Quarta-feira, Setembro 30

CINEMA, CEM ANOS DE JUVENTUDE

Amanhã, das 15:00 às 17:00, no AUDITÓRIO DE SERRALVES.

O ENCONTRO — Portugal, 2008 - Escola Secundária Passos Manuel (Lisboa)
PERDUTS (Perdidos) — Espanha, 2008 - CEIP Bordils*
CARLA — França, 2008 - Collège Baldung Grien, Hoerdt (Estrasburgo)*
FORA DE CAMPO — Portugal, 2008 - Escola Secundária de Serpa
SANS ISSUE (Sem Saída) — França, 2008 - Centre Socio Culturel du Buisson, Trélazé (Nantes)*
FRAGMENTS CAFÉ — Espanha, 2008 - IES Les Corts (Barcelona)*
A INFÂNCIA PERDIDA — Portugal, 2008 - Escola Secundária de Serpa

* filmes legendados em português

História natural do rock & roll - vol. 2

Ontem, mais ou menos por esta hora, Cavaco Silva entrou inesperadamente na sua fase psicadélica. Sem recorrer às cores ou outras substâncias estranhas. Cada palavra do seu discurso é uma pedra sólida e impenetrável. Eu acho que ele anda a ler Wittgenstein em alemão.
231- Erschiene mir in der Nacht ein Gespenst, so könnte es mit einem schwachen weißlichen Schein leuchten; sahe es aber grau aus, so müßte das Licht von wo woanders zu kommen scheinen.
Dos de Jorge Luis y su madre.
Una más o menos conocida:

Doña Leonor recibe una llamada en la que se la amenaza de muerte a ella y a su hijo, quién la hace se identifica como "un buen peronista".
La respuesta de la madre de Borges, dicen, que fue esta:
"Mire,señor, mi hijo sale todos los días a la diez de la mañana de mi casa, por lo tanto usted no tiene más que esperarlo y matarlo. En cuanto a mi, ya tengo tantos años encima que le aconsejo que deje de perder el tiempo hablando por teléfono porque si no se apura, me le muero antes"

La otra me la contó hace años un amigo fotógrafo que trabajaba autónomamente para una revista.
En una ocasión una redactora le pide que la acompañe porque ha de entrevistar a Borges. En la casa de la calle Maipú los recibe doña Leonor. Después de intercambiar cuatro formalidades, la señora se retira, pero antes de comenzar la entrevista, Borges, refiréndose a su madre, les confiesa:"La pobre reza todo el día para que Dios se acuerde de ella y cada noche se acuesta con la esperanza de que esa sea la última, pero a la mañana se despierta llorando porque aún no se ha muerto"


Comentário de um leitor a um post de Eduardo Berti.

Terça-feira, Setembro 29

História natural do rock & roll - vol. 1

Anotações sobre as cores é o álbum psicadélico de Ludwig Wittgenstein.
Woodropp tinha comprado o meu cadáver na morgue. Nisso não há nada de extraordinário; e também não há nada de extraordinário no facto de eu me encontrar na morgue. Eu tinha muito simplesmente aberto as veias no quarto de banho do hotel "Novo Mundo". Se o pagamento do meu quarto não estivesse tão atrasado não me encontrariam tão depressa, ou, mais exactamente, encontrar-me-iam demasiado tarde. Mas eu devia dinheiro, e foi de resto em parte por isso que fiz esta tentativa infrutuosa para me evadir para um mundo melhor. Eu tinha uma vontade furiosa de encontrar, no além, os meus pais imprevidentes e dizer-lhes a minha maneira de pensar sobre eles e, em geral, sobre todos os que procriam crianças para o nosso Estado civilizado.
Soube mais tarde que Woodropp me tinha comprado por dezoito dólares e nove centavos, sendo três dólares e nove centavos relativos à cobertura com que me tinham envolvido. Desse modo, o meu preço foi de quinze dólares exactos.

Anatoli Dnieprov, "O mundo que eu deixara". Tradução de Egito Gonçalves.

Segunda-feira, Setembro 28

efeito stereo


É apenas um dvd com legendas em francês que eu vou levar no saco, mas é aquela maravilha indescritível do Boris Barnet, e é em Coimbra... Quem quiser aparecer no dia 17 à noite, na Galeria Santa Clara, talvez compreenda como é que um realizador soviético consegue eliminar o termo "soviético" sem ir no chão.
Só me restava procurar o amor. E, naturalmente, encontrei-o. Para minha infelicidade ou para minha felicidade, a mulher que eu tinha escolhido era uma prostituta. Chamava-se Vera. Todas as noites, eu deslizava atrás dela pela Avenida Golovinsk, sem me resolver a dirigir-lhe a palavra. Não tinha dinheiro para lhe dar, e palavras, essas infatigáveis palavras de amor, ocas e banais, também as não tinha. Desde muito novo consagrara todas as forças da minha alma a compor novelas, peças de teatro, milhares de histórias. Todas repousavam no meu coração como sapos em cima de uma pedra. Possuído por um orgulho diabólico, não queria escrevê-las prematuramente. Escrever menos bem do que Tolstoi parecia-me uma perda de tempo. As minhas histórias estavam destinadas a sobreviverem ao esquecimento.

Isaac Babel, "Os meus primeiros direitos de autor". Tradução de Egito Gonçalves.

O Ano Gógol.



Este ano comemora-se o segundo centenário do nascimento de Nikolai Gógol (nasceu a 20 de Março de 1809). Um acontecimento que passou quase ignorado entre nós. Mas o ano ainda não terminou. Dia 31 de Outubro, pelas 18h00, Nina Guerra e Filipe Guerra estarão na Galeria Santa Clara, em Coimbra, para uma conversa sobre Nikolai Gógol. Pretexto para abordar também as obras dos grandes clássicos russos.
Em breve, anunciarei aqui mais pormenores.

Entretanto, no mesmo local, mas no dia 17, há outro acontecimento a não perder. É favor consultar o programa.

Domingo, Setembro 27

Discretamente, os irmãos Tanner chegaram às livrarias.

...

(Afinal o modo não é bem esse. No primeiro parágrafo, logo de manhã, Simon quer ser livreiro e consegue o cargo depois de um discurso impetuoso. Mas passados oito dias e quatro páginas, despede-se do negócio por justas causas. Acho que vou aprender muito sobre questões laborais e planos de vida.)

Sábado, Setembro 26

Strangers talk only about the weather #95

Estava tudo tão calmo na praia. Enquanto eu acabava de ler os contos de Katherine Mansfield (maravilhosos e traduzidos pelo estimado Manuel Resende), os miúdos sentavam-se na areia molhada à espera das ondas, como Lottie em Crescent Bay. O calor de Setembro é sempre melancólico, parece que estamos na infância e de repente vamos acordar.

Sexta-feira, Setembro 25

Traduzido de Kleist

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX.
Selecção e prefácio de Manuel de Freitas, Assírio & Alvim.

Quinta-feira, Setembro 24

Talvez sejam grous?


Como não leio muitos livros sobre cinema, tenho de inventar o que não sei. No caso de Une femme douce, diverti-me a imaginar o cuidado com que Bresson escolheu as roupas suaves da rapariga.

O tom verde acinzentado, que se irá manter nos seus últimos filmes, foi um acaso (como o motivo grego de Gertrud?), mas agora podemos dizer verde de Bresson. Na tela, vê-se que a camisa branca tem um pequeno bordado e que ela nunca usa soutien (aqui, claro que abro um parêntesis para referir o entusiasmo contido de Godard, fiel admirador dos modelos de Bresson).

A peça mais importante do filme é a écharpe; a mais bela é o roupão-quimono cinzento com pássaros. Tenho quase a certeza que é de Dominique Sanda.

§

Também gostava de falar da capa nocturna de Marthe que me faz lembrar, não sei qual das duas, Christiane Génessier, mas há limites para tudo. Poupam-se os leitores a mais textos sobre moldes e modelos, e eu vou tratar de outro assunto doméstico.

Quarta-feira, Setembro 23

Dar aos objectos o ar de terem vontade de lá estar

A cópia de Une femme douce era excelente. Todos os filmes deviam ser vistos assim: grandes e perto de nós. Em especial os de Bresson — porque é na projecção que eles se revelam perigosos.

Em Bresson tudo é dito logo no início, destruindo as espectativas do público. No entanto, com o tempo, apercebo-me de uma certa suspensão, não da ordem narrativa, nem sei classificá-la — é uma coisa que fica a remoer cá por dentro.

Manoel de Oliveira estava na sala. Aliás, como contou João Fernandes, foi a sua presença que facilitou a vinda do filme directamente das mãos da mulher de Bresson.

Para além do pormenor do espelho, a rapariga despede-se de Anna, como Ema de Ritinha. Mas antes:

Ela abre uma gaveta e pega no crucifixo. A velha empregada Anna entra no quarto. Ela fecha a gaveta à pressa, como se tivesse sido apanhada em falta, ou como se a pequena escultura fosse o revólver? Oliveira gosta muito da palavra "como" e desconfio que também gostaria de ter filmado esta cena.

Cruzei-me com uma fotografia apócrifa de William Eggleston. (Centro Comercial Brasília, Piso 0, junto às escadas com espelhos, plantas, repuxos de água e um banco de jardim; às 13h22.)

Terça-feira, Setembro 22

— Tu n'aime pas les fleurs? — Moi?

Escrevo sopa, o editor de mensagens do telemóvel transforma-a em rosa. Não é um milagre substancial como o da rainha santa, mas marca uma profunda divergência de expressão. Guardo o exemplo para quando tiver de explicar à minha mãe o que é a escrita criativa.
Mesmo sem ser radical, ele [o compositor francês Darius Milhaud] era moderníssimo. Depois de muitos anos de curiosidade, acabei topando, graças à naxos music library, com as curtíssimas canções em que Milhaud musicou nada menos do que... um catálogo de sementes para floricultores. Violetas e jacintos recebem uma descrição técnica e precisa no texto: o suficiente para Milhaud inventar linhas melódicas irônicas e ambíguas. Soube também que ele fez o mesmo para um catálogo de máquinas agrícolas.
Está nisso, a meu ver, a essência do modernismo.


Marcelo Coelho.

Segunda-feira, Setembro 21

As casas queimadas, por Ricardo Matos Cabo



Do I really want to be integrated into a burning house?
James Baldwin, The Fire Next Time

[...]
A dicotomia operacional entre o interior e o exterior, igualmente referida a propósito dos seus filmes, surge aqui pela primeira vez com a alusão feita pelo realizador à visão das casas na Ilha do Fogo, construídas de lava, viradas do avesso, como se fossem tumbas, no contraste com o exterior, e na procura de um equivalente — apenas permitido pelo cinema — de um tempo e espaço comuns e universais, algures entre a morte e a vida, o interior e o exterior. Não deixou desde então de perscrutar e filmar a “alma dos quartos” (usando a expressão de Dreyer), aquilo que apenas se revela na intimidade dos espaços reais, na sua complexa acumulação de histórias, presenças e ausências, uma busca que culmina no espaço de Tarrafal. Filme militante, que responde a uma urgência, a um facto real da vida de um dos protagonistas — Zé Alberto, que acabou de receber uma ordem de expulsão do território —, Tarrafal tem como base um espaço que vai perdendo referentes (“Quando eu para aqui vim não havia casas”, diz-se a um dado momento), que se tem vindo a transformar num vasto terreno cinematográfico que já só pertence aos que nele habitam e que, embora ameaçado pelo exterior (o aviso de expulsão cravado no poste com a navalha de Zé Alberto, os vampiros que espreitam a oportunidade), é orgulhosamente deles, das suas histórias, do seu repouso; e é, tal como noutros filmes, uma oferenda do cineasta às pessoas que filma.

Este livro dá conta do carácter insular dos filmes de Pedro Costa: descobre passo a passo a formação do método do cineasta e a forma como foi progressivamente elidindo os géneros cinematográficos e as próprias referências de que se socorre, desenvolvendo um conjunto de estranhas e atípicas sequelas, cada uma com um tratamento próprio do tempo dos protagonistas, das histórias contadas. Um longo caminho que em cem mil cigarros é muitas vezes identificado com uma compreensão cada vez mais complexa das ordens da narrativa, pelo modo como utiliza a elipse na construção das suas histórias, pela descoberta desse “presente tornado absoluto” (usando as palavras de Shiguéhiko Hasumi) e pelo interesse na construção de ficções polifónicas (como num monogatari, as suas histórias desenvolvem-se em blocos de tempo, justapostos em sequências que se desenrolam muitas vezes sem depender do que veio antes ou do que se segue, assentes no detalhe da palavra e dos gestos significativos).

Finalmente, mas não menos relevante, é o facto de os filmes de Pedro Costa terem vindo a aproximar-se de uma economia de produção e distribuição cinematográfica que se inscreve numa genealogia particular de cineastas que construíram a sua obra a partir do interior e com a participação directa das comunidades que neles aparecem – são vários os exemplos deste cinema: dos filmes de Andy Warhol, pela concentração formal e elisão das fronteiras entre protagonistas reais e filmados, mas também dos filmes de um colectivo como o de Ogawa Shinsuke, que em longas séries e sequelas cinematográficas acompanhou durante décadas as lutas, os ciclos de vida e de produção de pequenas comunidades rurais no Japão. Fidelidade às pessoas, aos espaços, às suas histórias.

Os seus filmes parecem, nessa medida, oferecer cada vez mais um refúgio contra o esquecimento e uma possibilidade de reconquista para aqueles que neles intervêm, reinventando de modo exemplar um dos papéis primeiros do cinema (o realizador fala do poder vingativo do cinema no seu início, de Chaplin, “da possibilidade de vingança, sobretudo na ficção”). Presente nos seus filmes, desde logo, a combustão dos espaços (as fogueiras na noite do primeiro filme, o vulcão em erupção que abre o segundo, as casas de fogo seco de Casa de Lava), dos corpos (em No Quarto da Vanda, o Muletas que se salva do fogo por um triz, as fogueiras que ardem dia e noite nas Fontainhas e à volta das quais a comunidade se reúne). Os quartos carbonizados em que Lento surge de mão dada com Ventura (e que contam uma história verdadeira de desespero) em Juventude em Marcha recordam a frase de James Baldwin em epígrafe, que tão bem resume a recusa da assimilação e da invisibilidade a que as ilusões de integração parecem querer remeter aqueles a quem o cinema de Pedro Costa dá presença, corpo, peso e voz.

Os últimos parágrafos da bela e justa introdução ao livro "cem mil cigarros"

§

O livro dedicado ao trabalho de Pedro Costa será apresentado amanhã, às 19h30, na Cinemateca Portuguesa. O empenho na coordenação e na coragem é do Ricardo, a edição é da Orfeu Negro, a sorte é nossa. E a festa continua.

A palavra ética (24 de Março de 1988)

Varro as escadas que conduzem ao
Palácio das Artes. Isto não é uma metáfora:
é a realidade. Algum dinheiro extra.
A poesia precisa de sobreviver de alguma maneira. A poesia
tem que comer.
É primavera. O inverno deixou-nos a sua sujidade -
esta mistela branca tão facilmente transformada em lama
húmida, negra e pegajosa. Um monte
de beatas, papéis, caganitas de pássaros, fezes de cão e
um bocado que é provavelmente um excremento humano.
Isto também não é uma metáfora: é a realidade.
O meu uso das palavras trouxe-me
até aqui. O céu ficou limpo.
A chuva não lavará tudo isto.

Marcin Swietlicki.

Domingo, Setembro 20


UNE FEMME DOUCE Hoje - das 16:00 às 20:00 - AUDITÓRIO DE SERRALVES

Sábado, Setembro 19

Abre hoje

A livraria Capítulos Soltos, em Braga, é inaugurada esta tarde, pelas 17h00, com a presença, entre outros, de Dan Brown.
Rua de Santo André, 63-65.

A poética de Aristóteles (adenda)

Não tão certo, mas difícil de refutar: Aristóteles achava que as enguias nasciam dos "vermes da terra", que emergiriam da lama sem a necessidade de qualquer tipo de fertilização — nasceriam, simplesmente, das "entranhas do solo húmido". (wikipédia)

O que disse a respeito de enguias está bastante certo

De manhã passei pelo alfarrabista da Travessa de Cedofeita à cata de mais algum Pavese antigo. Só havia um, repetido: a primeira edição de Il compagno, disfarçada sob o título "A guitarra quebrada". Em Maio de 74, o livro teve direito a nova tradução e chamou-se "O camarada". Já agora, para concluir a breve aula de história comparada, vale a pena voltar às recensões da Gulbenkian e ler o que o senhor Miranda Mendes escreveu em 1961.

Lembrei-me das cadernetas de cromos e acabei por comprar um "texto para a juventude" de Agostinho da Silva, Vida das Enguias, que me permite fazer a primeira citação indirecta de Aristóteles:
O primeiro autor que falou de enguias foi um grego, Aristóteles, cujo nome hás-de encontrar muitas vezes nas histórias de ciências e de filosofia, e que viveu há cêrca de 2.400 anos; errou muitas vezes nas suas afirmações, mas o que disse a respeito de enguias está bastante certo: as duas observações mais importantes foram as de que não se tinham encontrado nas enguias órgãos de reprodução e a de que as enguias emigravam para o mar numa certa altura da sua vida.

Sexta-feira, Setembro 18

As delícias da vida doméstica

Uma noite Errol Cockeran saiu de casa e nunca mais voltou. Ora, o que é que podia levar uma pessoa como Errol Cockeran a abandonar o conforto e as delícias da vida doméstica, e a pôr-se a caminho, calçando as suas primorosas botas de montar, acanhoadas de branco, e que lhe subiam elegantemente até mais de meia-canela? Eis uma questão que não é de fácil resposta. As razões não são claras. Note-se que há muitas explicações, a propósito de tudo, sempre à mão de semear. Mas não há explicação para este caso.
Prefiro imaginar que nada disto aconteceu. Enfim, foi uma ideia tola que passou por mim, vinda de lado nenhum. Neste momento, Errol Cockeran está na cozinha, envergando as suas botas à Frederica com canhão de embude no joelho, a comer um bife.

Abhidarmakoçavyãkhyâ


Gosto de coincidências. Num post já antigo com traduções à toa de Cioran, encontro uma referência a Pascal, ao suicídio e ao Jardim das Plantas. Talvez Cioran não conhecesse as concessões de Bresson, o que é uma pena. (Por vezes, o suicído é inevitável, e nem sempre é consequência dum desvario.) Serralves e a Casa da Música resolvem projectar o filme que mais me apetece ver, já no próximo domingo. Une femme douce de Robert Bresson estreou no Porto, no Cinema Estúdio, a 21 de Julho de 1970. E por aí fora. Existir é um fenómeno colossal — que não tem sentido algum

Quinta-feira, Setembro 17

Breton cita (...) coincidências inquietantes: Chirico, executando o retrato de Apollinaire, muito tempo antes do ferimento deste, tinha delimitado com um círculo as têmporas que o poeta, depois da sua trepanação, se verá obrigado a dissimular com uma ligadura de couro; o grande número de telas de Victor Brauner exprimindo a obsessão de uma mutilação ocular e o acidente que, pouco depois, custou ao pintor a perda de um olho.

Jules-François Dupuis, "História desenvolta do surrealismo". Tradução de Torcato Sepúlveda.


A palavra equinócio vem do Latim, aequus (igual) e nox (noite), e significa "noites iguais". (wikipédia)

§

Tu sais, toi, si tu rêves en couleur ou en noir et blanc? Si ton rêve est muet ou parlant, si c’est de la voix off ou du direct? La Nuit sans étoiles, Jean-Claude Rousseau

Quarta-feira, Setembro 16

Tal e qual como quando olho algumas das minhas fotografias adolescentes: já não se usam aquelas calças à boca-de-sino, a praia e a sua fauna desapareceu, a classe média baixa entretém-se com outras coisas noutros lugares, mas os fígados daquelas gentes, como dizia a minha tia — os fígados daquelas gentes são tanto os nossos fígados que até nos arrepiamos. A minha tia não dizia a alma, dizia os fígados, o que é coisa um pouco diferente. Se a minha tia fosse dada à literatura diria que havia a alma pathos-lógica do Dostoievski, a alma melancólica do Tchekhov, e os fígados irónicos do Nabokov.

Luís Mourão
Quando descubro nos bichos gestos que se assemelham aos nossos, é que percebo como é belo e difícil o movimento imediato. (É preciso ser mais justo ao corpo.)

Uma cena clássica da vida parisiense

Na Place des Vosges, uma jovem elegante deixa cair o lencinho. Um homem de fraque, bigode fino, monóculo, sapatos impecavelmente envernizados e cravo na lapela, numa manifestação muito digna de gentleman, precipita-se para o apanhar. Tropeça numa garlopa – há sempre uma garlopa numa cena clássica da vida parisiense – e cai de cabeça. Parte o nariz e a testa, desfaz a palma das mãos e os joelhos, risca os sapatos e amarrota o fraque. O monóculo estilhaça-se em mil vidrinhos. O cravo voa da lapela.
A jovem assiste a toda a cena, manifestamente indiferente. O homem levanta-se a custo e entrega-lhe o lencinho. Ela guarda-o, não diz palavra e retoma o seu passeio. O homem afasta-se, coxeando.

Terça-feira, Setembro 15

Segunda-feira, Setembro 14

Uma cena célebre da literatura japonesa

O príncipe Genji entrou no palácio do governador Yo No Kami e, escondido atrás de um reposteiro, contempla a mulher deste, a bela Utsusemi, por quem está perdidamente apaixonado e que está a jogar ao go com a sua amiga Nokiba No Ogi.
Laurelle de Dinteville (1842-1861) foi uma das infelizes vítimas, e provavelmente a responsável, de um dos incidentes mais horríveis do Segundo Império. No decurso de uma recepção dada pelo Duque de Crécy-Couvé, com quem deveria casar algumas semanas mais tarde, a jovem fez um brinde à sua futura família esvaziando de uma só vez uma taça de champanhe e atirando-a ao ar. Quis a fatalidade que nesse momento se encontrasse justamente por baixo de um gigantesco lustre proveniente da célebre oficina Baucis de Murano. O lustre partiu-se, provocando a morte de oito pessoas, entre as quais Laurelle e o velho Marechal de Crécy-Couvé, o pai do duque, debaixo de quem tinham sido mortos três cavalos durante a campanha da Rússia. A hipótese de um atentado não vingou. François de Dinteville, tio de Laurelle, que assistia à recepção, emitiu a hipótese de uma "amplificação pendular desencadeada pelas fases vibratórias antagónicas da taça de cristal e do lustre", mas ninguém quis tomar a sério esta explicação.

Georges Perec, "A Vida Modo de Usar". Tradução de Pedro Tamen.

Domingo, Setembro 13


Ich Wollt Ich Wär Ein Huhn, cantada por Lilian Harvey & Willy Fritsch e dedicada aos leitores que se incomodam com a minha cinefilia sisuda.

Aos outros, dedico este filme de Tacita Dean. Tivesse eu o cinema de Shosanna e projectá-lo-ia junto a Inglourious basterds.

— I rather liked Lillian Harvey.


Fui ver Inglourious Basterds. Concordo com Francisco Ferreira. Tarantino explora a nossa ligação mais íntima à linguagem e a forma como ela nos define em relação aos outros: os sotaques particulares; as expressões; o inglês afectado dos ingleses junto ao abastardado dos americanos; a escolha cuidadosa das palavras, Shosanna é livre enquanto puder decidir as suas próprias palavras e os seus gestos (e os seus filmes); o gesto errado de Archie Hicox; os gestos retóricos de Hans Landa e a sua maneira suave de contar histórias terríveis (também são assim os nazis de Celan). E tudo isto numa situação extrema.
Quando escrevi situação extrema pensei na guerra mas logo a seguir no cinema, até descobrir que no filme ambos têm a mesma grandeza, podem destruir-se um ao outro, para além do bem e do mal. Apesar de tudo parecer, à primeira vista, uma vingança — a vingança judaica de Shosanna inflamada em chamas —, não é bem disso que se trata, creio. É um plano mais geral, uma enorme efabulação: deram-nos o positivo e a nossa tarefa é construir o negativo, sobre um território histórico que não existe, como se o destino estendesse a mão à História — e destino aqui significa cinema. Claro, Tarantino é o mais godardiano dos cineastas e o mais louco dos godardianos. No seu campo de sombras, o cinema ganha sempre porque é impossível matar os mortos. Era uma vez.

Leg den Riegel vor

Inglourious Basterds é uma história oral, uma torrente de diálogos excelentes e cortantes, mas com o meu feitio arrevesado fui caindo nas pausas. Há uma perfeitamente diabólica. Hans Landa e Shosanna ficam sozinhos na mesa do restaurante fino; a cena é uma espécie de duelo, com armas invisíveis, entre as duas personagens mais fortes do filme. Ele pede duas fatias de Strudel, um café curto e um copo de leite para a rapariga. Depois as natas. — Espere pelas natas, Shosanna. Ela espera, corta um pedaço do bolo. Ele faz-lhe algumas perguntas: de onde lhe vem o cinema, o que aconteceu aos tios, como conheceu o sargento Frederick Zoller, quantos camarotes tem a sala. Ela responde com timidez forçada, o seu rosto é uma máscara. No fim ele acrescenta que quer fazer-lhe outra pergunta. Vemos o rosto de Shosanna à espera; o rosto de Hans Landa (nunca saberemos em que é que ele está a pensar); entre os dois, o copo de leite (Tarantino não pára de jogar com os signos), ninguém fala.

Passado um bocado Hans Landa diz que afinal se esqueceu, não tem importância; mas nós já sabemos que este homem tem faro para as coisas sem importância. Como um lobo.

Sábado, Setembro 12


Ah, dançar com as suas próprias sombras. Pelo chapéu e pela desenvoltura, ia jurar que Fred Astaire é um duplo de Murphy. Bojangles of Harlem from Swing Time (1936).

O link por inteiro (early filmmakers loved dancers) dedicado à Catarina.

Sexta-feira, Setembro 11

A falta de entrecho

Em 1964, Maria João Vasconcelos considerou Murphy um livro medíocre, de acessibilidade difícil e mal traduzido. Por se tratar de Beckett, sugeriu a leitura do original ou uma segunda leitura. A comissão deliberou que o romance não era aceitável.

Um carvalho e duas tílias

Era uma vez e várias vezes um homem que mudava de cor segundo as condições meteorológicas. A pele exibia um inconfundível azul-celeste em dias de sol, era turquesa com muito calor, damasco com nuvens escuras, vermelho violeta com chuva, ocre durante uma tempestade, ametista quando não fazia sol nem chuva, cinza ardósia com vento forte, lilás com vento fraco, jade quando soprava apenas uma brisa suave, púrpura com tempo de nevoeiro, carmesim em alturas de trovoada, índigo com granizo, coral em manhãs de geada, e por aí fora.
Depois de muitas tentativas frustradas para solucionar o caso, envolvendo toda a espécie de cremes, loções e cosméticos para a pele, o homem fez o que qualquer pessoa cansada faria: cansou-se.
Fechou-se então em casa. Permanecia todo o dia no quarto, sentado no seu cadeirão junto da janela, mudando de cor e olhando para a rua, ou talvez nem isso, olhando para o vazio. Morreu ao fim de alguns anos. Nesse dia exibia um belíssimo tom turquesa, apesar de fazer frio e chover torrencialmente. Um carvalho e duas tílias* foram, como é devido, plantadas junto ao seu túmulo.

* Uma das tílias é da espécie T. tomentosa Moench (T. prateada), com folhas verde-escuras na página superior e branco-tomentosas na inferior.
Certas frases podem impedir-me completamente de fazer amor.
Benjamin Péret.

Quinta-feira, Setembro 10

Outras manobras. O que me espicaça a curiosidade são os textos meramente informativos, ilustrados e chatos, sem qualquer ênfase, aquilo que Arthur Conan Doyle deixou na sombra: as monografias minuciosas do obcecado Sherlock Holmes. Da diferença entre as cinzas de vários tabacos à catalogação de pegadas ou influências do ofício na forma da mão.

Quarta-feira, Setembro 9

Mais quelle route?


O Alexandre já avisou, eu avanço uma casa e o texto de Helene Frappat.
Assim se forma uma verdadeira trupe com roulotes e dragões.

Après le Bain, by William Carlos Williams

I gotta
buy me a new
girdle.
(I'll buy
you one) O.K.
(I wish

you'd wig-
gle that way
for me,

I'd be
a happy man)
I GOTTA

wig-
gle for this.
(You pig)

Terça-feira, Setembro 8

Aprendemos sempre qualquer coisa com os outros; mas quase nunca o que queriamos aprender, nem o que eles nos querem ensinar. Deve ser a isto que chamam aprendizagem sob condições de ambiguidade sensorial.
ELE
(...) Dizem que, há alguns dias, por volta das cinco horas da manhã, ouviu-se um barulho louco; todas as campainhas retiniam, eram gritos interrompidos e abafados de um homem em asfixia: "Socorro, socorro, eu sufoco, morro..." Os gritos partiam do apartamento do patrão. Chegam e acodem-no. A nossa gorda criatura, desvairada, fora de si, sem ver mais nada, como acontece nesses momentos, continuava, apressando os movimentos, levantando sobre as duas mãos, e do mais alto que podia, deixava cair sobre as rendas eventuais um peso de duzentas ou trezentas libras, animada de toda a velocidade que dá o furor do prazer. Custou muito trabalho tirá-lo de lá. Que diabo de fantasia, a de um pequeno martelo colocar-se sob uma pesada bigorna?

EU
O senhor é um desbocado. Falemos de outra coisa.

Diderot, "O Sobrinho de Rameau".
Tradução de Antônio Bulhões e Miécio Tati.
(Clássicos Garnier, Vol. II.)

Segunda-feira, Setembro 7

Domingo, Setembro 6

50 mm

— Il y a une chose que dit Bresson dans les «Notes sur le cinématographe», c'est que la caméra est un oeil qui ne voit pas comme nous voyons.

Emmanuel Machuel — Dans l'univers géométrique que notre oeil voit, il y a déjà un choix qui est presque implacable. C'est probablement une des raisons, mais pas la seule, pour laquelle on choisit une optique, non seulement pour un film, mais pour tous les films. Dans tous les films de Bresson, auxquels j'ai participé, il doit y avoir, je crois, un seul plan (que je n'ai pas tourné) qui n'est pas au 50: c'est celui du fichu qui tombe dans la Femme douce. Dans L'Argent, tout est tourné au 50. J'ai été assistant de Ghislain Cloquet pour Balthazar, Mouchette, Une femme douce: tout ce que j'ai tourné avec Bresson l'a été exclusivement au 50. Ça doit déjà simplifier un peu ce problème trés compliqué de différence entre ce que voit l'oeil, et ce qui est pris par la machine. Elle est au bout d'une pensée, d'un rythme, d'un oeil, qui n'est pas, même si l'entente est au mieux, constamment celui du metteur en scène.

propos recueillis le 29 septembre 1986, dans "Robert Bresson", de Philippe Arnaud
Petite bibliothèque des Cahiers du cinéma #75

Sábado, Setembro 5

Une certaine douceur


Tiré d'une nouvelle de Dostoievski. É assim que o filme de Robert Bresson se apresenta, com um verbo forte que apetece traduzir literalmente. E também com o conselho de Hamlet aos actores (Acto III, Cena II), esquecido na representação mas que Dominique lê quando chega a casa:


Hamlet: Dizei a fala, peço-vos, tal como a enunciei, escorreita na língua; porque se a mastigardes como fazem muitos dos vossos actores, mais vale que um arauto me berre os versos. Nem com a mão vos ponde a cortar assim o ar; antes docilmente o fazei; pois na própria torrente, tempestade e, como direi, moinho dessa vossa paixão, é bom ter e suscitar uma temperança que lhe dê suavidade. Ah, ofende-me cá dentro ouvir o estardalhaço de um fulano de peruca e pó a despedaçar uma paixão, esmifrando-a em verdadeiros farrapos, para ferir os ouvidos da geral, que na sua maior parte só aprecia escarcéu e incompreensíveis pantominas. Por mim mandava açoitar quem exagerasse nesses grotescos de mafoma. Fazem-se mais Herodes que Herodes. Peço-te que evites isso.
Hamlet, de William Shakespeare, Tradução de António M. Feijó BI. 027

§

Dominique Sanda passa quase todo o tempo com uma saia cinzenta, uma camisa clara e uma gabardine esverdeada. A roupa é uma espécie de pele, a pele é o que guarda a alma, a alma é a parte misteriosa do corpo.



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Nada de "meigo" existe neste filme frio em que Bresson, sob o signo da morte, decompõe todos os sinais da sua escrita, até ao "grau zero" da in-significação. Penúltimo parágrafo da folha de sala, escrita por João Bénard da Costa. E no entanto, nunca Bresson foi tão longe, tão dentro, da ambiguidade de douce. Se a palavra tivesse um corpo, seria o de Dominique Sanda. (Escrever com os corpos.)




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Antes de saltar, Dominique olha-se no espelho — exactamente como Ema alguns anos mais tarde — , e sorri. O sorriso dura apenas dois segundos e é impenetrável.


Sexta-feira, Setembro 4


— C'est la même matière première pour tous, mais arrangée différemment. Pour une souris, pour un éléphant, pour un homme.


— Tu avais raison, c'est les mêmes matières premières pour tous, c'est extraordinaire.

Quarta-feira, Setembro 2

Últimas palavras de pessoas célebres

"Oíd una cosa terrible: en tres días seré fusilado por los fusileros de Dios" (Radiguet); "Viejo tonto" (Toulouse-Lautrec, al padre que lo asistía en la agonía y, para no aburrirse, cogía moscas al vuelo); "Ya no es tiempo para esto" (san Ignacio, a un amigo que le había llevado un libro); "Temo que mis frases comienzan a volverse gramaticalmente insensatas" (Gide); "Por lo que parece, me estoy convirtiendo en Dios" (Vespasiano); "Bah, me acordaré de este planeta" (Villiers de l'Isle-Adam); "Máteme, de lo contrario usted es un asesino" (Kafka); "Oh, ya empiezo a aburrirme" (Francis de Croiset); "Fasano, me siento mal" (De Amicis); "Rápido, una escalera" (Gogol); "El problema está resuelto" (Enrico Cairoli); "Vienen guerras: En guardia... Vienen guerras" (Gorki); "Sudo" (Garibaldi); "Morir a los cincuenta años, !qué vergüenza!" (Petrolini); "Feliz estadía" (Maiakovski, en el billete de adiós); "¡Yo moriré! ¡Vamos! Hablaremos más tarde, con calma" (Laforgue); "Ya dejen de joder" (Léauteaud).
(...)
De Lady Mary Wortley Montague (siglo XVIII inglés, amante de Swift y de Pope): "It has all been very interesting..."
Y desde luego las poco prestigiosas de Claudel: "¿Qué opina doctor? ¿Habrá sido el salchichón?"

No blogue de Eduardo Berti.

Henrique Perdigão

E recordo sempre o optimismo com que, mais do que uma vez, Henrique Perdigão contrariava o queixume habitual dos livreiros e dos comerciantes da Baixa do Porto e dizia, por exemplo, que a chegada da FNAC àquela zona da cidade tinha sido "uma coisa boa", porque permitia aos leitores e amadores de livros perceber a diferença, a muito poucos metros de distância, entre uma livraria e uma loja de venda de livros ao lado de outros produtos da moda audiovisual.

Sérgio C. Andrade.

Terça-feira, Setembro 1

Noutro dia sonhei com João Bénard da Costa. Não me lembro de quase nada; apenas da ideia de peregrinação (curiosamente muito semelhante a uma partida de xadrez desastrada) e de um profundo tom escuro. Creio que foi o meu primeiro sonho católico perverso.

Notas de rodapé

(92) Panard (1674-1765), autor de comédias, óperas-cómicas e canções, satíricas e báquicas. Em duas das suas canções mais célebres figuram, pela disposição dos versos, uma garrafa e um copo.
(93) Gallet (1700-1757), autor de canções que interpretava no Caveau, com Panard, Piron, Collé, etc. Arruinado, refugiou-se em 1751 no Templo, local de asilo, escapando assim aos credores. Aí morreu, alcoólatra.
(94) Jean-Joseph Vadé (1720-1757) é conhecido pela sua vida desregrada, pelas suas comédias, vaudevilles e óperas-cómicas, pela invenção do estilo chulo e pelo facto de Voltaire se ter servido do seu nome como pseudónimo.
(95) Alusão ao círculo de Vendôme, frequentado, no fim do século XVIII, por Chaulieu e La Fare.
(96) La pomme de pin, cabaré não muito distante de Notre-Dame. Teve por hóspedes ilustres Villon, Rabelais e Théophile de Viau.
(97) Nas suas Lettres Théologiques, o beneditino Louis la Taste sustentou que os diabos podiam fazer milagres benfazejos a fim de induzirem os homens em erro.

What if the Internet had existed centuries ago?

One superb innovation of recent times is the readers' review section on Amazon.com. Here ordinary people get to voice their opinions, acting as cultural watchdogs to shield their fellow book lovers from duds.
(...)
It is always fun to go back in time and speculate on what might have happened had Anne Boleyn been on Facebook, or had Pharaoh's army included amphibious equipment. This is why I cannot help wondering what a typical Amazon.com review might have looked like had the Internet existed centuries ago:
• "King Lear"— Average reader rating: Two stars. The author tells us: "As like flies to wanton boys are we to the gods; they kill us for their sport." Oh, right, like I didn't know that? Like I didn't know that to be or not to be is the question? Like I didn't know that the fault lies not in us but in the stars? Tell me something I don't know, Mr. Bard of Whatever.

Texto completo de Joe Queenan aqui.