
Do I really want to be integrated into a burning house?
James Baldwin, The Fire Next Time
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A dicotomia operacional entre o interior e o exterior, igualmente referida a propósito dos seus filmes, surge aqui pela primeira vez com a alusão feita pelo realizador à visão das casas na Ilha do Fogo, construídas de lava, viradas do avesso, como se fossem tumbas, no contraste com o exterior, e na procura de um equivalente — apenas permitido pelo cinema — de um tempo e espaço comuns e universais, algures entre a morte e a vida, o interior e o exterior. Não deixou desde então de perscrutar e filmar a “alma dos quartos” (usando a expressão de Dreyer), aquilo que apenas se revela na intimidade dos espaços reais, na sua complexa acumulação de histórias, presenças e ausências, uma busca que culmina no espaço de Tarrafal. Filme militante, que responde a uma urgência, a um facto real da vida de um dos protagonistas — Zé Alberto, que acabou de receber uma ordem de expulsão do território —,
Tarrafal tem como base um espaço que vai perdendo referentes (“Quando eu para aqui vim não havia casas”, diz-se a um dado momento), que se tem vindo a transformar num vasto terreno cinematográfico que já só pertence aos que nele habitam e que, embora ameaçado pelo exterior (o aviso de expulsão cravado no poste com a navalha de Zé Alberto, os vampiros que espreitam a oportunidade), é orgulhosamente deles, das suas histórias, do seu repouso; e é, tal como noutros filmes, uma oferenda do cineasta às pessoas que filma.
Este livro dá conta do carácter insular dos filmes de Pedro Costa: descobre passo a passo a formação do método do cineasta e a forma como foi progressivamente elidindo os géneros cinematográficos e as próprias referências de que se socorre, desenvolvendo um conjunto de estranhas e atípicas sequelas, cada uma com um tratamento próprio do tempo dos protagonistas, das histórias contadas. Um longo caminho que em
cem mil cigarros é muitas vezes identificado com uma compreensão cada vez mais complexa das ordens da narrativa, pelo modo como utiliza a elipse na construção das suas histórias, pela descoberta desse “presente tornado absoluto” (usando as palavras de Shiguéhiko Hasumi) e pelo interesse na construção de ficções polifónicas (como num
monogatari, as suas histórias desenvolvem-se em blocos de tempo, justapostos em sequências que se desenrolam muitas vezes sem depender do que veio antes ou do que se segue, assentes no detalhe da palavra e dos gestos significativos).
Finalmente, mas não menos relevante, é o facto de os filmes de Pedro Costa terem vindo a aproximar-se de uma economia de produção e distribuição cinematográfica que se inscreve numa genealogia particular de cineastas que construíram a sua obra a partir do interior e com a participação directa das comunidades que neles aparecem – são vários os exemplos deste cinema: dos filmes de Andy Warhol, pela concentração formal e elisão das fronteiras entre protagonistas reais e filmados, mas também dos filmes de um colectivo como o de Ogawa Shinsuke, que em longas séries e sequelas cinematográficas acompanhou durante décadas as lutas, os ciclos de vida e de produção de pequenas comunidades rurais no Japão. Fidelidade às pessoas, aos espaços, às suas histórias.
Os seus filmes parecem, nessa medida, oferecer cada vez mais um refúgio contra o esquecimento e uma possibilidade de reconquista para aqueles que neles intervêm, reinventando de modo exemplar um dos papéis primeiros do cinema (o realizador fala do poder vingativo do cinema no seu início, de Chaplin, “da possibilidade de vingança, sobretudo na ficção”). Presente nos seus filmes, desde logo, a combustão dos espaços (as fogueiras na noite do primeiro filme, o vulcão em erupção que abre o segundo, as casas de fogo seco de Casa de Lava), dos corpos (em
No Quarto da Vanda, o Muletas que se salva do fogo por um triz, as fogueiras que ardem dia e noite nas Fontainhas e à volta das quais a comunidade se reúne). Os quartos carbonizados em que Lento surge de mão dada com Ventura (e que contam uma história verdadeira de desespero) em
Juventude em Marcha recordam a frase de James Baldwin em epígrafe, que tão bem resume a recusa da assimilação e da invisibilidade a que as ilusões de integração parecem querer remeter aqueles a quem o cinema de Pedro Costa dá presença, corpo, peso e voz.
Os últimos parágrafos da bela e justa introdução ao livro "cem mil cigarros"§
O livro dedicado ao trabalho de Pedro Costa será apresentado amanhã, às 19h30, na Cinemateca Portuguesa. O empenho na coordenação e na coragem é do Ricardo, a edição é da
Orfeu Negro, a sorte é nossa. E a festa
continua.