Segunda-feira, Agosto 31

O cheiro das laranjas. Nunca andei na faculdade, nunca aprendi a dividir a cultura verticalmente. A minha avó era uma mulher do campo analfabeta. Ensinou-me a inventar a história da Branca Flor e a comer pão com laranja ou uvas. Mais tarde, quando almoçávamos sozinhas, ficávamos muito tempo à mesa a conversar, ela contava-me a sua vida e eu ouvia, como no filme do Eustache, como em Sicilia! Entre a minha avó e os filmes de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub não há a menor diferença — é um só plano.

Domingo, Agosto 30

The fundamental sound

Acabei de ler Murphy nas cadeiras de semi-balouço JB pretas da Praia dos Ingleses enquanto a maré enchia. O apego aos objectos de Beckett faz-me acreditar nas suas qualidades cinematográficas.
Numa das páginas menciona Grifitth — quantos filmes perdidos...
Ao meu lado esquerdo, um senhor de cabelos brancos limava cuidadosamente as unhas. Sublinhei mais duas frases em jeito de moral à Rohmer (Pascal ao centro baixo):
É assim, a coxear, que todas as coisas concorrem para o único possível. (p. 204)

É assim, aos solavancos, que todas as coisas concorrem para o único possível. (p. 211)

E agora salto para 1951 sem sair da letra "M".
Estou no quarto da minha mãe. Sou eu quem aqui vive agora. Não sei como cá cheguei.
Molloy.

A marca do ferro de engomar

Se Murphy fosse um caso policial e eu detective, não me seria difícil circunscrever a área do crime à página 221 — o jogo fatal entre Murphy e Mr. Endon — e escavar precisamente por baixo de percipere e de percipi, junto ao rei deposto.
Mas os olhos levam-me para a mancha castanha que havia no lençol, marca provável do ferro de engomar que Célia vê no lençol que tapa Murphy morto. Um crime dentro do crime, embora não se saiba ainda o que quer dizer dentro.

Sábado, Agosto 29


From dear Andy: more mobile homes and huddled masses, from an enormous panorama shot in Huillet/Straub's LOTHRINGEN.

Yasunari Kawabata

Que desânimo, eu estava à espera d' O som da montanha, mas a Dom Quixote preferiu lançar uma nova tradução de "Mil grous". O mundo editorial tem as suas próprias regras obscuras.

Sexta-feira, Agosto 28

Hoji é nome de leão em Kimbundu, diz-me o meu irmão. E eu fico a pensar em leões.
Disparados em sentidos tão contrários, se nós fossemos um, ah! que ser assustador.

Quinta-feira, Agosto 27

L'Arbre


Litografia a cores de Albert Giacometti, publicada pela revista Verve, volume 7, número 27-28 (Paris, 1952).

Quarta-feira, Agosto 26

Canas, vimes e juncos

Em 1972, Esther de Lemos traduziu roseau de outra forma (Pensamentos Escolhidos, Pascal — prefácio, selecção e tradução de Esther de Lemos, Editorial Verbo):
O homem não passa de um vime, o mais frágil da natureza, mas é um vime pensante. Não é preciso armar-se o universo inteiro para o esmagar; um vapor, uma gota de água, basta para o matar. Mas, ainda quando o universo o esmague, o homem será sempre mais nobre do que quem o mata, pois sabe que morre, e da vitória que sobre ele alcança, o universo nada sabe.

Em nota, explica a escolha:
A expressão roseau pensant utilizada diversas vezes por Pascal para imagem da fragilidade e ao mesmo tempo da superior grandeza do homem perde a elegância na tradução, especialmente se esta for literal: "O homem é uma cana [...] mas é uma cana pensante." Por motivos, pois, de eufonia, e atendendo às conotações dos vocábulos portugueses utilizáveis, optámos por "vime", preferindo sacrificar o rigor botânico.
À saída da estação da Trindade, entre os muros sobre o túnel, cresce uma macieira.

Terça-feira, Agosto 25

o junco, todo ele é graça


Giacometti no seu estúdio, fotografado por Ernst Scheidegger.

du côté de chez Pascal

Roseau pensant, na página 162, Beckett referindo-se a Murphy.
É uma das mais belas imagens da filosofia. Não se trata apenas de um prazer estético, é a tensão entre junco e pensamento — aquilo que não tem nome mas queima.

Sábado, Agosto 22

Rir da filosofia é verdadeiramente filosofar


Como quem vai ao cinema, pus-me a ler Murphy na varanda (o céu, o sol, o vento, a rua, um cigarro de vez em quando, chá preto frio — benditas tardes de Agosto). O livro é engraçado que se farta. O que me leva a supor que, para além de musicais dodecafónicos, Beckett teria filmado, se Eisenstein não fosse parvo e respondesse às cartas, comédias formidáveis. Sublinhei oito linhas na página 13, mais algumas na página 59, e logo a seguir Beckett desata a brincar com Pascal, quer dizer, dá corpo à filosofia do geómetra. — Ah!

— Estás doido? Tu não a conheces.
— Não a conheço? Não há um só aspecto do seu corpo natural que eu não conheça, e bem.
— Que queres dizer com isso?
— Já me aconteceu adorá-la à distância.
— A que distância?
— Sim — responde Wylie pensativo —, durante todo o mês de Junho, na praia, com uns binóculos Zeiss. — Caiu num devaneio que Neary teve a grandeza de alma de não interromper. — Que busto! — exclamou, por fim, como que galvanizado por esse ponto das suas reflexões. — Onde tudo é centro e nada é circunferência!

Coração

Os órgãos internos de todos os homens são lisos e carecas. O estômago, os intestinos, os pulmões, são carecas. Só o coração tem cabelos – arruivados, grossos, compridíssimos por vezes. Os cabelos do coração atrapalham o fluxo do sangue, como plantas aquáticas num rio. Os cabelos estão frequentemente infestados de bichos. Você tem de amar muito profundamente para catar esses rápidos e pequenos parasitas do coração cardíaco de sua amada.

Zbigniew Herbert. Traduzido por Marcelo Coelho.

Sexta-feira, Agosto 21

o zen e as pauladas

Foi a minha avó que me ensinou a palavra; ela entrava no nosso quarto e dizia: "isto parece um aido!"
Sempre associei aido a brinquedos, papéis, roupas e móveis fora do sítio habitual.
Ultimamente a palavra insinua-se quando tento imaginar uma casa zen.
O pior é que, ao abrir o dicionário, percebi que a minha avó trouxera a palavra do campo e queria dizer, nem mais nem menos, que o nosso quarto parecia um curral de porcos.
Agora não sei se preciso ignorar a imagem rural para me aproximar do carácter zen, ou se é precisamente ao contrário.

O chapéu de abas largas

Café Klopstock, em Günzburg. Um homem com um belo chapéu de abas largas entra e senta-se. O empregado, de rosto ao rubro, precipita-se do fundo do balcão na direcção do homem.
- Neste café é expressamente proibido os clientes usarem chapéu de abas largas! – grita ele de voz esganiçada e indicador espetado.
- O que eu estou a usar não é um chapéu de abas largas, mas um guaxinim!
- Ah, bem…
O empregado mergulha de novo no interior do balcão.

Quinta-feira, Agosto 20

Estratégia de diversificação concêntrica

Pensando melhor, prefiro a roulotte sem rodas da Tatiana Moukhine em Haut bas fragile.

O próspero negócio das roulottes




Uma igreja protestante

SUPERINTENDENTE FALKE: ...... Esta guerra é um castigo aplicado por Deus aos pecados dos povos e nós, Alemães, somos, junto com os nossos aliados, os encarregados de executar a punição divina. Não restam dúvidas de que, através desta guerra, o reino de Deus irá ser enormemente impulsionado e aprofundado. E aqui é preciso reconhecer de modo claro e determinado: o mandamento "Amai os vossos inimigos!" foi dado por Jesus apenas para o convívio entre os homens, mas não para as relações entre os povos. Na luta das nações entre si, o amor ao inimigo deixa de ter lugar. Neste ponto, nenhum soldado precisa de ter remorsos! Enquanto ruge a batalha, o mandamento do amor de Jesus está inteiramente suspenso! Ele não é válido para a hora de combate. O mandamento do amor aos nossos inimigos deixa de ter qualquer significado para nós no campo de batalha. Matar, neste caso, não é pecado, é um serviço prestado à pátria, é um dever cristão, mais, é um serviço a Deus! É um serviço a Deus e um dever sagrado punir todos os nossos inimigos com uma violência terrível e, se for preciso, destruí-los! E assim vos repito, enquanto nesta guerra mundial trovejarem os canhões, o mandamento de Jesus "Amai os vossos inimigos!" deixa de se aplicar! Fora com todas as dúvidas de consciência! Mas dizei-me: porque é que as balas deixaram tantos milhares de homens aleijados? Porque é que tantos centos de soldados ficaram cegos? Porque Deus queria salvar-lhes as almas por esse meio! Olhai à vossa roda e orai, em vista dos milagres do Senhor: dá-nos, Senhor, a vida eterna!
(Muda a cena.)

Karl Kraus, "Os últimos dias da Humanidade". Tradução de António Sousa Ribeiro.

Quarta-feira, Agosto 19


Poder-se-iam distribuir as criaturas humanas por duas classes: aquelas que percebem de metáforas e 2) aquelas que percebem de fórmulas. Os indivíduos que percebem de ambas as coisas são muito poucos e não chegam para constituir uma classe.

Heinrich von Kleist, pequeno fragmento sobre Jean-Luc Godard publicado no Berliner Abendbläter, a 10 Dezembro de 1810 — in "Sobre o teatro de marionetas e outros escritos", tradução de José Miranda Justo, ANTÍGONA, Junho 2009

Cinco histórias nocturnas

Terça-feira, Agosto 18

doing nothing more than learning where the sun falls

Harun Farocki: Part of the magic of this scene has to do with the lighting. When one returns to a beach house or a country house after a long walk, perhaps to eat a meal or take a nap, the beauty of the day is always still present through the light that pours in through the windows. New Wave captures this quality here, partly because it was shot with natural light, and partly because — in order to make that possible — Godard must have spent many days in the house doing nothing more than learning where the sun falls at different hours of the day. Godard and his team make use of its rays as one would make use of a sundial.

Speaking about Godard, a conversation between Kaja Silverman and Harun Farocki, p.209

LE VOYAGE

A Maxime du Camp

I
Pour l’enfant, amoureux de cartes et d’estampes,
L’univers est égal à son vaste appétit.
Ah ! que le monde est grand à la clarté des lampes !
Aux yeux du souvenir que le monde est petit !

Un matin nous partons, le cerveau plein de flamme,
Le coeur gros de rancune et de désirs amers,
Et nous allons, suivant le rythme de la lame,
Berçant notre infini sur le fini des mers :

Les uns, joyeux de fuir une patrie infâme ;
D’autres, l’horreur de leurs berceaux, et quelques-uns,
Astrologues noyés dans les yeux d’une femme,
La Circé tyrannique aux dangereux parfums.

Pour n’être pas changés en bêtes, ils s’enivrent
D’espace et de lumière et de cieux embrasés ;
La glace qui les mord, les soleils qui les cuivrent,
Effacent lentement la marque des baisers.

Mais les vrais voyageurs sont ceux-là seuls qui partent
Pour partir ; coeurs légers, semblables aux ballons,
De leur fatalité jamais ils ne s’écartent,
Et, sans savoir pourquoi, disent toujours : Allons !

Ceux-là dont les désirs ont la forme des nues,
Et qui rêvent, ainsi qu’un conscrit le canon,
De vastes voluptés, changeantes, inconnues,
Et dont l’esprit humain n’a jamais su le nom !

...

Charles Baudelaire, Les Fleurs du mal (La mort)

Segunda-feira, Agosto 17

Estes navios, belos e majestosos, que oscilam de forma imperceptível em águas tranquilas, estes navios robustos com uma aparência desocupada e nostálgica, não nos segredarão eles, numa língua muda: «Quando é que partiremos, para os dias felizes?»

Charles Baudelaire, "Escritos íntimos", tradução Fernando Guerreiro, Editorial Estampa, 1982

A pedra

Uma manhã, percorrendo como habitualmente o caminho para o trabalho, Ludwig tropeçou numa pedra e caiu. Na manhã seguinte, tropeçou e caiu outra vez. No dia a seguir, a mesma coisa. Tropeçava sempre na mesma pedra. Ao quarto dia, e estando prevenido, decidiu atinadamente corrigir o percurso e passar ao lado. No entanto, a pedra tinha desaparecido do seu lugar. Ludwig franziu as sobrancelhas. Depois, encolheu os ombros, suspirou e prosseguiu caminho.
Mais à frente, a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça.

Domingo, Agosto 16

Foi em Pequim que compreendi o salgueiro, não o chorão, o salgueiro, levemente inclinado, a árvore chinesa por excelência.
O salgueiro tem qualquer coisa de evasivo. A sua folhagem é impalpável, o seu movimento assemelha-se a uma confluência de correntes. Tem mais do que as que se vêem, do que as que deixa ver. Não há árvore menos ostensiva. E embora sempre fremente (não o estremecimento breve e inquieto das bétulas e dos choupos), é como se o ar o ignorasse e o deixasse vogar e nadar despreendido, sempre no seu lugar ao vento, como o peixe na corrente do rio.
É pouco a pouco que o salgueiro nos forma, dando-nos todas as manhãs a sua lição. E uma paz feita de vibração nos toma, de tal modo que finalmente já não podemos abrir a janela sem sentir vontade de chorar. Henri Michaux, "Um bárbaro na Ásia", tradução de Ernesto Sampaio, Fenda, 1997

Farol de Felgueiras (Foz do Douro), cerca das 10h30.

Le zen est le nez

Se a língua fosse um carro em que é preciso rodarmos a chave na ignição para pôr tudo em marcha, seria impossível dizer estilo zen. A boca ficaria suspensa e ouvir-se-ia apenas um som falso, embasbacado. Nada mais, nem a mais pequena centelha. Porque as duas palavras desfazem-se uma à outra; quer dizer, estilo pretende instituir o que quer que seja, e zen, se pretendesse alguma coisa, seria apenas destituir (daí as pauladas constantes). Na introdução a "O zen na arte do tiro ao alvo", Daisetz T. Suzuki, citando Baso (Ma-Tsu, morto em 788) diz: o zen é a "mente quotidiana" e esta "mente quotidiana" não é mais do que "dormir quando se está com sono, comer quando se tem fome". Mas, claro, já é demasiado tarde para impedir o avanço da decoração de interiores e do seu séquito.

Sábado, Agosto 15

Junto à bateria.

UM OFICIAL DE ARTILHARIA: Ora vejam, o nosso bom capelão veio da posição da infantaria pra nos visitar. Que simpático!
O CAPELÃO ANTON ALLMER: Salve-vos Deus, meus valentes! Deus abençoe as vossas almas! Atão e estais a bombardear os inimigos como Deus manda?
O OFICIAL: Tudo sobre rodas, reverendíssimo padre.
O CAPELÃO: Deus seja louvado se não gostava de experimentar também uma peça uma vez.
O OFICIAL: À vontade, reverendíssimo padre, espero que acerte nalguns russos.
(O capelão dispara uma peça.)
O CAPELÃO: Pumba!
GRITOS: Bravo!
O OFICIAL (para os seus homens): Este é um bom padre, um padre a valer. E um filho da nossa bela Estíria. Tenho de escrever ao Grazer Volksblatt a contar isto! (Para o capelão) O regimento da nossa terra alegra-se e está orgulhoso do seu capelão e valoroso camarada de armas, que vai à frente a dar o exemplo.
GRITOS: Viva!

Karl Kraus, "Os últimos dias da Humanidade". Tradução de António Sousa Ribeiro.

assuntos domésticos


A lista dos produtos que se deve ter sempre em casa, estabelecida por Marguerite Duras e escrita pela sua própria mão com lápis estudante Conté negro 2B (com borracha) sobre papel sépia (13 X 9 cm).

Sexta-feira, Agosto 14

La carrera por la que más se inclinaba [Beckett] era el cine. "Me gustaría ir a Moscú y trabajar un año con Eisenstein", le escribe a McGreevy. "Lo que aprendería trabajando a las órdenes de alguien como Pudovkin", agrega una semana después, "es a manejar una cámara, los principales trucos del montaje, etc., de todo lo cual sé tan poco como de análisis cuantitativo." En 1936 llega a mandarle una carta a Serguei Eisenstein:

"Le escribo (...) para solicitarle se considere mi ingreso a la Escuela Estatal de Cinematografía de Moscú. (...) No tengo experiencia de trabajo en estudio y, naturalmente, es en los aspectos de guión y montaje en los que estoy más interesado. (...) Le ruego me considere un cineasta serio, digno de ingresar a su escuela. Podría quedarme por lo menos un año."


A pesar de no recibir respuesta, Beckett le informa a McGreevy que "probablemente vaya (a Moscú) pronto."

Texto de J. M. Coetzee, no New York Review of Books, sobre a nova edição dedicada à correspondência de Samuel Beckett, "The Letters of Samuel Beckett, Volume 1: 1929–1940".

Versão em castelhano na revista Ñ.
Marguerite Duras filma um melro durante alguns segundos. (Nathalie Granger)

Warm & fine


Francis Bacon diz que foi Michaux quem melhor fez o tachismo ou marcas aleatórias. Eu, que não percebo nada de pintura, acho que ele desenhou o mais extraordinário bestiário do mundo.

Um dia fui de propósito a Lisboa para ver um pequeno quadro de Michaux (sem título, 1959, tinta da China sobre papel, 55 x 75 cm), mas ele estava guardado no armazém. Continuo a esperar coisas impossíveis, um passe qualquer, desse encontro.

Quinta-feira, Agosto 13

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu V

Um olhar concreto e desprovido de intenções. Uma mesa, uma chávena, uma árvore, um corpo.
Talvez isto baste para resgatar o trabalho do mestre japonês de toda a transcendência que lhe atribuem. Os objectos mais banais devolvem-nos uma dimensão finita, a matéria perfeitamente cingida por linhas. Esta é a nossa vida misteriosa.

Jeff Wall, Rainfilled Suitcase, 2001, Transparency in Lightbox.

Quarta-feira, Agosto 12

Canção de bater no chão

Nasce o sol trabalhamos.
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço, para beber,
Lavramos um campo, p’ra comer:
O Imperador e o seu poder
— Queremos lá saber!


Anónimo (séc. III a.C.),
in Uma antologia de poesia chinesa, por Gil de Carvalho, Assirio & Alvim, 1989

Manuel António Pina

Terça-feira, Agosto 11

He's all around in the dark — he's everywhere


As Vinhas da Ira, de John Ford. Às 22h37, na RTP Memória.
- ¿A que te dedicas ahora? - le preguntan a Luder.
- Estoy inventando una nueva lengua.
- ¿Puedes darnos algunos ejemplos?
- Si: dolor, soñar, libre, amistad...
- ¡Pero esas palabras ya existen!
- Claro, pero ustedes ignoran su significado.

Julio Ramón Ribeyro, "Dichos de Luder".
Je me suis mis à aimer le cinéma quand je me suis aperçu qu'il pouvait exprimer des sentiments ambigus. Eric Rohmer
Vou tomar uma atitude profilática. Estou mandando tomar no cu quem reclamar que este CD tem apenas uma faixa. Bom, ele é uma conversão de um antigo LP de 1986 da Melodija soviética que nunca tornou-se CD e que é tão bom, tão bom, mas tão bom que é melhor calar e ouvir.
(...)
Eu não sei quem foi este Lubimov, eu só sei que o cara amava Bach, tocava demais e seu LP/CD/mp3 é de se ouvir de joelhos. Ajoelhei ou tremei, infiéis!
(...)
Ah, som de boa qualidade!


J. S. Bach - Capricci, Toccata, Little Preludes.
Alexei Lubimov - “Tschudi” harpsichord, London, 1766.
Conversão feita a partir de um LP.

Segunda-feira, Agosto 10

Dorothy Norman convidou-me para jantar em Nova York. Estava lá uma senhora de Filadélfia que era uma autoridade em arte budista. Quando ela descobriu que eu me interessava por cogumelos, disse: "Tem alguma explicação para o simbolismo envolvido na morte de Buda ao comer um cogumelo? "Eu expliquei que nunca me interessei pelo simbolismo; que preferia considerar as coisas apenas por elas próprias, não como representações de outras coisas. Mas depois, alguns dias mais tarde, enquanto deambulava pelos bosques, pus-me a pensar nisso. Recordei o conceito indiano da relação da vida com as estações do ano. Primavera é Criação. Verão é Conservação. Outono é Destruição. Inverno é Quietude. Os cogumelos crescem mais vigorosamente no Outono, o período de destruição, e a função de muitos deles é executar a decomposição final da matéria apodrecida. De facto, como li em algum sítio, o mundo seria um amontoado invulnerável de lixo se não fossem os cogumelos e as suas capacidades para se livrar dele. Então eu escrevi para a senhora de Filadélfia. Eu disse: "A função dos cogumelos é livrar o mundo do lixo. Buda morreu de morte natural."

John Cage, indeterminacy #90

Pobre Paolita

Mulher já feita, entre 23 e 58 anos, corpo estreito e subtilmente tratado com cosméticos, estatura média, lábios moldados por um rouge elegante, olhos irrefutavelmente castanhos, covinhas nas faces, nariz empinado mas sem malícia, uma gota de Nuit d’Amour atrás das orelhas, voz fresca com um atraente sotaque letão, temperamento forte, fumando um contínuo, solitário e longo corona. O astuto leitor já adivinhou que falamos de Paola Vigorelli. Paolita para os mais íntimos. A sua malfadada história é bem conhecida de todos, incluindo os mais pequenos pormenores. Enfim, pobre Paolita. E vá lá! Pobre Asdrúbal.

Domingo, Agosto 9

Em Darmstadt, quando não estava envolvido na música, andava pelos bosques à procura de cogumelos. Um dia, enquanto apanhava alguns Hypholomas que cresciam à volta do cepo de uma árvore, não muito longe da sala de concertos, uma secretária da Ferienkurse für Neue Musik passou por ali e disse: "Afinal, a natureza é melhor que a arte." John Cage, indeterminacy #123

Estrada Nacional 108.

Sábado, Agosto 8

Um gato

Um gato entrou na cozinha, fez miau e voltou a sair. Porquê? Não sei. O caso é realmente de intrigar. Sou capaz de jurar que há aqui coisa. Na verdade, tenho as mais sérias dúvidas de que o gato tenha sequer entrado na cozinha. Mas supondo que entrou na cozinha, fê-lo obviamente por pura manha. Quer dizer, apenas para dar nas vistas e não por um verdadeiro amor à literatura. Por detrás daqueles respeitáveis bigodes, existe má-fé. Isto para não falar da longa cauda listada que, quase de certeza, não passa de uma mistificação. Enfim, creio que não devemos confiar demasiado em gatos que são personagens de histórias.

HOD PUTT

Aqui jazo eu junto à campa
do velho Bill Piersol,
que enriqueceu no comércio com os índios e que
depois tirou proveito da Lei das Falências
para emergir mais rico do que nunca.
Eu, cansado de trabalhos e miséria,
ao ver o velho Bill, e outros, cada vez mais ricos,
ataquei certa noite um viajante, junto a Proctor's Grove,
para o roubar, e matei-o sem querer,
pelo que me condenaram a morrer na forca.
Foi esta a minha maneira de declarar falência.
Nós os dois, que aproveitámos, cada um a seu modo, a lei das falências,
dormimos agora em paz, lado a lado.

Edgar Lee Masters, "Spoon River — uma Antologia", tradução de José Miguel Silva,
Relógio d'Água, Setembro de 2003

Sexta-feira, Agosto 7

Passeava pelo jardim do templo Kenchôhi, em Kamakura. Um monge disse-me: "Em que se parecem cristãos e budistas?" Fiquei perplexo e procurei comparar Buda com Cristo. O monge sorriu e sugeriu o tema da compaixão. De novo fiquei titubeante e procurei relacionar a caridade cristã e a benevolência budista (...). "Ainda mais simples" - disse o monge. "Nem vós praticais o amor nem nós a compaixão. É nisso que mais nos assemelhamos. Que o teu Cristo e o meu Buda nos amparem!"

Juan Masiá e Kotaró Suzuki, "O Dharma e o Espírito". Tradução de Anselmo Borges.
— Sometimes my favorite films are the ones where people sit there
and don’t say anything.


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Quinta-feira, Agosto 6

Frases com pontos de exclamação

Yorick na verdade nunca tivera sorte em toda a sua vida!
(Laurence Sterne, "A Vida e Opiniões de Tristram Shandy")

Se ao menos houvesse alguma coisa em vez do nariz, mas nada, nadinha!...
(Nikolai Gógol, "O nariz")

Como era bom ter à sua mercê esse queixo, esse maxilar robusto com uma barba que já lhe picava as mãos!
(D.H. Lawrence, "O Oficial Prussiano")

Que momento difícil! Que chato! Que perigo de viver!
(Macedonio Fernández, "Tudo e Nada")

Segue-me, leitor, e segue-me só a mim, e eu te mostrarei um tal amor!
(Mikhail Bulgakov, "Margarita e o Mestre")

As nossas gargantas exultam! Nem sei como não começamos a cantar!
(Franz Kafka, "Excursão às montanhas")

Oh, Academia! Ah, os macacos!
(Henri Michaux, "Um Bárbaro na Ásia")

Houve quem pensasse que eu era um génio!
(Russell Edson, "O Espelho Atormentado")

Tudo esvaído! tudo disperso! tudo acabado!
(Machado de Assis, "Galeria Póstuma")

Onde estaria o galo? Valha-nos Deus, lá está ele!
(Luigi Pirandello, "Contos de Pirandello")

Que excitação!
(James Joyce, "Gente de Dublin")

Eram as máscaras a avançar para mim!
(Walter Benjamim, "Histórias e Contos")

Em vez disso, entregara-o com timidez infantil à teia de aranha daquele Beineberg!
(Robert Musil, "O Jovem Törless")

Um bom cidadão come o que tem a comer e isso basta!
(Robert Walser, "O Passeio e outras histórias")

Vi, claramente visto


Os Limites do Controle foi o primeiro filme que vi com lentes de contacto. Foi no domingo à tarde, entretanto voltei aos óculos. Só agora, ao colocar de novo as lentes, percebi que o filme é sobre padrões. E eu adoro padrões.

O breve encontro de Alice com um velho e belicoso Vespão de peruca

O episódio do vespão de peruca, que deveria ter sido incluído, parece, quase no final do capítulo VIII, logo após Alice dizer adeus ao Cavaleiro Branco e atingir a oitava casa do tabuleiro, tornando-se finalmente raínha, tem evidentemente suscitado, durante estes últimos anos, abundante debate universitário e animado o vasto e estranho mundo carroliano (nunca percebi como é que certas pessoas podem gostar de Lewis Carroll e de ALice!). Tratar-se-á de uma parte de um capítulo ou, como se lhe referem quer Tenniel quer o sobrinho biógrafo, de um capítulo autónomo? Estará ou não o episódio (tudo indica, parece, que seja um episódio) ao nível, o que quer que isso seja, do resto do livro? Porque razão o expurgou Carroll da obra? O que sabia ele sobre Vespas e vespões e sobre a decrépita mania das perucas? Que alusões envolvem o melancólico vespão e a sua ridícula indumentária, ou a tolerante paciência de Alice para com ele?

um parágrafo (cheio de pontos de interrogação) do prefácio de Manuel António Pina para "O vespão de Peruca", uma edição & etc, Outubro de 1992, para assim sossegar a Catarina e espicaçar o Rui.

Aborrecimento

durará este cerco até que
o sitiante, como o sitiado, sinta
que o aborrecimento
é a maior das qualidades do Homem


Mahmûd Darwîsh, "Estado de Sítio" (2002), tradução de André Simões (versão preliminar)

Quarta-feira, Agosto 5

Asinhas esverdeadas

Quando Gaetano Chiabrando viu aquilo ficou de boca aberta durante doze segundos, o que em literatura, como se sabe, é uma eternidade. Ficou de boca aberta, dizíamos, durante doze segundos – talvez até um pouco mais – oferecendo à mosca Amabel a oportunidade de se escapulir por ali dentro, batendo a toda a velocidade as suas esfuziantes asinhas esverdeadas.
Porque diabo uma mosca como Amabel, que não era nada inclinada à brincadeira, quis entrar pela boca aberta de um tipo como Gaetano? Ora, ora, a resposta é óbvia: para depositar os seus ovinhos minúsculos no coração dele.
Alguns dirão que é um gesto pouco nobre. Mas quem somos nós para julgar as acções da mosca Amabel? Por acaso temos alguma coisa com isso?

— The best films are like dreams you’re never sure you really had.

Do jeito em que as coisas estão, peregrinação é um nome muito apropriado; exemplar.

falling from England


Apples growing very fast.

Terça-feira, Agosto 4


Laura, de Otto Preminger, às 22H33, na RTP Memória. The way people smoked cigarettes.
Let’s start at the beginning. The title, The Limits of Control, is taken from a William S. Burroughs essay.
It’s about language being used as a mechanism of control, but I like the double meaning. Does that mean the limits of our own self-control, or the limits to which people control us? Burroughs was always looking for coincidental connectedness. Our film is kinda built on that philosophy.

Q&A with Jim Jarmusch on the Exotic Stylings of his Latest Film "The Limits of Control", New York Magazine

Segunda-feira, Agosto 3

Des tasses de café aux galaxies: Peut être qu' un objet est-ce qui permet de relier, de passer d' un sujet à l autre, donc de vivre en société, d’être ensemble...

É uma esfera infinita que em toda a parte tem o seu centro e em parte alguma a circunferência.
Blaise Pascal, "Do espírito geométrico e da arte de persuadir", tradução de Henrique Barrilaro Ruas, colecção Elementos do Sudeste #3 da Porto Editora, pág. 88

Domingo, Agosto 2


A graciosidade surge de modo mais puro no boneco articulado ou num deus, ou seja, aí onde nenhum artifício formal obscurece o movimento do corpo, onde nenhuma finalidade objectiva lhe confere valor de troca, onde nenhuma intencionalidade previamente estabelecida lhe limita o alcance.

José Miranda Justo, na introdução a "Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos" de Heinrich von Kleist

Sábado, Agosto 1


O candeeiro vermelho transforma a cozinha numa sala de revelação.

2. Fábula sem moral

Pudesse eu ter-te, dizia o homem a um cavalo que estava à sua frente devidamente selado e arreado, mas que não queria deixar-se montar; pudesse eu ter-te tal como em tempos saíste das florestas, em bruto, simples filho da natureza! Conduzir-te-ia, ligeiro como uma ave, por montes e vales, como me aprouvesse; bem nos sentiríamos, tu e eu. Mas ensinaram-te artifícios dos quais eu, desprovido como estou perante ti, nada sei; e ser-me-ia preciso entrar contigo no picadeiro (livre-me Deus de tal coisa) se quiséssemos entender-nos,

Heinrich von Kleist, "Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos"
tradução de José Miranda Justo, ANTÍGONA — Editores refractários, Junho de 2009
«Uma máquina de guerra» talvez seja a designação mais apropriada; eu tenho uma imagem não muito diferente: Kleist numa cavalgada desenfreada, inclinado contra o vento, como num western (John Ford poderia ter filmado Michael Kohlhaas), em direcção ao incêndio de Alexandria.