existir claramente

A imagem de Luísa sentada com as pernas abertas é o penúltimo plano do filme e é importante, no entanto já não me parece tão grave, quer dizer, é grave dentro de uma farsa. Agora vejo Luísa como uma marioneta desarticulada no fim do espectáculo: os braços, as pernas e a cabeça lassas.
O espectáculo é a destruição dos tipos sociais: o bom rapaz enganado (Ricardo Trêpa não faz lembrar Karl Rossman? ou é a palavra espectáculo que me desvia?) a rapariga caprichosa, a mãe calculista, o tio rico ora impiedoso ora misericordioso (maravilhoso Diogo Dória em registo bufo), o homem de chapéu de palha espertalhão, e por aí fora — tal e qual os pequenos bonecos queirosianos que o empregado do Círculo Eça de Queiroz mostra a Macário.
É assim que Manoel de Oliveira filma este conto de amor e comércio; um conto moral, sim, mas de moral tão duvidosa quanto o leque oriental de Luisa (também Buñuel conhecia bem os objectos que são perversos por segunda natureza e se colam à pele). O realizador vai ainda mais longe (isto é, apesar de se manter fiel às palavras, afasta-se do tom) e faz, ao arrepio do pêlo, uma espécie de revisitação irónica da sua própria obra romântica. Há lá amor mais frustado do que este reverso de conto de fadas, em que, vencidos os obstáculos familiares, a princesa loura se transforma em sapo? (e reparem agora se não é de sapo a última posição de Luísa.)
Tudo isto é registado de uma maneira muito simples mas nada fácil: a câmara está sempre no sítio onde deve estar, no ângulo mais perfeito; há planos que servem para respirar (e sabe deus como precisamos de cinema que nos deixe respirar); e o golpe de montagem mais difícil é a aproximação dos poemas 32 e 33 do Guardador de Rebanhos Alberto Caeiro a uma mesa de jogo. Manoel de Oliveira diverte-se num exercício cruel e cómico, e nós com ele.
O filme acaba com uma perspectiva da linha de ferro. Antes de ser decepcionante, a vida é.








3 fotografias de Guy Tillim. 










