Domingo, Maio 31

Anglo-American Grill


Não há muitas oportunidades de ver um filme de Leo McCarey por aqui. Aposto que a sala da rua das Estrelas vai encher (exercício de mergulho livre). Para mais, O Extravagante Sr. Ruggles é uma comédia. E tem Charles Laughton. A cena em que ele recita o Discurso de Gettysburg, de Abraham Lincoln, ainda nos apanha tão de surpresa como àqueles homens que estão no Silver Dollar Sallon.

Também seria interessante fazer a projecção sequencial de Make way for tomorrow (Leo McCarey, 1937), Viagem a Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953) e Um adeus português (João Botelho, 1985), demonstrando, sem recursos externos ao cinema, como a sua geografia é instável e ramificada. Lá para o outono? (exercício de mergulho de saturação)

Hadji Guentcho é um grande oráculo

Um dia Naida Ghizdina foi a casa de Hadji Guentcho e disse-lhe:
- Hadji, sonhei que um cão me mordeu.
- E o cão era branco ou preto?
- Era preto como o alcatrão.
- Isso não é bom - diz Hadji Guentcho, olhando para o céu. - Casarás o teu filho e receberás na tua casa uma nora má e desobediente.
Um mês depois, de facto, casou-se o filho de Naida e a nora era tal como o sonho predisse.

Liubene Karavelov, "Hadji Guentcho". Tradução de Maria da Conceição Magalhães.

Para Manoel de Oliveira, com amor


Talvez tenha sido o gato o primeiro a provocar a associação com Ema.
Depois começei a pensar que era a posição, o modo como ela segura, ou se segura, ao bicho.
Ou o olhar às avessas? (É o olhar mais perigoso do mundo.)
No fim do filme, sei que é tudo isso e mais qualquer coisa.
Uma saturação de signos magníficos.

Sábado, Maio 30

Inventário dos objectos que pertenceram a uma senhora idosa de Baden-Baden

Fui isso que eu fiz, visitei A COLECÇÃO de Serralves como quem reencontrói; a colecção dentro da colecção, a memória dentro da memória, avançar para trás. Vi o Inventário dos objectos que pertenceram a uma senhora idosa de Baden-Baden, de Christian Boltanski (conjunto de fotografias emolduradas, 1973), há uns anos, no CAV, em Coimbra. Aqueles objectos vulgares e gastos — colheres, facas, saca-rolhas, cordéis, panos, cadeiras de espaldar, tapetes, fotografias,... — são fascinantes. Esqueci o trânsito rápido das pessoas e deixei-me ficar a descrever cada uma das fotografias, como se uma parte de mim fosse cega. Não é fácil, exige muito rigor na escolha das palavras, mas é tão delicioso como ouvir música — um certo tipo de música, uma ladaínha.

Hadgi Guentcho gosta muito do gato.

Hadgi Guentcho gosta muito do gato. Todos os acontecimentos da sua vida mostram que esse gato foi o único ser que gozou da sua afeição, e até podia passar por ser o seu único camarada. Mas, aqui, surge uma questão filosófica. Se ele gosta tanto do seu gato, por que razão lhe cortou o rabo? Não sabia ele que cada golpe traz uma dor e causa sofrimento? Ah! pois sim! Hadji bem se importa com isso! Do que ele gosta é de tudo o que seja extravagante.

Liubene Karavelov, "Hadji Guentcho". Tradução de Maria da Conceição Magalhães.
E por falar em Ozu, hoje lembrei-me dele ao passar pela marginal e pela avenida Montevideu:
os metrosideros estão em flor.

como desenhar as nossas casas

AS OPERAÇÕES SAAL continua em exibição no Cinema City Classic Alvalade. Três semanas, mais de 1500 espectadores. Segunda-feira, dia 1 de Junho, a sessão será seguida de um debate com o realizador João Dias e o arquitecto João Luís Carilho da Graça.

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O filme não estreou no Porto, como aliás já é normal. Mas talvez haja apenas uma cópia disponível, talvez ele ainda venha a ser projectado, até porque o risco é pequeno; pela minha experiência sei que, tirando os malditos eventos, a única disciplina capaz de encher uma vulgar sala de cinema nesta cidade, é a arquitectura (deve ser qualquer coisa que lhes ensinam na faculdade).

No entanto, o melhor sítio para projectar este filme não é uma sala, é o parque de estacionamento descoberto das águas férreas, entre a estação da Lapa (a mais perfeita para ensaiar os atmosféricos diálogos de Ozu), o bairro de Siza Vieira e os pátios onde ainda crescem árvores.

Sexta-feira, Maio 29

Montanha do Pico 2009.05.29 AZOST 12:12:02

Quinta-feira, Maio 28

Montanha do Pico 2009.05.28 AZOST 12:45:02

JOÃO BÉNARD DA COSTA – 10 FILMES DA SUA E DA NOSSA VIDA. De 18 de Maio a 6 de Junho no Teatro do Campo Alegre no Porto. (Consulte o programa do ciclo aqui.)

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Daily Mail rose now almost ready to open, buds on Dorothy Perkins & Albertine. Delphinium buds forming, peonies not far from opening. (I'm in love with George Orwell, la la la la, la la la la)

Quarta-feira, Maio 27

Tudo é matéria de gelado

How to capture Queen Wasps and others tips.

Terça-feira, Maio 26

Aos restos, caso porventura haja "restos", poderemos chamar — amor

Lá prossegue o ciclo de Naruse e a coisa que mais me entristece é esta distância dos amores infelizes. Contento-me em ler os títulos dos filmes; hoje é, ou já foi, projectado "Chuva súbita", com Setsuko Hara. (o Japão é ao mesmo tempo uma ilha e uma terra vulcânica.) Lembrei-me do vendaval açoriano de Party (outro dos meus favoritos de Manoel de Oliveira) e daquela frase que Michel Piccoli diz a Leonor nas escadas, passados cinco anos, em noite de aguaceiros fortes, e que o liga, de uma forma que ainda não sei explicar, a Gertrud. O meu cinema assemelha-se a um ninho de vespas.

Segunda-feira, Maio 25

ce qui s'appele rien

Também é para encontrar livros por acaso que as bibliotecas servem. Pour un oui ou pour un non é uma pequena peça de Natalie Sarraute. Pequena... e enorme. Ao fim de um bocado começamos a sentir a perturbação e a tristeza que se escondem por trás das palavras mais corriqueiras, das entoações distraídas, dos silêncios. Depois descobri que Jacques Doillon filmou o texto com Jean-Louis Trintignant e André Dussollier (gosto tanto deles).

O prefácio de Arnaud Rykner (da edição folio théâtre) abre com esta citação de Roland Barthes: «Ouve-se dizer com frequência que a arte tem a obrigação de exprimir o inexprimível: é o contrário que é preciso dizer (sem qualquer intenção de paradoxo): toda a tarefa da arte é inexprimir o exprimível, retirar à linguagem do mundo, que é a pobre e poderosa linguagem das paixões, uma palavra outra, uma palavra exacta

Não é que seja parecida, só talvez na sua qualidade de texto menor, mas fez-me lembrar O Jardim, de Marguerite Duras. Se eu um dia fizesse um filme, seria precisamente aí, nesse jardim público.
Olho sempre com incredulidade para o meu passado; quanto mais recente, mais estranho. Apenas as imagens muito antigas me parecem familiares — e no entanto a infância é a nossa maior ficção.

Domingo, Maio 24

Para a Sara e para a minha colecção particular de ventos: O Vento dos amantes, de Albert Lamorisse (rodado no Irão em 1970, terminado postumamente em 1978, 35mm, 71'). Cortesia ubuweb & Bidoun.

cette nappe de neige fraîche


Paul Cézanne, "Pão e ovos", 1865, óleo em tela

Il me montre L'Amour de plâtre dans sa nature morte

Ici, tenez, les cheveux, cette joue, c'est dessiné, c'est habile, là, ces yeux, ce nez, c'est peint... Et dans un bon tableau, comme je le rêve, il y a une unité. Le dessin et la couleur ne sont plus distincts; au fur et à mesure que l'on peint, on dessine; plus la couleur s'harmonise, plus le dessin se précise. Voilà ce que je sais, d'expérience. Quand la couleur est à sa richesse, la forme est à sa plénitude. Le contraste et les rapports des tons, voilà le secret du dessin et du modelé... Tout le reste, c'est de la poésie. Qu'il faut avoir dans la cervelle, peut-être, mais qu'il ne faut jamais, sous peine de littérature, essayer de mettre dans sa toile. Elle y vient toute seule.

Il va prende un livre sur l'étagère, son vieux Balzac. Il feuillette la "Peau de chagrin".

Oui, vous avez vos métaphores, vos comparaisons. Quoiqu'il me semble que de constamment multiplier les «comme», c'est comme nous, quand notre dessin se voit trop. Il ne faut pas tirer les gens par la manche... Mais nous, nous n'avons que des tons, la visibilité... Tenez, tenez... il parle d'une table servie, il fait sa nature morte, Balzac, mais à la Verónèse... Une nappe...

Il lit:

«... blanche comme une couche de neige fraichement tombée et sur laquelle s'élevaient symétriquement les couverts couronnés de petits pains blonds.»
Toute ma jeunesse, j'ai voulu peindre ça, cette nappe de neige fraîche... Je sais maintenant qu'il ne faut vouloir peindre que «s'élevaient symétriquement les couverts» et «de petits pains blonds». Si je peins «couronnés» je suis foutu... Comprenez-vous? Et si vraiment j'équilibre et je nuance mes couverts et mes pains comme sur nature, soyez sûr que les couronnes, la neige, et tout le tremblement y seront... Dans le peintre, il y a deux choses: l'oeil et le cerveau, tous deux doivent s'entraider; il faut travailler à leur développement mutuel, mais en peintre: à l'oeil, par la vision sur nature; au cerveau, par la lógique des sensations organisées qui donne les moyens d'expression. Je ne sors plus de là. Je vous l'ai dit, un jour, je crois, devant le motif. Je vous de répète encore. Dans une pomme, une tête, il y a un point culminant, et ce point est toujours — malgré l'effet, le terrible effet: ombre ou lumière, sensations colorantes — le plus rapproché de notre oeil. Les bords des objects fuient vers un autre placé à votre horizon. C'est mon grand principe, ma certitude, ma découverte. L'oeil doit concentrer, englober, le cerveau formulera... Et puis, j'ai encore noté ça, sur les marges du Chef-f'oeuvre inconnu, un fameux livre, soit dit entre nous, autrement empoignant, autrement profund que L'Oeuvre, et que tous les peintres devraient relire au moins une fois par an... J'ai noté ça... Voici sans conteste possible, je suis très affirmatif...

Il lit.

«Une sensation optique se produit dans notre organe visual qui nous fait classer par lumière, demi-ton ou quart de ton les plans représentés par des sensations colorantes...»

Il ricane.

La lumière n' existe donc pas pour le peintre.

Il reprend.

«Tans que, forcément, vous allez du noir au blanc, la première de ces abstractions étant comme un point d'appui autant pour l'oeil que pour le cerveau, nous pataugeons, nous n'arrivons pas à avoir notre maîtrise, à nous posséder. Pendant cette période, nous allons vers les admirables oeuvres que nous ont transmises les âges, où nous trouvons un réconfort, un soutien, comme le fait la planche pour le baigneur...»

Il jette le livre.


Cézanne, par Joachim Gasquet, encre marine, août 2002
Quase chovia, encontrei um melro-preto na praia. Segui-o até ele desaparecer nas rochas, o mar estava sereno. O décimo quarto melro deixou a cidade, tornou-se ave marinha.

Sábado, Maio 23

La piedad del ladrón

A pesar de su escasa fortuna, cierto letrado se hacía pasar por rico y se daba grandes aires de acaudalado. Atraído por eso, un ladrón se metió en su casa pero no halló más que pobreza.

El ladrón se retiró entre gritos de disgusto. El letrado fue deprisa en busca de la única moneda que tenía y persiguió con ella al ladrón, hasta atraparlo.

- ¡Señor! – le dijo, casi sin aliento -. Disculpe que no haya podido acogerlo como usted se lo merece. Por favor, acepte esta humilde moneda. Y, se lo ruego, sea piadoso cuando hable con otros acerca de mí.

Xu Zichang.
Quando peguei nas Cartas de Etty Hillesum, uma pequena aranha desceu do tecto sobre o meu ombro. Deixei-a percorrer o braço.

...

Mais ao lado, as Cartas de A para X — John Berger entre a ficção e o documentário: Tonight it’s on my wall between the mirror and [a map of] Australia. A painting by Georges de La Tour of a woman visiting a prisoner at night. He’s seated in his cell. She’s standing. In her right hand she’s holding a candle by the light of which they can examine one another. They’re too interested to smile. With her left hand she’s just been frisking his hair.

...

As editoras imprimem frases estúpidas nas capas dos livros, transformando-as em papel apanha moscas. Dos textos sobre os seus prémios dizem: «É Thomas Bernhard no melhor da sua arte narrativa... » Mas isso não é verdade, é uma afonta a "Minetti", aos "Antigos Mestres, a "Extinção", a Thomas Bernhard.

Sexta-feira, Maio 22

Durante una época, hace unos veinte años, yo no abría la boca si no era para hablar del Procedimiento: decía que la función del artista no era crear obras sino crear el procedimiento para que las obras se hicieran solas, que “la poesía debe ser hecha por todos, no por uno”, y muchas cosas más por el estilo, que sonaban bien pero no tenían mucho sentido. Supongo que lo decía para hacerme el interesante. Por supuesto, nunca puse en práctica nada de eso. Seguía escribiendo mis novelas, como las sigo escribiendo, sin procedimiento alguno y sin esperanzas de que algún día lleguen a escribirse solas. No me siento culpable de fraude, porque la culpa no es del todo mía. A los escritores nos están pidiendo teorías todo el tiempo, y cedemos a la tentación de darles el gusto, por cortesía, por juego, o para que no nos tengan por unos brutos. En mi caso al menos, inventar una teoría es un acto tan imaginativo, y tan irresponsable, como inventar el argumento de una novela. No creo que le haga daño a nadie, y hasta podría acertar con alguna verdad útil.

Cesar Aira em entrevista no "Perfil", de Buenos Aires.

O cinema filma o trabalho da morte mas também, talvez se possa dizer assim, o seu oposto, o trabalho ou a persistência da vida quando já não há nada, ou não havia (o pretérito imperfeito é o tempo das histórias e dos paradoxos). É isso que eu não entendo e me seduz como em nenhuma outra arte.

A luz de Vermeer é maravilhosa, porém é a escuridão de certos filmes que me aproxima da claridade obscura de Victor Hugo morrendo. A luz mais difícil de captar, a luz contrária e impossível, guardada num pedaço de película. O cinema começa por ser essa fita cheia de imagens e memórias, e logo extravasa não se sabe para onde — espécie de bruxaria. O beijo de Mikkel e Inger, a dança de Macha, o riso dos fantasmas de Mrs. Muir e da Imperatriz Yang Kwei Fei, a deambulação num bosque em Buti — de que são feitos esses milagres? De vento talvez, mas o vento mais comovente do universo.

João Bénard da Costa ensinou-me tantas coisas sobre o vento que nem sei dizer... Grazie. La neve era sospesa tra la notte e le strade come il destino tra la mano e il fiore. Entre a mão e a flor.

Quinta-feira, Maio 21

Play the guitar, play it again, my Johnny
Maybe you're cold, but you're so warm inside
I was always a fool for my Johnny
For the one they call Johnny Guitar

Play it again, Johnny Guitar

Whether you go, whether you stay, I love you
What if you're cruel, you can be kind I know
There was never a man like my Johnny
Like the one they call Johnny Guitar

Quarta-feira, Maio 20


Gilles Aillaud a dit: "Il est des pièces qui ne sont pas à représenter mais à lire." (Il parlait notamment de Bérénice, réputée non transposable ou en tout cas difficilement, tant l'action, la scène et les dialogues étaient statiques.) Godard l'a fait. Jean-Claude Rousseau l'a fait.

Mais leur lecture, c'est déjà une représentation.

O melhor lugar é a meia-encosta

É verdade que muitos dos maiores artistas são como céus muito carregados de nuvens que têm sempre de fazer com que se ouça e veja a trovoada antes de deixarem surgir um pouco do céu azul. São como os santos e os heróis: uns agitados. Vêem o mundo do sítio em que estão, sem se preocuparem em procurar o melhor pondo de vista. Ora, não se trata de revelar o que com estrondo se esconde por detrás das nuvens do espírito humano, mas a força da necessidade, o poder pacífico da natureza que nos rodeia com os seus braços leves. Por isso é que, por impressionantes e vertiginosos que sejam alguns transportes poéticos, é claro que, no entanto, a mais pequena deslocação é "a mais poética". Por isso é que Vermeer é um grande mestre. Não é um santo nem um herói; mas um sábio sentado no meio do turbilhão dos átomos como no pequeno espaço a que costumamos chamar "ponto mecânico" em óptica, ou seja, a zona onde se reúnem, depois da refracção, os raios saídos do mesmo ponto, o melhor ponto de vista sobre a organização da matéria, o sítio de onde se tem a melhor visão sobre todas as coisas. É esse também o assunto da Ética, esse livro que está aí no meu armário. Mas a arte do filósofo tem de ser muito mais discreta. Não se pode permitir sobrevoar as coisas como se fosse Deus, nem olhá-las do sítio de onde aquilo que quer dizer pode fazer mais efeito. A sua arte consiste quase inteiramente na escolha do lugar de onde ele vai olhar o mundo. O melhor lugar é a meia-encosta. Nem a luz do sol a pino, nem a da vela.


Gilles Aillaud, "Vermeer e Espinosa", (traduzido? e) citado por Jorge Silva Melo em "Deixar a Vida", Cotovia, 2002
A decepção também é um sentimento de perda, talvez o mais triste; perdemos o que nunca poderiamos ter, um fantasma sem corpo. (Tudo é decepção — sempre soube disso. No entanto, esta certeza nunca me proporcionou alívio, excepto nos momentos em que se apresentou violentamente ao meu espírito. E.C.)

Terça-feira, Maio 19

Post escandalosamente umbiguista

Dicionário do Diabo

"Inicio hoje (...) a publicação daquilo que será uma série de verbetes para uma pequena obra em formato de dicionário sobre a literatura portuguesa de hoje. O primeiro micro-tomo será dedicado à poesia. Depois, se para tanto houver fôlego e inconsciência, surgirá um segundo, para a ficção, e um terceiro, sobre a crítica. Intitula-se a obra Dicionário Crítico por Intermitência (com o subtítulo Uma Descrição da Literatura Portuguesa Contemporânea) e cobre, em cada área, dois tópicos: 1) autores; 2) correntes dominantes. Proponho-a desde já a um editor benévolo ou, o que dá no mesmo, benevolamente hipócrita… Esclareço que creio moderadamente na originalidade deste meu opus, e duvido convictamente da sua pertinência. Mas uma vez que essa é uma boa descrição da minha existência, entrego-me serenamente à tarefa. O vento, como sempre, ajuizará."

Pamplinas.

mais logo, às dez

lerei poemas de Mário Cesariny, no Bar A Barraca - Teatro Cinearte, Largo de Santos, 2.
A entrada é livre.

Nas duas próximas semanas, é isto:

26 de Maio - Herberto Helder
2 de Junho - Alexandre O´Neill

Beijinhos e abraços,
Changuito

PS: Nossa senhora nos valha.

Segunda-feira, Maio 18

Só pensam no cinema, trocam Talma por Clark Gable


Insistindo ainda na cinefilia, sem me perder a explicar como filia é a parte mais excitante da palavra, gostava de lembrar a definição que guardo para uso próprio porque de facto, já dizia a minha avó (que nunca leu os cahiers mas contava-me histórias tão assombrosas como as de Hitchcock), também sou um bocado telhuda. É logo no início d' O Pai tirano, dentro dos armazéns Grandela, o senhor Santana revela à dona Cândida que o furioso dramático Chico, atraiçoando o teatro e a ingénua Gracinha, está apaixonado por uma menina cinéfila, caixeira na perfumaria da Moda.
— Ah, e diga-me cá, essa tal Tatão é cinéfila? — pergunta a dona Cândida franzindo o rosto.
— Pois é, cinéfila! uma telhuda pela tela!

................................................

O que vale, esse é o benefício para a cidade e para o mundo modernos, é que telhudos, telhudos, somos poucos. Ne change rien pour que tout soit différent. — Alors, on y va? — Allons-y.

Domingo, Maio 17


Traduzir o vento invisível. Um plano de Ozu para José Luis Guerín.
Não é difícil entrar na lista, David. Sem pensar muito: os filmes de João César Monteiro (assim mesmo, todos juntos numa só peça congruente), a carta de Ventura em Juventude em marcha (uma poesia de acção), o Pedro Macau da belíssima Viagem ao princípio do mundo, de Manoel de Oliveira:

Eu sou o Pedro Macau / Carrego às costas este pau./ Por mim passa muito patego, / Uns de focinho branco, / Outros, de focinho negro. / E nenhum me tira deste degredo.

é preciso relacionar "fazer ver" ao "fazer"

Só depois de traduzir o texto de Tanizaki comecei a perceber na sua descrição do Bunraku, uma ligação a Godard historiador, Godard louco. Nessa encenação imutável que permite que qualquer pessoa represente os actores representando as histórias (todas as histórias, qualquer história), há um vago reflexo do método godardiano de arquivo. Para além disso, agrada-me empurrar Godard para uma arte de camponeses, ao mesmo tempo rude e delicada, que a cada dia perde terreno. (Menos cinéfila, é certo, mas tão romântica quanto Godard — essa é a minha regra do jogo.)

Precisei de algum tempo para me lembrar de onde vinha a imprevista ideia e mais algum ainda para encontrar, nos papeis amontoados pela casa, os textos de "Histórias do cinema por si próprio" (excelente programa de Ricardo Matos Cabo para a Culturgest, Janeiro 2008). O documento é precioso e está disponível aqui. Avancem para a página 13: "As cinematecas e a História do Cinema".

Jean-Luc Godard: Podemos pegar num Judeu alemão e numa empregada de café, colocar umas luzes de cena e perguntar — porque já não sabemos —, antes de falar da fotografia de Sternberg, podemos tentar — porque hoje isso se perdeu —, podemos tentar mostrar como não sabemos mais fazer esta fotografia, nem mesmo para iluminar uma amada. Mostraríamos que já não o sabemos fazer. E aqui está, teríamos uma ideia daquilo que fazia Sternberg quando iluminava.

Sábado, Maio 16

arrumação da casa em 4 quadros (para a Lídia)



Ozu, vi-os todos! Estava a trabalhar no meu fime nessa altura e a única excepção que fazia fora do trabalho era para ir ver Ozu. O seu modo de construir os filmes influenciou-me muito. É muito curioso, em geral ele tem um foco central num personagem mas, lentamente, desenvolve o nosso interesse por um grupo. Ele gosta de ter a perspectiva de todos — o que é bom, acho. Em "Bom dia" (1959), uma televisão chega a esta pequena comunidade, e pouco a pouco começamos a ver o que acontece às crianças, aos pais, aos tios, aos vizinhos; ele capta a história de toda a gente. Esta ideia ajudou-me muito a estruturar En construcción. José Luis Guerín

Suivre les mouvements des poupées suffisait

Sous ses regards distraits, la scène de la séparation sur le bateau d'Akashi avait pris fin, et puis la scène du palais, celle de la maison de thé, ainsi que celle du mont Yama. Il semblait qu'on jouât maintenant celle de la hutte de Hamamatsu mais le soleil paraissait encore bien loin de son déclin, et le ciel bleu souriait toujours, à travers le plafond, comme à leur arrivée, le matin. Il était superflu de s'attacher au développement de l'intrigue; suivre les mouvements des poupées suffisait. Alors le vacarme des spectateurs ne gênait pas, et même les bruits, les couleurs, se mêlaient comme das un kaléidoscope, en une joyeuse harmonie.
«Quelle quiétude! répéta Kaname.
— Mais les marionnettes sont aussi bien meilleures qu'on n'aurait pu le croire. Celui qui tient Miyuki ne paraît pas maladroit.
— Non, mais je trouve que cela gagnerait à être encore plus primitif.
— Le style de ces spectacles est fixé, on le retrouve partout. Le text étant le même, l'interprétation est uniforme aussi.
— N'exist-t-il pas une manière d'Awaji?
— Les vrais auteurs discernent de légères différences, et appellent ceci le joruri d'Awaji, mais pour moi, c'est pareil.»
Certains diront qu'un art entre en décadence quando il se fixe, s'emprisonne dans des formes stéréotypées. Mais le Bunraku, cet art de paysans ne doit-il pas justemente sa valeur artistique à la permanence de son style? On pourrait même avancer que ces mélodrames anciens sont populaires dans la mesure où chaque pièce garde un mise en scène immuable; les costumes, les gestes en ayant été arrêtes par des générations d'acteurs célèbres, les profanes peuvent imiter les acteurs jusqu'à un certain point s'ils connaissent parfaitement la convention et s'ils obéissent aux indications des choeurs, tandis que les spectateurs imaginent à la rigueur qu'ils voient jourer de grands acteurs. Si des enfants donnent une représentation dans une auberge de station thermale, on s'étonne de leur science. Mais c'est qu'à l'encontre du théâtre moderne où les acteurs proposent une interprétetion personnelle, le théâtre classique s'apprend sans peine, même par les femmes et les enfants, grâce à l'immuable tradition. Avant l'époque du cinéma, le Bunraku, qui se déplace si facilement, car il exige peu de personnel et de matériel, remplissait commodément le même besoin d'évasion. Quel dérivatif il a dû apporter aux populations provinciales! On comprend que le théâtre classique ait ainsi été répandu jusqu'au fin fond des campagnes et y ait plongé de profondes racines.
(...)


Junichirõ Tanizaki, Le goût des orties, traduit du japonais par Sylvie Regnault-Gatier et Kazuo Ansaï,
Gallimard, L'imaginaire nº 161, p.198/200

Sexta-feira, Maio 15

Cinefilia? À hora do almoço o Michel Simon pediu-me um cigarro. Depois deitou-se num banco, ao sol, a fumar.

Quinta-feira, Maio 14

for ever Mozart


E assim, muito simplesmente, decidiram evaporar-se

Houve um ano em que os narradores entraram em greve. Todos os narradores: homodiegéticos, heterodiegéticos e mais as suas subcategorias*. A greve não visava nenhum objectivo, digamos, político. Os narradores apenas estavam cansados da literatura. Cansados de contar histórias que pertenciam a outros. Reivindicavam o direito à ausência. E assim, muito simplesmente, decidiram evaporar-se. E, de facto, evaporaram-se.
Ora, ninguém estava preparado para uma situação daquelas. Milhares e milhares de histórias, e narrador algum para as contar. Nesse ano, muitos livros ficaram por acabar. Os editores andavam pelas ruas de mãos na cabeça, os livreiros atendiam cabisbaixos e os leitores sentiam-se nervosos. Os autores, esses, chegaram a estados de desespero extremo, com resultados que prefiro não lembrar.
Ainda hoje os efeitos desse período negro se fazem sentir com franca intensidade. Basta lembrar, por exemplo, que na sequência da greve quase todos os escritores deixaram de consagrar as suas humildes orações a São Francisco de Sales, até aí o seu fiel padroeiro, passando a dedicá-las a S. Mederico, o Eremita**.

* Sigo aqui a terminologia de Gérard Genette, também usada por Ann Rigney.
** Também invocado por desarranjos intestinais.

Quarta-feira, Maio 13

Ce que je voulais c'est passer à l'intérieur de l'image


Colagem sobre Hitchcock, Jean-Luc Godard, 1979

Elle va au Printemps pour les brassieres. No livrinho de 80 páginas que acompanha a recente edição de Une femme mariée fala-se de muitos filmes. Desde Psycho (sim, Charlotte partilha a roupa interior com Jane Leight) a Nuit et brouillard projectado no cinema do aeroporto de Orly (ceci est l'histoire d'un homme marqué par une image d'enfance). La tristesse des espaces infinis. — Ah, se eu tivesse eu dinheiro construía uma pequena sala dentro de um aeroporto ou de uma estação de comboios, escondida como os cinemas pornográficos, com uma porta vermelha, só para gente estranha e de passagem. Acrescentar também Tati. Aimez votre prochain comme vous même. No verso da contracapa aconselha-se Le bonheur de Agnès Varda. Não preciso que mo digam duas vezes. Quand le film est triste ça me fait pleurer. La java. Voltar em breve ao comovente Roger Leenhardt (a palavra compromisso) e à inteligente madame Céline (a palavra harmonia). Voltar em breve ao inteligente Roger Leenhardt (a palavra síntese) e à comovente madame Céline (a palavra verdade). Andy says: «I'm among those who believe Une femme mariée is not a film made against Charlotte but with her.» And I agree with him.

Terça-feira, Maio 12

Segunda-feira, Maio 11

A gente das grandes cidades preocupa-se, especialmente, em viver de maneira original: é por isso que surgem coisas do género do Existencialismo, que, não valendo um caracol, dão a ilusão de que se vive por forma diversa dos hábitos antigos.
Nas regiões de Bassa, pelo contrário, nasce-se, vive-se, ama-se, odeia-se e morre-se conforme os esquemas de sempre, habituais e assentes.
E as pessoas não ligam meia quando se vêem metidas em acidentes do género do Sangue, Romanholo ou de Romeu e Julieta ou de Os Noivos ou da Cavalleria Rusticana e outros pastelões literários. A vida é, por isso, uma repetição sem fim de acidentes banais, velhos como o mundo, o que não impede a gente de Bassa de acabar debaixo da terra tal e qual como os letrados da cidade, apenas com a diferença de que os letrados morrem mais enraivecidos do que a gente do campo, pois a gente da cidade detesta somente deixar esta vida.

Giovanni Guareschi, "D. Camilo e o seu pequeno mundo". Tradução de Francisco Costa.

Pourquoi les juifs?

Olho para uma mesa redonda e digo que ela é redonda porque assim me parece, mas depois começo a duvidar. (Qu'est-ce que ça veut dire, regarder? C'est garder deux fois.) No fundo não acredito na objectividade, ou então só acredito numa objectividade silenciosa, imponderável — as palavras são demasiado vivas, demasiado frenéticas, passam-nos a perna num instante. De um filme de Godard, por exemplo, não se pode dizer quase nada, é literalmente feito de material inflamável. — "Uma mulher casada" são fragmentos de um filme rodado em 1964 a preto e branco, dura 95 minutos. — Pois bem e o que é que isso significa? — Ah, Bérénice, o amor é um mistério.

Domingo, Maio 10

Retrospectiva Charles Burnett


Durante o mês de Maio vão ser projectados na Cinemateca Portuguesa alguns filmes de Charles Burnett. O facto é anunciado como inédito; no texto de introdução do programa mensal diz-se: «No rasto da sua redescoberta internacional, em Portugal, KILLER OF SHEEP foi mostrado em 2008 pelo festival IndieLisboa, sendo o único dos filmes de Burnett até hoje projectado ao público português.»
Não há qualquer referência às primeiras exibições dos seus filmes no Festival Internacional de Cinema da Figueira a Foz, mas a minha memória doentia garantia-me que ele tinha passado por lá. Aproveitei o fim de semana para vasculhar nos papéis velhos e de facto, pelo menos Killer of sheep e My brother's wedding foram exibidos. Aliás, até tenho a folha de sala de "O casamento do meu irmão" à minha frente: inclui uma entrevista com o realizador feita por José Vieira Marques (Burnett revela que usou pontas da série "Dallas" — película 35 mm, cor, Fuji — para fazer o seu filme), e dois pequenos textos de David Overbey e Dave Kehr.

Nos anos 80 passaram pelo Festival da Figueira filmes e realizadores importantíssimos e eu não entendo como e porquê se ignora toda essa informação — também isso faz, ou deveria fazer, parte da nossa história do cinema. Que história? O futuro é tão brilhante.



Afinal, e contrariando o parágrafo transcrito:
«Na apresentação da retrospectiva na sessão de KILLER OF SHEEP, bem como na respectiva folha de sala, foi mencionada a exibição no Festival da Figueira da Foz.»

modulação

«Para mim, o problema está em saber se é possível traduzir num filme as gradações do desenho chinês, tudo em traços finos.» Kenji Mizoguchi (1952)

Sábado, Maio 9




Três fotografias de David Putnam. Outubro de 1954. Kyushu, Japão.

mais le Japon étant à la fois une île et un pays volcanique

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Dans cette rue commerçante, qui se prolongeait tout droit sous le ciel bleu, régnait une telle tranquillité qu'on pouvait compter les passants dans le lointain. Les sonnettes des bicyclettes qui les croisaient paraissaient calmes aussi. La ville manquait un peu de caractère, mais, comme dans toutes celles de cette région du Kansai, les murs y étaient d'une jolie couleur. Le vieillard professait que plus à l'Est, dans la région de Tokyo, les bourrasques de vent et de pluie sont si puissantes qu'il faut entourer les proprietés de palissades, et que même si l'on utilise pour cela du beau bois, celui-ci noircit vite et prend un aspect sale. Sans faire entrer en ligne de compte le Tokyo actuel, où depuis le tremblement de terre on ne trouve plus que des baraques couvertes de tôle, les petites villes des alentours auraient dû acquérir une certaine patine avec les siècles, alors qu'elles paraissent seulement maussades et comme salies par des couches de suie. En outre, celles qui sont bâties sur des sites de tremblements de terre ou d'incendies — si fréquents — sont constituées par ces maisons de bois blanc importées des Etats-Unis qui ressemblent à des boîtes d'allumettes en pin de Hokkaido, ou par de piètres buildings comme on doit en trouver dans les villes américaines les plus disgraciées.
Si une ville ancienne de l'Est, Kamakura par exemple, se trouvait dans l'Ouest, elle ne soutiendrait peut-être par la comparaison avec Nara, mais elle aurait une sérénité, une harmonie qui lui font défaut. La région qui se trouve à l'Ouest de Kyoto a été plus favorisée par la nature, elle a subi moins de calamités. La seule couleur des murs et des tuiles de fermes ou de maisons de ville tout à fait anonymes possède tant de séduction que le voyageur arrête ses pas pour les contempler. Les petites cités féodales groupées autour de leurs châteaux gardent un charme que les grandes agglomérations ont perdu. Aujourd'hui qu'Osaka et Kyoto même ont tant changé, il faut aller à Himeji, à Wakayama, à Sakai ou à Nishinomiya pour retrover un reflet des époques révolues.
Le vieillard disait volontiers: «La beauté de Hakone ou de Shiobara est célèbre, mais le Japon étant à la fois une île et un pays volcanique, ce genre de paysages se retrouve partout. Quando le journal Daimai a organisé un concours des huit plus beaus sites du Japon, il parait qu'on a trouvé plus de «rochers du Lion» qu'on en pouvait compter. C'est probable. En tout cas, il n'y aurait pas de voyage plus intéressant qu'un circuit, à pied, des villages et des ports des îles de l'Ouest.» Kaname se rappela ces paroles quand il vit une fleur blanche dépasser des tuiles rondes d'un toit, à l'angle d'un mur dont le temps avait rongé la surface.
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Junichirõ Tanizaki, Le goût des orties, traduit du japonais par Sylvie Regnault-Gatier et Kazuo Ansaï,
Gallimard, L'imaginaire nº 161, p.181/183

Sexta-feira, Maio 8

Allons, saute, marquis!

Não sei se "O Jogo do Amor e do Acaso" faz parte do programa da disciplina que estuda as relações de classes, nem sei se a disciplina que estuda as relações de classes existe (tirando Godard). Mesmo assim, imagino os alunos lendo em voz alta as frases deliciosas de Marivaux. Imagino também as hesitações, os sotaques, as roupas. E divirto-me muito com os erros de ortografia.

Caras amigas e amigos,

Vou voltar a fazer leituras de poesia. Como sempre, no Bar A Barraca, agora mais cedo, às dez da noite, e de entrada livre.
As datas e os poetas que lerei seguem abaixo

12 de Maio - Camilo Pessanha
19 de Maio - Mário Cesariny
26 de Maio - Herberto Helder
2 de Junho - Alexandre O´Neill
Beijinhos e abraços,
Changuito

Quinta-feira, Maio 7

la antología Miniatures, del canadiense John Robert Colombo

En este libro, publicado en Canadá en 2006, Colombo incluye – entre otros textos - numerosos casos de ficción hiperbreve del siglo XX en lengua inglesa, una escuela no tan conocida para los lectores de lengua castellana.

Allí llama la atención cierto microrrelato de un autor de ciencia ficción llamado Edward Wellen, cuyo texto completo es tan sólo un punto (“.”) y cuyo título, desde luego más extenso que el cuento, es algo así como “Si Eva no hubiese concebido” (en inglés: “If Eve Had Failed To Conceive”).

El texto data, según he podido averiguar, de los años sesenta o setenta. Wellen explicó años más tarde que en esta eucronía quiso jugar con el doble significado en inglés de la palabra “period”, que suele usarse como equivalente de “período” (menstrual) y de “punto”.

“Si Eva hubiese tenido su period, esto hubiese marcado period, punto final, para la breve historia de la humanidad”, explicó Wellen.

Eduardo Berti.

Os manuscritos de Grimaudin Gallais

Grimaudin Gallais* era um escritor muito minucioso. Tão minucioso como nunca conheci outro. Começava vezes sem conta a mesma história e de todas elas era incapaz de avançar para além da primeira página. Ocorria sempre um pormenor, um detalhe, que o impedia de prosseguir. Fosse porque o texto começava um pouco mais abaixo em relação ao topo da página ou terminava um pouco mais acima do rodapé. Fosse porque a letra se apresentava muito pequena ou as linhas exageradamente estreitas. Fosse ainda porque uma frase ou uma simples palavra se mostravam rasuradas.
Suponhamos que se sentia mal e morria de repente; o que pensariam os seus leitores ao tomarem contacto com os manuscritos? Eis a ideia que exasperava Grimaudin Gallais. Empalidecia, ficava lívido e deitava a cabeça para trás só de pensar nisso. De facto, sentia a este respeito a mais horrível angústia que se possa conceber. Assim, perdia o melhor do seu tempo e talento precavendo-se contra estes perigos vagos, improváveis, nascidos apenas da sua imaginação. De modo que todas as tentativas para terminar a história acabavam invariavelmente em outros tantos fracassos.
E esta é a razão pela qual esta história termina aqui. Grimaudin Gallais não foi capaz de continuar para além deste ponto.

* É escusado procurar. Não vem na lista telefónica.

Quarta-feira, Maio 6

Ça m'amuse bien, ce palindrome du nez

... a minha letra preferida do Abecedário, de Gilles Deleuze, é o Z de ziguezague, do trajecto da mosca, do precursor sombrio e do raio, do zumbido das tardes de verão, das pauladas do mestre zen.

a ambiguidade da percepção

Terça-feira, Maio 5


Manoel de Oliveira: As janelas já me acompanham desde o "Amor de Perdição". Representam mais do que aquilo que se vê. Colocam cada um no seu contexto. É como diz o Ortega y Gasset: "O homem na sua circunstância."

Francisco Ferreira: Impressionou-me bastante o plano em que a rapariga volta a casa e senta-se na cadeira. Ela está...

MO:... sucumbida. Está derrotada. Descobri esta imagem numa revista, uma dessas de moda, mas não me pergunte qual.

FF: E há o último plano, o do comboio onde Macário conta a sua história e que, no final, se afasta.

MO: Lembrei-me daquele filme do Charlot em que ele se vai embora de braço dado com a rapariga.

FF: O "Tempos Modernos"?

MO: É como o comboio. Vai e não se sabe para onde. O futuro é um enigma.


pequeno excerto da entrevista publicada na última edição do "Expresso"

O poeta

O poeta revolve os olhos, afia os dentes, destrava a língua aguda, prepara a voz tonitruante, abre a boca enorme, descomunal, apocalíptica, e atira: "piu".

Eu não acredito nos não-lugares

No sábado à tarde a Praça da República estava quase deserta, vi um homem e uma mulher sentados num banco na paragem junto ao antigo Instituto Francês. Já lá deviam estar há algum tempo, tinham um pacote de bolachas aberto e abandonado ao lado; ela encostada às paredes de vidro, ele dobrado, com a cabeça pousada no seu colo. Fui comprar massa e chá; no regresso, ele beijava-lhe as pontas dos dedos.

Segunda-feira, Maio 4

coisas das ilhas e do ar

XII. Von Eiland zu Eiland giebt es nur eine Möglichkeit: gefährliche Sprünge, bei denen man mehr als die Fuße gefährdet. Ein ewiges Hin- und Herhüpfen entsteht mit Zufällen und Lächerlichkeiten; denn es kommt vor, daß zwei zueinander springen, gleichzeitig, so daß sie einander nur in der Luft begegnen, und nach diesem mühsamen Wechsel ebenso weit sind Eines vom Anderen – wie vorher. Rainer Maria Rilke, Notizen zur Melodie der Dinge

coisas do chão

À hora do almoço, no jardim da Rotunda da Boavista, apanhei umas sementes. As cascas abriram de secas, agora parecem cabeças de pássaros, feitas de bronze, cheias de grãos amarelos, ligadas entre si.

Pausa escandalosa para publicidade

One day Victor Hugo sent a telegram to his publisher. He wanted to know how his new book was doing. His telegram read: "?"; the publisher's reply: "!".

Aqui. Ponto de exclamação.

Domingo, Maio 3

— Et Guillaume Apollinaire, lui aussi chante bien:


Avant le Cinéma

Et puis ce soir on s'en ira
Au cinéma

Les Artistes que sont-ce donc
Ce ne sont plus ceux qui cultivent les Beaux-arts
Ce ne sont pas ceux qui s'occupent de l'Art
Art poétique ou bien musique
Les Artistes ce sont les acteurs et les actrices
Si nous étions des Artistes
Nous ne dirions pas le cinéma
Nous dirions le ciné

Mais si nous étions de vieux professeurs de province
Nous ne dirions ni ciné ni cinéma
Mais cinématographe

Aussi mon Dieu faut-il avoir du goût.

O-hisa chante au cinématographe

«Est-ce que vous comprenez bien le sens de la chanson, Kaname?»
(...)

— Il me semble que je comprends vaguement, mais du point de vue grammatical, j'ai l'impression que cela ne tient pas debout.
— En effet. Nos ancêtres ne se souciaient pas de la grammaire. Comprendre vaguement, c'est déjà bien. Le texte a d'autant plus de résonances qu'il est moins précis. Tenez, par exemple.»
Le vieillard se mit à chanter:
Rien qu'une flaque
dans un marais stagnant
Mon coeur est trouble à cause de vous —
Il y a si longtemps!
Les purs rayons de lune
notre lien
se glissent par la fênetre
clandestins

«Cela continua ainsi: «De par le vaste monde...» Il s'agit d'un homme qui visite une femme en secret. Mais on ne le dit pas ouvertement; on se contente de le suggérer. C'est bien, n'est-ce pas? O-hisa chante sans penser à ce qu'elle dit, elle n'exprime rien.
(...)


Junichirõ Tanizaki, Le goût des orties, traduit du japonais par Sylvie Regnault-Gatier et Kazuo Ansaï,
Gallimard, L'imaginaire nº 161, p.168/169

Sábado, Maio 2


Rosas por rosas. Estas são as minhas preferidas. Crescem nos muros e cheiram um bocado a giz ou a pó. Para o amável Rui.

Sexta-feira, Maio 1

Não me causam os crepúsculos a mesma dor da adolescência

Quando tinha 15 ou 16 anos vi "A idade da Terra" no Casino da Figueira da Foz e apaixonei-me por Glauber Rocha. Era tão nova que compreendi tudo o que se passava nesse filme louco, e no entanto eu não sabia nada, nem de cinema, nem de política, nem do mundo. Lia as notícias sobre Glauber nos jornais e fazia recortes, coisa de menina. Não houve mais filmes, ele morreu e eu fui esquecendo. Depois comecei a ter medo de já não entender esse desvario, de já não me reconhecer. Mas aquilo em que nos tornamos implica olhar para trás como o anjo e apanhar os destroços — é o que temos de mais íntimo.

Abrir o tema "transe", ou seja a instabilidade das consciências. Não desejo outra coisa, querido Glauber.

Anedota Búlgara

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

Drummond.