscuro passado da raça»: it is bound to happen, «isto está ligado ao acontecer»: isto acontecerá necessariamente. Debrucemo-nos agora sobre a palavra anánkê. Chantraine conclui que «nenhuma etimologia explica o sentido próprio de anánkê e dos seus derivados: 'obrigação' e, ao mesmo tempo, 'parentesco'. A noção que poderia justificar essa dupla evolução semântica seria a de laço». Outros associam a palavra à ideia de «tomar nos braços». Nas Traquínias, o coro fala de Héracles envolvido na túnica terrível de Nesso: «Se na rede assassina do Centauro uma dolopoiòs anankê o atormenta...» Como interpretar a dolopoiòs anankê? «Abraço enganador»? «Fatalidade enganadora»? Ou uma e outra? Reaparece aqui a rede, e a fatalidade como abraço que mata. Com admirável monotonia, a rede com nós prestes a apertar-se surge sempre, envolve o leito adúlteo de Afrodite, o campo de batalha diante de Tróia, o ser, o cosmos, o corpo queimado de Héracles. Basta essa arma a Anankê para agir sobre tudo. Na Grécia, muitos duvidavam dos deuses, mas ninguém exprimiu uma só dúvida em relação a essa rede invisível e ainda mais poderosa do que os deuses.
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 102 e 103
As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 102 e 103
Segunda-feira, Novembro 2
As minhas férias com Agnès Varda (curtas turísticas)
Na apresentação da primeira sessão dedicada a Agnès Varda, Floreal Peleato disse que não é fácil classificar a obra da cineasta. Mesmo não conhecendo (ainda) todos os filmes, percebo a dificuldade: Varda é uma mulher maravilhosamente volátil. Mas se me dessem um lápis vermelho, um lápis azul, uma lápis amarelo, uma tesoura, fita-cola e algumas revistas, era capaz de ensaiar uma hipótese.
Às vezes é preciso mudar de método; classificar não é só encontrar as palavras mais acertadas, também pode ser um divertido jogo de imagens. — Un peu de bricolage, m'nsieur?


Às vezes é preciso mudar de método; classificar não é só encontrar as palavras mais acertadas, também pode ser um divertido jogo de imagens. — Un peu de bricolage, m'nsieur?


Há muitas maneiras de seguir um link. Eu apanhei o 401, saí no Bolhão, desci a Rua Formosa até ao Bonjardim, andei mais uns metros e deitei a mão à edição portuguesa de Gente da Sicília e Terras do meu país. As folhas do livro de Pavese ainda estão fechadas mas consigo ler o último parágrafo:
Com o Ernesto, encaminharam-se para a cancela. A Adélia olhava-nos ainda da janela. Mas não creio que olhasse propriamente para mim
De uma maneira geral, compreender uma obra na sua singularidade é participar na dialéctica de perguntas e respostas incluídas na própria obra: é sob esta condição que se pode dizer que a obra fala. Não é uma voz vocal, se assim se posso dizer, lançada para fora do corpo pelo sopro vivo; é apenas o análogo da voz em escrita, uma voz escrita. Uma voz sem boca, nem rosto, nem gesto, uma voz sem corpo. E, no entanto, uma voz que interpela o leitor e reestabelece, assim, para além do corte que a escrita instaura entre o autor e o leitor, o equivalente do laço que a viva voz preserva no plano da fala. Nesse momento raro da leitura feliz, torna-se legítimo dizer que ler não é ver, mas escutar.
Paul Ricoeur.
Paul Ricoeur.

















