Terça-feira, Junho 30

a mesa

Realizou-se uma conferência internacional de filósofos no Hawai sobre o tema da Realidade.
Durante três dias Daisetz Teitaro Suzuki não disse nada.
Finalmente, o moderador virou-se para ele e perguntou: "Dr. Suzuki, diria que esta mesa, à volta da qual estamos sentados, é real?"
Suzuki levantou a cabeça e disse sim.
O moderador perguntou em que sentido Suzuki pensava que a mesa era real.
Suzuki disse: "Em todos os sentidos."

John Cage, indeterminacy #116

Segunda-feira, Junho 29

a arte de falhar o alvo


Há quatro anos, ou talvez cinco, conversava com Hidekazu Yoshida. Estávamos no comboio de Donaueschingen para Colónia. Eu falei do livro de Herrigel chamado "Zen e a Arte do Tiro Com Arco"; o clímax melodramático deste livro tem a ver com um arqueiro acertar no olho do touro, na mais completa escuridão. Yoshida disse-me que o autor se esquecera de assinalar uma coisa, é que vive actualmente no Japão um estimadíssimo arqueiro que ainda não foi capaz de acertar no olho do touro, mesmo em pleno dia. John Cage, indeterminacy #26

Domingo, Junho 28


PHE: Os moradores do bairro foram realojados um bairro novo, o que foi documentado por si. Como é que foi vivida esta mudança?

Pedro Costa: Esperavam muitíssimo, estavam ansiosos por mudar. Agora passaram quatro anos e estão muito tristes. Não gostam de viver ali porque estão separados. Já não é possível a vida da rua, não é possível fazer nada do que faziam, como por exemplo os churrascos, a carne assada... a polícia não deixa, há leis europeias que impedem esse tipo de coisas. Perderam todo o dinheiro que tinham a comprar móveis e televisores, para reproduzir os modelos das casas das pessoas endinheiradas que limpam.
É tudo um pouco violento, mas não falo de uma violência física, é uma violência de outro género. Antes não era assim, eram pobres, miseráveis, sem condições mínimas para viver... mas tinham o bairro. O bairro é uma atitude. As pessoas do bairro não gostam de mudar nem de sair, cria-se uma espécie de gueto que se vai ampliando.


Excerto de uma entrevista com Pedro Costa | In PhotoEspaña 2009 | © SNPC (trad.)
— quando parece que não há nada, é quando na realidade há alguma coisa.

A cada vez que vejo JUVENTUDE EM MARCHA, assusto-me. Ontem à noite, talvez por estar estendida no sofá, desinteressei-me completamente da história: do bairro velho esverdeado, do bairro novo branco cheio de aranhas, dos encontros entre pais e filhos, da luta e resistência dos finados (é daí que vem Ventura, como Leão em CASA DE LAVA), da apatia e desistência dos mais novos.
Vi tudo a uma distância maior e lassa — o próprio ecrã da televisão afasta — , e por isso reparei melhor na densa afinidade entre Ventura e o olhar de Pedro Costa. A colocação da câmara, o confronto dos ângulos, a luz ou as sombras que preenchem os planos, têm exactamente a forma de Ventura. Como se Pedro Costa e a sua máquina tivessem feito um pacto de sangue com esse homem meio vivo meio morto (o poder dos mortos é desmedido e perigoso), algo dessa ordem — Apolo entrelaçado em Dioniso, no profundo coração das trevas. Sempre acreditei que o amor também é uma coisa diabólica, mais obscura que radiosa. É noite ainda.

Sábado, Junho 27

uma festa nocturna:


JUVENTUDE EM MARCHA, de Pedro Costa, às 22h45 na rtp2.
E a seguir, incluído n'O estado do mundo, TARRAFAL.

para Ventura

No azul adorável, floresce o telhado de metal do campanário. Em redor pairam gritos de andorinhas, à volta estende-se o mais comovente azul. O sol, por cima, vai muito alto e dá cor à chapa metálica. Mas suave, lá no alto, ao vento, range o catavento. Quando alguém desce, abaixo do campanário, os degraus, então o silêncio é vida; pois quando o corpo a tal ponto de destaca, depressa se forma uma figura do homem. As janelas de onde tocam os sinos parecem portas da beleza. Sim, as portas, parecendo ainda natureza, são à imagem das árvores da floresta. A pureza, que é simplicidade, é também bela. No interior, do diverso nasce um espírito grave. Tão simples são as imagens, tão santas, que por vezes se tem medo, na verdade, de as descrever. Mas os celestes, que são sempre inteiramente ricos e generosos, fazem dessa modéstia a sua virtude e a sua alegria. O homem, nisso, pode imitá-los. Mas, quando a sua vida não é senão cansaço, pode um homem olhar para cima e dizer: assim quero eu ser? Sim. Enquanto no seu coração permanecer a pura amizade, o homem pode medir-se, feliz, pela divindade. Será Deus desconhecido, ou será, como o céu, evidente? É nisto que prefiro acreditar. Tal é a medida do homem. Rico em méritos, é no entanto poeticamente que o homem habita nesta terra. A sombra da noite estrelada não é mais pura, se ouso dizê-lo, que o homem como imagem de Deus. Haverá na terra uma medida? Não há nenhuma. Nunca o mundo do Criador suspendeu o curso do trovão. Uma flor é ela própria bela porque floresce sob o sol. Frequentemente, o olhar encontra nesta vida seres que poderiamos dizer ainda mais belos que as flores. Oh, como o sei!
...

In lieblicher Bläue..., de Friedrich Hölderlin, traduzido por Catarina Freire Diogo. No livro compósito "Pelo Infinito", ao lado de algumas fotografias de Daniel Costa. Livros Vendaval, Fevereiro de 2001

Sexta-feira, Junho 26

Louvor e Simplificação de Yasujiro Ozu I

Utilizar as linhas do metro e do comboio como quem anda de bicicleta, nada, ou treina a caligrafia. Coisas que o corpo só consegue fazer bem se esquecer o pensamento. Livre e preciso.

Esopo

Um lobo vestiu a pele de um cordeiro. Contudo, não deixava de ser um simples lobo vestido com uma pele de cordeiro. O lobo vestiu então uma segunda pele de cordeiro. Mesmo assim não passava de um lobo vestido com duas peles de cordeiro. O lobo decidiu vestir uma terceira pele de cordeiro. Um observador atento percebia que era um lobo enrolado em três peles de cordeiro. O lobo vestiu uma quarta pele de cordeiro. Agora, sim, estava irreconhecível. Era um cordeiro enorme, redondo, farfalhudo. Os outros lobos nunca tinham visto um cordeiro tão grande e tão bem nutrido. Levaram uma noite inteira para o devorar.

Isto não é publicidade

Eis uma livraria a sério. E com um serviço de apoio ao cliente digno desse nome.

Poesia Incompleta.

Quem não vive em Lisboa, basta enviar um mail para poesia.incompleta@gmail.com
É o que costumo fazer.

Quinta-feira, Junho 25

Ich bin überzeugt,

daß Hölderlin die letzten dreißig Jahre seines Lebens gar nicht so unglücklich war, wie es die Literaturprofessoren ausmalen. In einem bescheidenen Winkel dahinträumen zu können, ohne beständig Ansprüche erfüllen zu müssen, ist bestimmt kein Martyrium. Die Leure machen nur eines daraus! — sagte Robert Walser zu seinem Vormund Carl Seelig

Entram dois admiradores do jornal Reichpost

O PRIMEIRO: As guerras são uma benção, não apenas pelos ideais que defendem, mas também pela purificação que trazem ao povo que as trava em nome dos mais preciosos bens. Os tempos de paz são tempos perigosos. Ocasionam com demasiada facilidade relaxamento e alienação.
O SEGUNDO: A verdade é que um homem também precisa de uma dose de combate e violência.
(...)
O PRIMEIRO: Há que varrer com punho de ferro!
O SEGUNDO: Em Praga, Brünn e Budweis... em toda a parte as decisões do Imperador são aclamadas.
(...)
O PRIMEIRO: Já é mais que tempo da gente termos um florescimento espiritual. E pimba!
O SEGUNDO: A gente precisamos é dum banho de aço! Um banho de aço!
O PRIMEIRO: Já foste mobilizado?
O SEGUNDO: Era o que faltava, fiquei livre! E tu?
O PRIMEIRO: Deram-me como inapto.
O SEGUNDO: Um suspiro de alívio percorre as nossas gentes! Esta guerra... (Saem de cena.)

Karl Kraus, "Os últimos dias da Humanidade". Tradução de António Sousa Ribeiro.

Quarta-feira, Junho 24

Numa conferência de 1907, "Literatura e fantasia", (...) o fundador da psicanálise [Freud] interpreta o escritor como sendo alguém que faz o mesmo que uma criança quando brinca: cria um mundo fantástico que, no entanto, leva muito a sério.

Iván de la Nuez, "Fantasia Vermelha". Tradução de Ana Bela Almeida.

Terça-feira, Junho 23

et cet enfoiré de Cioran

Podia ter escolhido outro tema (o Significado de Graça?), mas este vai bem comigo e com a estação, e gosto do modo como o jovem Cioran relaciona a melancolia com os espaços abertos, a tristeza com os espaços fechados. On the Heights of Despair (Nos píncaros do desespero) foi publicado em 1934 na Roménia, Emil Cioran tinha apenas 23 anos. A versão inglesa está disponível no Scribd ou em Grey Lodge Occult Review #16.

Também é uma forma de festejar a tradução (Manuel de Freitas) e a edição (maravilhosa Letra Livre) de Silogismos da Amargura (1952) — um livro substancial num tempo de tão escassos pensamentos, de papel tão mal gasto, de tantas fraudes editoriais.

Quem quiser que aproveite para confrontar as idades e as línguas do senhor Cioran, o que se ganhou e o que se perdeu. É o que tenciono fazer depois de um melancólico passeio ao campo.




On sadness

While melancholy is a state of vague dreaminess, never deep or intense, sadness is closed, serious, and painfully interiorized. One can be sad anywhere, but sadness grows in intensity in a closed space while melancholy flourishes in open spaces. Sadness almost always stems from a precise motive and is therefore concentrated, whereas there are no exterior causes for melancholy. I know why I am sad, but I do not know why I am melancholy. Melancholy states last a long time without reaching any great intensity. Or, rather, their long duration erases from consiousness any original motive, whereas in sadness, which is not long lasting, the motive remains present, generating a self-contained inner tension which will never explode but slowly die in itself. Neither melancholy nor sadness explodes; neither shatters lives. One speaks of a sad sigh, never a scream of sadness. Sadness is not an overwhelming state. To understand it's nature, it is important to consider it's frequent occurrence after moments of fulfillment. Why does sadness follow intercourse? Why are we sad after a great drinking bout or moments of dionysiac excess? Great joys, why do they bring us sadness? Because there remains from these excesses only a feeling of irrevocable loss and desertion which reaches a high degree of negative intensity. At such moments, instead of a gain, one keenly feels loss. Sadness accompanies all those events in which life expends itself. It's intensity is equal to it's loss. Thus death causes the greatest sadness. That one can never speak of a funeral as "melancholy" shows an important difference between sadness and melancholy. Also, the esthetic aspect of melancholy is entirely absent from sadness. It is worthwhile noticing how the domain of esthetics narrows gradually as it approaches serious reality and crucial life events. Death, suffering, and sadness negate esthetics. Death and beauty are totally opposed notions. I know nothing more disgusting than death, nothing more serious and more sinister! How could some poets find beautiful this ultimate negation which cannot even wear the mask of the grotesque? It is ironic that one fears it the more one admires it. I must confess that I admire death's negativity. It is the only thing I can admire and yet not love. Its grandeur and infinity impress me, but my despair is so vast that I don't even harbor the hope of death. How could I love death? One can only write about it in contradictory ways. Whoever says that he knows something definite about death shows that he has not even a premonition, although he bears it within himself. Every man bears with him not only his life but also his death. Life is just a long, drawn-out agony. It seems to me that sadness partakes of this agony. The writhings of sadness, don't they express agony? These contortions, negations of beauty, betray so much solitude that one must ask oneself if the physiognomy of sadness is not a mode of objectifying death in life. Sadness is a way into a mystery, a mystery so rich that sadness never ceases to remain enigmatic. If there were a scale for mysteries, sadness would belong to a group of infinite mysteries, mysteries without limit, inexhaustible, an observation which, to my great regret, is always verifiable: only those are happy who never think or, rather, who only think about life's bare necessities, and to think about such things means not to think at all. True thinking resembles a demon who muddies the spring of life or a sickness which corrupts its roots. To think all the time, to raise questions, to doubt your own destiny, to feel the weariness of living, to be worn out to the point of exhaustion by thoughts and life, to leave behind you, as symbols of your life's drama, a trail of smoke and blood — all this means you are so unhappy that reflection and thinking appear as a curse causing a violent revulsion in you. There are many things on could regret in this world in which one shouldn't regret any thing. But I ask myself; is the world worthy of my regrets?


On the heights of despair
E. M. Cioran, translated by Ilinca Zarifopol-Johnston, (c) 1992 by the University of Chicago
"Hernán, en el inmenso escritorio de la librería, tiene amontonadas fotos, lapiceras, cuadernos, libros, revistas y cigarrillos negros que fuma sin parar. También resalta sobre el ángulo izquierdo del mueble, un pequeño frasco de vaselina, que utiliza para untarte el trasero antes de decirte los precios. Porque Hernán sabe lo que vende."
Aqui.

Segunda-feira, Junho 22

Os níveos cumes das montanhas

Siggi Eggertson passou horas e horas de vida, durante muitos anos, ao parapeito da janela do seu quarto, a observar de longe os níveos cumes das montanhas.
Um dia, bateu as asas e voou.
Era a época da caça aos pombos.
Mas Siggi sobreviveu.

Cinco histórias de uma vez

Duas histórias e meia.

Mais meia e duas histórias.

[Número 3 da revista "Entre o Vivo, o Não-Vivo e o Morto", edição CEPiA (Centro de Estudos Performativos i Artísticos), de Évora. Direcção de Paulo Serra.]

Domingo, Junho 21

Mama, was ist der Gegenschuss?


"Le rêve de l'individu c'est d'être deux. Le rêve de l'État c'est d'être seul." L'état veut être unique, s’autofonder, ne pas avoir de contrechamp.

Sábado, Junho 20

not a melancholic guy

Melancholy

Every state of the soul adopts its own external form or transforms the soul according to its nature. In all great and profound states there is a close correspondence between the subjective and the objective level. Overflowing enthusiasm is inconceivable in a flat and closed space. Men's eyes see outwardly that which troubles them internally. Ecstasy is never a purely internal consummation; it externalizes a luminous inner intoxication. It would suffice simply to look at the face of an ecstatic to grasp fully all the elements of his inner tension. Why does melancholy require exterior infinity? Because it is boundless and void expansion. One can cross boundaries either positively or negatively. Exuberance, enthusiasm, fury, are positive slates of overflowing intensity which break restrictive barriers and go beyond normal states. They spring from an excess of life, vitality, and organic expansion. In such positive states, life goes beyond its normal boundaries not to negate itself but to liberate its smoldering energies, which would otherwise unleash a violent conflagration. Crossing boundaries has a totally different meaning for negative spiritual states since it does not happen from an overflow of plenitude but from quite the contrary. A void originates in the depths of being, spreading progressively like a cancer. The sensation of expansion toward nothingness present in melancholy has its roots in a weariness characteristic of all negative states. This weariness separates man from the world. Life's intense rhythm, its organic inner pulse, weakens. Weariness is the first organic determinant of knowledge. Because it creates the necessary conditions for man's differentiation from the world, weariness leads one to the perspective which places the world in front of man. Weariness also takes one below life's normal level, allowing only a vague premonition of vital signs. Melancholy therefore springs from a region where life is uncertain and problematic. Its origin explains its fertility for knowledge and its sterility for life. Whereas in ordinary states of mind one is in close contact with life's individual aspects, in melancholy, being separated from them produces a vague feeling of the world. Solitary experience and a strange vision melt the substantial forms of the world. They take on an immaterial and transparent garb. Progressive detachment from all that is particular and concrete raises one to a vision which gains in size what it loses in substance. No melancholy state can exist without this ascent, this flight toward the heights, this elevation above the world. Neither pride nor scorn, despair nor any impulse toward infinite negativity, but long meditation and vague dreaminess born of weariness lead to this kind of elevation. Man grows wings in melancholy not in order to enjoy the world but in order to be alone. What is the meaning of loneliness in melancholy? Isn't it related to the feeling of interior and exterior infinity? The melancholy look is expressionless, without perspective. The interior infinitude and vagueness of melancholy, not to be confused with the fecund infinity of love, demands a space whose borders are ungraspable. Melancholy is without clear or precise intentions, whereas ordinary experience requires concrete objects and forms. Melancholy detachment removes man from his natural surroundings. His outlook on infinity shows him to be lonely and forsaken. The sharper our consciousness of the world's infinity, the more acute our awareness of our own finitude. In some states this awareness is painfully depressing, but in melancholy it is less tormenting and sometimes even rather voluptuous. The disparity between the world's infinity and man's finitude is a serious cause for despair; but when one looks at this disparity in states of melancholy, it ceases to be painful and the world appears endowed with a strange, sickly beauty. Real solitude implies a painful intermission in man's life, a lonely struggle with the angel of death. To live in solitude means to relinquish all expectations about life. The only surprise in solitude is death. The great solitaries retreated from the world not to prepare themselves for life but, rather, to await with resignation its end. No messages about life ever issue forth from deserts and caves. Haven't we proscribed all religions that began in the desert? All the illuminations and dreams of the great solitaries reveal an apocalyptic vision of downfall and the end rather than a crown of lights and triumphs. The solitude of the melancholic man is less profound. It even has sometimes an esthetic character. Don't we talk of sweet melancholy or of voluptuous melancholy? Melancholy is an esthetic mood because of its very passivity. The esthetic attitude toward life is characterized by contemplative passivity, randomly selecting everything that suits its subjectivity. The world is a stage, and man, the spectator, passively watches it. The conception of life as spectacle eliminates its tragic element as well as those antinomies which drag you like a whirlwind into the painful drama of the world. The esthetic experience, where each moment is a matter of impressions, can hardly surmise the great tensions inherent in the experience of the tragic, where each moment is a matter of destiny. Dreaminess, central to all esthetic states, is absent from tragedy. Passivity, dreaminess, and voluptuous enchantment form the esthetic elements of melancholy. Yet, due to its multifarious forms, it is not purely esthetic. Black melancholy is also fairly frequent. But first, what is sweet melancholy? On summer afternoons haven't you experienced that sensation of strange pleasure when you abandon yourself to the senses without any special thought and when intimations of serene eternity bring an unusual peace to your soul? It is as if all worldly worries and all spiritual doubts grow dumb in front of a display of overwhelming beauty, whose seductions render all questions superfluous. Beyond turmoil and effervescence, a quiet existence enjoys the surrounding splendor with discreet voluptuousness. Calm, the absence of intensity of any kind, is essential to melancholy. Regret, also inherent in melancholy, expands its lack of intensity. But though regret may be persistent, it is never so intense as to cause deep suffering. Regret expresses affectively a profound phenomenon: the advance through life into death. It shows us how much has died in us. I regret something which died in me and from me. I bring back to life only the ghost of past experiences. Regret reveals the demonic significance of time: while bringing about growth, it implicitly triggers death. Regret makes man melancholy without paralyzing or cutting short his aspirations, because in regret the awareness of the irredeemable focuses on the past and the future is still left somewhat open. Melancholy is not a state of concentrated, closed seriousness brought forth by an organic affliction, because it lacks the terrible sense of irrevocability so characteristic of states of genuine sadness. Even black melancholy is only a temporary mood, not a constitutional feature. Its dreamy character never completely absent, black melancholy can never be a true illness. Sweet and voluptuous melancholy, as well as black melancholy, exhibits similar traits: interior void, exterior infinity, vagueness of sensations, dreaminess, sublimation. Their differentiation is apparent only from the point of view of affective tonalities. It may be that the multipolarity of melancholy derives more from the structure of subjectivity than from its own nature. Not particularly intense, it fluctuates more than other states. Endowed with more poetic than active virtues, it possesses a certain subdued gracefulness totally absent from tragic and intense sadness. The same gracefulness marks melancholy landscapes. The wide perspective of dutch or renaissance landscape, with its eternity of lights and shadows, its undulating vales symbolizing infinity, its transfiguring rays of light which spiritualize the material world and the hopes and regrets of men who smile wisely — the whole perspective breathes an easy melancholy grace. In such a landscape, man seems to say regretfully and resignedly: "what can we do? It's all we have!" At the end of all melancholy there is a chance of consolation or resignation. Its esthetic aspect holds possibilities for future harmony which are absent from profound organic sadness. The latter ends in the irrevocable, the former in graceful dream.


On the heights of despair
E. M. Cioran, translated by Ilinca Zarifopol-Johnston, (c) 1992 by the University of Chicago

Sexta-feira, Junho 19

... Assim, tudo era Yasujiro Ozu.

No estúdio, por exemplo, ele não cuidava apenas dos aspectos gerais dos cenários, mas também de cada detalhe e pormenor. Colocava cada almofada e cada objecto em seu próprio lugar. Até arrumava as roupas dos actores antes de cada filmagem. Nada ficava ao acaso. E não havia nada de errado com o facto de alguém ser tão seguro do que quer, conclui Ryu.
Ryu disse que aprendeu com Ozu a esquecer-se de si mesmo, a tornar-se uma página em branco, por assim dizer.(...)

Chishu Ryu, em Tokyo-ga, de Wim Wenders

Uma bela boina e um casaco de veludo verde

Klaus coleccionava sombras. De mesas, cadeiras, folhas, árvores, muros, garrafas, roupas, candeeiros, fósforos, nuvens, pássaros, pessoas. Era um desses coleccionadores que cuidam da sua colecção como se cultiva uma horta: com a pontinha dos dedos e entregando-se à tarefa de corpo e alma. Guardava as sombras numa caixinha de papel, sob um paninho de flanela e entre macias camadas de algodão, acompanhando tudo com gestos muito doces e delicados.
Klaus alimentou a colecção durante anos. Um dia, porém, percebeu que a sua obra não estaria completa, segundo as regras, e mesmo para lá das regras, enquanto não existisse um nome para o hábito de coleccionar sombras. Chamou-lhe então Periglicofilia. E intitulou-se a si mesmo de periglicófilo.
Depois, comprou uma bela boina e um casaco de veludo verde, e, rindo-se selvaticamente como na ópera, foi passear.

[Esta história é dedicada à menina Carolina, minha amiga e amiga de palavras esquisitas.]

Quarta-feira, Junho 17

O Curtas Vila do Conde muda-se este ano para o Teatro Municipal de Vila do Conde. O programa da 17ª edição será apresentado amanhã, ao meio-dia, no Centro da Memória.

Entretanto, até ao próximo domingo ainda é possível ver aquele filme estranho de que fala Sebald em Austerlitz (Theresienstadt, vídeo, projecção, som, 90', loop, 2007). São 90 minutos dolorosos, convém ir sozinho.

Terça-feira, Junho 16

Cavaleiros, pássaros e livros


Fui comprar tabaco. "Vou dar-lhe uma moeda muito engraçada" — disse-me a menina da tabacaria. Tem o D. Quixote gravada, vale dois euros, talvez sirva de amuleto; meti-a no bolso e agradeci à Dulcineia em espanhol. A compra mais bonita da Feira do Livro foi este selo do pássaro açoreano. A minha relação com os livros já conheceu melhores dias. Os irmãos Tanner não chegaram a tempo e Tanizaki traduzido por Telma Costa, dispenso — o sabor das urtigas merecia mão mais delicada.
Krugger começa agora a referir-se à variedade de situações que se podem gerar entre mães e filhos. Lembra que não há mais de 15 dias, no mesmo sofá que eu agora ocupo, esteve sentado um rapaz mais ou menos da minha idade.
Esse rapaz (continua a contar-me) também nunca tinha trabalhado, mas, ao contrário do que se passa consigo, não tinha o menor desejo de começar. Pedi-lhe que me apresentasse uma razão válida que o pudesse justificar e respondeu que podia apresentar-me não uma mas 100 mil, ainda que a principal de todas elas fosse a sua condição de homem tartaruga que o obrigava a ficar todo o dia sem sair de casa, da mesma maneira que as tartarugas de verdade permanecem sempre nas suas. Disse-me tudo isto com seriedade, soube-o desde o primeiro momento, porque há já muito tempo que aprendi a reconhecer os espertalhões que querem gozar comigo. (...) Perguntei-lhe, seguindo a corrente, por que razão achava que era uma tartaruga, e disse-me que desde garoto se sentia fascinado por esses animais e que quando ia à escola não conseguia resistir ao impulso de esconder a cabeça entre os ombros e depois pô-la de fora muito lentamente, alargando o pescoço milímetro a milímetro e fitando com olhar hipnótico o colega de turma que estivesse mais próximo. Que pode fazer-se nesses casos? Nada. Inclinarmo-nos respeitosamente perante os mistérios insondáveis da alma humana. Acompanhei aquele pobre rapaz até à porta dando-lhe pancadinhas nas costas. Umas costas que tanto pela curvatura como pelo curioso estampado da camisa que tinha vestida (também tenho de lhe dizer isto) parecia uma carapaça de cágado. Depois, da janela vi-o a atravessar a rua acompanhado pela mãe, que o segurava ternamente pelo braço. Aquela mulher ficou à porta do banco à espera dele durante todo o tempo que demorou a entrevista. Naturalmente que ela é a única heroína da história que estou a contar. Está a perceber o que lhe quero dizer?

Javier Tomeo, "Amado Monstro". Tradução de Margarida Santiago.

Segunda-feira, Junho 15

Au bord de la mer bleu irradie d'amour

Domingo, Junho 14

Oh, Edmund

Mas se me esforçar e fumar um cigarro, também consigo desenvolver pensamentos um bocado mais estruturados e resistentes que uma gabardine. Sentada tão próxima de Patricia Franchini desprotegida sem contracampo, por duas vezes compreendi que já nessa altura, desde o início, Godard vem fazendo as histórias do cinema à sua maneira, sem pagar direitos aos estúdios. Assim como Véronica Dreyer representa a Bruno Forestier, ao telefone, de óculos escuros, o célebre diálogo de Viena e Johnny Guitar, também Seberg nos enfrenta como Monika, ou chora como Edmund.

Je sais à quoi tu penses

Godard é um tipo muito ambíguo. Podemos tratá-lo com imprudência ou a máxima seriedade — ele aguenta tudo. Por exemplo, ao ver Jean Seberg sozinha em A Bout de Souffle (A AUSÊNCIA, Daniel Blaufuks, vídeo, projecção, som, 20.26', loop, 2009), apercebi-me de várias coisas. Há um plano muito bonito em que ela dança na rua com a sua gabardine esvoaçante e como tinha visto Le Petit Soldat há uns dias, onde Anna Karina (falhada a passagem pelo primeiro filme, torna-se Véronica Godard Dreyer no segundo) nos é apresentada também com uma gabardine, considerei esta coincidência um caminho possível. Talvez leviano, porque as gabardines não são conceitos e desconfio que sobre o seu carácter húmido e grosseiro não se pode construir nenhum discurso argumentativo, nem ontologias nem poéticas nem mise-en-scènes, nada que valha a pena.
No entanto, às vezes acho que é disso que Godard se vai lembrar quando for mesmo muito velho: os vestidos de Anna Karina, uma blusa vermelha.

Restam apenas algumas horas

Sábado, Junho 13

Jakob Bloch

Ao longo de quarenta e sete anos escreveu quase duzentos cadernos, nos quais dissertou sobre temas tão diversos como Linguagem, Filosofia, Memória, Sistema, Tempo, Sonho, Consciência, Eros, Matemática, Ciência, Poesia, Política, etc.
Morreu aos vinte e três anos em resultado de um acidente de viação.
Mesmo quando há névoa e corre um vento fresco, mesmo assim, as crianças insistem, empurram os pais para a areia; elas ainda sabem o que é a praia.
...

O som do mar também lava os olhos.
...

O meu querido Walser em francês e soberbo: En plein été, j'allais à la mer. A mon retour, on me disait que j'avais une mine superbe. Mais en fait, mon apparence était toujours superbe.

Sexta-feira, Junho 12

Voltamos aos gelados e à praia



Também é irónico que um dos «melhores piores» quadros de Rembrandt viesse a ser o mais famoso e aquele por que é mais largamente elogiado.
O quadro em questão é um retrato de grupo, exterior e diurno, que mostra dezoito membros armados da companhia da milícia cívica do capitão Frans Banning Cocq a avançarem para uma brilhante mancha amarela de sol.
Chama-se A Ronda da Noite.
(...) Dos dezoito cavalheiros que pagaram cem florins cada um pelo privilégio de serem incluídos no quadro A Companhia do Capitão Frans Banning Cocq, podemos aventar que pelo menos dezasseis tiveram motivos de sobra para ficar descontentes.
Encomendaram um retrato de grupo oficial do tipo mais comum em toda a cidade, um retrato em que as figuras aparecessem tão formais como se jogassem às cartas e o rosto de cada modelo fosse grande, brilhante e imediatamente se distinguisse e fosse reconhecido.
O que receberam foi um quadro de embaraçosa teatralidade, em que aparecem vestidos como actores e tão ocupados como trabalhadores. Os rostos são pequenos, estão de lado, tapados ou em sombras. Mesmo os dois oficiais centrais que avançam a grandes passadas para primeiro plano, o capitão Frans Banning Cocq e o seu tenente William van Ruytemburch, estão demasiado subordinados aos desejos do artista, segundo um crítico da época, que previu, no entanto, que o quadro sobreviveria aos seus rivais.
A Ronda da Noite sobrevive.
É a obra com que geralmente se demonstra mais o génio de Rembrandt como artista, ainda que, para os cânones barrocos, seja absolutamente horrível em quase todos os aspectos pertinentes, inclusive no da concepção do artista, em dramática ruptura com a tradição. As cores são berrantes, as poses operáticas. O claro-escuro é difuso, os acentos são dispersos. Caravaggio teria dado voltas na sepultura se tivesse podido ver aquilo.

Joseph Heller, "Imaginem que". Tradução de Cristina Rodriguez.

Quinta-feira, Junho 11



O jacarandá das Águas Férreas. Hoje, por volta das onze e meia, antes do tempo abrir. Para a Ana.

Quarta-feira, Junho 10

O guarda-chuva perdido de Erik Satie (dedicado à senhora lá de trás)

Desconfio que os filósofos, pelo menos os antigos, eram bons a fazer baínhas. A substituição de um botão exige a perícia de um poeta alexandrino (de preferência numa lingua estrangeira). Compor um guarda-chuva caíu em desuso, já ninguém sabe o que isso é.

Terça-feira, Junho 9

Strangers talk only about the weather #94

O tempo põe-se de acordo comigo. Chove como se fosse Outono.

A mesa

Uma mesa sonhou que era um gato e começou a miar. Miou amargamente durante muito tempo e sem parar. Tapámos os ouvidos com as mãos, mas não resultou.
- Talvez a mesa tenha fome – gritou a minha mulher.
Servimos-lhe leite num pratinho. Abriu a boca estupenda e bebeu – não, não é esse o termo – engoliu tudo de uma vez. Depois, nitidamente satisfeita, foi-se deitar ao sol.

Programa oficial do 10 de Junho

LITERATURA PORTÁTIL: A NOVA MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA

Debate com José Mário Silva, Rui Costa e Rui Manuel Amaral.
Moderação de Henrique Manuel Bento Fialho.

Amanhã, 10 de Junho, às 18h30, no Auditório da Feira do Livro do Porto.

Mais informações aqui.

Segunda-feira, Junho 8

Ella trabajaba desde las ocho y media hasta las seis y, a veces, hasta más tarde. Hacía cientos de fotocopias y las colocaba en montones ordenados. Incluso en aquella postura, sudorosa e inclinada sobre la Xerox, con los destellos de luz de la máquina que la obligaban a cerrar los ojos, seguía siendo la cosa más bonita que yo jamás haya visto. Quería decírselo, pero no tenía valor. Al fin lo escribí y se lo dejé encima de la mesa. A la mañana siguiente, la hoja que yo le había dejado encima de la mesa me esperaba fotocopiada cincuenta veces.

Etgar Keret.
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Escrevo-lhe do fim do mundo. É preciso que o saiba. Amiúde as árvores tremem. Apanham-se as folhas. Têm uma imensa quantidade de nervuras. Mas de que servem? Não há mais nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, incomodados.
Será que a vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou será preciso que tudo trema sempre, sempre?
Há também tumultos subterrâneos, e dentro de casa, como raivas que surgissem à nossa frente, como seres severos que quisessem arrancar confissões.
Não se vê nada, como se importasse muito pouco ver. Nada, e todavia treme-se. Porquê?


de "Antologia - Henri Michaux" (Escrevo-lhe de um país Distante, 1942), págs. 160/161, tradução de Margarida Vale de Gato (sete euros e meio no stand da Relógio d'Água).
Um novo vulcão entrou em erupção,
dizem os jornais, e na semana passada li
onde um navio viu uma ilha a nascer:
primeiro, um sopro de vapor, a dez milhas;
e a seguir uma mancha negra — basalto, provavelmente —
ergueu-se nos binóculos do imediato
e destacou-se no horizonte como uma mosca.
Deram-lhe um nome. Mas a minha pobre e velha ilha ainda está
por redescobrir e por rebaptizar.
Ainda não apareceu correctamente em nenhum livro.
....


os primeiros versos de "Crusoé em Inglaterra", de Elizabeth Bishop, pág. 23, traduzidos por Maria de Lourdes Guimarães (dois euros e meio no stand da Relógio d'Água).

Domingo, Junho 7


Café Oriental, Madrid, 12 de Abril de 2000. Víctor Erice conversa com Hideyuki Miyaoka sobre a casa do cinema, Ana Torrent e Frankenstein, Hoyuelos, os planos gerais de John Ford e Mizoguchi, os limites em falar dos seus próprios filmes, e muitas outras coisas.

Sábado, Junho 6

Antonio López y Enrique Gran cantan en El sol del membrillo.

...

O ritmo manso que atravessa O sol do marmeleiro, de Víctor Erice e Antonio López — é isso que toca o meu coração. E não me refiro apenas aos gestos exactos da pintura, não, é o resto, o registo da lenta e inflexível passagem do tempo nas coisas mais insignificantes: a preparação da tela, o cálculo das linhas e das marcas geométricas, os trabalhos das obras na casa, a lavagem dos pincéis, a prova do casaco e dos sapatos, o chá frio e os cigarros, as conversas, os noticiários radiofónicos, a obsessão de António López pela sua árvore, o revés das nuvens e da chuva, o amadurecimento dos frutos, a deambulação da câmara pelas redondezas, até à estação.

Mas quando a árvore chega definitivamente ao inverno, algo muda. Como se a impossibilidade circunstancial de captar os raios de sol sobre o marmeleiro abrisse um alçapão para uma zona mais escura, onde se guardam segredos. De repente, a situação inverte-se: é noite e agora o pintor é um modelo que se expõe. Antonio López deita-se numa cama, de sobretudo e sapatos calçados, uma fotografia antiga na mão direita e uma pedra de vidro na mão esquerda. Enquanto a mulher trabalha na tela, ele adormece. Sonha com uma luz sombria, que tudo converte em metal e cinza. O sonho acorda-nos — talvez a mansidão não passe de uma luta persistente. Um rio que deseja as margens.

...

Já ninguém busca a unidade, essa inteireza de que falava o professor de Antonio Lópes e Enrique Gran nas aulas. Ai de quem, à revelia do nosso tempo, procura ainda sentimentos inteiros.

A mosca

Uma mosca, zumbindo, lutava contra o vidro da janela. Batia com a cabeça uma e outra vez, na esperança de encontrar uma saída. Uma mosquita que não prestava para nada. Insignificante e reles. Mas, caramba, o diabo do chinfrim que ela fazia! A estúpida mosca zumbia, zumbia e batia com a cabeça, e batia e voltava a bater contra o vidro.
Resignado, Théodor suportou o banzé durante doze minutos. Por fim, gritou: “Espera, que vais ver.” Puxou da espingarda e pum! Disparou. A mosca caiu e deu duas voltas no chão. Depois levantou voo, passou pelo buraco aberto no vidro e, contorcendo-se com dores, morreu sobre a erva fofa do jardim.

a dança acrobática do macaco-aranha


desenhada por Eduardo Salavisa no Zoo.

Sexta-feira, Junho 5

Broken clouds

... pequenas brechas. Como se o filme se partisse — do jeito que uma corda ou uma parede, sujeitas a uma força maior, cedem. A força é ao mesmo tempo interior e exterior. Há um momento, já perto do fim, em que se sente fisicamente essa violência. Yumiko e Mishima estão dentro de um táxi, vão para um hotel — uma espécie de primeiro encontro e despedida —, o táxi pára numa passagem de nível, um comboio passa veloz. Naruse filma tudo isso como se, impávida, a terra tremesse.

Talvez Nuvens dispersas (Midaregumo, 1967) seja o filme mais estilhaçado de Mikio Naruse, o filme que integra as próprias condições de impossibilidade, que nos mostra os limites do visível e, infringindo a lógica, um pouco mais.
O instante em que julgamos ter compreendido tudo
dá-nos a aparência de um assassino.

E.M. Cioran (traduzido por Manuel de Freitas) in Silogismos da amargura, Letra Livre

Entre

Entre a ideia e a palavra
há mais do que podemos compreender
Há ideias para as quais não se encontram palavras.

O pensamento perdido nos olhos de um unicórnio
reaparece na gargalhada de um cão.

Vladimír Holan

(sobre o cansaço dos homens modernos)

(...) Vocês ainda não chegaram aí, meus valentes companheiros, é-vos necessário gastar muitos lápis, cobrir muitas telas antes de isso acontecer.Seguramente, uma mulher traz a cabeça desta maneira, tem a saia assim, os olhos enlanguescem-se e fundem-se com este ar de doçura resignada; a sombra palpitante dos cílios oscila assim sobre as faces! É isso, e não é isso. Que falta aí? Um nada, mas esse nada é tudo. Vocês têm o ar da vida, mas não exprimem o seu estravasamento que transborda, esse não sei quê que é talvez a alma e que flutua nebulosamente sobre o véu; enfim, essa flor de vida que Ticiano e Rafael surpreenderam. Partindo do ponto extremo onde vocês chegam, far-se-ia talvez boa pintura; mas vocês cansam-se demasiado depressa. (...)
— Vê, meu rapaz — dizia o velho sem se voltar —, vê como por meio de três ou quatro toques e duma pequena inclinação azulada se podia fazer circular o ar à volta da cabeça desta pobre santa que devia abafar e sentir-se presa nesta atmosfera carregada! Vê como este cortinado esvoaça agora e como se compreende que a brisa o levante! Antes tinha o ar de um tecido engomado e seguro por pinças. Repara como o brilhante acetinado que acabo de colocar sobre o peito torna muito melhor a flexibilidade de uma pele de rapariguinha, e como o tom mesclado de castanho-avermelhado e ocre calcinado aquece a cinzenta frieza desta grande sombra onde o sangue se congelava em vez de correr?


Frenhofer falando com Porbus e Poussin (em "A Obra-prima desconhecida", de Balzac)

Quinta-feira, Junho 4

Viagem à Cinemateca

Nos dias 4 e 5 de Junho, doze jovens entre os 12 e os 17 anos oriundos de Lisboa, Alhos Vedros e Serpa, vão apresentar na grande sala Henri Langlois da Cinemateca Francesa em Paris os quatro filmes finais que resultaram do trabalho de iniciação ao cinema em que participaram ao longo do ano lectivo 2008/2009...


Rodagem de Quem te ensinou este caminho?
Acho que nunca ninguém foi tão claro e concreto como Ginnie quando explica a Dave que gosta da história que ele escreveu, mesmo sem a compreender; que o ama, sem o compreender.

(O verbo latino comprehendere significa, antes de mais, "conter em si", "abranger", "incluir" "envolver". Às vezes, traduzir é a única forma de pensamento possível.)

Quarta-feira, Junho 3

Hadji Guetcho tem uma grande força de vontade e um carácter firme

Hadji Guentcho não teme, não diz mal de ninguém nem guarda rancor a pessoa alguma. No entanto, se lhe fizerem mal, se o ofenderem ou fizerem troça dele, vinga-se, juro-vos que se vinga.
Uma vez comprou uma burra e mandou o filho fazer um recado. O filho montou na burra e passou em frente da casa do pai Velko. Mas o pai Velko é um grande trocista e, como estava sentado à porta, viu vir o filho de Guentcho escarranchado na burra.
- Eh! Naïden, onde vais levar a tua mãe? - perguntou-lhe.
Naïden entrou em casa a chorar e contou que o tinham insultado. Assim que tal soube, Guentcho encolerizou-se como um javali. No dia seguinte vendeu a burra aos ciganos e comprou um burro, perdendo com esta troca trinta piastras. Quando chegou a casa, disse ao filho:
- Vai, Naïden, monta no burro e passa diante da casa do pai Velko e, se este te vir e perguntar onde conduzes o teu pai, responde-lhe: "Vou levá-lo à tua mulher."
O filho seguiu o conselho paterno, e o pai Velko nunca mais tornou a fazer troça de Guentcho nem de Naïden.

Liubene Karavelov, "Hadji Guentcho". Tradução de Maria da Conceição Magalhães.

observações matinais

A estação do Campo 24 de Agosto parecia uma esquadra; esta política marcial do Metro do Porto diz muito sobre a nossa pobre democracia. Linha A, direcção Senhor de Matosinhos. Na primeira carruagem, uma rapariga sentada junto à janela lia fotocópias de A dimensão oculta, de Edward T. Hall. Trazia o cabelo preso atrás por um lápis amarelo. Encostado à cabina do motorista, um funcionário contava as pessoas que entravam em cada estação e anotava o número e a hora numa folha de papel. Passámos na Trindade às 08H54. O jacarandá das Águas Férreas entrou no período Azul. Vermelho. Le mépris. Picolli dentro da banheira com o chapéu na cabeça. Como Dean Martin em Some Came Running, diz ele a Brigitte Bardot. No cinema, é sempre tempo presente.

Terça-feira, Junho 2

Hadji Guetcho gosta de água fresca

Hadji Guetcho gosta de água fresca da fonte arnaute, mas não pela água em si, visto que só bebe vinho, mas por gostar de ter água fresca em casa e também para ter o pretexto de mandar passear os alunos. Quando manda algum deles à fonte arnaute, com as duas bilhas de barro amarelo, dá-lhe logo duas bofetadas, a fim de ele ter cuidado, para não partir as bilhas.
- É preciso esbofeteá-los antes que eles as partam - diz Hadji Guetcho, - pois que, depois de partidas, não serve de nada bater-lhes. As bilhas ficarão partidas na mesma.

Liubene Karavelov, "Hadji Guentcho". Tradução de Maria da Conceição Magalhães.

Segunda-feira, Junho 1

Uma tosse funda

Foi no tempo em que N. Gógol conheceu a fama, graças a um conjunto de obras admiráveis e profundamente originais; em que I. Turguéniev, na plena posse do seu imenso talento, era admirado pela elevação poética das suas narrativas; em que M. Lérmontov se destacava como um dos vultos mais eminentes do universo literário europeu; em que F. Dostoiévski se encontrava possuído pelo inesgotável génio criativo de Dostoiévski.
Foi nesse tempo, durante a amontoa da batata, que Nikolaus Noseda, camponês de Heuersdorf, adoeceu. Foi tomado de uma tosse funda e uma febre ligeira mas persistente. Em três dias, emagreceu muito. O médico da aldeia receitou-lhe vários medicamentos. Mas de nada serviram.