Quinta-feira, Abril 30

existir claramente


A imagem de Luísa sentada com as pernas abertas é o penúltimo plano do filme e é importante, no entanto já não me parece tão grave, quer dizer, é grave dentro de uma farsa. Agora vejo Luísa como uma marioneta desarticulada no fim do espectáculo: os braços, as pernas e a cabeça lassas.
O espectáculo é a destruição dos tipos sociais: o bom rapaz enganado (Ricardo Trêpa não faz lembrar Karl Rossman? ou é a palavra espectáculo que me desvia?) a rapariga caprichosa, a mãe calculista, o tio rico ora impiedoso ora misericordioso (maravilhoso Diogo Dória em registo bufo), o homem de chapéu de palha espertalhão, e por aí fora — tal e qual os pequenos bonecos queirosianos que o empregado do Círculo Eça de Queiroz mostra a Macário.

É assim que Manoel de Oliveira filma este conto de amor e comércio; um conto moral, sim, mas de moral tão duvidosa quanto o leque oriental de Luisa (também Buñuel conhecia bem os objectos que são perversos por segunda natureza e se colam à pele). O realizador vai ainda mais longe (isto é, apesar de se manter fiel às palavras, afasta-se do tom) e faz, ao arrepio do pêlo, uma espécie de revisitação irónica da sua própria obra romântica. Há lá amor mais frustado do que este reverso de conto de fadas, em que, vencidos os obstáculos familiares, a princesa loura se transforma em sapo? (e reparem agora se não é de sapo a última posição de Luísa.)

Tudo isto é registado de uma maneira muito simples mas nada fácil: a câmara está sempre no sítio onde deve estar, no ângulo mais perfeito; há planos que servem para respirar (e sabe deus como precisamos de cinema que nos deixe respirar); e o golpe de montagem mais difícil é a aproximação dos poemas 32 e 33 do Guardador de Rebanhos Alberto Caeiro a uma mesa de jogo. Manoel de Oliveira diverte-se num exercício cruel e cómico, e nós com ele.

O filme acaba com uma perspectiva da linha de ferro. Antes de ser decepcionante, a vida é.

Quarta-feira, Abril 29

Publicidade absolutamente descarada

Singularidades de uma Rapariga Loura


Gosto imenso desta imagem, não sei se é o último plano do filme, imagino que sim. Manoel de Oliveira distancia-se da história amachucada de Macário e dá-nos uma sensação tremenda de abandono ou desespero ou cansaço — tudo parece perdido para Luísa. Mas não é só isso.

Logo à noite em Serralves, a partir de amanhã no cinema Cidade do Porto.
- Muito bem. E que mais? Achas nisso alguma coisa de interessante, Iemelianuchka?
- Ah!... eu... não! Mas as pessoas riram-se, Astafii Ivanitch.

Dostoiévski, "O Ladrão Honesto". Tradução de Natália Nunes.

Segunda-feira, Abril 27

Um vapor azulado penetrou no quarto de Félicité, que estendeu as narinas, aspirando-o com uma sensualidade mística; depois cerrou as pálpebras. Os seus lábios sorriam. Os movimentos do seu coração foram-se tornando mais lentos, cada vez mais vagos, mais doces, como uma fonte que seca, como um eco que se esvai; e quando exalou o seu último suspiro, julgou ver, nos céus entreabertos, um papagaio gigantesco, a planar sobre a sua cabeça.

Flaubert, "Um Coração Simples". Tradução de Telma Costa.

O rosto de Setsuko Hara




Noriko é a personagem mais misteriosa e discordante de Tokyo monogatari. Desde o princípio não cumpre o seu papel; comporta-se não de um ponto de vista social (o que a sociedade espera) mas sentimental (até onde o amor pode ir). O modo como ela recebe e trata os sogros é comovente e distante das maneiras formais e frias dos filhos — o laço sanguíneo revela-se tão fraco quanto hipócrita. E no entanto é ela que explica a Kyoko que os irmãos têm a sua própria vida, a separação com os pais é inevitável, o egoísmo é natural e tolerado, ela própria não se livra desse abandono consentido, é assim que a sociedade se organiza e cresce.

Mas ela escapa ao fatalismo da engrenagem social — basta um passo leve e destemido. Noriko pensa nos seus sentimentos e responsabiliza-se, destruindo esse lugar comum que separa os verbos pensar e sentir. E é tão doce e intenso o seu sentir que o mais certo é Noriko pensar com o coração. Nada é evidente, tudo é insinuado e deixado à sombra. Ozu dizia: "esconde o que o espectador mais quer ver". Creio que o surpreendente mundo interior de Noriko está oculto sob os planos em que ela aparece sozinha: no escritório quando recebe a notícia da doença grave de Tomi, na viagem de regresso a Tóquio depois do enterro e da conversa íntima com o sogro. Se olharmos com atenção, vemos uma mulher tão entregue aos pensamentos e aos sentimentos que não sabemos distinguir entre os dois; apenas uma coisa de nada transparece nos seus gestos e na sua quietude.

O eu que pensa é o mesmo eu que sente. É esse o mistério registado pela câmara. Ainda é possível.

Domingo, Abril 26

Laminagem

Um país agora este imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.

Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tornou-se um assassino.

Viverei os poucos verões até morrer
com este mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.
Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.

Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.

Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.

Morreu a casa. Matou-a
o que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo concluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.

A alguns vemo-los em qualquer pousio
depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofreram ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego.

Ao olhá-los melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.

Eu queria que na cabeça parasse
o furor de tudo o que tomba,
a derrota do dia a dia,
mas será sempre o cabide do tempo
quem estende as garras
para nos alhear.
E os e-mail atravessam zonas sem remendo,
choças de tijolo com roupas a secar.

Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.

Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-lo.
E muitos hão-se sempre ser as vítimas
da liberdade que consente a violência,
da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
inúteis, a sua ordem por cumprir.

Só nos resta esperar então morrer.


Joaquim Manuel Magalhães, Alta noite em alta fraga, Relógio d'Água, Maio de 2001

Sábado, Abril 25

...

Tudo se transformou em história.
Um vírus que nos deixou entregues
ao anjo sem guarda.



três versos de um poema de Joaquim Manuel Magalhães (para ganhar fôlego)
Em Um adeus português, de João Botelho, há uma viagem a Lisboa que também é uma viagem a Tóquio.

Sexta-feira, Abril 24

Cardiologia

As minhas visitas aos médicos são raras e de cortesia; sei tudo o que se passa por dentro, mas é um conhecimento ainda sem palavras. No fim da consulta procuro a melhor definição para os movimentos incertos do coração. Falo em ritmo descompassado, mudança abrupta de escala. Só algumas horas depois descubro que a afinidade não é com a música como os poetas nos ensinam. É mais físico, é falhar o degrau como Tati — o velho número de slapstick.

Quinta-feira, Abril 23

A Persistência da Memória


Isto é melhor que um obituário:

I wake at 8am and have a couple of cups of tea. Midmorning I make a coffee to get my brain in gear. I used to have a large scotch (and that worked even better). Alcohol used to provide a large proportion of my calorie intake and my life enhancement, but I'm too old for that now. I don't drink spirits any more. Carte Noir is a good substitute. I've always drunk instant coffee at home — ever since I read Elizabeth David, who wrote about its virtues. For lunch I eat odd things — Parma ham with a few drops of truffle oil. Dinner is usually an omelette.
...
Nana Kleinfrankenheim: Dentro da caixa havia o interior da caixa.

Quarta-feira, Abril 22

Si Hablas Alto Nunca Digas Yo. (JumpCut --> sentido portátil)
Eu gostava que que este filme fizesse parte da extensão:

Chemin de Fer, by Elizabeth Bishop

Alone on the railroad track
I walked with pounding heart.
The ties were too close together
or maybe too far apart.

The scenery was impoverished:
scrub-pine and oak; beyond
its mingled gray-green foliage
I saw the little pond

where the dirty old hermit lives,
lie like an old tear
holding onto its injuries
lucidly year after year.

The hermit shot off his shot-gun
and the tree by his cabin shook.
Over the pond went a ripple
The pet hen went chook-chook.

"Love should be put into action!"
screamed the old hermit.
Across the pond an echo
tried and tried to confirm it.

Terça-feira, Abril 21

Lines written in the Fannie Farmer Cookbook, by Elisabeth Bishop

[Given to Frank Bidart]

You won't become a gourmet* cook
By studying our Fannie's book —
Her thoughts on Food & Keeping House
Are scarcely those of Levi-Strauss.
Nevertheless, you'll find, Frank dear,
The basic elements** are here.
And if a problem should arise:
The Souffle fall before your eyes,
Or strange things happen to the Rice
— You know I love to give advice.

Elizabeth
Christmas, 1971
*Forbidden word
**Forbidden phrase

P.S. Frannie should not be underrated;
She has become sophisticated.
She's picked up many gourmet* tricks
Since the edition of '96

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Manuel Bandeira, "Libertinagem".

Segunda-feira, Abril 20

Dans la vie, il faut

3 fotografias de Guy Tillim. AVENUE PATRICE LUMUMBA, Serralves. Até 18 de Maio.

Conversation, by Elizabeth Bishop

The tumult in the heart
keeps asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.

Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only half-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;

until a name
and all its connotation are the same.

Domingo, Abril 19

Perguntaram-lhe, em primeiro lugar, se nunca lera livro algum. Disse que lera Rabelais vertido em inglês e alguns trechos de Shakespeare, que sabia de cor. (...) O bailio não deixou de o interrogar sobre esses livros.
- Confesso-vos - disse o Ingénuo - que me parece ter adivinhado neles qualquer coisa e que além disso nada mais compreendi.
O abade de Saint-Yves, ao ouvir isto, observou que era assim mesmo que ele sempre tinha lido e que a maior parte dos homens não lia de outra maneira.

Voltaire, "O Ingénuo". Tradução de João Gaspar Simões.

Sábado, Abril 18


Jean-Marie Straub et Danièle Huillet, Les Yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou Peut-être qu'un jour Rome se permettra de choisir à son tour (Othon), 1969


LEUCOTHÉA

Editorial
Jean-Louis Raymond


Dans l’écart souverain d’une pratique éthique de l’art cinématographique, l’œuvre de Jean-Marie Straub et Danièle Huillet porte le germe d’un geste toujours à venir, qui se transmet comme la lettre cachetée de Rainer Maria Rilke, dans la secrète intimité de la rencontre avec chaque spectateur.

Fruit de l’expérimentation d’une suite infinie de nécessités et de confrontations concrètes avec le réel, sa matière, sa sonorité, sa scansion, c’est un cheminement à travers l’histoire des hommes sur la terre qui les porte, au hasard des rencontres, à la persistance des colères, où un récit se réinvente, indispensable, citoyen.

Une recherche de vérité en cinéma, qui ouvre largement le champs d’un questionnement formel et existentiel paradoxal au cœur brûlant de notre époque, et qui fait figure de repère dans la jungle des leurres mercantiles qui encombrent l’espace collectif d'injonctions cyniques.

Cette oeuvre, de matière et de lumière, de langage et de gestes, qui reste encore à découvrir ainsi que le peuple qui n’existe pas encore à qui elle s’adresse, entre pourtant en amitié avec nombre de nos contemporains, cinéphiles, chercheurs, artistes, philosophes, ou simplement spectateurs attentifs, responsables.

C’est de cette amitié que nous souhaitons nourrir la revue LEUCOTHÉA, dont la vocation est de susciter et d’accueillir des études critiques à propos de l’oeuvre de Jean-Marie Straub et Danièle Huillet, et, partant, de s'ouvrir à des contributions multiples autour de la question de l'art cinématographique et de ses rapports au monde actuel, à la poésie, à la littérature, à l'art contemporain.
Acordo cedo, tomo o pequeno almoço e volto para a cama. Não se ouve ninguém na rua, só os carros velozes sobre o piso molhado — é um som marinho, de ondas, peixes, algas, cascos de navios. Um som cheio de movimentos muito lentos e movimentos muito rápidos. Penso no Little Nemo e no tubarão jaguar — a cama é o fundo do mar.

Sexta-feira, Abril 17


Uma destas noites de aguaceiros fortes ganhei coragem para ver de novo O Som da Montanha. Dos filmes de Naruse que conheço, foi este que me deixou mais abalada, e não só pelas suas questões internas, pela gravidade das palavras e dos gestos, pelo rosto triste de Setsuko Hara.

Talvez a chuva me tenha ajudado — chovia dentro e fora das imagens —, ou talvez eu tenha feito um certo caminho entretanto — há filmes que nos exigem isso. Agora pareceu-me diferente, os destroços continuam impressos na película, é verdade, mas há outra coisa, num outro plano, ainda matéria, algo que funciona apesar de tudo. Aliás, é esta maravilhosa duplicidade de planos que leva os filmes de Naruse para muito longe da estrutura clássica, e tantas vezes rasa, do melodrama: não se trata aqui apenas do confronto amoroso entre homens e mulheres, mas de um confronto duro com a própria vida. O cruzamento do nosso tempo curto (vertical) com o tempo longo do mundo (horizontal) é o que mais me impressiona em Naruse. Por exemplo, nesse encontro de despedida no jardim em Tóquio, quando Kikuko explica ao sogro que é a perspectiva que faz o jardim tão grande. E sereno. O espaço como forma de reconciliação — acho que finalmente consigo compreender a ideia de Naruse. Também tem a ver com uma semente de lótus de dois mil anos que floresce porque a sua vocação é florescer. Um ponto transforma-se em traço — a isso chama-se movimento.
Subiu num elevador até ao sétimo andar, atravessou um hall e, abrindo uma porta, entrou no escritório de uma agência de empregos. Já lá estavam duas dúzias de rapazes; descobriu um canto onde, de pé, esperou pela sua vez de ser atendido. Por fim, foi-lhe concedido esse grande privilégio, e foi interrogado por uma solteirona de cinquenta anos, magra e estouvada.
Ora, diga-me cá, disse ela; que sabe fazer?
Ficou embaraçado. Escrevo, disse pateticamente.
Quer dizer que tem boa caligrafia? É isso? disse a idosa solteirona.
Bom, sim, replicou. Mas quero dizer que escrevo.
Escreve o quê? disse ela, quase irritada.
Prosa, disse ele com simplicidade.
Houve uma pausa. Por fim, ela disse:
Sabe escrever à máquina?
Pois claro, disse o rapaz.
Bom, disse a mulher, temos a sua morada; Comunicaremos consigo. Hoje não há nada.

William Saroyan, "O rapaz do trapézio voador". Tradução de José Borrego e Victor Palla.

Quinta-feira, Abril 16

O que leva os outros a fechar blogues é precisamente o que me faz permanecer aqui.

discursos preliminares


1. Desconfio muito da frase "onde se vai expor e exibir o cinema que o Norte e o Porto reclamam". 2. Apesar da Casa das Artes (foi aí que vi Primavera tardia, de Yasujiro Ozu) ter sido desenhada por Souto Moura . 3. Apesar das magnólias e do tulipeiro. 4. Um amigo mais avisado traduziu-me o parágrafo seguinte da notícia: Prepara-te para ver "A Costureirinha da Sé" todos os dias.

Quarta-feira, Abril 15

De Cristina à Jacques (729'): Et voilà, maintenant je suis prête. Viens.



(Chez Rivette, la représentation théâtrale est une image en miroir mais, justement parce qu'elle ne cesse pas d'avorter, est le germe de ce qui n'arrive pas à se produire ni à se réfléchir. Gilles Deleuze)

No quarto de Rodericka Walz

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac

Terça-feira, Abril 14

Lektion 96


— Wissen Sie, was FOW bedeutet?

Szymon Schaefer

Caiu por engano neste mundo. Chamava-se Szymon Schaefer. Esteve por cá durante quarenta e cinco anos, só a matar o tempo. Quando chegou o momento, disse: “Chegou o momento.” E foi-se embora*.

* Um certo número de estudiosos maquinou uma louca teoria segundo a qual Szymon Schaefer era filho ilegítimo do rei da Áustria e o verdadeiro autor de “The Life and Loves of Horacio Perkins”, a obra-prima vulgarmente atribuída a Aaron Sorensen. Uma outra escola de pensamento defende que Szymon era filho dum cabo do exército alemão e duma artista de comédia musical, e que o seu verdadeiro nome era justamente Aaron Sorensen**. Ambas as teorias, será escusado dizê-lo, são falsas. Szymon Schaefer foi um fulano que caiu por engano neste mundo. Esteve por cá durante quarenta e cinco anos, só a matar o tempo. Quando chegou o momento, disse: “Chegou o momento.” E foi-se embora.

** “Szymon Schaefer” seria, pois, um pseudónimo.

O ponto de vista no cinema

«Para apreender esta noção fundamental, eles trabalharam num primeiro tempo a partir de fragmentos de filmes que analisaram na escola. Num segundo tempo, realizaram pequenos exercícios organizando e filmando pontos de vista objectivos ou subjectivos, visuais ou sonoros, centrados ou não sobre a acção principal, etc.

Por último, para os filmes-ensaio — o que vai ser aqui mostrado — cada turma dirigiu o trajecto de duas personagens a um lugar familiar, e o trajecto de regresso de uma das duas personagens depois de ter feito uma descoberta, ou recebido uma notícia perturbante.

Para além do ponto de vista, os alunos confrontaram-se com muitas outras questões de cinema: como filmar uma paisagem, captar a luz e criar a atmosfera de uma cena, encarnar as personagens e dirigir actores, encontrar o bom ritmo para a montagem…

O tema deste ano em trabalho é: a cor no cinema.»

Quinta-feira 16 de Abril, às 19h00, na Cinemateca Portuguesa. Mais informações aqui.
"Você escreveu uma história?", perguntou o motorista. Olhou-me com atenção. "Acerca de quê?"
"Era acerca dum rapaz que morreu de fome."
"Para que quis você escrever uma história dessas?"
"Não sei", respondi, "mas tornou-me célebre."
"Se quer escrever", perguntou o motorista, "porque não escreve coisas boas? Coisas que façam as pessoas felizes, as alegrem um pouco. Coisas tristes vemos nós bastantes todos os dias."
"Farei o possível para a próxima", prometi eu. "Tentarei fazer rir toda a gente. Não escreverei acerca de rapazes a morrer de fome. Escreverei acerca dum velho capitalista a morrer de indigestão. Hei-de ter muita graça."

William Saroyan, "O meu retrato no jornal". Tradução de José Borrego e Victor Palla.

Segunda-feira, Abril 13

Eram 19 horas e 23 minutos quando o metro entrou na estação da Trindade. Um pardal saltitava junto ao café, no Cais 1. Algumas pessoas olhavam os seus movimentos atrevidos e sorriam. De certa forma isto explica duas ideias que há muito tento construir. Uma liga Souto Moura a Ozu, quer ele o saiba ou não. A outra, ramificada mas distinta, pretende demonstrar que o Metro é a actividade cultural mais rica do Porto dos últimos anos.

As Cadeiras

pousou uma mosca aqui

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me atentas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem ser mais maduras (mais
pés
assentes na terra).

João Luís Barreto Guimarães, "A parte pelo todo".

Domingo, Abril 12


À noite, o cheiro dos goivos é mais intenso. Vejamos um [outro] goivo.

coisas que tinham acontecido na minha casa

A minha avó materna tinha grande prazer em contar histórias, e era muito boa nisso. Eram versões alteradas de histórias muito conhecidas dos Irmãos Grimm e, especialmente, de Horacio Quiroga, um escritor argentino-uruguaio que escreveu uma literatura muito febril e louca, passada nas selvas das Missões, no nordeste da Argentina, e onde predominam crimes, mortes e animais fantásticos. A minha avó nunca nos disse que eram apenas histórias inventadas por um escritor. Eu sempre pensei que aquilo que ela nos contava eram acontecimentos reais, coisas que tinham acontecido na minha casa.

Lucrecia Martel

Sábado, Abril 11

— ... et quel est le palindrome le plus long de la langue francaise?

Le Grand Palindrome de Georges Perec!
Je me mets en noir, comme ça je serai dans la note!
A mudança de Cléo é acompanhada por roupas novas. Ninguém pode pensar na sua própria morte com um roupão de plumas, uma peruca encaracolada e um chapéuzinho ridículo. É preciso um acordo íntimo entre a forma e a ideia — as mulheres praticam isso muito bem, à margem da questão lógica.

...

Também os jardineiros estão para sempre ligados à história do cinema. No pequeno filme que Cléo vê da cabine de projecção, Les fiancés du Pont Mac Donald, o jardineiro é Eddie Constantine. Godard e Anna Karina são os noivos slapstick.

...

No Parque Montsouris, Antoine mostra a Cléo — ou será já Florence? — árvores majestosas: Paulownias tomentosa (também conhecidas por kiri japonês ou árvore-da-princesa, a quem deve o nome), e um Cedro do Líbano. A copa dos cedros do Líbano adultos, em longos patamares horizontais, é formidável.

Sexta-feira, Abril 10

Se me perguntam, já não sei.


Em Le bonheur e Cléo de 5 à 7, de Agnès Varda, encontro o mesmo ponto. Um ponto muito pequeno e instável, impossível de definir porque mal o alcançamos vira-se do avesso. Quando pensamos que é alegria, é tristeza, quando pensamos que é tristeza, é alegria. Varda filma-o com uma certa distracção, como se estivesse calor e soprasse uma brisa do mar nas nossas costas. Há quem lhe chame leveza, há quem lhe chame graça — não tem nome certo nem existência substancial.

Quinta-feira, Abril 9

Conta as amêndoas,

conta o que era amargo e te mantinha desperto,
conta-me entre elas:

Procurei os teus olhos quando os ergueste e ninguém te olhou,
estendi aquele secreto fio
por onde o orvalho que imaginaste
escorreu para os jarros
guardados pela palavra que nenhum coração acolheu.

Só aí entraste plenamente no nome que é o teu,
te dirigiste para ti a passo firme,
vibraram livres os martelos na armação dos sinos do teu silêncio,
veio de encontro a ti o que escutaste,
envolveu-te também o braço da morte,
e fostes a três pela noite fora.

Torna-me amargo.
Conta-me entre as amêndoas.



Paul Celan, tradução de João Barrento, in "Sete rosas mais tarde" Antologia Poética de Paul Celan, Cotovia

O primeiro filme de Alexander Kluge, realizado em colaboração com Peter Schamoni em 1961:

Brutalität in Stein (Die Ewigkeit von gestern).

Fim

O mundo acabou em menos de um minuto.
Tudo em pedaços, toda a gente morta, animais e plantas, tudo esmagado sob o terrível peso da catástrofe. Nem uma mosca escapou. Até as pedras morreram.
Resto eu, no meio desta sombria desolação terrestre. Se bem que também esteja morto. E, por isso, não compreendo como diabo estou a escrever isto.

Quarta-feira, Abril 8


Sobrecasaca, luvas de pelica, sapatos, sapatos,... é extraordinário o fascínio que a roupa exerce sobre os pensamentos filosóficos ou afins da filosofia. Eddie Constantine, conforme aparece em Alphaville, de gabardine cinzenta e chapéu escuro, poderia elucidar o caso. Só ele e nenhum outro.
INFORME. — Un dictionnaire commencerait à partir du moment où il ne donnerait plus le sens mais les besognes des mots. Ainsi informe n'est pas seulement un adjectif ayant tel sens mais un terme servant à déclasser, exigeant généralement que chaque chose ait sa forme. Ce qu'il désigne n'a ses droits dans aucun sens et se fait écraser partout comme une araignée ou un ver de terre. Il faudrait en effet, pour que les hommes académiques soient contents, que l'univers prenne forme. La philosophie entière n'a pas d'autre but : il s'agit de donner une redingote à ce qui est, une redingote mathématique. Par contre affirmer que l'univers ne ressemble à rien et n'est qu'informe revient à dire que l'univers est quelque chose comme une araignée ou un crachat. — G. BATAILLE.
Esta noite sonhei com Godard. Era mesmo ele, trazia um sobretudo escuro comprido, estava deitado debaixo de uma cama a fazer de espião. Eu via tudo de longe como no cinema, e também não percebi nada do que se passava, o que é sempre um bom sinal. Mas preferia sonhar com Jean Renoir no campo.
- Bem - disse Jim - Gus morreu aos noventa anos numa cervejaria em Powell Street, às duas horas e um quarto da manhã.
Não descobriram que estava morto durante dois dias e duas noites porque parecia estar a dormir e ninguém tinha fígados para aproximar-se e tentar acordá-lo.
Gus tinha o sono muito pesado. Um Inverno, em Chicago - disse Jim - Gus estava tão infeliz que dormiu dois meses de seguida numa série de quartos em Revere House. Costumavam mandar-lhe todas as noites uma rapariga para se deitar com ele e um barbeiro de três em três dias para lhe fazer a barba.

William Saroyan, "Gus, o Jogador". Tradução de Felicidade Pomar.

Terça-feira, Abril 7


— J'y pense tous les soirs!

outras passagens

No curso A Sismografia da cultura, Godard é, creio, o terceiro que caminha sempre ao lado de Warburg e Benjamin.
...

Na sala dedicada a Aby Warburg (exposição Arquivo Universal) encontrei esta frase de Bataille: l'espace peut devenir un poisson qui en mange un autre.

...

A frase de Georges Bataille é retirada desta entrada (ou deveria dizer saída?) de Le Dictionnaire Critique (article ‘espace’ Ed. L’écarlate p.30):

ESPACE
Questions de convenances; On ne s’étonnera pas que l’énoncé seul du mot espace introduise le protocole philosophique. Les philosophes, étant les maîtres de cérémonie de l’univers abstrait, ont indiqué comment l’espace doit se comporter en toute circonstance.
Malheureusement l’espace est resté voyou et il est difficile d’énumérer ce qu’il engendre. Il est discontinu comme on est escroc, au grand désespoir de son philosophe-papa. Je m’en voudrais d’ailleurs de ne pas rafraîchir la mémoire des personnes qui s’intéressent, par profession ou par désoeuvrement, par confusion ou pour rire, au comportement de l’incorrigible en rupture de ban: à savoir comment sous nos yeux pudiquement détournés, l’espace rompt la continuité de rigueur. Sans qu’on puisse dire pourquoi, il ne semble pas qu’un singe habillé en femme ne soit qu’une division de l’espace. En réalité la dignité de l’espace est tellement bien établie et associée à celle des étoiles, qu’il est incongru d’affirmer que l’espace peut devenir un poisson qui en mange un autre. L’espace décevra encore affreusement quand on dira qu’il prend la forme d’un rite ignoble d’initiation pratiqué par quelques nègres, désespérement absurdes etc.
L’espace ferait beaucoup mieux, bien entendu, de faire son devoir et de fabriquer l’idée philosophique dans les appartements des professeurs!
Evidemment il ne viendrait à l’idée de personne d’enfermer les professeurs en prison pour leur apprendre ce que c’est que l’espace (le jour où, par exemple, les murs s’écrouleraient devant les grilles de leurs cachots).

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Georges Bataille fez uma pequena aparição, como padre de aldeia, em Une partie de compagne, de Jean Renoir (1936). Le voilà! Le voilà!

Segunda-feira, Abril 6

os gestos do trabalho


Uma fotografia da fotografia de Alcino Gonçalves da mão de Rui Chafes e do seu interior em bronze.

Mais do que as pequenas esculturas (parecem ostras?), interessam-me as mãos do escultor, as linhas, os vincos do trabalho.

É proibido fotografar a exposição, disse-me a funcionária zelosa da Cinemateca. Toda a gente sabe que é proibido fotografar dentro da Cinemateca, acrescentou. A seguir deu-me uma aula de civismo muito estúpida. Zanguei-me com o tom policial e não tive tempo de lhe contar como as fotografias do belo catálogo dedicado a Bresson, em 1978, foram tiradas à socapa. Talvez ela nem entendesse.

Uns metros mais abaixo, a outra escultura dá-se a todos, ao pó e ao vento, e é cada vez mais o seu nome, e está cada vez mais linda e selvagem. Guardam-na os princípes e os melros, e isso basta.

Lo mejor de viajar por tierra es no dormir y escuchar:

— Pocas veces tengo pesadillas, pero cuando las tengo, el argumento, en líneas generales, es que maté a alguien. En mis pesadillas soy una asesina, y me despierto llorando porque ya no creo en Dios, que podría ser el único que me reconforte con su piedad. El único que yo respete. Entonces me seco las lágrimas y siento que soy buena, que todo ha sido un sueño y que jamás mataría a alguien.
Una vez soñé que mataba con un palo a un hombre. Me deshacía del cuerpo pero no podía deshacerme de la cabeza. Estaba apurada, tenía que ir a trabajar, entonces metí la cabeza del hombre en un anaquel de la cocina. Cuando volviera del trabajo me ocuparía de eso. Al regresar a la noche había una nota de mi padre sobre la mesa, era esa época en que mi padre venía por asuntos de trabajo a la ciudad y se volvía en el avión de la noche. La nota decía: "Te arreglé el estante de la cocina. Un beso. Papi"
Efectivamente el anaquel de la cocina tenía ahora un falso fondo, detrás y bien tapada estaba la cabeza del hombre muerto. Me desperté llorando, qué familia tan buena tenía, qué incondicional era su amor, qué ganas de llamar a todos mis hermanos porteléfono, a mis padres, qué ganas de visitarlos. Tendrías que conocerlos. Ayer volví a soñar. Salía de visitar a mi abuela y al buscar las llaves del auto en la cartera me encuentro con una mano negra. De piel oscura. Me doy cuenta que he matado a una mujer negra. Las llaves que hay en mi cartera no son las del auto son las llaves de un departamento hacia donde estoy yendo, sé que ahí esta el cuerpo. Me desperté llorando a gritos.
—¿De quién era la mano?
— Supongo que de la mucama, pobre.
— ¿Y nunca lloras por la gente que has matado?
— Es que apenas los conozco.

Esta película se ha construido en el vapor de esta conversación.


Notas de la directora (Lucrecia Martel), para a Alexandra.

um enunciado é como uma luva de pelica

ACTO III

III. 1. (Entram Violeta e Bobo, a tocar gaita e pandeireta)

Violeta
Bem hajas, amigo, tu e a tua música! Vives de trazer tambor ao lado?

Festa
Não, senhor, dizei antes de igreja ao lado.

Violeta
Fazes parte da igreja?

Festa
De modo nenhum, senhor. Vivo de igreja ao lado, pois vivo em minha casa, e a minha casa fica ao lado da igreja.

Violeta
Então também se pode dizer que o rei vive de ter um mendigo ao lado, se o mendigo viver a seu lado, ou que a igreja vive de tambor ao lado, se o tambor estiver ao lado da igreja.


Festa
Acabais de o fazer, senhor. Que época a nossa! Para alguém espirituoso, um enunciado é como uma luva de pelica: que rápido se vira de fora para dentro!

Violeta
Assim é, de facto: quem sabe brincar com as palavras depressa as torna atrevidas.

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NOITE DE REIS ou como lhe queiram chamar, de William Shakespeare. Tradução de António M. Feijó. Edição Cotovia / TNSJ

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Nota particular: Para além das luvas, também as personagens em cena são um bocado vice-versas de si próprias: Violeta é uma rapariga disfarçada de pagem e Festa, um bobo taciturno e estropiador de palavras.
— I feel like talking, but I have nothing to say.

uma rapariga no filme de Michael Snow, Rameau's Nephew by Diderot (Thanks to Dennis Young) by Wilma Schoen.

Sexta-feira, Abril 3

Com o tempo habituámo-nos

Em minha casa vive um fantasma. Não sei se isto é motivo para considerar a minha casa assombrada. Tanto quanto me lembro das velhas histórias de espíritos e aparições, um apartamento de duas assoalhadas, junto a uma bomba de gasolina e em plena Baixa, não é o local mais óbvio para sucederem este tipo de fenómenos. Seja como for, em minha casa vive a minha mulher, o meu filho de sete anos, eu e o fantasma.
Um fantasma inofensivo, é certo, mas um fantasma. Um dia entrou pela porta, sem dizer palavra, e pronto. Nunca mais daqui saiu. E continuamos sem saber o que quer que seja a respeito dele. Não sabemos o nome, não sabemos nada sobre a sua vida e ainda menos sobre a sua morte.
No início era um pouco estranho. Baixo, com peso a mais, flutuando pelos corredores como um gato pachorrento, o rosto muito redondo, ombros igualmente redondos e cabelo primorosamente cortado à tigela. Na verdade, o sujeito de aspecto mais redondo que me foi dado conhecer. Refiro estes pormenores apenas para fornecer uma ligeira ideia da sua curiosa compleição física.
Durante a semana, como o mais escrupuloso dos funcionários públicos, sai às oito em ponto. Nem mais nem menos um minuto. Oito em ponto e nunca mais lhe metemos a vista em cima até por volta das dezassete e trinta, altura em que regressa, silencioso como uma deslocação de ar. Aos domingos, depois do almoço, instala-se ao sol, a tarde inteira, na pequena varanda das traseiras. Pendurado num cigarro que nunca se apaga.
Tudo isto é um pouco nebuloso e confuso. Mas com o tempo habituámo-nos.
Hoje de manhã, finalmente, falou comigo. “¡No te comas la salsa, mocetón!”, foram as suas primeiras e únicas palavras.

OS CONTOS DA LUA VAGA, de Kenzi Mizoguchi. Domingo às 16h00, no Auditório de Serralves.

Quinta-feira, Abril 2

Todas as árvores estão verdes, menos o jacarandá. No jacarandá é inverno.

Quarta-feira, Abril 1

Onze regras para escrever um conto

Regra n.º 1 Não existe regra n.º 1. Avance para a regra n.º 2.
Regra n.º 2 Não existe regra n.º 2. Avance para a regra n.º 3.
Regra n.º 3 Não existe regra n.º 3. Avance para a regra n.º 4.
Regra n.º 4 Não existe regra n.º 4. Avance para a regra n.º 5.
Regra n.º 5 Não existe regra n.º 5. Avance para a regra n.º 6.
Regra n.º 6 Não existe regra n.º 6. Avance para a regra n.º 7.
Regra n.º 7 Não existe regra n.º 7. Avance para a regra n.º 8.
Regra n.º 8 Também não existe regra n.º 8. Avance para a regra n.º 9.
Regra n.º 9 Não existe regra n.º 9. Avance para a regra n.º 10.
Regra n.º 10 Não existe regra n.º 10. Avance para a regra n.º 11.
Regra n.º 11 Não existe regra n.º 11. Avance para a regra n.º 12.

Fotograma de Odna (Sozinha), de Grigori Kozintsev e Leonid Trauberg (1931, 35mm), retirado daqui.

A natureza das relações entre o som e a imagem no cinema foi o ponto de partida para este programa. Não é estritamente um programa sobre o som no cinema, ou sobre o desenvolvimento do sonoro, mas um percurso por diversas formas de pensar as complementaridades entre o som e a imagem; por tentativas de harmonização / conflito entre os dois elementos; finalmente, por uma série de obras muito diversas entre si que privilegiam as questões relacionadas com a visualização da experiência sonora pelo meio da imagem. Ricardo Matos Cabo

Ouvir:Ver A experiência do som no cinema | Culturgest | de 1 a 6 de Abril