Sexta-feira, Julho 31


Planos para o fim de semana: apanhar amoras com o gracioso Heinrich von Kleist.
Depois de almoçar, sentei-me um bocado no jardim da Rotunda a fumar um cigarro. Queria juntar três frases sobre Ozu — apenas três frases curtas, interligadas como o arco e a lira, tamanha era a minha ambição —, mas a única coisa que consegui escrever foi uma pequena lista de compras: leite, pão, uvas, champô... No fundo, talvez isto seja um bom sinal.

Quarta-feira, Julho 29

— The dance is an art in space and time. The object of the dancer is to obliterate that. (...) For me, it seems enough that dancing is a spiritual exercise in physical form, and that what is seen, is what it is. And I do not believe it is possible to be "too simple". What the dancer does is the most realistic of all possible things, and to pretend that a man standing on a hill could be doing everything except just standing is simple divorce. Divorce from life, from the sun coming up and going down, from clouds in front of the sun, from the rain that comes from the clouds and sends you into the drugstore for a cup of coffee, from each thing that succeeds each thing. Dancing is a visible action of life.


— Jean-Claude, tu dormes déjà?

Terça-feira, Julho 28

Je vous salue Guillaume, comme fait votre arbre préféré

À hora do almoço fui à Biblioteca buscar o livro da Agnès Varda para digitalizar de novo a fotografia de Verónique — a contabilista que eu acho que é Wendy Darling. A imagem foi apagada, como se o olhar da rapariga pudesse magoar. Os seios são os únicos obuses benignos. No caminho, percebi que esta pequena censura e o que pretendem fazer nos jardins do Palácio têm o mesmo carácter mesquinho.

— Mas os seios e as árvores são de uma natureza mais livre e mais invencível.
Ontem de manhã rasguei a minha blusa preta preferida, no puxador da porta do quarto de banho. Um rasgão em forma de "L"; atrás, do lado esquerdo. A costura parece a cicatriz de uma ferida profunda (as garras dos felinos deixam estas marcas).

Segunda-feira, Julho 27

Domingo, Julho 26

contar com o trabalho da sorte ou do acaso

Francis Bacon... Eu não planejo meus quadros, você sabe. Penso na disposição das formas e depois observo as formas se formarem por si mesmas.

David Sylvester No tríptico da praia, os cavalos e os cavaleiros fazem parte de alguma ideia concebida posteriormente?

Francis Bacon Fazem. Não resta dúvida de que é uma ideia surgida depois. Senti que estava faltando aquela sugestão de distância, de movimento, etc.

David Sylvester E as imagens de cabeças no plano de fundo?

Francis Bacon São imagens que há muito tempo já estavam em meu pensamento.

David Sylvester Então, você já as tinha previsto?

Francis Bacon Já. Mas ainda não havia previsto como a figura central apareceria.

David Sylvester Você não sabia que colocaria um nu entre as imagens das cabeças?

Francis Bacon Sabia, mas não como ele apareceria.

David Sylvester Você não sabia que seria uma figura vista de costas?

Francis Bacon Não.

David Sylvester E aquela espécie de figura semi-humana, que está em baixo, no primeiro plano, também não havia sido prevista?*

Francis Bacon Não, isso também não estava previsto.

David Sylvester E os guarda-chuvas?

Francis Bacon Também não haviam sido previstos. Essa foi uma pintura em que a previsão foi mínima.

David Sylvester Só que você previu esse componente extraordinário que são as cabeças.

Francis Bacon No início, queria alguma coisa na praia, junto do mar, apesar de o painel central não estar propriamente junto do mar, mas eu usei, no plano de fundo dele, a mesma cor que está no céu dos painéis laterais. Acho que, quando as imagens surgem diante de mim apesar de não ficarem como foram previstas, elas estimulam a maneira que me permitirá contar com o trabalho da sorte ou do acaso. Penso sempre em mim, não como pintor, mas como um instrumento do acaso ou da sorte.

__________
*Essa figura foi apagada do painel em 1977.

Sábado, Julho 25

no fundo, a praia


Francis Bacon (1909-1992). Tríptico 1974-77, assinado, com título e data no verso de cada tela. Óleo, pastel e letraset em tela, em três partes, cada uma com 147.5 X 198 cms. Executado em 1974, o painel central foi retocado em 1977. Vendido em Fevereiro de 2008 pela Christie's, em Londres, por 25.3 milhões de libras.
Quem vai suficientemente longe em si tem grande dificuldade em evitar o demónio; ver sem demónio o angélico ou o divino, é ter falta de experiência.
... ou é a graça das graças.


Henri Michaux, uma via para a insubordinação, tradução de Célia Henriques (c/ VST), & etc, abril de 2008

Sexta-feira, Julho 24

Ballard

Em 1970 foi-lhe proposto pelo New Arts Laboratory de Londres a possibilidade de fazer algo nas instalações deste centro de artes. (...) J. G. Ballard irá testar ali a sua hipótese sobre a relação inconsciente entre sexo e acidente de automóvel através da exibição de carros destruídos. O espaço da galeria ficou ao seu dispor durante um mês e Ballard deambulou por aqueles dias por cemitérios de automóveis destruídos, comprando então três espécimes para serem entregues na galeria. Os automóveis foram instalados no espaço da galeria sem qualquer outro material associado, como se se tratasse de peças escultóricas. Um circuito interno de televisão foi também instalado de forma a que os convidados se pudessem ver enquanto circulavam em torno dos automóveis. Uma rapariga parcialmente desnudada (em topless) entrevistaria os convidados. A noite inaugural com jornalistas e escritores foi copiosamente regada com álcool. O caos depressa se instalou. O vinho era atirado sobre os automóveis, as janelas eram quebradas, a rapariga era molestada sexualmente no assento traseiro de um Pontiac. Ballard terá sido objecto de uma tentativa de agressão por parte de um jornalista do New Society. Ao longo do mês em que a exposição esteve aberta, os automóveis foram atacados repetidas vezes, manchados com tinta branca por um grupo Hare Krishna, virados ao contrário, e os seus retrovisores e matrículas roubados. (...) Ballard diz-nos na sua autobiografia que as suas "suspeitas" foram aí confirmadas:
"Todas as minhas suspeitas sobre as ligações inconscientes que o meu romance [Crash] iria explorar, tinham sudo confirmadas. A minha exposição tinha sido de facto um teste psicológico disfarçado de mostra artística, o que é provavelmente verdadeiro para o tubarão de Hirst e a cama de Emin. Suspeito que não é mais possível inquietar ou enfurecer os espectadores unicamente através dos meios estéticos, como o fizeram os impressionistas e os cubistas. Um desafio psicológico que ameace as nossas mais caras ilusões é necessário, seja um lençol manchado ou uma vaca cortada ao meio forçada a suportar uma segunda morte de forma a lembrar-nos acerca das ilusões às quais nos agarramos sobre a primeira."

Luís Quintais, Acidente e Simulação em JG Ballard: notas sobre e a partir de Crash, na revista Nada n.º 13.

A melhor Feira do Livro deste Verão

A Feira do Livro da Nazaré decorre de 24 de Julho a 16 de Agosto, no Centro Cultural da Nazaré. "Caravana" está presente no pavilhão com mais estilo do certame.

Para chegar mais rápido, clique aqui.

Quinta-feira, Julho 23

Construir uma casa no centro da floresta de Kobernausser.

No centro geométrico exacto, um cone. (Na clareira, as trevas.)

Para a sustenção estável de um corpo é necessário que ele tenha pelo menos três pontos de apoio que não fiquem em linha recta, assim Roithamer.

Pedras, tijolos, vidro, ferro, mais nada.

Quarta-feira, Julho 22

Tudo aquilo que julgávamos esquecido

Toda a história do modernismo fez do ornamento um crime implícito, quer dizer, excluiu o ornamento como se fosse uma peruca, um embelezamento. (...) O ornamento, sabemo-lo bem, é curvo, é espiralado, opõe-se à linha recta, é uma questão de mulheres! Pertence à erotização feminina. Pertence também aos primitivos, como é claramente dito em todos os textos de [Adolf] Loos, e pertence também ao Oriente. Quando conhecemos os nossos próprios recalcamentos, apercebemo-nos de que todo o modernismo (incluindo a arquitectura) rejeitou o ornamento. O mérito da pós-modernidade reside, precisamente, no apagar dessa fronteira. Vimos os escultores transitarem rapidamente para motivos espiralados e ornamentais. Vimos todo um conjunto de pintores americanos, como Lydia Dona, reintroduzirem um novo espaço ornamental, de bandas, de cartografias, em suma, de motivos fractais. Vimos também os arquitectos introduzir e reintroduzir as formas em elipse, as formas retorcidas e truncadas, como no Guggenheim. (...) Então (...) apercebemo-nos que (...) estamos, efectivamente, em passagens. Passagens entre arquitectura, artes plásticas e design, por exemplo, que nos mostram o regresso de formas pós-orgânicas, de um certo barroco tecnológico, tudo aquilo que julgávamos esquecido.

Christine Buci-Glucksmann em entrevista a Jorge Leandro Rosa, na revista Nada n.º 13.

Terça-feira, Julho 21

O único modo de aguentar desastre após desastre é afeiçoarmo-nos à própria ideia de desastre: se nos sairmos bem, não há mais surpresas, somos superiores ao que quer que aconteça, somos vítimas invencíveis. Emil Cioran (traduzido do inglês)

Segunda-feira, Julho 20

O público aplaude

O mágico tira um coelho da cartola.
O público aplaude.
O coelho, por sua vez, tira um mágico da cartola.
O público aplaude com maior entusiasmo.
De seguida, este mágico tira um segundo coelho da cartola.
Ouvem-se “bravos!” vindos de todos os lados.
O segundo coelho tira um terceiro mágico da cartola.
Furor e delírio entre os espectadores.
O terceiro mágico, piscando astutamente o olho, tira um pêssego da cartola.
Há espasmos, convulsões e desmaios entre o público.
O pêssego prepara-se para tirar da cartola uma laranja, mas é devorado, num segundo, pelo tigre.

Domingo, Julho 19


Uma imagem (com palavras) de Socialismo, para o Ángel.
FOR EDUCACIONAL IN-HOUSE USE ONLY: Martha Rosler Reads Vogue (1983)

Si on ouvrait les gens, on trouverait des paysages. Moi, si on m’ouvrait, on trouverait des plages.

Uma imagem d' As praias de Agnès Varda (em exclusivo no Cinema City Classic Alvalade, Av. de Roma, 100, Lisboa, vê lá o desamparo), para a Lídia.

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu IV

As fitinhas azuis, esvoaçantes, agarradas aos postes. Em Leça, junto à Piscina das Marés e à Casa da Chá da Boa Nova.

Sábado, Julho 18

O vento e as estrelas


Imagem da última cena de "Um dia perfeito"

Mas o que me agrada mais nos filmes de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas, se é que posso dar livre curso à minha intuição apanhada apenas numa conversa, três filmes e alguns vídeos, mesmo assim, o que me agrada mais é uma certa espontaneidade. Talvez isso aconteça por eles serem um bocado estranhos ao cinema, ao seu pesado modus operandi, dão-se ao luxo de arriscar, improvisar — verbos muito arredados do vocabulário cinematográfico. Em Um dia perfeito, a cena do trânsito, filmada no meio de carros verdadeiros e perigosos, numa cidade onde as regras se tornaram lassas; ou à noite, no bar de um amigo, Malek procurando Zeina por entre tantos corpos desconhecidos. Através destas imagens, captadas de um modo um pouco ingénuo um pouco arrojado, passa uma corrente de ar, um suave vendaval que, creio, é o princípio mais importante do cinema, do meu pelo menos.
O curioso é que esse movimento quase desaparece em Eu quero ver — aposto que foi Catherine Deneuve e a sua preocupação com o cinto de segurança que assustaram o vento.

Em italiano, "olha" diz-se "guarda"

Foi uma sorte ter conhecido Khalil Joreige e Joana Hadjithomas antes de ver Je veux voir. Sabendo pouco, quase em branco, é assim que gosto de me aproximar. Comecei pela apresentação que eles fizeram do seu trabalho em Vila do Conde. Falaram em inglês lento, mas com uma clareza que, creio, só se consegue numa língua estrangeira. Ao princípio pareceu-me que o objectivo deles era encontrar a distância justa em relação à História recente do Líbano: as guerras que se sucedem e sobrepõem, as marcas profundas que deixam, uma reconstrução obscena que pretende apagar o passado. Depois fui percebendo que não é bem isso. A palavra correcta, e que lhes é tão querida, é latência. O dicionário define: estado do que se encontra encoberto, incógnito, não manifesto. Khalil e Joana acrescentam: ainda. LASTING IMAGES, um dos filmes expostos (até 6 de Setembro, no Teatro Municipal de Vila do Conde), mostra bem o que eles fazem.

«Algumas imagens perduram e recusam-se a desaparecer, regressam para nos assombrar, como neste filme em Super 8. Foi filmado nos anos 80 por um tio de Khalil Joreige que foi raptado durante a guerra civil, tal como 17 000 outros libaneses e dos quais nada se sabe desde então. O filme permaneceu latente durante 15 anos. Quando o revelámos, ao fim de tantos anos, estava nebulado, todo branco. Progressivamente, depois de muito trabalho de correcção de côr, começaram a aparecer imagens através da branquidão do filme. Podemos distinguir alguns lugares, silhuetas etéreas, um pedaço de mar, um barco à distância...»

Captar imagens que deixem emergir algo que não foi dito nem escrito. Apagar a amnésia que a História, escrita pelos vencedores, impõe. Registar o que está fora de campo. É aí que eles se movimentam, seja com a máquina fotográfica ou com a câmara de filmar (o meio é indiferente, é o método, a pequena deslocação, que importa). Reinvindicam um território livre para essa outra História quotidiana, não oficial, perigosa; esperam um assombramento indeterminado, uma revelação qualquer, silhuetas etéreas, um pedaço de mar, um barco à distância...

Sexta-feira, Julho 17

Número da sorte

A Nada, melhor revista portuguesa desde o fim forçado da aguasfurtadas, chegou ao número 13. E com ele chega também finalmente o sítio na net, com a versão em linha da revista. De visita obrigatória.

Quinta-feira, Julho 16

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu III

Comprei um pequeno candeeiro de vidro vermelho para a cozinha.

3 sonhos de Agosto

25/8/60
Numa casa em obras, mostro a alguém que me acompanha o que será o meu futuro quarto: o tecto é água, que fica suspensa sobre as nossas cabeças, como se fosse um tecto verdadeiro. Essa água era extremamente límpida, deixando passar a luz do dia com nitidez. Para demonstrar que se tratava realmente de água e profunda, mergulho no tecto de uma maneira ascendente. Tendo chegado ao que seria o cimo da água, tenho de regressar rapidamente porque o ar me falta. O ar que eu preciso de respirar está em baixo, no fundo, no meu quarto, digo.


10/8/61
Vão-me mostrando várias folhas brancas de papel que representam as várias etapas da minha vida. Parecem perfeitamente brancas mas cada uma tem alguns pontinhos negros, quase imperceptíveis. Colocadas todas essas folhas umas sobre as outras, o total dos pontinhos perfaz uma folha completamente negra.


20/8/71
Estou a voar e de longíssimo vejo a terra, mas do «outro lado da realidade», comento no próprio sonho, como se fosse invertida, e no entanto real e distinta. Entrando depois num período de nevoeiro, acordo e estou junto duma figueira com enormes figos pretos. Pergunto à caseira da quinta: porque não me disse que havia aqui estes figos?


ANACRUSA — 68 sonhos, de Ana Hatherly, 2ª edição, Cosmorama, 2009

Quarta-feira, Julho 15

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu II.c


Imagens de Tokyio-Ga, de Wim Wenders. (Sistema de coordenadas)

amores correspondidos: John Cage gosta de Satie

Manuel António Pina

Conhecem, com certeza, a anedota. Um conferencista (supõe-se que erudito) comentava determinado passo da obra de Lautréamont. E explicava: «Com este verso quis Lautréamont dizer... ». Do público, levanta-se «papá» Breton, furioso: «Não senhor, não quis. Se quisesse dizer, tinha dito.»

João Bénard da Costa.

Terça-feira, Julho 14

Soneto contrariado (541)

Por ser o cedo tarde e o tarde cedo;
por ser tarde a manhã e a noite dia;
por ser gostosa a dor, triste a alegria;
por serem ódio amor, coragem medo;

Se o plágio é mais invento que arremedo;
se exprime mais virtude o que vicia;
se nada vale tudo que valia;
se todos já conhecem o segredo;

Por ser duplipensar barroco a língua;
por menos ter aquele que mais quer;
se a falta excede e tanto abunda a míngua;

Por nunca estar o nexo onde estiver,
desdigo o que falei e a vida xingo-a
de morte, se a cegueira é luz qualquer.


Glauco Mattoso, "Poesia indigesta".

Nenúfares (para o Changuito)

Um dos livros de Suzuki termina com um texto poético de um monge japonês que descreve como ele alcançou a iluminação. O último poema diz: "Agora que estou iluminado, continuo tão infeliz como antes." John Cage, indeterminacy #89

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu II.b



Imagens de Tokyio-Ga, de Wim Wenders. (Instrumentos de trabalho)

Sarah Nash

Estando às portas da morte, Sarah Nash tocou à campainha. Ninguém atendeu. Tocou de novo. Nada. De novo ainda. Ninguém. Partiu um vidro e entrou pela janela.

Segunda-feira, Julho 13

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu II.a




Imagens de Tokyio-Ga, de Wim Wenders. (Fotografias de Ozu a trabalhar)

Leitura de Férias (PUB)

Este Verão, escolha um livro altamente recomendado pelos supermercados Fnac, Bertrand, Books & Living e Modelo-Continente.

Também disponível na Livraria Poesia Incompleta e Angelus Novus (estes com Certificado e Garantia de Qualidade, e excelente Serviço Após-Venda).

Domingo, Julho 12

A vida com árvores # 10

Janela aberta, vento nas árvores altas ao fundo, escrevo, re-escrevo, avanço, tenho de avançar. Do meu lugar não vejo o jardim, apenas o muro. Do mesmo branco que a página em branco no computador. Quando a laranjeira crescer virá para o meio da página. As palavras poderão pousar como pássaros. Esconder-se de outra maneira. Procurarei no verde sem ter de erguer os olhos.

posted by Luís Mourão @ 19:24

Sábado, Julho 11

TOM WAITS: You remember when they drained McArthur Park, the lake?
BECK: I do, yeah...
TOM WAITS: They found unbelievable things: Cars, human bones, weaponry.
BECK: They should have done an exhibit.
TOM WAITS: I don't know why they didn't. I thought that's why they drained it.
BECK: I'd always heard that when they drained the Echo Park Lake they found an amateur submarine.
TOM WAITS: Oh, my God.
BECK: I don't know if that was lore.
TOM WAITS: You mean a homemade submarine?
BECK: Yeah, I think it was older too, from the early days of "home submarine building".

***

TOM WAITS: Where does this "Best" thing come from? Is that human? Is that American? Is it all over the world? Everyone wants the best eye surgeon, the best babysitter, the best vehicle, the best prosthetic arm, and the best hat. There's also the worst of all those things available and they're doing rather well. (Laughs.) Denny's is doing great. It's always crowded. You have to wait for a table.
BECK: Also this obsession with ranking. All the "Best of" lists. I get asked to write "Best of" lists occasionally. An emphasis on ranking things. Having a hierarchy and having it be written in granite, written in stone.
TOM WAITS: It's economic. So you can charge more.
BECK: Yeah, it must be. But maybe it's just a need to have some order that's been established, and that everybody has been notified. I don't know.
TOM WAITS: There's too much of everything.
BECK: Maybe it's a millennial thing. It started around the millennium. "What are the best movies? What are the best songs?"
TOM WAITS: Well, then there's the pressure of feeling that you need to have what has been already rated the best. A lot of people are afraid to explore their own peculiar taste for fear - that it would be uncool. Just like when you're a teenager you don't want to be caught with the wrong sports shirt, the wrong socks.

***

BECK: I was reading about the Greek playwright, Euripides, and a few others. He had written 105 plays and two of the plays survived from antiquity. I was thinking, "Can you imagine writing 105 plays, and you had to write 105 for one or two of them to survive?" I was thinking maybe in a way that the people who were influenced by the lost plays are the ones who are going to help them survive in some way. It's not really about what you're doing originally, it's about the transmitting of the thing to the next person. It mutates along the way and turns into other things.
TOM WAITS: You leave a little map for somebody. Maybe the others were lesser works. Or maybe the two that survived were lesser works.
BECK: Maybe they were the throwaways? You never know. Maybe there's things in there that were lost that would've changed everything?
TOM WAITS: That's very possible.
BECK: The throwaway ones that he wrote to make the deadline are the ones we have.
TOM WAITS: It's like they found one of those van Gogh's at a garage sale. This woman bought it and she was using it to block out the sun in her kitchen. She was using it as a window shade, so it was getting all faded from the sun. And she cut it because it didn't fit the window. When they finally discovered she had a van Gogh as a window shade, they brought in all these experts from the museum and they were all filling in her living room and they said, "How can you cut off the top off this painting?" And she said, "It was just a little piece of the sky." Sometimes it's the value you attach to things. It's subjective. And we record on stuff that's going to disintegrate. Just like films are made on celluloid that's going to vanish, it's going to be gone. It's like drawing on wax paper or something.
BECK: Yeah, I think I read that only twenty percent of the films made before 1930 have survived.

Versão completa aqui.

Sexta-feira, Julho 10

Quando Bertrand Russell entra no mundo festivo do ócio e da negação do trabalho, sente que as suas opiniões passam por "uma revolução". E continua assim: "Penso que se trabalhou demasiado no mundo, que a crença de que o trabalho é uma virtude causou enormes danos e que o que se deve pregar nos países industrializados modernos é completamente diferente do que sempre se pregou."
(...)
Russell lamenta que aqueles que se reformam se dediquem a fazer outros trabalhos e se mantenham activos do ponto de vista produtivo, no sentido tradicional do termo. Do mesmo modo, investe contra os que poupam dinheiro ("o verdadeiro malvado... é o homem que poupa"). Porquê? Porque o homem que guarda obsessivamente o dinheiro não está a fazer outra coisa senão a emprestar as suas poupanças "ao governo". (...) Não poupar dinheiro, transgredir, folgar, ser, enfim, preguiçoso, um pouco libertino, moralmente um vagabundo - exercer the right to be lazy -, é, em boa medida, fazer oposição.
(...)
Russell prefere uma boa pândega a um mau caminho-de-ferro, um prazer bem aproveitado a um trabalho mal empregue. Uma boa pândega pode beneficar muita gente: "O talhante, o padeiro, o traficante de álcool." E se o dinheiro é gasto "em colocar carris em lugares onde os eléctricos são desnecessários, terá sido desviada uma considerável quantidade por caminhos que não darão prazer a ninguém".

Iván de la Nuez, "Fantasia Vermelha". Tradução de Ana Bela Almeida.


Bertrand Russell.

Quarta-feira, Julho 8

Em busca da palavra certa? Fácil, meu chapa. Siga o fio furtivo da pulga que costura o pêlo negro do cachorro.

Dalton Trevisan, "234".

Terça-feira, Julho 7



Virgílio Piñera, 1970.

Segunda-feira, Julho 6

[Durante a sua visita a Cuba, em 1960,] Sartre observa tudo. Por exemplo, as barbas cubanas, que lhe parecem tão diferentes das de Saint-Germain-de-Prés, as quais se "cuidam" e "cultivam", "flores de queixo, todas iguais", enquanto que "nos cubanos, cada uma cresce como pode, segundo a vontade do sistema piloso". Sartre atenta nos barbados e nos imberbes, nos de rosto enrugado e nos que o têm liso.

Iván de la Nuez, "Fantasia Vermelha". Tradução de Ana Bela Almeida.

Domingo, Julho 5

Não há, em Portugal, uma tradição subversiva. São poucos os autores portugueses que poderiam entrar no catálogo da Antígona, e esses estão editados noutras editoras.

Luís Oliveira, editor da Antígona.

Absolutamente a não perder

Sexta-feira, Julho 3

Uma paisagem da região de Budesheim

“Uma paisagem da região de Budesheim”, foi o que o cliente pediu a Holbein. O contrato foi celebrado em Março de 1523. O pintor deu início ao trabalho no mês seguinte. Instalou-se em Budesheim e pintou durante largos dias. Árvores vagamente azuis, a erva verde da planície, um velho portão de madeira retorcida, muros cobertos de musgo, duas ou três casas cinzentas e uma longa névoa alaranjada a envolver tudo.
O trabalho ficou concluído em Maio de 1523. Trata-se de uma conhecida tela de 86 x 107 cm., intitulada justamente “Uma paisagem da região de Budesheim” e onde figura apenas um auto-retrato do pintor. A boca aberta num amplo sorriso, ruidoso e grotesco, milhares de dentes a luzir, o nariz roxo, os braços abertos e as pontas dos dedos segurando duas orelhas.
O cliente recebeu o quadro em casa, perto de Basileia, em Junho de 1523. Pagou o valor acordado e acrescentou-lhe ainda uma gratificação muito substancial.

Mais uns dias de férias. Praia. Talvez vá a Vila do Conde. Falhar Cézanne em Lisboa. Falhar outras coisas. Dedicar-me à verdadeira vida suburbana. Ler o segundo volume d' O Romance do Genji sem interrupções. Procurar Kitsune em Cândido dos Reis. Volto em breve.


Nota posterior: O belíssimo filme de João Penalva não está em Cândido dos Reis mas, em contrapartida, vai ser projectado no próximo dia 15, às 22h00, no Passos Manuel.

Quinta-feira, Julho 2

quelques fleurs de jardin revenues à l'état sauvage

No sábado vi um documentário sobre a vida de Jean Seberg na televisão. Não sabia pormenores das suas atribulações, nem isso me interessa muito. Não levei a sério o modo policial e triste como o caso foi mostrado, Garrel já tinha escrito tudo. Mas gostei de ver Seberg envelhecer, é como se ela ganhasse outra vida para além do cinema, mais frágil e mais destemida. Há no rosto de quem se aproxima da morte qualquer coisa de muito humano e perturbador. Parece que adivinham um segredo ou, pior ainda, descobrem que não há segredo nenhum.

Quarta-feira, Julho 1


Oportunidade de conhecer o trabalho de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas antes do efeito Catherine Deneuve. Em Vila do Conde. Com um empurrão do senhor Rancière:
... For me, the fundamental question is to explore the possibility of maintaining spaces of play. To discover how to produce forms for the presentation of objects, forms for the organization of spaces, that thwart expectations. The main enemy of artistic creativity as well as of political creativity is consensus — that is, inscription within given roles, possibilities, and competences. Godard said ironically that the epic was for Israelis and the documentary for Palestinians. Which is to say that the distribution of genres — for example, the division between the freedom of fiction and the reality of the news — is always already a distribution of possibilities and capacities: To say that, in the dominant regime of representation, documentary is for the Palestinians is to say that they can only offer the bodies of their victims to the gaze of news cameras or to the compassionate gaze at their suffering. That is, the world is divided between those who can and those who cannot afford the luxury of playing with words and images. Subversion begins when this division is contested, as when a Palestinian filmmaker like Elia Suleiman makes a comedy about the daily repression and humiliation that Israeli checkpoints represent and transforms a young Palestinian resistance fighter into a manga character. Think also of the work of Lebanese artists like Walid Raad, Khalil Joreige, Joana Hadjithomas, Tony Chakar, Lamia Joreige, and Jalal Toufic, who, through their films, installations, and performances, blur the interplay between fact and fiction to establish a new relationship to the civil war and to the occupation, by way of the subjective gaze or the fictive inquiry, making "fictional archives" of the war, fictionalizing the détournement of a surveillance camera to film a sunset, or playing with the sounds of mortar shells and fireworks, and so on. This very constructed, at times playful, relationship to their history addresses a spectator whose interpretive and emotional capacity is not only acknowledged but called upon. In other words, the work is constructed in such a way that it is up to the spectator to interpret it and to react to it affectively.